segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Beck Bogert & Appice


Com o fim do Jeff Beck Group, Beck voltou-se então para seu antigo projeto ao lado de Carmine Appice (bateria) e Tim Bogert (baixo, voz), que haviam participado do Vanilla Fudge e posteriormente, arrebentado os ouvintes com o Cactus, ao lado de Jim McCarty (guitarras) e Rusty Day (voz).


A primeira vez que o nome de Beck foi vinculado à cozinha da Vanilla Fudge foi em 13 de setembro de 1969, quando o jornal Melody Maker noticiou na coluna Raver que Appice e Bogert iriam fazer parte da nova formação do Jeff Beck Group. Porém, o acidente de carro ocorrido com Beck em 12 de novembro de 1969 alterou os planos, como vimos na edição anterior do Baú do Mairon.

No dia 24 de julho de 1972, a segunda encarnação do JBG chegava ao seu final, e já no dia seguinte Beck e Max Middleton (tecladista da banda) encontravam-se com Bogert e Appice, além do vocalista Kim Milford (que fez sucesso com o Rocky Horror Show). A partir de então, o grupo começou a ensaiar nos estúdios dos Rolling Stones, com o objetivo de terminar a excursão que o Jeff Beck Group havia programado para os Estados Unidos.

No dia primeiro de agosto de 1972 a banda fez seu show de estreia no Stanley Theatre Pittsburgh, mas ainda sob o pseudônimo de Jeff Beck Group. Bobby Tench, vocalista da segunda encarnação do JBG, acabou substituindo Milford após seis apresentações, e assim, o Jeff Beck Group estava finalmente encerrada com um show em Washington, no Paramount North West Theatre, em 19 de agosto de 1972.

Após a turnê americana, Tench e Middleton saíram da banda, dando espaço para crescer um dos principais power trios dos anos 70, o Beck, Bogert & Appice. O trio passou a ensaiar e, principalmente, se desvincular da alma soul que Beck adquirira durante a sua recuperação do acidente, voltando-se principalmente para o hard rock.

Em 16 de setembro de 1972 o trio faz sua primeira apresentação oficial no Rock at The Oval, porém ainda com o nome de Jeff Beck Group. Dessa apresentação surgiu o convite para uma excursão pela Ruropa, onde iriam passar pela Inglaterra, Irlanda, Escócia, Holanda e Alemanha. Depois do Velho Mundo veio a turnê americana, começando no dia 20 de outubro de 1972 no Hollywood Sportatorium (na Flórida) e encerrando em 11 de novembro no The Warehouse de Nova Orleans, sendo que toda essa turnê foi feita já com o novo nome, Beck, Bogert & Appice.

Após o término da tour, que foi aclamada com muito sucesso pelos fãs e pela crítica principalmente por mostrar uma poderosa parede sonora, no dia 11 de desembro de 1972 o BBA começou a trabalhar no seu primeiro álbum dentro do Chess Studios, em Chicago. As sessões de composições e ensaios se estenderam até 22 de dezembro, com as gravações iniciando já em 2 de janeiro de 1973, tendo como produtor Don Nix.


O trio então mudou-se para Los Angeles, realizando as gravações no The Village, e em 26 de março de 1973 chegava às lojas americanas Beck, Bogert & Appice, com o lançamento na Europa tendo sido realizado em 6 de abril do mesmo ano.




Beck, Bogert & Appice é uma paulada do início ao fim, começando com "Black Cat Moon", escrita por Nix. O riff de guitarra com um slide delirante apresenta Bogert e Appice aos fãs de Beck, com um andamento excelente no estilo dos boogies texanos, tendo Bogert na linha de frente dos vocais, já mostrando a nova vertente musical de Jeff Beck, o hard rock, além de um ótimo solo do guitarrista

"Lady" surge a seguir com o riff inicial de um rock pesado, onde Bogert estraçalha no baixo enquanto Appice e Beck deliram em seus instrumentos, para então surgir uma canção na linha do Cream, com Bogert e Beck dividindo os vocais (uma constante em quase todo o LP), enquanto Beck se diverte com harmônicos e acordes inovadores. A pauleira pega no solo de Beck, onde Bogert e Appice arrepiam na cozinham enquanto os canais esquerdo e direito das caixas de som apresentam dois distintos solos de Beck, voltando então para a sequência da letra e encerrando a faixa com um interessante solo feito por Appice, além da repetição do riff inicial e um curto solo de Beck.

"Oh to Love You" traz os vocais de Tim Bogert acompanhados pelo piano de Duane Hitchings e por batidas nos pratos. Aos poucos, baixo, bateria e guitarra apresentam uma bonita balada, com um refrão repleto de vocalizações. No solo, Jeff Beck já mostra alguns acordes jazzísticos que iriam entrar na carreira do guitarista dois anos depois. Para o encerramento, Duane assume o mellotron, acompanhando os vocais de Bogert enquanto Beck executa seu solo final.

O lado A encerra com o clássico dos clássicos de Jeff Beck, "Superstition", que foi composta por Stevie Wonder. Essa canção abre com o guitarrista estourando as cordas para largar o imortal riff, que com o peso do baixo de Bogert e da bateria de Carmine Appice ganhou uma cara muito diferente da suingada versão de Stevie Wonder. A performance vocal de Bogert é sensacional, e Appice também está tocando excepcionalmente, com levadas e quebradas muito difíceis. Beck solta a alavanca, enquanto o bicho pega na cozinha, como um verdadeiro power trio deve ser, encerrando com outro interessante solo de Appice.


O lado B abre com "Sweet Sweet Surrender", outra composição de Nix, onde acordes de violão com um aguitarra manhosa feita com o wah-wah apresentam uma balada, contando com Danny Hutton nos backing vocals e Jim Greenspoon no piano, ambos formadores do grupo Three Dog Night. O refrão dessa canção é muito bem construído, e Beck relembra "Definitely Maybe" solando com o wah-wah na primeira parte, e depois em seu estilo tradicional, alternando arpejos e bends no solo final.

Outra cover vem na sequência, com "Why Shoud I Care", de Raymond Kennedy. Um ótimo rock, com Appice e Beck fazendo a base inicial sob os vocais de Bogert, para então o baixo surgir. A letra continua, e vale a pena prestar atenção ao uso dos bumbos feito por Appice. O solo de Beck é feito com duas guitarras diferentes, que começam solando juntas mas depois divergem, com uma solando enquanto a outra apenas faz acordes. Essa faixa lembra muito - guardadas as proporções - a fase inicial do Grand Funk Railroad, principalmente pelos vocais de Tim Bogert.

"Lose Myself With You" traz o wah-wah com o riff inicial, e a suingueira toma conta das caixas de som. O trabalho de Appice novamente é notável, além da boa participação de Bogert. Ouça com atenção o solo de Beck, recheado de wah-wah, e entenda por que ele é um gênio.

