segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Trapeze

Um dos power trios mais respeitado entre os fãs e os próprios músicos, o grupo Trapeze é exatamente daqueles que todo mundo fala, mas poucos realmente conhecem a banda à fundo. Desde sua fase inicial como um quinteto, até o encerramento das atividades nos anos 80, já como um quarteto, o Trapeze alternou sonoridades e formações, mas sempre privilegiou ótimos álbuns para os fãs, sendo apenas dois deles como trio.

A história do grupo começa em 1965, com o desmantelamento dos Pinkertons Assorted Colours e do grupo Red Caps. Do primeiro, saía o baterista Dave Holland, e do segundo o guitarrista e cantor Mel Galley. Ambos se encontraram em uma festa no interior da Inglaterra, e lá conheceram o baixista e vocalista Glenn Hughes, que já havia tocado em grupos como Hooker-Lees, The Intruders, The In Pack e The News. Hughes, Mel e Dave passaram a andar juntos, e logo a vontade de formar uma banda crescia.

The Montanas
Foi então que em Londres, encontraram o guitarrista Alan Cless e o vocalista Ian Less, que além de fazer performances solo, também era comediante. Surgia assim o embrião do Trapeze, com o nome de Finders Keepers.

Enquanto isso, o grupo The Montanas fazia um sucesso enorme na cidade de Wolverhampton. Surgido em 1964, esse grupo tinha na sua formação Johnny Jones (voz, flautas), Bill Hayward (guitarra), Terry Rowley (baixo) e graham Crewe (bateria). Ironizando pessoas famosas da Inglaterra e também fazendo interpretações diferentes para canções americanas, e assim, gravaram alguns álbuns para a gravadora Picadilly & Pie Records, com destaque para as faixas "Ciao Baby" e "Anyone There", essa última alcançando a posição 49 nos charts americanos.

Compacto de "You've Got To Be Loved"
Em 1967, o guitarrista Jake Elcock ingressava no Finders Keepers, substituindo Cless, e Graham Hollis tornava-se o baterista da banda no lugar de Dave. Nesse mesmo ano, os The Montanas começavam a discutir internamente, já que as divisões monetárias do dinheiro adquirido com o compacto "You've Got To Be Loved" não agradaram a Jones e Rowley. Ambos acabaram saindo do The Montanas, e ficaram perdidos durante todo o ano de 1968, até que em 1969, encontraram Mel e assistiram uma apresentação do Finders Keepers.

Primeira formação do Trapeze. Em cima: Dave Holland, Glenn Hughes e Mel Galley. Em baixo, Terry Rowley e John Jones.



Jones adorou o som dos Keepers, mas não curtiu o baterista. Conversando com Mel, propôs a ideia de montar uma banda, alegando ter contato com gravadoras e também produtores. O jovem Mel passou a ideia também para o jovem Hughes, e assim, em março de 1969, acabaram saindo dos Keepers, juntando-se a Jones e Rowley, agora tocando teclados. Faltava então um baterista, e como Dave estava desempregado, foi chamado novamente para ocupar a cadeira atrás do bumbo. Surgia assim o Trapeze.

Com essa formação, aparecem no programa Colour Me Pop, que pertencia a gravadora Threshold Records, e logo assinam um contrato com a mesma, que tinha como produtor John Lodge, baixista do grupo Moody Blues. E é justamente ele quem, com a ajuda de Jones, insere cordas e arranjos dentro da sonoridade do Trapeze.
A ótima estreia do Trapeze


Em 1970, era lançado o primeiro álbum da banda, intitulado apenas Trapeze. Um ótimo e diferente álbum que abre com a vinheta "It's Only A Dream", apenas com teclados e violão, com Jones cantando, e que é seguida por "Giant's Dead, Hoorah!", onde um riff de violão e batidas nos pratos apresentam os acordes da canção. Todos cantam juntos nas frases ímpares, enquanto Hughes canta sozinho nas frases pares. O refrão apresenta o riff inicial do violão, e a canção ganha um novo  ritmo, agora com Hughes cantando sobre as vocalizações, chegando ao solo de Mel, em uma linha bem psicodélica. Todos então passam a cantar juntos,  em um leve andamento, e então, a sequência inicial é repetida, encerrando a faixa com a repetição do refrão.

"Over" dá seguimento ao vinil com a guitarra usando uma estranha distorção e teclados fazendo acordes acompanhados pelo baixo. Todos cantam juntos o início da letra, e isso é um dos principais destaques, o trabalho vocal do Trapeze. Bateria, baixo e violão passam a acompanhar os vocais, e Jones canta o refrão sobre um belo arranjo vocal feito por Mel, Hughes, Terry e o próprio Jones. A canção segue no ritmo lento de Dave, com todos cantando juntos, repetindo então o refrão para encerrar-se com os estranhos acordes iniciais do violão e dos teclados

A seguir, flautas, violões e piano fazem a introdução de "Nancy Gray". Hughes passa a cantar acompanhado apenas pelo dedilhado dos violões e por uma marcação nos pratos. O baixo surge acompanhando os violões, e então harmônicos dão sequência a letra, agora com a flauta fazendo um bonito tema ao fundo. O refrão é repetido com a bateria acompanhando, além de ótimas vocalizações, para então harmônicos encerrarem a faixa.

Três canções aparecem em sequência "Fairytale / Verily Verily / Fairytale". Inicialmente, um tema no órgão elétrico traz guitarra, baixo e bateria acompanhando os vocais góspeis de Jones, seguido pelos vocais de Hughes, com intervenções da guitarra de Mel. As estrofes se repetem, e então, os dois cantam juntos o refrão, com solos de órgão ao fundo. Um belo jazz rock com um solo de piano leva a "Verily Verily", que começa lenta somente ao piano, seguido por flauta, violões e baixo. Jones canta tendo o acompanhamento de vocalizações, de forma suave, chegando ao refrão, onde todos cantam juntos. A harmonia vocal é linda, e dela, Hughes surge cantando o final desa parte da canção. O tema da flauta é repetido, assim como o refrão, para então encerrar-se o lado A com a repetição de "Fairytale", um pouco mais raivosa do que a parte inicial.

Trapeze em 1969. de ternos e bem diferentes do power trio que consagrou-se posteriormente

O lado B abre com "It's My Life", onde teclado, órgão e baixo introduzem essa linda balada. O violão passa a dedilhar acompanhando os vocais de Jones, e então, a bateria aparece, comandando levemente essa canção que tem como ponto de destaque o refrão, onde todos cantam juntos.

