quinta-feira, 29 de maio de 2014

Maravilhas do Mundo Prog: Rush - Cygnus X-1 Book Two: Hemispheres [1978]


Depois de terem bancado sua vontade de seguir explorando as experimentações musicais de longas suítes, e verem o sucesso ser alcançado com o álbum 2112, em 1976, destacando a Maravilhosa faixa-título, o trio canadense Rush construiu os pilares para montar a sua mansão prog durante o final da década de 70.

A turnê de divulgação de 2112 gerou o belíssimo ao vivo All the World's a Stage (1976), lançado no formato duplo e que começou uma tradição na carreira de Geddy Lee (baixo, vocais, teclados), Alex Lifeson (guitarra, vocais, teclados) e Neil Peart (bateria), o qual foi o lançamento de um álbum ao vivo após quatro álbuns de estúdio, algo que manteve-se até os anos 2000, quando uma avalanche de lançamentos ao vivo foi feita pelo grupo.

Alex Lifeson, Neil Peart e Geddy Lee

Mas a carreira precisava continuar, e com a fama alavancada, o jovem trio (Neil Peart, o mais velho deles, tinha apenas vinte e quatro anos) voltou para os estúdios no início de 1977, concentradíssimos em manter o alto nível de 2112. No dia primeiro de setembro, o grupo lançou A Farewell to Kings, que apesar de não ter repetido o mesmo sucesso comercial que seu antecessor, é tido pelos fãs como o primeiro álbum realmente progressivo do Rush.

Um dos méritos de A Farewell to Kings foi o de ter sido o primeiro álbum do trio a alcançar ouro no mercado americano, feito esse consumado dois meses depois de seu lançamento (2112 alcançou platina, porém em novembro de 1977, após A Farewell to Kings chegar na mesma marca), mas musicalmente, o álbum traz ainda muito mais méritos, a começar pela linda faixa-título, com Alex Lifeson exibindo-se graciosamente no violão clássico, apresentando uma nova faceta para os fãs da banda. Os teclados também surgem pela primeira vez nessa canção, porém de forma muito tímida.

O primeiro álbum de uma nova fase do Rush, voltada exclusivamente para o progressivo

Para comprovar mais ainda a confiança nas suítes, o grupo apresenta duas em A Farewell to Kings. A primeira concluindo o Lado A, batizada de "Xanadu", com pouco mais de onze minutos de duração e que é mais uma das diversas Maravilhas Prog que os canadenses fizeram em sua carreira, e que será certamente tratada por aqui no futuro. A segunda surge depois de três canções mais acessíveis, "Closer to the Heart", "Cinderella Man" e "Madrigal", que abrem o lado B preparando o ouvinte para uma incrível experiência sonora chamada "Cygnus X-1 Book One: The Voyage".


Essa Maravilhosa faixa, com dez minutos de duração, conforme dito em seu título, é apenas a primeira parte de uma viajante história que foi completada no lançamento seguinte do grupo, Hemispheres, de 1978, trazendo a nossa Maravilha de hoje, o "segundo livro" de Cygnus X-1, batizado "Cygnus X-1 Book Two: Hemispheres". Porém, elucidar o contexto lírico da Maravilha de hoje sem enfatizar a importância de sua parte antecessora seria como contar a história da vitória dos aliados na Segunda Guerra Mundial sem citar a importância dos nazistas para a mesma.

Desta forma, vou resumir "The Voyage" não por conta de sua parte instrumental, mas com o conteúdo informativo que a mente genial de Neil Peart desenvolveu para criar uma história incrível, que traça as constantes brigas entre a razão e a emoção durante seu Segundo Livro, mas que no Primeiro Livro contém a origem da história, quando somos apresentados ao protagonista da mesma, viajando pelo espaço próximo ao buraco negro que dá nome a canção, localizado na constelação de Cygnus. Vale ressaltar que "Cygnus X-1 Book One: The Voyage" instrumentalmente também é Maravilhosa, mas seus detalhes, assim como "Xanadu", ficarão para o futuro.


Também é preciso citar aos que não sabem que um buraco negro surge na teoria da Relatividade Geral, e é uma região do espaço na qual a gravidade é tão intensa que nada consegue escapar, inclusive a luz. Dessa forma, caso exista, a visão que se terá no universo será de uma imensa bola negra, diferente da cor roxa tradicional do espaço (apesar de muitos acharem que o espaço é completamente negro, na verdade ele possui uma emissão de frequência de luz próxima ao violeta).

As origens dos buracos-negros seriam o estágio final de uma estrela - sua morte - e existem vários indícios da existência desse tipo de "túmulo estelar" já verificados por astrônomos e astrofísicos. Inclusive, uma das especialistas em buracos-negros em todo o mundo é brasileira, a gaúcha Thaisa Bergmann, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porém, os dados atuais ainda não permitem comprovar a existência dos mesmos.


Voltando para "Cygnus X-1 Book One: The Voyage", ela é uma canção quase que completamente instrumental, e com sua letra começando apresentando o buraco negro, localizado à seis estrelas do Cruzeiro do Norte, com a força invisível de uma estrela que nunca morre, e cita algumas das características que ressaltei sobre buraco-negros nos dois parágrafos acima.

O protagonista surge viajando pelo espaço, exibindo-se a leste de Lyra, nordeste de Pegasus, tendo como referência a luz de Deneb através da via-láctea, até mergulhar no coração da constelação de Cygnus. Reparem aqui a inteligência de Peart nas citações para diferentes constelações, as quais são comuns no Hemisfério Norte. 

Quando o protagonista encontra a constelação de Cygnus, começa a sofrer as consequências da atração gravitacional do buraco negro. Raios-x e sons de sirene aparecem na Rocinante, a nave que transporta o nosso personagem, e não há o que fazer, já que a nave não consegue resistir a tal força.

Então, espiralando em queda, o protagonista sente seu corpo totalmente despedaçado, deixando notas de guitarra muito agonizantes soarem em tom decrescente, e a expectativa do que aconteceu com o protagonista. 

Terá ele morrido?


Além de toda a fantástica performance instrumental dos pouco mais de dez minutos de "Cygnus X1: The Voyage", com uma tensão e agonia muito marcante, o que chama bastante a atenção é o vocal de Lee. 

Mesmo comparecendo em pouco tempo, é o suficiente para ele estraçalhar, sendo que no momento em que o protagonista grita "Every nerve is torn apart", exatamente quando sente seu corpo despedaçado, o grito dado por Lee é de uma altura praticamente inalcançável por uma voz masculina, gerando um agudíssimo Bb5 (si-bemol na quinta), lembrando que por definição, a altura do som significa grave ou agudo. Quanto mais agudo o som, mais alto ele é.

O Lado A de Hemispheres, somente com a Maravilha de hoje

Foi com ansiedade que os fãs aguardaram o desfecho da viagem da Rocinante e seu piloto, e que foi apresentada no dia 29 de outubro de 1978, quando Hemispheres chegou às lojas com nossa Maravilha de hoje. Para surpresa de todos, o que aguardava o personagem no interior do buraco negro foi uma viagem no tempo, que o levou às origens da humanidade na Terra, quando o ser humano começava a formar suas características. 

Nesse tempo distante, ele vê uma batalha entre a razão e a emoção, e acaba sendo o principal personagem para resolver a mesma, usando sua experiência com o futuro, já que ele desafiou o buraco negro seguindo a confiança total na sua nave (a razão) mas também agindo por conta de sua vontade (a emoção).

Neil Peart

"Cygnus X-1 Book Two: Hemispheres" desenvolve-se apresentando a eterna briga entre a razão e a emoção, recriadas por Peart através de analogias com a mitologia grega, envolvendo dois deuses que representam a razão (Apolo) e a emoção (Dionísio). Além da fantástica letra, é inegável as qualidades musicais criadas por Lee e Lifeson, que viviam talvez a melhor fase de suas carreiras em 1978. A história é narrada em primeira pessoa, sendo essa o viajante de "Cygnus X-1 Book One: The Voyage".

A suíte surge diferente de sua primeira parte, mais alegre através de uma longa introdução, batizada "Prelude", com o barulho da nave espacial e batidas marcadas, como se a nave estivesse atravessando uma série de obstáculos, entrando no primeiro riff, levado pelo baixo cavalgante de Lee, o dedilhado da guitarra, batidas fortes de Peart e breves acordes de sintetizador, que trazem o segundo riff da canção, com guitarra, baixo e bateria repetindo as mesmas batidas em um ritmo marcial, deixando espaço para marcações que acompanham o dedilhado da guitarra.


Um terceiro riff aparece com uma sequência de notas feitas exatamente iguais por baixo e guitarra, com um complicado acompanhamento da bateria, e "Prelude" vai nos apresentando os diferentes riffs que irão surgir ao longo dos dezoito minutos de nossa Maravilha. Uma série de harmônicos cria o quarto riff, junto de batidas no chimbal e a marcação de baixo e bateria. O baixo passa a imitar as notas dos harmônicos, para a guitarra então explodir com a distorção fazendo as notas do quarto riff, e começar a segunda parte da história.

Com um novo riff, Lee nos introduz a história que ocorreu há muito tempo atrás. Os deuses do Amor e da Razão lutam para ver qual deles irá governar a fé dos homens, em uma batalha que durou eras, com o povo dividido entre a Razão e o Amor nos mais diversos campos de batalha. A guitarra e o baixo dedilham acompanhando a voz de Lee, que narra a história como uma pessoa que assiste os fatos que estão acontecendo, encerrando "Prelude" com um dedilhado mais grave da guitarra e a repetição do primeiro riff da suíte.


"Apollo (Bringer of Wisdom)" é a segunda parte de "Cygnus X-1 Book Two: Hemispheres". O Deus do Sol e das Artes na mitologia grega representa o lado esquerdo do cérebro na suíte, sendo este o lado criativo do ser humano, já que diversas pesquisas mostraram que as pessoas que possuem o lado esquerdo do cérebro mais desenvolvido (ou utilizam mais o lado esquerdo) são pessoas voltadas para o pensamento, aptas a ciências como Física, Matemática, Química entre outros.

A base musical é o terceiro riff de "Prelude", e na letra, Apolo apresenta-se. A apresentação é declamada pausadamente, acompanhando a melodia do riff, e nela, Apolo diz trazer a verdade, a compreensão, sagacidade e sabedoria, todos presentes preciosos e incomparáveis. Apolo afirma também que somos capazes de construir um mundo maravilhoso. Esses presentes ajudarão o homem a encontrar comida e abrigo, a fazer o fogo para aquecê-lo durante tempestades de inverno. O homem viverá com graça e conforto em um mundo no qual ele mesmo será capaz de transformá-lo para melhor.


As marcações do início de "Cygnus X-1 Book Two: Hemispheres" nos levam para o quarto riff, e com a voz mais solta, Lee volta a representar o contador da histórico, falando que as pessoas ficaram encantadas com as palavras de Apolo, e prontamente estimularam-se a construir cidades e trocar ideias.

Mas um dia, as ruas ficaram silenciosas, e o povo não sabia o que tinha acontecido. O desejo de construir essas coisas maravilhosas não estava mais presente. A solução foi dada pelos sábios: cruzar a ponte da morte em busca de Dionísio, para tentar descobrir o que havia sido perdido.

Aqui surge o primeiro solo de Lifeson, carregado de distorção e bends, feito sobre uma levada acelerada de baixo e guitarra, e apesar de curto - menos de um minuto - é suficiente para deixar os ouvintes boquiabertos com a agilidade de seus dedos e a velocidade das escalas.


Um breve dedilhado e retornamos ao riff de "Apollo", agora em "Dionysus (Bringer of Love)", a terceira parte, que apresenta o contra-ponto da razão: a emoção, sendo Dionísio o lado direito do cérebro. Pessoas que tem o lado direito do cérebro mais desenvolvido são voltadas para o dom artístico, como atores e palhaços, e são muito mais sensíveis. Na mitologia grega, Dionísio é o Deus do vinho e da fertilidade.

O Deus do Amor surge além da ponte da morte, trazendo o amor para confortar, seja na escuridão da noite ou na luz eterna do coração. Dionísio afirma que é necessário confiar em seus sentimentos, que somente o amor pode guiá-los, e assim trazer risadas, música, alegria e lágrimas, acalmando os medos primitivos. Por fim, o Deus do Amor pede ao povo para que as correntes da razão sejam jogadas fora, para livrar-se da prisão que paira sobre eles.


O quarto riff de "Prelude" retorna, e a história continua através da voz de Lee, novamente como o interlocutor da mesma, com as cidades construídas com a Razão sendo abandonadas, e as pessoas indo morar junto à natureza, nas florestas, onde passou a ecoar uma canção enquanto elas dançavam e viviam como irmãos, sabendo que o amor não poderia estar errado. Lá eles tinham comida e vinho à vontade, e dormiam abençoados sob as estrelas. O povo estava feliz, e os deuses os observavam de longe.

Mas, quando o inverno chegou, pegou-os totalmente desprevenidos. Lobos famintos, fome e frio atingiram os povos, e então seus corações entraram em desespero.


A introdução de "Prelude" é retomada, com a presença dos sintetizadores, e então surge um novo riff, feito por baixo e guitarra ao mesmo tempo. Repetida a introdução dos sintetizadores, Lifeson sola com uma dupla série de escalas que sobem e descem em tons diferentes, e mais uma vez temos os sintetizadores, abrindo a batalha entre a razão e a emoção, enaltecida na quarta parte, "Armageddon: The Battle Of Heart and Mind".

O andamento desse novo riff lembra o do segundo riff de "Prelude", e com ele ao fundo, o narrador nos conta que o universo foi dividido, com o coração e a mente entrando em colisão e deixando as pessoas desnorteadas. Os anos que passaram-se foram conturbados, com uma nuvem de medo e dúvida sobre o céu, até o mundo ser dividido em dois hemisférios ocos.