O disco segue com "Livin' Alone", tendo a guitarra limpa de Jeff Beck e os acordes de baixo, junto com a bateria, puxando um hard pesado, para Beck soltar o riff enquanto harmônicos são ouvidos, trazendo os vocais de Tim Bogert e Beck em uma faixa agitada e dançante. Destaque para a sequência instrumental, que começa com Carmine Appice fazendo rufos sozinho, passa por Bogert solando com distorção e culmina com um belo solo de slide feito por Beck, acompanhado por palmas. Para encerrar, um fantástico duelo vocal / wah-wah

Por fim, a balada "I'm So Proud", de Curtis Mayfield, encerra o LP, tendo no início o slide seguido pelos vocais de Bogert e Beck, em uma faixa que destoa das demais desse belíssimo álbum.


Três singles foram lançados desse LP: "Black Cat Moan" / "Livin" Alone" (16 de fevereiro de 1972), "I'm So Proud" / "Oh To Love You" (28 de maio de 1973) e "Lady" / "Oh To Love You" (16 dejulho de 1973). O álbum alcançou a posição número 12 nos EUA e 28 na Inglaterra.

No primeiro dia de fevereiro de 1973 o grupo partiu para uma turnê tocando em pequenos lugares, como salas de concerto e também em universidades pela Inglaterra, encerrando essa pequena temporada com uma apresentação no dia 18 de fevereiro no Top Rank Suite de Cardiff. No dia 20 de fevereiro, fazem uma aparição no programa de TV francês Pop Deux diante de mil pessoas, partindo para um descanso de um mês.

Voltam a ativa no dia 28 de março de 1973, iniciando uma turnê mundial a partir dos EUA, no Music Hall de Boston, onde Beck utilizou pela primeira vez o talk box. Após 17 apresentações pelos EUA, o trio fez o show de encerramento da turnê americana em Winterland, no dia 16 de abril, mais uma vez aclamados por mídia e público.

Como o palco era o lar do BBA, voltam para uma segunda turnê, começando no dia 26 de maio no Centre Arena de Seattle e encerrando em 8 de junho no Honolulu International do Hawaii, de onde partiram para uma série de shows pelo Japão, iniciada em 14 de junho no Nippon Budokan, e após cinco dias, encerrava a série nipônica no Koseinenkin Hall de Osaka.

Viajam então para a Europa, e em 8 de julho apresentam-se no circuito anual de festivais de rock europeu, viajando pela Alemanha Oriental, Holanda e França durante uma semana, com o show de encerramento ocorrido em 14 de julho na cidade-luz.

O término da turnê mundial seria novamente nos EUA, agora cobrindo a parte oeste e sul do país, passando por estados como Pennsylvania, Carolina do Norte, Flórida, Maryland e Georgia. Porém, no dia 17 de julho Jeff Beck dicidiu deixar o trio, alegando cansaço e falta de motivação para seguir adiante.


Da turnê japonesa foi lançado em 21 de outubro o LP Live in Japan, o que motivou o trio a se runir novamente. Assim, em 21 de novembro de 1973 se mandam para uma série de shows que passou pela Inglaterra, tocando em cidades como Brighton, Liverpool, Sheffield, Bristol e Londres, além das escocesas Glasgow e Edinburgo, onde a turnê foi encerrada em 29 de fevereiro de 1974, tocando no Caley Theater.


Durante a turnê inglesa, registram o show de 26 de janeiro de 1974, realizado no Rainbow Theatre, o qual foi apresentado no programa americano de shows Rock Around the World. Este foi o último registro do BBA, mostrando alguns sons que fariam parte do segundo álbum da banda. Algumas canções aparecem na compilação Beckology, lançada em 1991.

As sessões de gravação do segundo álbum começaram em janeiro de 1974, porém, brigas internas levaram a separação do trio antes do lançamento do mesmo, que até hoje aguarda um lançamento oficial. Várias cópias piratas circulam pela internet, e é possível perceber que a sonoridade da BBA ainda manteria o padrão do excelente álbum de estreia.

Jeff Beck então voltou sua carreira para o jazz rock, lançando os excepcionais Blow By Blow (1975) e Wired (1976), enquanto Carmine Appice foi trabalhar com o grupo KGB, passando por álbuns solos de Paul Stanley (Kiss), Ted Nugent, Jan Akkerman (Focus), Marty Friedman, Pappo's Blues, entre outros, consolidando também uma carreira solo de bastante prestígio. Já Tim Bogert ingressou no Bobby & The Midnights ao lado do guitarrista do Grateful Dead, Bob Weir, seguindo então uma carreira solo de nenhum sucesso, voltando-se assim para o trabalho de ensinar música e também na busca de novos talentos, deixando junto com Appice e Beck o nome gravado na famosa lista dos grandes power-trios da história do rock.


segunda-feira, 15 de novembro de 2010

A fase soul de Jeff Beck


Não é a toa que Jeff Beck é chamado de “o Guitarrista dos Guitarristas” - assim mesmo, com “G” em maiúsculo. Desde Jimmy Page até Slash, 99% dos grandes guitarristas do rock tiveram influência direta no estilo de tocar, nas improvisações e nos efeitos que Beck trouxe para o rock.

A carreira de Jeff Beck começou cedo. Logo aos 10 anos já cantava em um coral na cidade de Wallington, Inglaterra, e com 19 (1964) teve o seu primeiro registro em vinil, tocando guitarra no single “I'm Not Running Away / 'So Sweet”, de The Fitz and Startz, uma raridade hoje em dia.

Em março de 1965, pouco depois de completar vinte anos, Beck entrou para o lugar de Eric Clapton nos Yardbirds, e ali começou a construir sua carreira e a modificar o mundo da música, tornando os Yardbirds uma banda tão importante para o rock quanto os Rolling Stones ou os Beatles, mas com uma sonoridade bem diferente do que seus companheiros gigantes, já que Beck e Keith Relf (vocalista do grupo) flertavam bastante com psicodelia e alucinógenos antes mesmo destes chegarem nas mãos das duplas Lennon/McCartney ou de Brian Jones.

Nos Yardbirds, Beck foi o responsável por clássicos do calibre de "Still I'm Sad", "Jeff's Boogie", "Over, Under, Sideways, Down" e "Lost Woman", todas registradas no essencial LP Roger The Engineer (1966). De junho a novembro de 1966 Beck dividiu as guitarras com Jimmy Page, formando assim a primeira grande dupla de guitarristas da história do rock, e ensinando para Page muito do que ele empregaria depois no Led Zeppelin.

Em fevereiro de 1967, após a gravação de mais um clássico - a canção "Beck's Bolero", com participação de John Paul Jones, Nicky Hopkins, Jimmy Page e Keith Moon -, Beck partiu dos Yardbirds para formar sua própria banda solo, o Jeff Beck Group.