"Am I" têm baixo e violões acompanhando um solo de baixo, para Terry cantar essa canção que lembra muito filmes de faroeste, com destaque para o solo de violão feito por Mel.

A macabra "Suicide" começa apenas com o órgão executando um acorde assustador, trazendo baixo e bateria, com intervenções da guitarra. Todos passam a cantar juntos, sobre a marcação do baixo e da guitarra. O refrão é cantado por Jones, entre viradas do hammond e então, a primeira estrofe é repetida mais uma vez. O refrão é retomado, e após mais uma repetição da primeira estrofe, entramos na sessão instrumental onde o hammond sola tenebrosamente sobre o andamento do baixo e da bateria, encerrando a faixa com a viajante sessão onde Jones delira com os seus acordes.

"Wings" possui a guitarra que faz o dedilhado seguida por baixo e bateria, em um rock sessentista onde Hughes solta a voz, e "Another Day" apresenta violões e teclados juntos aos vocais de Jones e Hughes, acompanhados por baixo e um bumbo fazendo marcações. A bateria surge cadenciando esta balada que possui outro belíssimo arranjo vocal, sendo que um deles, certamente inspirou um dos trechos de "Mistreated".

Por fim, "Send Me No More Letters" apresenta orquestrações acompanhando os vocais de Jones, em uma alegre balada com um refrão grudento onde as cordas são o principal destaque, nessa que é a canção mais conhecida deste ótimo LP de estreia do Trapeze, que encerra-se com a repetição da vinheta "It's Only A Dream".
Compacto de "Send Me No More Letters"
Apesar de ser um ótimo disco, tanto que o programa BBC Radio One praticamente o tocava na íntegra, Trapeze vendeu muito pouco, e o dinheiro arrecadado não foi o suficiente para agradar o tenebroso e dinheirista Jones. Brigas começaram a surgir principalmente entre Jones e Hughes, além do fato de os Montanas terem conseguido pagar o que devia para Jones e Rowley. Isso motivou Jones a largar os "garotos" Hughes, Mel e Dave, e com a aprovação de Rowley, ambos retornaram para os Montanas, deixando o trio com uma mão na frente e outra atrás.

Porém, nem tudo era inferno. O contrato com a Threshold previa mais um LP. Mel e Hughes decidiram seguir adiante, contando com Dave na bateria e mudando a sonoridade da banda, aproximando-se do hard rock que se fazia a época e com Hughes pilotando os teclados. A contribuição de Lodge também foi importante, agora não do ponto de vista musical, mas sim motivacional, já que Lodge via em Hughes um talento a ser descoberto.

O ótimo segundo álbum do Trapeze


Então, em 1971, era lançado o espetacular Medusa. Uma paulada totalmente diferente do álbum de estreia. O riff de Mel e Hughes já mostram a nova cara do Trapeze em "Black Cloud", bem mais dançante e swingada do que se fazia à época. Violões fazem os acordes que trazem os vocais de Hughes, chegando novamente no riff principal. O órgão de Hughes aparece em alguns momentos, mas essa faixa acaba sendo diferente do resto do álbum, como vemos em "Jury", onde acordes de violão e baixo introduzem a canção, com Hughes cantando sobre os dois acordes executados pelos instrumentos, de forma sinistra e triste.

O volume do baixo aumenta, chegando a entrada da bateria, e então Mel e Hughes dividem o riff principal. Hughes canta com raiva e o andamento feito por Dave junto ao riff de Mel e Hughes é emocionante. Do nada, a canção para, e Mel puxa um segundo riff, sozinho. Hughes passa a acompanhar o riff no baixo, enquanto Dave faz diversas viradas, para Hughes começar a cantar sobre um andamento mais rápido do que a primeira parte da canção, chegando ao solo de Mel, onde acompanhado pelos gritos de Hughes,  desfila notas e vibratos. Hughes retorma a letra com o segundo andamento sempre fiel ao seu lado. Os violões voltam executando os dois acordes iniciais, enquanto Hughes encerra uma pérola da carreira do Trapeze com rasgadísimos riffs de Mel acompanhando seus gritos.

"Your Love is Alright" traz o slide guitar de Mel e o baixo de Hughes fazendo o riff inicial. Mel então larga o slide e passa a acompanhar o baixo, para Hughes começar a cantar, com Dave acompanhando o riff no cymbal. Após a primeira aparição do refrão, congas são ouvidas acompanhando o cymbal. O refrão é repetido, e chegamos ao solo de Mel, dançante e animado, encerrando o lado A com a repetição do refrão e deiaxndo a expectativa de "como será o lado B?".

O power trio Dave Holland, Mel Galley e Glenn Hughes

O lado B abre com "Touch My Life", onde o riff da guitarra é acompanhado pelo cymbal, trazendo os vocais de Hughes, e então o baixo entra, tornando a faixa pesada e mais dançante. A medida que a canção vai desenvolvendo-se, o riff já está na sua cabeça, e você praticamente sai cantando o solo de Mel, pois o riff é extremamente grudento: 3 acordes dedilhados ligados diretos aos ossos do seu ouvido.

"Seafull" e sua fabulosa entrada, onde Mel faz um dos riffs mais lindos da história do rock, deixando a guitarra gemendo de dor sobre o bluesístico andamento de Hughes e Dave, é a próxima. Hughes começa a cantar de forma leve e o andamento segue. Os gritos de Hughes arrepiam até a unha do pé, chegando ao refrão, onde a bateria de Dave comanda as marcações que o baixo e a guitarra fazem. Mel começa a solar com muitos arpejos e um órgão surge, para Hughes então dar sequência a letra. Essa é uma das melhores interpretações vocais de Hughes, digna de premiação. O refrão retorna, e então Mel repete o riff inicial, para Hughes repetir novamente o refrão, encerrando assim esse excelente blues.

O boogie de "Makes You Wanna Cry" lembra muito "Come Together" (Beatles), e é cantada por Mel e Hughes, com bastante peso no refrão, que entoa o nome da canção. O andamento muda para o solo de Mel, tornando-se ora swingado, ora no ritmo inicial, e a letra é retomada, encerrando a faixa com a repetição do refrão.

Por fim, "Medusa" abre com violões, com mais outro bonito riff de Mel. Hughes canta soberbamente, acompanhado apenas pelos violões. Baixo e bateria entram fazendo marcações, e então, guitarra, baixo e bateria executam o pesado riff principal que leva ao refrão da canção, onde o dedilhado de Mel e o peso do baixo de Hughes são fortes e demolidores. O peso segue no solo de Mel, que leva então aos violões do início da faixa, para Hughes retomar a letra. Um crescendo entre guitarra, baixo e bateria enquanto Hughes manda ver nos seus agudos, leva ao riff pesado, onde aí sim, Hughes estraçalha as cordas vocais, encerrando magistralmente o melhor LP do Trapeze.