Os povos começaram a lutar entre eles, e até dentro deles mesmo, mas a maioria apenas seguia uns aos outros, perdidos e sem rumo como irmãos. Os que seguiam o Coração (Amor) estava escuro, e os da Verdade (Razão) não apareciam. Os espíritos foram divididos em hemisférios cegos.

Então, eis que surge o personagem de "Cygnus X-1 Book One: The Voyage", através do primeiro riff de "Prelude". Ele apresenta-se como alguém que nunca lutou, trazendo contos do passado para iluminar estes povos. 


Ele viajou na nave Rocinante através da noite, e seu último voo foi em direção ao coração de Cygnus, quando uma força temível fez sua nave espiralar através desse espaço atemporal, levando-os para o meio do mundo antigo, um lugar imortal. Aqui que descobrimos que o narrador da história é exatamente o personagem central de "Cygnus X-1 Book One: The Voyage". 

Um breve solo de sintetizador, ainda sobre o riff de "Prelude", leva ao encerramento da quarta parte, o qual resgata um pequeno trecho de "The Voyage", com um crescendo de acordes que explode em três batidas fortes, deixando a guitarra dedilhar suavemente de forma igual ao encerramento de "Book One".


"Cygnus: Bringer Of Balance", a quinta parte, é iniciada com longos acordes de sintetizador e inserções de trechos instrumentais de "The Voyage", até que sobre as camadas de teclados, surge nosso viajante, dizendo ter memória e consciência, apesar de não ter forma. Ele virou apenas um espírito sem corpo, que não morreu e nunca nasceu. O viajante passou por Olimpo, como nos velhos contos, vendo a cidade dos imortais, com o mármore branco e ouro puro.

Essa apresentação fica mais tensa nos sintetizadores, enquanto ouvimos explosões, e o viajante diz que viu os deuses em batalha, sem poder se mexer ou se esconder, e sentindo um grito silencioso surgir dentro dele.

Os teclados dão lugar a uma melodia seguida por guitarra e vocais, falando que a aparição do espírito cessou o caos. Um longo silêncio surgiu em um clima de paz, com os guerreiros caindo em lágrimas, tornando-se místicos.


O riff  final de "Prelude" acompanha o encerramento de "Cygnus: Bringer of Balance", com Apolo assustado, Dionísio parecendo louco. Mas ao ouvir a história do espírito que viajou no tempo, maravilhados, ficaram tristes por suas atitudes. Olhando para o Olimpo, eles viram um mundo de medo e dúvidas, com a superfície separada em dois hemisférios. Os deuses sentaram-se em silêncio, e falaram para o espírito: "Nós o chamaremos Cygnus, o Deus do Equilíbrio você deverá ser", e uniram-se para trazer a paz ao mundo.

A introdução da suíte é repetida, para uma série de acordes dedilhados acompanhar os últimos momentos da quinta parte, destacando as escalas de baixo, para sintetizadores encerrarem a coroação do espírito do equilíbrio, concluindo com quatro marcações fortes de guitarra, baixo e bateria.


"Cygnus X-1 Book Two: Hemispheres" encerra-se com "The Sphere: A Kind Of Dream", levada apenas pelo violão acompanhando a linda mensagem deixada no final da canção, que diz que podemos caminhar nossas estradas juntos, se os objetivos são os mesmos, e podemos correr sozinhos e livres, se objetivamos alvos diferentes. 

O importante é deixar a verdade do amor acender, e o amor da Verdade brilhar forte. Afinal, a sensibilidade, de braços com o sentido e a liberdade, tornam o coração e a mente unidos, em uma única e perfeita esfera, e nossa Maravilha conclui-se com um longo acorde de sintetizador. 

Uma história viajante, que fez do trio ainda mais reconhecido, aumentando sua importância para o hall do rock progressivo e ultrapassando nomes de "dinossauros" como Pink Floyd, Emerson Lake & Palmer e Yes.

Alex Lifeson

A exploração do tema foi levada inclusive para a polêmica capa de Hemispheres. Ao apresentar um homem nu de costas, as pessoas inicialmente ficaram chocadas com tal visão. Porém, ao perceber os detalhes da capa, somos hipnotizados pela simplicidade e genialidade, mostrando os dois hemisférios do cérebro tanto na frente quanto na contra-capa. A diferença é que na frente, temos de um dos hemisférios (o hemisfério esquerdo) um homem bem-vestido, representando a razão, e o tal homem nu no hemisfério direito, representando o Amor. Na contra-capa, os dois Hemisférios estão unidos sem os homens, mostrando a união para a perfeição. Detalhes que tornam a obra ainda mais genial. 

A capa de Hemispheres. No lado esquerdo, a contra-capa, com os cérebros unidos.
No lado direito, a capa, com a Razão no Hemisfério esquerdo e o Amor no Hemisfério direito

Depois de Hemispheres, o Rush continuou sua carreira, e desfrutou de ser a principal banda do rock progressivo mundial no final da década de 70, início da década de 80, com os aclamados álbuns Permanent Waves (1980) e Moving Pictures (1981), cada um deles detentor de pelo menos duas Maravilhas prog em cada álbum ("Natural Science" e "Jacob's Ladder" no primeiro, "YYZ" e "The Camera Eye" no segundo), até o lançamento do segundo ao vivo, Exit ... Stage Left (1981).

Durante a década de 80, o grupo mergulhou em uma fase diferente, levada pelos sintetizadores e com álbuns que somente hoje conseguem receber seu valor, mas que foram muito contestados principalmente pelos fãs da fase progressiva. 

Geddy Lee, Alex Lifeson e Neil Peart

A partir dos anos 90, o Rush consolidou-se com um som moderno, tendo suas incursões progressivas mas sem poder ser definido como tal, fazendo um rock direto, agradável e com ótimas passagens pelas diferentes fases da vida desse que sem sombra de dúvidas é o maior grupo de rock canadense, e que ainda nos brinda com shows, álbuns e Maravilhas com certa frequência.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Gentle Giant: Memories of Old Days (A Compendium of Curios, Bootlegs, Live Tracks, Rehearsals and Demos, 1975 - 1980) [2013]



Em 1995, os remanescentes do grupo britânico Gentle Giant decidiram  seus baús, afim de resgatar material de qualidade (ou não) e agradar aos fãs (ganhando alguns vinténs em troca) com lançamentos no estilo box set, trazendo novidades, histórias e diversão para todos. 

Assim, em apenas dois anos, chegou ao mercado Under Construction, um álbum duplo com um CD apenas com material inédito e outro CD trazendo demos e ensaios desde o início do grupo, em 1969, até seu término, em 1980.


Detalhes da caixa quíntupla

Sete anos se passaram, e mais poeira foi levantada dos tapetes e armários do gigante gentil, até que em 2004, a segunda caixa de raridades foi lançada, em um formato bem mais apetitoso que seu antecessor. Scraping the Barrel (2004) consiste de quatro CDs muito democráticos, com o primeiro trazendo raridades do primeiro álbum do grupo, Gentle Giant (1970) até Free Hand (1975), o segundo CD tendo material de Free Hand até Civilian (1980), este o último LP lançado pelo grupo, e o terceiro CD com diversos materiais solo ou de projetos que nunca chegaram a vingar. 

O melhor fica por conta do quarto CD, que no formato MP3 e também .jpg, contém imagens e canções raríssimas, com qualidade diversas, mas que totalizam mais de doze horas de audição para os fãs, e que segundo consta no encarte do Box, completava todo o material de raridades ligadas ao Gentle Giant, que se conhecia até aquele momento, tudo em apenas dois Boxes.


Os cinco CDs da caixa

Porém, nove anos depois, inspirada na caixa Scraping the Barrel, eis que a gravadora Chrysalis, responsável pelo lançamento dos últimos seis álbuns do Gigante, resolve reunir algumas canções que ficaram no MP3 de Scraping the Barrel, e depois de vasculhar um pouco suas fitas master, e alguns bootlegs que haviam no mercado, unir esse material em uma bela caixa, com o grandioso título Memories of Old Days (A Compendium of Curios, Bootlegs, Live Tracks, Rehearsals and Demos, 1975 - 1980), que confirma a abrangência de registros obtidos apenas entre 1975 e 1980.

A caixa consiste de cinco CDs, disponibilizados nas antigas caixas para quatro CDs (e não em um box normal, como esperado) e é de excelente apresentação para quem é acostumado com as diabruras que o quinteto Gary Green (guitarras, flautas, violões, percussão), Ray Shulman (baixo, vocais, violão, trompete, violino, percussão), Kerry Minnear (teclados, xilofone, violoncelo, piano, percussão, flauta, vocais), Derek Shulman (vocais, baixo, percussão) e John Weathers (bateria, percussão, xilofone) fazia tanto em estúdio quanto no palco.

Os cinco CDs são bem representativos daquele período do grupo, ou seja Free Hand (1975), Interview (1976) Missing Piece (1977), Giant for a Day (1978) e Civilian (1980), obedecendo a ordem cronológica dos lançamentos desses álbuns.


Encarte, destacando o primeiro CD (acima e abaixo)

O CD 1 abre com sessões de ensaio para Free Hand, originalmente lançadas na caixa Scraping the Barrel. São cinco faixas com ótimo qualidade, que demonstram o trabalho do grupo para construir clássicos como "Just the Same", "On Reflection" e "Free Hand", seguindo por duas canções registradas no Music Hall de Nova Iorque, em outubro de 1975 ("On Reflection" e "Proclamation") e uma no Community Theatre de Berkeley ("Free Hand), todas com qualidade regular, e que haviam saído no bootleg Endless Life, e fechando com as sessões de ensaio para a gravação de Interview, com destaque para as complicadas passagens de "Empty City" e "I Lost My Head", sendo as sete faixas pertencentes aos ensaios de Interview também retiradas de Scraping the Barrel.

No segundo CD, temos um raríssimo momento na carreira dos britânicos, também lançado no MP3 de Scraping the Barrel, que é um ensaio aberto à imprensa para a turnê de The Missing Piece. Com poucos presentes, o grupo mostra sua força, azeitando a máquina que iria avançar pela Europa e Estados Unidos tanto na parte musical como nas luzes e efeitos, e assombra com interpretações impecáveis para as clássicas "Funny Ways", "On Reflection" e "So Sincere", entre outras. Aqui, podemos ouvir claramente - já que a qualidade do som é perfeita - como o quinteto era fenomenal individualmente, tocando com perfeição instrumentos diversos, sendo os melhores exemplos Kerry e Ray, que com naturalidade exibem suas qualidades em instrumentos muito opostos, como citados acima). Só o CD 2 já vale a aquisição da caixinha, mas ainda vem mais. 


Encarte, destacando os CDs 2 e 3

Os ensaios para a gravação de The Missing Piece aparecem no CD 3, e também foram retirados de Scraping the Barrel. São seis faixas, concentrando-se apenas em passagens individuais de guitarra e moog, sem chamar tanta a atenção, deixando para o complemento do CD mais um grande momento do gigante ao vivo, dessa vez em uma apresentação em Cleveland, no ano de 1977, a qual está na íntegra, com qualidade regular, e contendo nada mais que onze faixas, aonde percebemos como o grupo já apresentava o desgaste que iria levar ao seu fim três anos depois. Mesmo assim, é inegável que ouvir "I'm Turning Around", "Two Weeks in Spain" e novamente "Funny Ways" e On Reflection", bem como "For Nobody", ao vivo, sempre traz aquele sorriso ao fã. Esse show foi retirado do bootleg The Mission Face, que saiu de circulação há alguns anos, valorizando ainda mais a caixinha.

O quarto CD possui algo mais conhecido dos verdadeiros fãs do Gentle Giant, que é a apresentação no programa de TV da BBC Sight & Sound In Concert. Esse show está disponível em canais como o youtube, e é outra amostra fiel do talento individual dos músicos. Apesar do set list ser praticamente o mesmo do show em Cleveland, a qualidade do CD 4 é muito boa, e a inclusão das onze faixas acaba sendo válida. Complementa o quarto CD cinco demos retiradas de Scraping the Barrel, e que fizeram parte do que tornou-se Giant for a Day, para muitos o mais fraco disco que o grupo já lançou.


Encarte, destacando os CDs 4 e 5

Por fim, dois ensaios para a gravação de Civilian ("All Through the Night" e "It's Not Imagination") e mais duas apresentações ao vivo nos Estados Unidos preenchem o quinto e último CD. Os ensaios não chamam tanta a atenção, mas quando o início de "Convenience (Clean and Easy)" surge nas caixas de som, abrindo o show de New Haven (1980), a casa cai. A aplicação de moogs e sintetizadores deixa os fãs mais antigos de boca aberta, enquanto os cabeça-aberta enlouquecem com as novidades propiciadas por Kerry Minnear. "Knots" e "Inside Out" são outros grandes momentos do show de New Haven, que é seguido pela última apresentação oficial do quinteto, feita em Los Angeles na data de 16 de junho de 1980, e que foi registrada anteriormente no bootleg oficial The Last Steps. Sem sombra de dúvidas, o grande momento dessa apresentação é quando os cinco largam seus instrumentos e assumem percussões, registrada sob o título "Five Man Drum Bash", um dos clássicos instantes da carreira do Gentle Giant, assim como a inesperada " The Advent of Panurge", ambas aparecendo pela única vez nesse quinto CD.


Últimas páginas do encarte

Os dois primeiros CDs foram impressos com o famoso logo verde da Chrysalis, enquanto os demais estão impressos com a mistura branco/azul que consolidou a gravadora posteriormente. Assim como o Box que envolve as mídias, o material em si também é pobre visualmente. Não há memorabilia ou imagens inéditas para o fã visualizar, apenas um encarte com doze páginas, trazendo depoimentos dos integrantes do Gentle Giant para cada um dos CDs, e com o qual descobrimos que um audacioso projeto com Eddie Jobson e um novo vocalista quase nasceu após o término do grupo, bem como a decepção de Minnear perante o resultado final de Giant for a Day.

