quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Maravilhas do Mundo Prog: Shakti - India [1977]




O guitarrista John McLaughlin é um dos grandes talentos que o mundo da música já providenciou. Virtuoso e versátil, o britânico começou a aparecer aos mortais através da banda do trompetista Miles Davis, ao gravar o essencial Bitches Brew (1970), o disco que revolucionou o jazz. 

Ao sair do grupo de Miles em 1971, depois de ter gravado ainda os álbuns In A Silent Way (1969), A Tribute to Jack Johnson (1971), On the Corner (1972), Big Fun (1974), McLaughlin já tinha começado uma interessante carreira solo, misturando free jazz com progressivo, e lançado dois também essenciais álbuns: Extrapolation (1969) e Devotion (1970) nos quais sua técnica expandiu horizontes até então inimagináveis, misturando velocidade, timbres diferentes e diversas peripécias que apenas McLaughlin consegue executar com perfeição.


A partir de My Goal's Beyond (1971), McLaughlin adotou o nome Mahavishnu, e assim, virou o centro das atenções progressivas, primeiro ao gravar A Love Supreme com o guitarrista Carlos Santana (1973), um grandioso álbum no qual o tempero da banda de Santana casou perfeitamente com o virtuosismo de McLaughlin. E ao mesmo tempo, ao formar a Mahavishnu Orchestra, uma mega-banda contando com nomes como Jean Luc-Ponty (violino), Jan Hammer (teclados), Billy Cobham (bateria), entre outros.

A Mahavishnu Orchestra foi uma nebulosa de Maravilhas Prog. Em seus sete álbuns de estúdio, lançados entre 1971 e 1977, passeamos por improvisos, construções intrincadas e demais características que representam o progressivo com uma perfeição digna de Narciso, e uma exigência raríssima (e cansativa) para os músicos acompanhantes de McLaughlin, tanto que nem o próprio McLaughlin aguentou a pressão, e em um momento "férias", resolveu entrar na maior viagem de sua vida, o projeto  Shakti.



Vinayakram, Shankar, McLaughlin e Hussain

Tudo começou em 1974, quando McLaughlin encontrou um velho amigo indiano, Lakshminarayanan Shankar, também conhecido como L. Shankar, o qual já tinha feito seu nome tocando com Ornette Coleman e Jimmy Garrison durante o final da década de 60. Em um concerto de Shankar, McLaughlin ficou extasiado com a sonoridade que vinha da percussão que acompanhava o violinista, a qual era formada somente por instrumentos indianos.


A partir de então, alguns contatos foram feitos e, com poucos ensaios, Shankar e McLaughlin se uniram, formando a Shakti. Basicamente na Shakti, McLaughlin teria a oportunidade de fazer aquilo que não conseguia na Mahavishnu: tocar sem compromisso, sem seguir regras, apenas seguindo o sentimento e a própria vontade. Os demais integrantes da Shakti eram Zakir Hussain (tabla), Thetakudi Harihara Vinayakram (ghatam) e Ramnad Raghavan (mridangam), todos naturais da Índia. 


O estranho violão de McLaughlin, somente para aShakti
A excentricidade do grupo não parava somente nos instrumentos indianos. O próprio McLaughlin encomendou com o luthier da Gibson, Abraham Wechter, um violão especial, que trazia sete cordas adicionais perpendiculares às seis cordas tradicionais do violão normal, as quais criavam um som parecido com o de uma cítara.

O grupo começou a fazer shows, sendo o realizado no Colégio South Hampton, em Nova Iorque, o primeiro álbum lançado pelo grupo. Batizado de Shakti with John McLaughlin (1975), é um disco adorável, trazendo a mistura dos elementos indianos com a virtuose britânica nas canções "Joy", com um belo trabalho de Hussain, "Lotus Feet", que viria aparecer depois na turnê de McLaughlin com Paco De Lucia e Larry Coriell, e a incrível "What Need Have I for This - What Need Have I for That - I Am Dancing at the Feet of My Lord - All is Bliss - All is Bliss", que, conforme seu nome, possui mais de 28 minutos de muita improvisação e sentimento. Durante toda a faixa fica claro que os músicos estão em êxtase em cima do palco, no auge da inspiração e harmonia. Os duelos de ghatam e tabla sobressaem em várias etapas. O clima indiano e a levada diabólica da música com certeza irão fazer você viajar pra outro mundo, mesmo estando no seu quarto.


Isso era o principal da Shakti, a viagem sem fim. Mesmo contando com um guitarrista de renome, não era ele o destaque da banda, aliás o grupo não tinha um destaque. Todos se encaixavam de forma a harmonizar cada segundo da canção, tornando assim a música uma peça não só para ser ouvida, mas também absorvida pelo ouvinte.


John McLaughlin
Em 1976, veio o segundo álbum, o também fabuloso A Handful of Beauty. Com vocalizações e muito mais improvisos, este é um álbum perfeito, desde "La Danse Du Bonheur", na qual as vocalizações imitam as batidas de uma tabla, a suave "Lady L.", e um belíssimo solo de L. Shankar, canção essa comparável aquela de "Kashmir" no álbum UnLeded (1994), lançado por Jimmy Page e Robert Plant, a rápida "Kriti", onde temos várias sequências em que o violão faz duelos com o violino e com a tabla, "Isis" e seus quinze minutos de uma sequência arrebatadora de solos de Shankar e McLaughlin, sempre intercalados por um riff principal onde ambos fazem algo típico do oriente, e "Two Sisters", um lamento super lento apenas com John no acompanhamento e L. Shankar executando um solo triste, porém marcante, que deixa um gosto de quero mais para o ouvinte.


Mas nada compara-se a Maravilha Prog que conclui o lado A do LP. Batizada de "India", ela começa com um triste solo no violão de McLaughlin, lento, com notas gemidas e intervenções de um mesmo acorde que repete-se por diversas vezes. Uma série de vibratos e desafinações no instrumento levam para os harmônicos, e assim, um dedilhado leve é executado, apresentando o violino de Shankar.

