sábado, 24 de abril de 2010

SBB


O trio que revolucionou o rock polonês, se tornando o principal representante do rock daquele país. Este é o SBB. Com uma longa carreira, o trio foi eleito como a melhor banda de todos os tempos da Polônia, e não é a toa. A história da SBB divide-se em dois blocos, o primeiro deles quando a banda fez sucesso escondido atrás da cortina-de-ferro e o segundo quando a Alemanha ocidental revelou o grupo para o mundo.

O que vou contar é o desenvolvimento da carreira do grupo ainda sob os pesados panos da cortina de ferro, e que teve início em 1971, na histórica Silésia, uma importante região localizada entre a Polônia e a República Tcheca (antiga Tchecoslováquia), mais precisamente na cidade polonesa de Siemianowice Slaskie. O grupo era liderado pelo sensacional músico Józef Skrzek (teclados, baixo, harmônica e voz), o qual ganhou notoriedade na Polônia graças a uma importante passagem no grupo Breakout, onde gravou o bom álbum 70A (1970).
Após sair do Breakout, Józef decidiu que iria ampliar seus horizontes, tentando aproveitar a onda do progressivo que crescia na Europa Ocidental, e assim, resolveu investir nos já consagrados power-trios, inspirando-se em grupos como o Experience de Jimi Hendrix, Cream e Taste. Assim, convoca o guitarrista Apostolis Anthimos (um garoto de apenas 17 anos, mas que tocava com uma experiência de 40, segundo Józef) e o baterista Jerzy Piotrowski, e com os primeiros ensaios, surge o nome do grupo, uma homenagem à região onde o trio morava, Silesian Blues Band.

 
O trio passou a participar com regularidade em shows pela Região da Silésia, tocando na Alemanha Oriental, Polônia e Tchecoslováquia, além de apresentar-se em rádios da região. Graças ao talento principalmente de Józef e Apostólis, ganham notoriedade principalmente pelos nativos da Silésia, já que o nome do grupo era um forte apelo comercial para angariar fãs.



A estreia vinílica da SBB ao lado de Niemen


Próximo ao fim de 1971, a banda é adotada pelo cantor polonês Czesław Niemen, com quem gravaram quatro álbuns em apenas 18 meses: Strange In This World (1972), Ode To Venus (1973), Niemen Vol. 1 e Niemen Vol. 2 (ambos de 1973), aumentando ainda mais a popularidade do grupo, com destaque total para o baixista Józef. Ao lado de Niemen, a Silesian Blues Band fez uma excursão pela europa, tendo como auge uma apresentação no Rock and Jazz Now Festival de Munique (Alemanha).

 
No verão de 1973, a Silesian Blues Band separa-se de Niemen, que agora funda a Niemen Aerolit, enquanto que o trio muda de nome, adotando a sigla SBB, que poderia ser usada para Silesian Blues Band, mas aqui, significava Szukaj, Burz, Buduj (ou Busque, Quebre e Construa), a qual foi ideia do patrono do grupo, Franciszek Walicki.



O sensacional álbum de estreia, gravado ao vivo

Como SBB, o grupo estreia oficialmente em 4 de fevereiro de 1974, partindo então para uma série de shows pela Polônia. Os shows de 18 e 19 de abril no Stodoal Club, em Varsóvia, foram registrados, e acabaram se tornando o primeiro álbum da banda, um dos mais incríveis álbuns de estreia de todos os tempos. SBB, lançado ainda em 1974, abre com o espetacular blues "I Need You Baby", somente com Józef no piano e vocais. Tendo uma longa introdução ao piano, a faixa se destaca pelo sentimento que Józef coloca em cada nota, e também na emocionante interpretação vocal desta que é uma das faixas mais "acessíveis" da banda.

A partir de então, Józef apresenta Piotrowski, e a pauleira começa a pegar, com "Odlot (Piosenka Odleciec z wami)" tomando conta de todo o resto do lado A. Sem ser chata ou preguiçosa, "Odlot" começa justamente com um rápido solo do baterista, seguido pelo tema de baixo e guitarra e vocalizações de Józef. A guitarra dedilha enquanto Józef começa seu solo no baixo utilizando-se de vocalizações e dos vibratos e botão de volume. Cantando em polonês e de forma agonizante, a canção vai se desenvolvendo com o dedilhado de Apostolis e o acompanhamento de Piotrowski. Após essa parte inicial, começa a parte instrumental, primeiro com um solo de Apostolis no canal esquerdo, sempre acompanhado pelo baixo e bateria de forma cadenciada no canal direito. A música vai crescendo junto com o solo, que é recheado de wah-wah e efeitos bem interessantes, até chegar em uma virada de bateria que muda totalmente a canção.

O ritmo muda, pegando um pique muito rápido da bateria, e Józef começa a mostrar porque foi eleito vários anos seguidos como o melhor músico da Polônia. A distorção no baixo é o que mais assusta no solo de Józef, que bate nas cordas e toca o baixo como se fosse uma guitarra, arrancando notas e sustains praticamente impossíveis de serem reproduzidos. Aos admiradores de Cliff Burton, recomendo que ouçam o que Józef faz em "Odlot", pois a velocidade das escalas que o baixista executa é realmente assombroso.

E isso não é nada! A bateria da mais uma virada, e "Odlot" torna-se um pesadíssimo funk, regado pela levada de Piotrowski, que mantém o ritmo para Józef e Apóstolis travarem uma batalha sem dimensões entre baixo e guitarra. Se não fosse a distinção dos canais, seria impossível dizer onde é guitarra e onde é baixo, tamanho os efeitos e velocidade que ambos utilizam. A sequência é matadora, com um tentando repetir o que o outro faz, de forma sensacional e numa precisão incrível, que é aplaudida em massa pela plateia, a qual ovaciona bastante nessa parte. Após o duelo, Apostolis faz mais um viajante solo, empregando harmônicos e volume, com a canção diminuindo o pique, até chegar ao seu fim. 



Józef Skrzek em ação

O lado B é reservado apenas para "Wizje (Piosenka Erotik)", outro petardo, que começa com Józef agonizando no baixo, mandando ver em um belo solo, onde usa de um arco de violoncelo para então entrar em uma complicada sequência de escalas. Para aqueles que acham que é uma guitarra, não, é o baixo mesmo o que estão ouvindo, com todos bends e sustains possíveis! Józef larga o baixo e assume o piano, e assim, entram os pratos da bateria para acompanhar outro belo trabalho do músico ao piano, que executa um lindo tema seguido pelo slide de Apostolis.