Mas musicalmente, esse lado "colecionista" é totalmente compensado, e vale a pena aos fãs do progressivo irem atrás dessa caixinha, ficando a dica também para conseguirem a caixa que serviu de influência para que Memories of Old Days chegasse até nós. Como Gary Green diz no encarte: "Você irá encontrar algumas fitas de ensaio e gravações pessoais, algumas muito legais, mas todas muito interessantes".


O material de Memories of Old Days

Track list

CD 1

Free Hand Studio Excerpts 1975

1. Just the Same (Instrumental Backing Track)
2. On Reflection (Instrumental Clavinet Composing & Improvisig)
3. Free Hand (Piano Composing & Improvising)
4. Time to Kill (Instrumental Backing Track)
5. Mobile (Instrumental Violins)

Live USA 1975

6. On Reflection
7. Proclamation
8. Free Hand

Interview Rehearsals & Studio Excerpts 1976

9. Interview (Rehearsal)
10. Another Show (Instrumental Hammond Hi Notes)
11. Empty City (Instrumental Acoustic Guitar)
12. Empty City (Instrumental String Machine)
13. Timing (Rehearsal)
14. I Lost My Head (Composing 2)
15. I Lost My Head (Rehearsal)

CD 2

Pinewood Tour Rehearsals 1977

1. As Old As You're Young
2. The Face - Plain Truth
3. For Nobody
4. Free Hand
5. Funny Ways
6. Just the Same / Playing the Game
7. Memories of Old Days
8. On Reflection
9. The Runaway - Experience
10. So Sincere
11. Winning

CD 3 

The Missing Piece Rehearsals & Studio Excerpts 1977

1. Memories of Old Days (Guitar)
2. I'm Turning Around (Rehearsal)
3. Betcha Thought We Couldn't Do It (Guitar)
4. Betcha Thought We Couldn't Do It (Moog Solo I)
5. Mountain Time (Piano)
6. Winning (Rehearsal)

Live Usa 1977

7. Opening
8. Two Weeks in Spain
9. Free Hand
10. On Reflection
11. I'm Turning Around
12. Playing the Game
13. Memories of Old Days
14. Betcha Thought We Couldn't Do It 
15. Funny Ways
16. The Face
17. For Nobody

CD 4

BBC In Concert

1. Two Weeks in Spain
2. Free Hand
3. On Reflection
4. I'm Turning Around
5. Just the Same
6. Playing the Game
7. Memories of Old Days
8. Betcha Thought We Couldn't Do It 
9. Funny Ways
10. For Nobody
11. Mountain Time

Giant for a Day Demos 1978

12. Words From the Wise (Band Demo)
13. Thank You (Band Demo)
14. Spooky Boogie (Band Demo)
15. Little Brown Bag (Band Demo)
16. It's Only Goodbye (Band Demo)

CD 5

Civilian Rehearsals 1980

1. All Through the Night (Rehearsal)
2. It's Not Imagination (Rehearsal)

Live in New Haven 1980

3. Convenience (Clean and Easy)
4. All Through the Night
5. Free Hand
6. Knots
7. Playing the Game
8. Giant for a Day
9. Inside Out

Live Roxy 1980

10. It's Not Imagination
11. Underground
12. Five Man Drum Bash
13. Band Introduction
14. For Nobody
15. The Advent of Panurge
16. Number One

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Review Exclusivo: Uriah Heep (Porto Alegre, 20 de maio de 2014)



Depois de muitos anos de espera, os britânicos do Uriah Heep saciaram a sede de algumas centenas de gaúchos que preencheram as cadeiras do belo Teatro do Bourbon Country na fria noite do dia 20 de maio. Aproximadamente 800 fãs estavam no local, e durante toda a apresentação, quebraram o protocolo do Teatro, assistindo em pé diante das cadeiras disponibilizadas pelo local, e agitando muito.

O Uriah Heep está passando pelo país com a turnê Latin American Heepsteria, divulgando o novo álbum, Outsider, que deverá chegar às lojas ainda no primeiro semestre desse ano. A turnê, somente no Brasil, conta com shows em São Paulo, onde o grupo apresentou-se para 70 mil pessoas no último dia 17, Ribeirão Preto no dia 18, Porto Alegre, Rio de Janeiro (ontem) e ainda passará por Belo Horizonte (hoje), Brasília (dia 24) e Curitiba (25 de maio). A agenda cheia é um motivador a mais para que Mick Box (guitarra, vocais), Bernie Shaw (vocais), Phil Lanzon (teclados, vocais), Russell Gilbrook (bateria) e o novato Davey Rimmer, responsável por substituir o eterno Trevor Bolder, um dia antes da morte de um dos principais baixistas da história do rock completar um ano (Bolder faleceu no dia 21 de maio de 2013, vítima de câncer no pâncreas).


Mesmo o salgado preço do ingresso não afugentou os seguidores da banda, ainda mais que o grupo já esteve por ir a Porto Alegre duas vezes, mas ambas as apresentações foram canceladas devido a baixa procura pelos ingressos.

Dessa vez, a ampla divulgação e o crescimento no número de pessoas que curtem as famosas linhas de teclados, ou os pesadíssimos riffs de guitarra (e aqui eu me incluo) que consagraram a banda nos anos 70 foram suficientes para o Teatro do Bourbon Country ferver de adrenalina.

O espetáculo abriu exatamente com duas canções inesperadas, no caso a pancada "Against the Odds", uma das melhores canções da fase Shaw (que entrou para o grupo no final dos anos 80, substituindo nomes consagrados como o inesquecível David Byron ou a grande voz do Lucifer's Friend) , responsável por abrir o excelente Sea of Light (1995) e a animada "Overload", lançada no também primoroso Wake the Sleeper (2008). 


A partir de então, o carismático Bernie Shaw começou a se derreter de amores e desculpas para o povo de Porto Alegre, perguntando por que não se apresentaram antes na cidade, e passou a desfilar um repertório de clássicos, que segundo ele, iria passar desde o primeiro LP do grupo, Very 'Eavy, Very 'Umble (1970) até o mais recente, Into the Wild (2011), e assim, anunciou o ano de 1972, e do álbum Demons & Wizards retirou "Traveller in Time". Foi a partir daqui que começamos a ver uma performance individual marcante por parte de Mick Box.


O ex-gordinho, agora com longos cabelos brancos, simplesmente destrói seu wah-wah, além de fazer misérias com uma Les Paul branca lindíssima, e faz uma série de bençãos, abanos e outros acenos com as mãos, parecendo receber uma entidade espiritual que o auxilia a fazer todas as incríveis passagens de seus solos, além de mandar ver em riffs pesados que sacudiam o teatro.


Ainda de 1972, mas agora de The Magician's Birthday, veio "Sunrise", cantada em uníssono, e com o público acompanhando com palmas, "Stealin" (Sweet Freedom, 1973) teve o primeiro longo solo de Box na noite. Outro músico que se destaca bastante é Gilbrook. O cara simplesmente é um animal, e foi uma ótima escolha para substituir o ídolo eterno Lee Kerslake, que gravou alguns dos principais álbuns do Uriah Heep em sua carreira. Pulando no banco, Gilbrook tem duas bigornas nos locais dos braços, e durante todo o show várias baquetas sofreram os ataques furiosos do músico.


"I'm Ready" foi a única canção de Into the Wild, mostrando como o Uriah Heep sabe encaixar muito bem os clássicos com novas canções, fato comprovado com "Between Two Worlds" (Sonic Origami, 1998), uma das canções mais belas feitas pelo Uriah Heep nos últimos 30 anos. 

De Very 'Eavy, Very 'Umble veio mais um clássico, "Gypsy", com um peso descomunal, e a velocidade de Look at Yourself (do álbum homônimo de 1971) sacudiu o esqueleto de todos no local. "July Morning" (também de Look at Yourself) trouxe Shaw sentado diante da plateia, com Rimmer repetindo o solo que Bolder empregou para a canção nos anos 90, no lugar do solo de teclado, e com Box fazendo mais uma performance sobrenatural, e a apresentação encerrou-se com Box conclamando à todos para cantar uma "Hippie Happy Song" de Salisbury (1971). Era a deixa para todos soltarem a garganta com "Lady in Black", e surpreendentemente, o espetáculo ser encerrado, com pouco mais de uma hora de duração.


Obviamente que a longa espera por uma apresentação do Uriah Heep em Porto Alegre não poderia ser encerrada com tão pouco tempo, e o público não parou de pedir por mais, até que todos retornaram sob muitos aplausos para o palco. 

Shaw pediu que algumas mulheres acompanhassem os músicos na próxima canção, e conseguiu arrecadar onze moças (minha esposa entre elas, que prontamente foi lá angariar uma palheta de Box). Não gostando do número, Shaw pediu para um menino de no máximo dez anos que assistia o show na primeira fila subisse ao palco. O Guri foi lá todo envergonhado e com medo, mas viu Box detonar o riff de "Free & Easy" (Innocent Victim, 1977), mostrando ao mundo como o Uriah Heep já fazia Heavy Metal de verdade muito antes de bandas consagradas da década de 80. 

Por fim, "Easy Livin'" (Demons & Wizards) encerrou de vez o show, com pouco menos de 90 minutos de duração, e após uma longa distribuição de palhetas e acenos, o grupo deixou o palco, e os fãs foram embora satisfeitos por um show memorável, mas com um gostinho de "Quero mais" o qual Shaw prometeu ser saciado na próxima vez que o Uriah Heep voltar ao Brasil. Tomara que não demore tanto quanto a primeira vez que o grupo finalmente apresentou-se em Porto Alegre.


Set list

1. Against the Odds
2. Overload
3. Traveller in Time
4. Sunrise
5. Stealin'
6. I'm Ready
7. Between Two Worlds
8. Gypsy
9. Look at Yourself
10. July Morning
11. Lady in Black

Bis

12. Free & Easy
13. Easy Living

sábado, 17 de maio de 2014

Melhores de Todos os Tempos: 1978

vanhalen
Van Halen: Alex Van Halen, David Lee Roth, Michael Anthony e Eddie Van Halen
Por Diogo Bizotto
Com Adriano KCarão, Bernardo Brum, Bruno Marise, Davi Pascale, Eudes Baima, Fernando Bueno, José Leonardo Aronna, Leonardo Castro, Luiz Carlos Freitas e Mairon Machado
Participação especial de Eduardo Sandoval, administrador do site Rock Imortal
Bem, 1978… Consolidação do punk, desabrochar da new wave, certo? Não exatamente quando a avaliação é feita pela Consultoria do Rock, ao menos em se tratando dos melhores álbuns lançados nesse ano segundo nossos colaboradores. A ênfase, como os leitores poderão observar, ficou no rock pesado, apesar de alguns lampejos kraut e progressivos, além de uma dose de funk rock, uma pitada de jazz e blues e um disco roqueiro na essência. O topo da lista, porém, é coerente, ao representar uma das estreias mais avassaladoras e influentes da história da música popular, o primeiro disco lançado pelo Van Halen, que ajudaria a moldar como poucos a sonoridade que o rock teria na década seguinte. Lembramos que o critério para elaborar nossa listagem final, baseada nas listas individuais, que podem ser conferidas mais abaixo, segue a pontuação do Campeonato Mundial de Fórmula 1. Além disso, damos prosseguimento à metodologia adotada desde a edição da série dedicada a 1977: revelar aos participantes a lista com os dez álbuns mais votados – a fim de coletar seus comentários – em ordem alfabética, e não seguindo sua ordem de pontuação, do primeiro ao décimo, como costumava ocorrer anteriormente. A única exceção foi o primeiro colocado. O objetivo: tentar fazer com que os comentários concentrem-se mais na análise de cada disco, e não no merecimento ou não de determinada posição na lista final.