A nova formação do Trapeze, bem mais pesada, acabou conquistando fãs pela europa, principalmente na Alemanha, e assim, o grupo partiu para uma turnê pela Inglaterra (onde John Bonham fez uma participação especial), tendo John Ogden nas congas, e seguindo para datas nos Estados Unidos, onde o single de "Black Cloud" alcançara posições impensáveis (décimo lugar), sendo um sucesso principalmente no Texas. O nome de Hughes começava a aparecer para o mundo, como um promissor baixista e um ótimo vocalista, empregando a pureza da soul music e do blues em uma voz branca que ninguém possuia.

Voltando para a europa, começam a registrar o segundo álbum com a nova formação. Hughes já pensava em assumir as guitarras, pois a ideia de "um promissor baixista" não era aceito. Mel sugeriu que ele seguisse no baixo, e então, em algumas canções ao vivo Hughes passaria a tocar guitarra, com o baixo sendo assumido por Pete Mackie.
O LP preferido dos fãs

Em 1972 saia aquele que é considerado por muitos como o álbum que melhor representa o som do Trapeze, You Are The Music ... We're Just The Band. Das oito faixas, cinco são compostas somente por Hughes.  O álbum começa com "Keepin' Time", uma composiçao de Mel com seu irmão, Tom Galley, onde o riff pesado, com Dave usando os dois bumbos, é seguido por Hughes, que eterniza a frase "Don't stop the music" nos anais do rock. O funk pega no solo de Mel, onde B. J. Cole abusa do slide. O riff inicial retorna, e Hughes mantém a letra, repetindo o refrão para Mel solar, agora com a guitarra contando com uma leve distorção, levando ao final da faixa com vários solos de Mel.


"Coast to Coast" vem a seguir, com Hughes ao piano, tendo a companhia do violão e do slide de B. J. Cole introduzindo a canção. Dave faz uma rápida virada, e Hughes canta essa ótima balada sobre o riff inicial, tendo a participação de Rod Argent no piano elétrico. Durante o sensacional solo de Mel, B. J. Cole novamente está presente com o slide.
As vocalizações de Hughes já de caram entoam o nome da próxima faixa, "What Is A Woman's Role", com Mel puxando o riff junto com o piano elétrico de Kirk Duncan, e apresentam outra dançante e leve balada, perfeita para um sábado à noite ao lado da namorada. Destaque total para a interpretação vocal de Hughes. O solo de Mel conta com a percussão de Ogden, relembrando momentos de Come Taste The Band, principalmente pelas famosas "engasgadas" que Tommy Bolin fazia e pelas vocalizações no encerramento da faixa.

O lado A encerra-se com "Way Back to the Bone". Um clássico! O riff que caracteriza o som do Trapeze dali em diante, feito com as cordas abafadas, e Dave soltando o braço, trazem os vocais de Hughes recheado por uma sonzeira feita por guitarra, baixo e bateria. A guitarra está como destaque principal, mesclando peso e swing em doses certas, encerrando muito bem o lado A com um ótimo solo de Mel que é seguido por vocalizações e pela sequência final da letra.
Formação consolidada: Galley, Holland e Hughes

O lado B começa com "Feelin' So Much Better Now". Outra boa faixa contando novamente com Rod Argent no piano. Um rock pesado, com um refrão grudento onde Hughes exibe seus agudos inconfundíveis.

"Will Our Love End" possui vibes feitos por Frank Ricotti e vocalizações que abrem essa balada onde novamente Hughes justifica por que poderia ser o vocalista principal do Deep Purple. Uma interpretação fenomenal acompanhada por baixo, vibes, bateria e o sax de Jimmy Hastings. No refrão, a guitarra aparece fazendo algumas intervenções, chegando ao breve mas bonito solo de Mel. Hughes dá sequência a letra, retomando o refrão e depois, acompanhado apenas pelo sax e vibes, Hughes dá mais um show particular, encerrando a faixa com mais uma repetição do refrão.

Por fim, as duas últimas canções que não são composições de Hughes. A primeira delas é "Loser", onde um ritmo embalado toma conta das caixas de som. Mel solta o riff de um lado enquano Hughes solta a mão no baixo do outro, ambos sendo acompanhados pela cadência de Dave. Hughes começa a cantar e a swingueira pega. Um refrão forte, mas que particularmente, para mim é a faixa mais fraca do LP, apesar da ótima sessão a capela feita por Hughes.

A segunda, e que encerra o LP, é a clássica "You Are The Music". A mão direita de Mel e o baixo de Hughes criam um riff imortal. É a faixa onde o estilo de cantar de Hughes mais se destaca, com gritos, resmungos e gemidos que somente ele sabe fazer. O refrão é daqueles "levanta público", apenas repetindo o nome do LP, e o solo de Mel é sensacional, com Hughes solando junto no baixo de forma muito veloz. Outro destaque é a ótima cadência de Dave, que com a companhia da percussão, incrementa ainda mais a já dançante faixa que encerra outro álbum clássico do Trapeze.

O Trapeze saia em turnê mais uma vez, agora com mais datas pelos Estados Unidos. You Are The Music ... vendia como água no verão, e tudo parecia correr bem para os lados do trio. Porém, durante a turnê, Ritchie Blackmore contacta Hughes e o convida para virar um Purple. Com uma oportunidade única na mão, mas lamentando muito ter que sair do Trapeze, Hughes aceita, mas antes, encerra a turnê europeia do Trapeze, e vai se tornar um dos maiores nomes do baixo e dos vocais, fazendo uma das mais belas duplas vocais da história ao lado de David Coverdale.
Mel e Dave viam-se sozinhos, e pior sem mais o apoio de Lodge, já que o contrato com a Threshold estava sendo encerrado.  A solução foi lançar uma coletânea com duas canções inéditas: "Good Love" e "Dat's It", e assim lançaram em 1974 The Final Swing, ao mesmo tempo que convidam Pete Wright para subsituir Hughes no baixo. Mel assume o posto de vocalista, e também passa a ser o guitarrista solo, já que Rob Kendrick passava a ser o guitarrista base.
O primeiro aĺbum sem Hughes


O Trapeze então assina um contrato com a Warner Records, e com vários convidados, tendo uma pressão enorme por ser o primeiro álbum da banda como quarteto e precisando manter o nome do Trapeze lá em cima, em 1974 lançam "Hot Wire", que mantém o nível de seu álbum antecessor, apesar da sentida ausência de Hughes, começando com "Back Street Love", onde o riff inicial traz um curto solo de guitarra e os vocais de Mel na mesma linha e melodia de Hughes. No solo, espaço para Rob e Mel fazerem breves frases, em uma boa faixa de abertura.