Shankar e McLaughlin fazem um breve tema, e a percussão invade as caixas de som, muito suave, acompanhando o dedilhado do violão. Shankar e McLaughlin executam dois temas breves, e com a percussão mais animada, e o dedilhado sereno de McLaughlin, Shankar faz um breve solo.

A percussão então enlouquece, e McLaughlin solta os dedos em um solo muito veloz, característico de seu estilo de tocar, duelando com as batidas no ghatam e no mridangam. Palheteando com força as cordas do violão, subindo e descendo escalas com uma velocidade incrível, McLaughlin dá uma aula de virtuosismo para muitos guitarristas metidos a virtuoses, e nessa aula, começa um belo duelo entre violino/violão contra as batidas da tabla, sempre com velocidades muito altas.


L. Shankar
O ritmo então adquire um embalo gostoso, e é nele que Shankar executa seu solo, rasgando as cordas do violino sem ser tão veloz, mas com escalas apropriadamente escolhidas para encantar o ouvinte. Uma sequência de arpejos é o ponto central do solo, encerrado com a repetição do duelo violino/violão contra a tabla, retornando para o ritmo inicial, com o dedilhado do violão acompanhando o solo de encerramento do violino, concluindo a canção com a sessão percussiva fazendo um estardalhaço no recinto.

O Shakti ainda lançou Natural Elements em 1977, e depois, John resolveu voltar para a carreira solo após esse álbum, lançando o magistral Electric Guitarist em 1978, misturando com exatidão free jazz e rock (algo parecido com o que Jeff Beck fez em Blow By Blow e Wired). Depois disso, alternou bons e maus momentos em sua carreira solo, reviveu a Mahavishnu Orchestra nos anos oitenta e fez sucesso com o trio de violões  ao lado de Al Di Meola e Paco De Lucia. Os demais integrantes da Shakti seguiram suas carreiras independentemente, com Vynaiakram sendo o primeiro músico indiano a ganhar um Grammy (isso já na década de 90). 


Shakti em 1977
Em 1997, John, Hussain e Vinayakaram, juntos com o músico convidado Hariprasad Chaurasia nas flautas, se reuniram para uma pequena turnê chamada "Remember Shakti", a qual ficou registrada em CD duplo com o mesmo nome. Infelizmente L. Shankar não pôde comparecer aos shows, mas certamente o clima entre os músicos remanescentes era excelente, e o destaque maior do disco fica por conta da faixa "Mukti", com seus mais de 63 minutos (!!!) de muito improviso. Essa formação ainda lançou os álbuns The Believer (1999) e Saturday Night in Bombay (2001), mas infelizmente acabaram por se separar.
 

De qualquer forma, a Shakti deixou seu nome registrado na história musical, não somente por ser a primeira banda a misturar sons ocidentais e orientais de uma forma totalmente improvisional, mas também por suas belíssimas composições e arranjos que ficam na cabeça por muito tempo, e ainda, uma Maravilhosa peça progressiva chamada "India", que encerra o Maravilhas do Mundo Prog de 2012. Voltaremos em 2013 com um formato especial aos cinco grandes nomes do prog britânico (Yes, Genesis, King Crimson, Pink Floyd e Emerson Lake & Palmer). 

Podcast # 44: Dois Anos de Consultoria do Rock



O Blog Consultoria do Rock completa hoje dois anos ao seu lado, e para comemorar essa data, montamos um Podcast Especial com o principal dos fatos que ocorreram no ano de 2012, trazendo canções relacionadas aos lançamentos do ano, shows marcantes aqui no Brasil e uma homenagem aqueles que já não estão mais em carne e osso no mundo da música.



Para ouvir, clique aqui


Nesses dois anos, estamos com mais de 970 mil acessos, sendo as matérias mais acessadas do blog as seguintes:

Kiss: os discos solos de 1978 - 3279 acessos
Livro: Slash - Slash com Anthony Bozza [2008] - 2728 acessos
Datas Especiais: 10 anos sem Joey Ramone - 2200 acessos
Kiss - Creatures of the Night: Curiosidades sobre a gravação e a primeira visita ao Brasil - 2166 acessos
Por que Iron Maiden? Parte 3: Escravo do Poder - 2100 acessos

Até a data de hoje, são 814 matérias publicadas, abrangendo 707 artistas diferentes, sendo os mais postados: Iron Maiden (26 postagens); Yes (22 postagens); Kiss (21 postagens); Black Sabbath (17 postagens); Dream Theater (17 postagens); Metallica (12 postagens); e Judas Priest (11 postagens).


Tivemos 78 Artigos Especiais, 51 Cinco Discos Para Conhecer, 10 Clássicos da Harvest, 32 Datas Especiais, 100 Discografias Comentadas, 31 Discos Que Parece Que Só Eu Gosto, 31 I Wanna Go Back, 67 Maravilhas do Mundo Prog, 11 Notícias Fictícias Que Gostaríamos Que Fossem Reais, 44 Podcast Grandes Nomes do Rock, 12 Resenha de Box Set, 23 Resenha de DVD, 48 Resenha de Show, 114 Resenha de Álbum, e mais uma série de outras sessões que são publicadas diariamente, com material todo inédito e elaborado por oito diferentes colaboradores, além de convidados exclusivos que deixam sua marca aqui no blog.


Enfim, dois anos de muitas informações para você leitor, que nos acompanha dia após dia.

O Podcast está saindo do ar por um breve período, mas o blog continua em frente. Desejamos à todos ótimas festas de fim de ano, e em 2013 teremos muito mais para compartilhar com vocês.

Obrigado pela preferência, comentários, sugestões e a atenção dedicada conosco. Sem você, nobre leitor, nosso blog não teria finalidade.