O triste vocal de Józef é de chorar, com um belíssimo arranjo da dupla Józef/Apostólis. Essa longa parte estende-se até Józef voltar a solar, entrando então na segunda parte da canção, onde a levada é bem diferente. Józef destrói no moog enquanto faz a base no piano, acompanhado pela guitarra e bateria. A sequência de duelos de guitarra e moog é infernal, com notas longas e assustadoras, que causam inveja aos admiradores de Keith Emerson, chegando ao solo de Piotrowski.

Com um espetacular braço esquerdo, Piotrowski manda ver em alternações e viradas muito rápidas, intercaladas com batidas fulminantes nos pratos, e com um rufo sensacional, Piotrowski leva para o encerramento da canção, onde Apostólis sola acompanhado por uma cadência fenomenal de Józef e Piotrowski, encerrando a faixa e o LP de forma memorável, aplaudido insanamente pela plateia.

A primeira prensagem de SBB virou um marco na indústria fonográfica polonesa, esgotando rapidamente e batendo recordes de vendas no país. Tanto que no chamado "mercado negro", o preço do LP chegou a dobrar de preço. Vale destacar que em 1997, SBB foi relançado em CD, trazendo o set list completo, com a adição de
"Zostalo we mnie", "Obraz po bitwie" e "Figo-Fago", tornando a versão do CD bem mais atraente que a rara versão vinílica.




SBB em ensaio de gravação do segundo álbum

Após o lançamento de SBB, o grupo seguiu com vários shows pela europa oriental, tocando na Alemanha Oriental, Tchecoslóváquia e Hungria, tendo como marca registrada o baixo distorcido de Józef e a pegada a lá Cream do trio. Nessa época, Józef passa a aprender e admirar um novo instrumento, o moog, de onde começa a criar as canções para o próximo álbum da banda, que começou a ser registrado durante a turnê e participações em programas de rádio polonesas, principalmente nos estúdios da Polish Radio 3. 





Nowy Horizont

Desses registros surge, em 1975, trazendo um som bem mais progressivo e viajante, Nowy Horizont, que agradou em cheio aos já aficcionados críticos especializados, mas desagradou aqueles que esperavam uma sequência do álbum de estreia. Praticamente instrumental, tornando-o um álbum perfeito para admiradores de bandas como Soft Machine e Tangerine Dream, o disco abre com "Na Pierwszy Ogien", onde gongo e moog introduzem a canção seguidos de um tema ao piano. Baixo e bateria passam a ditar o ritmo, para ouvirmos o solo de moog, recheado de intervenções de piano. O tema inicial é repetido, trazendo o solo de Apostolis e o encerramento dessa rápida faixa.

"Błysk" começa com o piano introduzindo uma bonita sequência de acordes. Piotrowski e Apostolis iniciam os trabalhos de quebradeira geral, com o moog solando sobre uma complicada sequência de teclados e guitarra. Os temas começam a se sobrepor, sempre em um ritmo constante, tendo como principal destaque as viajantes notas de moog que Józef distribui nos solos.

O álbum segue com a faixa título, outra que também possui um bonito tema inicial no piano, trazendo moog, baixo e guitarra executando o tema principal. A guitarra começa a dedilhar, enquanto que baixo e moog fazem viajantes intervenções. Com o ritmo comandado por Piotrowski, Józef delira no moog e também no baixo, onde faz um fantástico solo com a marca registrada da banda, a distorção. Moog e guitarra duelam sobre um mesmo tema, até chegarmos em uma viajante sessão onde o tema do moog é completamente estranho. O rufar da bateria é a deixa para uma intrincada sessão de baixo, bateria e sintetizadores, e a faixa se encerra com um interessante tema ao piano. Delírio total!

O lado A encerra-se com "Ballada O Pięciu Głodnych", um tema para piano com a declamação de um poema em polônes por Józef, com viajantes intervenções do moog.

O lado B de Nowy Horizont é dedicado a fantástica suíte "Wolność Z Nami", tomando conta dos 20 minutos de um dos melhores delírios do trio. Moog e bateria introduzem com o tema principal, até o piano entrar e surtar com uma incrível sequência de notas. As interveções percussivas de Piotrowski dão um clima assombroso para a faixa, tendo sempre o piano como o centro das atenções. A segunda parte da suíte surge com vocalizações que acompanham as escalas ao piano, e então, baixo, guitarra e bateria acompanham o solo de moog, por vezes fazendo o mesmo tema ora com a guitarra ora com as vocalizações.

Essa segunda parte é muito bem construída e de extremo bom gosto na minha opinião, principalmente pelas contribuições do piano e do baixo, além das belas viradas de Piotrowski. O ritmo da canção vai diminuindo, até a terceira parte, onde o piano fica acompanhado apenas pelos pratos e as vocalizações. Os gritos constratam com as participações da guitarra e do piano, e a sequência a seguir é indescritível, como que moog e percussão travando uma batalha com os agonizantes acordes da guitarra. A qualquer momento, parece que as cordas da guitarra irão estourar, tamanho é o bend que Apostolis emprega, e então, o moog surge solando sobre a levada da bateria, entrando na parte final, apenas com moog, baixo e bateria diminuindo o ritmo para o piano surgir com o tema inicial. Loucura pouca é bobagem, e essa faixa é a prova disso.

A versão em CD de Nowy Horizont, lançada em 2005, também veio recheada de bônus, contando com "Xeni", "Penia", "Dyskoteka" e "Na Pierwszy Ogieñ". A SBB permaneceu em turnê pela europa oriental, e sem descanso, altamente inspirados em longos temas e abusando de improvisações, o que os afastava cada vez mais da linha bluesy original, encabeçando de vez o predomínio do progressivo, gravam o terceiro LP no final de 1975.





Pamięć.

Em janeiro de 1976, saía Pamięć. É nesse registro que a banda atinge o ápice de suas performances, com peças altamente elaboradas e utlizando de recursos de vários canais para captar os mais diferentes sons, além do emprego de um baixo-sintetizador com os quais Józef produzia sons muito estranhos.

Apenas três longas peças fazem parte do LP, começando com a linda "W kołysce dłoni twych", onde órgão, teclados, pratos e intervenções de guitarra apresentam a faixa. Apostolis sola de forma simples, utilizando poucas notas e o pedal de volume, enquanto a canção desenvolve-se de forma singela e perfeita. A entrada dos vocais de Józef mantém o clima viajante da canção, muito parecida com o início de "Awaken" (Yes), e então chegamos ao refrão, feito com vocalizações, viradas de bateria e a execução de um mesmo tema entre baixo e guitarra.

O órgão e o moog são os destaques a seguir, cujo ritmo é encantador. O moog começa seu solo, enquanto a base de Apostolis é muito interessante. A batida funkeada de Piotrowsky cadencia um novo tema do moog, com vocalizações imitando o tema, entrando em uma magnífica sessão cheia de partes quebradas do piano e da guitarra, com intervenções do moog, que vão crescendo até a guitarra soltar alguns acordes e a canção encerrar na cadência inicial com um belo tema da guitarra e do teclado.