Na primeira fase do JBG, Beck estava acompanhado de Ron Wood (baixo), Rod Stewart (vocais), Nicky Hopkins (piano) e vários bateristas, até Micky Waller se fixar atrás do bumbo. Assim, registraram os pesadíssimos e fundamentais Truth (1968) e Beck-Ola (1969), deixando para trás uma lista incontável de clássicos, dentre eles "Shapes of Things", "Beck's Bolero", "You Shook Me", "I Ain't Superstitious", "Girl From Mill Valley", "Spanish Boots" e "Plynth".

Porém, o choque de egos entre Rod e Beck, mais uma série de incidentes envolvendo o grupo durante a turnê pela Europa, fez com que a primeira encarnação do Jeff Beck Group acabasse no final de 1969, com Rod e Ron indo parar no Small Faces, enquanto Hopkins ingressou na melhor fase do Quicksilver Messenger Service. Já Micky entrou no grupo de blues Long John Baldry e fez participações em vários álbuns como músico de estúdio, entre eles o terceiro disco solo de Rod Stewart, Every Picture Tells a Story (1971).

Beck fez parte do projeto Free Creek, contribuindo com solos em quatro canções do álbum lançado pelo projeto em 1969, onde aparece como "A. N. Other" mandado ver nas faixas "Cissy Strut", "Big City Woman", "Cherrypicker" e "Working in a Coalmine", tendo ao seu lado Moogy Klingman (teclados), Stu Woods (baixo) e Roy Markowitz (bateria).

Depois, decidiu colocar em prática um velho projeto de montar um grupo ao lado da cozinha do Vanilla Fudge, Tim Bogert (baixo) e Carmine Appice (bateria). Em dezembro de 1969, quando tudo já estava pronto para o trio botar as mangas de fora, Jeff Beck sofreu um sério acidente de carro onde fraturou o crânio e teve que ficar hospitalizado por um bom tempo. Assim, Bogert e Appice formaram o sensacional Cactus, e Beck ficou no limbo durante algum tempo. Nesse período, teve contato com novas sonoridades vindas das fontes negras do soul americano, que o influenciaram direto tanto na recuperação como no que ele pretendia passar a tocar.

Em abril de 1970 Beck sentiu-se confiante para voltar a tocar, e partiu então atrás de novos músicos. Para isso, juntou-se ao produtor Mickie Most (que produziu gente como Animals, Donovan, Suzi Quatro, entre outros) e resolveu alugar os estúdios da Motown, a fonte negra do soul. Most era o dono da RAK Records, e assim Beck acabou assinando como principal músico da recém criada gravadora.

Para acompanhar essa loucura, Beck chamou o novato baterista Cozy Powell. Powell tinha feito uma passagem muito promissora pelo grupo The Sorceres, que posteriormente virou Youngbloods, mas foi no festival da Ilha de Wight em 1970 que seu nome passou a ser reconhecido, ao acompanhar Tony Joe White em uma apresentação considerada por ele o marco inicial da sua carreira. Beck ouviu boas recomendações de Powell vindas de gente como John Bonham, Robert Plant, Tony Iommi e Noddy Holder (vocalista do Slade), e decidiu investir no garoto.

Vários ensaios foram realizados nos estúdios da Motown, mas Beck não alcançava seu objetivo de ter um grupo técnico o suficiente para sair em turnê. Então, em abril de 1971 a luz surgiu para Jeff Beck quando o baixista Clive Chaman entrou para o grupo, acompanhado do tecladista Max Middleton e pelo vocalista escocês Alex Ligertwood (que faria sucesso acompanhado a banda de Santana). Chaman havia participado do álbum London Blues de Ram John Holder, e feito participações em alguns discos da Motown. Foi ele quem apresentou Max para Beck, que se impressionou com a técnica no piano elétrico que Max tinha. Já Alex vinha de uma carreira curta como backing vocal em estúdio, e Beck via nele a voz ideal para o estilo que procurava.

A nova banda começou a ensaiar, e não tardou para Beck batizar o conjunto como Jeff Beck Group. Apesar do mesmo nome da formação de Truth e Beck-Ola, a sonoridade desta nova fase era totalmente diferente, voltada para o soul praticado na Motown e, principalmente, com Beck experimentando escalas e efeitos como nunca antes.

As gravações começaram ainda nos estúdios da Motown, mas posteriormente passaram a ser feitas no Island Studios, em Londres. Lá, eles começaram a trabalhar bastante em uma canção chamada "Situation", cuja letra foi feita por Alex, além de outras como "Morning Dew". Após uma semana de trabalho na Island Studios, Beck, que ainda estava sob o contrato da RAK Records, acabou assinando com a CBS, e assim passou a trabalhar nos estúdios da Epic (uma subsidiária da CBS). Os donos da Epic não gostaram dos vocais de Alex, e avisaram a Beck que o disco só sairia caso o vocalista fosse trocado.

Bobby Tench vinha de uma carreira com os grupos Gass e Gonzalez, sendo, além de vocalista, guitarrista em ambas as bandas. Porém, foi na capacidade vocal de Tench que Beck encontrou a aceitação dos produtores da Epic, e assim fechou a segunda encarnação do Jeff Beck Group, que registrou os álbuns daquela que ficou conhecida como a fase soul do guitarrista dos guitarristas.


Em algumas semanas Tench já havia aprendido as letras, e então, em julho de 1971, o quinteto voltava para a Island Studios para finalizar o primeiro álbum, cuja produção foi entregue nas mãos do próprio Beck. Em 25 de outubro de 1971 saía Rough and Ready. Uma paulada do início ao fim, começando com a ótima "Got the Feeling", onde a bateria de Cozy Powell já mostra a sonoridade proposta por Beck, e então surge o novo Jeff Beck Group detonando um delicioso funk, com Beck abusando do wah-wah e com uma ótima levada de Max Middleton no piano. Destaque para o ótimo trabalho de bumbos feito por Powell no solo de Middleton, além do bonito solo de slide de Beck, que já indica a Tommy Bolin como tocar com o slide.

"Situation" traz o riff de baixo acompanhado pelo cymbal, com o piano e a guitarra reproduzindo o riff. Após uma sequência de viradas começa o embalo da canção, com a levada no violão sendo acompanhada por uma boa escala de baixo e piano, fazendo a base para os vocais roucos de Bobby Tench, deixando como ponto principal os excepcionais solos de Beck e Middleton.

"Short Business" traz a guitarra repleta de efeitos junto aos vocais de Tench, seguido pelo resto do Jeff Beck Group, com Beck detonando no slide enquanto varia os efeitos da guitarra em outra suingante canção, deixando a linda "Max's Tune" para o final do Lado A. Composta por Max, esta é daquelas canções épicas, onde Powell bate nos toons enquanto piano e baixo marcam o tempo para Jeff Beck solar calmamente, com um efeito indescritível. Max começa a solar com o piano elétrico, enquanto Beck mantém as bonitas notas ao fundo. Aos poucos a canção vai pegando corpo, com os solos de piano e guitarra desenvolvendo-se paralelamente, até Powell soltar a batida cadenciada de um ótimo soul. Max desliza deus dedos no piano elétrico, levando a uma bonita sequência de notas acompanhadas apenas pelos toons e pela marcação de acordes de Beck e Chaman. O swing retorna comandado pelo baixo de Chaman, em uma linha similar à eterna "Aquarius" do filme Hair, com Max Middleton mandando ver em outro belíssimo solo, encerrando a faixa com o soturno clima da introdução.