Track list Podcast # 43: The Kids Are Alright

Bloco 01
Abertura: "The Kids Are Alright" [do álbum My Generation - 1965 (The Who)]
"Wandering Child" [do álbum Live ... With a Little Help from Our Friends - 1999 (Gov't Mule)]
"God Bless the Child" [do bootleg Live! Festival Jazz Lugano - 1992 (Bloody, Sweat & Tears)]
"Lonely Child" [do álbum Equinox - 1975 (Styx)]
"Blinding Light Show / Moonchild" [do álbum Triumph - 1976 (Triumph)]

Bloco 02
Abertura: "The Kids Aren't Alright" [do álbum Americana - 2008 (Offspring)]
"Moonchild" [do bootleg Raising in Hell Porto Alegre - 2008 (Iron Maiden)]
"Problem Child" [do álbum Dirty Deeds Done Dirt Cheap - 1975 (AC/DC)]
"Trouble Child" [do álbum Glue - 1968 (Laghonia)]
"Child in Time" [do bootleg Inconnun - 2007 (Uli Jon Roth)]
"Sweet Child O' Mine" [do bootleg Rock in Rio III - 2001 (Guns N' Roses)]

Bloco 03
Abertura: "The Kids Are Back" [do álbum You Can't Stop Rock 'n' Roll - 1983 (Twisted Sister)]
"Children of the Universe" [do álbum Thinkin' - 1971 (Banchee)]
"Children of the Grave" [do bootleg Halford Among Us - 1993 (Black Sabbath)]
"Freedom is for Children" [do álbum Phoenix - 1972 (Grand Funk Railroad)]
"God's Children" [do álbum Percy Original Sound Track - 1970 (The Kinks)]
"All God's Children" [do bootleg Rarities - 1985 (Yes)]
"Childlike Faith in Childhood's End" [do álbum Still Life - 1976 (Van Der Graaf Generator)]

Bloco 04
Abertura: "The Kids in Tiny & Wear" [do álbum Fat Bob's Feet - 1991 (Toy Dolls)]
"War Child" [do bootleg War CHild in USA - 1977 (Jethro Tull)]
"Child of Innocence" [do Box Set Kansas Boxed Set - 1994 (Kansas)]
"Wild Child" [do bootleg Santiago Open the Doors - 2008 (Riders on the Storm)]
"Child of the Sky" [do álbum The Deviants Underground L. P. - 1967 (Ptooff!)]
"When I Was A Child" [do álbum Walking into Clarksdale - 1998 (Page & Plant)]
"Wrong Child" [do álbum Green - 1989 (R. E. M.)]

Encerramento: "This Kids" [do álbum Force It - 1976 (UFO)]

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

R. E. M. - Edições Especiais (Parte IV)




A última parte das Edições Especiais lançadas pelo R. E. M. dentro da gravadora Warner Bros. apresenta os dois principais discos ao vivo oficialmente lançados pela banda, no caso Live (2007) e Live at the Olympia (2009). Porém, dessa vez não vamos tratar das versões especiais em CD, mas sim, aquelas que foram lançadas em Box Set.

Começando então por Live, ele foi gravado nos dias 26 e 27 de fevereiro de 2005, na cidade de de Dublin (Irlanda), durante o encerramento da turnê de Around the Sun (2004). Na sua versão original, foi lançado como CD duplo, trazendo um DVD bônus com a mesma apresentação. Nele, estão raras apresentações de "I Took Your Name" (Monster, 1994) e "Ascent of Man" (Around the Sun), dificilmente interpretadas ao vivo, além da até então inédita "Im Gonna DJ", lançada posteriormente no álbum Accelerate (2008).

No total são vinte e duas canções abrangendo a carreira do grupo, a maioria na fase Warner. Apenas "Cuyahoga", de Lifes Rich Pageant (1986) e "(Don't Go Back to) Rockville", de Reckoning (1984) fazem a exceção pela fase I. R. S. Records (gravadora que lançou os cinco primeiros álbuns do grupo). 

No palco, acompanhando o trio Michael Stipe (vocais), Peter Buck (guitarras, mandolin) e Mike Mills (baixo, teclados, acordeão e vocais), estão Scott McCaughey (guitarra, teclados, vocais), Bill Rieflin (bateria), Ken Stringfellow (teclados, vocais) e ainda a participação de Daniel Ryan, tocando guitarra e fazendo os vocais de apoio em "(Don't Go Back To) Rockville".

Versão Box de Live

A versão Box Set foi lançada no ano seguinte, e é uma luxuosa caixa com três vinis mais o DVD, o qual está inserido em uma capa envelope, e traz todas as canções do CD. Cada vinil vem inserido em sua própria capa de papelão individual, a qual possui como figura ilustrativa uma foto de cada membro da banda (uma para cada capa), e as canções que compõem os LPs. Os três vinis são inseridos dentro de uma caixa externa, muito grossa, que serve como um "Guarda-Vinis" para os mesmos. Vale bastante a pena pela raridade, mas musicalmente falando, é idêntico a versão em CD.

Dois anos depois de Live, o R. E. M. voltou, com a mesma formação, para uma série de shows novamente na Irlanda, e no Olympia Theatre, registrou o maravilhoso Live at the Olympia, acompanhados por Scott McCaughey e Bill Rieflin (guitarra e bateria respectivamente).

Foram seis noites de ingressos esgotados, entre 30 de junho e 05 de julho de 2007, aonde a plateia pode conferir ensaios para a turnê do álbum que o grupo estava por lançar a época, Accelerate. São trinta e nove canções de um disco excepcional, um dos melhores ao vivos dos últimos anos, com mais de duas horas e meia de duração, e que originalmente foram lançados em um CD duplo, trazendo como bônus um DVD com o documentário This is Not a Show, com cenas gravadas durante os ensaios no Olympia.

As canções já são bem mais abrangentes que Live, sendo vinte e duas da fase I. R. S., destacando as canções do raríssimo EP Chronic Town (1982), as quais são "Gardering at Night", "Wolves, Lover" e "1,000.00", praticamente inesquecidas ao vivo, além da também rara ao vivo "Romance", existente apenas na coletânea Eponymous (1988). 

Versão Box de Live at the Olympia
A versão Box Set é quase um atentado ao coração do fã. Seguindo os mesmos padrões de Live, temos aqui quatro LPs, dividos por capas duplas que apresentam apenas o nome das canções pertences a cada disco. Complementam a Edição um pôster gigante, imitando o pôster que divulgou a série de ensaios, um livreto com fotos das apresentações e discussão sobre as canções, escrito por Peter Buck, mais os dois CDs originais e o DVD This it Not a Show, também com uma capa dupla especial para os mesmos, tendo na frente o título do DVD e no seu interior um texto de Andy Gill contando um pouco da sua relação com o R. E. M., além de conter também o livreto citado acima. 

