terça-feira, 26 de agosto de 2014

DVD: Gimme Shelter [2000]



Existem alguns filmes relacionados com artistas do rock que são clássicos indispensáveis na prateleira de DVDs dos apreciadores da Sétima Arte. The Song Remains the Same (Led Zeppelin), The Last Waltz (The Band), Ziggy Stardust and The Spiders from Mars (David Bowie), Woodstock e, mais recentemente, Beyond the Lighted Stage (Rush) e No Direction Home (Bob Dylan) se tornaram figurinhas estreladas nas coleções de vídeos do mundo a fora, e são fortes exemplos de como o cinema pode ser um belo aliado para o artista, seja destacando apresentações ao vivo (os três primeiros), seja com um documentário sobre a carreira do (os dois últimos).
Porém, há um filme entre todos os demais que se sobressai no quesito importância. Trata-se de Gimme Shelter, lançado originalmente pelos ingleses do Rolling Stones em 1970, e que recebeu uma edição digital em 2000 com alguns complementos muito interessantes para quem gosta de conhecer a história da música.

Stones, vivendo um dia de loucura em Altamont

O filme foi dirigido por Albert Maysels e Charlotte Zwerin, e conta com a colaboração de Stanley Goldstein, além dos novatos camera-men George Lucas (Star Wars) e Martin Scorcese (The Last Waltz, No Direction Home, entre outros), mas as filmagens de Lucas não foram usadas, já que sua câmera foi danificada durante o último show dos Stones na América.

Através de pouco mais de uma hora e meia, o telespectador depara-se com a cobertura da turnê americana que Mick Jagger (vocais), Bill Wyman (baixo), Keith Richards (guitarras), Mick Taylor (guitarras) e Charlie Watts (bateria) fez em 1969, partindo de Nova Iorque e culminando com uma apresentação gratuita em San Francisco, no início de dezembro daquele ano.

Durante a primeira metade do filme, o que temos são cenas da chegada dos Stones nos Estados Unidos, filmagens da produção do próprio filme, com citações inclusive ao pós-show de encerramento, vídeos da sessão de fotos para a capa do álbum Get Yer Ya-Ya's Out (gravado ao vivo nesa turnê, e lançado em 1970), a mixagem de "Wild Horses" e trechos da apresentação do grupo em Nova Iorque, no Madison Square Garden, interpretando clássicos como "Jumping Jack Flash", tendo Jagger com sua famosa cartola em homenagem a bandeira americana, "(I Can't Get No) Satisfaction", "Love in Vain", "Honky Tonk Women", "Street Fighting Man", "You Gotta Move" e "Brown Sugar", essas duas como canções de fundo em imagens do grupo pelos Estados Unidos.

Outro ponto que chama a atenção nessa primeira metade é uma breve apresentação de Ike & Tina Turner, na qual a vocalista simula uma masturbação com o microfone durante "I've Been Loving You Too Long", como se o mesmo fosse um membro masculino, além de um grande close nas partes íntimas da vocalista, que apesar de não ser mostrada explicitamente, fica em evidência na telona devido a curtíssima saia que a mesma está usando. E claro, a fantástica interpretação vocal de Tina é de arrepiar.

Jagger anunciando show gratuito nos Estados Unidos

Entrevistas de Jagger falando sobre o show final surgem na tela, mostrando o mesmo sempre simpático e de bom-humor, e também com Richards, e aqui é anunciado pela primeira vez que o grupo irá fazer um show de encerramento gratuito em San Francisco. O empresário Mel Belli aparece pela primeira vez, e assim começa uma longa e difícil sessão de discussão de como e onde ocorrerá o tal show, isso dias antes do mesmo ocorrer. 

Planejado originalmente para ocorrer na Golden Gate de San Francisco, na Califórnia, o show quase não ocorreu por conta de que ninguém queria arriscar-se com um evento de tamanho porte, por conta do fracasso financeiro que havia sido Woodstock meses antes.

Stones em Altamont

A segunda ideia foi realizar o espetáculo no Sears Point Raceway (hoje Sonoma Raceway), local onde inclusive o palco chegou a ser montado, só que problemas de segurança impediram a realização por lá. O empresário Dick Carter acaba oferecendo o seu autódromo de Altamont, responsabilizando-se por organizar o local para receber em torno de cinco a vinte mil pessoas em troca de publicidade e promoção do local. Um dia antes da apresentação, apesar de todos os problemas apresentados pelo local, principalmente a falta de estacionamento apropriado, Altamont é confirmado para o local do show.

Até aí, tudo parece ocorrer bem, mas é nas imagens de produção que, pelas reações de Jagger e Watts com uma entrevista feita com um Hells Angel para uma rádio local americana, percebemos que nem tudo foi flores na turnê. Os Hells Angels eram um grupo de motoqueiros mal-encarados que foram contratados para serem os seguranças do último show dos Stones na América, e para muitos os responsáveis também pelos lamentáveis fatos que ocorreram no mesmo, e que começam a aparecer na segunda metade de Gimme Shelter.

É quando o filme realmente começa, com uma mobilização incrível dos americanos atravessando o país para acompanhar o show do grupo na parte oeste do país, tendo ao fundo um anuncio apavorado de Frank Terry, na rádio KRFC, falando da mobilização dos fãs que atravessavam o país sob a madrugada gelada apenas para ver os Stones, enquanto outros foram a Sears Point com caminhões, vans e carros para auxiliar na desmontagem do equipamento, levando tudo para Altamont (distante aproximadamente 120 km de Sears Point) e ajudando na organização do palco e do festival no novo local.

Visão de Jagger na chegada a Altamont

Os fãs começaram a chegar ainda pela noite, fazendo fogueiras e esquentando com álcool e drogas, e tudo é filmado no meio do rebuliço, mostrando cada detalhe de forma exclusiva. O mais impressionante é a sequência de vinte segundos, filmada em alta velocidade dentro de um helicóptero, mostrando a longa fila de carros estacionados muito antes do autódromo, e a incrível quantidade de pessoas que se aglomeraram no local para assistir ao show. Estima-se que mais de trezentas mil pessoas estiveram presentes no dia 06 de dezembro de 1969 em Altamont.

Hippies fumando e vendendo drogas, algumas viagens alucinógenas de alguns seres, partos, organização do palco pelos empresários dos Stones e os Hells Angels com suas Harley Davidson, tudo parece correr bem, chegando a apresentação do Flying Burrito Brothers (antes deles, Santana havia se apresentado). Aqui começam os verdadeiros problemas. Durante "Six Days on the Road", o filme mostra que os Hells Angels começam a usar seu poder de seguranças, e agressivamente, barram e espantam os fãs da beira do palco, principalmente os mais "fora de si". Tacos de sinuca e bastões de beisebol são as "armas" para controlar os fãs, e a medida que o tempo passa, uma certa aflição parece surgir do palco e do ambiente, deixando aflito até mesmo quem está confortavelmente assistindo em sua casa.

Pancadaria no show do Jefferson Airplane

Durante a apresentação do Jefferson Airplane, a coisa piora. Durante "The Other Side of This Life", o pau quebra na frente do palco, e mesmo com os pedidos de Grace Slick para o pessoal se acalmar, o tempo fecha. Os Hells Angels agridem covardemente os fãs, e acabam acertando Marty Balin, que pulou no meio dos fãs para tentar acabar com a briga. O show do Jefferson Airplane é interrompido, e enquanto isso, bos bastidores, os Stones não sabem de nada que está acontecendo. Socos, pontapés e gritos são vistos e ouvidos por todo lado, e um impressionado Mike Shrieve (baterista de Santana) comenta com os assustados Phil Lesh e Jerry Garcia (ambos do Grateful Dead) que jamais tinha visto nada igual.
Mais Hells Angels chegam para "proteger" os Stones, durante a apresentação de Crosby, Stills, Nash & Young (não aparece no filme) e o show principal começa. A qualidade de áudio e vídeo é muito boa, com as imagens sendo coloridas e dando para ouvir claramente as brigas e discussões, e com as legendas em português, fica ainda mais fácil entender o que está acontecendo. 

Hell Angel enojado pela presença de Jagger

O que ninguém consegue explicar é o motivo das brigas, que continuam durante o show dos Stones, principalmente durante a segunda música da noite, "Sympathy for the Devil" (a primeira, "Jumping Jack Flash", não está no filme), quando além do pau comer solto na plateia, um dos Hells Angels olha com cara de nojo para a dança de Jagger no palco.

Gritos, pancadaria e muita violência aparecem nas imagens, e Jagger clama por paz. Não adianta, os Hells Angels estão com tudo, inclusive um usando uma cabeça de raposa em sua cabeça. O quebra-pau é geral, e alguns segundos após Jagger conseguir acalmar todos, eles continuam tocando "Sympathy for the Devil". Uma gorda maluca, totalmente nua, arrasta-se entre a multidão, e quando parece que tudo acalmou, o pau pega de novo.

Jagger conversando com o “Cabeça de Raposa” sobre a pancadaria,
enquanto Richards desespera-se (à direita)

Jagger pergunta: "Por que estamos brigando", enquanto um membro da plateia é arrastado ferido pelo palco. As imagens chocam, e os Stones insistem para que a briga pare, se não, não haverá show. 

Alguns minutos para tudo acalmar, e o baile segue, agora com "Under My Thumb", e após focar em um Hells Angels doidão em cima do palco, retirado pelo mesmo colega que ficou encarando Jagger durante "Sympahty for the Devil" com muito "carinho", chegamos ao final da apresentação, quando Meredith Hunter, de dezoito anos, é assassinado com três facadas pelas costas por um dos Hells Angels, Alan Passaro, após sacar uma arma em direção à um membro da plateia, tentando invadir o palco para chegar mais perto de Jagger.

O assassinato de Meredith Hunter por Passaro

A cena foi captada pela lente da câmera de Baird Bryant muito claramente, e depois do estrago, temos Jagger assistindo ao vídeo no exato momento da morte de Hunter, com as imagens em câmera lenta mostrando a arma na mão de Hunter e um Hells Angels esfaqueando-o por trás.
Voltamos para Altamont, com os paramédicos atendendo Hunter, mas nada podia ser feito, ele já havia sido declarado morto, enquanto sua namorada chora desesperadamente.

A reveladora cara de Jagger sobre Altamont

Retornamos então para a sala de produção do filme, com Jagger abandonando-a com uma cara que mostra toda sua tristeza e inconformidade com o que aconteceu, encerrando com as pessoas saindo de Altamont sob o som de "Gimme Shelter".

Nos extras, temos cenas excluídas da versão original, que é a mixagem de "Little Queenie", a apresentação de "Little Queenie", "Oh Carol" e "Prodigal Son" no Madison Square Garden, e cenas dos bastidores de Jagger com Ike e Tina Turner, na qual Jagger ensina uma interessante versão de "Brown Sugar" para a dupla. Há ainda comentários de Albert Maysles, Charlotte Zwerin e Stanley Goldstein, os trailers de promoção dos três lançamentos (1971, 1991 e 2000) e ainda uma transmissão da Rádio KSAN um dia depois do ocorrido em Altamont, com Hells Angels, fãs e envolvidos ligando para a rádio e dando sua versão do ocorrido.

No total, quatro pessoas morreram em Altamont, mas somente Hunter por brigas (um foi por afogamento e dois em um acidente de carro). Para muitos, esse show foi o símbolo do fim da geração hippie, o que eu discordo, já que o Festival da Ilha de Wight ainda manteve a chama acesa por mais algum tempo.

Capa e contra-capa de Gimme Shelter

O fato é que Gimme Shelter é de uma honestidade inquestionável de um dos maiores grupos de rock com seus fãs. Seria muito fácil para os Stones terem filmado tudo e engavetado o projeto, mas o fato de assumirem a responsabilidade, e lançar o filme com todas as cenas polêmicas, tornou o mesmo um mito, e graças a era digital, podemos ter essa preciosidade em casa por um preço acessível, e assistir inacreditáveis momentos que marcaram a carreira de dois dos principais nomes do rock 'n' roll mundial. Só vendo para crer que tudo isso e muito mais aconteceu em apenas um único show.

domingo, 24 de agosto de 2014

Marco Antonio Araujo


Na década de 70, a Música Popular Brasileira tinha como principal fonte de pensadores não o Rio de Janeiro, e tão pouco a pauliceia desvarada, mas sim, o jeitinho manso, comendo pelas beiradas, dos músicos mineiros. O Clube da Esquina de Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes e Toninho Horta fez a segunda revolução da música nacional (a primeira realizada em 1967-68 com a união dos baianos Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa com os paulistas Rita Lee, Sergio Dias e Arnaldo Baptista), transformando o rock lisérgico da Tropicália em um som mais profundo, ampliando os horizontes da Música Popular Brasileira principalmente ao usar de instrumentos acústicos para fazer rock.

O álbum Clube da Esquina (1972) é talvez o maior representante dessa geração, que durante boa parte dos anos 70 foi sinônimo de sucesso em nosso país. Aquele álbum gerou inúmeras consequências e filhos, dentre eles Marco Antônio Araujo.

Marco Antônio começou a desenvolver seus estudos musicais na década de 60, chegando a fazer parte do grupo Vox Populi (que depois transformou-se no Som Imaginário), e durante o início dos anos 70, viveu na Inglaterra, voltando para o Brasil onde aperfeiçoou sua técnica musical, principalmente no violão clássico e no violoncelo. O início de sua carreira como músico foi criando trilhas sonoras para filmes, teatro e balé - no balé ele conheceu sua esposa, Déa Marcia de Souza - e fez parte da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, tocando violoncelo, e onde conseguiu angariar fundos para a realização de seu sonho: a construção de um estúdio próprio de gravação.

O Strawberry Fields Forever foi fundado em 1979, mesmo ano que Marco Antônio passou a ser acompanhado pelo grupo Mantra, formado por Eduardo Delgado (flauta, percussão), Ivan Correa (baixo, futuro Sagrado Coração da Terra), Antonio Viola (violoncelo), Mario Castelo (bateria), Philip Doyle (flugelhorn),  e o irmão Alexandre Araújo (guitarras).

Marco Antônio revelou-se ao mundo através de quatro álbuns essenciais para aprendermos sobre a rock progressivo nacional, deste que foi um dos maiores músicos/compositores que nosso país já viu e ouviu. Como forma de homenagear seus 65 anos, segue uma breve análise sobre sua discografia.

A estreia com o audacioso Influências

A estreia para o Brasil foi batizada Influências, um disco bastante audacioso, a começar pela ótima levada da faixa-título, com seu tema central feito pelo violão elétrico acompanhado por um um naipe de metais formado por Edmundo Maciel e Edson Maciel (trombone) e Amilton Pereira e Mauricio Silva (trompete), e ainda a essencial participação de Eduardo e Alexandre, os principais músicos por detrás das peças criadas por Marco Antônio. 


O talento e genialidade como compositor ficam para as duas suítes do lado B: "Panorâmica", com sua introdução misturando flauta, harmônicos e uma maluca escala de baixo, remetem-nos aos viajantes tempos de Lark's Tongues in Aspic (King Crimson), e transformando-se em uma linda peça com solos alternados de guitarra e flauta, alternando entre momentos pesadíssimos e outros essencialmente leves; "Folk Song", uma suíte dividida em duas partes distintas, a primeira com sons de pássaros, vocalizações e a steel guitar de Alexandre fazendo suas intervenções sobre o dedilhado hipnótico do violão, e a segunda mais popular, alegre e com guitarra, violão, flauta, baixo e bateria trabalhando como se fossem um único instrumento. 