"Z których krwi krew moja" dá sequência ao espetáculo sonoro do lado A, começando com a bonita introdução do órgão, com a slide guitar fazendo um tema acompanhado pelos pratos. Apostolis continua solando, agora sem o slide, fazendo escalas jazzísticas que trazem os vocais de Józef. O ritmo da canção é o mesmo da faixa anterior, com muitas vocalizações e destaque para as intervenções da guitarra. Porém, na sessão instrumental, a doideira toma conta de novo, começando com o duelo de moog e guitarra sobre um dedilhado de guitarra e batidas de pratos. O duelo vai crescendo à medida que acordes de órgão vão surgindo.

Apostolis começa a seguir o ritmo dos pratos, enquanto o moog executa notas acompanhado por viradas de bateria. Essa parte é muito legal, principalmente pelo encaixe do som do moog com as batidas da bateria. Guitarra e órgão passam a fazer o tema anterior, e Piotrowsky solta o braço, mandando ver em um suingado andamento que acompanha o solo de Apostolis. Józef mantém o clima viajante do moog, interferindo com acordes de sintetizadores, entrando na parte final, onde os temas iniciais são retomados, trazendo novamente a letra e o final do lado A.

O lado B é dedicado a viajante suíte "Pamięć w kamień wrasta". Barulhos de vento e tempestade abrem a música, com teclado e percussão sendo adicionados aos poucos. Uma longa sessão com vocalizações, pratos e intervenções de guitarra surge, bem como barulhos de moog imitando pássaros, levando o ouvinte para uma outra dimensão, tamanha a viagem musical dos músicos. Apague a luz do quarto, feche os olhos e entre na viagem com o grupo. Após a longa introdução, guitarra e piano elétrico executam um tema simples, para a bateria surgir acompanhando temas executados por guitarra e moog. Józef começa a cantar a letra, enquanto a melodia da introdução surge no acompanhamento dos vocais, e então, o ritmo lento e cheio de viradas acompanha a sequência das letras.

Entramos então em mais uma sessão instrumental, com solos de Apostolis, usando bastante o pedal de volume, e uma espetacular sequência de duelos de moog e hammond, virando os tradicionais instrumentais do grupo, com guitarras dedilhadas, percussão, solos de moog e a guitarra de Apostolis gemendo ao fundo. A sessão instrumental final é ótima, com uma bela cadência para o interessante solo de Apostolis, encerrando a faixa e o LP com os mais temas de guitarra e órgão, lembrando bastante o encerramento de Hamburgo Concerto, do grupo Focus, levando para os temas iniciais somente com órgão, percussão e o barulho do vento. Espetacular!!

Na versão em CD de 2005, mais luxos para os fãs, com 7 faixas bônus: "Poranek nadziei", "Barwy drzewa", "Osiem rąk", "Waldie", "Niedokończona progresja", "Reko-reko" e "Serenada Gia Sena". O grupo continuou fazendo shows e tocando em rádios, tendo ainda a oportunidade de voltar a ser banda de apoio de outros músicos, ao receber o convite da cantora Halina Frąckowiak para participar do álbum Geira, o qual foi lançado em 1977. Além de Halina, o grupo também acompanhou os cantores de jazz Tomasz Stanko, Tomasz Szukalski e vários outros projetos com orquestras e músicos.

Também em 77 o grupo abria a cortina de ferro, começando a tocar na Europa Ocidental, onde participam de festivais na Alemanha, Itália e França. É a partir destas apresentações que a companhia alemã Aries resolve investir no trio, levando o grupo a excursionar pela Alemanha Ocidental, Dinamarca, Finlândia, Noruega e Suécia, culminando com a banda gravando em novembro de 1977, na cidade de Hannover, o primeiro álbum voltado para o mercado ocidental, Follow My Dream, que foi lançado em 1978 gravadora Spiegelei, trazendo letras em inglês e músicas mais curtas.





Ze Słowem Biegnę Do Ciebie

Antes, saía na Polônia
Ze Słowem Biegnę Do Ciebie, mostrando um SBB ainda mais concentrado em longas suítes, tendo sequências computadorizadas como uma das atrações, mas quem realmente se destaca é Piotrowski, em sua melhor performance.
O lado A é dedicado para a faixa-título, onde órgão e sintetizadores introduzem para a entrada da bateria, do moog e do baixo sintetizado, que aos poucos vão tomando conta da canção. O moog faz solos aleatórios entre camadas de sintetizadores, com o acompanhamento quase robótico da bateria cresecendo suavemente, chegando então ao solo de Apostolis, onde Piotrowski faz viradas espetaculares.

Uma pequena sessão com pratos e programações levam para as letras, entrando em mais uma curta sessão instrumental, com a guitarra dedilhando para formar a tradicional cadência da banda. Józef segue a letra, esbanjando sentimento. Entramos então na longa sessão instrumental que leva ao final da canção, onde baixo sintetizado e bateria fazem as harmonias para os solos de moog e guitarra, dançantes ao extremo, com destaque total para a levada criada por Piotrowski. O encerramento se dá apenas com barulhos de moog, pratos e a guitarra executando algumas notas, em um clima bem new-age.

Já o lado B é dedicado a "Przed Premierą", onde um longo rufar de bateria acompanha as intervenções dos sintetizadores. O tema principal da faixa surge repleto de viradas de bateria, mostrando todas as habilidades de Piotrowski, com a guitarra mandando ver em um delicioso funk que acompanha o solo de moog. O ritmo muda, sempre comandado pela espetacular performance de Piotrowski, que marca o tempo no cymbal para Józef criar seus acordes no sintetizador. Após essa sessão, começa o solo de guitarra, novamente em uma levada bem funkeada, que vai crescendo junto com o solo.

A sequência de temas com moog e sintetizador leva a parte final da canção, onde guitarra e sintetizadores executam notas aleatórias, até surgir um tema repetido apenas pelo baixo. A cadência da bateria comanda a reta final, com várias intervenções do moog, e o sintetizador fazendo a festa, com longas notas sobre mais um tema cadenciado. As viradas de Piotrowski são fenomenais, encerrando a faixa com várias delas em sequência, arrancando um estrondoso rufar acompanhado de um longo acorde do sintetizador. Demais!

A versão em CD de 2005 trouxe apenas uma faixa bônus, a longa "Odejście", que teria algumas partes lançadas no álbum seguinte da SBB.





