segunda-feira, 30 de maio de 2011

Podcast Grandes Nomes do Rock #21: Alice Cooper


Por Mairon Machado (Publicado originalmente no blog Consultoria do Rock)


O Podcast Grandes Nomes do Rock dessa semana homenageia uma verdadeira lenda viva do rock'n'roll, Alice Cooper. Esse artista foi um dos primeiros a usar da teatralidade em seus shows para chamar a atenção dos fãs e também da imprensa, tendo no palco, bizarrices como guilhotinas, forcas, cadeira elétricas, bonecos, sangue e muitos outros apetrechos. Fazendo um hard rock de primeira categoria ao lado do grupo Alice Cooper, e depois em uma carreira solo com muitos altos e baixos, Alice Cooper permanece até os dias de hoje como um dos mais ousados artistas já surgidos na música americana, principalmente pela sua capacidade de criação musical e também conceitual, com personagens diversos sendo empregados para ilustrar as histórias de seus álbuns.

Em uma hora e meia de programa, passaremos por sua carreira que compreende quase cinco décadas de muito som, com canções ao lado da Alice Cooper Band, canções de sua fase solo, versões originais para canções que Alice gravou em sua carreira, covers de grandes nomes do rock para canções de Alice Cooper e participações do artista ao lado de outros grandes nomes do rock.



Vincent Damon Furnier nasceu em 04 de fevereiro de 1948 em Detroit, Michigan, Seu pai, Ether Monori Furnier era pastor da Igreja de Cristo, uma ramificação da Igreja dos Santos do Último Dia, onde o jovem Vincent cresceu ativamente aprendendo os ensinos religiosos até a idade de 12 anos, vivendo em diversas cidades durante a infância, mas estabelecendo-se principalmente a própria Detroit.


No feriado de 04 de julho de 1961, Vincent começou sentiu-se mal, sendo levado às pressas para o hospital onde foi constatada uma grave infecção. Vincent acabou sendo internado e ficando cada vez mais doente, perdendo muito peso, até que um belo dia, um milagre aconteceu, e depois de um ano, Vincent conseguiu se reabilitar. Esse período no hospital foi fundamental para a formação cultural de Vincent, já que nele ele viveu muitas das experiências que colocaria em suas canções.



Em 62, Vincent ingressou na Cortez High School, onde passou a trabalhar no jornal da escola e também a divulgar um show de talentos. Porém, o principal mérito do jovem Vincent era o atletismo, onde ele inclusive conseguiu bater o recorde da maratona de 26 milhas de Phoenix.

Uma das primeiras apresentações de Alice Cooper
Em 64, Vincent formou sua primeira banda, ao lado de colegas da escola que não sabiam tocar instrumentos. Os The Earwigs fizeram um grande sucesso em sua primeira apresentação, onde vestidos como Beatles, acabaram interpretando diversas canções dos Fab Four através de um sistema de dublagem que agradou ao pessoal que os assistiu os garotos durante o show de talentos, tanto que o grupo foi eleito os melhores. Este foi o primeiro passo para o futuro Alice se tornar um rei da música teatral.


Os Earwigs eram formados por Vincent (vocais, guitarras), Glen Buxton (guitarra), John Tatum (guitarra), Dennis Dunaway (baixo) e John Speer (bateria), e vendo que podiam alcançar sucesso com a música, decidem largar as dublagens e dedicar a aprender seus instrumentos, batizando agora o grupo de The Spiders, cuja inspiração maior se dava na Invasão Britânica de grupos como Yardbirds, Kinks, The Who, e claro, Beatles e Rolling Stones.


Apresentação dos Spiders (Vincent no vocal)
Os Spiders passaram a tocar frequentemente na região de Phoenix (cidade onde Vincent viveu sua adolescência), e em 65, registraram seu primeiro single, "Why Don't You Love Me" / "Hitch Hike", onde Vincent é o responsável por tocar harmônica. Já em 1966, Michael Bruce substituiu Tatum, e o grupo atingiu o primeiro lugar nas rádios de Phoenix com a canção "Don't Blow Your Mind", do segundo single do grupo, cujo lado B é a faixa "No Price Tag".


The Nazz
O sucesso do novo single fez com que os Spiders conseguissem fazer shows em lugares longe de Phoenix, inclusive com uma pequena temporada em Los Angeles. Lá, rebatizaram-se como The Nazz, e lançaram mais um single, "Wonder Who's Lovin' Her Now" / "Lay Down and Die, Goodbye". É nesta época que Speer acaba sendo substituído por Neal Smith, e no final do ano, o grupo muda-se de vez para Los Angeles.


Logo no início de 68, descobrem que outro grupo com o nome The Nazz já existia (esse, liderado por Todd Rundgren). Como acreditavam que o grupo precisava de algo que chamasse realmente a atenção para poder fazer sucesso, o nome adotado foi Alice Cooper, mesmo nome que Vincent passou a usar artisticamente, nascendo então uma das maiores lendas do rock mundial.

A primeira performance do Alice Cooper foi surpreendente, com todos vestidos de mulheres e com Vincent (ou melhor, Alice) fazendo o papel de uma assassina. Obviamente, a performance do grupo chamou a atenção de todo, e cada vez mais o quinteto começou a se especializar nas atrações de palco. Com exceção de Smith, que havia se formado na Camelback High School, todos os demais membros do grupo (apenas relembrando, Alice Cooper, Glen Buxton, Michael Bruce e Dennis Dunaway) eram formados na Cortez High School. Ainda, Cooper, Buxton e Dunaway havia estudado arte, onde desenvolveram gosto particular pelo trabalho surrealista de Salvador Dali, o que inspiraria posteriormente as performances de palco.

Depois de um show não bem sucedido no Cheetah Club em Venice, Califórnia, conseguem, através do empresário Shep Gordon, uma audição com Frank Zappa, que procurava músicos bizarros para assinar com o seu selo, o Straight Records. Esse é um fato curioso e engraçado na carreira de Alice Cooper. Zappa marcou o horário da apresentação das músicas para sete horas. O grupo entendeu como sendo realmente sete da manhã, e não sete da noite. Então, as sete horas da manhã, Zappa foi acordado por um rock psicodélico que acabou impressionando-o e muito, levando a Alice Cooper assinar com o Straight e se tornando a principal banda de divulgação ao lado das GTOs. 