"Cantares" é a canção que considero ideal para ser apresentado ao mineiro, com um incrível arranjo musical para violão, flauta, guitarra e violoncelo. Marco Antônio ainda dá um espetáculo a parte dedilhando seu violão em "Bailado" e "Abertura n° 2", que lembram bastante o Recordando o Vale das Maçãs em sua segunda geração, nos anos 90, sendo que na última, o solo de Eduardo - acompanhado apenas por barulhos percussivos e o dedilhado do violão - é para encharcar os lenços com lágrimas. 

A versão em CD trouxe dois bônus: "Entr'Act I & II", uma tensa peça levada apenas pelo complicado dedilhado de violão clássico e uma insana flauta,  e "Floydiana II", destacando Max Magalhães na introdução, feita com o piano, dessa faixa que é a sequência de um dos grandes sucessos do músico, registrado em seu segundo LP. A ordem das canções também foi alterada em relação a um dos grandes álbuns de estreia do rock progressivo nacional.

O maduro Quando a Sorte Te Solta Um Cisne Na Noite
Entre 04 e 10 de outubro de 1982, Marco Antonio (agora sem o acento, por motivo que desconheço) e o grupo Mantra entraram nos estúdios para a gravação do segundo álbum, Quando a Sorte Te Solta Um Cisne Na Noite, lançado ainda em 1982, o qual é bem mais maduro e belo do que seu antecessor. 

Nele, está contido o maior sucesso da carreira do mineiro, "Floydiana", com a participação de Max Magalhães ao piano e também Sérgio Gomes nas trompas, sendo a versão aqui registrada praticamente idêntica a "Floydiana 2", que entrou no CD de Influências, com sua levada mezzo caipira, mezzo clássica, destacando a imponente sessão com os metais e o lindo solo de flauta feito por Eduardo. 

Marco Antonio cresce como compositor, e pelo menos três faixas são representativas desse salto musical, sendo uma delas "Adagio", uma arrepiante canção com a flauta sendo o principal instrumento, acompanhado sublimemente por piano, violão e violoncelo, este tocado por Antonio Maria Viola. Viola também é responsável pelos preciosos solos da faixa-título, a qual é dedica para ele, e que é uma balada excepcional somente com o violão de Marco Antonio e o piano de Max Magalhães acompanhando os lindos improvisos do violoncelo. 

Grupo Mantra

É nesse álbum que está aquela que considero a melhor canção de Marco Antonio junto do Mantra, a épica "Pop Music", pérola na qual Marco Antônio apresenta-se não somente com o violão Ovation, mas também tocando percussão e um raro instrumento fabricado exclusivamente para ele, a Viola Grávida. Ouvir os dez minutos dessa sonzeira é simplesmente penetrar no paraíso, com todas suas intrincadas variações, os duelos insanos de flauta e guitarra, a inqualificável performance de Marco ao violão, e a pegada forte de Ivan e Castelo tornam esta um dos pilares da música progressiva brasileira, e de dificílima reprodução, mostrando toda a capacidade de Marco Antonio como compositor. 

Uma pena que poucas pessoas deram valor a essa preciosidade nos anos 80. Ainda temos "Alegria", canção que nos remete aos sons nordestinos, levada pelo agitado violão de Marco Antonio e recheado de duelos de flauta e guitarra. 

A versão em CD trouxe três bônus: "Ilustrações", triste e bela peça clássica com o flugelhorn solando sobre o acompanhamento de um quarteto de cordas, "Cavaleiro – trilha Balé Cantares", maluca peça composta na década de 70 para uma apresentação do grupo Corpo, de Belo Horizonte, tendo Marco Antonio dando um show à parte no violão clássico, além de encarnar Jimmy Page ao tocar violão com o arco de violino, e "Sonata para cello e violão", peça clássica que deveria ser apresentada pelos professores de música aos seus alunos, tamanha complexidade da mesma, e um bom exemplo do talento de Marco Antônio não só como compositor, mas como violonista.

Apesar de bem recebido pela crítica, Marco Antonio sabia que podia fazer mais, e assim, largou Minas Gerais rumo ao Rio de Janeiro, onde registrou seu mais audacioso álbum.

O trabalho mais inspirado da carreira de Marco Antonio Araujo
Gravado em janeiro de 1983 nos estúdios Link Comunicações, na cidade maravilhosa, Entre um silêncio e Outro conta com direção musical de Jaques Morelenbaum, responsável pelo violoncelo nas duas suítes que ocupam o LP que é dedicado à professora de Marco Antonio, Esther Scliar, sendo um disco inesquecível e bastante diferente dos seus antecessores. Não há participação do grupo Mantra, apenas uma quarteto de câmara formada por violão, violoncelo (Morelenbaum e Márcio Mallard) e flauta (Paulo Guimarães). 

São apenas duas longas suítes, uma mais encantadora que a outra. "Fantasia n° 2 - Romance", suíte dividida em seis partes - "Prelúdio", "Scherzo", "Interlúdio", "Ária", "Divertimento" e "Coda" - que ocupa o Lado A do vinil, é uma incrível peça musical, emocionalmente forte, com o dolorido violoncelo de Márcio sendo o principal instrumento em solos comoventes, seja sozinho ou acompanhado pelo fantástico arranjo do violão clássico de Marco Antonio, que aqui disputa sua carreira com monstros do violão brasileiro como Turíbio Santos, Elomar e Daniel Wolff de igual para igual não somente na arte de tocar violão, mas também de compor peças clássicas.  

Capa interna de Entre Um Silêncio e Outro

Já "Fantasia n° 3 - Folhas Mortas" conta apenas com o trio Paulo, Jaques e Marco Antonio. Nesta, Marco Antonio é sem dúvidas o grande destaque, com uma performance soberba durante as quatro partes da canção, dividas em "Prelúdio" (somente com violão clássico), "Brincadeira" (solo de flauta), "Só" (solo de violoncelo) e "Trio" (unindo os três instrumentos). A formação clássica abrilhanta-se como uma lua cheia, encantando os ouvidos que ficam extasiados com a audição de um disco perfeito, que talvez seja o que melhor mostra as qualidades de Marco Antônio também como músico. Os que não são acostumados com a música de câmara irão detestar, mas os apreciadores dessa arte irão deliciar-se com talvez o melhor disco do estilo lançado em nosso país, e fácil (para mim) o melhor do mineiro. 

A versão em CD veio com os bônus "Abertura I", peça clássica que lembra composições medievais, tendo como adendo uma virtuosística sessão feita pelo violão, e as versões acústicas para "Abertura II" e "Cantares", ambas originalmente gravadas em Influências, e que casou muito bem na ideia do álbum, com o violoncelo fazendo as linhas da guitarra, e contando ainda com a participação de um pequeno naipe de metais, durante a primeira, e a flauta brilhando ainda mais, fazendo os solos de guitarra da versão original, enquanto o violoncelo emula o solo de baixo, fora que Marco Antônio parece ter evoluído centenas de anos no violão.

Em 1984, é lançada a excelente coletânea Animal Racional, trazendo canções dos dois primeiros álbuns de Marco Antonio, e que vendeu relativamente bem no país, elevando o nome do mineiro entre os apreciadores de música, e angariando cada vez mais elogios de uma mídia que ainda fechava seus ouvidos para o talento do músico e compositor.

O último álbum de Marco Antonio Araujo

Para Lucas, lançado em 1984, o grupo Mantra retorna, adicionando os sintetizadores de José Marcos Teixeira e com um novo baterista, Lincoln Cheib (futuro Sagrado Coração da Terra), além dos já conhecidos Alexandre Araújo (guitarras), Eduardo Delgado (flauta), Ivan Correa (baixo), Max Magaçhães (piano) e Jaques Morelenbaum (violoncelo), e com esse time nasce o álbum clássico de Marco Antonio, que virou referência para uma geração de músicos brasileiros na década de 80, e ainda influencia muitos nomes nos dias de hoje. 

Dedicado ao filho recém-nascido, Lucas divide-se em uma suíte fantástica e três pequenas obras-primas. A suíte é "Lembranças", que ocupa todo o lado A (algo raro para o rock nacional na década de 80) recheada de solos de flauta e guitarra, e uma pegada hardiana que dificilmente encontraremos em outra canção da carreira de Marco Antonio, entrando para a lista de Maravilhas Prog compostas pelo mineiro, e abrindo alguns minutos para ele nos impressionar com um arrepiante tremolo. 

No lado B, estão "Para Jimmy Page", intrincada homenagem ao guitarrista do Led Zeppelin, com Marco Antonio abusando das escalas e afinações diferentes que Page adorava criar, "Caipira", que apesar do nome, em nada tem do esperado "caipirismo" mineiro, mas sim uma composição na mesma linha dos dois primeiros álbuns, e a faixa título, apenas com Marco Antonio dedilhando seu violão acompanhando o solo de sintetizador. 

O CD de Lucas contém como bônus "Brincadeira", uma bonita peça feita apenas com violão clássico e flauta, mais uma vez exaltando todas as qualidades como músico e compositor de Marco Antônio, "Cavaleiro", uma canção mais intimista, feita para flauta, violão e violoncelo e sem elementos de música clássica, destacando as vocalizações acompanhando o violoncelo na segunda parte da canção, e "3rd Gymnopédie", uma dolorida e emocionante apresentação do violoncelo e da flauta acompanhados por sutis acordes de violão, infelizmente os últimos registrados pelas mãos do músico mineiro.

Marco Antonio partiu para sua primeira grande turnê brasileira, acompanhado do grupo Mantra, turnê que ocupou boa parte do ano de 1985. 



No dia 07 de janeiro de 1986, Marco Antonio iria receber o prêmio de melhor instrumentista do Brasil, concedido pela revista Veja, mas repentinamente, dias antes ele sofreu uma hemorragia cerebral, que o levou a um coma profundo e infelizmente, a sua morte, com apenas 36 anos, deixando um legado jamais esquecido por seus fãs, e que trouxe aqui para ser (re)descoberto aos que nunca souberam que o Brasil teve um guitarrista capaz de fazer frente com gigantes do rock progressivo mundial.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Maravilhas do Mundo Prog: Mandalaband - Om Mani Padme Hum



Hoje, irei apresentar o Maravilhas do Mundo Prog de um ponto de vista bastante pessoal. Afinal, há algum tempo que eu venho pleiteando apresentar essa canção, mas dificilmente encontrava material para contar a história do grupo inglês Mandalaband. Sendo assim, apresentarei a história do grupo após passar pelos minutos encantadores de "Om Mani Padme Hum", e antes, de como conheci o fantástico álbum de mesmo nome, lançado em 1975.

Dentre minhas diversas visitas em sebos do Rio de Janeiro, em um determinado dia mergulhei em um dos meus preferidos, localizado na Galeria Siqueira Campos, no coração de Copacabana e bem ao lado da estação de metrô com mesmo nome. Ali, entre diversas quinquilharias, objetos antigos, gibis entre outros, há um acervo discográfico bastante interessante, onde você consegue encontrar algumas preciosidades - usadas - com valor girando entre R$ 1,00 a R$ 150,00 reais (esse foi o valor mais caro que vi em um LP na tal loja).

A bonita contra-capa de Mandalaband

Os proprietários do local fazem a divisão dos LPs por ordem alfabética, agrupando bandas internacionais de um lado, bandas nacionais de outro, cantores internacionais em mais outro lado, cantoras internacionais noutro lado, enfim, a divisão é muito bem feita, o que torna prática a busca por especiarias. Porém, é notável o total desconhecimento dos proprietários com diversos artistas, sendo que frequentemente eu encontrava discos de grupos nacionais no meio das bandas internacionais (exemplo mais clássico: Viper). Além disco, o cuidado com os discos não é dos melhores. A maioria dos LPs estão muito sujos, e apesar de todos eles terem a capinha plástica protetora seja por fora ou por dentro, a mesma também geralmente não está no seu melhor estado.

Como existe essa facilidade para procurar discos, costumava passar algumas horas dentro do sebo, e vi o mesmo sempre recebendo lotes e lotes de vinis, que acabavam espalhados pelo chão. I! Quanta coisa boa eu achei ali de barbada. Elis Regina dos anos 60, Keith Jarrett, Bob Dylan, Charlie Mingus, ...

O lado A de Mandalaband, apenas com a Maravilha de hoje

Um desses dias, eu vasculhava os vinis em busca de algo para comprar, e me deparei com uma capa bastante danificada coitada, mas muito bela. Mal dava para se ler o nome da banda, e então fui para a contra-capa. Ali constava o nome Mandalaband, e na divisão de faixas, o lado A contendo apenas uma única canção. Fascinado que sou por suítes, fiquei alguns minutos matutando se levava o vinil para a casa ou não, principalmente por conta da capa, que estava realmente muito danificada. Quando vi o preço do bichinho (R$ 3,00), juntei a fome com a vontade de comer e arrematei o mesmo.

John Stimpson, Dave Durant, Vic Emerson, Tony Cresswell (atrás) e Ashley Mulford

Depois de algumas semanas em quarentena, coloquei o vinil para rodar, exatamente na suíte que ilustra hoje nossa série Maravilhas do Mundo Prog. Dividida em quatro movimentos, "Om Mani Padme Hum" narra a história da luta do povo do Tibet contra os chineses, bem como o desenvolvimento do budismo naquela região, e seu registro contou com a participação do London Chorale. Detalhe que toda a letra da canção é no idioma tibetano, o que torna a mesma ainda mais atraente e curiosa. Além disso, o nome da suíte é um Mantra budista de origem indiana, que foi posteriormente levada para o Tibet, e cujo significado é "Da lama nasce a flor de Lótus".

Ashley Mulford nos anos 80

Essa Maravilha começa com sintetizadores brotando de todos os lados da caixa de som, permeada por teclados e estranhas vocalizações, até que um breve tema de sintetizador surge, trazendo a voz grave de Dave Durant, explodindo no primeiro e grandioso solo de Ashley Mulford (guitarras), com destaque para a levada estonteante de John Stimpson (baixo) e Tony Cresswell (bateria), além das intervenções precisas dos sintetizadores de Vic Emerson. 

O The London Choir acompanha a melodia do baixo, bem como os vocais de Dave, sempre com o ritmo alucinante da bateria ao fundo, enquanto Ashley sola absurdamente em seu mundo próprio ao fundo. O crescendo imponente que o coral dá para a canção, bem como as intervenções surpreendentes dos sintetizadores, fazem você criar uma expectativa cada vez mais positiva sobre o primeiro movimento, que continua com mais um solo virtuoso de Ashley acompanhando os vocais de Dave, até que a canção muda repentinamente diminuindo o ritmo e apresentando uma bela passagem com os sintetizadores imitando uma pequena orquestra, encerrando a primeira parte com um show a parte feito pelo coral em companhia dos sintetizadores. Particularmente, todos os músicos fazem uma performance incrível, mas Tony Cresswell é um monstro na bateria, com uma pegada veloz e diversas viradas incansáveis.

Vic Emerson

A entrada do segundo movimento surge com estranhos barulhos, caindo em um momento solo de Vic ao piano, no melhor estilo de grandes nomes do instrumento como John Tout (Renaissance) ou Rick Wakeman (Yes). Seu solo é acompanhado por sintetizadores, e na sequência, Vic salta para os sinos tubulares, dando sequência para seu solo com piano acompanhado pela furiosa cozinha de baixo e bateria, em uma encantadora sessão jazzística.