As três capas individuais estão inseridas em uma capa extra (mais um "Guarda-Vinil"), e ao serem agrupadas, formam em suas laterais o nome da banda e do álbum que estamos ouvindo. É sem dúvidas um dos principais atrativos na carreira dos lançamentos especiais do grupo de Athens, que infelizmente, acabou no ano passado.

Os álbuns de hoje

Tomara que mesmo sem a existência do grupo, outros lançamentos, com raridades e material inédito, possam ser lançados pelos responsáveis da banda, e assim, ampliar ainda mais a já importante e vasta coleção de lançamentos feitos pelo R. E. M. nos últimos anos.

sábado, 24 de novembro de 2012

Review Exclusivo: Rick Wakeman (Porto Alegre, 20 de novembro de 2012)



A noite abafada da última terça-feira em Porto Alegre foi uma aula de rock progressivo para os quarentões e cincoentões que superlotaram o Teatro do Bourbon Country na capital gaúcha, sendo responsáveis pela maior plateia do local até hoje (no formato teatro, já que o mesmo local, retiradas as cadeiras, recebe shows como um bar normal), com mais de duas mil pessoas, inclusive com a necessidade da adição de cadeiras para comportar o número de ingressos vendidos.

Tudo isso para ver Rick Wakeman, um dos maiores gênios do teclado mundial. Ex-tecladista dos grupos Yes, Strawbs e Anderson Bruford Wakeman Howe, além de ter gravado com David Bowie, Cat Stevens, Black Sabbath, Jon Anderson e tantos outros, Wakeman veio ao Brasil para uma série de shows, começando pela cidade de Novo Hamburgo, também no Rio Grande do Sul, aonde tocou no maior teatro privado da América Latina, o Teatro da Feevale, um dia antes da apresentação na capital gaúcha.

Wakeman veio acompanhado de nada mais nada menos que Ashley Holt, o vocalista que gravous os clássicos Journey to the Centre of the Earth (1974) e The Myths and Legends of King Arthur and the Knights of the Round Table (1975), além de Tony Fernandez, baterista que o acompanhou entre 1977 e 1981, gravando diversos álbuns. Completaram o quinteto o baixista Nick Beggs e o guitarrista Dave Colquhon, esse último, acompanhado Wakeman desde os anos 2000.
Wakeman, cercado por teclados

Eram 21:05 quando a banda subiu ao palco e começou a fazer uma marcação pesada, puxando um ritmo familiar dos fãs, para que Wakeman adentra-se o palco do teatro, usando sua tradicional capa de brilhantes e ostentando uma senhora pançola por debaixo da mesma. Sob os milhares de aplausos, assovios e ovações ao Deus dos teclados, Wacko postou-se atrás dos seus nove teclados e começou a interpretar "The Journey", abrindo o espetáculo, para a surpresa de todos, com a execução na íntegra do álbum Journey to the Centre of the Earth, um dos LPs mais vendidos da história do rock progressivo.

Com exceção das falas originais, todos os demais minutos dessa pérola da música mundial foram tocados com perfeição, e ouvir o mesmo na voz de Holt, o cara que o gravou originalmente, deu arrepios aos fiéis fãs de Wakeman. "Recollection" "The Battle" e "The Forest" foram apresentadas uma após a outra, sem interrupção, e com diversas vezes, com a plateia aplaudindo as difícies passagens musicais das canções. Os corais originais foram substituídos por vocalizações dentre o trio Holt, Beggs e Colquhon, e apesar de Holt não ter mais a mesma voz do passado, falhando bastante nos momentos mais altos da suíte, é admirável que o tom original da mesma tenha sido mantido, diferente de outras bandas, as quais diminuem o tom e acabam fazendo uma cover insossa para clássicos do passado (exemplos não faltam).

Ashley Holt
Ver Wakeman saltando de um teclado para o outro, abrindo os braços ora em 180 graus, ora em 90 graus, e criando solos naturalmente, com os olhos fechados, viajando em um mundo só dele, é indescrítivel. Ele tem um domínio total de seus instrumentos, como se fosse uma extensão de seu corpo, e todos os que acabam por minimizar seu trabalho, comparando-o a outros gigantes como Keith Emerson e Hugh Banton, realmente não tem noção do que é o cidadão ao vivo.

Passados quarenta minutos de Journey to the Centre of the Earth, Wakeman dirigiu-se ao público, agradecendo à todos e anunciado uma canção do álbuns das seis esposas, "As de Henry VIII, não as minhas. Eu tive mais!", disse entre gargalhadas antes de mandar ver em "Catherine Howard", clássico de Six Wives of Henry VIII, primeiro álbum solo do músico, apresentada com longos improvisos que tornaram-a uma suíte maior do que o original.

Beggs e o Chapman Stick
Na sequência, veio "The Visit", canção composta por Colquhon, na qual ele mostrou todas as suas técnicas, e um estilo de tocar similar ao do guitarrista Trevor Rabin (também, ex-Yes), e abriu espaço para Beggs fazer um breve solo no Chapman Stick, instrumento imortalizado por Tony Levin. O baixista foi bem competente, sem muita virtuose mas chamando a atenção principalmente pelo estranho formato do instrumento, e deu lugar para Fernandez fazer seu rápido, e cheio de rufadas, solo.

Encerrada as apresentações da "cozinha", Wakeman voltou ao palco, apresentando Holt, e assim, deu-se início ao Medley de The Myths and Legends of King Arthur and the Knights of the Round Table, abrindo com "Arthur" e passeando pela linda "Guinevere", encerrando com "Sir Lancelot", todas tocadas na íntegra. Claro que seria interessante ter visto essa apresentação no formato original, com os patinadores no gelo, mas o que foi apresentado no palco foi belíssimo, com um interessante jogo de luzes e Wakeman fazendo um espetáculo a parte.