No ano de 1969, era lançado o primeiro álbum de Alice Cooper, Pretties for You, produzido por Frank Zappa e que ficou famoso mais pelo visual do grupo do que pelas suas composições tipicamente psicodélicas. O grupo partiu para uma série de shows, sendo o do dia 13 de setembro de 1969, no Canada Varsity Stadium em Ontario, que ocorreu um dos mais famosos escândalos da carreira do grupo. Neste show, por acidente, Alice acabou matando uma galinha em pleno palco, e como o fato chamou a atenção da imprensa, o grupo decidiu investir nas bizarrices par provocar e chamar mais atenção, criando um novo subgênero no rock, o Shock Rock.

Esse famoso incidente com a galinha ocorreu no Toronto Rock and Roll Revival, em setembro de 1969. Uma galinha apareceu no palco do nada, durante a performance do grupo. Alice pensou que, por a galinha ter asas, ela poderia voar. Então, ele pegou a galinha e acabou jogando-a ao público, na expectativa de que a galinha voasse. Porém, a galinha acabou pousando exatamente na primeira fila, que acabaram fazendo pedaços da pobre ave.


Alice Cooper Group (1973)
Você pode conferir que Alice apenas joga a galinha viva e nada mais par ao público aos 11 minutos e 40 segundos dessa insana e esquizofrênica apresentação do grupo. No dia seguinte, o incidente era capa dos jornais com a manchete "Alice arranca a mordidas cabeça de galinha e bebe seu sangue no palco". Prontamente, Zappa ligou para Alice perguntando se aquilo realmente tinha acontecido. Como Alice percebeu o sucesso que estava ocorrendo, ele não disse nem que sim e nem que não, dando origem a mais uma lenda em torno de seu nome.

No ano de 1970, chegou as lojas Easy Action, agora produzido por David Briggs, seguido de mais uma bem sucedida turnê. No início do ano seguinte, as coisas finalmente começam a acontecer para o Alice Cooper, já que conquistam seu primeiro hit com a faixa "I'm Eighteen", que foi lançada no excelente Love it to Death, o qual marca o início dos trabalhos do grupo com o produtor Bob Ezrin. E na turnê de Love it to Death que fica marcado o aparecimento de muitos dos efeitos visuais apresentados a partir de então nos shows do grupo, como a cadeira elétrica (posteriormente substituída pela forca na turnê do álbum seguinte, e pela guilhotina anos depois), a cobra kachina, a enfermeira gostosona (interpretada pela irmã de Neal Smith, Cindy Smith) e a camisa de força.


Depois da turnê, ainda em 71, lançam um dos melhores discos do hard setentista, Killer, marcando a estreia do grupo com a Warner Bros. e com destaque para as canções "Halo of Flies", "Desperado" e "Under My Wheels". Na turnê de Killer, o grupo abandona suas vestes femininas e passa a usar um visual mais mórbido e depressivo, o que tornava os shows cada vez mais horripilantes, e com o álbum, o Alice Cooper conquistou seu primeiro disco de ouro. 


A capa original de School's Out, contando com a calcinha embrulhando o vinil


O sucesso de Killer não parou, e no ano seguinte, outro grande álbum foi lançado pelo grupo. School's Out emplacou a faixa-título, que se tornou um hino para os adolescentes não somente pela sua poderosa qualidade sonora mas também pela sua temática contra as regras das escolas. A capa deste LP é uma das mais bem elaboradas (em sua versão original), sendo em formato de uma antiga carteira escolar que você abria e se deparava com uma foto com diversos aparatos guardados por um garoto em sua carteira. Além disso, o vinil vinha envolto a uma calcinha de papel, cobiçadíssima pelos colecionadores nos dias de hoje. 


A nota de um bilhão de dólares
O sucesso não parava, e depois de mais uma bem sucedida turnê, o grupo lançou Billion Dollar Babies em março de 1973, outro disco que pode ser rotulado como um dos melhores da carreira do grupo, destacando a faixa-título, a cover para "Hello Hooray", "Elected" e a clássica "No More, Mr. Nice Guy". No encarte, uma gigantesca nota de um bilhão de dólares era dada aos fãs. A turnê deste álbum, que pode ser conferida no DVD Good to See You Again, é considerada pelos historiadores de Alice como sendo a mais bem produzida de todas, e é nela que Alice usa pela primeira vez suas botas de Leopardo.


A capa original de Muscle of Love, em formato de caixa



O último álbum com o Alice Cooper foi Muscle of Love, lançado em novembro de 73 em mais uma embalagem produzida, em formato de caixote de cargas, e que foi o primeiro a não contar com a produção de Bob Ezrin. A turnê de Muscle of Love foi especial, principalmente pelos brasileiros, que puderam conferir a parafernália dos palcos do grupo com as apresentações no Pavilhão de Exposições do Anhembi (São Paulo) e também no Maracanãzinho (Rio de Janeiro). Estes foram os últimos shows como Alice Cooper Group, com Alice seguindo então carreira solo e Bruce, dunaway e Smith formando o Billion Dollar Babies, que lançou apenas um álbum, Battle Axe (1977). O Alice Cooper Group acabou em meio ao lançamento da coletânea Greatest Hits (1974).


A única formação do Alice Cooper: Glen Buxton, Vincent Furnier (Alice Cooper), Michael Bruce, Dennis Dunaway e Neal Smith


Em fevereiro de 1975, Alice lança seu primeiro álbum solo, Welcome to My Nightmare, destacando a canção "Only Women Bleed" e seguida de uma turnê nos mesmos moldes dos shows do Alice Cooper Group, porém com mais apetrechos, como esqueletos dançantes, aranhas e ciclopes gigantes, cemitérios e diversas narrações entre as canções, que podem ser conferidas no DVD Welcome to My Nightmare. Além disso, esse LP marca o retorno de Alice com Bob Ezrin.
Jornal brasileiro comentando sobre o show de Alice


Em julho de 76, e também com a produção de Bob Ezrin, Alice Cooper Goes to Hell mantém a sequência de bons álbuns. Lace and Whiskey (1977), foi lançado poucos meses antes de Alice internar-se para resolver seu vício com o alcoolismo. Enquanto estava na clínica, Alice participou do filme Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, ao lado de Bee Gees e Peter Frampton, interpretando o papel de Father Sun, e viu chegar as lojas seu primeiro álbum ao vivo, The Alice Cooper Show


Alice saiu do internato e seguiu a tour de Lace and Whiskey, participando do filme Sextette e fazendo uma clássica apresentação no programa The Muppet Show, interpretando "You And Me" ao lado de Miss Piggy e mas duas canções ("School's Out" e "Welcome to My Nightmare"). Em dezembro de 78, From the Inside tornava-se o primeiro álbum de Alice sóbrio, narrando histórias de um hospício onde ocorre fatos vividos realmente por Alice e outros apenas imaginários.

