sábado, 28 de setembro de 2013

Miles Davis: Bitches Brew 40th Anniversary Collector's Edition [2010]




Quando Miles Davis lançou 'Round About Midnight em 1956, o primeiro disco dele pelo selo Columbia, poucos sabiam que ali estava sendo dado o primeiro passo para a maior transformação que o jazz teve em toda sua existência. O álbum, repleto de reinterpretações fabulosas como "'Round Mindnight", "Bye Bye Blackbird" e "All Of You", apresentava o trompetista acompanhado por um super-time, com John Coltrane (saxofone), Joe Jones (bateria), Paul Chambers (baixo) e Red Garland (piano), talvez o melhor quinteto de jazz formado na história da música.


Davis acabou reformando sua banda, e três anos depois, apresentou Kind of Blue. Particularmente, o melhor disco de jazz da história, este LP inovava com um sexteto fabuloso, ainda superior ao quinteto de 'Round About Midnight. Nele, simplesmente estão acompanhando o trompete de Davis: John Coltrane (saxofone), Cannonball Aderley (saxofone), Bill Evans (piano), Paul Chambers (baixo), Jimmy Cobb (bateria) e Wynton Kelly (piano em apenas uma única canção, "Freddie Freeloader"). Com canções longas, repletas de improvisos, o jazz ganhava novos rumos, dando os primeiros passos para o que foi convencionado como free jazz na década de 60, destacando "So What" e "All Blues".


Memorabilia (ingressos, fotos e documentos raros)

Coltrane seguiu uma carreira solo de extremo sucesso, enquanto os demais gravaram seus nomes na história do jazz como exímios músicos, seja como acompanhantes, seja em carreiras (breves) solo. Mas Davis seguiu em frente, agora acompanhado pelo baterista Tony Williams, um gênio/referência em seu instrumento, assim como Buddy Rich e Max Roach, que influenciou Davis por novos caminhos.


Em 1965, com um novo quinteto, veio o álbum E. S. P., trazendo a marcante presença de Williams e dos jovens Herbie Hancock (piano) e Wayne Shorter (saxofone), além de Ron Carter no baixo. Era o início de uma nova revolução no jazz, a qual foi sacramentada com Bitches Brew.



Lançado em 1970 (cinco anos após E. S. P.), Bitches Brew é simplesmente o auge da criatividade de Davis. Se Kind of Blue é o melhor disco de jazz da história, Bitches Brew é o mais importante álbum que o jazz lançou após os anos 60.



Reprodução em papel jornal com entrevista de Davis para a Rolling Stone

Durante os cinco anos que se sucederam entre E. S. P. e Bitches Brew, Davis ampliou não somente sua banda (de cinco para doze membros, em média), mas os limites que o jazz até então já havia alcançado, inserindo sem dó nem piedade a eletrificação dos instrumentos no estilo, influenciado por nomes como Jimi Hendrix, Sly Stone, The Allman Brothers Band e James Brown. Foram seis álbuns lançados nesse período, que vagarosamente, fizeram com que o timão do navio governado por Davis levasse o mesmo para caminhos totalmente novos.



O resultado: um disco que personificou o jazz com uma nova cara, empregando as experimentações do free jazz com técnicas apuradíssimas, através do já citado Wayne Shorter (saxofone), Joe Zawinul (piano elétrico), Chick Corea (piano elétrico), John McLaughlin (guitarras), Bennie Maupin (clarinete), Dave Holland (baixo), Harvey Brooks (baixo), Jack DeJohnette (bateria), Lenny White (bateria), Don Alias (congas), Juma Santos (congas), os quais formaram um super conjunto, da onde anos depois iria brotar os grupos Weather Report, V. S. O. P., The Eleventh House, Return to Forever, entre outros.



Detalhe do papel manteiga com inscrições em auto-relevo

Quarenta anos depois, o selo Sony Legacy, em comemoração ao aniversário dessa obra prima da música mundial, lançou Bitches Brew 40th Anniversary Collector's EditionEsta luxuosa edição, no formato 12 x 12 cm, apresenta três CDs, um DVD e mais dois LPs. 


Nos dois primeiros CDs, encontramos Bitches Brew em sua integridade. Pouco menos de noventa e quatro minutos de muita exploração dos instrumentos, principalmente piano elétrico, saxofone, bateria, baixo e trompete. O álbum que aproximou o rock do jazz é saboreado em detalhes, com uma qualidade de som impecável, mostrando por que os hippies e os freaks da década de 60 admiravam e veneravam tanto a arte de Miles Davis, sendo o mesmo capaz de participar de festivais de rock como o de Rotterdam em 1970, ou de lotar o Fillmore ao lado de gigantes como Jefferson Airplane e Grateful Dead.





Livreto com fotos e entrevistas

Complementam esse material seis bônus: versões alternativas (e até então nunca lançadas) de "Spanish Key" e "John McLaughlin"; as versões editadas para compacto de "Miles Runs the Voodoo Down" e "Spanish Key"; e os lados B's "Great Expectations" e "Little Blue Frog", destacando o encontro da música oriental, (sitar, a tambura e a tabla), com instrumentos brasileiros, (cuíca e berimbau), fruto da inserção dos músicos Khalil Balakrishna, Bihari Sharma e Airto Moreira, respectivamente, ao grupo de Miles. Nessas duas canções, Steve Grossman substituiu Wayne Shorter, enquanto Herbie Hancock está no lugar de Joe Zawinul. Ambas foram gravadas em novembro de 1969, meses antes de Bitches Brew chegar às lojas.



Os dois primeiros CDs são apenas aperitivos para um delicioso jantar, já que o terceiro CD é uma apresentação de Miles acompanhado por um incrível sexteto durante um festival na cidade de Tanglewood, em 18 de agosto de 1970. No palco, estão Gary Bartz (saxofones), Chick Corea (piano elétrico), Keith Jarret (órgão), Dave Holland (baixo), Jack DeJohnette (bateria) e Airto Moreira (percussão). 



O CD começa com uma apresentação de Bill Graham, dono das casas Fillmore, e depois, durante ininterruptos trinta e oito minutos, o grupo manda ver em um frenesi sonoro repleto de experimentações e viagens instrumentais, destacando  "Directions", "Bitches Brew" e "It's About That Time". A apresentação encerra-se com "Miles Runs the Voodoo Down", e Miles sendo ovacionado pelo seu público, sem trocar uma palavra com o mesmo.



Os vinis 180 gr

Após deliciar-se com essa bela apresentação ao vivo, é no DVD que está o manjar dos deuses desse box. Pouco antes do lançamento de Bitches Brew, Miles mandou-se para a Europa, por onde excursionou durante duas semanas. Uma das apresentações dele na Dinamarca foi registrada para uma TV local, e agora, chega aos fãs nesse DVD. 



Copenhagen Live 1969 apresenta Miles e um quarteto formado por Wayne Shorter (saxofone), Chick Corea (piano elétrico), Dave Holland (baixo) e Jack DeJohnette (bateria) em uma apresentação no Tivoli Konsertsal de Copenhagem, na data de 04 de novembro de 1969, e é uma luxúria sonora de extremo bom gosto.



Nele, podemos conferir a humildade de Miles perante seus músicos. Muitas vezes, o trompetista abandona o palco, deixando que Shorter e Corea tenham seus momentos de brilho. E como brilham ...