Sem intervalos, chegamos em "Take it Down the Road", com mais um riff grudento e com o mesmo embalo da faixa anterior, onde o baixo e a guitarra dividem o mesmo espaço marcando o tempo para Mel cantar. No refrão, backing vocals entoam o nome da canção, e Mel manda ver com o wah-wah. A faixa encerra com uma rápida participação do sax de Chris Mercer.

O funkzão de "Midnight Flyer" bota as pernas para dançar. A participação dos sintetizadores e das congas de Ogden dão um charme especial à faixa. Viradas somente com baixo, guitarra e bateria mudam o clima da canção no refrão, apresentando os backing vocals de Kenny Cole e Misty Brown, mas a swingueira segue na sessão instrumental, que começa com um solo de sintetizador feito por Terry Rowley, passa por Mel e retorna novamente para Terry, levando então ao ótimo solo de Mel

"Make Up, Shake Up" encerra o lado A com um belo rock onde o baixo de Pete ganha destaque. Temos mais um refrão grudento com Mel esbanjando talento com o slide no seu primeiro solo. Rob e Mel passam a solar juntos na segunda parte da canção, encerrando com a repetição dos riffs iniciais.

Trapeze com Rob Kendrick e Pete Wright

"Turn It On" abre o lado B com o riff de baixo e guitarra indicando que mais swing vem por ai, e é exatamente isso o que acontece. Outra embalada faixa comandada pelo repetitivo riff de Pete e Rob, enquanto Mel sola e canta sobre o swingado acompanhamento de Dave. Ouça o refrão, com a entrada dos sintetizadores, e imagine-se dentro de Stormbringer ou Come Taste the Band.
Apenas as guitarras trazem os vocais de Mel para cantar "Steal A Mile". As guitarras vão dando ritmo, e então, bateria e baixo passam a acompanhar os vocais, com a faixa desenvolvendo-se em cima dos acordes de Mel e Rob, e com as vocalizações femininas se fazendo presentes no refrão, ao lado do slide de Mel. A faixa ainda conta com um breve solo de sax.

"Goin' Home" tem a guitarra de Rob mandando o riff de um ótimo e viajante boogie, que é seguido pelo baixo e pela guitarra de Mel. Dave entra e o volume das guitarras sobe, para Mel começar a cantar. Destaque para os solos, onde entre camadas de sintetizadores, Mel no canal esquerdo e Rob no canal direito lutam entre si, com acordes, bends e vibratos muito interessantes.
O disco encerra com os viajantes 9 minutos de "Feel It Inside". As vocalizações femininas logo de início, junto com o riff swingado de Mel, vão apresentando a canção, com a adição de baixo, congas e bateria. Mel começa a cantar e em seguida chega no refrão, recheado de vocalizações. Após a repetição da letra, a canção possui um pequeno trecho um pouco mais pesado, o qual tem vocalizações que apresentam o solo de piano elétrico de Terry, seguido pelo solo de Mel, onde ele em uma caixa usa o slide e na outra sola com a guitarra limpa. A parte mais pesada re-aparece e então voltamos ao swing e ao seguimento da letra. O refrão é repetido, e as vocalizações femininas cantando "Can You Feel It", acompanhadas pelo swing, levam ao encerramento da faixa e do LP com muito swing e solos de slide.

Muitos criticaram o lançamento de Hot Wire, dizendo que a Warner havia colocado muita pressão em cima de Mel, qu enão conseguia cômpor músicas ao nível de Hughes. Isso não é bem verdade, já que Hot Wire tem ótimas composições. Obviamente, não pode ser comparado com o que foi realizado antes, mas é um bom disco, que com todas as críticas contra, alcançou a posição 146 nos charts americanos.
Trapeze em ação (1975)

O grupo partiu por mais uma turnê (a última até então) pelos Estados Unidos e Inglaterra, sendo que um dos shows, realizado no Boat Club de Nottingham, em 1975, foi registrado para um possível álbum ao vivo, o que só iria acontecer 31 anos depois.


Mel e Dave decidiram seguir com o Trapeze, já que a Warner havia fechado um contrato para dois álbuns, e com o mesmo time de Hot Wire, foi para os estúdios, onde novamente convidaram vários músicos como Rod Argent e um convidado mais que especial. 
 
O menosprezado, mas muito bom, Trapeze


Em 1976, saía Trapeze, que se tornou o álbum para qual os fãs mais torcem o nariz, mas que está no mesmo nível de Hot Wire (se não acima), começando com 
"Star Breaker", onde o riff marcante, contando com metais e seguido pelos vocais de Mel, apresenta um hard típico do Trapeze, com o refrão enaltecendo o nome da canção. Destaque para a participação dos metais no solo de Mel.

"It's Alright" possui violões seguidos pelos vocais de Mel, que sola ao slide. Percebe-se claramente a intenção de ressucitar a melodia vocal de Hughes, e apesar de Mel possuir uma voz bem mais grave, aqui funciona muito bem, em uma interessante balada onde acordes de órgão são ouvidos durante o solo de Mel
 

Violões também estão presentes na introdução de "Chances",  executando alguns acordes e harmônicos. Para surpresa dos ouvintes, Hughes surge cantando a canção, cuja autoria pertence a ele, Mel e Tom Galley. Ótima e suave faixa, somente com violão, vocais e intervenções de piano elétrico.

Após uma pequena contagem, surge o riff de baixo e guitarra, e a swingueira toma conta em "The Raid", com Rob e Pete confrontando a guitarra de Mel. Os vocais surgem e o funk que o Trapeze sabia fazer como poucos toma conta das caixas de som, com Mel e Rob dividindo os solos. Outro destaque é a incansável marcação de Holland. O confronto inicial é repetido, encerrando a faixa com uma rápida repetição da primeira estrofe da canção.

O lado A encerra-se com "Sunny Side of the Street", onde uma nova contagem dá início a um animado boogie,  com interessantes solos de piano e slide guitar
Poster da turnê de Trapeze

O lado B abre com Gimme Good Love, onde o pesado riff , com teclados e guitarras, repete a receita de "Star Breaker", porém sem os metais. "Monkey" é um boogie que lembra ZZ Top, com um ótimo trabalho de guitarras.

Já "I Need You" começa com baixo e bateria trazendo as guitarras levemente, em uma canção simples e que não chama muita atenção, apesar do refrão grudento e do solo de slide guitar.