O segundo movimento novamente destaca a incontrolável performance de Tony, baterista o qual eu procuro ouvir outros discos há algum tempo, mas infelizmente conheço apenas esse, e Vic explora seu piano com uma técnica exemplar. Sintetizadores modificam o andamento da canção, com um bonito solo de clavinet sendo executado sobre um andamento cadenciado de bateria e baixo, quase que como uma valsa, e com leves intervenções da guitarra que encerram esse mágico movimento, o qual é totalmente instrumental.

John Stimpson nos anos 80

A voz de Dave retorna para abrir o terceiro movimento, soltando a voz sobre as passagens de clavinet e sintetizadores que mais uma vez surgem de tudo que é lado das caixas de som, e o grande momento desse terceiro movimento é o longo duelo de guitarras e sintetizadores que está no centro dele, com baixo e bateria dividindo o espaço em batidas idênticas. O vocal quase que como barítono de Dave aparece com mais uma estrofe, encerrando o terceiro e mais curto movimento com um rápido tema feito pelo clavinete.

Por fim, um longo acorde de órgão e uma batida swingada trazem o quarto e último movimento, com a guitarra de Ashley surgindo carregada de distorção em mais um majestoso solo, repleto de marcações e viradas feitas ao mesmo tempo por piano, guitarra, baixo e bateria. As variações no andamento desse solo são de chorar, tamanha a beleza instrumental construída pelo grupo, seja com as camadas de sintetizadores ou com a virtuose extrapolada da guitarra, bem como o andamento fascinante de baixo e bateria, e então, "Om Mani Padme Hum" encerra-se com Dave e os sintetizadores dividindo espaço junto do coral, fazendo o ouvinte abrir um grande sorriso, e no meu caso, um sorriso mais que faceiro por ter acertado a mão em uma das melhores compras que já fiz.

David Rohl

Ainda temos o lado B, com mais quatro canções: "Determination", uma faixa veloz, quase hard, com um andamento extremamente complicado e um show a parte dos teclados de Vic, e Ashley detonando com o wah-wah; a calma "Song for a King", mais na linha da delicadeza de "Om Mani Padme Hum", lembrando bastante grupos como Illusion e Birth Control, a ensandecida "Roof of the World", a qual é impossível tentar seguir e entender o que Tony faz na bateria, e outro baita solo de Ashley, e o leve rock de "Lookin In", com Vic dando um showzinho particular no órgão. Aos que querem conhecer um pouco do álbum, ele está disponível em alguns sites para download, mas não posso publicar esse texto sem o vídeo raríssimo de "Roof of the World", disponibilizado por David Rohl em seu canal do youtube.

Depois de conhecermos a Maravilha de hoje, e passarmos pelo complemento do álbum Mandalaband, vale então o registro da história dessa magnífica banda, a qual começa em 1974, quando Rohl decidiu formar um grupo que pudesse divulgar seus estudos sobre o Tibet. Nascido em Stretford, Rohl desde pequeno foi um apaixonado pelas maravilhas do Egito Antigo, ao mesmo tempo que desenvolvia seus estudos de piano. Com dezessete anos, formou seu primeiro grupo, o The Sign of Life, que durou pouco mais de dois anos, até que Rohl largou a música para fazer o curso de fotografia na Manchester College of Art. Seus trabalhos o levaram a conhecer Justin Hayward, o guitarrista, vocalista e líder do Moody Blues, para quem Rohl trabalhou criando a bela arte interna do álbum A Question of Balance (1970).

A capa interna de A Question of Balance, com fotos por David Rohl.

Ainda na escola de arte, Rohl teve seu primeiro contato com a música, formando o grupo Ankh, um projeto financiado pelo guitarrista e vocalista Eric Stewart (futuro 10CC). O dinheiro de Eric ajudou ao Ankh registrar suas primeiras demos, e consequentemente, um contrato com a Vertigo, que chegou a registrar as demos através de um LP, nunca lançado oficialmente. Apesar disso, Rohl tinha créditos com os produtores, e para ele foi oferecida a oportunidade da construção de um estúdio na cidade de Poynton, o qual Rohl batizou de Camel Studios, mostrando mais uma vez sua paixão pelo Egito (lembrando que Ankh significa "Sinal de Vida" em egípcio).

Foi nos estúdios Camel que nasceu a Mandalaband. A suíte "Om Mani Padme Hum" foi uma das primeiras composições que ele criou, e logo tratou de conseguir músicos para gravá-la, tornando-se a primeira demo do grupo, junto com outras composições criadas pelos demais músicos, os quais eram os já citados Dave Durant (vocais), Vic Emerson (órgão, moog e clavinete), Ashley Mulford (guitarras), John Stimpson (baixo), Tony Cresswell (bateria), e que formaram a Mandalaband. Ashely e John faziam parte do grupo Friends, e os demais vinham de pequenas bandas da Inglaterra.

Mandalaband em 1975: John Stimpson, Vic Emerson, David Rohl, Tony Cresswell e Ashley Mulford

Essa demo chegou na gravadora Chrysalis Records, que assinou com a Mandalaband.  O sexteto virou uma das grandes esperanças da gravadora, que investiu na Mandalaband, colocando-os como banda de abertura para o guitarrista Robin Trower durante sua primeira turnê como headliner pós-saída do Procol Harum. O Mandalaband tocou durante toda a perna inglesa da turnê, durante fevereiro de 1975, totalizando vinte shows com audiência média de 2 mil pessoas por apresentação, que tinha como principal destaque a apresentação na íntegra de "Om Mani Padme Hum".

Porém, nem tudo foram flores. Ashley tinha apenas dezoito anos na época, e era um assíduo consumidor de ervas capazes de expandir sua mente, vivendo no meio de uma comunidade hippie praticamente sem dinheiro nenhum. Para piorar, sua namorada engravidou, e a filha acabou nascendo no meio da turnê. Ashley teve que vender a única propriedade que tinha para poder sustentar sua filha, que era a guitarra. Só que Ashley acabou usando parte do dinheiro para experimentar mais algumas ervas, e com isso, acabou passando alguns dias detido na cadeia de Buckley Hall.

Um substituto era necessário com urgência, e conta a lenda que o músico convidado foi nada mais nada menos que Robert Fripp, que havia acabado de extinguir o King Crimson. Porém, quando Fripp deparou-se com os solos de "Om Mani Padme Hum", desistiu de participar do projeto, por considerar as mesmas extremamente difíceis. Coube então para Vic fazer as partes da guitarra nos teclados e no clavinete.

Mandala que deu origem a capa de Mandalaband, pintada por David Rohl

Ashley voltou para a banda, e as sessões de gravação de Mandalaband começaram agora sem outro membro, exatamente o líder David Rohl, que deixou a banda logo no primeiro dia de gravação, indo trabalhar em Manchester, já que a gravadora não queria a participação dele na mixagem, mas sim um produtor experiente como John Alcock, responsável depois pelos álbuns mais famosos do Thin Lizzy, Jailbreak (1976) e Johnny the Fox (1977).

Rohl acabou sendo convidado para participar da mixagem depois do álbum pronto, já que a gravadora não havia gostado do que tinha ouvido. Quando o criador da Mandalaband ouviu o mesmo, ficou também bastante insatisfeito com o resultado final, tendo que remixar tudo novamente para conseguir recriar a potência e a atmosfera da versão original de "Om Mani Padme Hum", até que Mandalaband é lançado em outubro de 1975, com uma última mixagem que novamente deixou Rohl insatisfeito. Apesar disso, a versão oficial é uma Maravilha, conforme citado acima, sendo o preferido dos fãs e inclusive tendo rodado bastante no programa BBC Radio One. A versão demo acabou saindo oficialmente anos depois, como bônus do álbum Mandalaband I, na versão em CD que saiu no final dos anos 90. 

Capa (acima) e contra-capa (abaixo) de The Eye of Wendor: Prophecies,
destacando o bonito encarte do LP.

Depois de Mandalaband, o grupo acabou, com Vic, Dave, Ashley e John formando o grupo Sad Café, junto de Ian Wilson (guitarras). Por lá, Dave ficou pouco tempo, sendo substituído por Paul Young (futuro Mike & The Mechanics). De Dave nunca mais se ouviu falar durante muito tempo. Rohl acabou indo trabalhar junto ao Indigo Sound em Manchester, onde foi o responsável pela criação da trilha sonora da primeira versão do filme O Senhor dos Anéis, a qual também nunca foi lançada, por conta de não conseguir financiamento suficiente para concluir a obra. Porém, ela acabou sendo aproveitada no segundo álbum da Mandalaband, que demorou dois anos sendo gravado, e foi batizado The Eye of Wendor: Prophecies, um álbum que tem como conceito a principal obra de J. R. R. Tolkien, e que originalmente era para ter sido lançado no formato triplo, mas acabou saindo mesmo no formato simples em maio de 1978.

No registro, Rohl contou com a participação de diversos músicos, destacando Noel Redding, Justin Hayward, Kim Turner e Eric Stewart. É difícil fazer qualquer comparação com Mandalaband, já que as canções de The Eye of Wendor: Prophecies são mais curtas, e claro, como o tema é conceitual, encaixam-se formado uma interessante história, com momentos bastante atraentes, principalmente nas exóticas variações de "The Eye of Wendor", carregada de orquestrações e fortíssima candidata a melhor canção do LP, a potência dos metais de "Ride to the City" ou a hipnotizante viagem de "Dawn of a New Day", com a inconfundível voz de Justin Haywrd, ou o piano de "Aenord's Lament", e outros inesperados, como a dançante "Florian's Song", o andamento típicamente ABBA de "Silesandre", o insano saxofone da linda "Funeral of the King" O relançamento de The Eye of Wendor: Prophecies, agora como Mandalaband II, na década de 90, trouxe como bônus versões originais de três canções do álbum: "The Eye of Wendor", "Silesandre" e "Black Riders".

Nesse meio tempo, Rohl trabalhou arduamente como produtor, sendo seus principais trabalhos ao lado de Barclay James Harvest - Octoberon (1976),  Gone to Earth (1977), Live Tapes (1978), e XII (1978) - além de ser o responsável pelo surgimento do grupo Vega.

David Rohl e sua paixão pelo Egito Antigo

Nos anos 80, ele abandonou a música para voltar aos seus estudos sobre o Egito Antigo, concluindo o curso de Egiptologia em 1990, na University College London, e formando-se doutor em História Antiga na mesma Universidade em 1996. Uma das especialidades de Rohl eram as escavações, sendo que nesta área, ele trabalhou para o Instituto de Arqueologia de Londres em sítios da Síria e Egito. Rohl também trabalhou como apresentador de diversas séries de documentários sobre o Egito Antigo e escreveu diversos livros sobre o tema, ganhando o apelido de O Verdadeiro Indiana Jones.

Porém, a música sempre se fez presente na vida de Rohl. Em 2003, ele construiu seu próprio estúdio na Espanha, no alto de uma montanha na cidade de Kandovan, com uma linda vista para o mar Mediterrâneo. Por lá, entre fevereiro de 2007 e junho de 2009, ele fez o terceiro registro da Mandalaband, agora batizada Mandalaband III, trazendo a participação de Ashley Mulford novamente nas guitarras, além de Troy Donockley (Uilleann pipes, whistles, guitarras e bouzouki), Marc Atkinson (violões e voz), Jose Manuel Medina (teclados, violões e backing vocals), Sergio Garcia (violões), Kim Turner (bateria, percussão e bandolim), Craig Fletcher (baixo e backing vocals), Barbara & Briony Macanas (backing vocals), e  Woolly Wolstenholme (teclados e voz).

Retorno da Mandalaband nos anos 2000

Vale a pena ressaltar que Wooly e Turner também participaram da Mandalaband na década de 70, sendo parte dos diversos músicos que registraram The Eye of Wendor: Prophecies em 1978. Além disso, Wooly foi membro do grupo Barclay James Harvest a partir de 1978. Esse time lançou o terceiro registro, BC – Ancestors (2009), um álbum bastante voltado para a onda New Age, com pitadas fortes de rock progressivo, seguindo trabalhos de nomes como Enigma, Enya e Buddha Bar. A definição do álbum mostrada no encarte já antecipa: "Este é um álbum sem-vergonha de ser rock sinfônico, no qual pretendemos criar temas majestosos, melódicos, com toques da atmosfera e do ambiente Celta, ..., as orquestrações são complexas e ricas, com mínimas concessões para o padrão de quatro-peças de uma fórmula comum ao rock".

O álbum é conceitual, narrando os tempos antigos antes do nascimento de Cristo, contando sobre o nascimento das grandes civilizações desde o Éden, passando pelos sumérios, Assírios, babilônios, gregos, até chegar ao povo Egípcio. As canções que chamam a atenção dos ouvidos são aquelas com o trabalho de guitarra em destaque, no caso "Ancestors", "Nimrod", "Karum Kanesh" ou ainda a arrepiante orquestração do poema "Roots". No geral,  BC - Ancestors é uma grata experiência.

Último álbum da Mandalaband até o momento

Em 2010, a coletânea dupla Ressurection (2010) trouxe os dois primeiros álbuns da Mandalaband com uma nova mixagem e mais bônus. Pouco depois, quando as gravações do quarto álbum começaram a ser feitas, Wooly faleceu, em 10 de dezembro de 2010, quando suicidou-se após uma longa batalha contra problemas mentais.

AD – Sangreal é outro álbum conceitual, que chegou às lojas em junho de 2011,  totalmente dedicado à Woolly. Por suas canções, temos a história da lenda do Cálice Sagrado, com José de Arimatéia e sua sobrinha, Maria Madalena, carregando o sangue de cristo em um Cálice Sagrado de Israel para a Europa. A viagem de ambos é narrada através de quatorze faixas épicas, a maioria delas verdadeiros hinos musicais, mantendo o clima New Age de seu antecessor, e carregado nas orquestrações e corais. Os destaques ficam justamente pelo desenrolar da história, muito bem narrada, mostrando a chegada de Maria Madalena nas montanhas de Provence, a construção da primeira Igreja em nome de Jesus por José de Arimatéia, em Glastonbury, a conversão ao cristianismo de Linus, filho de Caradoc, rei de Gales e outros fatos importantes e enigmáticos se ocorreram ou não, já que musicalmente todo o álbum é bastante coeso, deixando como relevância a linda "Saracens", apimentada por magníficas linhas orientais.

A banda foi renomeada para Mandalaband IV e uma nova formação, agora com Alison Carter (backing vocals), Lynda Howard (backing vocals), Morten Vestergaard (baixo), Pablo Lato (baixo), e David Clements (baixo). Porém, a principal novidade vai para o retorno de Dave Durant ao posto de vocalista do grupo, aparecendo soberba e arrepiantemente na segunda parte de "The Kingdom of Aragon", com o mesmo vozeirão dos anos 70.

Mandalaband em 2009: Troy Donockley, Kim Turner, Jose Manuel Medina, Ashley Mulford, Barbara Macanas, Briony Macanas, Marc Atkinson, David Rohl e Simon Waggott.