Lamentável porém a voz de Holt (novamente), que acabou lendo a letra de todas as canções, e Beggs, que fez as linhas de baixo seguindo a partitura das canções (nos anos 70, suítes bem mais complicadas eram apresentadas por grupos como Yes, Genesis e Pink Floyd sem partitura nenhuma).

O público vibrou após vinte minutos do Medley, e com um grande sorriso na face, Wakeman disse: "Bom, agora vou mostrar a canção que abre No Earthly Connection", destruindo o coração de todos com as surpreendentes interpretações para "The Spaceman" e "The Realisation", ambas partes principais da suíte "Music Reincarnate", registrada no álbum de 1976. Essa foi realmente inesperada. Complicada ao extremo, para mim é uma das obras-primas de Wakeman (ao lado de "The Journey"), e ao vivo, foi possível ver toda a dificuldade que são esses dois movimentos.
Beggs, lutando com a partitura de "The Realisation"

Por diversas vezes, foi engraçado ver Beggs se enrolando lendo a partitura, cometendo erros gritantes que assustavam até Wakeman, olhando contrariado diversas vezes para o baixista, mas Colquhon e Fernandez fizeram seus papeis com perfeição, e Wakeman deu todo o gás para uma bela apresentação.

Vieram ainda "Catherine Parr" e "Merlin the Magician", sendo que na última, Wakeman desceu do palco tocando o teclado em punhos, relembrando os momentos da turnê de Tormato (1979), e no meio da plateia, buscou umamoça, a qual foi levada para o palco por Mr. Wakeman (enquanto ele demolia o seu teclado, tocando sem parar) para ter a honra de segurar o mesmo enquanto Wakeman fez o solo final de "Merlin the Magician". Um momento inesquecível para a moça, e uma pequena amostra aos fãs da simplicidade que é Wakeman como pessoa.


Wakeman, pouco antes de descer o palco ... (acima);
... para levar uma fã ao mesmo (abaixo)
O espetáculo encerrou-se, e vieram os pedidos de "Mais um! Mais um!", trazendo a banda de volta para tocar "Starship Trooper", com diversos solos individuais, e deixando claro que Holt não é a pessoa ideal para cantar um clássico do Yes. Aliás, Holt foi a grande decepção da noite, fortemente superada pelo incrível talento de Wakeman. Sozinho, ele já faz um grande show!

No final, agradecendo ao público, Wakeman viu-me com os LPs que estava carregando e me disse: "Irei assinar ali fora!", com um tom de convicção. E foi mesmo. Acompanhado de sua banda, Wacko reuniu-se com os fãs, após fazer uma pequena canja em um piano improvisado no Bar do Teatro, e com muita atenção e simplicidade, atendeu a centena de fãs que o aguardavam ansiosamente.


Encerramento do show
Mr. Wakeman deu portanto, não só uma aula de progressivo aos que pensam que bandas como Dream Theater e Marillion são quem faz esse tipo de canção, mas também uma aula de humildade e carinho ao atender aos fãs que muitas "estrelas", com menos talento e menos importância que o tecladista, não conseguem assimiliar perante um fã.

E fica o sonho de um dia poder ver ele pilotando seus teclados ao lado de Howe, Anderson, Bruford e Squire, a melhor formação em termos de talento que um grupo musical, em qualquer estilo, conseguiu reunir.


Dois bolhas e Wacko (acima);
Wacko, afirmando ser fã do "Maravilhas do Mundo Prog" (abaixo)

Set list

1. Journey to the Centre of the Earth
      (The Journey / Recollection / The Battle / The Forest)
2. Catherine Howard
3. The Visit
4. Bass and drum solo
5. The Myths and Legends of King Arthur and the Knights of the Round Table
      (Arthur / Guinevere / Sir Lancelot)
6. Music Reincarnate (The Spaceman /
7. Catherine Parr
8. Merlin the Magician

Bis

9. Starship Trooper

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Toy Dolls - The Album After The Last One [2012]


Por Mairon Machado

Formado em 1979, o grupo britânico Toy Dolls foi um dos poucos de sua geração a seguir uma carreira sólida após o ápice do nascimento do punk na Inglaterra do final da década de 70, muito graças ao talento de seu líder e mentor, o excelente guitarrista Michael "Olga" Algar. Com mais de trinta anos de carreira, o grupo acabou conquistando uma grande e fiel geração de fãs, graças a um punk rock extrovertido, no qual além de letras e canções debochadas, a técnica nas seis cordas de Olga é capaz de colocá-lo entre os maiores guitarristas da história do rock, e injustamente, pouco ou quase nada é lembrado pelos críticos ao fazerem essa lista.

Entre os principais sucessos do grupo no Brasil, estão os álbuns Dig That Groove Baby (1983), Bare Faced Cheek (1987) e Wakey Wakey (1989), mas o grupo já conta com mais de uma dezena de álbuns, sendo doze de estúdio e três ao vivo.


Olga e Tommy Goober

The Album After The Last One é o décimo terceiro disco desse trio, que conta atualmente com Olga (guitarras, vocais), Tommy Goober (baixo, vocais) e The Amazing Mr. Duncan (bateria, Backing Vocals). No álbum, há diversas participações especiais em determinadas canções, sendo Ronan Fitzsimons, Lee Wright, Billy Gilbert, Ian Kinsman, Steve Ross, Dave Robinson, Decca Wade e Knox colaborando com vocais de apoio, e o que predomina é o velho e bom estilo Toy Dolls de gravar um disco, ou seja, letras hilárias, um punk leve e gostoso e solos delirantes de guitarra.



Lançado oito anos após o último álbum de estúdio (curiosamente, chamado The Last Album?), ele começa com uma sessão instrumental chamada "Olgamental Intro", relembrando as aberturas dos clássicos citados acima, a qual é interrompida por batidas na porta. Olga pede para o grupo esperar um minuto, atende a porta, e lá estão crianças cantando "We Wish You a Merry Christmas!". A partir de então, o punk rock pega.