Depois da turnê desse álbum, Flush the Fashion apresenta Alice aos anos 80, com o músico tendo um visual bem diferente. Special Forces (1981) segue o estilo de seu antecessor, e traz uma regravação para "Generation Landslide" (originalmente do álbum Billion Dolar Babies). Em 82, Zipper Catches Skin foi o primeiro álbum do músico a não contar com uma turnê de divulgação.


DaDa, lançado em 1983, mostrava a dificuldade de Alice voltar a emplacar sucessos, sendo um fracasso comercial. Então, o cantor decide se afastar da música por algum tempo, voltando-se mais para sua carreira cinematográfica. Três anos depois, lançou Constrictor, que traz composições mais parecidas com o auge dos anos 70. 


A re-descoberta de boas composições por Alice é ampliada em Raise Your Fist and Yell, lançado em 1987, onde "Prince of Darkness" é o maior destaque. Alice voltou aos palcos e seu nome novamente aparecia na mídia. Depois de mais de um ano fazendo shows, em 89 lança Trash, álbum que contém seu maior hit, a canção "Poison", além das coletâneas Prince of Darkness e The Beast of Alice Cooper.


Alice no cinema, intepretando o pai de Freddie Krueger
Hey Stoopid é lançado em julho de 91, mesmo ano que Alice participa do filme Freddy's Dead: The Final Nightmare, interpretando o pai do famoso personagem Freddy Krueger. Depois de mais um hiato de três anos, The Last Temptation é lançado em 1994, com Alice bastante influenciado pela sonoridade grunge. A versão original deste álbum contém um gibi, que hoje é muito cobiçado pelos colecionadores.


Em 95, Alice volta ao Brasil durante a turnê de The Last Temptation, a qual foi registrada no ao vivo A Fistful of Alice, lançado em 1997, ano que marcou a trágica morte do guitarrista Glen Buxton. No enterro de Buxton, o Alice Cooper Group voltou a reunir, fazendo uma pequena apresentação em homenagem ao seu antigo colega de seis cordas.

Alice Cooper, lenda viva do rock



A caixa The Life and Crimes of Alice Cooper, repleta de raridades é lançada em 1999, e depois de quase seis anos, Alice lançou Brutal Planet (2000), um álbum pesadíssimo, que fez Alice voltar ao bom número de vendas. Da turnê desse álbum, foi registrado o DVD Brutally Live, e ainda em 2000, Alice participa do projeto British Rock Symphony, interpretando as canções "Star Me Up" e "5:15". A turnê desse projeto trouxe Alice novamente ao Brasil, para apresentações em São Palo, Porto Alegre, Belo Horizonte e Rio de Janeiro.


Em 2001 lançou a sequência de Brutal Planet, intitulada Dragontown, e em 2003, o aclamado The Eyes of Alice Cooper, destacando a canção "I'm So Angry". Dois anos se passaram e Dirty Diamonds chegou as lojas em 2005, seguido dos ao vivo Live at Cabo Wabo '96 e Live at Montreux 2005, esse último lançado em 2006. Outro hiato e em 2008, Alice lançou seu último álbum de estúdio até o momento, Along Came A Spider

A deliciosa caixa Old School

Depois de mais um ao vivo, Theatre of Death: Live at Hammersmith 2009 (2010), e do lindo caixa Old School, trazendo raridades entre 1964 e 1974 em uma caixa repleta de mimos para os fãs,com 4 CDs, um DVD, um LP com uma rara apresentação da turnê de Killer, um compacto-réplica do único single do The Nazz, um livro-calendário e ainda diversos outros apetrechos, Alice colocou novamente sua parafernália na estrada, e atualmente, está de passagem mais uma vez pelo Brasil, apresentando-se em Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo com a turnê No More Mr. Nice Guy, somente com clássicos de sua carreira.


Álbuns com Alice Cooper Group
Álbuns da carreira solo

Track list Podcast # 20 : Paul McCartney

Bloco 01
Abertura: "Kreen-akrone" [do álbum McCartney - 1970]
"Honey Don't" [do álbum For Sale - 1964 (The Beatles)]
"She's Leaving Home" [do álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band - 1967 (The Beatles)]
"Revolution # 9" [do álbum The Beatles - 1968 (The Beatles)]
"Something" [do álbum Abbey Road - 1969 (The Beatles)]

Bloco 02
Abertura: "Secret Friend" [do álbum McCartney II - 1980]
"The Back Seat of My Car" [do álbum Ram - 1971]
"The Girl is Mine" [do álbum Thriller - 1983 (com Michael Jackson)]
"Ebony and Ivory" [do álbum Tug of War - 1982 (com Stevie Wonder)]
"Twenty-Five Fingers" [do bootleg The Studio Collaboration - 1992 (com Elvis Costello)]
"Why So Blue" [do álbum Memory Almost Full - 2006]

Bloco 03
Abertura: "Somebody Who Cares" [do álbum Tug of War - 1982]
"Band on the Run" [do álbum Band on the Run - 1973 (Wings)]
"Medicine Jar" [do álbum Venus and Mars - 1975 (Wings)]
"Nineteen Hundred and Eighty Five [do bootleg Fall '74 EMI, Abbey Road Studio - 1974 (Wings)]
"Rockestra Theme" [do bootleg Last Flight - 1979 (Wings)]