A banda está atualmente em um processo de estagnação, mas provavelmente, quando menos esperar, um novo álbum trazendo as histórias de David Rohl poderá aparecer para os fãs se deleitarem, e quem sabe, uma Maraviha como "Om Mani Padme Hum".

sábado, 16 de agosto de 2014

Melhores de Todos os Tempos: 1981

Rush em 1981: Alex Lifeson, Neil Peart e Geddy Lee
Rush em 1981: Alex Lifeson, Neil Peart e Geddy Lee


Por Diogo Bizotto


Com André Kaminski, Bernardo Brum, Bruno Marise, Davi Pascale, Eudes Baima, Fernando Bueno, José Leonardo Aronna, Leonardo Castro, Mairon Machado e Ulisses Macedo


Participação especial de Flavio Pontes, redator do site Minuto HM


Algumas edições da série “Melhores de Todos os Tempos” acabaram, em função dos gostos pessoais dos participantes, focando com um tanto de excesso alguns gêneros musicais específicos e ignorando outros. Temos nossas opiniões e é normal que, mais que um panorama da música pop de cada ano, o resultado final de cada edição reflita, na verdade, um recorte que consiste naquilo que mais ouvimos e apreciamos. Apesar de ainda apresentar uma predominância do heavy metal, a lista referente a 1981 exibe uma variedade um pouco maior, ao menos em se tratando do que o rock oferecia na época. Exemplo disso é a primeira posição, ocupada por esse gigante hard/prog em processo de mutação que era o Rush. Além disso, há o então renovado King Crimson, colocando fim a um hiato de sete anos; o bem sucedido Journey e sua obra mais famosa, talvez o mais supremo clássico daquilo que se convencionou chamar de AOR; o surpreendente Kiss, fugindo de seu terreno mais confortável; o primeiro álbum do Mötley Crüe, plantando a semente de um novo subestilo; além do hardcore dos californianos do Black Flag. Sempre lembramos que o critério para elaborar a lista final, baseada nas individuais de cada colaborador e de nosso convidado, segue a pontuação do Campeonato Mundial de Fórmula 1. Convocamos os leitores a também registrar suas opiniões, sejam elas elogiosas ou críticas, além de enumerar seus álbuns favoritos lançados em 1981.

01 Moving Pictures


Rush – Moving Pictures (136 pontos)


André: O mais bem sucedido, mais famoso álbum do Rush e digno de muitos elogios. Disco recheado de clássicos do rock. Não há como não se animar logo na abertura com “Tom Sawyer”, contendo um dos mais belos trabalhos de guitarra de Lifeson unido aos teclados viajantes de Geddy Lee. Há também a bateria sempre em destaque de Peart em “Red Barchetta”, a instrumental “YYZ”, que serviu de inspiração para 95,48% das bandas de prog metal, a radiofônica “Limelight”, com um solo de guitarra cheio de feeling de Lifeson, e a tecladeira inicial de “The Camera Eye”, que já sinalizava o futuro dos próximos discos da banda nos anos 1980. Porém, ressalto que a arrastada “Witch Hunt” e a levemente regueira “Vital Signs” estão longe de serem músicas menos do que ótimas. É o meu disco preferido do Rush dessa época anterior à fase dos teclados, pouco antes do meu favoritíssimo Signals (1982).


Bernardo: Merecida música de abertura, “Tom Sawyer” é um classicaço absoluto, com frases de teclado que fornecem uma atmosfera e tanto para que um riff de guitarra marcante domine tudo. O resto do disco não me chamou muita atenção.


Bruno: Ao apagar das luzes dos anos 1970, o Rush já estava consolidado como um dos expoentes do hard/progressivo. Ao adentrar a nova década, muitas bandas – de prog, principalmente – acabaram se perdendo e não souberam lidar com as mudanças de mercado, público, tendências musicais e produção. Com Permanent Waves (1980), o trio canadense provou ser a exceção. Lee, Lifeson e Peart entenderam o que estava acontecendo na música pop e souberam absorver as novidades, sem perder sua identidade e musicalidade. Moving Pictures foi a consagração. As experimentações do disco anterior deram lugar a um hard pegajoso e rocks de arena, e o grupo trouxe o que talvez “faltasse” em Permanent Waves: hits. De uma tacada só, o disco apresenta os riffs memoráveis de “Limelight” e “Red Barchetta”, uma das músicas instrumentais mais cativantes do rock (“YYZ”) e o mega-sucesso “Tom Sawyer”. É uma pena que o lado B não seja tão arrebatador quanto o A, mas isso não compromete em nada a qualidade de Moving Pictures.


Davi: Meu disco favorito do Rush. Álbum simplesmente perfeito. Além do clássico “Tom Sawyer”, há a instrumental (e não menos clássica) “YYZ”, “Limelight”, “Red Barchetta”… Um som melhor do que o outro. Os caras encontraram a equação perfeita entre o pop e o rock, mantendo a veia progressiva. Belo disco!


Diogo: Meu disco favorito do Rush é Hemispheres (1978), mas Moving Pictures é a obra mais bem sucedida da banda com méritos. Afinal, um lado A que conta com “Tom Sawyer”, “Red Barchetta” (melhor música do disco e uma das melhores do trio), “YYZ” (mostra perfeita de como fazer o virtuosismo soar divertido, levantando plateias mesmo sendo instrumental) e “Limelight”, até dispensaria o lado B e mesmo assim mereceria menção nesta série. As três restantes, felizmente, também são ótimas músicas, fazendo com que Moving Pictures não se transforme em meu preferido do grupo por pequenos detalhes. Uma peculiaridade muito especial não apenas deste álbum, mas também do anterior, Permanent Waves, é o esforço proposital que Geddy, Alex e Neil fizeram para se adaptar às mudanças do cenário musical, ingressando em uma nova década com ânimo renovado e atraindo mais admiradores. E o melhor: isso não soou forçado, ao contrário do que ocorreu com tantos contemporâneos. Considero a primeira posição um pouco exagerada, mas não chega a incomodar.


Eudes: Bom disco do Rush, com a segunda melhor faixa de sua discografia, “YYZ”, o que, não bastasse a maior torcida organizada do rock, talvez garantisse lugar na lista. Mas, sinceramente, sigo sem ver nada de tão extraordinário na banda para merecer essse ardor só comparável ao da torcida do Santa Cruz (PE). “Tom Sawyer” é hard rock padrão; “Red Barchetta” emula o Genesis, sem o mesmo brilhantismo melódico; “Limelight” envereda pelo hard rock oitentista, o que talvez lhe confira a qualidade de pioneirismo; enquanto “The Camera Eye” é, sem contestação, um ótimo exercício progressivo, embora o ritmo meio quadrado atrapalhe um pouco. “Witch Hunt”, apesar dos exageros baterísticos, é um bom número, e “Vital Signs” é um rock rotineiro. Eu ouço numa boa, tem muitos bons momentos, mas, real e sinceramente, é mais um disco para eu ficar pensando no que a moçada vê de tão especial na banda.


Fernando: Na minha opinião, o topo da criatividade do Rush. Vários clássicos, como a “música do MacGyver” (“Tom Saywer”), que até Neil Peart fica feliz quando apresenta de maneira correta ao vivo, “Red Barchetta”, minha preferida da banda, e “YYZ”, a instrumental cheia de virtuosismo que ganhou diversos prêmios naquele ano. “Limelight” adiantaria o que o Rush fez durante a década de 1980. E o final com três faixas essenciais para quem conhece o grupo. Não foi meu escolhido como primeiro desse ano, mas poderia ser com certeza.


Flavio: Moving Pictures está merecidamente classificado como o primeiro da lista, embora eu não o tenha escolhido como tal. Os quatro primeiros que selecionei estariam bem neste lugar. O disco continua a regressão da fase “nerd progressivo” que o Rush vinha trazendo já timidamente desde Permanent Waves (o seguidor deHemispheres). Em Moving Pictures há uma leve, e ainda assim agradável aproximação a um lado mais acessível, influenciado pelas bandas New Wave da época, principalmente o The Police. A mistura é irresistível e trouxe ao grupo sucesso comercial, sendo seu álbum mais vendido até hoje. Independente do toque mais vendável, a qualidade do disco e da execução dos músicos é novamente irrepreensível. Contendo canções como a super conhecida “Tom Sawyer” e outros sucessos da época, como as ótimas “Red Barchetta” e “Limelight”, traz também a soberba instrumental “YYZ” e chega a brincar de reggae em “Vital Signs”. Ainda há a grande presença dos teclados com um timbre marcante em “The Camera Eye”, a mais longa, e a sombria “Witch Hunt”, a que menos gosto. Todos os discos dessa segunda fase do Rush (1977-1981) são merecedores de primeiros lugares em listas de melhores do rock. Moving Pictures é um deles, consagrado como clássico e um dos grandes influenciadores das bandas neoprogressivas, como o Dream Theater. Primeiro lugar aprovado com louvor.


José Leonardo: Clássico, épico, excelente. A síntese perfeita de “hard rocking riffs” e experimentação. Uma obra notável e para mim o canto do cisne da banda.


Leonardo: A obra prima do Rush. Até para quem não curte a banda, Moving Pictures é um disco obrigatório. Unindo o hard rock do início da carreira com os teclados e o approach mais acessível dos discos posteriores, a banda foi capaz de forjar um álbum com composições muito marcantes, que até hoje se fazem presentes em seus shows.


Mairon: Moving Pictures é um clássico, isso ninguém pode negar, e como todo clássico, merece aparecer na série “Melhores de Todos os Tempos”, ainda mais em um ano tão irregular quanto 1981. Esse adjetivo, “clássico”, aqui no Brasil se deve muito por conta de “Tom Sawyer” (quem viveu os anos 1980 jamais irá se esquecer da abertura do seriado “Profissão: Perigo”, do saudoso MacGyver), mas Moving Picturesestá muito além disso. Nele, o trio canadense conseguiu unir com precisão o rock progressivo com um som mais acessível, que iria predominar nos álbuns do grupo na década de 1980. Afinal, “Red Barchetta”, com os inesquecíveis harmônicos introdutórios, “Limelight”, este sim o verdadeiro grande sucesso do álbum no resto do mundo, e até o pseudo-reggae de “Vital Signs” são assimiladas por qualquer geração de ouvinte de música, e isso não é uma tarefa simples para a maioria das bandas. As letras de Peart deixaram de contar histórias mirabolantes e cheias de metáforas para tratar de questões pessoais, mais próximas ao povo, e isso também ajudou a fazer com que mais pessoas voltassem sua atenção para o Rush. Os grandes momentos deste álbum são a instrumental “YYZ” (o que Geddy Lee e Neil Peart fazem nessa canção é impossível de reproduzir) e a mini-suíte “The Camera Eye”, dividida em duas partes bastante distintas e com Lifeson sendo o personagem central, criando um dos riffs mais belos – bem como um majestoso solo – de sua carreira. Uma pena que, depois deMoving Pictures, o trabalho de Lifeson acabou ficando cada vez mais encoberto pelos teclados, limitando-o a pequenos e insignificantes solos, fato que começou a surgir neste álbum, através da sem graça “Witch Hunt”. Porém, isso não diminui em nada a nota deste discaço, que talvez seja o último do Rush a pintar por aqui até a década de 1990.


Ulisses: Óbvio e merecido campeão desse ano. Desde a clássica introdução com sintetizador no hit “Tom Sawyer” até o final com a subestimada regueira “Vital Signs”, o trio canadense fez a perfeita união de sua virtuosidade com um som acessível, sem diluí-lo; muito pelo contrário, aqui se vê bastante diversidade em apenas sete faixas. A experiência prog ainda pode ser vista em “The Camera Eye” (minha canção favorita do trio), mas faixas mais diretas, como a maravilhosa instrumental “YYZ” e a radiofônica “Limelight” (de letra absurdamente boa), são também merecedoras da atenção do ouvinte. Não importa quantos anos se passem, Moving Pictures possui um impacto tamanho que não se esvai com o tempo, e ao término de “Vital Signs” eu já me pego querendo ouvir tudo outra vez.

02 Mob Rules


Black Sabbath – Mob Rules (104 pontos)


André: Quando ouço este disco do Sabbath, sinto uma tristeza profunda pelo fato da união Iommi/Dio ter criado apenas quatro álbuns. Mob Rules é o Sabbath abraçando o heavy metal mais puro e clássico, com poucas das influências do blues de antigamente. Ainda não decidi se prefiro este ou o anterior com Dio. “Turn Up the Night” é o mestre riffeiro destroçando sua guitarra com um peso absurdo. “Voodoo” é aquele hard rock denso, cortesia do baixo com volume nas alturas de Geezer Butler. “The Sign of the Southern Cross”, com seu início calmo e acústico seguido depois pelos tradicionais riffs sabbáthicos me arrepia. “The Mob Rules” é Dio demonstrando por que ele é o melhor vocalista do heavy metal. Ele também expõe sua faceta mais calma em “Falling Off the Edge of the World” com a interpretação soberba de sempre. O meu vocabulário de elogios está acabando, assim, encerro novamente lamentando o fato de Mob Rulesfinalizar uma fase curta e brilhante do Sabbath após os egos de Dio e Iommi se inflarem, coisa que viria a ser superada (por um curto período) apenas uma década depois.


Bernardo: Abaixo do seu predecessor, o segundo álbum da banda com Ronnie James Dio, que teve pela primeira vez Vinny Apice na bateria, tem momentos hard rock rápidos e objetivos: “Turn Up the Night” e “The Mob Rules”, que talvez sejam um pouco “metal 80” demais para a banda que criou a cartilha de gerações de som, como uma tentativa de agradar um mercado que já não fazia muita questão da sonoridade antiga. Mas façamos justiça à grande faixa do álbum: “The Sign of the Southern Cross”, canção digna dos grandes momentos do Black Sabbath em matéria de peso e ambientação, pequena pérola de quase oito minutos que injustamente não é tão lembrada, talvez por estar presente em um álbum burocrático por demais.


Bruno: O Black Sabbath conseguiu se reerguer após a saída de Ozzy e entrou nos anos 1980 renovado, com Ronnie James Dio assumindo o microfone. A banda adaptou a sonoridade e o estilo de composição, conseguindo agradar os fãs e manter-se alinhado com a música pesada da época. Bem, como a fórmula deu certo, Iommi e cia resolveram mantê-la. E é assim que o disco soa: Um Heaven and Hell (1980) requentado. Temos aqui grandes momentos, com “Turn Up the Night”, o riff destruidor de “The Mob Rules” e a épica “The Sign of the Southern Cross”. Se Mob Rulesestivesse na discografia de qualquer banda menor, talvez fosse um grande destaque, mas, para o Sabbath, nem tanto. Apesar de ser um bom representante do gênero, não traz o mesmo brilho de seu antecessor.


Davi: Não o considero tão foda quanto Heaven and Hell, mas certamente é um belo disco. Como não poderia deixar de ser, os grandes destaques ficam por conta dos riffs de Tony Iommi e do trabalho vocal do saudoso Ronnie James Dio. Marcado pela estreia do (ótimo) baterista Vinny Appice, muitos fãs preferem este trabalho ao anterior por ter uma sonoridade mais densa, mais encorpada. Eu, entretanto, considero as composições do álbum de estreia de Dio na banda mais inspiradas. Faixas de destaque: “Sign of the Southern Cross”, “Country Girl” e “Mob Rules”.