O raríssimo k7 Jerzyk

 

Após Ze Słowem Biegnę do Ciebie, lançam o extremamente raro cassete Jerzyk, o qual infelizmente não tive a oportunidade de conhecer ainda. Com o lançamento de Follow My Dream, o grupo rompe o contrato com a gravadora polonesa Polskie Nagrania Muza, e passa a fazer gravações entre a Alemanha e a Tchecoslováquia. Nesse período, gravam o segundo álbum para o mercado ocidental, SBB (também conhecido como Amiga Album).




O maravilhoso Wołanie o brzęk szkła

 
Em Praga, foi registrado em meados de 1978 aquele que para mim é o melhor e mais versátil disco do trio, o fantástico Wołanie o brzęk szkła. Apenas duas longas faixas fazem parte do álbum. No lado A, temos a faixa título, introduzindo com o dedilhado de Apostolis, com o teclado sendo adicionado aos poucos, em um suave crescendo. Piotrowski surge com uma lenta marcação, enquando o moog faz algumas notas perdidas.

A canção vai crescendo, agora com a adição de vocalizações que levam a letra. As vocalizações dão um charme especial para a canção, que vai aumentando o pique com as batidas de Piotrowski, que comanda uma cadência repleta de viradas. Józef rasga a voz, cercado pelas vocalizações e intervenções do moog, chegando então na viajante sessão instrumental, onde no ritmo natural da banda, Apostolis começa a solar em um magnífico arranjo progressivo. As viradas de Piotrowski são o principal destaque nessa sessão, e uma delas leva para o segundo solo de guitarra, com uma levada muito rápida, onde o baterista mostra toda a sua técnica.

As intervenções do moog criam um clima de filme de ficção, o que se torna mais evidente com o uso de sintetizadores que simulam uma tempestade de ventos. O ritmo da bateria muda para uma sequência de batidas apenas na caixa, para acompanhar o longo solo de harmônica de Józef, voltando as origens bluesísticas da banda, e as várias intervenções de sintetizadores mantém o viajante clima no ar. As batidas vão aumentando, com o moog tomando conta das caixas de som, sendo o destaque na sequência de encerramento da faixa, com um solo dinâmico e veloz, com sequências e temas de tirar o fôlego. Muito bom!

O lado B é dedicado à "Odejście", onde os mesmos barulhos de vento surgem, acompanhando um bonito solo de violão clássico. Teclados surgem entre as notas de violão e o soprar do vento, e a percussão começa a criar o novo espaço musical da faixa, onde o moog vai ganhando destaque aos poucos. Sem mais o violão, o moog começa a solar, enquanto bem no fundo, acompanhando a percussão, sequências computadorizadas de sintetizadores desfilam, e o climão hi-fi fica no ar novamente.

A entrada do baixo e da guitarra levam ao eixo central da canção, com um tema sendo executado pelas viajantes notas do moog e pelo sintetizador. Guitarra e baixo começam a executar um segundo tema, e a bateria ganha vida para a sessão seguinte, onde o destaque é a precisa sequência de acordes de guitarra e sintetizadores. Vocalizações retornam ao clima hi-fi, onde Apostolis abusa do botão de volume, enquanto Józef executa os mais lindos acordes no órgão.

A letra é cantada com um acompanhameno somente do órgão e dos pratos, com intervenções da guitarra e do moog executando as mesmas notas, chegando a segunda grande sessão instrumental, onde um funkzão a la James Brown comandado pelo baixo sintetizado e a bateria de Piotrowski fazem o ritmo para o solo de Apostolis. A sequência de temas de moog e guitarra abrem a terceira parte da canção, com um acompanhamento nos pratos onde Józef e Apostolis executam notas aleatórias, que vão se sobrepondo até o ápice final, onde sintetizadores, baixo e guitarra fazem o tema para o solo de moog, que encerra a faixa e esse ótimo trabalho.





Versão alemã de Wołanie o brzęk szkła

No re-lançamento de 2004, mais 4 faixas inéditas: "Bitwy na obrazach", "Uścisk w dołku", "Muzykowanie latem" e "Fikołek". Wołanie o brzęk szkła foi lançado em 1979 na Alemanha com o nome de Slovenian Girls, alterando também o nome das faixas para "Julia" e "Anna"

Em 1978, sai o terceiro disco do mercado ocidental, o contestado Welcome, e a banda começa a entrar em descenso. Participam de shows por vários países, tendo destaque a participação no Roskilde Festival na Dinamarca, e o longo tempo nas estradas leva o trio à exaustão, resolvendo então incluir mais um músico, o guitarrista Sławomir Piwowar (guitarras). Assim, lançam seu último álbum em 1980, o interessante Memento Z Banalnym Tryptykiem, com destaque total para a longa faixa título, e que culmina com a turnê de despedida da banda durante o outono daquele ano, com Józef, Apostolis e Piotrowsky indo seguir carreiras solo.





O último álbum da primeira fase do SBB

O grupo acabou se reunindo em julho de 1991, quando foram convidados a participar do festival Trzy dekady rocka w Polsce, na cidade polonesa de Sopot, que infelizmente não mostrou o grupo em uma grande performance. Porém em 1993, o SBB novamente tinha a chance de sair da escuridão, com um convite para participar de um concerto beneficente para as crianças da cidade de Katowice. Como quinteto, contando com o trio original e a adição de Janusz Hryniewica (voz, violão) e André Ruska (baixo), a apresentação foi um verdadeiro sucesso, e o grupo passou a excursionar durante os dois anos seguintes, passando pelos EUA, onde gravam o CD Live In America 94 e encerram as atividades novamente, já qe Piotrowski decide ficar morando naquele país.

Em 98, a SBB retorna aos palcos, tendo Józef, Apostolis e o jovem baterista Miroslaw Muzykant, o qual já havia participado dos projetos solos de Józef. Esta formação fez vários shows, lançando três álbuns gravados ao vivo com composições inéditas e tendo como destaque os duelos de Miroslaw e Apostolis. Porém, após um show em Waltrop, em dezembro de 1999, Miroslaw é despedido de forma um pouco contraditória, com Józef e Apostolis alegando que Miroslaw estava tentando ser o dono da banda. Para seu lugar, é chamado Paul Wertico, ex-baterista da Pat Metheny Group, e o SBB entrava no novo milênio com uma formação fresquinha. 

 
O grupo fez uma celebrada turnê na primaverda de 2001, passando pela Alemanha, República Tcheca e Polônia, e ainda lançou o EP The Golden Harp em 2001. A formação permaneceu estável durante algum tempo,permitindo a realização do primeiro álbum de estúdio em mais de 20 anos, o bom Nastroje (2002). 