"Soul Stealer" possui um ótimo início de guitarras, apresentando mais uma boa canção, com bons momentos instrumentais e contando a participação de piano elétrico e violões

Por fim, "Nothin' For Nothing" traz o riff clássico da guitarra, seguido por Rob, Dave, Pete e um curto solo de Mel, além dos vocais de Hughes, em um boogie lento e safado, que deu mais alguns anos de vida para o Trapeze, ainda mais com o refrão, que ficou conhecidíssimo entre os fãs da banda. Destaque para o solo de guitarras, cujo riff lembra muito "Parasite" (Kiss).

Anúncio do retorno do Trapeze em 76
Após o lançamento de Trapeze, o fim da banda era anunciado, mas não por muito tempo. Ainda em 76, Hughes saía do Deep Purple, e noticiava ao mundo o retorno do Trapeze com o line-up que gravara Medusa e You Are The Music ... . Um novo álbum de músicas inéditas bem como uma turnê mundial estavam previstos para acontecer. Por fim, várias datas nos Estados Unidos foram cumpridas, e as gravações que seriam do novo LP do Trapeze viraram o primeiro álbum solo de Hughes, o espetacular Play Me Out (1977).

Mesmo assim, os incansáveis Mel e Dave entusiasmaram-se com o retorno aos palcos, e seguiram mais uma vez com o Trapeze, agora chamando os ex-Fables Peter Goalby (voz) e Peter mackie (baixo). O grupo logo partiu para turnê, abrindo então para o Nazareth, voltando para os estúdios onde registram Hold On.

O derradeiro Hold On
Em 1978, contando com a participação de Marvin Spence (Wishbone Ash) e Geoff Downes (Asia, Buggles, Yes) era lançado o último e derradeiro álbum da carreira do Trapeze. Mantendo a linha da fase quarteto, o álbum começa com "Don't Ask Me How", com a bateria de Dave seguida pelo slide de Mel apresentando uma dançante canção, onde os vocais de Goalby dão uma cara mais moderna e leve para a banda, aproximando-se do pop.

O riffzão abafado seguido pelo andamento da bateria e do baixo introduzem "Take Good Care", com uma bela participação de Dave, além de vocalizações fortes entoando o nome da canção e lembrando muito o Grand Funk da fase posterior a Shinin' On. Outro belo destaque é o solo de Mel.

Violões e guitarra estão presentes no início do boogie "When You Go To Heaven", com a linha de baixo de Pete se destacando, bem como o andamento de Dave e as vocalizações. Outra apetitosa e embalante faixa.

O mesmo ocorre em "Livin' On Love", onde solos de guitarra apresentam o violão embalando a faixa para os vocais plantianos de Goalby. Um ótimo refrão entoando o nome da canção faz dessa uma das melhores canções do álbum, sendo a mais funkeada de todo o álbum.

O lado A encerra-se com a fraca faixa-título, com Goalby tentando imitar as linhas vocais de Hughes, mas passando muito longe, em uma faixa chata e que serve apenas para encher o vinil.
Peter Goalby

Já o início do lado B, com "Don't Break My Heart", é uma obra para ser apreciada pelos admiradores do hard farofa. A bela introdução com arranjo de cordas e piano é seguida por uma bela balada, que transforma-se em uma embalante e grudenta canção, com frases que ficarão na cabeça por alguns dias.

Uma introdução na linha de "Gimme Shelter" (Rolling Stones) é seguida por um ótimo som chamado "Running", bem na linha AOR, onde o maior destaque vai para os riffs de Mel, as vocalizações divididas entre Mel e Goalby e a ótima levada de Pete e Dave. As variações entre as vozes de Goalby e Mel são excelentes, assim como os momentos em que cantam juntos. Não sei como essa canção não virou trilha de alguma propaganda de cigarros. A melhor faixa do LP, com um ótimo solo de Mel, e com um refrão impossível de tirar da cabeça. 
A sessão da introdução volta ao ritmo AOR, e assim, o nome da canção volta para sua cabeça e fica gravado por horas.
 
A guitarra dedilhada abre "You Are", seguida dos vocais de Goalby. Aos poucos, a banda vai surgindo, comandando uma leve balada, que conta com os teclados de Downes e com um bonito solo de cordas encerrando a faixa junto ao solo de Mel.

O LP encerra com "Time Will Heal", onde barulhos de vento entre os acordes dedilhados de Mel introduzem mais uma bela balada, levada pelo ótimo andamento de Dave e pelos acordes de Dave e Downes, onde Goalby canta muito no refrão, entoando o nome da canção. Destaque paraa o bonito arranjo de cordas no solo de Mel, com os violinos duelando com a guitarra e arrancando lágrimas de quem está ouvindo, encerrando apenas com o barulho das ondas do mar.

Versão alemã de Hold On
Hold On foi lançado com capa e nome totalmente diferentes na Alemanha e na europa da cortina de ferro. Por lá, o LP virou Running, tendo quatro lindas loiras nuas exibindo-se para o fã. Essa versão é muito rara, mas para quem a encontrar, vale a pena o investimento tanto pela capa quanto pelo som.

Antes do início da turnê de divulgação de Hold On, Dave recebe o convite para ingressar no Judas Priest, onde registraria um dos maiores clássicos da carreira da banda, British Steel (1980), além de Point of Entry (1981), Screaming for Vengeance (1982), Defenders of the Faith (1984), Turbo (1986) e Ram it Down (1988), além do ao vivo ... Live (1987).

Steve Bray substituiu Dave, e assim, seguiram excursionando, até que em 1981, o trapeze lançava seu primeiro álbum ao vivo: Live in Texas: Dead Amarillos, mas então foi a vez de Goalby sair, indo substituir Graham Bonnet no Rainbow de Ritchie Blackmore, o que não durou muito tempo, e depois virando o front man do Uriah Heep no lugar de John Sloman, gravando os álbuns Abominog (1982), Head First (1983) e Equator (1985).

O Trapeze continuou com Mel, Bray, Mervyn Spence (baixo e vocais, ex-Big Daisy) e Richard Bailey (teclados). Essa formação excursionou abrindo para Edgar Winter, até que Bray foi substituído por Kex Gorin (ex-Magnum). Um novo álbum começava a ser gravado, mas nessa mesma época, Mel ingressou no projeto Phenomena ao lado de Tom Galley, Glenn Hughes, Brian May, John Wetton, Tony Martin entre outros. 