Mr. Duncan, Olga e Goober



São trinta e cinco minutos do mais puro e simples estilo de gravar e cômpor do Toy Dolls, mas que é perfeito para os seus fãs, passando por "Credit Crunch Chrisams", letra fantástica e extremamente engraçada ("we’ll all do our best, Poor old Santa Claus, he’s not impressed, They took all his reindeer, his sleigh’s repossessed"), a indecente "Molly Was a Imoral" e o ritmo marcial de "Sciatia Sucks", outra com letra muito engraçada, e um refrão muito grudento.

Olga aliás caprichou na criação das letras, e certamente, em breve The Album After the Last One irá ser considerado um dos álbuns mais engraçados (se não o mais) da história do rock.

Olga, em um "raro" momento hilário de sua vida
"Kevin's Cotton Wool Kids", "Down at the Old 29" e "Gordon Brown Gets Me Down" mantém o ritmo alucinante, com vários solos que somente Olga consegue criar, e surpreendendo, "Don't Drive Your Car Up the Draycott Avenue" apresenta os vocais de The Amazing Mr. Duncan em destaque. 

As participações especiais acontecem em "Dirty Doreen", trazendo Ernest Waller ao piano e Minnie nos vocais de apoio, e também em "Marty's Mam", na qual Cristophe Sauniere faz o bonito tema introdutório (e de encerramento) na harpa.

A bebida é homenageada no rockzão "B. E. E. R.", e também em "Decca's Drinking Dilemma", com um baixo poderoso e a letra então, extremamente hilária, narrando a luta de Decca para parar de beber, concluída com um tenebroso arroto feito por Richard Clement. Essa canção levou o grupo a fazer um divertido vídeo para promover o álbum, que encerra-se com a instrumental "Olgamental Outro" (mais um solo sensacional de Olga), só que não para por aí.

Após a canção terminar, Olga despede-se dos fãs, fechando uma porta. Então, após alguns segundos, a porta abre-se, com Olga, anunciando "Oh! I forget about the bonus tracks!". É impossível não soltar uma risada nesse momento. 

Olga e Goober ao vivo
As canções bônus variam dependendo do local de lançamento, mas no geral, são versões acústicas que Olga gravou no quarto de sua casa para canções já conhecidas do Toy Dolls, predominando nas versões "Firey Jack", "Cloughy Is A Bootboy" e "The Sphinx Stinks", ambas presentes na versão física lançada na Europa e na versão digital que pode ser baixada no site do grupo. Esta versão digital ainda contém "I've Got Ashtma" e ""Sunderland Celebrity". Há ainda uma versão especial para os japoneses, trazendo as três canções citadas acima e mais uma faixa chamada "Arigato", na qual o grupo agradece ao apoio dos nipônicos à banda.

Um álbum divertido, agradável e que mantém, após trinta anos, intacta a chama de Olga e seu grupo em fazer canções agradáveis e fieis ao que os seus fãs gostam de ouvir.

Buy this album, please??

Track list

1. Olgamental Intro
2. Credit Crunch Christmas
3. Molly Was Immoral
4. Sciatia Sucks
5. B.E.E.R
6. Kevin's Cotton Wool Kids
7. Don't Drive Yer Car Up Draycott Avenue
8. Dirty Doreen
9. Down At The Old 29
10. Marty's Mam
11. Gordon Brown Gets Me Down
12. Decca's Drinkin' Dilemma
13. Olgamental Outro

UK Physical Bonus Tracks (Olga Acoustic Recordings):

14. Firey Jack
15. Cloughy Is A Bootboy
16. The Sphinx Stinks

UK Digital Bonus Tracks (Olga Acoustic recordings):

14. Fiery Jack
15. Cloughy Is A Bootboy
16. The Sphinx Stinks
17. I’ve Got Asthma
18. Sunderland Celebrity

Japanese Bonus Tracks

14. Fiery Jack
15. Cloughy Is A Bootboy
16. The Sphinx Stinks
17. Arigato

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

R. E. M. - Edições Especiais (Parte III)




A terceira parte das Edições Especiais lançadas pelo grupo americano R. E. M. apresenta hoje a coletânea In View: The Best of R. E. M. 1988-2003 (2003) e os dois álbuns de estúdio da década passada, Around the Sun (2004) e Accelerate (2008).

A coletânea citada já teve sua resenha aqui no Consultoria do Rock, mas alguns pontos vale a pena ser citado para sua Edição Especial. A versão original de In View: The Best of R. E. M. 1988-2003 cobre exatamente o período que o grupo lançou álbuns pela Warner Records (todos os tratados nessa série especial). 

São dezesseis faixas que passeiam por clássicos inevitáveis como "Losing My Religion", "Stand", "Orange Crush" e "E-Bow the Letter), além de uma versão relativamente inédita para "The Great Beyond" (retirada da trilha do filme Man on the Moon, de 1999), "All the Right Friends" (retirada da trilha do filme Vanilla Sky (2003) e duas canções totalmente ineditas: "Bad Day" e "Animal".


A Edição Especial é em formato duplo, com o segundo CD apresentando muito material raro aos fãs. No total, são quinze raridades extremam, desde a versão acústica para "Pop Song '89", passando pela experimental "Chance (dub)" até a pesada "Revolution". Ainda no CD dois, há o vídeo para "Bad Day", um dos melhores produzidos pelo agora trio Mike Mills, Michael Stipe e Peter Buck. 


Edição Especial de In View:  The Best of R. E. M. 1988 - 2003

Os CDs estão inseridos em uma capa de papel reciclável, a qual vem dentro de uma capa externa de plástico, carregando também um pôster do trio.  Acompanha tudo um livreto com quarenta páginas, onde Buck é o responsável por apresentar sua visão para cada uma das canções que aparecem no CD. Existem mais uma versão especial, trazendo no lugar do segundo CD um DVD com videoclipes das canções pertencentes ao mesmo, porém sem o livreto e sem o pôster. Essa versão com o pôster, para mim, é a definitiva.