Fantástica caixa de 22 CDs


Os anos seguintes foram dedicados à shows e ao resgate de vários materiais perdidos nos armários de Józef e Apostolis, que culminou com uma sequência de lançamento de vários shows do grupo durante a década de 70 tanto em CD como em DVD, além do re-lançamento dos álbuns originais recheados de bônus, como citados no texto. De todo esse material, o mais representativo foi o lançamento da caixa Anthology 1974-2004 pela Metal Mind Productions, o qual contém 22 CDs com toda a discografia da banda e muito material inédito, além de um luxuoso livro contando detalhes da carreira do grupo e também curiosidades sobre as composições e turnês, em uma tiragem limitada de apenas 1000 cópias. A Metal Mind também é responsável pelas ótimas caixas Lost Tapes Vol. 1 (2005) e Lost Tapes Vol. 2 (2006), as quais cada uma contém 9 CDs com muito material inédito.
DVD + CD Behind The Iron Curtain

Em 2005 chegou às lojas New Century, e em 2006, o grupo passou a expandir seus horizontes, tocando no Baja Prog Festival, na Cidade do México, além de servir como banda de abertura do Deep Purple durante a parte polonesa da turnê de divulgação do álbum Rapture Of The Deep. Em 2007, Wertico foi substituído por Gabor Nemeth, e no álbum The Rock (lançado naquele ano), o grupo voltava as origens, trazendo novamente a sonoridade do baixo distrocido de Józef como destaque, o que pode ser conferido no CD + DVD Behind The Iron Curtain, lançado em 2009.

Dentre todos os elogios possíveis ao trio original do SBB, vale ressaltar que o grupo possui uma das histórias mais ricas da música do leste europeu, e que esta sendo escrita até os dias de hoje, com o mesmo vigor, criatividade e dedicação, ainda procurando, quebrando e construindo.

sábado, 17 de abril de 2010

Syrius




Um dos mais importantes grupos da música húngara e que é muito desconhecido no resto do mundo é o Syrius. Com uma sonoridade muito particular, o Syrius se destacou na década de 70 do outro lado da Cortina de Ferro, e conquistou fãs por países como Polônia, Bulgária, Iugoslávia, URSS e Tchecoslováquia, tocando um jazz rock inspirado no progressivo e com elementos do blues.

A história deste grupo começa no ano de 1962. Naquele ano, o grupo Syrius Baronits era fundado em Budapeste, com a finalidade de ser uma banda de acompanhamento para grupos de dança húngaros e também cantores (as) em carreira solo. O líder e mentor do projeto era o saxofonista e vocalista Zsolt Baronits, responsável por assinar os contratos do grupo, que contava também com Molnár Ákos (sax alto), Rákosi László (guitarra), Gulyás Pál (piano), Pásztor István (guitarra) e Németh István (bateria).

Exatamente quando a Syrius Baronits começava a angariar os primeiros contratos, Zsolt resolve modificar a banda, substituindo três integrantes (Pál e os irmãos István) por Pápai Faragó László (voz, órgão), Varga Dénes (baixo) e Fehér Lajos (bateria). A entrada de László foi muito importante, pois além de carismático, o cantor era considerado um dos melhores performances da Hungria, montando no órgão como um cavalo (algo no estilo do que Keith Emerson faria anos depois) e também agitando bastante a plateia.

Syrius Baronits

O grupo começou a fazer partes de festivais, tendo como a primeira grande apresentação o show realizado no IX. World Youth, realizado na Polônia em 1966. A banda, que tocava a chamada beat music, passou a ter seu nome requisitado por diversos artistas locais, e começou a frequentar assiduamente o mais famoso festival de música da Hungria, o Táncdalfesztivál (ou Festival de Música e Dança). Como um capítulo a parte, este festival equivaleu aos famosos FICs realizados no Brasil, sendo apresentado em rede nacional pela principal emissora de TV húngara durante os anos de 1966 e 1994, revelando alguns dos principais nomes da música húngara como Kati Kovács, Pál Szécsi, Klári Katona e Zsuzsa Koncz.

No Táncdalfesztivál de 1967, o grupo acompanhou Péter Benkő, e também defendeu uma canção própria, intitulada "Tranzisztori", que se tornou um pequeno sucesso no país, e no festival de 1968, sendo apresentados como Pápay-Faragó László / Syrius Baronits, defendem a canção "Így mulat egy beates magyar úr", além de acompanhar o cantor Tibor Szigetvári na canção "Hűha". Essas duas canções foram lançadas em um cobiçado compacto de 7" pela gravadora Qualiton, e vale muitas libras no mercado da música.

Porém, após o evento, o grupo termina, com alguns membros resolvendo participar da Juventus Orchestra de Budapeste. Mas Zsolt não se deu por vencido, e tendo o apoio do eterno companheiro Rákosi László, reformulou a banda, batizando-a agora somente de Syrius e agregando os novos músicos Pataki László Liversing (órgão), Orszáczky Miklos (baixo, voz), Mogyorósi László (guitarras), que foi rapidamente substituído por Barta Tamás e Veszelinov András (bateria), o qual havia feito parte do grupo Metro.

Essa formação inicial durou apenas um ano, e em 1970, outra reformulação ocorria, com Rákosi e Tamás abandonando a música. Assim, a Syrius chegava à formação considerada clássica, tendo agora Zsolt, Miklos, Pataki, András e Mihály Ráduly (flauta, sax tenor e sax soprano), o qual fazia parte da Václav Zahradník And His East All Stars Band.

Com essa formação, estreiam no Csanádi Street Jazz Club em fevereiro de 1970, tocando para apenas 60 pessoas e voltados para uma sonoridade jazzística. O novo estilo da banda agradou aos poucos presentes, entre eles, um amigo de Frank Claude (organizador do Montreux Jazz Festival) e logo, são convidadas para participar do Montreux Jazz Festival daquele ano, onde ao abrir para Carlos Santana, arregalaram os olhos daqueles presentes no cassino suíço, com Ráduly ganhando o prêmio de melhor solista do festival e rendendo um convite do produtor Charlie Fischer para realizarem uma turnê pela Austrália.

As incríveis performances da Syrius, lotando casas ao redor da ilha dos cangurus, acabou garantindo um contrato com a gravadora húngara Pepita. Como a banda estava ainda realizando shows pela Austrália, começam a gravar o material no Festival Recording Studios já em 1971. Após o término das turnês, retornam para a Hungria como heróis, e partem para a mixagem e lançamento do primeiro álbum intitulado Az Ördög Álarcosbálja, ou Devil's Masquerade, que saiu em 1972. Um álbum fantástico, do início ao fim, e que deixa o ouvinte de boca-aberta na primeira audição.