Diogo: Poderia contar uma história gigantesca a respeito de Mob Rules, afinal, foi ele que, há 19 anos, tornou-se o responsável por acender a chama de meu interesse pela música, antes mesmo de eu sequer ter um aparelho para tocá-lo. Limito-me a afirmar que tive muitíssima sorte de iniciar esse caminho pelas mãos de caras como Tony Iommi e Ronnie James Dio, pessoas que, como poucas outras, seguem compondo a trilha sonora de minha vida. Hoje em dia até prefiro seu antecessor, Heaven and Hell, mas isso não diminui sua importância e sua qualidade. Inclusive, trata-se até de um álbum mais indicado àqueles habituados com o Black Sabbath da primeira metade dos anos 1970, mais pesado, agressivo e “cheio”, cortesia tanto da produção de Martin Birch, que deu mais corpo ao som da banda, especialmente ao baixo de Geezer Butler, quanto da execução e da composição, vide a quantidade de riffs ganchudos despejados por Iommi e a pegada forte do então novato baterista Vinny Appice. Não há música meia-boca no disco: mesmo a vinheta “E5150″, que introduz a excelente faixa-título, apresenta uma experiência sonora interessante. “The Sign of the Southern Cross” é uma bela representação daquilo que o Black Sabbath fazia de melhor ao lado de Dio, uma canção mais dinâmica que o habitual, com diferentes nuances e alternâncias de ritmo. Outra que também encaixa-se nessa descrição é a surpreendente “Falling Off the Edge of the World”, enquanto o riff pesado da magnífica “Country Girl” comunica com a simplicidade dos primórdios, mas sem parecer resgate. “Over and Over” finaliza Mob Rules da melhor forma possível, soando da maneira que as baladas do Black Sabbath devem soar: melancólicas, desesperançosas, como a anterior “Lonely Is the Word” (Heaven and Hell) e a posterior “Too Late” (Dehumanizer, 1992). Preciso comentar a respeito das performances de Iommi, Dio e Butler? Não, paro por aqui.


Eudes: Os convivas aqui sabem que não sou especialmente fã do estilo “tenor do heavy metal” de Dio, e considero estranhíssima sua voz à frente do Black Sabbath, ao ponto de achar que a banda se chamar Black Sabbath nessa fase é uma mera coincidência. Números oitentistas como “Turn Up the Night” pouco ou nada têm a ver com o estilo do grupo, embora seja uma boa faixa, na qual o solo de guitarra compensa o refrão enjoado. “Voodoo” de fato só remete ao Sabbath devido ao nome. É NWOBHM puro, rápida e chata. Mas não sou besta para não registrar que “The Sign of the Southern Cross” é uma das melhores músicas da banda, não por acaso, aquela em que voltam ao velho e bom estilo arrastado e com riffs trovejantes. Até Dio renuncia um pouco a seus agudos. Em “E5150″ parece que voltamos a Vol. 4 (1972), apenas para cairmos no rock bom, mas um tanto rotineiro da faixa-título. “Country Girl” e “Slipping Away” são boas mas previsíveis, enquanto “Falling Off the Edge of the World” é cortada por um excelente solo de Iommi meio fora do seu estilo e mais puxado para o sotaque blues. No fim das contas, depois do bom e inusual blues “Over and Over”, com Iommi voltando a mostrar quem manda ali, o disco está longe da glória sabbáthica mas é bem digno. Voltarei a ouvi-lo com mais frequência.


Fernando: Existem dúvidas sobre qual é o principal disco da era Dio no Sabbath. Eu não tenho dúvida nenhuma em falar que é Heaven and Hell. Sem querer desmerecer “The Sign of the Southern Cross”, “The Mob Rules” e “Country Girl”, mas as faixas deHeaven and Hell são mais fortes.


Flavio: Meu disco predileto de 1981 – cabeça a cabeça com os quatro primeiros que escolhi. Ao ouvir Mob Rules, percebo que, ao mesmo tempo em que a banda tentava manter o que funcionou em Heaven and Hell, ela explorava novos horizontes com maestria. Em similaridades com o anterior, há a música rápida que abre o disco: “Turn Up The Night”, a alternância com violões e guitarras bem pesadas em “The Sign of the Southern Cross”, e a finalização, com “Over and Over”, uma linda música lenta e melancólica, como “Lonely Is the Word”, de Heaven and Hell. Diferentemente do lançamento anterior, neste percebe-se um clima sombrio e uniforme durante todo o álbum; sim, Mob Rules chega a ser mais uniforme que Heaven and Hell, e um dos pontos-chave para que isso ocorra é o fato de algumas músicas emendarem-se, dando um tom de tema contínuo para o disco. A produção de Martin Birch, a despeito de seus problemas com drogas na época, é brilhante como o usual e enfatiza o peso, mantendo a guitarra em primeiro plano e ao mesmo tempo dando destaque para a cozinha. Talvez por isso, o trabalho de teclado de Geoff Nicholls, embora competente como sempre, é mais discreto, aparecendo com mais destaque na instrumental “E5150″, no início de “Falling Off the Edge of the World” e ainda mais sutilmente na maravilhosa “Over and Over” . Considero-o o auge da discografia de Ronnie James Dio no Sabbath – é um álbum para ouvir na íntegra, sem pontos negativos. Pode haver a escolha de uma música ou outra como preferida, mas o nível é mantido em sua totalidade. Tony Iommi mantém a alternância de sons pesados e toques sutis como em “The Sign of the Southern Cross”, na qual há uma introdução com violões e a seguir a cadência rítmica marcada de um clássico do heavy metal. Os riffs continuam inspirados, como em “Country Girl”, faixa que é constantemente tocada por Iommi nas passagens de som da banda em qualquer uma de suas formações desde então. É também impressionante notar, por exemplo, como a faixa-título foi feita tão rapidamente e sua importância para o gênero é tamanha, que diversos covers já foram feitos por um sem número de bandas de heavy metal, entre elas o Adrenaline Mob, cujo nome já é, por si só, uma referência à canção. Os vocais estão impecáveis, ainda mais agressivos, e Dio reafirma o estilo mais pesado e mantém a excelência e inspiração. Ao mesmo tempo, a melodia vocal está sempre presente e fácil perceber na belíssima “Over and Over” ou na introdução de “Falling Off the Edge of the World”, na qual há teclados com sons de violinos alinhados à guitarra de Iommi. A entrada de Vinny Appice também trouxe mais peso ao grupo – por ser um baterista mais vigoroso, mais alinhado com o heavy metal clássico, traz viradas marcantes, como em “Country Girl” e “Slipping Away”. Geezer Butler apresentou uma nova aula de como o baixo pode ser importante em um trabalho de heavy metal e o faz soar com sutileza e agressividade quando preciso, usando uma variedade de sons e efeitos que ajudam a produzir um clima sombrio, como em “E5150″. Não há como deixar de destacar o som do baixo em “Slipping Away”, quando em duelo com a guitarra de Iommi. Outro momento mágico do músico é a entrada de “Falling Off the Edge of the World”, algo de uma harmonia que pode ser simples e ao mesmo tempo genial. Infelizmente, o álbum não foi tão bem recebido e foi por muito tempo considerado ponto fraco da discografia, não obtendo o mesmo sucesso de Heaven and Hell. Hoje se percebe que o Black Sabbath fez um daqueles discos atemporais, que mantêm o frescor desde o lançamento e é cada vez mais reconhecido como o excelente álbum que é. Uma pena é também perceber que por rumores e picuinhas essa magnífica formação se dissolveu pela primeira vez no final da turnê para Mob Rules.


José Leonardo: Acho este disco tão bom quanto o anterior. A seleção de músicas é ótima, começando com a porrada de “Turn Up the Night”, além do macabro interlúdio instrumental “E5150″, que servia de introdução dos shows. Suas nove faixas trazem pérolas como “The Mob Rules” e a épica “The Sign of the Southern Cross”, isso sem falar de “Voodoo” e “Falling Off the Edge of the World”. “Country Girl” e “Slipping Away” mantêm o nível. Talvez a faixa mais fraca seja “Over and Over”. Dio, Iommi e Butler arrasando como sempre, e o batera Vinny Appice mostrando-se competente. Porém, já nessa época haviam começado discussões entre Iommi e Dio (ele sempre considerou Vinny Appice como seu único amigo na banda). Após o lançamento do duplo ao vivo Live Evil (1982), Dio saiu da banda (ou foi demitido?), levando Vinny consigo para formar seu próprio grupo.


Leonardo: Dando sequência ao que havia iniciado em Heaven and Hell, o Black Sabbath retornou com um disco fortíssimo, repleto de composições inspiradas. Pode não ter tido o impacto do antecessor, mas manteve o nível muito alto. A banda soava ainda mais refinada, com riffs mais épicos, como em “The Sign of the Southern Cross” e “Falling Off the Edge of the World”, e o vocal sempre magnífico de Ronnie James Dio.


Mairon: A sequência do trabalho de Ronnie James Dio com o Black Sabbath trouxe como novidade o baterista Vinny Appice, irmão do talentosíssimo Carmine Appice, mas a sonoridade continuou a mesma, ou seja, impecável. Apesar das experimentações de “E5150″, o disco é um irmão caçula com fortes influências do irmão mais velho, já que podemos encontrar diversas semelhanças entre eles: a velocidade de “The Mob Rules” (com “Neon Knights”), o andamento arrastado de “Voodoo” (com “Walk Away”), os dedilhados de “Country Girl” (“Lonely is the World”), as linhas dançantes de “Turn Up the Night” (com “Wishing Well”), ou até a viajante “The Sign of the Southern Cross”, que lembra “Heaven and Hell”. “Slipping Away” destoa entre os dois discos, com um riff de baixo e guitarra e uma cadência de bateria que mais parecem saídos de discos do Led Zeppelin, apesar da voz sempre marcante do baixinho, assim como a balada “Over and Over”, que acaba sendo desnecessária, já que ela surge após a cavalice sonora chamada “Falling Off the Edge of the World”, que compara-se com a cavalice de “Die Young”, sendo uma das minhas preferidas na discografia do Sabbath com Dio (atrás de “Die Young” e na frente de “I”, de Dehumanizer, em meu top 3). Apesar de “Over and Over” não me agradar tanto, Mob Rules é um disco fantástico, e que bom que os colegas consultores pensam o mesmo.


Ulisses: Aproveitando o sucesso de Heaven and Hell, o Sabbath arriscou pouco em seu sucessor, mantendo a maior parte da estrutura: “Turn Up the Night” é a “Neon Knights” desse registro, e “Over e Over” tem como objetivo fechá-lo de forma semelhante à calma e melancólica (mas não menos impactante) “Lonely Is the Word”. O quarteto soa um pouco mais sombrio aqui, entretanto, do que em seu predecessor, como vemos na violência da faixa-título, mas destaco os incríveis épicos de título grandinho, a saber: “The Sign of the Southern Cross” e “Falling Off the Edge of the World”, ambas com a sempre magistral interpretação de Dio e com o peso costumeiro da dupla Iommi e Butler, aliados ao competente Vinny Appice na bateria. Quem gostou de Heaven and Hell não tem nenhum motivo para deixar Mob Rules de lado.

03 Killers


Iron Maiden – Killers (102 pontos)


André: Bem melhor que seu antecessor, Killers demonstra uma evolução bem maior na sonoridade do Maiden com relação às composições. Apesar de eu gostar muito de Dennis Stratton, principalmente em seus trabalhos no Praying Mantis, a entrada de Adrian Smith foi fundamental para a banda aumentar ainda mais a sua relevância e pavimentar um caminho para um estouro mundial que já dava sinais de que viria acontecer muito em breve. “Wrathchild” se tornou um hino ao vivo, tocada até hoje. “Murders in the Rue Morgue” apresenta o melhor vocal de Di’Anno no Iron Maiden. Ainda posso destacar como ótimas as canções “Innocent Exile” e seu baixo galopante e “Prodigal Son”, uma das primeiras músicas com aquelas pitadas mais progressivas que o Maiden gosta de colocar e que não fica deslocada no disco, embora seja muito diferente das demais. Considero as outras faixas boas ou medianas (as duas instrumentais), sendo o álbum bastante linear e sem pontos baixos. É um Maiden bom de ouvir, mas a banda que me faria babar em vários discos é aquela que tem um certo Mr. Air Raid Siren à frente dos microfones.


Bernardo: “Wrathchild”, “Murders in the Rue Morgue” e “Purgatory”, os três grandes clássicos do álbum, repetem o que o disco anterior fazia: unindo melodia, peso e rapidez com uma temática fantástica e consolidando a fama daquele grupo que, no ano seguinte, se tornaria a cara do metal oitentista com a entrada de Bruce Dickinson. Adrian Smith deu praticamente o toque final do que seria a fórmula que a banda repetiria exaustivamente.


Bruno: Gosto bastante da fase Di’Anno no Iron Maiden, mas confesso que, diferentemente do disco de estreia, Killers não empolga tanto. A produção é bastante superior, destacando bem todos os instrumentos, e a entrada de Adrian Smith dá um reforço nas guitarras, mas, no geral, as composições parecem ser mais fracas. Claro que “Wrathchild”, “Murders in the Rue Morgue” e a faixa-título são clássicos da donzela, mas, tirando isso, o disco é um pouco cansativo.


Davi: Depois de uma ótima estreia, os caras mantiveram o nível em seu segundo LP. Difícil escolher um preferido, para dizer a verdade. Paul Di’Anno tinha uma voz bem legal e as composições eram ótimas. Este e o Live + One (1980), que eu tinha gravado em fita cassete, marcaram minha infância (ao lado de vários discos da fase Bruce, é claro). Além da faixa-título e da clássica “Wratchild”, uma que rolava sempre em meu toca-disco era “Murders in the Rue Morgue”. Bons tempos.


Diogo: Esse é o Iron Maiden que até mesmo muita gente que não gosta daquilo que a banda se tornou pode curtir. Garra, agressividade, sangue no olho… Tudo em doses cavalares, derramando-se sobre as excelentes composições que formam aquele que julgo ser o melhor disco do grupo liderado por Steve Harris, que assumiu como nunca o papel de chefe e ditou o rumo de todas as canções com muito êxito. Bruce Dickinson pode ter colocado a banda no caminho do sucesso, mas Paul Di’Anno emprestou um senso de perigo, excitação e malandragem às faixas de uma maneira que o cantor piloto jamais conseguiu, tanto é que não gosto de vê-las executadas ao vivo por ele, mesmo sendo fã incondicional de músicas como a raivosa “Wrathchild”, a rápida “Murders in the Rue Morgue” (que cada vez mais tem se revelado entre as favoritas de muitos fãs) e a porrada que é “Purgatory”. Harris, além de grande compositor, demonstrou como em poucos outros momentos o porquê de ser um baixista tão respeitado, tanto trabalhando como condutor da locomotiva sonora que era o Iron Maiden, vide a faixa-título, quanto em momentos solados ou quase isso, como na introdução de “Innocent Exile” (dona de malícia incomum para a banda) e no acompanhamento das guitarras na instrumental “Genghis Khan”. Aliás, falando em instrumentais, nunca é demais lembrar quão grande foi o impacto de dar o play pela primeira vez em Killers e me deparar com a introdução “The Ides of March”, desde então padrão a ser batido quando o assunto é iniciar um disco em alta. Não posso deixar de citar também a balada “Prodigal Son”, uma das músicas mais incomuns e ao mesmo tempo surpreendentes na extensa discografia do grupo, que prosseguiu por muitos álbuns com qualidade em alta, mas jamais no mesmo nível de Killers, minha escolha para ocupar o posto mais alto em 1981.


Eudes: Ótimo exemplar do estilo meio virtuoso (se bem que uma virtuosidade para adolescentes… Mas rock é sobre isso, né?), meio brega, meio prog dos primeiros e simpáticos álbuns do Iron Maiden. A faixa de abertura é uma síntese disso tudo. “Wratchild” já é bem oitentista e cinzenta, pouco distinguível. Mas “Murders in the Rue Morgue” é uma ótima volta aos temas do primeiro disco, assim como “Genghis Khan” e “Prodigal Son”, com a incorporação de violões na versão comemorativa do disco. Bacana, melhor do que o que veio depois. Di’Anno era um vocalista com mais recursos e mais testado nos pubs.