Uma senhora caixa

Shorter, ainda jovem, mostra talento nas palhetadas e respirações ofegantes, além de vibratos sensacionais a la Coltrane, enquanto Corea, também muito jovem, com uma faixa na cabeça, passeia com seus pequenos dedos velozmente pelas teclas do piano, demonstrando uma habilidade exclusiva.



O clímax do DVD fica para a sequêcia "Agitation", "I Fall in Love Too Easily", "Sanctuary" e "It's About That Time / The Theme", na qual os músicos recebem pequenos momentos individuais, com Holland usando arco para tocar seu baixo acústico (arrancando uivos delirantes do mesmo) e DeJohnette socando a bateria como poucos. Uma verdadeira maravilha auditiva e visual, que deveria ser levada para todas as escolas de música, e por que não, do Ensino Médio e Fundamental, para os alunos aprenderem o que é arte.



A caixa ainda apresenta um LP duplo com Bitches Brew na íntegra, repetindo a mesma sequência das canções do álbum original, além de trazer as liner notes da capa dupla original e também imitar o famoso selo vermelho da Columbia Records.




Detalhes laterais

Mas Bitches Brew 40th Anniversary Edition não é essencial apenas pela música. Na parte de memorabilia, a caixa da Sony Legacy dá um espetáculo a parte. Primeiro, temos um livreto com cinquenta e duas páginas, recheado de fotos inéditas, tanto da vida pessoal quanto das gravações em estúdio, depoimentos de Greg Tate, Michael Cuscuna, Richard Seidel e Lenny White, além de uma pequena entrevista feita com Miles Davis por Ashley Kahn e algumas páginas dedicadas a Mati Klarwein, o genial pintor responsável pela arte da capa de Bitches Brew. A capa do livreto inclusive é mais uma arte de Mati, chamada Zonked (uma psicodélica pintura em homenagem a esposa de Davis, Betty Davis).



Por fim, um pacote extra faz o fã delirar de vez. Em formato de envelope 10 x 10 cm, feito de papel manteiga transparente, na capa do envelope temos a inscrição do nome de Davis em alto relevo. Dentro do mesmo temos: 



- Um pôster gigante de Miles tocando trompete; 



- A reprodução fiel (inclusive no formato de jornal) de uma polêmica entrevista de Davis para a Rolling Stone, publicada em 03 de dezembro de 1969, na qual ele fala, entre outros, sobre racismo, sua relação com músicos de jazz, as influências de Hendrix e Sly Stone em sua música e como ele desenvolveu sua carreira artística.



- Duas correspondências dos arquivos do produtor Teo Macero, falando da mudança de nome que Davis desejou para o álbum (inicialmente, Bitches Brew deveria ser chamado Listen to This);



- Dois cartões com fotos de Davis;



- Reprodução de três ingressos para a apresentação de Davis em concertos no Fillmore West, em abril de 1970.



Os CDs/DVD e seus espaços exclusivos


Fora isso, os três CDs e o DVD estão acondicionados em uma caixa especial, com espaços exclusivos para cada mídia, trazendo imagens referentes a imagem original da capa de Bitches Brew.



Ou seja, o fã que adquirir esse box set estará levando para casa não apenas uma caixa com mimos e boa música, mas o filé do que há de melhor no gênero. 


Hoje, completam-se vinte e um anos da morte de Miles Davis. Essa caixa é uma belíssima homenagem para ser colocada à tarde inteira na sua sala, acompanhada por um bom uísque, petiscos e uma parceira disposta a curtir um álbum Essencial!


Todo o material de Bitches Brew 40th Anniversary Edition

Track list

CD 1

1. Pharaoh's Dance
2. Bitches Brew
3. Spanish Key
4. John McLaughlin

Pôster gigante acompanhando a caixa
CD 2

1. Miles Run the Voodoo Down
2. Sanctuary
3. Spanish Key (alternate Key)
4. John McLaughlin (alternate take)
5. Miles Runs the Voodoo Down (single edit)
6. Spanish Key (single edit)
7. Great Expectation (single edit)
8. Little Blue Frog (single edit)

CD 3 - Tanglewood Live 1970

1. Bill Graham Intro
2. Directions
3. Bitches Brew
4. The Mask
5. It's About That Time
6. Sanctuary
7. Spanish Key / The Theme
8. Miles Runs the Voodoo Down
9. Bill Graham Outro

DVD - Copenhagen Live 1969

1. Directions
2. Miles Runs the Voodoo Down
3. Bitches Brew
4. Agitation
5. I Fall in Love too Easily
6. Sanctuary
7. It's About That Time / The Theme

LP

1. Pharaoh's Dance
2. Bitches Brew
3. Spanish Key
4. John McLaughlin
5. Miles Runs the Voodoo Down
6. Sanctuary

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Maravilhas do Mundo Prog: Genesis - The Musical Box [1971]



Depois de lançar Trespass, contendo dentre outras a Maravilhosa "Stagnation", o grupo britânico Genesis passou por um processo de transformação que interferiu diretamente na carreira da banda, elevando-a para patamares impensáveis quando o grupo surgiu em meados da década de 60.



A saída inesperada do guitarrista Anthony Phillips levou a entrada (temporária) de Mick Barnard, e logo em seguida, do desconhecido Steve Hackett. As performances erráticas do baterista John Mayhew também influenciaram para que Peter Gabriel (vocais, flautas, percussão), Tony Banks (teclados, violões) e Mike Rutherford (baixo, guitarras, violões) a contratar um novo baterista, no caso o também desconhecido Phil Collins.


Phil Collins, no filme A Hard Day's Night
A carreira musical de Collins começou quando ele tinha quatorze anos, momento em que ele ingressou na Barbara Speake Stage School. Nesta escola, Collins passou a desenvolver seu lado de ator e modelo, atuando em peças teatrais das quais muitas eram musicais, ajudando o menino a desenvolver seu lado vocal. Seu talento destacou-se de tal forma que rapidamente passou a ser ator principal em peças de teatro, filmes e levando-o a ser convidado pelos Beatles para participar das gravações do filme A Hard Day's Night, como um dos adolescentes que gritam desesperadamente pela banda durante uma apresentação na TV.

Ao mesmo tempo, Collins mantinha-se apaixonado pela música, participando vez ou outra de pequenos grupos, como o Real Thing e o Freehold, aonde escreveu sua primeira canção, "Lying Crying Dying". O instrumento sempre foi a bateria, e graças a ela, Collins gravou seu primeiro álbum no grupo Flaming Youth, no caso Ark 2 (1969), no qual também apresenta seus dotes vocais. O grupo durou pouco mais de um ano, separando-se sem ter conseguido um sucesso, e então, eis que um anúncio no Melody Maker surge na vida de Collins, que respondeu ao mesmo. O teste foi feito na casa de Peter Gabriel, e assim foi a entrada do baterista no Genesis.

Quiet World. Hackett é o primeiro à direita, na segunda linha

Já a carreira de Hackett sempre foi voltada para a música. Quando adolescente, o guitarrista havia participado dos grupos Canterbury Glass e Sarabande, ambas com fortes raízes na cena psicodélica londrina, que engatinhava para tornar-se o rock progressivo. Em 1970, ingressou no grupo Quiet World, com quem gravou o álbum The Road (1970). A banda durou apenas alguns meses, pois rapidamente, Hackett viu o mesmo anúncio lido por Collins, e foi tentar a sorte no grupo que buscava um guitarrista e um baterista. Em dezembro de 1970, Hackett entrava para o Genesis, e assim, surgia uma das formações mais emblemáticas da história do rock progressivo: Peter Gabriel, Mike Rutherford, Tony Banks, Steve Hackett e Phil Collins.