O lado B abre com "I've Been Used", onde a guitarra faz a introdução com um riff cujo estilo foi indecentemente copiado por diversos guitarristas nos anos oitenta. Cozy Powell surge com os pratos, seguido por Clive Chaman, Max Middleton e Bobby Tench, levando a mais uma canção Motown, com belas passagens vocais e com o pesado baixo cavalgando durante toda a canção. Destaque novamente para o uso dos dois bumbos por Powell.

A dupla "New Ways / Train Train" vem a seguir, com uma ótima introdução de baixo que apresenta "New Ways", com a guitarra e a bateria trazendo os vocais e o piano, e Jeff Beck inventando novos acordes e batidas nas cordas da guitarra. Cozy Powell detona novamente, mostrando já todas as características que o tornariam reconhecido no Rainbow de Ritchie Blackmore, com uma marcação complicada e batidas muito fortes nos bumbos. A sequência do solo de Beck leva para "Train Train", onde Powell faz viradas malucas e o grupo faz vocalizações que imitam o apito de um trem, levando para os solos de Jeff Beck e Max Middleton, com uma levada de tirar o fôlego da cozinha Powell/Chaman.

A bonita introdução de "Jody", somente ao piano, apresenta os vocais, baixo e bateria em uma linda canção. Beck surge com o slide, e a letra continua com Tench despejando sentimento, até entrarmos na agitada sessão instrumental comandada por Chaman e Powell, onde Max faz alguns acordes para Beck solar cheio de efeitos. Sobre essa nova levada, a letra é retomada, e Beck relembra Jimi Hendrix, com arpejos e efeitos muito similares ao deus negro da guitarra, levando então à levada original, trazendo o encerramento deste clássico de Beck e também do LP, com um solo de Max.

Jeff Beck e companhia partiram para uma turnê pela Europa, tocando em países como Finlândia, Holanda, Suíça e Alemanha, além de 16 datas nos Estados Unidos. Alguns bootlegs são encontrados na internet, e vale a pena dar uma boa pesquisada neles.

Do LP, foi extraído o single de "Got the Feeling", tendo "Situation" no lado B. A versão original americana credita a faixa "Max's Tune" com o nome de "Raynes Park Blues", além de colocar Jeff Beck na autoria da canção. Posteriormente, o erro foi corrigido, e somente o nome de Max Middleton aparece. O álbum acabou alcançando a posição #46 nas paradas, o que foi uma surpresa positiva, inclusive para o pessoal da Epic.

Após a turnê pela Europa em janeiro de 1972, o grupo partiu para os Estados Unidos novamente, onde voltaram para os estúdios. Passando por uma crise de composição, e influenciado demais pela música negra americana, Beck decidiu apostar em covers. Assim, o próximo álbum teria cinco releituras de artistas americanos, sendo que algumas já vinham sendo apresentadas na turnê de promoção de Rough and Ready.


Lançado em 9 de junho de 1972, Jeff Beck Group manteve a linha de seu antecessor, porém com Beck agora assumindo uma posição mais à frente dos demais, ja que no primeiro álbum Max Middleton dividia praticamente todos os solos com o guitarrista.

O disco abre com a clássica "Ice Cream Cakes", onde Cozy Powell faz rolos para Clive Chaman fazer o riff principal. Beck passa a acompanhar o baixo, e então temos Max junto com Bobby Tench para executar uma dançante faixa, com destaque total para Powell e para o solo de Beck, abusando da alavanca e ensinando a Jimmy Page como tocar rápido sem ser virtuoso.

"Glad All Over", de Aaron Schroeder, Syd Tepper e Roy Bennett, vem a seguir, com o piano apresentando os vocais de Tench em uma faixa que mistura rock (na melodia vocal) e o soul (na ótima levada do baixo e da guitarra). Jeff Beck desconstrói "Tonight I'll Be Staying Here With You", que fora originalmente lançada no álbum Nashville Skyline (1969), de Bob Dylan. Beck transformou esse pérola da carreira de Dylan em uma fantástica e safada balada, onde a interpretação de Tench é a melhor demonstrada nos dois álbuns dessa fase. Vocalizações femininas se fazem presentes, e o bonito solo de Beck com o slide é outro ponto alto de uma das poucas faixas que fogem o estilo das demais dos LPs aqui destacados.

"Sugar Cane" tem Max puxando o ritmo nos dois acordes iniciais, com Powell marcando o tempo e Beck fazendo um riff aleatório. O baixo passa a acompanhar o piano, e então forma-se a base para um reggae/soul, onde o principal ponto positivo são os vocais de Tench, além da envolvente percussão de Powell e dos vocais femininos.

O lado A encerra com o cover para "I Can't Give Back the Love I Feel For You", de uma dupla que reinou na Motown, Ashford e Simpson. O riff que sai do slide de Beck apresenta uma linda canção instrumental, onde Beck sola com o slide melodicamente, alternando momentos lentos com rápidos, e inserindo uma cítara no meio do solo, tendo como acompanhamento a bateria cirúrgica de Powell, contra-balanceada pelo piano e pelo baixo.

O lado B abre com a clássica "Going Down", de Don Nix. O piano puxa o ritmo de um rock suingado, com baixo e piano fazendo as mesmas notas enquanto Beck duela com os vocais de Tench, lembrando "I Ain't Superstitious". Beck sola muito aqui, alternando notas abafadas, alavancadas e arpejos. Vocalizações com efeitos surgem no meio da canção, dando um toque psicodélico para mais uma faixa antológica.

Outro clássico negro surge a seguir. "I Gotta Have a Song", de Stevie Wonder, traz os acordes de guitarra, sem distorção, em uma dançante faixa com as vocalizações femininas se fazendo presente, e com Cozy Powell mandando ver junto com Clive Chaman. Uma ótima cozinha para uma ótima faixa!

O disco encerra com dois clássicos compostos por Jeff Beck. O primeiro deles é "Highways", com Beck solando logo na entrada, em uma faixa com belíssimas passagens de piano e guitarra, além de ótimos solos de Beck e Max. O segundo, e finalmente, é a incrível "Definitely Maybe".