A vaga caiu no colo de Rob Kendrick novamente,  que acabou excursionando pelos Estados Unidos em 1981 com o Trapeze tendo uma nova formação,com Mike Mikeska na bateria e Buck Judkins no baixo. Essa formação assinou com a Geffen Records, e começou a gravar um álbum que nunca foi lançado.

O Trapeze chegava ao fim, com Rob indo parar no grupo Cloven Hoof, e posteriormente paricipando do álbum The Last Stage, do grupo Budgie. Já Hughes, depois de lançar alguns discos solos, ingressou no Black Sabbath, onde registrou o ótimo Seventh Star (1986), além de ter participado dos álbuns do Phenomena. Mel participou de Slide It In, lançado pelo Whitesnake em 1984, sendo um dos principais responsáveis pela mudança de sonoridade do grupo de Coverdale.


Em 1991, o trio Hughes, Dave e Mel se juntava para algumas apresentações, tendo Geoff Dones como músico adicional. Dessas apresentações, saiu o excelente álbum ao vivo Welcome to the Real World - Live at the Borderline 1992, lançado em 1993, com clássicos como "You Are the Music", "Coast to Coast" e "Black Cloud".

Em fevereiro de 1994, nova reunião para um show em Nova Iorque em homenagem a Ray Gillen. Os rumores de uma volta definitiva deram origem a várias datas nos Estados Unidos e na Inglaterra, tendo Craig Erickson como um dos guitarristas ao lado do trio Hughes/Mel/Dave.
Trapeze 1994
Apresentação no tributo à Ray Gillen
Em 1996 foi lançada a coletânea High Flyers: The Best of Trapeze, e em 1998, uma compilação ao vivo intitulada Way Back to the Bone resgatava apresentações das turnês de Medusa e You Are the Music ..., bem como do retorno com Downes. Em 2003 saiu On the Highware, trazendo canções desde o início da carreira do Trapeze, mesclando versões inéditas de estúdio e também apresentações ao vivo. 
O primeiro ao vivo oficial com Hughes
Mel Galley acabou falencendo de câncer no esôfago em 1 de julho de 2008, aos 60 anos de idade. Em sua carta despedida, deixou anunciado aos fãs que "vocês são a verdadeira música, eu apenas fazia parte da banda!", uma declaração emocionante e apaixonada tanto para os fãs quanto para o Trapeze, a banda onde Galley tocou por mais tempo.
Mel e Hughes meses antes da morte de Mel
Como homenagem, Hughes vem reativando canções do Trapeze em seus shows. Nada mais justo para aqueles que nunca puderam ver a performance ao vivo de uma das bandas mais importantes da história do rock, não só por revelar Dave Holland, Mel Galley, Peter Goalby e Glenn Hughes ao mundo, mas por fazer um som justo, honesto e principalmente, sensacional.

Frank Zappa - Guitar [1988]


 
Por Mairon Machado (Publicado originalmente no blog Consultoria do Rock)


Há alguns anos, conversando com um grande amigo meu especialista em Frank Zappa, fui indagado: "Cara, qual disco do Zappa tu recomendarias para alguém que nunca ouviu?". Na hora eu respondi: "Grand Wazoo", e ele balançou a cabeça negativamente, dizendo que não servia e tecendo dezenas de razões para as quais uma pessoa que nunca ouvira Zappa sairia correndo ao ouvir aquele que é o melhor disco já lançado por ele na minha opinião.

Ficamos sem resposta, e depois de muitas semanas, voltei na casa dele e falei: "
In New York". Novamente não deu certo. A coisa inveredou por anos, mas recentemente, quase nove anos depois, eu falei com ele de novo e perguntei: "Lembra daquele disco do Zappa que eu recomendaria? Pois esse é o Guitar!!!". Como uma alegria de final de futebol, largamos um "aeeeeew, é Esse" e fomos ouvir a bolacha dupla lançada em 1988.

Frank Zappa em ação no ano de 1981
O leitor pode até achar estranho, um LP do Zappa, lançado em 88, ser o mais indicado para ser iniciado na carreira do maior gênio da música no século passado, só que com certeza o é. Dentro de uma carreira tão vasta quanto a de Zappa, que para os perdidos era um excelente guitarrista, ótimo compositor, maestro, vocalista, inventor, mestre, pai, mãe, filho, sobrinho e tudo o mais que você possa imaginar, Guitar apresenta apenas solos de Zappa gravados entre 1979 e 1984, desmistificando o que muitos arrotam por ai na maior ignorância, que Zappa sempre se apoiou em grandes guitarristas para fazer seus solos.

Longe disso, Zappa foi um dos principais guitarristas de todos os tempos, e nas 19 faixas do vinil (32 no CD duplo), ouvimos e aprendemos que subir no palco não é para qualquer um, já que Zappa e banda exalam virtuosismo, técnica e feeling.


Banda de Zappa com Steve Vai (mostrando o peito)


Com músicos como Steve Vai, Vinnie Colaiuta,  Bobby Martin, Ike Willis, Scott Thunes, entre outros, o que torna esse LP mais apetitoso é o fato de podermos ouvir vários gêneros que Zappa construiu durante toda sua carreira, e que ficavam relegados apenas a álbuns específicos (como o rock de Hot Rats ou a psicodelia de Sleep Dirt). Assim, ouvimos blues ("Sexual Harassment in the Workplace", "For Duane"), rock'n'roll ("Sunrise Redeemer", "Jim & Tammy's Upper Room", "Winos Do Not March"), muita psicodelia ("Republicans", "Once Again, ,Without the Net", "Move It or Park It", "But Who Was Fulcanelli"), reggae ("That's Not Really Reggae"), boogie ("Systems of Edges") e saborosas baladas zappianas ("Do Not Pass Go", "When No One Was No One", "Outside Now", "Were We Ever Really Safe in San Antonio?")

Destaques maiores para o embriagante reggae de "Things that Look Like Meat", a linda viagem de "GOA", o delírio musical de "That Ol' G Minor Thing Again" e o excepcional encerramento com o melhor solo da história do rock, "Watermelon in Easter Hay", em uma versão comovente e de chorar.

A resposta foi achada, e depois de ouvir esse LP, basta pegar seu estilo preferido e ir atrás dos demais discos de Zappa que se encaixam no mesmo.