Entre 1971 e 1974, essa formação gravou quatro álbuns de estúdio e um ao vivo, aonde, com uma raridade exclusiva, foram paridas Maravilhas Prog que preencheriam várias postagens dessa sessão, a começar pelo álbum de estreia da formação, Nursery Cryme, o terceiro da carreira do Genesis.

Steve Hackett, Tony Banks, Peter Gabriel, Phil Collins e Mike Rutherford, em 1971

Gravado durante duas semanas de agosto do mesmo ano, esse é um LP magnífico, composto de sete canções que das quais, quatro certamente são Maravilhosas passagens musicais do estilo progressivo. É difícil destacar uma delas, e a escolha aqui se deve muito mais pela importância na carreira do Genesis do que pela musicalidade em si, já que as demais (que serão citadas na sequência) também merecem seus méritos, e algum dia terão seu espaço no Maravilhas do Mundo Prog.

A escolhida então é a Maravilhosa faixa de abertura de Nursery Cryme, "The Musical Box". Ela é um conto de duas crianças moradoras de uma casa de campo típica, com uma babá que cuida dos dois amigos, chamados de Cynthia Jane De Blaise-William e Henry Hamilton-Smythe. Cynthia tem nove anos, enquanto Henry tem oito anos.

A dupla é uma legítima representante das famílias britânicas com certa reputação durante a Era Vitoriana, na qual a Rainha Vitória governou a Grã-Bretanha, período esse que durou de junho de 1837 a janeiro de 1901. É nesse período, por exemplo, que o Reino Unido consolida-se como um expoente para a Revolução Industrial, o que favoreceu ao desenvolvimento de uma classe média muito mais educada e bem financeiramente. Cynthia e Henry então são filhos de famílias dessa época vivendo em uma casa de campo na qual são cuidados por uma babá durante praticamente todo o dia, em uma espécie de créche comum à época, localizada na parte superior da casa de família e tendo uma babá como supervisora, lavando, vestindo e cuidando das crianças.

A babá leva as crianças para brincar durante a manhã, período que não há aulas, e também cuida dos mesmos durante o almoço, geralmente comido na créche. Pela tarde, há uma sesta e um passeio com jogos, além de uma visita com a mãe, aonde cantam e recitam versos até voltarem para seus quartos. O jogo mais comum dessas famílias é o críquete, na qual as crianças usam bastões para fazerem uma bola passar no meio de argolas.

Esse é o ambiente em que Cynthia e Henry vivem, e um dia, os dois estão brincando, jogando críquete, quando repentinamente, a menina arranca a cabeça de Henry com o martelo do jogo, sem nenhum motivo aparente (ciúmes talvez).

O espírito de Henry, saindo
da caixa de música
Duas semanas depois da morte do menino, a garota entra no quarto de Henry e encontra o principal tesouro do garoto, uma pequena caixa de música. A garota abre a caixa, que passa a tocar uma canção chamada "Old King Cole", e enquanto a canção toca, surge uma pequena figura de um espírito. É Henry que retorna, tentando vingar-se de Cynthia, exigindo que ela humilhe-se para ele, realizando seus desejos, inclusive os carnais. Henry tenta persuadir Cynthia a ter uma relação sexual. 

Porém, o espírito de Henry está envelhecendo rapidamente, apesar de continuar no corpo de uma criança, criando barba e rapidamente tendo cabelos brancos. Os barulhos de Henry e Cynthia chamam a atenção da babá de Cynthia, Nanny, que invade o quarto e acaba destruindo a caixa de música, juntamente com o espírito de Henry. 

Essa história aparece musicalmente nos onze minutos iniciais do LP, que são daqueles momentos mágicos, na qual uma pessoa que nunca ouviu Genesis, certamente se apaixona pelo som da banda. "The Musical Box" começa com treze acordes de violões, aproveitados de um tema criado por Philips e que foi batizado inicialmente como "Manipulation", seguidos por um dedilhado de violões (cortesia de Banks e Rutherford, também advindo de "Manipulation") e trazendo os vocais de Gabriel contando o início da história, quando os garotos ainda estão no berçários.

O trio de violões segue seu dedilhado, enquanto Gabriel faz o papel da babá, contando histórias para as crianças, e com a guitarra de Hackett chorando ao fundo.

Peter Gabriel

O interlúdio apresenta a famosa frase: "Play me my song, here it comes again", com intervenções do tema oriental da guitarra e seguida por um breve solo de flauta em um trecho mais tenso do dedilhado dos violões. A canção fica sobrecarregada, e enquanto Collins faz vocalizações, Gabriel faz o papel de Henry pedindo mais tempo para viver.

Depois de uma pequena série de vocalizações, flauta e guitarra fazem um tema marcado na guitarra, com a flauta fazendo mais um pequeno solo, seguido pelo lindo solo de Hackett. Aqui surge uma tímida marcação no chimbal.

Repentinamente, marcações suaves nos pratos e tons acompanham o tema de flauta e guitarra, e o interlúdio é repetido, entrando no pesado trecho central, com guitarra e baixo fazendo marcações mescladas com o órgão, que nos apresentam o fantástico solo de Hackett. O grande destaque nesse trecho é a participação de Collins, que esmerilha a bateria como poucos, em uma série de viradas e batidas aleatórias muito ferozes.

Henry fora da caixa de música
O peso é alividado pelos violões, que dão sequência para a letra através de uma voz triste de Gabriel, com intervenções ao fundo da guitarra, voltando então para o peso anterior, agora para Banks solar nos teclados, e Collins demolir seu kit com batidas pesadíssimas. Piano elétrico e guitarra apresentam um breve tema sobre a demolidora cozinha do baixo e bateria, que cavalgam pela sala, e Hackett arranca uivos da guitarra, assim como Banks também está socando seu órgão com gana.

Encerrando esse pesadíssimo momento, bateria, baixo, órgão e guitarra apresentam um tema marcado, veloz e insano, com Collins novamente dando um show em seu kit, em uma série de viradas espetaculares e muito bem marcadas, acalmando tudo novamente com a abaertura da caixa musical.

O dedilhado de violões traz a voz de Henry, demonstrando seus sentimentos por Cynthia, e assim, o órgão ganha espaço juntamente com a percussão, enquanto Henry declama suas lamentações para Cynthia. A agonia de Henry é percebida na voz de Gabriel, que interpreta as palavras como se fosse realmente seus últimos segundos de vida, e berrando para Cynthia tocá-lo, com a série "Now, now now!", concluí-se essa magnífica Maravilha com o órgão e a bateria fazendo um belo crescendo, que traz a última marcação de órgão, guitarra e bateria, entoando um tema clássico que remete ao tema de "Old King Cole". 

Nursery Cryme segue com "For Absent Friends", uma curta vinheta acústica cantada por Collins, a primeira canção do Genesis a ter exclusivamente sua voz, e encerra o lado A com a Maravilhosa "The Return of the Giant Hogweed", contando a história da terrível erva-daninha que assombrou os campos russos no final do século XVIII, e que é uma das primeiras canções da história do rock a gravar a técnica do tapping na guitarra. 


O lado A de Nursery Cryme, na versão original inglesa
No Lado B, temos "Seven Stones", a terceira Maravilha do LP, com o órgão e o mellotron sendo o centro das atenções, além de bonitas passagens vocais, as curtas "Harold the Barrel", um pop sem-vergonha nenhuma, mas muito animado, e "Harlequin", outra canção acústica que apresenta o primeiro dueto vocal de Collins e Gabriel, encerrando com a Maravilha "The Fountain of Salmacis", em um trabalho sensacional de variações com mellotron, guitarra e vocal, além do baixo de Rutherford soar forte durante toda a canção.