 vanhalen-vanhalenVan Halen – Van Halen (77 pontos)
Adriano: Embora eu saiba que a história do rock é um grande conto de fadas baseado em fatos reais, me divirto bastante encontrando, em discos de meados dos anos 1960, aqueles elementos que constituíram o rock dos anos 1970, em especial o progressivo. Quando se trata, porém, dos anos 1970 e dos elementos que formaram o heavy metal tradicional, o sentimento não é semelhante. É o caso do debut do Van Halen, um disco legalzinho, que apresenta novos elementos nesse estilo musical – o que significa via de regra uma maior padronização –, mas que não me atrai nem um pouco. Parabéns à banda pela escolha do cover, “You Really Got Me”, dos Kinks, mas ainda prefiro a original – incluindo o solo. Mas o disco não é ruim, e destaco as boas faixas “Runnin’ With the Devil”, “Jamie’s Cryin’” e “Feel Your Love Tonight”.
Bernardo: Tem tanta música clássica do grupo que parece uma coletânea. Abre com o clássico maior, “Runnin’ With the Devil”, tem um cover do grande clássico dos Kinks, “You Really Got Me”, e tem músicas contagiantes tipo “I’m the One” e “Jamie’s Cryin’”. E por último, mas não menos importante, “Eruption”, o solo instrumental que catapultou Eddie Van Halen imediatamente para o rol dos maiores guitarristas da história. Apesar de ter músicas que não marcam tanto, o debut do Van Halen é entretenimento pra lá de divertido e bem-feito.
Bruno: Sim, é um disco completamente inovador para a época, influenciou uma porrada de gente e praticamente lançou a cartilha a ser seguida pelo rock pesado nos anos 1980. E sim, Eddie Van Halen é um guitarrista muito acima da média e totalmente criativo. Mas eu confesso que a banda nunca fez muito a minha cabeça. Gosto deste disco e dos dois seguintes, e de mais uma ou outra faixa avulsa, mas não significa nada na minha vida. Pelo gosto aqui da maioria dos meus colegas é compreensível e até esperado que este álbum ficasse em primeiro nesta lista, mas em 1978 tinha tanta coisa acontecendo – auge do punk, começo da new wave, só pra citar alguns exemplos – que eu jamais colocaria a estreia do Van Halen em primeiro lugar.
Davi: A força do Van Halen no palco era tanta que levou Gene Simmons (Kiss) a querer produzir a primeiro demo do grupo. Igualmente embasbacados com o som dos rapazes de Pasadena (EUA) ficaram os jovens daquela época ao ouvir o estilo único de Eddie Van Halen saindo dos alto falantes com faixas absolutamente mortais como “Runnin’ With the Devil”, “Ain’t Talkin’ ’bout Love”, “I’m the One” e “Jamie’s Cryin’”, além de uma versão espetacular para “You Really Got Me” (Kinks). Clássico!
Diogo: Vai ter neguinho desprezando até a morte, mas a verdade quase indiscutível é que Van Halen talvez seja o álbum com maior responsabilidade por moldar a sonoridade daquilo que conhecemos como hard rock na década seguinte. Afinal de contas, será que toda uma geração de guitarristas “shredders” consolidada nos anos 1980 teria galgado tantos degraus sem a exposição que o instrumento recebeu pelas mãos hábeis de Eddie Van Halen, meu favorito nas seis cordas em todos os tempos? Mesmo a produção, levada a cabo por Ted Templeman, acostumado com os grooves dos Doobie Brothers, foi importantíssima para cristalizar um momento único na história da música popular, equilibrando agressividade e polidez na proporção perfeita. David Lee Roth é um vocalista cuja canalhice é um grande trunfo, utilizando-a sem parcimônia em brilhantes interpretações. Alex Van Halen espanca a bateria com sapiência, criando um estilo próprio tanto na pegada quanto na sonoridade. Michael Anthony não é um músico tão fantástico quanto os irmãos Van Halen, mas executa bem sua tarefa e ainda manda ver em backing vocals de qualidade. E olha que sequer mencionei as composições! “Ain’t Talkin’ ’bout Love” tem um dos riffs mais memoráveis e contagiantes já criados e é minha favorita no álbum, mas a verdade é que todas as faixas, sem exceção, são muito do meu agrado, então vou poupar o leitor de um comentário ainda mais longo. Van Halen tem agressividade, melodia, malandragem, técnica, groove e inovação… O que mais eu poderia querer? Facinho, facinho, um dos melhores discos de estreia em todos os tempos.
Eduardo: Bom, o primeiro disco da banda traz uma renovação na forma de se tocar metal na época. Apesar de não ser o pioneiro no uso do tapping na guitarra, Eddie Van Halen inovou bastante na aplicação dessa técnica. Mesmo que eu não curta muito a sonoridade da banda, este é o meu disco favorito deles, mas na minha lista pessoal não entraria em um top 20 de 1978 nem a pau.
Eudes: O disco de estreia do Van Halen tem aquela característica de ser bem bacana, mas, ao mesmo tempo, pouco marcante. Ao meu ver, este álbum é o melhor de 1978 na minha categoria pessoal de discos que “não me tacam na parede”. É assim que “Runnin’ With the Devil” saiu nesta estreia da banda, mas poderia ter sido editada em um sem número de discos da época, mesma sensação que se tem ouvindo “Ain’t Talkin’ ’bout Love” e outras faixas. São bons, às vezes ótimos números hard rock, mas aquele negócio chamado personalidade quase não dá as caras neles. “Eruption” parece ter a única função de mostrar a destreza do dono da banda à guitarra.  Tenho realmente dificuldade em eleger entre os melhores de todos os tempos e, ainda mais, no topo da tabela, um disco cuja melhor faixa é uma canção dos Kinks.
Fernando: Álbum que ajudou a moldar toda a sonoridade da década seguinte, inclusive pela produção do disco. Muitos quiseram soar como eles. Para muitos é difícil aceitar isso, mas Eddie Van Halen foi tão importante para a música quanto foi Jimi Hendrix. “Eruption” deu um nó na cabeça da garotada. O riff de “Ain’t Talkin’ ’bout Love” hoje parece simples, mas certamente fez muita gente praticá-la no instrumento. “Runnin’ With the Devil”, “Little Dreamer”… Vários clássicos que até hoje são as preferidas de muitos fãs. Isso sem esquecer da versão turbinada de “You Really Got Me”. Fico feliz que um clássico como este tenha ficado em primeiro no ano em que nasci.
José Leonardo: Do Van Halen, conheço apenas os hits (“Pretty Woman”, “Dance the Night Away”, “Jump”, “Panama”) e uma que outra música, além dos covers para canções dos Kinks (“You Really Got Me” e ” Where Have All the Good Times Gone”). Mas li muitos comentários favoráveis a este disco. Talvez um dia eu venha a ouvi-lo com afinco.
Leonardo: Inovador e indispensável. Em uma época em que os gigantes do hard rock setentista começavam a dar sinais de cansaço, o Van Halen chegou chutando o pau da barraca com músicas energéticas, um guitarrista de outro mundo e um vocalista que era a definição da palavra “frontman”. A base para todo o hard rock oitentista foi plantada com este disco.
Luiz: Um verdadeiro acontecimento na história musical. O debut do Van Halen carrega toda a rebeldia juvenil dos anos 1950 com a sacanagem (meio inocente, até) e firulas do hard rock oitentista. Um impensado encontro do rockabilly com o metal em plena época de ouro da farofa, com alguns dos solos mais fantásticos já ouvidos até então. Um dos melhores discos de todos os tempos.
Mairon: A década de 1970 estava prestes a ser encerrada, e a pergunta que ficava no ar era: “Quem surgirá para destronar o Led Zeppelin?”. Depois do apagado sucesso de Presence (1976), era notória a decadência de Jimmy Page, e certamente o grupo já não tinha mais a capacidade de seguir governando o planeta como a maior banda de rock do momento. Foi das leitosas terras da Holanda que nasceu a guitarra de Eddie Van Halen, e, com a parceria dos norte-americanos David Lee Roth (vocais) e Michael Anthony (baixo, vocais), além do irmão Alex, criaram o Van Halen, a maior banda de rock do início da década de 1980, posição que foi perdida para o Guns N’ Roses em 1987, após a saída de David Lee Roth. O primeiro registro do grupo é o melhor álbum de estreia do hard rock em todos os tempos, definindo uma nova sonoridade que caracterizou os anos 1980, mais alegre e divertida, e com muito virtuosismo através das seis cordas de Eddie. “Eruption” é uma aula de guitarra para qualquer aprendiz e veterano, e o que o músico faz em “Little Dreamer” é de chorar e jogar a guitarra fora. Temos as versões de “You Really Got Me” (The Kinks) e “Ice Cream Man” (John Brim), que são definitivas, e ainda há os clássicos “Runnin’ With the Devil”, “Feel Your Love Tonight”, “Ain’t Talkin’ ’bout Love”, “On Fire” e “Jamie’s Cryin’”, fora as quase desconhecidas, mas incrivelmente fantásticas, “I’m the One”  e “Atomic Punk”. Acho que a primeira posição para esse ano talvez seja demasiada, mas, com certeza, Van Halen (o disco) é figurinha estrelada no álbum das coleções de discos mundo afora.

Rush_-_Hemispheres
Rush – Hemispheres (71 pontos)
Adriano: Este quase entra na minha lista, ficando de fora por muitíssimo pouco ou nada. Não é um disco perfeito – suspeito que o Rush não tenha conseguido fazer isso –, mas, até o ano de 1978, é provavelmente a obra mais bem acabada do grupo canadense. Curioso que o momento que considero mais fraco do disco seja uma das suas faixas mais populares, “The Trees”. “Cygnus X-1 Book II: Hemispheres” passa longe da imponência da sua primeira parte (do disco anterior, A Farewell to Kings, de 1977), mas é bem boa, assim como a curta “Circumstances”. “La Villa Strangiato (An Exercise in Self-Indulgence)”, por sua vez, é tão perfeita que qualquer coisa que eu diga parecerá um comentário totalmente desnecessário. É ouvir, deixar-se impactar e, certamente, ouvir de novo e de novo e de novo…
Bernardo: Não me diz muita coisa. “Cygnus X-1 Book II: Hemispheres” não me convence como algo além de fazer uma nova “2112”. Mas simpatizo com a dobradinha que abre o lado B, “Circumstances” e “The Trees”.
Bruno: Se alguém ainda duvidava da qualidade de composição do trio, Hemispheresveio para acabar com isso. Eu que não sou muito fã de músicas longas, ouço sem nenhum susto a faixa de abertura, que tem quase 20 minutos de duração. É sem dúvida o disco mais megalomaníaco da banda, que se refugiou em uma casa de campo e tinha a intenção de gravar toda a suíte em apenas um take, sem intervalos, mas após várias tentativas frustradas varando noites e mais noites para concluir a gravação, os canadenses se renderam e decidiram gravar em partes separadas. Continuo preferindo muito mais a épica “2112″ a esta, mas é uma grande momento. De quebra ainda temos a maravilhosa “The Trees” e o belíssimo instrumental de “La Villa Strangiato”, cujo solo de guitarra serve pra calar qualquer um que subestima o talento e a criatividade de Alex Lifeson.
Davi: Mais um trabalho espetacular desse magnífico trio. Disco simplesmente perfeito. Difícil escolher uma preferida. Mantiveram a estrutura de 2112 (1976), contendo uma faixa épica dividida em várias partes em um lado e tendo duas músicas menos ousadas, vamos assim dizer, na segunda metade do play. De diferente, entregam a impressionante “La Villa Strangiato”, a primeira faixa instrumental da banda.
Diogo: Meu álbum favorito do Rush também é o mais complexo e instrumentalmente ambicioso. Geddy Lee, Alex Lifeson e Neil Peart estavam na ponta dos cascos, sabiam disso e não tinham motivo algum para esconder esse fato. Os adoradores de longas faixas de caráter progressivo que me perdoem, pois, apesar de gostar bastante de “Cygnus X-1 Book II: Hemispheres”, que ocupa todo o lado A do vinil, são as outras três músicas que motivam minha adoração por este álbum. “The Trees” cativa na primeira audição pelo ótimo uso da instrumentação a fim de criar uma paisagem sonora perfeitamente encaixada com sua bela letra. “Circumstances” pertence ao rol de canções que às vezes são deixadas um pouco de lado por fazerem parte de discos grandiosos, mas que, com uma análise um pouco mais atenta, revelam-se pequenos clássicos. “La Villa Strangiato”, então, talvez seja a mais espetacular criação do trio canadense. Por mais que seu subtítulo, que significa “um exercício em auto-indulgência”, dê a ideia de que a faixa pode se revelar enfadonha para aqueles pouco chegados em virtuosismo, a musicalidade não é de maneira alguma colocada em segundo plano, fazendo com que a proficiência técnica trabalhe ao favor da banda e do ouvinte. O Rush ainda faria um álbum melhor resolvido e mais ambicioso (Moving Pictures, de 1981), mas meu favorito permanece sendo Hemispheres.
Eduardo: Adoro. O rock virtuoso do Rush em plena forma, com timbres valvulados em grande estilo. Baladas se misturam a rocks seminais.
Eudes: Não vou dizer uma palavra desagradável sobre o Rush, e isso só porque finalmente chegamos ao disco que contém a única faixa que, para o meu gusto, justifica o séquito de adoradores fanáticos dos canadenses: a gloriosa “La Villa Strangiato”, com seus quase dez minutos de desdobramento de, afinal, um tema realmente inspirado.
Fernando: Quando me tornei fã do Rush eu tinha uma música preferida: “The Trees”. Ouvia a metáfora de lutas de classes contada a partir da briga das árvores pela luz do sol. Neil Peart é um ótimo letrista. Assim, quando fui ouvir Hemipheres, era essa faixa que eu procurava. Mas pouco tempo depois outra me chamou atenção, a linda “La Villa Strangiato”. Hoje gosto do álbum todo. Rush é uma banda única!
José Leonardo: Este disco e o anterior, A Farewell to Kings, são os melhores álbuns do Rush para mim. Este é mais coeso, mas o antecessor é o meu favorito. Ambos representam o pico criativo da banda para mim. A peça “Cygnus X-1 Book II: Hemispheres” remete a alguns trabalhos antigos, mais épicos. “Circumstances” e “The Trees” são canções mais curtas, mas não menos soberbas, e a instrumental “La Villa Strangiato” é, provavelmente, um dos melhores momentos da banda, com as melhores performances de  Alex Lifeson e Neil Peart.
Leonardo: Belíssimo disco do Rush. Apesar da duração das faixas, o disco nunca se torna chato ou cansativo.
Luiz: Melhor que Dramin com chá de camomila e folha de maracujá pra dormir.
Mairon: Este é um dos melhores trabalhos da carreira do Rush, se não o melhor. Particularmente, só perde em minha lista de preferências para o injustiçado Caress of Steel (1975), mais por conta do fato que, entre as suítes gravadas em ambos, fico com “The Fountain of Lamneth”, de Caress. Mas a sequência de “Cygnus X-1″, a maravilhosa “Cygnus X-1 Book II: Hemispheres”, é uma peça atemporal, mostrando como um trio pode soar pesado e ao mesmo tempo prog durante todo o lado A do LP. “Circumstances” e seu riff poderoso levantam o lado B, seguido pela linda “The Trees”, uma das letras mais fantásticas de Neil Peart, e concluindo com a maravilha instrumental “La Villa Strangiato”, essa sim a melhor canção dos canadenses, e uma de minhas favoritas em todos os tempos. Um disco com duas canções maravilhosas (isso se não contarmos “The Trees”) só espero que tenha ficado no top 3, pois uma posição abaixo disso para 1978 seria totalmente injusta. Lee, Lifeson e Peart em sua melhor performance como grupo.