Bloco 04
Abertura: "Talk Now Talk"
"Exposition / We Can Work it Out" [do álbum The Book of Taliesyn - 1968 (Deep Purple)]
"Eleanor Rigby" [do álbum Last Tango - 1975 (Esperanto)]
"Yesterday" [da apresentação no programa Fantástico - 1972 (Elis Regina)]
"Maybe I'm Amazed" [do álbum Long Player - 1971 (Faces)]
"My Love" [do álbum The Way of Love: The Cher Collection - 2000
            (Cher)]

Encerramento: "Hope of Deliverance" [do álbum Off the Ground - 1993]

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Yazoo


Existem grupos que nascem para não fazer sucesso. Porém, sua importância na história acaba sendo fundamental para o nascimento de um outro grupo, onde esse segundo grupo, acaba se tornando uma das maiores bandas de um determinado estilo musical. Um exemplo prático que temos no rock é o da Band of Joy, um grupo que praticamente não fez sucesso na década de 60, ma que de suas entranhas, gerou nada mais nada menos que o vocalista e o baterista de um gigante do rock mundial, o Led Zeppelin.

No mundo do pop não é para menos. Antes de diversas bandas conhecidas e famosas surgirem, seus músicos peregrinaram por diversos ambientes "experimentando" as sonoridades que os tornariam famosos posteriormente. E o mais clássico desses grupos-embriões é o homenageado da vez aqui no A Little Respect. Estamos falando do Yazoo.

O Yazoo (também conhecido nos Estados Unidos apenas como Yaz) é um duo musical de synthpop formado por Alison Moyet (vocais) e Vince Clarke (sintetizadores, programações). Ah, você já ouvi falar de Vince Clarke! Sim, é o líder/fundador do grupo que batizou nossa sessão, o Erasure.


Depeche Mode em 1981 (Clarke é o primeiro da direita para a esquerda)
Em 1981, Vince havia acabado de sair do Depeche Mode, logo após gravar o essencial Speak & Spell (1981), um dos melhores discos da carreira do grupo, apresentando as imortais "Just Can't Get Enough" e "New Life". As insatisfações com a direção musical que o Depeche Mode estava tomando (que o levaria posteriormente a criar álbuns mais densos, com destaque para os excelentes Violator (1990) e Songs of Faith and Devotion (1993), acabaram levando Clarke em busca de um caminho sólido dentro do mundo dos sintetizadores.

Enquanto o Depeche Mode estourava na Inglaterra, Alison trabalhava como afinadora de pianos e também cantando em diversos grupos de punk rock na cidade de Essex (leste da Inglaterra), além de ter feito alguns "bicos" em grupos como The Vandals, The Vicars, The Screamin' Ab Dabs e The Little Roosters.

O contato entre Alison e Clarke ocorreu justamente por Alison ter se tornado uma fã do Depeche Mode. Alison procurou Clarke para mostrar seu fascínio pelo grupo, e acabou mostrando seus dotes vocais para o músico, que agradado com o que ouviu, propôs a ideia de montarem uma dupla nos moldes do que Clarke havia projetado para o seu antigo grupo. Surgia assim o Yazoo, nome dado em homenagem a um antigo selo especializado em blues, o Yazoo Records.


A dupla Yazoo
Como Clarke ainda tinha contrato vigente com a Mute Records, mesma gravadora do Depeche Mode, o Yazoo acabou sendo mais um membro da Mute inglesa, assinando também com a Sire Records para ter seus discos lançados nos Estados Unidos.

O início nos Estados Unidos não foi dos melhores, já que a dupla recebeu uma ameaça de multa de 3 milhões e meio de libras por causa do uso do nome Yazoo, já que no país existia um pequeno grupo de rock com o mesmo nome. Por causa disso acabaram tendo o nome modificado para Yaz (apenas no mercado americano).

Acertada a questão relativa ao nome, Clarke e Alison começaram a cômpor material para a gravação do primeiro álbum, e em pouco tempo, lançaram o primeiro single. "Only You" chegou as lojas no dia 15 de março de 1982, e rapidamente alcançou a segunda posição nas paradas britânicas. No lado B deste single, está outro clássico da carreira do Yazoo, "Situation".

Álbum de estreia do Yazoo

O sucesso do single de "Only You" levou rapidamente a Mute Records produzir o primeiro LP da dupla, e em 23 de agosto de 1982, chegava as lojas Upstairs at Eric's, que apresentava a forte linha pop desejada por Clarke no Depeche Mode. O disco abre com "Don't Go", onde os sintetizadores apresentam o conhecido riff da canção, trazendo os vocais de Alison acompanhados pelo riff e a batida eletrônica de Clarke. Nesta canção, o Yazoo conta com a participação de Daniel Miller nos sintetizadores, e o clipe da mesma foi um sucesso na MTV.

Single de "Don't Go"
Daniel também participa da faixa seguinte, "Too Pieces", recheada de bateria eletrônica e sintetizadores com outro riff bem conhecido. Essa canção é tipicamente embrionária do que Clarke faria anos depois com o Erasure, contando inclusive com um pequeno solo de sintetizador.

"Bad Connection" apresenta os sintetizadores de Clarke elaborando um riff próximo ao rock 'n' roll, em uma dançante canção que transforma-se entre um rock anos 50 e um pop eletrônico bem oitentista, com as linhas vocais de Alison saindo de algm álbum de Jerry Lee Lewis. As vocalizações no refrão também nos causam essa boa sensação de ouvirmos o rock da década de 50 com toda a "modernidade" dos oitenta, e a canção encerra-se com uma chamada telefônica.

Essa chamada telefônica é a abertura da experimental e viajante "I Before E Except After C", onde uma voz pré-gravada (que eu fortemente acredito ser do apresentador John Pell, tamanho o sotaque britânico da mesma) vai sendo mesclada com diversas falas aleatórias que formam o corpo da canção. Os sintetizadores de Clarke aparecem executando um estranho tema, seguido por algumas notas que serão repetidas durante quatro estrofes, e a canção, psicodélica e maluca, acaba apenas com vozes femininas saindo do meio da multidão de vozes mescladas.