A bela capa de Nursery Cryme foi elaborada por Paul Whitehead, responsável também pela capa de Trespass, e tem como tema exatamente a história de "The Musical Box", com Cynthia segurando um martelo em um campo de críquete, e diversas cabeças de crianças sendo as bolas, enquanto ao fundo, a babá passeia segurando uma espada. Na parte interna, Whitehead caprichou, desenvolvendo lindas ilustrações para cada uma das canções, as quais contém, além das letras, as histórias individuais, narradas por Gabriel.

A capa gatefold de Nursery Cryme (acima);
e a capa interna do mesmo (abaixo)
Além da magnífica sessão instrumental, que por si só já vale o álbum, preciso entrar um pouco na importância histórica de "The Musical Box", que afinal, foi minha justificativa para sua escolha como Maravilha nessa semana. O Genesis era uma das bandas emergentes do rock progressivo em 1971, e, graças a perspicaz visão de Gabriel, desenvolveu um estilo diferente, trazendo para o palco aquilo que as canções narravam, através de interpretações teatrais.

Tudo começou a acontecer por problemas na concepção de palco do Genesis. Como as canções tornavam-se cada vez mais intrincadas e complexas, as mesmas exigiam atenção máxima dos músicos.

O palco tradicional do Genesis. Pouca movimentação e muita tensão

Rutherford e Hackett decidiram tocar sentados, pois assim conseguiriam se concentrar e facilitar nas passagens musicais, que envolviam muitas trocas de instrumentos como violão e guitarra (baixo) para Hackett (Rutherford), com Rutherford passando inclusive a usar um instrumento de dois braços, um com um violão de 12 cordas e outro com o baixo elétrico.

Como Banks e Collins também obrigatoriamente tinham que tocar sentados, coube a Gabriel a tarefa de tentar tornar o palco do Genesis animado, já que a morosidade era grande. Porém, Gabriel era muito tímido, e demorou para sentir-se a vontade como frontman. Depois de muita paciência, eis que ele surpreendeu aos colegas pela vez primeira durante uma apresentação no Lincoln Festival, em maio de 1972. Durante o trecho final de "The Musical Box", ele apareceu no palco com o rosto pintado de branco, uma grossa maquiagem nos olhos, na cor preta, um grande colar egípcio e joias, além de a parte da frente da cabeça raspada.

Uma das primeiras fotos de Gabriel com maquiagem


A imagem chocou tanto o público quanto os colegas de banda, que não sabiam do que ia acontecer, e chamou a atenção da imprensa, o que deu mais coragem para Gabriel continuar a expôr-se. A ação foi repetida em mais alguns shows,

Lentamente, Gabriel construiu encenações e representações para ajudar o público a entender o que se passava nas canções, e também chamando a atenção para ele. Durante a turnê de promoção de Nursery Cryme, apresentou diversas encenações teatrais para as canções do grupo, sendo que em "The Musical Box", ele simulava Henry conversando com Cynthia após sair da caixa de música.

A cabeça de raposa e o vestido vermelho eram usados para interpretar Henry
nos primeiros shows do Genesis com fantasia
Essas encenações foram aprimoradas para a criação de fantasias, as quais foram utilizadas no palco no ínicio da turnê de Foxtrot, sendo a primeira delas exatamente para "The Musical Box", quando, na noite do dia 28 de setembro de 1972, inspirado na capa do novo álbum, que estava para ser lançado dias depois, Gabriel deixou o palco durante o trecho instrumental que antecede o final da canção, e novamente, sem ninguém da banda ou da produção saber, voltou usando uma máscara de cabeça de raposa e um vestido vermelho.

Ali, ele interpretou pela vez primeira uma canção do Genesis com máscaras e fantasias, e deu o primeiro passo para o sucesso que consagrou a banda meses depois. Sobre isso, o vocalista declarou anos depois: "Lembro de estar muito nervoso quando entrei no palco durante 'The Musical Box'. O público ficou chocado com a estranheza de um homem vestido com roupas de mulher e uma máscara de raposa, mas eu me gostei bastante da experiência. Foi esse desempenho que me deu autoridade inquestionável dentro do Genesis".

Collins também lembra do momento: "Quando estávamos tocando no Rainbow, havia na entrada do local uma foto de Peter com a cabeça de raposa na primeira página do Melody Maker. Aquilo fez com que nossos ganhos aumentassem bruscamente. Antes, ganhávamos 300 libras por noite. Depois, eram 600 libras por noite, o que era muito dinheiro para nós. Agora, as pessoas escreviam sobre nossos shows, e Gabriel forneceu a notícia para eles."

A famosa máscara de Henry velho foi usada a partir da turnê de Foxtrot

A partir da turnê do quarto álbum do grupo, Foxtrot, cuja capa apresenta a figura da cabeça de raposa vestida de vermelho, e que contém a principal Maravilha Prog gravada pelo Genesis em sua carreira: "Supper's Ready", surgiram outras fantasias. Gabriel criou uma máscara de um idoso, utilizada no final de "The Musical Box", que era a representação de Henry, além de encenar perfeitamente cada segundo de Henry fora da caixa musical, até sua morte, sempre com o pedestal do microfone deslizando pelo meio de suas pernas (em uma clara alusão a excitação e desejos sexuais do menino).

Diversas outras fantasias surgiram durante a mesma turnê, destacando o Homem-Morcego de "Watcher of the Skies" e o Homem-Flor de "Supper's Ready", entre outros que já foram apresentadas nesse texto, assim como as encenações e efeitos de palco aumentaram significativamente. Se antes o palco do Genesis era muito estático, com as performances de Gabriel havia um dinamismo que surpreendia show após show.

Na citada "Watcher of the Skies", um jogo de luzes envolvia Gabriel durante a parte instrumental que encerra a mesma, e o ápice ficava por conta de "Supper's Ready", canção que encerrava a apresentação com muitas mudanças de fantasias, além de performances teatrais inéditas e estarrecedoras, trazendo Gabriel com maquiagem carregada, fogos de artifício e inclusive com alguns shows tendo Gabriel voando sobre o palco nos instantes finais da suíte, isso anos antes do Kiss aparecer com uma ideia similar.

Peter Gabriel voando sobre o Genesis, e sob o olhar assustado de Steve Hackett


A história de "Supper's Ready" já foi narrada aqui, com detalhes que ajudam a esclarecer o por que de sua importância. Um ano depois de Foxtrot, o Genesis lançou Selling England by the Pound, o preferido dos álbuns do Genesis de nove a cada dez fãs. Desta forma, daqui há quinze dias, teremos um Maravilhas do Mundo Prog especial com "Firth of Fifth", seguido por um Datas Especiais narrando sobre a gravação de mais um disco do Genesis rico em Maravilhas progressivas. 

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Maravilhas do Mundo Prog: Genesis - Stagnation [1970]



Durante os meses de setembro e outubro, o Maravilhas do Mundo Prog dedica sua atenção para as Maravilhosas canções criadas pelos britânicos do Genesis. Depois de apresentarmos as Maravilhas de Pink Floyd, Emerson Lake & Palmer e King Crimson, chegamos no quarto gigante do rock progressivo inglês, que dentre os cinco mais (completando o quinteto temos o Yes) foi o que teve a carreira progressiva mais curta, entre 1970 e 1977, mas o suficiente para causar estragos nas mentes dos apaixonados pelo estilo.