Fernando: O Iron Maiden, mesmo com apenas um disco, já era o líder da NWOBHM. Com Killers eles deram uma volta nos outros concorrentes. Não há sequer uma faixa que eu possa dizer dispensável. Minha preferida é “Murders in the Rue Morgue”, talvez pelo simples motivo de que ela me parece esquecida por grande parte do público. A instrumental “Genghis Khan” tem uma sonoridade tão atual que parece que é recriada a cada dia por diversas bandas que tentam fazer com que a melodia seja um das características principais de sua música. Clássico indiscutível!!!!


Flavio: Killers é às vezes identificado como um disco menor na primeira fase da banda (até Seventh Son of a Seventh Son, de 1988), pois está espremido entre a homônima estreia e o consagradíssimo The Number of the Beast (1982). A comparação com o primeiro é inevitável, já que a banda mantém praticamente a mesma formação, de novidade há apenas a entrada do guitarrista Adrian Smith, que não participa das composições, em substituição a Dennis Stratton. Vejo que o Iron Maiden evoluiu em relação ao primeiro na produção: este é o primeiro disco de uma série produzida pelo excelente Martin Birch; mas há uma levíssima queda em termos de nível das composições. Iron Maiden (1980) traz mais clássicos que este, como “Prowler”, “Phantom of the Opera”, “Iron Maiden”, “Remember Tomorrow” e “Running Free”, enquanto neste aquela que talvez tenha mais permanecido nos setlists da banda seja a curtíssima e pesada “Wratchild”, segunda do disco, que sucede uma das raras instrumentais da banda, “The Ides of March”. Independente da comparação com o primeiro, o Iron apresenta ótimas canções. A faixa-título também é um bom destaque. O tom do álbum é a rapidez, que está mantida em quase todas as faixas, como “Purgatory”, que traz Paul Di’Anno também em ótima fase, usando muito bem, inclusive, o seu falsete, sem exageros. A dupla de guitarras mantém e evolução nas harmonias dobradas, como em “Another Life” e “Murders in the Rue Morgue”, e ambos apresentam solos bem criativos, como em “Drifter” e “Innocente Exile”. Mas o destaque do disco é a cozinha, mais particularmente o baixo de Harris. Embora o baterista Clive Burr esteja exuberante em seu estilo direto e rápido em praticamente todo álbum, o baixista destaca-se em quase todas as músicas e é o dono do disco, aliás, em Killers justifica mais do que nunca ser o dono da banda. Compondo todas as canções, traz frases geniais de baixo, como em “Innocent Exile”, “Genghis Khan”, “Drifter”, “Killers”, enfim, no álbum todo. Ainda há a semiacústica “Prodigal Son”, a maior em duração, que novamente traz a banda bem afiada, um solo majestoso e um trabalho de baixo impecável. Trata-se da canção mais variada do disco e minha predileta. Enfim, Killers é um ótimo álbum, que não desaponta nenhum dos adeptos de um bom heavy metal.


José Leonardo: O segundo álbum da banda, lançado um ano após o clássico Iron Maiden, ficou marcado pela entrada de Adrian Smith, o guitarrista que daria, ainda mais, uma personalidade muito própria e única ao grupo. Não se pode dizer concretamente que Killers é um álbum melhor que o seu antecessor, mas nota-se claramente uma evolução no sentido de criar músicas mais técnicas e trabalhadas, seja a nível de bateria, baixo, vocal ou mesmo nas guitarras. “The Ides of March” é uma instrumental curta que serve de introdução à excelente e mítica “Wrathchild”, uma canção espetacular na qual Paul Di’Anno apresenta um excelente trabalho vocal. “Murders in the Rue Morgue” é das melhores músicas da banda, com um refrão viciante e riffs espetaculares. Segue-se a brutal “Another Life”. “Genghis Khan” é instrumental e, como ficou demonstrado em “Transylvania”, do primeiro álbum, temos nela outra faixa simplesmente genial, com um trabalho de bateria, baixo e guitarras fenomenal. “Innocent Exile” é mais “calma”, mas igualmente muito boa, acelerando mais para o fim, contando com um solo que acompanha de igual forma a qualidade da música. Depois segue-se “Killers”, uma das melhores produzidas no tempo de Di’Anno. “Prodigal Son” é uma espécie de balada e é fenomenal. O álbum encerra-se com duas faixas demolidoras: “Purgatory” e “Drifter”, que são rápidas, com um ritmo explosivo e ao mesmo tempo melódico, como só Maiden sabe fazer. Traduzir em palavras a qualidade das músicas deste disco é díficil. Riffs matadores, solos alucinantes e letras interessantes. Terminam com beleza um verdadeiro clássico do heavy metal, recheado de hinos da banda.


Leonardo: Logo de cara, temos umas das melhores capas da banda e da história do heavy metal. E a música contida no LP não decepciona. Heavy metal rápido, energético, com um trabalho de guitarras ainda melhor que o do disco anterior, cortesia do então estreante na banda, Mr. Adrian Smith. Com Killers, o Iron Maiden deixou para trás todos os seus concorrentes da NWOBHM e se estabeleceu como uma das maiores bandas de heavy metal do mundo.


Mairon: Nunca consegui decidir qual dos dois primeiros discos do Iron Maiden é o meu favorito, mas o fato é que Killers está no meu top 3 da banda, e creio que ainda na frente de Iron Maiden por conta da entrada do melhor guitarrista que o Iron já teve (e um compositor de mão cheia), Adrian Smith, apesar de não ter tantos clássicos quanto seu antecessor. Di’Anno para mim sempre foi e sempre será a voz do Iron Maiden, por mais que o incensado Bruce Dickinson tenha marcado essa posição anos depois, mas somente Di’Anno consegue cativar nas interpretações para a pancada da faixa-título, a veloz “Purgatory” (exalando as inspirações punk que também fizeram parte da vida do Iron Maiden), “Murders in the Rue Morgue” (com uma introdução fantástica e Steve Harris mostrando os dedilhados que o consagraram como um dos maiores baixistas de sua geração), “Innocent Exile” (essa eu nunca vi Dickinson cantar, mas duvido que ele consiga, e que variação de ritmo na sua parte central), e na melhor canção do álbum, “Prodigal Son”, mostrando as influências de Thin Lizzy, Wishbone Ash, UFO e Rush – início de carreira – que tão importantes foram para a formação do Iron Maiden. Ainda temos duas lindas instrumentais, “Genghis Khan”, com Harris solando junto aos dois guitarristas, e “The Ides of March”, que abre o álbum acompanhada da clássica “Wratchild”, outra que somente Di’Anno consegue cantar, além de Clive Burr dando seu espetáculo particular na introdução da ótima (e esquecida) “Another Life”, e também a dançante “Drifter”. Era a NWOBHM a todo vapor, com as influências do punk rock, as guitarras gêmeas, o baixo cavalgando pela sala e a diversão garantida. Se o Iron virou o que é hoje é por conta das raízes fortes que se agarraram na Terra durante seus dois primeiros anos, infelizmente menosprezados por muitos xiitas que só reconhecem na fase pós Di’Anno o verdadeiro Maiden. Não entrou na minha lista final por detalhe, mas é totalmente merecedor de estar por aqui.


Ulisses: É notável a diferença que a entrada de Adrian Smith e a produção do aclamado Martin Birch fizeram na sequência ao homônimo do Iron Maiden – um verdadeiro upgrade, embora ainda não tão grande quanto o da entrada de Dickinson nos discos posteriores. A sonoridade mais polida dá ainda mais espaço para Harris, e ele se esbanja em petardos como “Wrathchild”. Já Smith e Murray uniram-se em uma das mais conhecidas duplas de guitarristas da música pesada, duelando em momentos insanos já na abertura com “The Ides of March”. Além disso, o disco figura com pérolas mais subestimadas na discografia geral do Maiden, como “Another Life” e “Innocent Exile”.

04 Diary of a Madman
Ozzy Osbourne – Diary of a Madman (86 pontos)
André: Bem melhor que seu antecessor e o registro definitivo de Randy Rhoads antes de deixar este mundo. É nele que Ozzy demonstra todo o seu bom gosto por composições simples e agradáveis. “Flying High Again” é um hard rock bem tocado, com um baita solo de Rhoads e cheio daquelas rimas sacanas que bandas como o Kiss usam bem. “You Can’t Kill Rock and Roll” é uma declaração de amor de Ozzy ao estilo que o consagrou, com mais uma grande interpretação do vocalista sabbáthico. É lamentável que Ozzy não inclua “Little Dolls” em seus setlists, uma canção bastante injustiçada e esquecida pelo próprio. “Tonight” tem uma linha de baixo muito agradável, junto aos efeitos de teclado que dão uma atmosfera viajante a essa semibalada. É um disco com a cara de Ozzy e a comprovação de que ele sabia o que fazer, mesmo com os seus conhecidos problemas com as drogas e o alcoolismo.
Bernardo: O disco não é ruim, mas pela sua capacidade, Randy Rhoads merecia um canto do cisne melhor que este disco. “Over the Mountain” e “Flying High Again” são músicas fáceis, sem firulas e acessíveis, e “You Can’t Kill Rock and Roll” tem um belo refrão, apesar de não considerar sua extensão justificada. A melhor do álbum é “Diary of a Madman”, com passagens sombrias, viradas e riffs pesados e técnicos que demonstravam a proficiência de Rhoads. De resto o disco é bem pouco marcante – apesar de Ozzy bem tentar na cheia de pompa porém insossa “Tonight”.
Bruno: Após encontrar Randy Rhoads e renascer das cinzas com Blizzard of Ozz(1980), no ano seguinte Ozzy manteve a mesma pegada e lançou seu segundo disco, o melhor de toda sua carreira. Dessa vez com uma produção de primeira, deixando todos os instrumentos em evidência e composições mais bem trabalhadas, apesar de terem sido feitas praticamente durante a turnê do álbum anterior. A banda se mostra mais entrosada, e Rhoads mais à vontade. Só a sequência “Over the Mountain”, “Flying High Again” e “You Can’t Kill Rock and Roll” já valeriam o disco, mas ainda temos a power ballad “Tonight”, com um dos melhores solos de Randy, e a brilhante faixa-título. Infelizmente, foi o canto de cisne do talentosíssimo guitarrista, que morreria um ano depois em  um acidente estúpido de avião, aos 25 anos.
Davi: Adoro essa etapa inicial da carreira solo do Madman. Os álbuns da fase Randy Rhoads e da fase Jake E. Lee sempre foram meus preferidos. Este segundo disco é tão bom quanto Blizzard of Ozz. Álbum extremamente empolgante com mais um ótimo trabalho de guitarra de Rhoads (o solo do hino “Flying High Again” é animal), além de linhas vocais extremamente cativantes. Canções de destaque: “Over the Mountain”, “Believer” e “S.A.T.O.”.
Diogo: Escolher meu favorito entre Blizzard of Ozz e Diary of a Madman sempre foi uma tarefa bastante difícil. Em outra época, minha decisão normalmente recairia sobre o primeiro, que, a princípio, contém uma quantidade maior daquilo que se costuma chamar de “clássico”. Nos últimos tempos, porém, essa lógica tem se invertido. Além de ser melhor produzido, Diary of a Madman impressiona pela performance de todos os músicos, que talvez apresentem neste álbum suas melhores atuações das quais tenho notícia. Não é novidade para ninguém que tenha um mínimo de neurônios que Randy Rhoads era um guitarrista excepcional, mas o fato é que o baixista Bob Daisley (um dos meus favoritos, diga-se) e o baterista Lee Kerslake também se superaram. Ouçam “S.A.T.O.” e a faixa-título e comprovem o que estou dizendo. A faixa-título, aliás, ficou como um testamento daquilo que essa formação ainda poderia render caso Randy não tivesse morrido um ano depois e Ozzy não tivesse se indisposto com Daisley e Kerslake. Uma canção desafiadora, pouco previsível, alternando as nuances da loucura de seu protagonista. Todas as outras canções também são dignas de efusivos elogios, mas destaco ainda o belíssimo cartão de visitas que é “Over the Mountain”, minha provável favorita, a balada “You Can’t Kill Rock and Roll” e a cadenciada “Believer”. Foi por pouco, mas o duelo particular entre Ozzy e sua ex-banda, o Black Sabbath, foi vencido em 1981 pelo vocalista. Não foi à toa: Diary of a Madman é seu melhor disco.
Eudes: E Ozzie seguia rindo de si mesmo e fazendo os discos mais divertidos da história do hard rock. A capa já é uma pândega e um aviso para ninguém vir com conversa séria sobre o capeta. O que dizer de um álbum que começa com “Over the Mountain”, passa por “S.A.T.O.” e termina com o guitarrista errando a sequência de abertura na faixa-título? Bacana demais. Injustiça! Ozzie na cabeça, já!
Fernando: Muitos acharam que o disco de estreia de sua carreira solo havia sido um golpe de sorte. Diary of a Madman derruba essas opiniões, mesmo sendo um pouco inferior. Pena que seja o canto do cisne da carreira de um dos guitarristas mais promissores de sua época.
Flavio: Diary of a Madman traz a mesma formação do anterior, apesar de mostrar nos créditos da contracapa  Rudy Sarzo e Tommy Aldridge compondo a cozinha. Na realidade, quem executa a gravação é a dupla Bob Daisley/Lee Kerslake. Este disco não apresenta músicas tão conhecidas como a estreia, mas acho-o superior a Blizzard of Ozz. Ozzy interpretou muito bem todas as canções e estava em grande fase como cantor, mas não tenho como deixar de destacar o resto da banda, que eram os maiores contribuintes como compositores, a quem o crédito deve sobressair. A pauleira começa com a excelente “Over the Mountain”, com um solo sensacional do gênio Randy Rhoads.  Destacá-lo neste disco é obviedade, mas ele não está sozinho:  Daisley e Kerslake também estão geniais, montando uma base criativa em todo o registro. Vale ressaltar o trabalho de baixo e bateria em vários momentos, como no andamento de “Flying High Again” (principalmente Kerslake) e no fim da linda “You Can’t Kill Rock and Roll”, na qual o solo de Rhoads também é tão perfeito que nos faz aumentar o volume e torcer para que ele não acabe nunca. Outros solos de destaque são encontrados em “Believer”, também sustentado por um baixo bem grave e forte, e na própria “Flying High Again”. O que dizer da bela linha de baixo de “Tonight”? Outra balada com destaque, que novamente nos faz querer que o solo de guitarra no fim não acabe nunca. Repito-me e destaco novamente a linha de baixo no refrão de “S.A.T.O.”, na qual os teclados trazem efeitos muito interessantes, de ótimo gosto. Aliás, os teclados de Don Airey estão novamente ótimos. Considero a faixa-título a melhor do disco, na qual o tom clássico/gótico faz sobressair um ar de mistério que normalmente é associado a Ozzy. Nesta música, tudo é destaque. Bateria muito bem executada, Ozzy cantando soberbamente… Os arranjos de cordas são sensacionais, com bateria em ritmo em marcha e um dedilhado de guitarra, que leva a um solo com uma escala não ortodoxa, que encaixa com os violinos que sublinham a canção até que o coro refaça a introdução, no fim épico da música e do álbum. Trata-se de um daqueles discos não tão reconhecidos que poderiam ser primeiro lugar de qualquer boa lista de rock.
José Leonardo: Este disco é tão bom quanto o anterior, apesar de não ser tão comentado por aí. Ótimos temas, riffs e solos fantásticos, além de uma e cozinha precisa e certeira. Destaques para “Over the Mountain”, “You Can’t Kill Rock and Roll”, “Believer” e a balada “Tonight”. Após a gravação, Lee Kerlsake e Bob Daisley foram despedidos da banda, pois reclamavam de direitos autorais e porcentagens financeiras. Após uma pausa na turnê, um bizarro acidente pôs fim ao genial Randy Rhoads, fato que abalaria Ozzy por muito tempo.
Leonardo: Mais um show de Randy Rhoads! Desde a abertura com “Over the Mountain”, que tem um dos melhores riffs da carreira de Ozzy, até o encerramento com a épica e intrincada faixa-título, Diary of a Madman mostra mais uma vez todo o talento do jovem guitarrista. Não o considero tão forte quanto seu antecessor, mas o disco é repleto de ótimos momentos. E até onde chegaria Rhoads se não fosse o acidente…?
Mairon: O segundo disco solo do Madman não me empolga tanto quanto seu antecessor, apesar da performance magnífica do guitarrista Randy Rhoads, que dá um show na introdução da faixa-título, da lindinha “Tonight” e dos petardos “S.A.T.O.”, “Over the Mountain” e “Believer”, canção injustiçadíssima, que com o passar dos anos vem ganhando mais e mais posições nas minhas preferidas da carreira solo de Ozzy. Claro que ainda é o Ozzy Osbourne nos vocais e em nenhum momento você fica decepcionado com o que ouve, mas com tantos lançamentos distintos em 1981, mais um disco de METÁU na lista final não me faz sentido, ainda mais que não temos nada de revolucionário nele.
Ulisses: Diary of a Madman não consegue superar seu antecessor, apesar de soar um pouco mais consistente. É um bom álbum, mas não vejo muito que impressione além, é claro, da performance de Rhoads – o que eu mais gosto nele é da faixa “S.A.T.O.”.