Zappa e banda, em um show de 1984
Track list (do vinil):
1. Sexual Harassment in the Workplace
2. Republicans

3. Do Not Pass Go
4. That's Not Really Reggae
5. When No One Was No One
6. Once Again, without the Net
7. Outside Now
8. Jim & Tammy's Upper Room
9. Were We Ever Really Safe in San Antonio?
10. That Ol' G Minor Thing Again
11. Move It or Park It
12. Sunrise Redeemer
13. But Who Was Fulcanelli?
14. For Duane
15. GOA

16. Winos Do Not March
17. Systems of Edge
18. Things That Look Like Meat
19. Watermelon in Easter Hay

Podcast Grandes Nomes do Rock #4: David Bowie [1967-1975]



 

Por Mairon Machado (Publicado originalmente no blog Consultoria do Rock)

O podcast Grandes Nomes do Rock dessa semana apresentará a primeira parte em homenagem a David Bowie, narrando a carreira do cantor desde 1967 a 1975.




David Robert Jones nasceu em 08 de janeiro de 1947, e se interessou por música desde cedo. Aos 5 anos já tinha lições de piano, e aos 8, de saxofone e violão. Em 1964, fundou sua primeira banda, os King Bees, que lançaram apenas um compacto de sucesso zero. Por sugestões de amigos e empresários, David mudou seu sobrenome para David Bowie, já que David Jones era um dos líderes de uma famosa banda dos anos 60, os Monkees. Bowie era exatamente a marca da faca que acabara deixando uma marca registrada na carreira de Bowie, uma espécie de "olho de vidro", pois quando adolescente, em uma briga, agrediram-o com a faca que acabou abalando as estruturas da córnea do olho de Bowie.


Bowie na época de Space Oddity
O cantor assinou contrato com a Deram Records e lançou seu primeiro LP em 1967, muito influenciado pela onda beat, e tendo várias canções com orquestrações. Em 1969, com Rick Wakeman nos teclados e produção de Tony Visconti, lançou o segundo álbum, Space Oddity (ou Man of Words/Man of Music), um tratado de manisfestos inspirado nas obras de Bob Dylan, onde o principal destaque foi a faixa-título, uma obra prima que senta o ferro na Guerra Espacial dos anos 60.


Bowie como Ziggy
Vieram ainda The Man Who Sold the World e Hunky Dory, ambos de 1971, com uma sonoridade já mais pesada e tendo como banda de acompanhamento Mick Ronson (guitarras), Woody Woodmansey (bateria), Tony Visconti (baixo) e  Rick Wakeman (teclados). Dessa banda, Ronson, Woodmansey (agora como Mick Woodmansey) e mais Trevor Bolder (baixo) fariam parte dos Spiders from Mars, o grupo de apoio do personagem Ziggy Stardust. É com esse personagem que Bowie alcança o status de estrela do rock, definindo ao mundo o estilo Glam Rock e fazendo do LP The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, lançado em 1972, o álbum mais importante da década de 70, no mesmo nível que Sgt, Pepper's Lonely Hearts Club Band fora em 1967.


Ziggy era um astro do rock marciano, que na Terra, alcançara o estrelato tocando guitarra com a mão-esquerda, tendo posição bissexual e exibindo um traje com roupas coladas ao corpo, tintura na face e nos cabelos e muita, mas muita polêmica. Em 1973, Ziggy cometeu suícidio em pleno palco, e Bowie criava um novo personagem, Alladin Sane. Bowie assim ganhava o apelido de Camaleão do Rock, devido as várias faces que assumiria dali em diante.


Com Alladin e os Spiders, lançou Alladin Sane (1973), um álbum bem mais rock'n'roll, com forte influência dos Rolling Stones. Com Aynsley Dunbar no lugar de Woodmansey, lança Diamond Dogs (1974), um álbum baseado na obra "1984", de George Orwell. Um álbum excelnte, com experimentações e ótimas letras, que ficou registrado por ser o último álbum do Spiders from Mars. David partiu para uma longa turnê que culminou no álbum David Live (1974), mudando-se então para os Estados Unidos, onde consolidaria sua carreira em uma forma totalmente diferente do que fizera até então, como veremos na segunda edição.

Discos de Bowie entre 1967 e 1974
Track list do Podcast # 03 - Covers

Bloco 01
Abertura: Moby Dick [do álbum 
Make A Difference Foundation: Stairway to Heaven/Highway to Hell - 1989 (Drum Madness)]
Johnny B. Goode [do álbum 
Ram It Down - 1988 (Judas Priest)]
Cum On Feel the Noize [do álbum 
Metal Health - 1983 (Quiet Riot)]
Aces High [do álbum 
Wages of Sin - 2001 (Arch Enemy)]
My Generation [do EP 
Lord of the Flies - 1995 (Iron Maiden)]
I Don't Mind [do álbum
 My Generation - 1965 (The Who)]
Bloco 02
All Along the Watchtower [do álbum Electric Ladyland - 1968 (Jimi Hendrix)]
Heaven and Hell [do álbum Magic: A Tribute to Ronnie James Dio - 2010 (Manowar)]
Sheep [do álbum Dark Side of the Moon: Official Bootleg - 2006 (Dream Theater)]
The Court of the Crimson King [do álbum Killing Ground - 2001 (Saxon)]

Bloco 03
With A Little Help From My Friends [do álbum 
With A Little Help From My Friends - 1968 (Joe Cocker)]
Every Little Thing [do álbum 
Beyond & Before: BBC Recordings 1969-70 - 1998 (Yes)]
Bad Boy [do bootleg 
New in Town - 1973 (Rush)]
Lady Madonna [do álbum 
A Banda Tropicalista do Duprat - 1968 (Mutantes)]
Nowhere Man [do álbum
 One Live Night - 1995 (Dokken)]  

Bloco 04
Abertura: Ol' 55 [do álbum On the Border - 1974 (Eagles)]
Fortunate Son [do álbum July 11 03 Mansfield, Massachusetts - 2003 (Pearl Jam)]
God of Thunder [do álbum Sons of Satan Praise the Lord - 2002 (Entombed)]
Do You Remember Rock n' Roll Radio [do álbum We're A Happy Family - 2003 (Kiss)]
When I Was Young [do álbum Acid Eaters - 1993 (Ramones)]
Shapes of Things (To Come) [do álbum We Want Moore! - 1984 (Gary Moore)]


Encerramento: Knockin' On Heaven's Door [do bootleg
 Live at Rock in Rio III - 2001 (Guns N' Roses)]

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Maravilhas do Mundo Prog: Supertramp - Brother Where You Bound [1985]



O ano é 1985. O rock dito "progressivo" já havia falecido, sido enterrado e estava apodrecendo em algum cemitério do mundo da música. Os dinossauros como Yes, Pink Floyd e Genesis se venderam para um pop barato e digestivo, arrebatando fãs nos EUA (principalmente), vendendo milhões de discos, mas fugindo totalmente da sonoridade que os consagraram nos anos 70. Outros, como King Crimson e Gentle Giant, viraram uma espécie de new age que não durou mais do que cinco anos. Jethro Tull, Rush, Premiata Forneria Marconi e Focus se perderam em um mundo eletrônico de onde demorariam anos para sair. E alguns, por pura conveniência, formaram grupos como o Asia, uma excelente banda AOR, com ótimos músicos, mas que no fundo não tinha nada a ver com o progressivo. Fora todos os outros que se enterraram por si mesmos (Van der Graaf Generator, Emerson Lake & Palmer, Henry Cow...)