Para mim, esta é a melhor faixa de Jeff Beck (ao lado de "Freeway Jam"), e uma das composições mais bonitas da história do rock. Uma balada instrumental com um solo de fazer sair lágrimas da agulha do toca-discos. O uso do wah-wah é digno de uma tese de doutorado. A guitarra parece chorar, lamentando uma dor que não tem cura. Genial é pouco para o que estamos ouvindo! O que Beck faz aqui é de tirar o chapéu, com cabelo e tudo. Ajoelhe-se e apenas venere cada segundo dessa obra-prima, que ainda contém um rápido e tímido solo de Max Middleton encerrando a faixa e o LP.


O grupo partiu para uma turnê de promoção do álbum, que incluiu uma apresentação na série "In Concert" da BBC Radio 1, a qual foi gravada em 29 de junho de 1972. Corram atrás desse CD, pois o registro ali é impecável. Ponto importante: o solo de "Definitely Maybe" que você irá ouvir não é Beck tocando, e sim Tench. Eu também recomendo a vocês ouvirem o bootleg do show em Paris, com "Definitely Maybe" sendo tocada agora por Beck. A qualidade do CD é muito boa, e é um registro claro de como Cozy Powell era um excelente baterista já antes de entrar para o Rainbow.

Nenhum single acabou sendo extraído do álbum, que obteve números tímidos nas vendas. Após a turnê americana, em 24 de julho de 1972 o Jeff Beck Group era oficialmente desmantelado pelo empresário do guitarrista, que alegou que "a fusão dos diferentes estilos musicais dos músicos tinha sido muito bem sucedida, mas eles não se sentiam mais a vontade para levar a criação de um novo estilo musical com a mesma força que tinham originalmente".

Jeff Beck então pode voltar ao seu sonho de trabalhar com Tim Bogert e Carmine Appice. Já em agosto daquele ano o trio estava excurionando, porém ainda com o nome de Jeff Beck Group (devido a questões de cumprimento de contrato), tendo além do trio a permanência de Max Middleton e da participação do vocalista Kim Milford. Após seis shows, Milford foi substituído por Bobby Tench, que finalizou todo o resto da turnê, com o último show dos remanescentes da fase soul tendo sido realizado no Paramount North West Theatre, em Washington.

Após o fim da turnê surge então o trio Beck, Bogert & Appice. Uma paulada a parte, que será tratada no próximo Baú do Mairon, e que levou Jeff Beck de volta ao peso da primeira formação do Jeff Beck Group, misturando com algo que ele iria trabalhar anos depois, o fusion.

Já Clive Chaman, Max Middleton e Bobby Tench juntaram-se a Robert Ahwai (guitarras), Bernie Holland (guitarra), Bernard Purdie (bateria) e Conrad Isadore (percussão, voz) para formar a excelente banda Hummingbird, que seguiu a linha destes dois álbuns do Jeff Beck Group nos ótimos Hummingbird (1975), We Can't Go On Meeting Like This (1976) e Diamond Nights (1977).

Cozy Powell partiu para uma carreira solo por alguns anos, até ser encontrado por Ritchie Bladkmore e ir integrar o Rainbow, onde se destacou como um dos maiores bateristas do rock. Depois disso, tocou no Michael Schenker Group, Whitesnake, Emerson Lake & Powell, Forcefield, Black Sabbath, Brian May Band e Company of Snakes, além de participar como convidado em álbuns de diversos artistas, vindo a falecer no dia 5 de abril de 1998 em um trágico acidente de carro em Bristol. Segundo informações da polícia local, Powell estava a 170 km/h, dirigindo embrigado, sem o cinto de segurança e conversando com a namorada ao celular, quando o carro derrapou na estrada molhada e vitimou o baterista. A namorada, Sharon Reeve, ouviu o acidente no celular!

Já Bobby Tench seguiu carreira solo após o Hummingbird, trabalhando com Van Morrison, Humple Pie, Topper Headon, Streetwalkers, Ginger Baker, entre outros. Max Middleton também trabalhou com muita gente, com destaque para os Streetwalkers, Mick Taylor, Chris Rea e Nazareth, além de ter voltado a trabalhar com Beck nos clássicos discos Blow by Blow (1975) e Wired (1976). Clive Chaman, por sua vez, fez trabalhos com Donovan, Paul Kossof e Morrisey-Mullen, e hoje vive na obscuridade.

E Jeff Beck se tornou o mestre venerado por todos, com os fundamentais Blow by Blow e Wired, mas antes, como informado, teve o trio Beck Bogert & Appice, que será comentado na próxima edição do Baú do Mairon.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Paul McCartney: Beira-Rio, Porto Alegre, 07/11/2010



Bom, eu pensei de todas as formas como escrever o que passei ontem no show de Paul McCartney (ou seria Billy Shears?) e, infelizmente para vocês leitores da Collector´s Room, não terá outro jeito do que contar praticamente tudo.

Quero salientar que, como muitos sabem, eu não sou fã dos Beatles, mas tenho uma certa admiração por Wings. Fui no show por três motivos básicos: a compreensão da importância de Paul para a história da música, o show ser no Beira-Rio e o principal de todos: gritar para Paul "Mick Jagger", mas como brincadeira, obviamente, pois sou da linha dos que preferem os Stones e apenas faria isso para me dar de presente de aniversário (sim, eu nasci no dia 07/11) o desafio de gritar o nome de um Stone entre milhares de fanáticos pelos Beatles.

Pois bem, o dia começou com uma surpreendente ligação de uma amiga que tenho um carinho especial por ela, me desejando os parabéns bem no momento em que saía após ter comido um churrasquinho especial que comprei perto de casa (o Rio Grande do Sul tem isso de bom), já que não daria tempo de assar e ir pro show. Depois da calorosa ligação (valeu Pã!!!), peguei o ônibus e passei no meu irmão para receber um abraço e fazer aquele velho comentário que fazemos há muitos anos: "não entendo como que as pessoas gostam tanto de Beatles".

Dali, liguei meu radinho e fui para o Beira-Rio. Na parada para comprar uma cerveja dentro do super o rádio informou que Paul estava saindo do hotel, e para minha total surpresa ele havia mudado a rota inicial que faria em direção ao Beira-rio, indo por uma avenida que fica a poucos metros de onde eu estava. Peguei a ceva e sai correndo feito um louco, tropeçando em pessoas, em pedras, mas enfim cheguei na Avenida Beira-Rio e não havia ninguém lá, somente um policial e o barulho dos carros de polícia que vinham pela avenida. Os locutores da rádio falavam que Paul estava abanando para todos, e eu ali, parado, apenas esperando. Foi quando vi o carro da polícia trazendo Paul, que fez O MOMENTO do dia para mim.

O carro diminuiu a velocidade e então eu vi com esses olhos que já viram muitas coisas algo que jamais pensei em ver: sentado do lado direito do carro, Paul saiu da janela direita e se dirigiu para a janela esquerda. De dentro do carro, ele me abanou e levantou o dedo com um positivo, enquanto com a outra mão batia no coração. EU VI PAUL E ELE ABANOU PARA MIM!!!