Around the Sun foi lançado em 2004, e é para os fãs (eu incluso) o mais fraco disco da carreira do R. E. M., principalmente pelos problemas internos que o grupo estava passando (ainda não assimilando a saída de Bill Berry, por exemplo). Um ponto interessante é que é o único álbum do grupo a apresentar uma faixa-título. Mas, a participação especial de músicos convidados não ajudou a tornar o álbum coeso, e pior, o rapper Q-Tip fazendo os vocais em "The Outsiders" é o momento mais baixo na carreira dos americanos.

Por essas e outras, foi o único disco do R. E. M. na fase Warner a não figurar entre os dez mais vendidos nos Estados Unidos, apesar de ter vendido relativamente bem na Europa, aonde ficou em primeiro lugar em sete países, graças a duas canções adoradas pelos fãs: "Leaving New York" e "Electron Blue". Tanto que as canções de Around the Sun acabaram sendo banidas dos shows do grupo com o passar do tempo, excetuando as duas citadas.


Edição Especial de Around the Sun

Assim como o disco é sem sal, a Edição Especial também não tem nada de anormal. Apenas o CD foi lançado no formato digipack, com as letras das canções inseridas em um pôster gigante da capa do CD. Praticamente uma decepção em comparação a versão original (que apresenta as letras no formato booklet).


Por fim, quatro anos depois de Around the Sun, veio Accelerate. Um dos melhores discos da carreira dos americanos, ele é curto (pouco mais de trinta minutos) mas muito violento. É uma paulada atrás da outra, destacando preciosidades como "Living Well is the Best Revenge", "Supernatural Superserious", a faixa-título e "I'm Gonna DJ".

Accelerate colocou o R. E. M. novamente na cena musical, atingindo o segundo lugar nos Estados Unidos, aonde permaneceu entre os dez mais por dezoito semanas, e o primeiro em seis países europeus (incluindo o Reino Unido).


Edição Especial de Accelerate
A Edição Especial foi lançada em formato de DVD, trazendo o CD com as canções originais e um DVD apresentando o vídeo 6 Days, filmado por Vincent Moon e que inclui cenas do grupo antes de apresentações ou no palco, tocando canções do álbum. Além do filme, temos duas canções inéditas ("Red Head Walking" e "Airliner"), a capa em plástico transparente e um livreto com sessenta e quatro páginas, todo em preto e branco, apresentando rascunhos diversos e as letras de todas as canções do álbum.

Os álbuns tratados hoje
Semana que vem, encerraremos as Edições Especiais apresentando as versões em vinil para os dois discos ao vivo do R. E. M. (Live, de 2007, e Live at the Olympia, de 2009).

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Maravilhas do Mundo Prog: Procol Harum - In The Held 'Twas In I [1968]




O grupo britânico Procol Harum é um dos grupos mais injustiçados da história do progressivo. Fundado em 1967, no auge da psicodelia londrina, o quinteto foi um dos pilares do que posteriormente convencionou-se a chamar de rock sinfônico, ou mais precisamente, o rock progressivo, dividindo o bastão taco-a-taco com outro injustiçado britânico, o Moody Blues.

Mas diferente do Moody Blues, que tem suas raízes no rhythm & blues americano (com o ótimo The Magnificent Moodies, de 1965), o Procol Harum já nasceu pomposo, sinfônico e revolucionário. Tudo graças às mentes de seus principais fundadores, o tecladista Matthew Fisher e o pianista Gary Brooker.


The Paramounts: Gary Brooker, B. J. Wilson, Robin Trower e Chris Copping
Brooker era o líder de um quarteto beat chamado The Paramounts, o mesmo que gravou o clássico "Poison Ivy", de Jerry Leiber e Mike Stoller, em 1964, clássico esse eternizado por bandas como Rolling Stones, The Hollies, Manfred Man e até nossa Rita Lee (que gravou "Poison Ivy" em português, batizada de "Erva Venenosa", no álbum 3001 (2000). 

No The Paramounts, acompanhavam Brooker o guitarrista Robin Trower o baixista Chris Copping e o baterista B. J. Wilson. Porém, apesar de ter gravado outros singles, o The Paramounts não conseguiu alcançar mais nenhum êxito, encerrando as atividades em 1966. 

Porém, Brooker não queria sair do mundo da música, e decidiu montar um novo grupo. Assim, agregou forças com o organista Matthew Fisher, o guitarrista Ray Royer, e o baixista David Knights, além do poeta Keith Reid. O nome de batismo do novo conjunto, Procol Harum, uma homenagem ao gato do empresário do grupo, Guy Stevens. 



Matthew Fisher, Ray Royer, Bobby HArrison, David Knights e Gary Brooker

O Procol Harum logo conseguiu um contrato com a EMI britânica, e no dia 10 de fevereiro de 1967, entrou no Olympic Studios para gravar o seu maior sucesso comercial, "A Whiter Shade of Pale", tendo na bateria o músico contratado Bill Eyden. O compacto desta canção foi lançado em 12 de maio do mesmo ano, e se tornou um dos poucos singles a superar a marca de dez milhões de cópias vendidas em todo o mundo (apenas trinta singles conseguiram essa façanha), alcançando a primeira posição no Reino Unido e na Austrália, aonde permaneceu nessa posição por oito semanas. 


O incrível sucesso de "A Whiter Shade of Pale" levou o Procol Harum a fazer uma excursão mundial (isso com um único single lançado), a qual teve como abertura um jovem guitarrista negro chamado Jimi Hendrix. Não à toa, é uma das canções mais conhecidas e regravadas ao redor do mundo. Nessa turnê, Robin Trower e B. J. Wilson ingressaram respectivamente na guitarra e na bateria, e com eles, gravaram o segundo single, "Homburg", lançado em outubro de 1967, alcançando a quinta posição no Reino Undo. 


O contato de Trower com Hendrix influenciou diretamente a forma de tocar de ambos, apesar de muitos afirmarem que apenas Trower bebeu da fonte de inspiração que era Hendrix (Hendrix aprendeu a repetir os vibratos de Trower de forma muito similar).