Mas uma banda, que nem era tão progressiva assim, fez valer o título de rock progressivo justamente nesse ano. Estou falando do Supertramp. Os mais desavisados até podem pensar em jogar as pedras, mas o Supertramp já flertara com o progressivo antes, principalmente no seu álbum de estreia, Supertramp (1970), que tinha nas guitarras Richard Palmer (que depois iria fazer as letras do King Crimson), e que contava com uma Maravilha chamada "Try Again". Depois, "Aries" (1971), "Rudy" (1974) e outra Maravilha, "Fool's Overture" (1977) sempre davam as caras do progressivo que o Supertramp podia, mas se negava a fazer.

Os remanescentes: Dougie Thomson, Bob Siebenberg
John Helliwell e Rick Davies 

Em 1983, o Supertramp sofria o maior baque da sua carreira. Cansado e depressivo, o vocalista, guitarrista, tecladista, compositor, cobrador de escanteio e cabeçeador do mesmo Roger Hodgson decidia pedir arrego e ficar em casa com a família, deixando Rick Davies (piano, órgão, voz), John Helliwell (sax, flautas, instrumentos de sopro, voz), Bob Siebenberg (bateria) e Dougie Thomson (baixo) praticamente na mão.

Rick tinha uma banda no auge do sucesso, que havia eternizado álbuns como Crime of the Century (1974), Breakfast in America (1977) e ...Famous Last Words (1982) no hall dos maiores discos da história, e se via no desafio de manter esse status. Depois de um ano de férias, Rick voltou à ativa, e começou a planejar o primeiro álbum do Supertramp sem Roger.

Algumas canções foram criadas, e nesse meio tempo, Rick sentiu falta das guitarras de Roger em suas canções. Em uma conversa com Helliwell, desabafou, e falou que precisava de um guitarrista tão bom quanto Roger, um cara no nível de David Gilmour, e que via em um guitarrista de estúdio da gravadora A&M (gravadora do Supertramp à época) a solução para o problema.

Foi então que um dos gerentes da A&M, Jordan Harris, ao ouvir a conversa, entrou na sala e falou: "Mas por que não o próprio Gilmour?". Gilmour estava estacionado com o Pink Floyd, brigando pelo nome da banda contra Roger Waters, e recebera uma demo do Supertramp para fazer parte da banda. Porém, Gilmour pretendia reativar o Floyd, mas como um bom cavalheiro, aceitou participar das gravações do próximo LP do Supertramp.

No final, Gilmour participou apenas da faixa título, "Brother Where You Bound", que também contava com Scott Gorham (Thin Lizzy e cunhado  de Bob), e registrou nos sulcos do LP Brother Where You Bound algo que em 1985 já não se pensava mais em ouvir.

 Os bonecos simbolizando a guerra entre
EUA (azul) e URSS (vermelho)

"Brother Where You Bound" é uma canção-manifesto contra a Guerra-Fria e o socialismo. Rick concentrou-se na famosa obra 1984 (de George Orwell) e começou a expandir a letra da canção jogando no ventilador de todos aqueles que participavam da Guerra Fria, com uma direção certa nas cabeças americanas e soviéticas. 

Logo na abertura, falas narrando 1984 são ouvidas entre acordes de sintetizadores, até entrar no hino socialista/comunista "The Internationale", o qual é executado por uma flauta tocada por Scott Pages, chegando no piano de Davies, que começa a dedilhar alguns acordes e a cantar "There is a red cloud hanging over us". O nome da canção surge acompanhado de marcações de baixo, guitarra e bateria, e Rick segue dedilhando o piano com intervenções agonizantes da guitarra de Gilmour. O nome da canção é repetido novamente, e então, ganhamos um ritmo.

Gorham puxa uma espécie de marcha nas guitarras, e assim Rick vai declamando seu poema-manifesto ("and the message that they're giving you is the same old alibi ... and the phone rings and you disappear in the middle of the night") enquanto o ritmo marcial acompanha o poema com uma cadência que somente a cozinha do Supertramp Bob/Dougie sabia fazer.

Rick volta a dedilhar sozinho, e após um breve solo de sax, retorna ao poema, com Helliwell fazendo intervenções ao invés de Gilmour, e então voltamos ao ritmo marcial, onde Gilmour solta alguns riffs até entrarmos em um arrastado blues, com Gilmour solando tipicamente enquanto Rick ao piano, berra o poema com a velha emoção dos tempos de Crime of the Century, sentando o ferro nos chefões dos EUA e da URSS, em frases como "and your mind is weak ... your blood's runnin' cold".

 
 Rick Davies, David Dilmour, Bob Siebenberg, 
Scott Gorham, John Helliwell e Dougie Thomson

A canção então vira uma hipnotizante viagem de ida para um lugar nunca visitado. Piano, percussão, sax e gritos de protesto tomam conta das caixas de som, simbolizando todas as manifestações contra a guerra ao redor do mundo. Acordes aleatórios são jogados como balas e pessoas dentro da multidão, até finalmente vozes e gritos serem ouvidos, encerrando com passos desperados correndo por uma rua. 

Os mesmos passos parecem agora caminhar sobre um jardim, trazendo então o lindo riff criado por Gilmour, e assim, baixo e guitarra acompanham marcialmente este riff enquanto percussão, piano elétrico e sintetizadores, fazem intervenções, chegando ao excepcional solo de flugelhorn feito por Helliwell, acompanhado por pratos e sintetizadores. Essa parte da canção é linda e viajantemente viajante.

Uma espécie de sirene é ouvida, cada vez mais rápida, para a canção estourar novamente no ritmo marcial, com um curto solo de Rick, que retoma a letra e a encerra com um belo "Don't be a fool we better move on".

Helliwell então puxa o riff do andamento marcial, e assim, com o acompanhamento preciso de Bob e Dougie, armam a cama para Gilmour solar durante alguns minutos, encerrando a maior e mais delirante canção do Supertramp, que está escondida em um dos álbuns mais injustiçadas da história, mas que tem o nome de uma Maravilha do Mundo Prog.
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