Vocês não tem ideia do que é isso! O cara é uma lenda! Ele podia muito bem ter seguido de "cano reto" e nem ter dado bola para um cara parado, com a camisa do Inter, uma lata de cerveja nos pés e uma câmera na mão. Mas não, ele saiu da posição onde estava e veio me dar um aceno. Não apertei a mão dele, não conversei com ele, mas como estava somente eu ali, naquele lugar, senti toda a emoção de saber que Paul McCartney me cumprimentou pessoalmente. Ali, valeu o dia, mas ainda tem mais!

Fui para o Beira-Rio na expectativa de encontrar minha amiga Pâmela, que, apesar de ir no gramado (eu ia de superior), havíamos combinado de que se desse eu receberia o abraço enviado na ligação pessoalmente. Na chegada, uma impressionante multidão tomava conta dos arredores do estádio. Somente na final da Libertadores de 2006 vi tanta gente assim. Filas enormes rodeavam todos os lugares. Fui para a fila do portão 9 na rampa 2. e incrivelmente, para quem conhece o Beira-rio, ela saía da rampa, descia para a esquerda em direção ao portão 4, atravessava para o Gigantinho em direção ao CTG e fazia a volta em todo o Gigantinho pelo lado do estacionamento, chegando até o mastro. No mastro, ela virava em direção à Borges, saindo do complexo do Beira-Rio (tá, quem não conhece o Beira-Rio não tem ideia do que eu estou falando, mas para dar a noção eu caminhei 30 minutos até chegar ao final da fila).

Ao chegar no final da fila, um grupo de pessoas vindas não sei de que lugar surgiu do nada, e entre eles um marido desesperado tentava trocar o ingresso de gramado por superior, pois a esposa e todo o grupo haviam comprado ingresso para pista. Prontamente troquei o ingresso com o cidadão, e fui direto para a minha nova fila, agora o portão 7. Durante o caminho descobri que não haveria a possibilidade de encontrar a minha amiga, pois ela estava em outro portão.

A confusão era grande. As filas se entrelaçavam, e era difícil identificar aonde eu tinha que ir. Quando descobri onde começava a fila 7 caminhei mais alguns minutos em direção ao final da fila, que já ia praticamente no início do portão 9 rampa 2 (o começo da história). Portanto, o imbecil aqui deu a volta no estádio sem ter necessidade, era só ter ido direto para a fila 7. Mas eu ia saber que ia ter tanta gente assim?


Enfim, fiquei torrando no sol durante um bom tempo, pois apesar dos portões terem sido abertos perto do horário confirmado (17:30 hs) a demora para entrar no estádio foi muito grande. Mas a espera teve momentos bons, já que foi possível ouvir toda a passagem de som de Paul, e claro, sentir que o bicho ia pegar, pois a gurizada ouvia silenciosamente cada segundo e aplaudia como se já estivesse vendo o próprio show.

Entrada no estádio, todos recebem lenços com a assinatura de Paul, e se quisesse poderia deixar um presente para ele em uma caixa enorme. Ali, vi várias camisas do Inter, do Grêmio e também cuias, uma bombacha e muitas cartas. Vale se destacar: apesar do show ter sido no estádio do Internacional muitas camisas de ambos os times coloriram o Beira-Rio, provando que, sim, é possível rivais conviverem pacificamente.

Então, depois de tudo, quando estou entrando, descubro que é possível sentar na social através do portão por onde eu entrei. Bah, eu que havia visto a montagem do palco exatamente da social, que ficara imaginando como seria ver o show dali, podia agora ir para o lugar onde eu havia demarcado como o melhor para se ver de forma mais barata. Fui direto para lá, e no meio do caminho, quem eu encontro? A Pâmela! Se tivessemos combinado não teria dado tão certo. Trocamos o abraço mais legal do meu aniversário, e cada um foi para seu canto (afinal, ela estava em grupo, e eu preferi não me meter no meio da festa deles), onde rapidamente achei lugar ao lado de um pessoal da serra gaúcha e de um casal de namorados de Porto Alegre.

Sentado, na sombra, com a brisa do Guaíba batendo de frente, fingíamos que estávamos na VIP (que era ao lado de onde eu estava). Aqui, outro detalhe: nunca, mas nunca mesmo, vi tanta mulher bonita por metro quadrado em um show de rock! Era olhar para o lado e surgia uma que era mais gata do que aquela que tu achavas que era a mais gata que tu já tinhas visto. A grande maioria delas saía da Social Vip e ia para a Gramado Vip na nossa frente, com taças de champagne e salgados nas mãos.

Então, eis que surge a palhaçada mor do dia. A banda Dublê sobe ao palco e destrói clássicos do rock com uma versão lounge-pop-pasteurizada terrível. Eles não tiveram nem vergonha de fazer aquilo, tampouco falaram o nome (eu sabia que era a Dublê por que já vi eles tocando em uma festa anos 70), e fizeram uma apresentação de meia hora mais ou menos que não agradou em nada. Todos ao meu redor falaram que se fosse o Kleiton & Kledir teria sido muito melhor (aliás, 100% dos que eu conversei antes e depois do show gostariam de ter visto K&K, mostrando que a RBS não estava errada em colocá-los na abertura). Falando em Kleiton e Kledir, eles passaram ali, na passarela Vip, e troquei um aperto de mãos e algumas palavras com Kleiton, que quando falei que era de Pedro Osório largou um sorriso faceiro e disse: "gosto muito daquela cidade".

Enfim, até aqui não comentei nada do show, e desculpe por essa longa introdução, mas esses pequenos detalhes foram inesquecíveis e eu precisava narrar eles para vocês. Agora, vamos então ao show em si.


Após o show da Dublê, os dois telões (que ficavam em cada um dos lados do palco) começaram a mostrar várias imagens da carreira de Paul e dos Beatles, passando-as como um filme. Essas imagens foram reproduzidas durante um bom tempo, até que as luzes se apagaram e eis que surge Paul McCartney, com dez minutos de atraso (raro para os britânicos) entrando no palco solenemente, vestindo terno e calças pretas, com uma camisa branca e acompanhado de sua banda. Depois de reverenciar o público, começam os acordes de "Venus and Mars", seguida de "Rock Show" e "Jet", onde já pude comprovar que, sim, eu gosto bastante de Wings. Ouvir "Jet" ao vivo foi como lembrar do show do UFO em São Paulo, uma daquelas canções que você adora a versão que conhece, mas que quando ouve ao vivaço, pela lenda que a compôs, soa ainda mais forte.

Após a intro Wings, Paul fala em português com a plateia de mais de 50 mil pessoas dando "Oi, tudo bem? Boa noite Porto Alegre, boa noite Brasil!", e mandando ver na clássica "All My Loving". Ali, o baú de lembranças da minha infância, com minha mãe e meu pai ouvindo a Jovem Guarda em peso fazendo versões nacionais para canções inglesas (e a que mais eu lembrava era de minha mãe ouvindo Vips e meu pai Os Incríveis) já fizeram as primeiras lágrimas saírem dos meus olhos, mesmo eu não gostando da canção. Isso é importante demais, pois a música toca você mesmo que você não goste dela, já que é algo que quando você ouve você irá lembrar de uma fase da sua vida que não irá voltar mais.