Os que conhecem o grupo, enaltecem a grandeza de "Supper's Ready", Maravilha Prog que já teve sua história contada aqui há alguns meses, e que certamente, é uma das maiores representantes do que foi o rock progressivo. Mas dentro da breve discografia com Peter Gabriel nos vocais (flautas e percussão), com apenas seis lançamentos de estúdio, o Genesis lançou material suficiente para fazermos no mínimo uma série com dez Maravilhas Prog somente com a banda. Com a difícil missão de escolher apenas quatro Maravilhas Prog, começamos pela primeira delas, lançada em 1970 no segundo disco do grupo, Trespass.

Anthony Phillips, Mike Rutherford, Tony Banks, Peter Gabriel e Chris Stewart
Antes de descobrimos qual é essa Maravilhosa canção, vamos contar um pouco da história do Genesis. A gênese do Genesis começa na escola de Charterhouse. Lá, no ano de 1963, Peter Gabriel e Tony Banks (teclados, violões, percussão) ingressaram para cursar o segundo grau (ensino médio). Em 1964 chegava à mesma escola Mike Rutherford (baixo, guitarra, violões), e em 1965, Anthony Phillips (guitarras, violões de seis e doze cordas). Como toda gurizada adolescente, o som rolava direto nas casas e garagens da região e, assim, surgiu a Anon, formada por Anthony, Mike, Rob Tyrrel (bateria), Richard McPhail (voz) e Rivers Job (baixo), e a Garden Wall, com Gabriel, Tony e Chris Stewart (bateria). Vale ressaltar que todos os garotos provinham de lares típicos da burguesia britânica, com hábitos bem diferentes dos demais, sendo que Tony estudou piano clássico desde pequeno.

Em 1966, Job e McPhail saíram da escola, deixando a Anon somente como trio, o que culminou com o encerramento da banda. Anthony passou a integrar a Garden Wall, a qual já vinha fazendo algumas apresentações mais impactantes pela região, sendo que em uma delas, com Job tocando baixo, Gabriel atirou pétalas de rosas ao público, um choque para a conservadora plateia britânica da época.

Com o fim da Anon, Mike e Anthony começaram a pensar em um novo projeto, com o qual contavam com a colaboração de Tony. Porém faltava vocalista, e daí Gabriel apareceu na jogada, graças à insistência de Tony. Muitas informações dizem que Gabriel teria entrado na banda como baterista, mas segundo o box Archive 1967-75 (1998), ele realmente foi convidado para ser o vocalista.

Banda formada, hora de juntar grana e começar a gravar. Várias composições surgiram, entre elas as raras "Listen on 5", "Don't Wash Your Back", "Patricia" e "Try a Little Sadness". Gravam uma fita que chegou às mãos de Jonathan King, o qual era um conhecido dos tempos da Charterhouse e que trabalhava para o presidente da Decca Records (a mesma dos Stones). King ajudou os garotos no processo de desenvolvimento das canções, influenciando bastante principalmente na inclusão de orquestrações e no trabalho das linhas vocais, já que King adorava o Bee Gees.



O primeiro compacto do Genesis
Assinam então um contrato com a Decca, lançando seu primeiro compacto, com "The Silent Sun" e "That's Me", no dia 22 de fevereiro de 1968. Um fato no mínimo curioso ocorreu no momento da assinatura dos papeis. Como eram todos menores de idade, foi necessário a autorização dos pais para a realização de tal assinatura. Porém, o contrato proposto pela Decca era de quatro anos, o que levou os pais de Gabriel, Tony, Anthony e Mike à loucura, já que eles queriam ver seus filhos formados, e não músicos. Mesmo assim, toparam assinar um contrato de um ano com direito a renovação para mais um. Stewart foi o batera da sessão de gravação deste compacto. O nome Genesis também foi obra de King, já que ele queria mostrar ao público que algo novo estava entrando no mercado.




O segundo compacto do grupo; tão raro quanto o primeiro
Em 10 de maio de 1968 lançam seu segundo compacto, com "A Winter's Tale" e "One Eyed Hound", mas, com a fraca divulgação, ambos não venderam nada.

A essas alturas, Tony estava cursando Física na Universidade de Essex e Gabriel estava estudando para passar no teste da Escola de Cinema de Londres. Porém, a gana por tocar de Mike e Anthony os convenceram a ficar mais um tempo, além do fato de King ter aberto as portas da Decca para a produção do primeiro LP, o qual começou a ser gravado em julho de 1968, já contando com o novo baterista, John Silver. Durante a mixagem do álbum, descobriu-se que existia um outro Genesis nos Estados Unidos. Mike e Gabriel pensaram em Revelation, mas também já existia. Então, lançaram o álbum como From Genesis to Revelation, o qual traz no encarte a justificativa: "Agora somos um grupo sem nome, mas temos um disco e queremos distribuí-los a vocês, com ou sem nome". Bons tempos aqueles em que as bandas tentavam se comunicar com os fãs.




A desconhecida estreia do Genesis



Temos um álbum muito diferente do que viríamos a conhecer nos posteriores, com uma temática religiosa fortemente empregada, contando com letras muito místicas, as quais falavam sobre a aurora do homem e de sua evolução, sempre através do ponto de vista bíblico. Os destaques ficam para "Where the Sour Turns to Sweet", "The Serpent", "Window" e "A Place to Call My Own", em um bom álbum repleto de passagens orquestrais, momentos acústicos e canções curtas, com no máximo quatro minutos de duração, sendo uma gema pop britânica típica do final dos anos 60 (assim como o início da carreira de David Bowie, por exemplo).

From Genesis to Revelation foi lançado com uma capa preta e o título em letra tipografica gótica escrita em dourado. Desta forma, era catalogado em lojas de música nas seções religiosas, sendo muito difícil de ser encontrado, com as suas vendas iniciais alcançando somente 600 cópias. Aqui no Brasil o disco não foi lançado em sua versão original, mas existem no mínimo dois relançamentos, In the Beginning e Where the Sour Turns to Sweet que, além das treze faixas originais, trazem diversas outras composições da fase inicial da banda.

Mesmo com o fracasso comercial a banda já estava contagiada, e decidiram seguir carreira, com Tony largando os estudos para se dedicar exclusivamente à música. Silver partiu dessa para uma melhor, retornando aos estudos e sendo substituído pelo batera John Mayhew, o qual entrou na banda graças ao periódico Melody Maker. Além disso, McPhail reapareceu nas redondezas, e decidiu empresariar o grupo.



Anthony Phillips, Peter Gabriel, Mike Rutherford, Tony Banks e John Mayhew


Em março de 1970 começava a surgir uma das grandes gravadoras do cenário inglês, a The Famous Charisma Label, a qual possuía como chefão o carismático Tony Stratton Smith. Através de amigos, o assistente pessoal de Smith, John Anthony, que foi responsável pela contratação do Van Der Graaf Generator pela gravadora, resolveu conferir o trabalho dos garotos do Genesis, e se encantou. A Decca tentou em vão negociar mais um contrato de renovação, mas já era tarde. Assim como os Beatles e o embrião do King Crimson, o Giles, Giles & Fripp, a Decca via uma potência de vendas ir por água abaixo.

Não demorou muito para que o grupo entrasse nos estúdios da Trident (aonde iriam frequentar durante um bom tempo) e desse início na gravação do novo álbum, já que a sede pelos estúdios era enorme depois de um ano vivendo somente a base de apresentações. No dia 23 de outubro de 1970, é lançado Trespass.