Alison e Clarke (1982)
A bela introdução a capela de Alison em "Midnight" apresenta os eletrônicos de Clarke em uma leve canção que passaria despercebida se não fosse a introdução, e o lado A encerra-se com "In My Room", onde algumas falas são seguidas pelos sintetizadores que fazem um tema similar ao de "I Before E Except After C", com Alison cantando de forma pausada e sem causar muitos atrativos.

Single de "Only You"
O lado B abre com "Only You", onde os eletrônicos apresentam a voz de Alison na canção mais próxima ao que o Erasure veio a fazer depois, destacando o tímido solo e Clarke. Essa canção foi composta por Clarke ainda quando pertencia ao Depeche Mode, e inclusive Clarke chegou a oferecê-la ao grupo antes de sair, mas eles recusaram, e quis o destino que se torna-se no primeiro grande sucesso do músico pós-Depeche Mode. Além do segundo lugar no Reino Unido, ela chegou na sexagésima sétima posição na Billboard americana. Um dos principais pontos de destaque para "Only You" está na sua melodia, a qual é composta por diversos sintetizadores monofônicos que foram tocados ao mesmo tempo para alcançar a profunda e densa linha eletrônica da canção.

Depois, é a vez de "Goodbye Seventies" nos situar que estamos nos anos 80, com o riff dos sintetizadores sendo grudento, e o acompanhamento dos eletrônicos fazem dessa uma das melhores do álbum, onde a letra cantada por Alison dá adeus aos rocks dos anos setenta e incentiva a vinda dos sintetizadores para fazer o novo som dos oitenta.

Single de "Situation"
Então, a clássica "Situation" surge com aquele que é o principal riff do Yazoo, e que até sua vó conhece. A levada tipicamente pop dos eletrônicos de Clarke é o destaque desta que é a única composição feita em colaboração por Clarke e Alison. O refrão é o ponto alto, além do longo solo de eletrônicos. "Situation" saiu como lado B de "Only You" no Reino Unido, e foi lançada como single apenas nos Estados Unidos, onde chegou na posição 73. Além disso, tornou-se a primeira canção do grupo a chegar ao topo da parada Hot Dance Club Play da Billboard, no verão de 2, permanecendo nessa posição durante quatro semanas.

A linda "Winter Kills" vem na sequência, com a marcação de uma batida trazendo o bonito tema de Alison ao piano. Alison canta uma linda balada jazzística tendo apenas o acompanhamento de seu piano e da marcação, em uma emocionante interpretação, com "Bring Yoir Love Down (Didn't It)" encerrando o LP trazendo o riff dos sintetizadores bem parecidos com o de "Don't Go", em uma canção pop construída sobre acordes de blues e com mais um grudento refrão.

Single de "The Other Side of Love"
Upstairs at Eric's alcançou sua melhor posição no Reino Unido, onde ficou em segundo lugar e conquistou platina. Depois, conquistou a nona posição na Nova Zelândia, décima primeira na Suécia e décima quarta na Alemanha. Além dos singles de "Only You" e "Situation", mais dois singles foram lançados:"Don't Go" / "Winter Kills" (05 de julho de 82), que chegou na terceira posição, e "The Other Side of Love" / "Ode to Boy", lançado em novembro e chegando na décima terceira posição, sendo este gravado durante a curta turnê de divulgação do álbum.

Em 99, um remix de "Only You" entrou no Top 40 das paradas inglesas, chegando na décima sexta posição na Hot Dance Music/Club Play da Billboard americana, tendo inclusive um novo vídeo produzido especialmente para promover esse emix, utlizando-se do software Houdini 3D animation para executar todos os movimentos do clip. Vários artistas regravaram "Only You" com o passar dos anos, destacando The Flying Pickets, em uma famosa versão lançada no Natal de 1983, a qual alcançou a primeira posição nas paradas inglesas e se tornou a canção um dos símbolos de canções natalinas a partir de então; Enrique Iglesias, no single lançado em 97 que também chegou a primeira posição nos Estados Unidos; Judy Collins, Richard Clayderman, Lemon Ice, Jason Donovan e muitos outros. 

Moylet e Clarke em estúdio

Já "Situation" ficou marcada pelo seu sintetizador e pela risada de Alison, a qual inclusive foi sampleada em diversas canções, tendo maior destaque para o hit latino "Macarena". Além disso, recebeu uma versão cover feita por Tom Jones em 94 e diversas remixagens com o passar dos anos. "Don't Go" foi outra que acabou recebendo outras remixagens, além de um clipe apresentando uma recriação para O Fantasma da Ópera.


Último LP do Yazoo
Depois da mini-turnê de divulgação, a dupla voltou para os estúdios, lançando em 04 de julho de 1983 You and Me Both. O álbum fez tanto sucesso quanto seu antecessor, chegando ao primeiro lugar em vendas no Reino Unido. "Nobody's Diary" abre o LP com outro riff muito conhecido, trazendo os vocais de Alison em uma leve canção dançante, explorando bastante os trabalhos vocais.

Single de "Nobody's Diary"
"Softly Over" segue a linha de canções leves, com Clarke explorando mais seus sintetizadores e eletrônicos, fazendo inclusive um longo solo. Os sintetizadores também são o destaque na agitada "Sweet Thing", com Alison cantando sobre uma rápida levada da bateria eletrônica e tendo bastante participação de vocais e batidas pré-programadas, além de sintetizadores imitando metais.

"Mr. Blue" é uma balada pop típica das composições de Clarke, com eletrônicos e sintetizadores misturados para fazer uma canção simples e sem muita empolgação. Mas para agitar, "Good Times" surge com sintetizadores imitando baixo e uma dançante cadência dos sintetizadores de Clarke, além de diversas vocalizações cantando o nome da canção, encerrando o lado A com algumas risadas e em um clima mais "up", mas sem empolgar.

"Walk Away from Love" abre o lado B, contando com a participação do grupo vocal The Sapphires e um riff dançante dos eletrônicos, em uma canção mais interessante em relação as do lado A, onde o trabalho vocal é o principal destaque, assim como o solo de Clarke. "Ode to Boy" desenvolve-se sobre um andamento lento e pouco criativo, misturando as vozes de Alison onde podemos ver suas notáveis linhas de blues que consagrariam sua carreira solo.