O primeiro LP da Syrius


O disco abre com a paulada "Koncert Háromhúros Hegedűre És Öt Korsó Sörre (Concerto For A Three-stringed Violin And Five Mugs Of Beer)", onde o violino de Miklós soa entre acordes de piano. Baixo e piano fazem o tema principal acompanhados pela bateria e então violino e flauta fazem um segundo tema. O sax agora acompanha o tema do baixo e do piano enquanto vocalizações repetem o segundo tema, levando para o solo de sax regado de vocalizações e órgão. O solo de órgão é construído sobre uma maravilhosa sessão jazzística de baixo e bateria. Por fim, o sax sozinho repete o tema principal, com baixo, bateria e piano fazendo o segundo tema e terminando em uma complicada sessão quebrada dos instrumentos, tudo isso em pouco mais de 2 minutos!
A seguir, "Hitvány Ember (Crooked Man)" surge com baixo e sax tocando o tema principal sobre as batidas precisas da bateria e intervenções de flauta e piano. O segundo tema é tocado junto com a flauta, e então ouvimos a letra, cantada em inglês e com os vocais distorcidos, com as palavras sendo reproduzidas quase que uma por uma. A canção desenvolve-se cheia de partes quebradas, com várias intervenções de flauta e sax, e então, a voz clara de Veszelinov surge, cantando a letra agora com as palavras em sequência.

Flauta e piano abrem espaço para a sessão instrumental, começando com um ótimo solo de piano, seguido por um tema realizado entre sax, baixo, piano e bateria.

A flauta retorna a letra, e o piano leva a canção para um belo blues, com intervenções do sax e piano. Ouvimos então um belo solo de sax acompanhado pelo órgão, baixo e bateria, terminando a faixa com vários trechos onde os instrumentos vão repetindo um determinado tema.

As flautas e o sax introduzem a bela "Voltam Már Azelőtt… (I've Been This Down Before)", uma balada jazzista construída sobre o piano de Pataki , os vocais de Veszelinov e as ótimas intervenções da flauta. Destaque para o solo de piano, com uma ótima contribuição do baixo de Miklós e as importantes intervenções de sax de Mihály e Zsolt.

O lado A encerra com a faixa-título "Az Ördög Álarcosbálja", onde o órgão introduz de forma catedrática, trazendo sax e baixo para executarem o mesmo tema sobre a complicada levada de bateria (aliás, tem que se destacar o belíssimo trabalho de Veszelinov). O órgão começa um pequeno tema, o qual muda para um segundo que é acompanhado pelo sax. O sax mantém este tema sobre a ótima cadência bateria-baixo, enquanto o órgão sola freneticamente.

A canção ganha outros temas de sax e órgão, para finalmente o órgão puxar o tema principal e trazer as letras da canção. A canção ganha peso no refrão, com o nome da canção sendo entoado em uma linha vocal muito similar à do Genesis de Peter Gabriel. Então, um solo de sax fora de série toma conta das caixas de som, retornando ao refrão e encerrando com outro complicado tema.

"Psychomania" abre o lado B com um complicado tema instrumental, ótimo para admiradores de Gentle Giant. Até mesmo a linha vocal é similar as de Derek Shulman, onde Veszelinov rasga a voz para entoar o nome da canção. A sessão de solos conta com um solo de sax, órgão e flauta, todos levados por uma interessante cadência que inclui ainda percussão. Uma doida sessão de flauta retoma o tema inicial e a letra, encerrando com a repetição do refrão e um belo tema intrumental.

Vocais e piano são as atrações da curta "Egy Becsületes Ember Észrevételei (Observations Of A Honest Man)", onde a participação de Mihály é o principal destaque, ao lado da colaboração do violão de Miklós.

O LP encerra com a sensacional "Egy Kiáltás Méhében (In The Bosom Of A Shout)", a qual começa com barulhos de vento soprando na praia e um instigante free-jazz. O baixo comanda a canção, junto com a bateria e a percussão, trazendo um interessante tema do sax duelando com o órgão e o piano. Depois da doideira inicial, caímos em um jazz mais tradicional, onde o piano é o responsável pelo solo principal.

As intervenções agonizantes da flauta e da percussão, bem como apitos e gritos servem para ampliar a loucura que está sendo realizada, para então a percussão mandar a ver um estonteante acompanhamento, junto com baixo e bateria, onde o sax sola alternando escalas rápidas na linha dos solos de John Coltrane. Fantástico é pouco! A sessão de acompanhamento é intrincadíssima, alternando momentos jazzísticos com outros bem progressivos. Demais!

Um crescendo leva para a segunda parte da canção, onde os saxofones começam a duelar, abrindo espaço para o solo do órgão. Órgão e sax executam o mesmo tema, e então baixo, percussão e bateria travam uma bela batalha, entrando então na terceira parte, onde os vocais surgem entre intervenções de órgão e flauta. O final da canção se dá sobre a declamação de um pequeno poema, com intervenções de flauta, piano e órgão que vão diminuindo até o encerramento da faixa e do LP.


Formação clássica da Syrius

Az Ördög Álarcosbálja foi lançado também na Austrália, mas nem tudo foram flores. Após o lançamento do álbum, a Syrius fez uma série de concertos pela Hungria, participando também de festivais, onde foram eleitos o melhor grupo no Ljubjlana Jazz Festival daquele ano. Porém, o grupo acabou se dissolvendo no final do ano, com Ráduly indo morar nos Estados Unidos e Miklós voltando para a Austrália, onde formou o grupo experimental Bakery.

Mas ainda existia um disco a ser lançado, já que o contrato com a Pepita Records previa 2 LPs, e então, em 1976, o grupo retorna, com Veszelinov, Baronits, Tibor Tátrai (guitarras), Endre Sipos (baixo, trompete), Tamás Turai (percussão) e Ottó Schöck (teclados). Além disso, o grupo ainda contava com a participação de um naipe de metais formado por Siliga Miklós (saxofone barítono), Àkos Molnár (saxofone soprano), László Dés (saxofone tenor), Károly Friedrich e László Gööz (trombone) e Endre Sipos e Rudolf Tomsits (trompete), além da participação da baixista Károly Friedrich, e assim, gravam e lançam o segundo álbum, Széttört Álmok (Broken Dreams), que trás uma sonoridade mais moderna, principalmente pela entrada de Tátrai e Turai, e que é totalmente cantado em húngaro.


O segundo e raro LP da Syrius


O disco abre com a bateria introduzindo "Ajnali Ének (Song At Dawn)". Aos poucos, baixo, guitarra e piano vão surgindo, trazendo o sax executando o tema principal. A canção desenrola-se com os vocais húngaros de Veszelinov em um jazz rock na linha Bloody, Sweat & Tears, contando com um solo simples mas muito legal de Tátrai

A faixa seguinte é "Hol Az Az Ember (Where Is The Man)", com uma intrincada introdução envolvendo metais, baixo, guitarra e bateria, tornando-se uma canção rápida com boa participação do moog e principalmente de Tátrai, que manda ver em mais um interessante solo, mostrando muito feeling e técnica.