O amadurecimento individual é sensível, e a entrada de Mayhew torna o som do grupo mais homogêneo e gostoso de ouvir durante todo o álbum, que começa totalmente diferente de From Genesis to Revelation, com a sensacional "Looking for Someone", uma canção que resume o que veio a ser o Genesis a partir de então, caprichando em linhas acústicas, seja com violão e piano, seja com inserções de flautas, e canções longas, repletas de mudanças no seu andamento, além de um Peter Gabriel soltando a voz e transmitindo para o ouvinte o que as canções queriam contar. Os violões aparecem hipnotizantes na introdução de "White Mountain", destacando o timbre único dos sintetizadores de Banks, e claro, as inserções de flautas e variações destacadas para "Looking for Someone" novamente presentes, e o lado A encerra-se com a linda balada "Visions of Angels", sendo difícil encontrar algo tão puro quanto essa canção, e destaque total para a inserção do mellotron com muita força no final da canção.




Encarte de Trespass


É no início do Lado B que está "Stagnation". Sua importância é tamanha para a Discografia do Genesis, principalmente por ser a primeira a apresentar algo no estilo que consagrou o grupo anos depois, que é a interpretação teatral de Gabriel e as variações climáticas da canção, com passagens interpretando os trechos que a história narrada na letra está contando. Essa Maravilhosa conta a história de um homem rico que gastou toda sua fortuna para construir um abrigo subterrâneo, aonde decide sobreviver. Uma explosão atômica ocorre e dizima com a população mundial, sendo que Thomas é o único sobrevivente, herdando todas as fortunas do mundo. Um pouco da história está no encarte, com as palavras: "To Thomas s. Eilseberg, a very rich man, who was wise enought to spend all his fortunes in burying himself many miles beneath the ground. As the only surviving member of the human race, he inherited the whole world."

A canção surge com os violões de Banks e Rutherford dedilhando enquanto Philips faz um breve tema. Gabriel canta suavemente a decisão do homem, acompanhado pelo dedilhado dos violões e de um piano, que saltita notas breves entre as mudanças de acordes de violões. As duas primeiras estrofes são cantadas assim, e na sequência, um órgão aparece juntamente da percussão, fazendo breves notas, para o piano dedilhar mais algumas notas e deixar os violões como sendo o centro das atenções. Um fantasmagórico solo de moog aparece entre os dedilhados do violão, e o clima torna-se extremamente sombrio e apreensivo na medida que os violões ampliam a velocidade de seus dedilhados (algo que se tornaria comum em várias canções do Genesis nesse período), mostrando o início da reclusão do personagem central.

Temos um crescendo com a entrada do órgão, que executa um belíssimo solo acompanhado pelos violões (agora sem estarem dedilhados, mas variando muito os acordes), um dos melhores solos da carreira de Banks diga-se de passagem e com um andamento veloz de baixo e bateria. Repentinamente, o solo é encerrado, e uma flauta traz a sequência da letra, com Gabriel agora acompanhado por acordes de violões e pelo mellotron, e Thomas tentando entender as justificativas de por que decidiu seguir aquela vida, sem contato com o exterior. Os violões voltam a dedilhar, e efeitos surgem na voz de Gabriel, levando-nos para o início do encerramento da canção através das notas hipnotizantes dos violões e das vocalizações.

O órgão passa a repetir as notas hipnotizantes, e então Gabriel solta a voz, com o personagem descobrindo-se como o herdeiro do mundo, e a letra sobre um andamento agitado de violões, bateria, baixo e órgão, deixando novamente apenas os violões dedilhando, para acompanhar um tema feito pela flauta, com a percussão fazendo breves participações. Um crescendo na percussão traz o órgão repetindo o tema da flauta, e vocalizações encerram essa magistral canção de forma emocionante, e o homem seguindo sua vida, agora fora do abrigo, com Mayhew socando a bateria imponentemente, enquanto baixo, órgão, piano e violões repetem o tema da flauta.



Capa dupla original de Trespass

As versões originais de "Stagnation" apresentam uma estrofe diferente no encerramento, mas que não alteram em nada a história de Thomas. Dando sequência ao LP, "Dusk" mantém o clima lá no alto, com os violões sendo o centro das atenções e mais uma performance soberbar de Gabriel, e o LP encerra com outra Maravilha, "The Knife", totalmente diferente das demais, com um ritmo cavalgante, baixo carregado na distorção e uma velocidade incrível na voz de Gabriel, e na qual podemos conferir um pouco do talento de Philips com a guitarra e do belo trabalho instrumental que o grupo não parou de parir a partir de então.

O álbum torceu o nariz de poucos críticos da imprensa, já que quase nem foi divulgado, e por isso, não vendeu muito no Reino Unido. Por outro lado, alcançou número um na Bélgica, feito este que levou o grupo a tocar pela primeira vez fora da Grã Bretanha. Também é importante resslatar que este é o único álbum do grupo no qual todos os integrantes participam na composição de todas as canções (posteriormente, Banks e gabriel iriam dividir constantemente os holofotes da maioria das canções da banda).

Outro ponto importante de Trespass vai para o início da colaboração com o artista plástico Paul Whitehead, que veio a fazer as duas capas posteriores dos álbuns do Genesis. Tanto o desenho quanto a inserção do corte de uma faca são obras suas, de uma beleza rara (assim como as pinturas de Roger Dean, porém mais realistas), e o capricho estende-se para a parte interna da capa dupla original e no encarte do LP, cuja aquisição no lançamento original é obrigatória.



Parte interna de Trespass
Inesperadamente, quando tudo parecia começar a dar certo, Anthony decidiu sair da banda semanas antes do lançamento de Trespass, seguindo uma carreira solo eremita. O futuro virou uma incógnita, principalmente para Banks, que havia largado tudo para se dedicar à música.O último show de Anthony com o Genesis foi em 18 de julho de 1970, e para cumprir datas, a banda seguiu apresentando-se como um quarteto.


Gabriel e Rutherford mataram no peito, principalmente por conta do grande número de shows agendados, e bancaram a sequência do projeto.Como estavam satisfeitos com as performances de Mayhem, substituíram o baterista pelo novato Phil Collins, que entrou no grupo em 2 de outubro de 1970. Para o lugar de Anthony, foi chamado Mick Barnard, que fez apresentações com os demais colegas de 3 de novembro de 1970 até 10 de janeiro de 1971, em um total de trinta concertos e uma raríssima (e dada como perdida) apresentação na TV no programa Disco 2 da BBC, em 14 de novembro de 1970.