 
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Bruce Springsteen – Darkness on the Edge of Town (64 pontos)
Adriano: Mais um disco legal de Springsteen – não tanto quanto Born to Run (1975) –, e mais um álbum legal que eu deixaria de fora desta lista sem problemas. Na linha “cantautor”, desse ano, prefiro o ótimo 52nd Street, de Billy Joel – sem falar em Peter Gabriel, que não sei se aparecerá por aqui alguma vez. O dito “heartland rock” – aprendi o termo esses tempos – é pior que o punk, dificilmente tem algo novo a apresentar.
Bernardo: Mais um trabalho com a assinatura personalíssima do Boss Bruce, no auge de sua graça artística. O “heartland rock”, mistura de cidade e campo, eletricidade e acústica, rock de garagem e blues urbano e folk e country, é natural e fluido com Bruce, falando sobre dificuldades, frustrações e gritando por superação. Entre a melancolia e o ritmo frenético, passamos por “Badlands”, “Prove It All Night”, “Racing in the Street” e a faixa-título. Mas para mim o ápice mesmo é a rasgada e intensa “Adam Raised a Cain”, arrasa-quarteirão que só o patrão seria capaz de fazer.
Bruno: Demorei muito tempo para apreciar a obra do Boss. Ouvi e reouvi os cultuadosBorn to Run (1975) e Born in the USA (1984) e nunca conseguia entender a adoração em torno do cara. E foi este disco que começou a abrir minha cabeça para me tornar um novo fã. Hoje sou apaixonado pelo genial Born to Run, mas na época a produção pomposa e a polidez desse disco ofuscaram um pouco o brio das interpretações e as composições brilhantes de Springsteen. Em contraponto, a crueza e a pegada mais urgente de Darkness on the Edge of Town, cheio de solos de guitarra, soaram melhor aos meus ouvidos e serviram como porta de entrada para o restante da obra de Springsteen. Gosto muito de vários trabalhos dele, mas tenho um carinho especial por este justamente por ter sido o que me fez gostar de sua música.
Davi: Feito depois de um hiato de três anos de seu antecessor, por conta de batalhas judiciais, o quarto álbum do The Boss não obteve o mesmo desempenho comercial do anterior. Entre os fãs, contudo, há quem o tenha como sua obra-prima. Não o considero seu melhor álbum, mas, sem dúvidas, é um trabalho bem legal. Disco bem honesto, no qual Bruce demonstra uma emoção sobrenatural em suas interpretações. Vale uma audição.
Diogo: O quarto disco de Bruce Springsteen teve uma gestação longa, que produziu dezenas de faixas que acabaram não sendo utilizadas em Darkness on the Edge of Town mais por não se encaixarem no contexto lírico pretendido do que por necessariamente apresentarem qualidade inferior. As dez canções selecionadas revelaram um Springsteen menos polido e superproduzido em relação a Born to Run, mas com brilho tão grande quanto, além de doses de agressividade e frustração que relacionam-se intimamente com a maratona judicial vivida devido a obrigações contratuais com seu antigo empresário, Mike Appel, e com sua necessidade interior de confirmar não ser apenas um “hype” momentâneo. O resultado foi, pelo que observo hoje em dia, um disco mais propenso a arrebanhar novos fãs que seus antecessores, esbanjando espírito roqueiro, guitarras em maior evidência e composições bastante diferentes, porém em total sintonia. Enquanto “Adam Raised a Cain” é uma rasgada observação sobre a relação entre pai e filho, “The Promised Land” oferece alento e “Prove It All Night” coloca lágrimas nos olhos daqueles que buscam alguma redenção nesta vida em meio às dificuldades do dia a dia. “Racing in the Street” dá digníssima sequência aos épicos de Born to Run (“Backstreets” e “Jungleland”) e inclusive é a favorita de muitos, tanto em se tratando do álbum quanto da própria carreira de Bruce. Seu clima pessimista só encontra paralelo na faixa-título e em “Something in the Night”, que não é tão lembrada mas reserva uma grande surpresa aos mais atentos. “Badlands”, por sua vez, foi com méritos o clássico mais imediato extraído de Darkness on the Edge of Town, sendo tocada com enorme frequência até hoje. Leia mais sobre este álbum aqui.
Eduardo: Álbum regular em sua discografia. Considero-o um bom vocalista, guitarrista e compositor, com grandes momentos. Este disco em questão é bom no geral, mas nada de mais.
Eudes: Bruce fez alguns discos muito bons.  E, embora não tenha acompanhado seus lançamentos nos últimos 20 anos, para meu gosto pessoal, este e Nebraska (1982) são seus álbuns mais contundentes entre os que eu conheço. Trata-se de uma coleção de canções versando sobre o amargor de reconhecer o malogro do sonho americano, não na visão da margem, como um Lou Reed, mas na ótica do homem comum. Passam pelos quarenta e poucos minutos do LP as multidões errantes das ruas, com os desocupados que vagam pelos campos, com a ressaca da euforia do pós-guerra. Amargo, sombrio e belo. Destaque para o peso blues rock de “Adam Raised a Cain”, para o lamento folk de “Something in the Night”, para a delicadeza pianística de “Racing in the Street” e para a entrega do cantor na faixa-título.
Fernando: “Badlands” para abrir e a faixa-título para fechar. Tá bom ou quer mais? Claro que queremos mais e o recheio é do nível dessas duas. Mesmo com temas bastante obscuros, Bruce Springsteen criou um disco que nos faz ter vontade de ouvi-lo a qualquer momento.
José Leonardo: Como já disse em outra oportunidade: conheço pouquíssima coisa do The Boss, por isso abstenho-me de comentar.
Leonardo: Belíssimo disco de rock clássico, com excelentes composições e uma banda afiadíssima.
Luiz: Poucos conseguem ser tao políticos na música sem soarem pedantes e, principalmente, chatos. O tédio e a militância cultural por vezes caminham juntos e Bruce Springsteen está entre esses furtivos acertos. Darkness on the Edge of Towné um de seus melhores trabalhos, carregado nas mensagens e na voz tão característica do Boss. Brilhante.
Mairon: Um álbum mais maduro do que seu antecessor, Born to Run, preparando Bruce para o grande sucesso que viria na década de 1980, com Born in the USA. Gosto de algumas faixas, e outras ouço sem problemas, mas não posso deixar de destacar que “Badlands”, “The Promised Land” e “Racing in the Street” são canções obrigatórias nos shows do Boss. Há discos melhores em 1978 para serem descobertos, e acho que os melhores trabalhos de Bruce, dignos de entrar nas listas desta série, só vieram nos anos 1980.

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Judas Priest – Stained Class (49 pontos)
Adriano: Como não acompanho todo o desenvolvimento da banda nem do estilo, não sei dizer propriamente se o disco é um passo adiante ou um passo atrás, mas é um bom álbum, embora com momentos que eu dispensaria. Destaque pra abertura com “Exciter”. “Invader” me soa como o protótipo da faixa quase homônima do Iron Maiden.
Bernardo: Fora “Exciter” e “Better By You, Better Than Me”, que são boas canções, os álbuns do Judas dessa fase ainda não são tão bem resolvidos quanto os que eles iriam fazer depois. Essa fase de maturação do Judas até tem seus méritos, mas não compartilho da adoração
Bruno: Meu disco favorito da banda. Aqui os resquícios de blues e influências de rock progressivo já foram praticamente eliminados, resultando em um som rápido, pesado, com solos de guitarra melódicos e a performance característica de Rob Halford. Por pouco Stained Class acabou entrando na minha lista. Como já deixei claro, o Judas Priest está longe de ser uma das minhas preferências, mas por ser um álbum representativo e o que mais gosto do grupo, acabei achando justo incluí-lo.
Davi: O Judas Priest sempre fez um som pesado, cativante e ao mesmo tempo com melodias bem construídas. “Exciter” e “Beyond the Realms of Death” são faixas essenciais no mp3 player de qualquer fã de música pesada que se preze. Indispensável!
Diogo: Felizmente o melhor disco lançado por um de meus grupos favoritos não foi deixado de lado, o que seria uma insanidade, dada a gigantesca qualidade que brota de suas faixas, representando o ápice de uma carreira e um dos momentos mais definitivos de um gênero musical, no caso, o heavy metal. “Exciter” é puro combustível para garotos que, anos depois formariam grupos daquilo que viria a ser conhecido com thrash metal, apresentando um ataque pungente e letal aos instrumentos e uma grande performance vocal de Rob Halford. “White Heat, Red Hot” e “Better By You, Better Than Me” não são tão essenciais quanto “Exciter”, mas seguem o baile com ânimos elevados, enquanto a faixa-título rasga sem dó um solo de guitarra logo na abertura e depois entrega riffs cavalgados e um dos melhores refrãos que a banda já criou. Um disco cuja faixa mais fraca é “Invader” só pode ser adição óbvia a esta lista, ainda mais quando “Saints in Hell” traz Halford em uma de suas melhores performances, quase superada por “Savage”, que abre com gritos que fazem jus a seu título de “Metal God”. A seguinte, então, é simplesmente a melhor canção que o Judas Priest produziu em sua longa carreira, adorada por mim além de qualquer compreensão racional. Performance, interpretação vocal, letra… Só não são mais perfeitos que o solo que Glenn Tipton oferece a partir dos três minutos e dez segundos, fortíssimo candidato a ser meu preferido em todos os tempos. Nem precisaria, mas “Heroes End” ainda encerra Stained Class com mais uma belíssima obra, fazendo com que meu carimbo de nota 10 seja inevitável. Nunca, nunca mais a banda soaria tão maravilhosamente bem quanto em Stained Class. Confira mais comentários a respeito do álbum aqui.
Eduardo: Mais famoso que o outro disco lançado pela banda nesse ano, Killing Machine.
Eudes: Apesar de “Exciter” trazer promessas de originalidade logo na abertura do disco, com sua elegante e limpa cavalgada guitarrística, movida a uma condução rítmica que une peso e balanço, o comentário feito acerca de Killing Machine(leia mais abaixo) se aplica também a este disco. Aquela coisa, como dizer que não é bom… Mas o que justifica o Judas emplacar dois discos nesta lista, em um ano em que, para o bem ou para o mal, o rock apontou para várias direções díspares?
Fernando: Se Stained Class tivesse apenas “Beyond the Realms of Death” ele já mereceria estar aqui. Pena que alguns anos depois a banda teve problemas judiciais justamente por conta dessa música. “Exciter” é power metal mesmo que o subgênero ainda não existisse na época.
José Leonardo: Como já disse em outra oportunidade: Conheço pouquíssima coisa do Judas Priest, por isso abstenho-me de comentar.
Leonardo: Por mais que Sad Wings of Destiny (1976) e Sin After Sin (1977) sejam clássicos incontestáveis, foi em Stained Class que a sonoridade do Judas Priest se definiu. O que ainda havia do blues rock pesado foi deixado de lado, e o grupo apostou em músicas mais rápidas, diretas e agressivas, pavimentando o caminho pelo qual muitos seguiriam nos anos seguintes. De quebra, tem o melhor solo de Glenn Tipton, na belíssima “Beyond the Realms of Death”.
Luiz: Um dos álbuns mais subestimados da discografia do grupo, Stained Class é forte, denso, carrega um peso maior por um contexto bem intimista, em suas músicas. “Beyond the Realms of Death”, por exemplo (a melhor faixa), é uma balada pesada sobre dor em vida e a libertação na morte, entrecortada por dois solos épicos. Merecido destaque no ano, na carreira do Judas Priest e no metal.
Mairon: O ÁLBUM, com maiúsculas, que o Judas fez em 1978. O quarto disco do grupo é uma pancadaria atrás da outra, seguindo a linha do excepcional Sin After Sin e trazendo as guitarras de K.K. e Tipton cada vez mais entrosadas. É impossível não se maravilhar com “Exciter” (o Iron Maiden aprendeu muito com ela), “Invader”, “White Heat, Red Hot” ou “Heroes End”. Segurar a garganta para não imitar a incrível interpretação de Rob Halford em “Beyond the Realms of Death” é missão impossível, fora os solos emocionantes de Tipton e K.K. (até hoje não sei qual deles é o mais bonito) e toda a mística criada pela versão foderosa de “Better By You, Better Than Me” (original do Spooky Tooth), que quase colocou a carreira do quinteto britânico abaixo nos anos 1990, com o pacto suicida dos garotos James Vance e Ray Belknap. Felizmente, o grupo foi inocentado das acusações de incitar suicídio. Ainda em 1978, a banda começou a migrar para uma nova fase, mais pesada e sem tantas aspirações progressivas, com outro disco que entrou nesta lista final, Killing Machine, um álbum que considero de menor qualidade perto da grandiosidade dos quatro primeiros. Quanto a Stained Class, simplesmente essencial.