Nos Estados Unidos, foram batizados como Yaz para evitar problemas judiciais
"Unmarked" retorna as linhas eletrônicas mais simplistas, em outra composição típica da cabeça de Clarke, alternando momentos mais pesados no refrão com vocais amenos durante a sequência da letra. "Anyone" é uma bela canção, onde as linhas "progressivas" dos eletrônicos e sintetizadores de Clarke constroem uma atmofesra sombria e encantadora para os vocais de Alison entoaram a letra da canção, lembrando bastante o lado mais sombrio que o Depeche Mode lançaria no final dos anos 90.

"Happy People" é a única canção da carreira do Yazoo a contar com os graves vocais de Clarke. Soa até engraçado ouvi-lo cantando, mas a faixa é bem interessante, um pop simples com levadas sessentistas, onde os eletrônicos dão a "modernidade" necessária para torná-la uma faixa datada, mas gostosa de se ouvir.

O LP encerra-se com "And On", resgatando os temas de eletrônicos e sintetizadores de Upstairs at Eric's, lembrando bastante o andamento de "In My Room".

Sem dúvidas, o maior sucesso do LP ficou por conta de "Nobody's Diary". Seu single de 12 polegadas foi lançado com diferentes lados B no Reino Unido e nos Estados Unidos. Os ingleses ficaram com uma versão remix de "Situation", enquanto os americanos ficaram com a faixa "State Farm" complementando o lado A e ainda uma versão diferente para "Situation" (não a mesma da versão inglesa e tão pouco a versão original). Ainda de You and Me Both, o single de "Walk Away from Love" foi laçado apenas no Japão, e não chegou a fazer sucesso.

O Yazoo ainda fez uma pequena série de shows antes de decidir seguir cada um seu caminho. Moyet assinou com a Columbia Records e ingressou em uma bem-sucedida carreira cantando pop com sua inconfundível voz bluezy, onde lançou álbuns que fizeram relativo sucesso, como Alf (1984), Raindancing (1987) e Voice (2004), e que no total já venderam mais de dois milhões e meio de cópias.


Erasure (2007)


Já Vince gravou um single com Feargal Sharkey chamado "Never Never", pertencente ao projeto The Assembly, e logo após, formou o Erasure, ao lado do namorado Andy Bell, que explodiu no final dos anos 80 com sucessos como "Stop", "Star", "A Little Respect", "Oh L'amour", "Brothers and Sisters" e mais uma longa série de singles e hits que vendeu mais de 20 milhões de cópias até os dias de hoje, e que falaríamos durante semanas aqui. Prometo que quando surgir uma oportunidade tentarei narrar sua história com detalhes nessa sessão.

Coletânea com clássicos e novas remixagens
Na década de 90, vários foram as remixagens e relançamentos para canções do Yazoo, principalmente "Situations" e "Only You". Em "Situation" foi relançada como "Situation '91", que ficou na décima quarta posição. Em 99 saiu a coletânea Only Yazoo, trazendo várias canções dos dois álbuns da banda e ainda "State Farm", que havia saído apenas no mercado americano. Além disso, saíram os singles: "Only You (1999 remix)", trigésima oitava posição; "Situation '99", e "Dont Go '99", todas no mesmo ano de Only Yazoo.


Clarke e Moylet em 82
Em dezembro de 2007, a revista Side-line anunciou que a gravadora Mute Records estava planejando relançar os dois álbuns do Yazoo em versões remasterizadas, que teriam como principal atração uma série de shows da dupla para promover o lançamento. Depois de 25 anos afastados, Vince Clarke e Alison Loylet voltavam a subir no mesmo palco. A turnê promocional recebeu atenção de diversos setores da mídia especializada, tendo inclusive uma apresentação especial no programa Friday Night with Jonathan Ross, no dia 16 de maio de 2008.

O retorno em 2008
Então, a caixa In Your Room foi lançada, apresentando quatro CDs trazendo Upstairs at Eric's e You and Me Both com remasterização estéreo e 5.1, além de B-sides e versões alternativas. Além disso, um DVD apresentando um filme exclusivo com entrevistas com Clarke e Moylet acompanhava o pacote. Nesse DVD também encontra-se vídeos para "Don't Go", "The Other Side Of Love", "Nobody's Diary", "Situation (mixagem de 1990)" e "Only You (mixagem de 1999), além de apresentações do grupo na BBC.

Caixa com 4 CDs
A dupla partiu para uma série de 18 apresentações, começando em 26 de maio em Copenhagem, passando por Irlanda, Reino Unido, Alemanha e cinco datas nos Estados Unidos (Oakland, Los Angeles, Chicago e Nova Iorque).

Uma edição limitada em vinil, apresentando algumas mixagens diferentes, foi lançada para promover a caixa. Seguiu-se ainda o ao vivo Reconnected Live, lançado em setembro de 2010.

Diversos filmes e especiais de televisão tem mostrado as canções do Yazoo nos últimos anos. O filme The Chocolate War (1988) por exemplo, cita "In My Room", "Ode to Boy" e "Only You". Já Napoleon Dynamite (2004) apresenta "Only You" como uma das principais canções, bem como o filme Can't Hardly Wait (1998) e a série The Office. Já "Don't Go" está presente no filme Tango and Cash (1989) e na série I'm Alan Partridge. Aos saudosistas, "Situation" foi usada em um comercial do videogame Nintendo, enquanto "Bring Your Love Down (Didn't I)" apareceu no episódio Not Without My Daughter, do programa The Sarah Silverman.
  
Vince Clarke e Alison Moiley
O fato do Yazoo ter dado origem ao Erasure e ter influenciado diversos outros grupos pop que surgiriam posteriormente, como La Roux, Shiny Toy Guns e Hercules and Love Affair, já é o suficiente para se dar um pouco de crédito para o grupo, mas com certeza. Porém, analisando com cuidado, é a sua própria carreira, com os sucessos de "Situation", "Don't Go", "Only You" e "Nobody Diary", que fazem do Yazoo uma banda realmente importante para o mundo do pop e do synthpop, e digna de se merecer pelo menos um pouco de respeito.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Maravilhas do Mundo Prog: SBB - Wołanie o Brzęk Szkła [1978]





Além da cortina de ferro, surgiu um dos maiores grupos de rock progressivo da história da Polônia. Estamos falando do trio SBB. Durante os anos de 1975 e 1980, esse grupo revolucionou o rock polonês, se tornando o principal representante do estilo vindo daquele país e sendo eleito como a melhor banda  polonesa de todos os tempos.