Interessante árvore genealógica do Genesis, apresentada na versão japonesa do CD de Trespass
No dia 14 de janeiro de 1971, Barnard deu lugar para Steve Hackett, que ao lado de Gabriel, Rutherford, Banks e Collins, consolidou para a eternidade uma das formações mais importantes do rock progressivo, cuja estreia no mesmo ano, deixou mais Maravilhas Prog para os fãs, dentre elas, a linda faixa de abertura, "Musical Box", que será apresentada daqui há quinze dias, aqui, no Maravilhas do Mundo Prog.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Sangue Novo: Skyhell

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Primeiramente, quero agradecer ao Bruno por ter me concedido espaço esse mês para estrear aqui no Sangue Novo. Aproveitarei-me do mês da Independência e vou revelar para vocês dois artistas nacionais que lançaram ótimos trabalhos nos últimos anos. Hoje, trago aqui o grupo mineiro SkyHell.
Formado em 2004, na cidade de Uberlândia-MG, o quinteto Platini (vocal), Oz (guitarra), Rafa’s (baixo), Miguel Bonfá (bateria) e Helder Ribeiro (teclado) só conseguiu lançar seu primeiro (e único disco até o presente momento) em 2011.  Nesse único disco, é impressionante a incrível versatilidade que os garotos oferecem ao público, com os vocais de Platini variando desde os agudos característicos de Axl Rose, passando pelas linhas vocais e gritos de Bruce Dickinson e também influências de Andre Matos e Michael Kiske.
O som do grupo é uma mistureba de excelente sabor. Temos desde uma New Wave of British Heavy Metal de alta qualidade, passando pelo heavy metal tradicional, surpreendendo com uma balada farofa de alta qualidade e indo naturalmente para um Hard Rock típicamente anos 80, inspirado principalmente em Guns N’ Roses. Ou seja, um parque de diversões musicais para ninguém botar defeito.
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Por onde começar
Até por questão de lógica, pegue o único álbum do grupo, In the Name of Rock, e duvido que não vibre com as três primeiras canções, bem como as épicas “Opinion”, “Ask Me Why” e “Winter’s Bird”. Depois de ouvir o álbum, assista o videoclipe de “Pretty Baby“, comprovando as influências de Axl Rose no vocal e no estilo visual de Platini (as quais não são únicas, pois por diversas vezes podemos confundir sua voz com a de Bruce Dickinson, mas em outras canções)  e destacando a deliciosa atriz Carol Giroldo, o centro das atenções apesar de aparecer pouco. Uma banda poderosa, revelação de 2011 e que, tomara os empresários, tem bastante futuro pela frente.
SkyHell
Gênero: Heavy Metal, Hard Rock
Origem: Uberlândia – Minas Gerais
Atividade: 2004 – Atualmente
Discografia:
In the Name of Rock (2011)
Para quem gosta de: Iron Maiden, Guns N’ Roses, Black Sabbath, Alice in Chains, Bon Jovi

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

War Room: Van Züllat - O Casulo [2008]



Por Mairon Machado

Convidados: Marco Gaspari e Ronaldo Rodrigues

O War Room desse mês é dedicado para o rock nacional, e nossos colaboradores irão viajar ao som dos gaúchos da Van Züllat, através do primeiro álbum do grupo, O Casulo, de 2008. Infelizmente, o quarteto pelotense encerrou suas atividades ano passado, mas deixou um legado de dois álbuns, dos quais conferimos as impressões de nossos colegas agora

1. Produto Misto

Ronaldo: Começo frenético. Boa impressão.

Mairon: Barulhos e conversas trazem o moog e então surge um dos sons mais poderosos que a música brasileira ouviu na década passada. Baixo e bateria executam uma performance endiabrada, em uma espécie de samba-prog-fusion de difícil caracterização, mas muito, muito bom.

Marco: Uma pergunta: é pra gostar? (pergunto porque são gaúchos e não quero ofender o Mairon).

Mairon: É para ser sincero, Marco.

Ronaldo: Teclados e bateria nervosos, mas o lance brasileiro não deu exatamente liga com o restante, pareceu uma coisa bem distinta - parte A e parte B.

Mairon: Essa virada com a entrada da guitarra é a coisa mais Santana que o Santana nunca gravou.

Ronaldo: Ainda sim, bom!

Marco: Ainda não ouvi nada demais. E o Santana não mora em Alegrete.

Ronaldo: A guitarra tem um sonoridade bem próxima do Sérgio Hinds no segundo disco do Terço, de 1973. Um fuzz bem rasgado.

Mairon: Reta final, com a bateria comendo o pau e o órgão delirando em um grandioso solo, misturado com o moog, para um encerramento cortado após o breve solo de guitarra, levando-nos para a segunda faixa. Bom começo!

2. Sertão Digital

Mairon: Construída sobre as bases nordestinas, essa canção é regada de experimentalismo, e mantém o ritmo frenético da faixa de abertura, porém com muitas viagens na guitarra (carregada de efeitos) e nos sintetizadores.

Ronaldo: Os teclados preenchem cada espaço do som, a sonoridade dos sintetizadores é fantástica! Bastante ousado e com algo bem musical a dizer.

Mairon: E esse solo de flauta? Surpreendente.

Ronaldo: A influência da música regional é nítida, mas em uma autêntica fusão com a sonoridade universal do rock progressivo. A levada de bateria é fantástica também.

Mairon: O tecladista chama-se Cleber Vaz, que também toca guitarra e flauta. Na bateria está Marcelo Silva, Gabriel Mattos no contrabaixo e Jonatão Muller na guitarra. Esse encerramento é muito soturno!

Ronaldo: Encerramento surpreendente, de uma música surpreendente.

3. Cores

Mairon: O clima muda, ficando bem abrasileirado e caindo um pouco na qualidade inicial, mas mesmo assim, muito bom. Marco, cadê você?

Marco: Estou aqui só ouvindo e lendo.

Mairon: A sequência de solos de flauta e violão é bem encaixada, e curto as mudanças. Essa flauta me lembra muito Recordando o Vale das Maçãs. Marco, você está curtindo?

Marco: Acho bacaninha. Não sei o que dizer, lamento.

Ronaldo: Dentro do panorama até então apresentado, difícil construir uma opinião mais concreta. O som é agradável, mas pode passar despercebido também, mesmo sem saber exatamente o que vem pela frente.

Marco: Esse tipo de som tem muita informação. Eu pelo menos fico confuso numa primeira audição.

Ronaldo: De fato - muitas variações, frenesi total, e isso tudo em faixas curtas. But I like it!

Mairon: Eu quando ouvi a primeira vez fiquei chocado, por isso comprei o CD para ouvir com calma. São ótimos músicos, com ótimas ideias, e a coisa funfa.

4. De Sol a Sol

Mairon: Jazz americano para neguinho não botar defeito, repleto de tempero brazuca na cozinha e pelo solo de flauta.

Ronaldo: Estou sentindo falta de um pouco mais de acento melódico. Até então, o disco foi praticamente quebradeira do início ao fim. É o tipo de fórmula que para assistir no palco, gera uma catarse. Para ouvir em casa, é preciso um apetite especial.

Marco: Ia dizer coisa parecida: bom de tocar, mas chato de ouvir, hehe...

Ronaldo: A música vai direto ao ponto, sem preliminares...

5. Utacarani

Ronaldo: Não tem nem pausa entre as músicas!

Mairon: Segue a linha da faixa anterior, e quase não percebemos a mudança de uma para a outra. Ritmo alucinante. E o moog comendo solto, além da bateria estar demais.

Ronaldo: Realmente, esse trabalho de moog é embasbacante e nenhum dos outros músicos fica atrás.

Marco: Desculpem, isso é disco para músicos. O moog é bacana mesmo.

Mairon: Esses duelos e virações são fantásticos. Olha a sequência de solos de baixo e bateria, que coisa FODÁSTICA.

Ronaldo: Um tipo de progressão bem ELP essa parte agora.

Mairon: O cleber é altamente influenciado pelo Wakeman e pelo Thijs Van Leer

6. Tarantula

Mairon: Agora é a vez da guitarra brilhar, e essa cozinha é muito, mas muito perfeita. Moog comendo solto!

Ronaldo: O som da bateria poderia ser melhor tratado, a gravação parece ser meio amadora.

Mairon: Foi gravado em 2 canais apenas Ronaldo, intelizmente. Um trabalho bem amador.