"Mint Április (Like April)" é uma linda balada introduzida ao piano, acompanhado a letra. A entrada do órgão trás a segunda parte da canção, acompanhada por baixo e bateria, de forma elegante e simples, mas muito bem construída.

O álbum segue com a dançante "A Láz (The Fever)", com a guitarra trazendo o riff principal, seguido por baixo, bateria, piano e o naipe de metais. Os vocais surgem sobre o tema principal da canção, tendo no refrão o ponto alto, com um ótimo trabalho dos metais. O solo de órgão de Schöck é excelente, e as linhas de baixo, guitarra e bateria dão um clima jazzístico espetacular a canção, que é seguida com os metais duelando com o baixo, para então Tátrai começar seu solo cheio de vigor e técnica. Uma das melhores faixas do LPcom certeza.

O lado A encerra com "Széttört Álmok (Broken Dreams)" e o baixo introduzindo com o tema principal, acompanhado pela percussão santaniana. Os metais executam o tema principal, e os vocais desenvolvem-se em mais uma embalada canção.

O Lado B é bem mais funkeado, abrindo com "Kinyújtom Kezem (I'm Stretching Out My Arms)", com uma introdução bem percussiva e dançante. Tátrai e Schöck comandam a levada dos metais, e o funkzão toma conta da canção, recheada de metais e acordes de guitarra e órgão bem dançantes, além de duelos de órgão e guitarra que contrastam com o belíssimo solo de trompete e também com o fantástico solo de órgão de Schöck.

"Hová Mehetnék (Where Could I Go?)" mantém o pique da faixa anterior, com mais um interessante funk recheado de metais e guitarras harmoniozas, com destaque para o baixo de Sipos

A bateria de Veszelinov faz o solo introdutório de "Igen, Szép Volt (Yeah, That Was Nice)", e é onde o baterista mostra o por que foi considerado o melhor da Hungria, com um belo trabalho de mão-direita. Piano elétrico, percussão e baixo são adicionados aos poucos, apresentando então o solo de Tátrai. Metais executam um pequeno tema enquanto Tátrai muda as distorções ao seu solo,para finalmente Veszelinov começar a cantar. Com um refrão forte, é daquelas faixas que gruda na cabeça principalmente pela ótima levada e pela sessão instrumental, que conta com solos de trompete, órgão e mais um ótimo solo de guitarra.

O álbum encerra com "Széparcú Idegen (The Stranger Of Nice Face)", e sua introdução de piano infantil fazendo o tema inicial, tornando-se em uma interessante jazz-balad com ótimas harmonias da guitarra e do órgão e solos de sax soprano e barítono, além de um bonito arranjo de cordas.

O lançamento em CD no ano de 2005 ainda contou com mais 3 faixas-bônus: "Csendes Kiáltás", "Ha Meghallod Ezt A Dalt" e "Szép Az Élet", as quais mantém uma linha mais romântica, sem trabalhos intrincados ou solos frenéticos.

Após o lançamento de Széttört Álmok, cada integrante saiu para fazer carreira de alguma outra forma. Da formação clássica que gravou o primeiro álbum, Veszelinov foi trabalhar no grupo Apostol, com quem lançou o álbum 2 em 1980. Miklós acabou abandonando a música, e sua história permanece obscura, bem como Pataki. Miháli retornou para a Václav Zahradník And His East All Stars Band, com quem gravou o disco Interjazz 2 em 1974 (Mihály já havia participado do álbum Interjazz de 1971).


Raro registro húngaro com faixa de Michael Schenker


Tátrai foi o que mais gravou após o fim da Syrius. Em 1977, gravou com o baixista Sipos o álbum Fújom A Dalt, indo parar no grupo General, com quem gravou os álbuns Zenegép (1977) e Heart Of Rock (1978). Em 80 entrou no grupo Skórpio, com quem gravou os discos Új Skorpió (1980) e Zene Tíz Húrra És Egy Dobosra (1981). Finalmente, entrou no grupo de blues Deák Bill Gyula, onde registrou Rossz Vér (1984) e ainda participou do k7 Csodálatos Világ, de Koncz Zsuzsa, em 1987, vindo a se firmar com o Hobo Blues Band, onde gravou diversos discos nas décadas de 80 e 90. O guitarrista ainda apareceu no raro álbum Gitárpárbaj, tocando a faixa "A Szerény Macskafarka Blues". Para os colecionadores, esse álbum trás uma rara música do mestre das 6 cordas Michael Schenker tocando com o s músicos húngaros Papp Tamás, SZücs Antal Gábor e Zselencz László. A saber o nome da faixa é "Az Arénába", sendo o LP cobiçadíssimo pelos fãs do UFO.

Enquanto isso, Miklós seguia sua carreira, gravando com gente como The Grandmasters, Jump Back Jack, The Godmothers, The Orszaczky Budget Orchestra e The Miklós Orszaczky Band (que Tátrai fez parte), além de ter construído o famoso baixo Piccolo, o qual tinha uma afinação toda especial, seja em D, G, C, F ou E, A, D, G. Sipos também teve uma carreira bem consolidada, lançando o disco solo (citado anteriormente) e participando dos álbuns Zorán (1977, do cantor Zorán), Csak A Zene (1977, Neoton Família) e Mozart Rock (Hamari Júlia, 1985), sendo que no último apenas tocando trompete.
Já o mentor Baronits permaneceu na obscuridade durante muitos anos. Em 1994, um álbum chamado Most, Múlt, Lesz foi lançado pela gravadora Gong com o nome Syrius. Porém, não sei mais informações à respeito do mesmo e nem quem gravou o registro. Já em 1998, um single chamado "You Will See" foi lançado na Itália, dizendo se tratarde um single da Syrius com o cantor Ginger Brew. Sendo um disco technopop, eu creio que seja outra Syrius.

O que realmente acabou sendo registrado foi a volta do grupo em 2000, e que está no maravilhoso bootleg Live in Paks 2001. Comemorando os 30 anos da banda, o grupo fez uma série de shows pela Hungria, e este registro em Paks mostra que o grupo ainda tinha muito a dar. Contando com os 5 membros que gravaram Az Ördög Álarcosbálja, mais a adição de músicos convidados (Tina harrod - voz, Csejtey Ákos - saxofone barítono e Zsemlye Sándor - saxofone alto), o grupo passeia por sons novos e pelas clássicas "Strawberry Fields Forever" (Beatles) e a própria "Az Ördög Álarcosbálja", mostrando muito vigor e todas as características que consagraram o grupo.