 Rainbow-longliverocknroll1Rainbow – Long Live Rock ‘n’ Roll (47 pontos)
Adriano: Não vou entrar no mérito de se o disco é bom ou ruim, até porque isso é totalmente subjetivo. Acho válido questionar a presença de um álbum do Yes, por exemplo, no final da década de 1970. Mas é muito mais válido questionar a presença repetida de uma banda que sequer reinventa o PRÓPRIO som. O que tem neste disco que já não ouvimos e reouvimos no Rainbow de antes ou até no Deep Purple? Aproveito, no entanto, pra destacar a faixa de encerramento, “Rainbow Eyes”, que recebeu sua versão definitiva em 2000, com o grupo Mägo de Öz, sob o título “Es Hora de Marchar”.
Bernardo: Último disco da banda de Ritchie Blackmore com Ronnie James Dio nos vocais. Pra variar, com sua grande potência e técnica vocal, Dio foi uma das forças motrizes do álbum ao lado das inspirações eruditas e épicas do guitarrista e o peso avassalador de Cozy Powell. O resultado não poderia ter dado mais certo: a faixa-título, capaz de animar até um morto, e a inesquecível “Kill the King”, amada e regravada por 90% das bandas de power metal. Rápido, pesado, técnico e com momentos de virtuose hipnótica, o Rainbow definitivamente foi uma daquelas bandas boas demais para durar por tanto tempo. E a melhor parte é que o álbum mantém o nível além dessas duas gemas em destaque.
Bruno: É um bom disco, mas longe da obra-prima que é Rising (1976). Tem qualidade e a faixa-título é um clássico, mas figurar entre os melhores do ano é um pouco demais.
Davi: Interessante notar que, enquanto Ronnie James Dio esteve no Rainbow, as composições do conjunto eram mais pesadas, mais rock ‘n’ roll . Depois de sua saída, a banda adotou uma postura mais comercial (embora ainda tenham feito bons discos, é verdade). Entretanto, Long Live Rock ‘n’ Roll traz aquilo que esperamos da dupla Dio/Blackmore: vocais cheios de garra e riffs impactantes. “Long Live Rock ‘n’ Roll”, “Kill the King” e “Gates of Babylon” são daquele tipo de música que daqui a cem anos ainda vai ter neguinho escutando e delirando. Imperdível!
Diogo: Superar o majestoso Rising era uma tarefa praticamente impossível, mas a turma comandada por Ritchie Blackmore deu conta de apresentar uma coleção de músicas que, apesar de não igualarem o antecessor em qualidade, mantiveram o nome do Rainbow em alta e evidenciaram ainda mais o talento de Ronnie James Dio, o grande destaque do álbum. Afinal, mesmo que algumas canções não sejam tão inspiradas assim, como “L.A. Connection” e “Sensitive to Light”, a performance do baixinho é irrepreensível. Do outro lado, as melhores canções do disco poderiam integrar Rising e fazer bonito, caso da épica “Gates of Baylon”, exibindo ainda mais as influências orientais do guitarrista, e da pesada e veloz “Kill the King”, que já havia sido apresentada no ao vivo On Stage (1977) e adianta muito daquilo que seria feito em termos de heavy metal na década seguinte, especialmente das vertentes mais “power”. A faixa-título é simples, mas cativa e funciona muito bem, especialmente ao vivo, enquanto “Lady of the Lake” envolve com seu instrumental bem sacado e linhas vocais inteligentes. A balada “Rainbow Eyes” também é digna de destaque, funcionando muito bem como despedida de Dio, que deixaria o grupo e uniria-se ao Black Sabbath logo depois.
Eduardo: Dio e Blackmore em plena forma em um grande disco de metal do fim dos anos 1970. Altamente recomendado.
Eudes: Apesar de não ter entendido direito a inclusão do Rainbow no alto do pódio na edição dedicada a 1976, Rising, de fato, enfeixava algumas faixas que justificavam o rótulo de “clássicas”. Mas Long Live Rock ‘n’ Roll é só mais um disco rotineiro de hard rock, com faixas cheias de clichês do gênero e pouco distintas da média do estilo na época. Apesar de conservar este título na minha coleção, confesso que em momento algum me passou pela cabeça incluí-lo nesta lista. Talvez seja só a surdez que vai devastando meu gosto a cada ano que passa nesta seção da Consultoria.
Fernando: Último álbum do baixinho no Rainbow e provavelmente meu preferido. Daqui tiramos várias das músicas que seriam influência para todas as bandas de metal melódico que iniciaram atividades na década de 1980. A rápida “Kill the King”, a épica “Gates of Babylon” e o hino “Long Live Rock ‘n’ Roll” são clássicos eternos.
José Leonardo: Do Rainbow só tenho o álbum Rising. E deste disco só conheço a faixa-título. Está na minha longa lista de aquisições…
Leonardo: Apesar de ligeiramente inferior ao disco anterior, Rising, Long Live Rock ‘n’ Roll ainda apresentava um Rainbow em plena forma, com performances espetaculares de Blackmore, Dio, Cozy Powel, Bob Daisley e David Stone. O disco é todo excelente, e tem músicas mais pesadas, como a faixa título e “Kill the King”, épicas, como “Gates of Babylon”, e até mais suaves, como a linda balada “Rainbow Eyes”.
Luiz: Além do “dream team” inspirado, a composição deste disco é um verdadeiro marco, com hinos que viraram referência na história do rock, como a faixa-título e seu bradado refrão.
Mairon: O último álbum de Ronnie James Dio com o Rainbow é totalmente diferente dos seus dois antecessores, principalmente de Rising (1976), que investia bastante no rock progressivo. Aqui, as canções são mais amenas, voltadas exclusivamente para o mercado norte-americano, algo que o Rainbow fez com maestria depois da entrada do vocalista Graham Bonnet, no ano seguinte. Temos dois grandes petardos, a obra-prima “Kill the King”, com uma avassaladora performance de Cozy Powell, e a linda “Gates of Babylon”. Uma pena que o álbum tenha ficado marcado por uma canção tão fraca quanto a faixa-título, mas enfim, são ossos do ofício. Acredito cegamente que este seja o último álbum do Rainbow a aparecer nas listas, e considero-o uma surpresa entre os dez mais, já que no seu lugar poderiam estar joias latinas como Anacrusa e Secos & Molhados, toda a beleza prog do SBB e, principalmente, os clássicos Jazz(Queen) e Some Girls (The Rolling Stones), mas o disco é bom.

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Funkadelic – One Nation Under a Groove (42 pontos)
Adriano: Este disco rondou minhas audições, e, embora não tenha chegado ao ponto de cogitá-lo fortemente entre os dez, considero uma grata surpresa, mais queCyclone, pois o soul e o funk em geral têm sido bastante esquecidos aqui na série, inclusive de minha parte. O que me incomoda um bocado no som do Funkadelic é o excesso de informação que aparece tanto nas capas dos discos e nos títulos das músicas, quanto por vezes nas próprias canções, sendo talvez o melhor exemplo disso a faixa “Into You” (curiosamente a de título mais comum). Mas este disco, provavelmente o mais aclamado depois de Maggot Brain (1971), é realmente muito bom, e destaco “Groovalegiance”, “Lunchmeatphobia (Think! It Ain’t Illegal Yet!)” e “P.E. Squad / Doodoo Chasers” – que guitarras nessas duas, hein?!
Bernardo: P-Funk na veia! Atrás apenas de Maggot Brain na minha lista de preferências, a empreitada do insanamente genial George Clinton abre com um dos funks mais empolgantes da história, a faixa-título, que, com seus sete minutos, foi o maior sucesso comercial da banda. A doideira aqui estava menos etérea que na obra-prima de 1971, mais dançante e direta do que nunca, com direito a flertes aqui e ali, como a guitarreira “Who Says a Funk Band Can’t Play Rock?” e as mais lentas “Grooavallegiance” e “Into You”, além da escatológica “Promentalshitbackwashpsychosis Enema Squad (The Doo Doo Chasers)”, que somadas às letras maluconas (que falavam de ecologia, Terra, alienígenas, espaço sideral e o balanço musical como salvador do mundo), são só mais alguns dos motivos pra confirmar George Clinton como um dos artistas mais originais do século XX. Filho legítimo dos caligulescos anos 1970, One Nation Under a Groove rende qualquer um que ouça ao seu ritmo diversificado, nonsense e irresistível.
Bruno: George Clinton e Eddie Hazel são dois monstros! Considero Maggot Brainmuito mais interessante que este aqui, mas não deixa de ser acima da média. Mistura explosiva de guitarras funkeadas, grooves, batidas dançantes e psicodelia. Discão!
Davi: Sempre gostei do estilo do Funkadelic, mas vergonhosamente nunca me aprofundei na sua obra. Disco deliciosíssimo de se ouvir. Suíngue fantástico, músicos de primeira e canções contagiantes. Procurarei ouvir mais coisa deles.
Diogo: Entre os álbuns que considero surpresas nesta lista, One Nation Under a Groove é a mais agradável, unindo rock e funk com criatividade em meio a muita porralouquice, expressada muito bem em suas letras e inclusive em sua capa. “Who Says a Funk Band Can’t Play Rock?!” entrega a proposta do disco no próprio título e é uma ótima amostra daquilo que o grupo tinha a apresentar. “Promentalshitbackwashpsychosis Enema Squad (The Doo Doo Chasers)” apropria-se de uma estrutura mais tradicional do rhythm ‘n’ blues e subverte-a em meio à nteressante insanidade e liberdade criativa do Funkadelic. O excesso de informação contido em certas faixas às vezes incomoda e faz com que a memorização passe longe de ser imediata, mas, no fim das contas, o resultado é bastante positivo.
Eduardo: Mais um ótimo petardo dessa banda de funk rock. Aqui o funk se mistura a ritmos disco. Bela pedida.
Eudes: Longas viagens cheias de groove, movidas a eletrônica e sessão rítmica de tirar do ramo, One Nation Under a Groove faz jus ao poder que seu título atribui ao funk. É um mistério porque os consultores se lembraram só em 1978 do Funkadelic, quando discos tão bons ou melhores do que este já vinham sendo editados durante todos os anos 1970. Mas este é bem representativo da excelência da banda e da influência que veio a exercer sobre deus e todo mundo naquela e nas décadas que se seguiram. Além do mais, só por conter “Who Says a Funk Band Can’t Play Rock?!”, um manifesto mais do que explícito das intenções de George Clinton e cia, o disco já assegura seu lugar nesta Consultoria. Bola dentro, colegas…
Fernando: Contente em saber que o álbum mais “diferente” desta lista entrou também por influência minha. Não sou um conhecedor de funk, na verdade gosto mesmo de bem poucos álbuns do estilo, mas este, juntamente com Stand! (1969), do Sly and the Family Stone, é o meu preferido.
José Leonardo: O único disco que conheço da banda é Maggot Brain, que acho bem legal!
Leonardo: Não familiarizado com o gênero ou a obra do artista, prefiro não opinar.
Luiz: Maior sucesso comercial do Funkadelic, sua faixa-título é um hino, tão grudento quanto o “groove” de seu nome evidencia. Facilmente próximo ao topo. So perde paraMaggot Brain.
Mairon: Esta, para mim, é a maior surpresa da lista. Jamais imaginaria que um disco tão valorizado na carreira do Funkadelic, aliás, o mais vendido deles, pudesse estar na lista de melhores de 1978. Não que ele não tenha suas qualidades, mas, honestamente, em 1978 o funk já tinha dado tudo o que podia, e há material muito melhor para representar esse ano do que este álbum, do qual destaco “Promentalshitbackwashpsychosis Enema Squad (The Doo Doo Chasers)” e a faixa-título. Se quer conhecer a turma de George Clinton, pegue os clássicos Maggot Brain e Cosmic Slop (1973), curiosamente esquecidos nas listas anteriores. Curioso também que a melhor banda do estilo, Sly and the Family Stone, nunca apareceu nem em citações.