Paul fala ao microfone "Obrigado gaúchos”, e aí o público vai ao delírio. Abrindo um sorriso enorme solta "Letting Go", e depois começa com a sequência engraçadissima "essa noite eu vou tentar falar português, mas vou falar mais inglês", com um carisma e simpatia fora do comum, e solta "Drive My Car", que fez o Beira-Rio tremer no famoso "bep-bep".

Paul então tirá o terno em um modesto strip-tease, começando "Highway", que foi seguida por "Let Me Roll It", onde a banda improvisou sobre o riff de "Foxy Lady", de Jimi Hendrix, e então foi para o piano, onde interpretou a linda "The Long and Winding Road". Os telões de ambos os lados funcionavam perfeitamente, mas achei estranho que o telão central funcionava (ou mostrava imagens) em apenas algumas músicas.

Enfim, a ótima e setentista "Nineteen Hundred and Eighty Five" (uma das melhores canções do Wings) sacolejou o esqueleto da gurizada, e "Let 'Em In" baixou o pique de todos. Paul, emocionado, lembrou de Linda McCartney, dizendo que escreveu a próxima canção em homenagem a "minha gatinha, Linda", mas que hoje ele dedicava "a todos os namorados presentes", e então começou a bela "My Love", com o refrão cantado por todos, seguida pelo country de "I've Just Seen A Face".

"And I Love Her" trouxe mais lágrimas para quem vos escreve, e a arrepiante sensação de cinquenta mil pessoas cantando ao mesmo tempo. Fantástico! Foi então que Paul soltou "Mas bah, tchê!!!!". O gigante da Beira-Rio veio abaixo ao som de Paul, enquanto ele soltava gargalhadas e puxava "Blackbird", sozinho ao violão. Outra arrepiante, com todos cantando sob o céu estrelado, tendo ao fundo do palco uma árvore iluminada sendo projetada no telão enquanto uma lua descia sobre a cabeça de Paul, que já era abençoada pela gigante bandeira tremulante do Sport Club Internacional. Só quem estava lá sabe o que estava vendo!

Lágrimas rolavam como pedras em colinas, e ainda vinha mais! Paul então comunica que "escrevi essa música para meu amigo John". Nesse momento soltei meu "Mick Jagger" apenas como presente para mim mesmo, pois a interpretação que ele fez para "Here Today" já era um presente mais que especial. A Terra então desceu atrás da lua, e ficamos com apenas Paul, a lua, a Terra e o violão, dando uma pequena desafinada, mas o que era mais bonito era o estádio inteiro em silêncio, ouvindo cada segundo sob aquela maravilhosa noite estrelada. Os celulares ligados pareciam formar mais estrelas no chão do Beira-Rio. É indescritível. Procurem os vídeos e segurem a emoção!

Com o mandolim em mãos veio "Dance Tonight", seguida por "Mrs Vandebilt", para arrebemtar de novo em "Eleanor Rigby". Se não ficou próxima à versão do Esperanto (que é a que eu aprecio de verdade) não dá para negar o poder de cada acorde desse clássico dos Beatles, que começou apenas com o violão de Paul, arrancando aplausos de todos, seguidos pela vocalização do grupo e com as cordas feitas pelo tecladista da banda. Aliás, esse foi um dos poucos pontos negativos. Paul em momento algum apresentou a banda, e, portanto, até agora não descobri quem são os integrantes. O baterista, por exemplo, é um animal, muito bom mesmo.

Paul, com um mandolim um pouco diferente, começou "Ram On", mais uma surpresa, e então ele dedicou a próxima para "o meu amigo George", e aí começou a mais linda canção já composta por um Beatle, "Something", a mais esperada por mim, e não teve como segurar as lágrimas. Somente com o mandolim Paul cantou toda a letra, para então a banda surgir tocando a versão original dessa pérola escrita por George Harrison. Todos cantavam em coro, e o arrepio corria como o sangue pelo meu corpo.

"Obrigado gaúchos", e seguiu-se "Sing the Changes". Então Paul pergunta "would you think about my porrtugueis?". Segue "vou tentar falar porrtugueix, portugueeeix, português", a última perfeitamente, e o Gigante veio abaixo novamente. "Band on the Run" veio apoteoticamente, e então Paul anuncia que "todos vão cantar a próxima sozinhos, sendo que é a primeira vez que essa canção será tocada no Brasil", surgindo uma versão fantástica para "Ob-La-Di, Ob-La-Da", cantada em uníssono novamente.

Aqui o show verdadeiramente começou para os beatlemaníacos, pois a partir de então somente os Fab Four seriam revisitados. Paul soltou um "E aí? Tri legal?" e detonou a antológica "Back in the USSR". Então veio "I've Got a Feeling", com um desafio vocal feito por Paul pela plateia, que segundo ele o público venceu, e "Paperback Writer", com todas as vocalizações que tanto marcaram a carreira dos Beatles.

"A Day in the Life" lembrou-me David Bowie na clássica "Young Americans", e foi encerrada com um coro espetacular cantando "Give Peace a Chance". Então Paul foi para o piano e veio "Let It Be", e com muitas frases que eu queria dizer para algumas pessoas. Não deu, cai em lágrimas novamente!

Fracasso! Confesso, é fracasso, mas não adianta, a letra, a história, o dia, tudo levava para isso, e eu fracassei em lágrimas cantando cada palavra de mais um clássico, enquanto o Beira-Rio novamente era iluminado por celulares. Porém, tenho certeza que algumas das pessoas que eu queria dizer aquelas palavras ouviram elas do próprio Paul no dia de ontem.

Se não tinha mais como me emocionar e surpreender, estava totalmente enganado. "Live and Let Die" surgiu calmamente, na linha da gravação do Guns N' Roses, e então uma enorme explosão começou um show pirotécnico sem igual, com fogos e explosões atrás do palco. Nem as explosões de "One" (Metallica) ou as próprias feitas pelo Guns em "Live and Let Die" se comparam ao que aconteceu no Beira-Rio. O volume era absurdamente apavorante, e eu sentado sentia o chão tremer apenas com a música. A marquise do Beira-Rio tremeu igualmente da primeira lesão de Fernandão em 2004 (momento Colorado aqui). Os gritos do público eram abafados pelo volume altíssimo, que o próprio Paul reconheceu que estava alto demais. Mas isso não foi ruim, pelo contrário, foi extraordinário!