05 Discipline
King Crimson – Discipline (54 pontos)
André: Conheço pouco de King Crimson. Conheci pelo álbum Thrak (1995) e por isso meu interesse pela banda nunca foi grande. Então vim com poucas expectativas com relação a este disco. Mas ele é bom. Diferente do prog setentista, a banda abusa bastante dos sintetizadores, dando um clima bem anos 1980, algo que foi muito comum para as bandas da década. Porém, ao invés de amenizar o som, dando um toque pop como muitas fizeram, Discipline é bastante experimental e não muito fácil de ouvir sem estar com os ouvidos acostumados ao prog. Gostei bastante de “Matte Kudasai”, até porque eu tenho uma queda por guitarras com slide. Talvez eu demore um pouco para absorver todas as viagens que “Indiscipline” apresenta, mas confesso que fiquei embasbacado pela bateria de Bill Bruford nessa canção, ao contrário de “Discipline”, que é o seu oposto e bem mais linear. No mais, muitas quebras de ritmo, vocais entrando quando menos se espera, muitos solos de guitarra de Fripp em uma salada de efeitos que só os proggers realmente apreciarão. Quero destacar ainda o excelente trabalho de baixo de Tony Levin, sempre muito seguro em todo o disco.
Bernardo: Não é meu tipo de música, e bem, a época deles já havia passado. Essas bandas de progressivo tocando New Wave é meio “tiozão querendo se enturmar com a garotada” demais para o meu gosto.
Bruno: A grande maioria das bandas de rock progressivo teve uma decadência gigantesca durantes os anos 1980. O gênero já dava alguns sinais de cansaço desde meados dos anos 1970, e quando a nova década chegou, poucos grupos souberam se adaptar às novas tendências do rock e do pop. O King Crimson foi um deles.Discipline marcou o renascimento do grupo de Robert Fripp, com um pop bastante sofisticado.  Mesmo assim, está longe de ser um dos meus preferidos.
Davi: Está aí uma banda que é super cultuada, mas nunca conseguiu me cativar. Peguei o disco para ouvir e, mais uma vez, achei sem graça. Não nego a qualidade artística deles, nem o nível dos músicos envolvidos, que é certamente fantástico, mas ainda não foi desta vez que me chamaram a atenção. Sorry!
Diogo: Discipline é um caso interessantíssimo. Por um lado, recebe o desprezo de quem não aceitou a mudança da sonoridade protagonizada pela trupe de Robert Fripp em seu retorno à atividade, afastado das tendências progressivas setentistas. Pelo outro lado, é incompreendido por muitos que os enxergaram como dinossauros querendo se adaptar à nova realidade musical sem sucesso. Felizes são aqueles que conseguiram enxergar a genialidade deste que é um dos registros definitivos do King Crimson e podem apreciar suas sete faixas sem desqualificá-las com base em opiniões pré-concebidas. Por mais que Fripp, Bill Bruford, Tony Levin e Adrian Belew tenham absorvido influências daquilo que os rodeava naquele início de década, o quarteto traçou seu próprio caminho e soube trilhá-lo com identidade ímpar, fazendo com que os malabarismos musicais de canções como as ótimas “Elephant Talk”, “Frame By Frame” e “Discipline”, além das tresloucadas “Indiscipline” e “Thela Hun Ginjeet”, soem diferentes de tudo que o grupo já havia feito, mas ainda assim apresentem o sentimento desafiador que o King Crimson sempre carregara até então. A única relação verdadeiramente mais forte com o passado aparece através de “The Sheltering Sky”, que tem toda a pinta de “paisagem sonora” à moda Fripp. Por  mais estranho que possa parecer, “Matte Kudasai” é uma espécie de balada e funcionou magnificamente como tal, referendando a bela decisão de retomar a banda. O Rush que me desculpe, mas entre os discos com alguma relação com o progressivo feitos em 1981, quem se deu melhor mesmo, ao menos musicalmente, foi o King Crimson.
Eudes: Sem dúvida, se ficarmos só no mainstream, o melhor disco de 1981. Só a bateria de “Frame by Frame” já come um exército de brutamontes batedores de tambor do rock oitentista. Mas o que leva a coisa pra frente são as fusões de melodias inusitadas e harmonias improváveis de Robert Fripp, agora secundado pela extraordinária sutileza guitarrística de Adrian Belew. “Matte Kudasai” está entra as melhores baladas (balada?) da carreira da banda, enquanto “Indiscipline” não é para gente que lida com lógica formal… Uma quebradeira generalizada, embora sob controle: viagem frippertrônica, bases pesadas e cozinha de baque solto. Se fosse um single, vou exagerar, já seria o disco do ano! E o que dizer da beleza celestial de “The Sheltering Sky”, com Fripp mostrando que só Jimmy Page pode concorrer com ele no item timbragem, mas tudo a serviço de uma linda e evanescente melodia orientalista? Alguém me perguntou por que eu que sempre reclamo da repetição de bandas nas listas: escolhi o King Crimson de novo. E eu respondo: porque, acredite, antes de 1981, você nunca tinha ouvido esta banda! Fripp se reinventando infinitamente. Camaleão mesmo é o velho Bob!
Fernando: Último disco que podemos chamar de “bom” do King Crimson. “Elephant Talk” é o ponto alto. Pena que depois disto a carreira do grupo ficaria bastante instável, mesmo que produzindo coisas legais.
Flavio: De todos a analisar, foi o álbum mais complicado. Precisei entender como o som deste disco era realizado e fui pesquisar. Na década de 1980 criou-se uma nova formação do King Crimson, retornando de uma parada de aproximadamente sete anos, com estrutura modificada com a adição de um novo guitarrista e sem tecladistas. Os quatro membros da banda realizam complexas misturas que preenchem as canções além dos quatro elementos musicais. O “baixista” Tony Levin utiliza por muitas vezes o chapman stick, que tem dez cordas e, além de realizar a função de baixo, ao mesmo tempo traz acordes mais agudos, como uma terceira guitarra (base). Robert Fripp utiliza guitarra sintetizada, uma novidade para a época. Bill Bruford usa uma bateria não ortodoxa, com tom-tons eletrônicos e pequenos tambores realizando o papel do contratempo. E o segundo guitarrista, Adrian Belew, utiliza muitos efeitos para criar ruídos e simular sons de animais, além de cantar ou às vezes apenas recitar a letra. Com ênfase em “loops” de guitarra frequentemente criados por gravações de Frip em dois “tape recorders” defasados em tempo (delay), o som do disco aproxima-se do que seria chamada de música eletrônica anos à frente, além de também se enquadrar em uma espécie de música experimental, com toques de New Wave (acordes da guitarra de Belew). As músicas mais consagradas são “Elephant Talk”, “Discipline” e “Indiscipline”, todas reproduzidas ao vivo em turnês subsequentes para promover o álbum. Outra canção  a destacar é “Frame by Frame”, que, além dos elementos descritos, traz um vocal mais melodioso, sendo aquela com a qual mais me identifiquei. “Matte Kudasai” apresenta uma cadência mais tradicional e lenta, sem os característicos loops em delay que permeiam o disco, e é mais facilmente compreendida. Apesar de entender que há uma revolução musical no disco do King Crimson, muito bem executado e com músicos excepcionais, que influenciaria muitas outras bandas mais à frente, não é um álbum que me agrada. Não sou fã do extremo experimentalismo apresentado em quase sua totalidade. Entretanto, recomendo a todos conhecerem-no, principalmente pela qualidade dos músicos.
José Leonardo: Obviamente não dá para comparar com as fases anteriores da banda. Também levei um choque quando o ouvi pela primeira vez, pois fiz essa comparação. Nessa época eu só conhecia o primeiro disco e Larks Tongues in Aspic (1973). No final de 1981 comprei este LP, que achei uma droga. Talvez eu tenha me acostumado ou amadurecido e não notei que se trata de um disco fantástico. Em Discipline, o guitarrista e eterno líder Robert Fripp decidiu retornar de um hiato de sete anos com uma formação totalmente reformulada que, além dele, contava apenas com o baterista Bill Bruford como integrante do último line-up. Completaram o time dois músicos norte-americanos, o guitarrista Adrian Belew (ex-Frank Zappa, David Bowie e Talking Heads) e o baixista Tony Levin (da banda de Peter Gabriel), que também toca um instrumento chamado chapman stick. Ainda que muitos críticos da época tenham feito uma conexão deste disco com a emergente cena New Wave, a banda seguiu por um processo criativo diferente – mas ainda pautado pelas engenhocas instrumentais de Fripp e, melhor ainda, ganhando o reforço de Levin e Belew na aparelhagem eletrônica.Discipline é um álbum de pulsações, repleto de contrapontos estéticos que, em alguns momentos, supõem a velocidade e a disciplina (“Frame by Frame”) ou a indisciplina e a calmaria (“Matte Kudasai”). O estranho fusion come solto em “Indiscipline”, já a faixa-título, que encerra o disco, tem uma síncope tribal proporcionada por baixo e bateria, enquanto Fripp liberta-se para ponderar solos estilhaçantes que forçam um diálogo entre o blues e o rock progressivo, por mais eletrônicos que eles possam parecer. Em “Thela Hun Ginjeet”, anagrama para “heat in the jungle” (“calor na selva”), o King Crimson continua apostando na velocidade com diversas veias experimentais nos instrumentos de corda. A sequência vem com “The Sheltering Sky”, com uma instrumentalidade mais aguda graças ao sistema “Frippertronics” do principal membro do grupo. Ele forma um diálogo esquizofrênico – mas bem entrelaçado – com o stick de Tony Levin. Discipline foi um disco crucial para a então nova fase oitentista da banda. Apresenta um grupo solidificado e inovador, deixando um gostinho de quero mais. Pena que os dois trabalhos posteriores não foram tão bons quanto este.
Leonardo: Progressivo não é a minha praia, prefiro deixar para os especialistas…
Mairon: Putz, sério mesmo que este disco entrou entre os dez mais? O King Crimson acabou em 1974 e voltou em 1981 com o chato bagarái Adrian Belew nas guitarras e vocais, junto de Robert Fripp, Bill Bruford (sempre um monstro) e o fera Tony Levin no baixo. As linhas intrincadas, a genialidade de Fripp e as batidas quebradas de Bruford estão presentes, mas o problema é que se juntaram de uma forma nada agradável. Não consigo suportar a voz de Belew, que só fez algo de bom quando tocou com David Bowie e Frank Zappa. Aturar “Elephant Talk”, “Tela Hun Ginjeet” e, principalmente, “Indiscipline” e “Discipline”, é dose para elefante. Os poucos momentos que aprecio deDiscipline são a guitarra esquizóide no blues/balada “Matte Kudasai”, as viagens da longa “The Sheltering Sky” e o riff e as passagens instrumentais de “Frame by Frame”. Isso não é King Crimson de jeito nenhum, e não entendo como consegue agradar aos colegas consultores. Sinceramente, se superaram nesta lista.
Ulisses: Ouvi, mas não gostei muito. Uma sonoridade estranha, difícil de traduzir com palavras, não muito acessível, e por vezes etérea e atmosférica, em cuja camada os vocais de Belew soam belos. Apesar de alguns ótimos momentos – como Bill Bruford em “Indiscipline” -, o registro mostrou-se insuficiente para me empolgar. Confesso que conheço pouco de King Crimson, limitando-me a registros mais conhecidos, como In the Court of the Crimson King (1969) e Red (1974), mas mesmo assim é praticamente impossível que Discipline viesse a entrar na minha lista, ainda que houvessem mais posições a serem preenchidas.