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Black Sabbath – Never Say Die! (39 pontos)
Adriano: Nem tô acreditando muito, mas fazer o quê? A banda atingiu o pico de criatividade em Sabotage (1975) e, em seguida, voltou a produzir discos medianos, com umas poucas musiquinhas legais (“Junior’s Eyes”, “A Hard Road”) e muitas músicas fracas. Este disco entra na lista de melhores de 1978, e ainda dizem que é cearense que é piadista. Se era pra colocar o enésimo disco de uma banda na série, que fosse o Some Girls, dos Stones, que ainda sabiam se aventurar direitinho.
Bernardo: É pra lá de bem-vinda a velocidade que a banda injetou na faixa-título, mas, no final das contas, apesar das boas composições encontradas aqui e ali, Never Say Die! é, basicamente, um álbum cansado e saturado dos anos de loucura, estrada e brigas. Não há muito do peso sombrio, arrastado e mastodôntico nem dos sofisticados flertes com o progressivo e o psicodélico. A banda bem que se esforça, como na etérea “Air Dance” e a cadenciada com refrão em coro “A Hard Road”, mas no geral o disco é um fantasma pálido do que era uma grande banda. O topo não é eterno, e novos gigantes surgiam no horizonte…
Bruno: O último disco da fase clássica do Sabbath é bastante conflitante. Ao mesmo tempo em que os caras estavam no auge como instrumentistas e dominando todos os recursos de estúdio, as composições já não têm o mesmo brilho de antes. Quem vier esperando o hard pesado e vigoroso de Master of Reality (1971) ou Sabbath Bloody Sabbath (1973) vai quebrar a cara. Este talvez seja o disco mais experimental da banda, recheado de levadas diferentes, timbres mais agudos, teclados, moog e sintetizadores. Tem até algumas ideais interessantes, como a contagiante e rápida faixa-título, a curiosa “Johnny Blade” e a pesada “Shock Wave”, mas não é o suficiente para sustentar o álbum. Talvez se pertencesse à discografia de uma banda menor,Never Say Die! pudesse se destacar, mas em comparação a todos os outros lançamentos anteriores, a coisa fica pequena. É um disco interessante e vale a curiosidade, mas entrar em uma lista de melhores do ano já é um exagero tremendo.
Davi: Sou um grande fã do Sabbath, portanto consigo notar algumas qualidades neste disco, que é menosprezado por muitos. Mesmo assim, não concordo muito com sua escolha como um dos melhores de 1978. Bom álbum, sem dúvidas, mas não o considero um trabalho essencial, nem uma obra que seja marcante na trajetória do grupo (a não ser pelo fato de ter sido o último com Ozzy). De todo modo, a faixa-título é uma canção que, por algum motivo, me marcou.
Diogo: Um disco “ruim” do Black Sabbath normalmente é melhor que a maioria dos bons álbuns de tanta banda de segunda por aí (exceto Forbidden, de 1995, esse é fraco mesmo), mas a verdade é que Never Say Die! já é consideravelmente menos inspirado que seu antecessor, Technical Ecstasy (1976), um disco que é muito bom, mas já não tem o mesmo brilho daquilo que o quarteto havia feito até então. Ao contrário daquilo que parece ser a maioria, não considero a faixa-título como destaque do álbum, acima do restante, mas enxergo um registro equilibrado, abrangendo uma série de canções medianas com alguns lampejos de criatividade mais evidente, fugindo de esquemas do passado e acentuando influências jazz que muito provavelmente existiam desde sempre, mas aplicadas de maneira distinta. Em meio a uma série de ideias boas utilizadas em composições nem tão boas assim, minha favorita é “Junior’s Eyes”. Apesar da inferioridade perante seus anteriores, acredito que, acima de tudo, Never Say Die! era um álbum que precisava ser feito, como encerramento de um ciclo que já havia dado seu melhor, abrindo espaço para uma nova fase excitante e renovada ao lado de Ronnie James Dio.
Eduardo: Um dos discos mais fracos do Sabbath com Ozzy. Ainda assim, é um grande álbum, tamanha a qualidade da banda. É o caso de Never Say Die!, que traz um hard mais suave em relação aos anteriores.
Eudes: Um disco bem bacana do Sabbath, embora pouco compreendido e apreciado. Mas, francamente, os grandes clássicos da banda já tinham ficado para trás. A escolha tem pelo menos a vantagem de  atiçar a curiosidade de nossos visitantes mais jovens para conhecer faixas maravilhosas como “Junior’s Eyes” e a dobrada arrasadora “Breakout”/”Swinging the Chain”. Agora se a intenção era homenagear o último disco autenticamente digno do glorioso nome da banda, tá valendo!
Fernando: Se alguém que nunca ouviu o disco colocar apenas a faixa-título e extrapolar o resultado dela para o resto certamente achará que está ouvindo um clássico da banda. Este é um daqueles exemplos de música boa em disco ruim. Até nem o acho tão fraco quanto muitos outros fãs, mas é claramente o mais irregular com os vocais do Ozzy.
José Leonardo: O último álbum da fase Ozzy não é o favorito de muita gente. Em 1977, o vocalista havia saído da banda e foi substituído por Dave Walker (ex-Savoy Brown e Fleetwood Mac), mas parece que a química não funcionou e já no ano seguinte Ozzy retornou à banda. Bem diferente de seus discos anteriores, Never Say Die! é um álbum interessante, apesar de muitos acharem-o ruim. O lado A do velho LP tem quatro bons rocks, com destaque para a faixa-título (single que ficou melhor nas paradas depois de “Paranoid”) e “Johnny Blade”. O lado B tem músicas mais experimentais: “Air Dance”, “Shock Wave” e “Breakout” (curto tema instrumental com toques jazzísticos). Para encerrar, uma canção cantada por Bill Ward: “Swinging the Chain”, que não entusiasma, mas também não decepciona. 
Leonardo: Never Say Die! foi concebido em meio ao momento mais instável da carreira do Black Sabbath até então. Ozzy saiu da banda, foi substituído e retomou seu posto enquanto o disco era gravado. Some-se a isso o alto uso de drogas de todos os integrantes na época. Talvez por esses motivos, este seja o disco mais variado da carreira do grupo, com muitas experimentações, como o uso de instrumentos de sopro ou o fato dos quatro integrantes cantarem em “A Hard Road”. Assim, um disco que teria tudo para dar errado é salvo pelo brilhantismo das composições. Impossível não citar a grudenta faixa-título e a instrumental “Breakout”, um dos destaques do disco.
Luiz: Acredito que este seja daqueles discos que entram na lista mais por conta do lobby do que por seus méritos propriamente ditos. A despedida de Ozzy do Sabbath deixa aquela impressão de que poderia ter sido antes. Não é de todo ruim e eu até gosto. Mas não merecia figurar entre os melhores de seu ano.
Mairon: Finalmente! Finalmente! Finalmente! Que alegria! Que saudação! Que emoção! Que momento! O melhor álbum da carreira do Black Sabbath, o mais retratado, o mais questionado, o injustiçado e agredido Never Say Die! aparece aqui para esbofetear aqueles que o desprezam, mostrando sua força, seu valor, seu poder, sua beleza, sua genialidade. Podem dizer o que quiserem, que o Black Sabbath metálico já tinha ido, que Ozzy não cantava mais nada, que o disco é uma sombra de um grande grupo, mas o fato é que Never Say Die! é o único disco do Sabbath que soa redondinho do início ao fim, junto de Technical Ecstasy, que infelizmente ficou de fora da lista final referente a 1976. A faixa-título, que abre o álbum, é uma avalanche destrutiva, com um pique incrível, levando ao experimentalismo que o grupo fez amadoristicamente em Sabotage (1975) e Sabbath Bloody Sabbath (1973) na ótima “Johnny Blade”, outra pancada sonora. “Junior’s Eyes” revela um Black Sabbath moderno, com o wah-wah de Iommi comendo solto, e “A Hard Road” estaria facilmente em qualquer um dos dois discos citados anteriormente. O lado B é TODO fantástico, começando com a pancada “Shock Wave”, um dos riffs mais incríveis de Mr. Iommi, a lindíssima “Air Dance”, o embalo de “Over to You” e a sequência jazzística de “Breakout” e “Swinging the Chain”, esta com Bill Ward nos vocais. Não há uma única canção que possa se dizer mediana. Todas estão (e muito) acima da média, beirando a perfeição, alcançada por “Air Dance”, e fora que é a melhor performance da carreira de Iommi. Ozzy saiu para dar lugar a Dio, o Black Sabbath mudou (melhorou?) e nunca mais fez algo sequer perto do que é Never Say Die!, o disco mais pesado e mais perfeito dos britânicos, e disparado o melhor álbum de 1978.

 2002
Tom Waits – Blue Valentine (37 pontos)
Adriano: Eu até ouvi este disco pra série – e reouvi após a divulgação da lista final –, mas o som de Tom Waits é muito peculiar pra que eu avalie ouvindo tão poucas vezes. Só vim “ouvir claramente” Rain Dogs (1985) após dezenas e dezenas de audições. Mas é bom ver o Waits por aqui, um artista único e que deve ainda aparecer nas listas dos próximos anos.
Bernardo: Ainda no terreno jazzístico, Tom abre Blue Valentine, um dos seus discos mais tristes e pra baixo, com a regravação de “Somewhere”, da peça “Amor, Sublime Amor” (1957). O que era grandioso na Broadway aqui é lento, lamentado e em menor tom. Mal se podia imaginar o quanto uma canção de um musical clássico poderia soar tão destruidora. O clima marginal de bar de quinta categoria impera forte tanto no ritmo malicioso de “Romeo is Bleeding” quanto nos oito minutos de “$29,00”, que mostram o poeta de mão cheia que Tom Waits é, tornando uma música de instrumental cíclico em algo sempre curioso e interessante. Mas destaco, em absoluto, “Christmas Card From a Hooker in Minneapolis”, uma das grandes composições da carreira do artista. Tragicômica, sincera e doída, seus mais de quatro minutos pouco a pouco nos desarmam para a última estrofe, que não deixa pedra sobre pedra. Tom desde cedo mostrava seu talento exemplar em personalizar os boêmios, excluídos e miseráveis em seus momentos mais íntimos. Blue Valentine pode não ser a síntese definitiva do seu trabalho, mas é um álbum de uma beleza transparente e singular que não se vê todo dia.
Bruno: Antes de começar a sua série de discos experimentais, Tom Waits lançou mais um bom trabalho na veia jazzística, cheio de baladas e músicas que remetem a um boteco esfumaçado de madrugada. Não entra na minha lista, mas Tom Waits é sempre digno.
Davi: Uma verdadeira tortura. Como isso veio parar aqui?
Diogo: Por mais que meu conhecimento sobre Tom Waits ainda seja bastante diminuto, fica cada vez mais claro que, no médio prazo, ainda me interessarei bastante por sua obra. Apesar de, no momento em que escrevo este comentário, a identificação com o trabalho do norte-americano ainda não estar evidente, admito que a adoração expressada por aqueles que ajudaram a colocar este álbum entre os dez mais bem cotados de 1978 não acontece à toa. A obra toda desvela-se muito bem, mas por ora destaco “Somewhere”, “Christmas Card from a Hooker in Minneapolis”, “$29,00″ e a faixa-título.
Eduardo: Bom disco do beberrão do rock. Mas não muda a vida de ninguém.
Eudes: Não tinha escutado este disco até ser provocado por esta lista. Da abertura, com um excerto da peça “Amor, Sublime Amor”, até o fechamento com o jeitão de standard de “Blue Valentine”, gostei de quase tudo. Deve ser mesmo um dos melhores de 1978.
Fernando: Não ouvi.
José Leonardo: Taí um cara cuja obra musical preciso conhecer mais!
Leonardo: Não familiarizado com o gênero ou a obra do artista, prefiro não opinar.
Luiz: O poeta dos bares e corações partidos nos convida a beber com ele em canções sobre amor, dor, solidão, delírio e sonhos desfeitos. E muitos porres. O velho Tom canta a vida de quem não tem muito mais além de ficar bêbado com suas canções e não preciso dizer muito mais que isso.
Mairon: Fui apresentado a Tom Waits recentemente durante uma edição da seção “War Room” e fiquei bastante decepcionado. Ouvi Blue Valentine por conta de sua colocação final nesta lista, e posso apenas dizer que o julgo a grande piada que sempre aparece em todas as listas de melhores que os consultores têm feito. Os momentos bons são a orquestra de “Somewhere” e as linhas instrumentais jazzísticas de algumas canções do lado B, só que a rouquidão da voz de Waits não é para mim. Fraco, e passo longe.

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Tangerine Dream – Cyclone (32 pontos)
Adriano: Surpresona! Por um lado, embora seja o único disco que citei e entrou na lista final, é uma surpresa ruim, pois não o considero muito representativo desse ano (a não ser que consideremos um representante também dos demais eletrônicos que ficaram de fora, como Jean-Michel Jarre) e, talvez, nem sequer da banda, embora seja meu favorito entre os que conheço deles. No entanto, ele talvez sirva de contraponto nesta lista tão metaleira. Cyclone é mais sinfônico que os discos anteriores do grupo alemão, com a presença do vocal, uso farto de sopros e até um ar épico na faixa de abertura, a perfeitíssima “Bent Cold Sidewalk”. Esta possui uma sequência de passagens distintas, todas belíssimas, desde o esplêndido uso do vocoder recitando um poema no início até o trecho mais prog-brega do final, mas sendo a seção instrumental do meio a mais fenomenal. “Rising Runner Missed by Endless Sender” parece um cruzamento de “Showroom Dummies” (Kraftwerk) com “Isi” (Neu!) e passa um clima tosco de perseguição, mas é muito boa. Pra encerrar o disco, a longuíssima “Madrigal Meridian”, que, além dos vários exercícios instrumentais lindíssimos, possui um tema principal comovente, sendo a faixa que mais e melhor utiliza elementos minimalistas. Pena que Steve Jolliffe só tenha participado deste álbum.
Bernardo: Não é ruim, nem de longe, mas não me impressionou nem chamou atenção. Logo depois de ouvir já não lembrava de muita coisa.
Bruno: Não é minha praia.
Davi: Não tem jeito. Não consigo gostar de Tangerine Dream. Mais uma vez tentei e não me emocionou.
Diogo: Considerando que eu nunca havia ouvido sequer uma faixa do Tangerine Dream até a divulgação do resultado final desta edição da série, até que a experiência foi proveitosa. Não se trata de algo que eu ouça com frequência, mas ainda pretendo explorar com mais atenção a discografia do grupo. Admito, porém, que não se trata de uma das minhas maiores prioridades.
Eduardo: Mais do mesmo da extensa discografia deles. Jamais imaginaria que receberia um voto sequer aqui.
Eudes: Não entendo porque o Tangerine Dream só foi, finalmente, lembrado nesse ano. Digo sem medo de errar que a banda produziu em sua caudalosa discografia discos mais interessantes do que este em anos anteriores, como Alpha Centauri(1971), Phaedra (1974) e Stratosfear (1976). Mas Cyclone merece estar aqui. Famoso por ser o primeiro disco da banda a trazer propriamente vocais e letras, ele merece ser lembrado por razões mais relevantes. Primeiro porque a primeira faixa, “Bent Cold Sidewalk”, é uma suite em que a banda experimenta com o formato progressivo, deixando um pouco de lado os traços de krautrock. Muitos vêm nelas uma influência, principalmente melódica, do Pink Floyd. Acho um exagero, o talhe altamente pessoal de Edgar Froese está lá, emoldurado pelos sopros de Steve Jolliffe. “Rising Runner Missed by Endless Sender” retoma o jeitão teutônico, com eletrônica pesada e ritmo hipnótico, que se desenvolve na faixa de encerramento, a longa “Madrigal Meridian” que traz um kraut tradicional sob bases rítmicas acústicas, com direito a solo de guitarra “bem rock’n’roll, cara” e incursões de Jolliffe por paisagens do Oriente Médio. Ótimo, principalmente como porta de entrada à obra da de Froese.
Fernando: Não sou especialista em Tangerine Dream, até porque conheço uma pequena parte da longa carreira deles, mas ao meu ver a entrada deste álbum é um pouco fora do comum. Gosto muito de Stratosfear e um pouco menos de Phaedra. Ouvi outros discos que não me chamaram a atenção, inclusive este Cyclone. Meus amigos da ala prog da Consultoria estão ficando doidos?
José Leonardo: O Tangerine Dream resolveu mudar um pouco sua sonoridade com o lançamento de Cyclone. Após a saída de Peter Baumann, em 1977, os multi-instrumentistas Edgar Froese e Chris Franke, resolveram recrutar o músico inglês Steve Jollife (sopros, teclados e vocal) e o baterista Klaus Krüger.  Primeiro álbum da banda a contar com vocais “cantados”, Cyclone é o disco mais “prog rock” da banda: lead vocals, bateria “de verdade”, flauta. O disco contém apenas três faixas: No lado A temos “Bent Cold Sidewalk”, com seus teclados melódicos, bateria e o vocal de Jollife com um leve e estranho sotaque alemão, e “Rising Runner Missed By Endless Sender”,  mais rápida que a faixa anterior, mas que segue com a mesma tendência prog. Já no lado B temos a suíte “Madrigal Meridian”, com um som mais típico, que se aproxima de trabalhos anteriores da banda. Os detratores deste disco dizem que a suíte é a única coisa que se salva do álbum, simplesmente porque não há vocais. É uma peça eletrônica altamente rítmica,  com momentos melódicos e contemplativos, justamente o que você espera de um trabalho do Tangerine Dream. Infelizmente, a parceria com Jollife duraria pouco, e, no álbum seguinte, Force Majeure (1979), apenas Klaus Krüger aparece ao lado dos outros dois membros da banda. A experiência de usar lead vocals em um disco do Tangerine Dream só seria repetida com o álbum Tyger, em 1987.
Leonardo: Não familiarizado com o gênero ou a obra do artista, prefiro não opinar.
Luiz: Sério mesmo isso? Tipo, é sério?
Mairon: Mais um grupo cuja entrada na lista me surpreende. Assim como o Funkadelic, acho que há álbuns muito melhores do Tangerine Dream que poderiam estar na lista final. Cyclone é um baita disco, mas longe de ser um dos melhores de 1978. Prefiro os álbuns instrumentais da era Pink, muito mais enigmáticos, densos e perfeitos do que os vocais e letras viajantes de Cyclone, que tem na longa “Madrigal Meridian” – instrumental – o seu melhor momento. Acho que é preconceito mesmo, pois me acostumei a ouvir o Tangerine instrumental. Recomendo o disco, que inclusive tenho e gosto, mas não o recomendo como um álbum excepcional. Quer conhecer o verdadeiro Tangerine Dream? Vá ouvir Alpha Centauri ou Zeit (1972).