Ronaldo: Uma pena! Uma boa qualidade e um pouco mais de paciência na construção das músicas faria esse trabalho atingir uma amplitude muito maior.

Mairon: Acredito que houveram dois problemas aí: Cidade pequena e falta de interesse em produzir o trabalho (falta de apoio mesmo, os caras correram atrás, mas ninguém se interessou)

Marco: Cadê aquela coisa regional das primeiras músicas?

Mairon: Está na flauta e E na percussãozinha que rola no fundo.

Marco: Ah!

Ronaldo: O grupo tem identidade, talento e boas composições. Faltou equilibrio, contudo.

7. A Montanha 

Marco: Definitivamente, não gostei.

Mairon: Violões dão uma nova sonoridade, junto com sons de pássaros, na canção mais maluca do álbum.

Ronaldo: Uma abertura menos veloz, já é um refresco para os ouvidos.

Mairon: Enquanto a bateria faz uma coisa, a guitarra faz outra, parece cada um viajando no seu instrumento. Uma canção atípica, tranquila, para respirarmos. Show da guitarra, que até então estava um pouco escondida

Ronaldo: Linda passagem com os violões e a flauta.

Mairon: Mais lembranças de Recordando o Vale das Maçãs.

Ronaldo: Apesar de gostar de uma quebradeira boa, essa mais melódica é a faixa que mais apreciei.

Mairon: Esse crescendo é muito legal, e olha o violino aparecendo do nada.

8. Do Pé da Seringueira

Mairon: Um jazz simples, que definitivamente, acalma os ânimos depois da frenética abertura do álbum, com um maravilhoso trabalho ao piano do Cleber.

Ronaldo: Realmente o piano dá show, mas essa faixa parece um tampão no álbum, um tanto estéril, do tipo "já vi esse filme".

Mairon: As inspirações clássicas surgem do nada, é é muito bonito esse trecho. Um crescendo emocionante.

Ronaldo: A progressão é muito boa, bem colocada, gostei!

9. Jazzpion

Marco: Gostei do nome

Mairon: Cleber continua exibindo-se ao piano, com propriedade e talento. Trecho central esquisito e muito progressivo!

Ronaldo: Um tema cômico, mas leva um tempo até entender o que realmente está acontecendo.

Mairon: Doideira!

Ronaldo: E as vezes esse tempo é maior do que a duração da própria faixa! O tecladista, vez por outra, toca mais rápido do que eu sou capaz de ouvir!

Mairon: Hauehauehauehua!

10. Tropicando

Ronaldo: Uau...que introdução!

Mairon: Quebradeira de baixo, bateria e guitarra. Ronaldo, no segundo CD eles gravaram uma música de 20 minutos, daí da para absorver melhor o som, mas essa primeira audição te deixa meio tonto (eu pelo menos fiquei).

Ronaldo: Seria interessante ver como se desenvolvem em uma faixa longa.

Mairon: Se sairam bem Ronaldo, mas é muita doideira. Até uma parte somente com berimbau tem.

Marco: Sai música, entra música e é quebradeira ou pianinho maluco. Enjoou já. Mas gosto de baixo no fundo.

Ronaldo: Marco, não é você que gosta do Henry Cow? (pergunta do tipo daquelas que não é pra provocar não, ok?).

Mairon: Essas virações da guitarra são estupendas!

Marco: Não vejo nada aí parecido com o Henry Cow. Talvez as viradas de bateria de vez em quando ...

Ronaldo: Inspiradas nos melhores momentos da guitarra jazz-rock.

11. Samba Jacaré!

Mairon: Essa é para colocar a casa para dançar. Um sambão de raiz, levado pelo violão e pelo baixo, com a bateria comendo solto para a guitarra ser estribuchada em pelo estúdio. Um encerramento perfeito para um grande álbum!

Ronaldo: Realmente não se parece em nada com o som deles, mas a proposta de frenesi sonoro, sons inusitados, informação múltipla, eu tentaria fazer alguma associação. No caso, o som deles é mais direto e menos soturno. Uma pegada meio "novos baianos".

Mairon: Ahã, bem por aí, só que mais "Hard"! Essa misturança é um deleite! Assim como as mudanças inesperadas.

Marco: Essa música eu gosto. Não tem aquele fuzuê, aquele comichão. Gostoso isso.

Mairon: Tem alguns segundos de silêncio, e depois volta

Ronaldo: Essa faixa já não me fez a cabeça.

Mairon: A minha também não, Ronaldo.

Marco: Pô, eu gostei. Vou sair do grupo.

Mairon: Esse Marco.

Ronaldo: Ele que sempre foi um louco, um romântico, um anarquista...

Mairon: Agora virou leitor de Paulo Coelho

Marco: Acabou? Viva!!!

Mairon: Não, ainda tem mais, aguarde. Bem sinceramente, esse final é desnecessário, mas enfim, não entendi qual a ideia com o mesmo.

Marco: Gostaria de dizer algo em minha defesa: vão tomar no cú!!

Ronaldo: Um abraço de urso pra você, Marco. Idem, Mairon...

Mairon: Um selinho do Sheiki para você, Marco. Quanto ao som, é legal, curti o saxofone, mas foge do contexto do álbum.

Ronaldo: Nada a ver esse final, mesmo...

Marco: Isso que tá tocando é a banda ainda. Esse caras não largam o osso.

Considerações Finais

Mairon: Um álbum de difícil assimilação na primeira audição, mas que deixa aquela sensação de "Puta que pariu, preciso ouvir isso de novo" e não "Nunca mais vou ouvir isso". Um talento que infelizmente foi desperdiçado, assim como tantas outras boas bandas reveladas nos últimos anos e que não conseguiram seu lugar ao sol, por questões de patrocínio entre outros.

Marco: Achei tudo maluquinho, espertinho, inho e inho... A banda da guarda civil bêbada não faria melhor.

Mairon: Marco detonando, aheuaheuahea! O próximo disco que eu convidar o Marco, só ele vai gostar. Já está na minha agenda, só tenho que achar o link e me preparar espiritualmente para ouvir a bomba.

Marco: Não gostei de detonar, inclusive. Não acho justo com os músicos. Mas achei over pra caramba. estou ficando velho. Vou ouvir Roberto.

Mairon: AOHEHAOIEIOHAEIHAOHI. Roberto Carlos está te dando mais emoção? Isso é influência do Sheiki!?

Marco: Quem é esse Sheik, o pianista dessa banda?

Mairon: O centroavante dos selinhos

Marco: Ah, sim, joga no meu time, né? Bando de viados.

Ronaldo: Saldo positivo. O trabalho é ousado. O problema que as vezes é tão ousado que beira a desintegração. Músicos de talento inquestionável, mas que pisaram demais no acelerador. Tem momentos fantásticos, soberbos até, mas pra captá-los de verdade, somente com várias audições. Reafirmo que faltou equilíbrio e qualidade de gravação para o trabalho conseguir ser mais apreciável; talvez um sinal de imaturidade ou uma visão equivocada do gosto médio dos fãs de rock progressivo, que seriam o mais próximo de um potencial público alvo para a banda. Se o importante era apenas se expressar, o objetivo foi atingido com sobras. Agora, em termos de comunicação com o ouvinte, foi somente a banda que falou e não deu tempo de ninguém sequer abrir a boca.

Marco: Ronaldo é o meu herói.

Mairon: Bela definição Ronaldo. Com essa encerramos os trabalhos. Até a próxima gurizada!

Ronaldo: Abraços.

Marco: Outro. Selinhos mil.
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