Sua história divide-se em duas partes: a primeira, enquanto ainda estavam escondidos atrás da cortina-de-ferro; e a segunda, quando a Alemanha ocidental revelou o grupo para o mundo.

Foi exatamente no período de transição entre as duas partes que o grupo lançou uma verdadeira maravilha. Até chegar lá, o grupo caminhou um bocado pelas estradas da Polônia e também da Alemanha.

A origem do grupo está no início de 1971, na região histórica da Sillésia, localizada entre a Polônia e a República Tcheca (antiga Tchecoslováquia), mais precisamente na cidade polonesa de Siemianowice Slaskie. Lá, o sensacional músico Józef Skrzek (teclados, baixo, harmônica e voz), começou a ganhar notoriedade graças a uma passagem pelo grupo Breakout, onde gravou o álbum 70A (1970).
 

Depois de sair do Breakout, Józef decidiu que iria ampliar seus horizontes, investindo nos consagrados power-trios e tendo como inspiração o Experience de Jimi Hendrix, Cream e Taste. Eis que surge um garoto de apenas 17 anos chamado Apostolis Anthimos, e que tocava guitarra com uma técnica impecável. Através de Apostolis, o baterista Jerzy Piotrowski é apresentado a Józef, nascendo então o Silesian Blues Band, cujo nome era uma homenagem à região onde o trio morava.

Piotrowski, Apostolis e Józef

O trio passou a participar com regularidade em shows pela Região da Silésia, tocando na Alemanha Oriental, Polônia e Tchecoslováquia, além de apresentar-se em rádios da região. Próximo ao fim de 1971, passam a acompanhar Czesław Niemen, com quem gravam quatro álbuns em apenas 18 meses: Strange In This World (1972), Ode To Venus (1973), Niemen Vol. 1 e Niemen Vol. 2 (ambos de 1973), aumentando ainda mais a popularidade do grupo, com destaque total para o baixista Józef. Ao lado de Niemen, a Silesian Blues Band fez uma excursão pela europa, tendo como auge uma apresentação no Rock and Jazz Now Festival de Munique (Alemanha).

Fundamental álbum de estreia do SBB

No verão de 1973, a Silesian Blues Band separa-se de Niemen, mudando de nome. Como SBB (sigla para Szukaj, Burz, Buduj  - Busque, Quebre e Construa), estreiam oficialmente em 4 de fevereiro de 1974, partindo então para uma série de shows pela Polônia. Os shows de 18 e 19 de abril no Stodoal Club, em Varsóvia, foram registrados, e acabaram se tornando o primeiro álbum da banda, um dos mais incríveis álbuns de estreia de todos os tempos. SBB, lançado ainda em 1974, é uma paulada sonora, com Józef sendo a principal atração tocando baixo com distorções e como se fosse uma guitarra. As três faixas do álbum exalam suor, técnica e sentimento raros de se encontrar, sendo que os duelos de baixo e guitarra são de se perguntar: "como eles conseguem fazer isso??"

Depois de SBB, o grupo seguiu com vários shows pela europa oriental, tocando na Alemanha Oriental, Tchecoslóváquia e Hungria e tendo como marca registrada o baixo distorcido de Józef. Mas, o baixista começou a estudar e admirar um novo instrumento, o moog, e com ele, começou a criar canções  que mudariam toda a sonoridade do SBB, como podemos comprovar nos álbuns Nowy Horizont (1975), Pamięć (1976) e  Ze Słowem Biegnę Do Ciebiealém do raríssimo cassete Jerzyk, onde está apresentado um SBB concentrado em longas suítes, tendo sequências computadorizadas como uma das atrações,  e com Apostolis e Piotrowski ganhando mais espaço junto dos sintetizadores de Józef.

Nessa mesma época, o grupo atravessou a cortina de ferro e passou a fazer gravações na Alemanha. O primeiro álbum "ocidental" foi Follow My Dream, que é bem diferente dos álbuns "orientais", com canções mais curtas e também sem tantas explorações instrumentais. Isso desagradou aos fãs poloneses e dos demais países da europa oriental, que exigiam o SBB das longas suítes e delirantes duelos entre Apostolis e Józef.

O trio de ferro polonês
O grupo então decidiu manter duas carreiras distintas: uma somente para a europa ocidental, lançando o álbum SBB (não confundir com o primeiro álbum do grupo lançado em 1974 e com o mesmo nome), o qual também é conhecido como Amiga Album, somente para o mercado alemão, inglês e italiano, e que foi gravado na Alemanha, e Wołanie o Brzęk Szkła, gravado na Tchecoslováquia e seguindo a linha tradicional dos seus antecessores orientais.

Tendo ganho espaço no ocidente, o trio estava muito mais maduro para fazer composições longas e ao mesmo tempo extremamente versáteis. Apenas duas canções estão em Wołanie o Brzęk Szkła, cada uma ocupando um lado do vinil. É difícil dizer qual das duas é a mais maravilhosa, mas eu arriscarei minhas fichas na faixa-título.

Essa composição é belíssima, sendo daquelas raras canções que você ouve e, passados seus vinte minutos de duração, você não acredita, e fica pensando "como se passaram vinte minutos se você parece ter ouvido apenas cinco?".

"Wołanie o Brzęk Szkła" (algo como "Um Grito para Tilintar com um Vidro") começa apenas com o dedilhado de Apostolis e os teclados de Józef sendo adicionado aos poucos, em um suave crescendo. Piotrowski surge com uma lenta marcação, enquando o moog faz algumas notas perdidas.

A canção vai crescendo, agora com a adição de vocalizações que levam a letra, a qual é cantada em polonês. As vocalizações dão um charme especial para a canção, que vai aumentando o pique com as batidas de Piotrowski, que comanda uma cadência repleta de viradas. Józef rasga a voz, cercado pelas vocalizações e intervenções do moog, chegando então na viajante sessão instrumental, onde no ritmo único do SBB, Apostolis começa a solar em um magnífico arranjo progressivo. As viradas de Piotrowski são o principal destaque nessa sessão, e uma delas leva para o segundo solo de guitarra, com uma levada muito rápida, onde o baterista mostra toda a sua técnica.