Espetacular bootleg da volta do Syrius


Porém, o tempo acabou passando, e a Syrius sucumbiu novamente. Veszelinov faleceu em 29 de maio de 2007, enquanto Miklós veio a falecer em 3 de fevereiro de 2008 em Sydney. Baronits também faleceu, em data desconhecida, enquanto os demais remanescentes permanecem na obscuridade, mesmo após a queda da cortina de ferro.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Ney Matogrosso: Teatro do Bourbon Country, Porto Alegre, 13/04/2010



Um show poético e de bom-gosto foi apresentado ontem no Teatro do Bourbon Country pelo cantor e intérprete Ney Matogrosso
. Há muito que eu queria ver o artista no palco sem fantasias ou rebolados, apenas interpretando as canções conforme eu passei a admirar o trabalho do mesmo desde o lançamento do excepcional cd Interpreta Cartola, e a turnê do novo disco de Ney, Beijo Bandido, que está em Porto Alegre para três shows (13, 14 e 15 de abril) me proporcionou uma sensação de alegria e encanto.

Exatamente no horário marcado, às 21 horas, Ney subiu ao palco do Teatro do Bourbon Country acompanhado de Leandro Braga (arranjos e piano), Lui Coimbra (cello e violão), Ricardo Amado (violino, percussão e bandolim) e do excelente percussionista Felipe Roseno. Trajando um terno e calça bege claro, camisa branca e uma gravata vermelha, Ney já entrou levantando a plateia de quase 1000 pessoas, em sua maioria formada por pessoas com mais de 50 misturados com jovens de diversas idades, cantando os ver
sos do belo "Tango Para Tereza", de Evaldo Gouveia e Jair Amorim, e que é exatamente a faixa que abre o cd Beijo Bandido, lançado no final do ano passado.

A seguir, Ney passeou pelas clásssicas "Da Cor do Pecado" e "Fascinação", onde muitos fãs cantaram junto, levantando a poeira na bela "Invento", de Vitor Ramil, onde Ney mostrou toda sua competência como intérprete, bem como a banda de apoio mandou ver no belo arranjo da composição.

O lindo bolero
"De Cigarro em Cigarro", de Luiz Bonfá, foi a deixa para Ney tirar o ternó de forma insinuante, levando ao delírio as mulheres que gritavam "tira! tira!" em uníssono.
Com muita técnica e sabedoria nos empregos de agudos e respirações, Ney aos poucos foi se soltando, entre danças de salão e outros rebolados mais estranhos, com destaque para as belas interpretações de "À Distância" (uma das letras mais bonitas da música brasileira) e a difícil "A Cor do Desejo", com o teclado de Braga imitando o som de uma cítara. Também tem que se destacar a aparência andrógina de Ney. No palco, o cantor se transforma em outra pessoa, com passos robóticos e viradas de corpo quase que computadorizadas, impressionando bastante aqueles que nunca tinham o visto em ação.
Em "Nada Por Mim", de Herbert Vianna e Paula Toller, Ney visivelmente se emocionou, e a plateia aplaudiu de pé o cantor, que deu uma cara bem triste para essa alegre canção da Kid Abelha.

Ney seguiu o
repertório construído basicamente no novo CD (todo o CD foi interpretado), e tendo como pano de fundo imagens projetadas de Ney ora dançando, ora em poses insinuantes e por vezes com um bonito e complexo jogo de luz que encantava a quem assistia, retirando-se para o camarim em menos de uma hora de apresentação, com uma pequena decaída em alguns agudos de "As Ilhas".
Mesmo assim, o público clamava por mais, e então Ney o fez. Com a camisa entre-aberta e um gigantesco colar, Ney interpretou mais duas curtas canções, "Incinero" e "Mulher sem Razão", abandonando o palco mais uma vez. A plateia ensandecida aplaudia em pé, quando Ney retornou, e encerrou o show com as magistrais "Poema dos Olhos da Amada" e "Tema de Amor de Gabriela".

Ao final do espetáculo, Ney recebeu alguns fãs, entre eles quem vos-escreve, e com muita atenção atendeu um por um, tira
ndo fotos e dando autógrafos. Carismático, Ney fora do palco é uma pessoa tímida e carinhosa, parecendo encolher-se em sua estatura diminuta, o que torna ainda mais impressionante a apresentação do cantor quando em cena. Realmente, no palco ele vira um gigante com sua poderosa voz e seus trejeitos andróginos.

O bolha aqui levou vários vinis e alguns CDs para serem autografados, e Ney acabou se surpreendo com a quantidade de material, pedindo então para assinar apenas alguns e demonstrando um visível cansaço.
Obviamente deixei a vontade de Ney ser satisfeita, e ainda tive a oportunidade de bater um bom papo sobre o CD de Cartola que falei anteriormente, e com o qual Ney se surpreendeu ao ver o encarte do mesmo em minhas mãos, falando para mim que havia escutado o CD um dia antes do show, e que também gostava muito daquele álbum.

O mais interessante é que as pess
oas que foram cumprimentar Ney em nenhum momento falaram ou levaram CDs/LPs dos Secos & Molhados, mostrando conhecimento à respeito do que Ney pensa sobre o grupo e também que eram legítimos fãs da carreira solo de Ney.
Momento bolha

Autógrafos

E para os preconceituosos de plantão, f
ica aqui a palavra de alguém que ficou anos dizendo que nunca iria comprar um disco do Ney Matogrosso por causa das danças ou de seu comportamento extravagante, e hoje se arrepende das diversas barbadas que perdeu. Abram a mente e ouçam o novo CD, ou peguem talvez o Interpreta Cartola ou A Flor da Pele (com Raphael Rabello) e então irão descobrir que talento e dom não tem gênero, sexo ou idade. Aos 68 anos, Ney está em plena forma, com a mesma voz que o consagrou primeiro cantando "O Vira" (com os Secos & Molhados) e depois interpretando pérolas como "Balada do Louco", "Vereda Tropical", "Dora" e "Veja Bem Meu Bem". E para os que estão nas redondezas de Porto alegre, aproveitem hoje ou amanhã e confiram o belo espetáculo promovido no show Beijo Bandido. O de ontem já mostrou que vale a pena!

Set list

"Tango pra Tereza"
"Da Cor do Pecado"
"Fascinação"
"Invento"
"De Cigarro em Cigarro"
"A Bela e a Fera"
"À Distância"
"A Cor do Desejo"
"Nada por mim"
"Segredo"
"Doce de Coco"
"Medo de Amar"
"Bicho de Sete Cabeças"
"As Ilhas"

Bis

"Incinero"
"Mulher sem Razão"

Bis extra

"Poema dos Olhos da Amada"
"Tema de Amor de Gabriela"
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