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Judas Priest – Killing Machine (30 pontos)
Adriano: Não vou ouvir mais um disco de METÁU só porque saiu nesta lista. Devo, Talking Heads e mais uma porrada de bandas mandam lembranças…
Bernardo: Fora as três grandes composições com a marca registrada do Judas – “Delivering the Goods”, “Hell Bent for Leather” e o cover de Fleetwood Mac, “The Green Manalishi” –, que têm todos aqueles elementos que nos empolgam quando ouvimos a banda de Halford pela primeira vez, o resto não me chama atenção.
Bruno: Disco divertido de heavy metal, mas nada de mais. Prefiro mil vezes Stained Class. Passo.
Davi: Muitos falam de Sad Wings of Destiny (1976) e Sin After Sin (1977), mas, para mim, a fase de ouro deles começa com os dois discos lançados em 1978. Não que eu considere os anteriores ruins, longe disso. Mas nessa fase, na minha opinião, eles amadureceram muito enquanto compositores. Este LP traz vários hinos do conjunto, como “Hell Bent for Leather” (faixa que deu titulo à edição norte-americana do álbum) e “Delivering the Goods”, além da versão matadora de “The Green Manalishi”. Essencial!
Diogo: Killing Machine sempre significou para mim um evidente ponto de inflexão na carreira do Judas Priest. Ao mesmo tempo em que apresenta características que vinham se desenvolvendo nos anteriores e haviam sido aplicadas com resultados magníficos, aponta o caminho mais direto que viria a ser seguido a partir do posterior,British Steel (1980), sem muitas ambições épicas, apostando em ideias mais simples porém efetivas, como fica claro, ao menos para mim, em músicas como as ótimas “Rock Forever” e “Evening Star”. “Hell Bent for Leather” e “Running Wild” são ainda melhores e deixam muito claro quão influente o Judas Priest foi para os grupos de heavy metal que estavam surgindo na época e registrariam suas estreias posteriormente. Se isso não é pioneirismo eu não sei o que é. A excelente “The Green Manalishi” confirma a tradição que o Judas Priest tinha, na época, de transformar covers em versões com identidade própria, enquanto a faixa-título, “Burnin’ Up” e “Evil Fantasies” trazem uma banda mais suingada que o habitual. “Before the Dawn” é mais uma a engrossar o rol de belas baladas feitas pelo quinteto, enquanto “Take on the World” é a única falha evidente, compensada, porém, pela melhor faixa do álbum, a magistral “Delivering the Goods”. É, amigo… Lançar dois álbuns desse nível no mesmo ano não é pra qualquer um…
Eduardo: Muito bom disco dos primórdios do metal oitentista. Considero os discos do Judas Priest nos anos 1970 como metal oitentista na década de 1970.
Eudes: Vamos ser honestos, Hell Bent For Leather/Killing Machine é divertido, a banda é afiada e o cantor sabe cantar muito mais do que o monocordismo heavy metal de lei. Mas apesar de ter pulado muito ao som de “Rock Forever”, não vejo o porquê da inclusão deste disco entre os melhores de todos os tempos, salvo se for para assinalá-lo como um precursor (no caso, bem melhor do que suas consequências) do que ocorreria com o hard-heavy rock nos anos 1980. Nessa função, a indicação faz um bom sentido.
Fernando: Por mim, apenas um álbum do grupo já estaria bom aqui nesta lista. E se tivesse que escolher entre os dois, este sairia perdendo. Claro que várias das músicas que dele constam são clássicas, como “Delivering the Goods” e, principalmente, “Hell Bent for Leather”, mas o conjunto de Stained Class ainda é melhor.
José Leonardo: Como já disse em outra oportunidade: Conheço pouquíssima coisa do Judas Priest, por isso abstenho-me de comentar.
Leonardo: Dando prosseguimento ao que havia iniciado em Stained Class, o Judas Priest retornou ainda no mesmo ano com mais um conjunto de músicas matadoras. Além disso, foi em Killing Machine/Hell Bent for Leather que o visual clássico da banda, com muito couro e metal, foi definido, visual este que se tornaria praticamente o uniforme do heavy metal na década seguinte. Musicalmente, o disco é repleto de canções que se tornaram marcos na carreira da banda, como “Hell Bent for Leather”, “Running Wild” e o espetacular cover de “The Green Manalishi (With the Two-Pronged  Crown)”, que ainda ganharia uma versão definitiva no disco ao vivo lançado no ano seguinte, Unleashed in the East.
Luiz: Este é um interessante exemplar de uma discografia fantástica. Obrigatório, como quase tudo do Judas, mas não ao ponto de figurar entre os dez melhores de seu ano. Em contrapartida, “Hell Bent for Leather” é um dos maiores clássicos do grupo.
Mairon: Killing Machine (ou Hell Bent for Leather) encerra a primeira fase do Judas Priest, para mim a melhor delas, mostrando um estilo um pouco afastado do que o grupo fez em seus quatro incríveis álbuns antecessores, tirando um dos pés do rock progressivo e fincando-o na cena NWOBHM que surgia com força no final da década de 1970. Para muitos, a fase que veio a seguir é a de destaque e relevância, com os álbuns British Steel (1980) e Screaming for Vengeance (1982), e isso começou aqui, culpa dos riffs velozes de “Hell Bent for Leather”, da pegada de “Deliverin’ the Goods” e da versão definitiva de “The Green Manalishi (With the Two-Pronged Crown)”, com o Judas consolidando-se em fazer versões muito melhores que as originais, lembrando que essa peça foi composta pelo Fleetwood Mac. Considero o disco muito mediano, e julgo sua entrada na lista mais uma falha, principalmente por ter tirado preciosidades como Jazz (Queen) e Some Girls (The Rolling Stones). Stained Class supriria a necessidade metálica em 1978 com louvores.

Listas individuais
1-56Adriano KCarão
  1. Silvio Rodríguez – Al Final del Viaje
  2. Tangerine Dream – Cyclone
  3. Yes – Tormato
  4. Devo – Q: Are We Not Men? A: We Are Devo!
  5. Silvio Rodríguez – Mujeres
  6. Billy Joel – 52nd Street
  7. O Terço – Mudança de Tempo
  8. Queen – Jazz
  9. The Rolling Stones – Some Girls
  10.  Djavan – Djavan
51x2x+RC0VL._SY300_Bernardo Brum
  1. Funkadelic – One Nation Under a Groove
  2. Kraftwerk – Die Mensch Machine
  3. Devo – Q: Are We Not Men? A: We Are Devo!
  4. Tom Waits – Blue Valentine
  5. The Rolling Stones – Some Girls
  6. The Clash – Give ‘em Enough Rope
  7. Bruce Springsteen – Darkness on the Edge of Town
  8. The Jam – All Mod Cons
  9. Rainbow – Long Live Rock ‘n’ Roll
  10.  Pere Ubu – The Modern Dance
220px-BigStarThirdBruno Marise
  1. Big Star – Third
  2. Cheap Trick – Heaven Tonight
  3. Bruce Springsteen – Darkness on the Edge of Town
  4. Buzzcocks – Love Bites
  5. Radio Birdman – Radios Appear
  6. Rush – Hemispheres
  7. The Jam – All Mod Cons
  8. The Dictators – Blood Brothers
  9. The Rolling Stones – Some Girls
  10. Judas Priest – Stained Class
MI0002202425Davi Pascale
  1. Van Halen – Van Halen
  2. The Who – Who Are You
  3. AC/DC – Powerage
  4. Rainbow – Long Live Rock ‘n’ Roll
  5. Queen – Jazz
  6. Journey – Infinity
  7. Judas Priest – Killing Machine
  8. The Clash – Give ‘em Enough Rope
  9. The Police – Outlandos D’Amour
  10.  The Rolling Stones – Some Girls
MI0001591982Diogo Bizotto
  1. Bruce Springsteen – Darkness on the Edge of Town
  2. Judas Priest – Stained Class
  3. Van Halen – Van Halen
  4. Judas Priest – Killing Machine
  5. Rush – Hemispheres
  6. Journey – Infinity
  7. Rainbow – Long Live Rock ‘n’ Roll
  8. Poco – Legend
  9. Ramones – Road to Ruin
  10. Queen – Jazz
Cd_level_ger_aEduardo Sandoval
  1. Sweet – Level Headed
  2. Blondie – Parallel Lines
  3. Toto – Toto
  4. Journey – Infinity
  5. The Cars – The Cars
  6. AC/DC – Powerage
  7. U.K. – U.K.
  8. Richard Wright – Wet Dream
  9. David Gilmour – David Gilmour
  10.  The Moody Blues – Octave
John_McLaughlin_-_1978_-_Electric_GuitaristEudes Baima
  1. John McLaughlin – Electric Guitarist
  2. Egberto Gismonti – Nó Caipira
  3. Chic – C’est Chic
  4. The Police – Outlandos D’Amour
  5. Kraftwerk – Die Mensch Machine
  6. Tangerine Dream – Cyclone
  7. Beto Guedes – Amor de Índio
  8. Richard Wright – Wet Dream
  9. Tom Zé – Correio da Estação Brás
  10.  The Rolling Stones – Some Girls
1978 UK FrontFernando Bueno
  1. Rush – Hemispheres
  2. Van Halen – Van Halen
  3. Rainbow – Long Live Rock ‘n’ Roll
  4. The Who – Who Are You
  5. U.K. – U.K.
  6. Bruce Springsteen – Darkness on the Edge of Town
  7. Judas Priest – Stained Class
  8. AC/DC – Powerage
  9. Funkadelic – One Nation Under a Groove
  10.  Jean-Luc Ponty – Cosmic Messenger
david-gilmour-solo-781José Leonardo Aronna
  1. David Gilmour – David Gilmour
  2. Jethro Tull – Heavy Horses
  3. Richard Wright – Wet Dream
  4. Black Sabbath – Never Say Die!
  5. Rush – Hemispheres
  6. Rory Gallagher – Photo-Finish
  7. Tangerine Dream – Cyclone
  8. The Rolling Stones – Some Girls
  9. Neil Young – Comes a Time
  10.  Kraftwerk – Die Mensch Machine
10-ace-frehley-solo1Leonardo Castro
  1. Ace Frehley – Ace Frehley
  2. Judas Priest – Stained Class
  3. Paul Stanley – Paul Stanley
  4. Judas Priest – Killing Machine
  5. Van Halen – Van Halen
  6. Rainbow – Long Live Rock ‘n’ Roll
  7. Ramones – Road to Ruin
  8. Cheap Trick – Heaven Tonight
  9. Black Sabbath – Never Say Die!
  10.  Heavy Load – Full Speed at High Level
ExcitableBoyLuiz Carlos Freitas
  1. Tom Waits – Blue Valentine
  2. Warren Zevon – Excitable Boy
  3. Funkadelic – One Nation Under a Groove
  4. Bob Seger and the Silver Bullet Band – Stranger in Town
  5. Bruce Springsteen – Darkness on the Edge of Town
  6. Van Halen – Van Halen
  7. Judas Priest – Stained Class
  8. Rainbow – Long Live Rock ‘n’ Roll
  9. The Cars – The Cars
  10.  The Rolling Stones – Some Girls
Moby_Grape-Live_Grape-FrontalMairon Machado
  1. Black Sabbath – Never Say Die!
  2. Rush – Hemispheres
  3. Moby Grape – Live Grape
  4. SBB – Wołanie o Brzęk Szkła
  5. Secos e Molhados – Secos e Molhados
  6. Queen – Jazz
  7. Anacrusa – El Sacrificio
  8. The Rolling Stones – Some Girls
  9. Larry Coryel & Philip Catherine – Splendid
  10. Van Halen – Van Halen
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