A emoção e a tensão porque a bateria da minha câmera estava acabando me fizeram mais uma vez um fracassado. Embasbacado com o que estava vendo e ouvindo, preparei a câmera para aquela canção que a minha mãe havia me pedido que gravasse, "Hey Jude". Com tudo pronto, eis que Paul começa a canção que ele escreveu em homenagem a Julian Lennon quando este tinha cinco anos e achava que John não gostava dele. Caraca … bastou a primeira palavra para minha face se transformar em um rio de lágrimas, e tão atordoado e emocionado fiquei que acabei não gravando a bendita canção. Eu ali, com a câmera ligada, parecendo filmar e nada. Grande dã! Quando me dei conta já era a hora do "na-na-na" final, então apertei o botão e gravei o Beira-Rio rugindo como numa final, cantando o refrão mais fácil de todos os tempos durante quase cinco minutos. Lágrimas e abraços eram trocados por todos - eu disse TODOS - no Beira-Rio! O momento mais comovente da história do rock no Rio Grande do Sul estava sendo presenciado por mim no dia do meu aniversário! Mãe, me perdoa a falha, mas posso te afirmar, chorei não só pelo Iago, mas também por ti (para quem não sabe, o Iago é o meu filho que não mora comigo, infelizmente!)


A banda agradeceu o público e em 2 horas e 15 minutos deixou o palco pela primeira vez. Enquanto me recuperava das lágrimas, achando que já tinha passado por tudo, mal sabia eu que ainda tinha mais. Paul voltou, e do nada largou "Ah, eu sou gaúcho!". Ninguém esperava aquilo, tanto que, de boca aberta, aos poucos todo mundo gritou o famoso coro que o resto do país acha que é presunção nossa, mas que não é, é apenas uma forma de mostrarmos o orgulho por nossa terra. Após alguns segundos veio "Day Tripper", com uma pegada muito similar a original, e o estádio dançava em uma grande festa de aniversário em que eu era o aniversariante (modéstia a parte, não podia perder a brincadeira).

Paul troca de instrumentos como quem brinca de jogar videogame, tocando guitarra, baixo, piano, órgão, violão e mandolim com uma naturalidade incrível. "Obrigado gautchos, Porto Alegre, Brasil, oh yeah", e vamos de "Lady Madonna" para todo mundo seguir cantando e dançando como nos anos sessenta. Idosos, crianças, jovens, mulheres, homens, todos se abraçavam e vibravam no estádio, mas não era um gol, era um clássico do rock sendo interpretado pela lenda viva que o cômpos!


"Tudo bem com vocês?", "Yeaaaaaaah!", "Pra nós too!". Essa "pra nós too" foi sensacional, e então veio "Get Back". Aqui a marquise do Beira-Rio dançou junto com todo o estádio, e Paul saiu novamente junto com a banda.

Alguns minutos de "Paul, Paul, Paul" e ele volta apenas com o violão para interpretar "Yesterday". Se eu não tinha mais lágrimas, chorei suor e sangue, por que não dava para não chorar com essa letra fantástica, que poderia ter se chamado "ovos mexidos", e virou a música mais tocada e coverizada de todos os tempos. O arranjo orquestral feito pelos teclados, as estrelas, o público inteiro cantando, caraca, me arrepio só de lembrar. Sensacional!

A versão “U2ana” de "Helter Skelter" levantou até os cabelos do suvaco. O peso das guitarras e da bateria estouraram os ouvidos dos pagodeiros que foram para o estádio apenas por causa do nome RBS envolvido no espetáculo, bem como os funkeiros que tentavam dormir no Morro Santa Tereza (localizado ao lado do estádio Beira-Rio). Tenho certeza que até agora esses funkeiros estão se perguntando como pode ter trovejado tanto e não chovido! O longo solo de guitarra foi o feito que nos fez ver que aquilo não era nenhum DVD,ou CD com uns bonequinhos no palco. Aquilo era real!

Terminado "Helter Skelter", Paul apontou para o meu lado, e sei lá por que cantou "Happy Birthday to You" (vá saber quem estava de aniversário naquele lado do palco). Então, apontou para duas meninas que estavam com um cartaz dizendo "Paul, por favor, assine meu braço para eu fazer uma tatuagem". Paul fez a enquete se o público achava que ele deveria assinar o braço das gurias, e então como um bom comediante inglês falou que não seria uma falha dele fazer isso. Também brincou que tinha um cidadão dizendo que era baterista, mas que ele já tinha um baterista nessa turnê. Quem sabe na próxima!

Então as meninas subiram ao palco, e Paul fez elas se apresentarem. A primeira menina, Elisa, era de Porto Alegre, e a segunda, Annie (acho que é esse o nome da guria), de Florianópolis. Aqui o momento vergonhoso do público gaúcho: quando a menina falou Florianópolis metade do estádio vaiou. Uma vergonha! Apesar da rivalidade entre os estados, não precisava disso. Ainda bem que outros aplaudiram e o próprio Paul abraçou a menina e falou "não se preocupe, eu sou de Liverpool, c'mon". Paul assinou o braço das duas garotas, e ainda deu a palheta para Annie, num gesto que somente um lorde pode ter. Quero ver um Axl Rose da vida fazer algo assim!

Então, veio "Sgt Peppers Lonely Hearts Club Band (Reprise)", e infelizmente tivemos que ir depois de 3 horas de show (incrível, mas foram mesmo três horas! O velhinho ainda detona!). Após a saída do estádio, entre abraços e beijos de felicitações dados pelas gurias da serra, comprei minha camisa do show (que no início estava 40 reais e veio para o meu peito por 15) e ainda recebi um jornal exclusivo do grupo RBS trazendo comentários do pré-show e do início da apresentação.




Podem falar o que quiserem, mas a RBS e o Inter souberam promover muito bem o show. Duvido que alguém tenha algo para falar em termos da produção. O show pode ter pecado na organização das filas, mas o som estava ótimo, assim como a organização dos bares, banheiros e segurança foi perfeita, mostrando claramente que mais shows de grande porte podem ser realizados no Beira-Rio.

Cheguei tarde em casa, embasbacado, com fome e sem a mínima noção de que tinha ficado mais de 15 horas sem comer ou beber nada. Na real, eu estava sendo alimentado por um mestre, que somente com sua música e carisma vai dando para diferentes gerações algo que poucos conseguem, que é a capacidade de expressar o que você está sentindo através da música.

E assim encerrou a temporada de shows 2010 para mim. Depois de Metallica, Focus, Guns N' Roses, Grande Mothers, Ney Matogrosso, Mutantes, UFO, ZZ Top, Ozzy Osbourne, Rush e Aerosmith, esse foi o show derradeiro de um ano muito especial!

Com certeza não foi o melhor show que eu já vi, tão pouco foi o mais surpreendente. Saí com a mesma opinião de antes (prefiro Wings do que Beatles, e Stones é muito melhor do que os dois juntos). Faltou a apresentação dos músicos. Faltaram “n” canções clássicas, mas, enfim, posso ser honesto o suficiente para admitir: foi o maior show de rock que o Rio Grande do Sul já viu!
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