Entre a gravação de "A Whiter Shade of Pale" e "Homburg", é lançado o primeiro LP do grupo. Procol Harum chegou às lojas em setembro de 1967, através da Deram Records, e como que uma blasfêmia, no Reino Unido, a versão original não contava com "A Whiter Shade of Pale" (o que foi corrigido nas versões americanas e dos outros países europeus). O som do álbum é uma mistura de psicodelia e beat-rock, em um pop simples no geral, carregado pelo órgão inconfundível de Fisher e pelas lindas harmonias instrumentais de Brooker. O disco fez sucesso relativo, e deu a oportunidade para o quinteto seguir seu trabalho.



David Knights, Matthew Fisher, Robin Trower, B. J. Wilson e Gary Brooker

Uma série de singles sem sucesso, mais uma pequena turnê pelo Reino Unido, e chegou o segundo disco do grupo. Shine on Brightly foi lançado em setembro de 1968, e é um ousado projeto da dupla Fisher / Brooker. Nos seus trinta e nove minutos de duração, temos a chave-mestra do que virou o progressivo anos depois, com a primeira grande suíte criada por um grupo de rock, a linda "In Held 'Twas In I". 


Dividida em cinco partes ("Glimpses of Nirvana", "'Twas Teatime at the Circus", "In the Autumn of My Madness", "Look to Your Soul", "Grand Finale"), é uma ousada suíte musical, que demora para ser assimilada, mas depois de absorvida, se torna uma embriagante sessão de relaxamento e prazer. Além disso, a participação de um pequeno coral deu mais drama a essa emocionante canção.
 

Gary Brooker
"Glimpses of Nirvana" abre nossa Maravilha Prog com o som de um instrumento indiando, acompanhando o poema que conta a história. Efeitos de guitarra como microfonias e vibratos aparecem, e após o poema encerrar-se, entra o tema marcado de guitarra, bateria e baixo. As notas da guitarra e do baixo executam um pequeno crescendo, enquanto o piano é martelado por , encerrando essa pequena ponte com os acordes decadentes do piano, intercalado por três intervenções de baixo, bateria e guitarra.

Aqui começa realmente a maravilha musical de "In Held 'Twas In I", com a Sitar e o piano executando o tema principal da canção. O baixo faz leves notas, trazendo o coral que entoa a melodia do tema principal, acompanhando o piano. Uma respiração profunda da espaço para um pequeno solo de piano, e mais um trecho do poema é entoado, enquanto a melodia do piano vai envolvendo o ouvinte, em uma melodia triste, mas muito bela.



Matthew Fisher

Batidas de um sino e rufares percussivos levam para a alegre "Twas Teatime at the Circus", uma espécie de canção-cabaret, misturando valsa e polcas, destacando as vocalizações e intervenções do baixo e do piano, encerrando essa parte da canção com aplausos e muita festa. Porém, uma grande explosão acaba com tudo, trazendo a letra de "In the Autumn of My Madness", em um ritmo leve, tipicamente sessentista, no qual o órgão e a guitarra se destacam.

Fisher faz um pequeno tema no órgão, e a letra continua, sempre com o mesmo ritmo, trazendo novamente o tema do órgão, enquanto ao fundo podemos ouvir uma sirene, gritos e diversos efeitos de colagem musical, os quais vão diminuindo o volume da canção para chegar na parte central e mais empolgante. Guitarra e baixo executam um tema marcado, enquanto o órgão delira com acordes longos. 



Robin Trower

Baixo, guitarra, piano e bateria fazem uma marcação tribal, ao mesmo tempo que o órgão delira, e nessa marcação, a guitarra passa a fazer o tema principal de "In Held 'Twas In". A guitarra então geme com notas muito tristes, enquanto baixo, órgão e piano repetem o tema central acompanhados pelo ritmo tribal.

Brooker passa a cantar acompanhado pelo cravo e pelo piano, e o ritmo suave é retomado pela bateria, com baixo, cravo e piano acompanhando belamente e dando mais emoção ao já emocionante vocal de Brooker, que com um longo grito, fica sozinho ao piano. O cravo e a marcação no prato mantém a letra em ação, seguindo o ritmo leve de "Look at Your Soul", para Trower executar um lindo solo, com muitos vibratos, encerrando "Look at Your Soul" com mais um longo grito e o rufar da bateria.

É a marcação no prato, assim como o baixo, que introduz "Grand Finale", trazendo o piano (aqui tocado por Fisher) e a guitarra executando um tema marcado junto do baixo, para o coral de vozes criar uma bonita melodia enquanto Fisher sola ao piano. Trower passa a solar, e o órgão entra em ação, com a canção ganhando dramaticidade nos acordes do instrumento, e a cozinha Knights/Wilson fazendo um acompanhamento singelo, mas perfeito para as notas rasgadas de Trower, encerrando essa maravilhosa canção com o coral trazendo uma energia positiva para a tristeza que impera em quase toda a suíte, acompanhado pelo ritmo marcial e por um longo acorde do órgão.


Procol Harum: pais do progressivo britânico

O Procol Harum ainda seguiu uma carreira com altos e baixos, trocando de membros como quem troca de roupas. O terceiro disco do grupo, A Salty Dog (1970) tornou-se o mais bem-sucedido álbum de sua carreira. Em 1972, o álbum Live in Concert with the Edmonton Symphony Orchestra trouxe em todo o seu lado B  uma fantástica versão ao vivo para "In Held 'Twas In I", a qual certamente deve ser ouvida pelos apreciadores do estilo. O grupo Transatlantic também fez uma regravação para essa maravilha prog.

O grupo encerrou as atividades em 1977, voltando no início da década de 90 para um único álbum (The Prodigal Stranger, de 1991) e definitivamente na década passada, permanecendo na ativa até hoje fazendo shows ao redor do mundo.

Talvez, se não fosse a ousada investida da dupla Fisher / Brooker, jamais teríamos a oportunidade de ouvir suítes como "Echoes" (Pink Floyd), "Close to the Edge" (Yes) ou "Supper's Ready" (Genesis). "In Held 'Twas In I", além de uma Maravilha Prog, é uma peça essencial na história do rock progressivo e da música. Pena que o Procol Harum nunca mais tenha feito algo do porte dessa suíte, sendo reconhecido até hoje apenas pela bonita, mas ingênua, "A Whiter Shade of Pale.
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