As intervenções do moog criam um clima de filme de ficção, que se torna mais evidente com o uso de sintetizadores que simulam uma tempestade de ventos. O ritmo da bateria muda para uma sequência de batidas apenas na caixa, para acompanhar o longo solo de harmônica de Józef, voltando as origens bluesísticas da banda, e as várias intervenções de sintetizadores mantém o viajante clima no ar. As batidas vão aumentando, com o moog tomando conta das caixas de som, sendo o destaque na sequência de encerramento da faixa, com um solo dinâmico e veloz, onde as sequências de viradas de Piotrowski junto aos temas marcados  de Józef e Apostolis são trabalhados extremamente, mostrando aos fãs orientais que o grupo ainda tinha muito para dar em termos de instrumentação e também inovação musical.

A outra maravilha desse álbum é "Odejście", um grande petardo criado pelo trio, mas que talvez por não conter tantas variações quanto sua parceira do lado A, ficará para uma próxima sua apresentação.

Versão alemã de Wołanie o Brzęk Szkła


Wołanie o Brzęk Szkła ainda saiu no mercado da Alemanha Ocidental em 1979, batizado agora como Slovenian Girls, e alterando também o nome das faixas para "Julia" e "Anna", logo após o terceiro disco "ocidental" ser lançado no mesmo país, no caso Welcome.

Em 1980 foi lançado o último LP do SBB em ambos os mercados. Memento Z Banalnym Tryptykiem apresenta uma longa suíte em seu lado B e diversas pequenas faixas em seu lado A, fazendo a mescla de despedida das composições de Józef, Piotrowsky e Apostolis, que agora contavam com a participação do guitarrista Sławomir Piwowar.

Os três membros fundadores do SBB voltariam a se reunir posteriormente nos  anos 90, lançando diversos álbuns (em sua maioria ao vivo), mantendo o nome do grupo na ativa e matando a sede dos fanáticos seguidores da década de 70, ávidos por ouvir as experiências sonoras feitas por este que é o principal nome do rock progressivo polônes, e que possui uma das histórias mais ricas da música do leste europeu, a qual está sendo escrita até os dias de hoje, com o mesmo vigor, criatividade e dedicação de seus anos primordiais, sempre procurando, quebrando e construindo.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Os 70 anos de Bob Dylan


Hoje, 24 de maio de 2011, o Sr. Robert Allen Zimmerman está completando 70 anos. Aos desinformados, o cidadão acima é mais conhecido como Bob Dylan. 

Sim, um dos maiores compositores do último século atinge uma importante marca. Raros são os artistas da década de 60 que chegaram a idade dos 70 mantendo o seu status de importância e relevância no cenário musical. E considerando o carisma de Dylan, talvez somente Sir Paul McCartney chegue aos 70 com tamanha qualidade de material lançado, fãs seguidores de sua carreira e destaque mundial para cada novo CD lançado.

Início de carreira (1962)
A carreira de Dylan começou ainda no início dos anos 60. Com apenas 21 anos, o jovem americano nascido em Duluth, Minnesota, mostrava ao mundo um lirismo e poesia fortemente ligado ao folk de seu país, através do disco praticamente de covers Bob DylanThe Freewheelin' Bob Dylan (1962), o primeiro de uma vasta discografia. Seguiram-se diversos discos de protesto e ótima repercussão nos Estados Unidos, destacando (1963), Another Side of Bob Dylan (1964) e Bringing it All Back Home (1965).

Essencial álbum de Dylan

Aos poucos, o músico foi mudando sua sonoridade, e com a participação do excepcional grupo The Band, empregou a guitarra elétrica nas suas composições, chocando o mundo no Newport Festival do verão de 65 e atingindo uma nova gama de pessoas com álbuns como Highway 61 Revisited (1965), John Wesley Harding (1967) e o excepcional Blonde on Blonde (1966), o qual é considerado o primeiro disco duplo da história do rock.

Um grave acidente em 29 de julho de 66 colocou Dylan de molho por alguns anos, até que ele ressurgiu das cinzas com Nashville Skyline (1969), entrando nos anos 70 com mais sucessos através de álbuns consagrados, onde destacam-se Self Portait (1970) e Blood on the Tracks (1975), este último um dos discos mais tristes já gravado na música.

Dylan em The Last Waltz
Depois, Dylan passou a explorar novos horizontes musicais, e deixou para o mundo duas pérolas: o ao vivo Hard Rain (1976) e Desire (1976), além de estar presente no famoso show de despedida da The Band, o The Last Waltz (1978). Converteu-se então ao cristianismo, lançando os álbuns de canções gospel onde destaca-se Slow Train Coming (1979).

Os anos 80 e 90 já foram mais escassos. Sem a mesma vitalidade dos anos 70 e 60 e fragilizado por sua fraca reputação com os álbuns religiosos, Dylan teve que re-erguer sua carreira, o que foi feito aos poucos com os excelentes álbuns Dylan & The Dead (1989), Good As I Been to You (1992) e Time Out of Mind (1997).

Dois ícones da música no mesmo palco: Bob Dylan e Jerry Garcia (1989)
Na última década, Dylan lançou apenas quatro discos, sendo um deles, Christmas in the Heart (2009) somente com canções natalinas. Porém, esses lançamentos foram suficientes para manter seu nome nas listas dos mais vendidos, e também fazendo shows ao redor do planeta. Além de todos os seus álbuns de estúdio, merecem destaque a série The Bootleg Series, a qual possui (até o momento) nove volumes apresentando diversas raridades ligadas à carreira desse grande compositor norte-americano. O último volume dessa série foi lançado em 2010, com o título The Witmark Demos: 1962 - 1964.

Bob Dylan (2006)
Há um forte boato de que Dylan voltará novamente ao Brasil (o cantor já se apresentou por aqui diversas vezes). Esperamos que sim, ele possa voltar a apresentar seus velhos e novos clássicos que influenciaram desde os Beatles e os Rolling Stones até Bob Marley e Eric Clapton.

Long Live Dylan, e God Bless You Forever!!!!
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