06 Escape
Journey – Escape (53 pontos)
André: Sou muito fã de Journey e este é um de seus melhores discos. Lindo, esplêndido, maravilhoso. Não há canção ruim por aqui. Poderia citar todas as faixas deste álbum, mas me concentrarei nas minhas favoritas. “Don’t Stop Believin” é tudo de bom que os anos 1980 representam e um dos maiores hits mundiais, com suas letras e melodias que me alegram toda vez que a escuto. Não dá para não se maravilhar com a voz e a interpretação perfeita de Steve Perry. “Who’s Crying Now” é outra música melodicamente deliciosa, perfeita para se tocar em uma paisagem com um pôr do sol em uma praia deserta. “Keep on Runnin’” é aquele rock empolgante feito sob medida para me agradar. A faixa-título é outro hard rock feito para que eu pudesse balançar os longos cabelos que tenho. “Mother, Father” possui uma letra muito bonita sobre uma família despedaçada à qual o jovem clama por esperança. Imagino o que um adolescente dos anos 1980 sentia quando escutava essas letras feitas para ele, característica que o Journey sempre teve. A minha fome por açúcar não parece se satisfazer com este disco, logo, vou ouvir mais Journey.
Bernardo: Caso parecido com outros discos eleitos neste top: a banda do sósia do André Matos não me marcou muito, a não ser por “Don’t Stop Believin’”, icônica por tocar em uma das grandes cenas da série “Família Soprano”. Um baita hit comercial, cuja delicadeza de suas linhas harmônicas fazem a música se tornar uma audição pra lá de prazerosa. Fora isso, “Open Arms” não é exatamente ruim, mas ser regravada por Mariah Carey e Celine Dion não é a coisa mais rock ‘n’ roll do mundo.
Bruno: Fui ouvir este disco com os dois pés atrás, mas acabei me surpreendendo. Conheço pouquíssima coisa da banda, e o preconceito falou mais alto, mas ao dar o play em Escape me deparei com um hard de arena muitíssimo bem produzido, com todos os instrumentos em evidência, riffs de guitarra, melodias vocais cativantes e refrãos grudentos. Definitivamente não faz meu estilo e nem vai me tornar um fã do Journey, mas serviu para mudar a impressão que eu tinha da banda. Serve como um bom representante do gênero, que dominou boa parte das paradas dos anos 1980.
Davi: Excelente álbum. Excelente banda. Muitos criticam o Journey por ser uma banda com uma forte veia comercial, mas nunca dei bola pra isso. A qualidade desses caras é incontestável e isso fica nítido durante a audição deste disco. Steve Perry e Neal Schon estão longe, mas muito longe de serem músicos comuns. Aqui temos desde ótimas canções animadas como “Don’t Stop Believin’” e “Stone in Love” até belas baladas como “Open Arms” (que nos anos 1990 voltou às paradas na voz de Mariah Carey).
Diogo: É ótimo ver este álbum por aqui, certamente uma de minhas maiores alegrias desde que esta série teve início. Seria injustiça demais deixar dois caras tão talentosos quanto Neal Schon e Steve Perry sem representação. Felizmente, ao menos parte de meus colegas discordam dos argumentos inconsistentes que costumam ser utilizados para desqualificar tanto a banda quanto seus grandes sucessos, alguns deles capazes de romper os limites das paradas de sucesso e penetrar o imaginário coletivo de um país, quem sabe até do mundo. Isso ocorre, sem dúvida alguma, com “Don’t Stop Believin'”, perfeita amostra de uma banda usando sua técnica formidável em prol de uma composição de alto nível, até um pouco incomum para o tamanho de seu sucesso, sem esquecer da interpretação majestosa de Steve Perry. Nota dez! Nota mil! “Open Arms”, maior êxito na época do lançamento de Escape, é outra que superou o teste do tempo e ainda emociona na mesma proporção de outrora. Tivesse o álbum apenas essas músicas, já mereceria menção por aqui, mas o “miolo” felizmente é praticamente tão bom quanto, vide a viciante “Stone in Love”, de solo excelente e refrão idem, “Who’s Crying Now”, de solo melhor ainda (Neal Schon é muito mais guitar hero que a maioria dos que recebem esse rótulo), e as hardeiras “Keep on Runnin'”, “Dead or Alive” e a faixa-título. Além disso, a melancolia de “Still They Ride” é outro trunfo, superado porém pela exuberante “Mother, Father”, tão boa e envolvente quanto “Don’t Stop Believin'”. Citei Schon e Perry, mas não posso deixar de mencionar a capacidade do restante do grupo: Steve Smith é um de meus bateristas favoritos e tirou de letra a tarefa de substituir o grande Aynsley Dunbar dois anos antes, deixando a banda ainda mais classuda e musical. Ross Valory é um baixista pouco exaltado, mas executa um trabalho perfeito, enquanto o tecladista e eventual guitarrista Jonathan Cain estreou com tudo, formou parceria na composição com Perry e Schon e mostrou seu valor com personalidade. Escape só não foi o primeiro de minha lista pois minha relação comKillers é antiga e traz uma forte associação com os primórdios de minha formação musical, pois em qualidade ambos são equivalentes.
Eudes: Desculpem-me os fãs, mas não consegui passar de “Don’t Stop Believin'”… Rock MTV com tudo de pior que esse rótulo carrega.
Fernando: Até bem pouco tempo via o Journey como uma banda de coletâneas. Principalmente da fase após a entrada de Steve Perry. Gosto da pegada fusion dos discos anteriores e sei que muita, mas muita gente não tem ideia de que a banda fazia aquele tipo de som antes de estourar com hinos AOR nas rádios. Entendo que este seja o álbum mais representativo da carreira do Journey com Perry. Até porque um álbum que abre com “Don’t Stop Believin’” e fecha com “Open Arms” não precisa de muito no seu recheio para ser bom.
Flavio: Escape é o sétimo disco e maior sucesso da banda. O álbum traz ótimas canções, orientadas ao “airplay” do rádio norte-americano, funcionando magnificamente. Independente do sucesso comercial, há pontos a observar.  A entrada do tecladista/guitarrista Jonathan Cain caiu como uma luva: Além de versátil músico, Cain compôs todas as músicas do álbum e é, juntamente com a dupla Perry/Schon, o responsável por seu sucesso. Vejo alguns destaques aqui ou ali, mas percebo um ótimo trabalho da banda como um todo. Em quase todo disco, observo um ótimo trabalho vocal, seja apenas solo com Steve Perry, seja nos perfeitos coros montados por todos (exceto o baterista). A conhecidíssima “Don’t Stop Believin'” tem como destaques a introdução de teclado/vocal e a entrada fulminante da guitarra de Schon, em uma aceleração de riff de muito bom gosto.  Há ainda o excelente trabalho do baixo e também do solo final, muito bem construído para deixar a música finalizando através do refrão marcante. “Stone in Love” é minha predileta, novamente pelo trabalho de vocal e baixo e do solo inspiradíssimo de Schon, que permeia a música toda. Sua letra, também orientada ao público juvenil, atinge o alvo fulminantemente. O álbum traz três baladas:  “Who’s Crying Now”, calcada nos teclados de Cain e com um bonito solo de Schon; “Still They Ride”, em um leve toque de blues, com um excelente solo de Schon, que o constrói pouco a pouco, ganhando velocidade até seu final; além da talvez mais conhecida “Open Arms”, coverizada por vários outros artistas, que traz um lindo trabalho vocal de Steve Perry.  Há outras boas canções de andamento rápido, como a faixa-título, e também “Mother, Father”, que tem o melhor solo de guitarra do disco, mostrando realmente que Neal Schon estava realmente inspirado em Escape. As outras músicas também têm bom nível, o que faz de Escape um disco recomendável para os que não torcem o nariz para um álbum de rock mais acessível, recheado de teclados e harmonias de fácil assimilação. Se você somente gosta de melodias e harmonias mais truncadas, como em um trabalho progressivo clássico, esqueçaEscape.
José Leonardo: Não é a minha praia. Muito AOR para o meu gosto. Muito bem tocado e muito bem produzido, mas não me faz a cabeça.
Leonardo: A combinação perfeita de hard rock e AOR. Com Escape, a banda, que já vinha em um crescente de qualidade e popularidade, explodiu nas paradas, principalmente devido aos três singles extraídos do disco, “Don’t Stop Believin'”, “Who’s Crying Now” (dona de um dos melhores solos de guitarra dos anos 1980) e “Open Arms”. Mas o disco oferece muito mais do que isso, como as excelentes “Stone in Love” e “Keep on Runnin'”.
Mairon: Este álbum voltou para minha playlist depois do Journey ter sido homenageado no capítulo final da primeira temporada da série Glee. Fiquei impressionado com a performance das canções por lá apresentadas, e voltei à discografia do Journey na mesma época, mas acabei me decepcionando bastante. Não entendo como um guitarrista tão bom quanto Neal Schon, o principal destaque deEscape, principalmente nos solos de “Stone in Love” e nos riffs de “Dead or Alive” e da faixa-título, essa a melhor do LP, conseguiu fazer este registro, que é um representante fortíssimo da sonoridade AOR, e contém clássicos como “Don’t Stop Believin'” e “Keep on Runnin'”, que certamente até sua vizinha fã de Ivete Sangalo já ouviu. Porém, não consigo gostar da voz de Steve Perry, e o disco inteiro soa-me americanizado demais. Porém, um álbum que vendeu mais de 12 milhões de cópias no mundo inteiro, gerando um joguinho bem simplório pro Atari, estar entre os dez melhores de 1981 não chega a ser um absurdo, apesar de musicalmente não me agradar, já que, se ele vendeu tanto assim, o problema realmente é com os meus ouvidos.
Ulisses: Ouvindo os discos do Journey, não tem como acreditar que Neal Schon seja um guitarrista tão subestimado, dada a técnica e a criatividade que ele também derrama por aqui, algo facilmente percebido em canções como “Mother, Father” e “Who’s Crying Now”. A performance de Perry é algo de outro mundo (“Still They Ride”, por favor?), e o novato tecladista Jonathan Cain também mostra serviço bem-feito.Escape é o tipo de álbum que se tornou famoso pelas baladas, mas contém bastante material pesado também.

07 Music from The Elder
Kiss – Music from “The Elder” (46 pontos)
André: Vendas caindo, quebra pau com Frehley, dúvidas quanto ao direcionamento musical. Esse é o Kiss de 1981. Jamais me imaginaria comentando este álbum por aqui, sendo para mim uma grande surpresa, visto que muitos lançamentos bem mais famosos do Kiss não entraram nas listas. Ouvi este disco uma vez só há bastante tempo e sem atenção. Praticamente não me lembro de quase nada dele. Mas agora entendo o que um fã deve ter pensado há 30 anos quando comprou Music From “The Elder” e logo de cara encontrou uma orquestra, coro e um clima medieval. Entretanto, quando ouvi “Just a Boy”, fiquei muito bem impressionado com a composição, e como jamais imaginava a voz malandra de Stanley cantando sério em uma faixa como essa. “Only You” é aquele rock estilo Kiss, mas é classudo e estiloso, assim como este disco inteiro. “Mr. Blackwell” ficou bem suingada, com aquele vocal típico que Simmons costuma fazer. O único ponto fraco é “Dark Light”, bem sem graça e com uma interpretação desleixada de Frehley. No final, fiquei bem contente com a audição deste álbum e desejo ouvi-lo mais vezes.
Bernardo: Ace Frehley, em seu último álbum da primeira fase do Kiss, queria fazer, tendo o apoio de Eric Carr, um disco de direcionamento mais rock, enquanto Stanley, Gene e Bob Ezrin queriam fazer Music from “The Elder” com suas incursões no progressivo e no soft rock. Este álbum é uma lição de vida: na dúvida, ouça o cara drogado. Provavelmente ele é o mais sensato da turma.
Bruno: A essa altura, o Kiss já era uma banda milionária, com uma porrada de discos vendidos e um gigante do gênero. Mas para os cabeças do grupo, Gene Simmons e Paul Stanley, isso não bastava. Ainda faltava conquistar algo: a crítica. E foi assim que veio a ideia de Music from “The Elder”, um álbum conceitual, com influências de rock progressivo e temática fantasiosa. O resultado foi um retumbante fracasso de vendas, e, pra piorar, o objetivo não foi alcançado. A crítica caiu matando. É admirável a atitude do Kiss de tentar expandir seus limites musicais, mas convenhamos, The Elder foge do que eles sabem fazer de melhor. Apesar de o disco não ser tão ruim assim, está longe de ser um grande trabalho da banda, e figurar nesta lista é um dos maiores absurdos desde o começo da série.
Davi: Trabalho incompreendido por muitos fãs de uma banda incompreendida por muitos críticos. O Kiss fugia do senso comum flertando seu heavy metal com o progressivo em um álbum conceitual. As músicas mais lembradas são a (bonita) balada “A World Without Heroes” e a agitada “I”, mas os grandes momentos ficam mesmo com “The Oath”, “Dark Light”, “Just a Boy” e “Odyssey”. Vale a pena (re)escutar.
Diogo: Alguém divulga esta série pro Gene Simmons, por favor? Primeiro foi Dynastyna edição dedicada a 1979, agora Music from “The Elder”. O cara sempre teve birra com a crítica, de repente ele começa a olhar pra quem analisa seus discos com olhos melhores. Se bem que… Melhor não, pois nem o cara é chegado em The Elder! Falando sério, o álbum passa muito longe de ser toda essa ruindade que muitos fazem parecer e até funciona como uma experiência interessante, só que a lição felizmente foi aprendida de primeira e o Kiss não se meteu mais a inventar moda, voltando a fazer, logo em seguida, em faixas novas da coletânea Killers (1982), aquilo que realmente sabia: rock sem tanto compromisso, mas com qualidade. “I’m a Legend Tonight” é uma de minhas favoritas da banda e não me deixa mentir. Sobre The Elder, admito que a audição do disco até é agradável, destacando momentos como “Odyssey”, “Under the Rose”, “Dark Light”, “A World Without Heroes”, “The Oath” e “I”. Olha só, brincando brincando, citei uma porção de faixas das quais gosto. Ok, é um bom disco, talvez para menção honrosa, mas jamais para figurar entre os dez mais de um ano que, apenas para ficar no campo do rock pesado, teve lançamentos formidáveis como Fair Warning(Van Halen), High ‘N Dry (Def Leppard) e Bangkok Shocks, Saigon Shakes, Hanoi Rocks (Hanoi Rocks), que não deram as caras por aqui. Felizmente o Kiss retomaria seu rumo no ano seguinte em Creatures of the Night, esse sim um discaço com “D” maiúsculo.
Eudes: Vocês levam mesmo a sério um disco conceitual do Kiss? Super bem tocado, super produzido, violões aos borbotões e super chato. O Kiss continuava, apesar da postura deluxe, destilando melodiazinhas fáceis em embrulho hard rock. Tem seus momentos, mas, como sempre lembro, aqui são os “Melhores de Todos os Tempos”.
Fernando: Na época a crítica odiou e os fãs torceram o nariz, mas os músicos se sentiram compositores de verdade. Gosto da frase com a qual Gene Simmons define o disco: “Como álbum do Kiss, eu daria zero. Como um disco ruim do Genesis, eu daria dois”.
Flavio: Um disco controverso e por mim marcado firmemente como o honrado segundo colocado na minha lista, um fio de cabelo atrás de Mob Rules. Foi difícil escolher entre os dois. O ponto que determinou a escolha por Mob Rules é o fato de considerá-lo o melhor do Sabbath, enquanto este encontra-se em segundo lugar na discografia do Kiss. O grupo resolveu arriscar e lançar um álbum conceitual, por isso o que se ouve é muito pouco ou nada da fase clássica do Kiss. Contudo, é considerado por alguns como uma obra-prima, inclusive por mim. A criatividade como compositores, que talvez seja o grande diferencial de Simmons e Stanley, está intacta neste álbum. O produtor Bob Ezrin, que sempre trouxe novas ideias para os álbuns em que participou, que nem sempre agradavam aos fãs, desejosos da manutenção do estilo da banda, novamente acertou, apresentando uma produção esmerada, recheada de instrumentos não usuais, como cordas e teclados, além de corais e efeitos. Músicas como “Under the Rose”, “Only You”, “Just a Boy” e “Odyssey” estão entre minhas preferidas da banda, apesar de nada parecerem com aquele Kiss dos anos 1970. “The Oath” e “Dark Light” (que contém um dos melhores solos de Ace no grupo) lembram mais o som clássico, e também são ótimas. Na verdade, “I”, que é o exemplo de música mais próxima da “sonoridade Kiss”, é a que menos gosto. Até hoje posso ouvir Music from “The Elder” na íntegra com grande apreço, seja lá em qual ordem ele for disposto, seja no lançamento brasileiro da época ou do recém-comprado vinil japonês que mantém a ordem desejada por banda e produção musical, seguindo a linha da história do disco. Coloco-o sem pestanejar no top 5 da banda, e, embora tenha quase causado um colapso devido ao fracasso de vendagem, considero-o grande merecedor de estar nesta lista.
José Leonardo: Todos sabem que nunca curti o Kiss, nem quando era adolescente. A banda nunca me cativou com seu rock festeiro.
Leonardo: Mais uma vez, surpreendo-me com a inclusão de um disco do Kiss. Deixo claro que a banda é minha favorita, e que The Elder é um disco com excelentes momentos, mas confesso que o considero muito abaixo de outros lançamentos do mesmo ano. “The Oath”, “A World Without Heroes”, “I” e “Dark Light” são os principais destaques do disco, cuja audição por inteiro é um pouco cansativa.
Mairon: Lembro até hoje do medo que sentia de ouvir este disco. Todas as pessoas que eu conhecia, tudo o que eu lia, dizia que era o pior disco de todos os tempos. Quando finalmente tomei coragem de ouvi-lo, adquiri o vinil por míseros 5 reais, e preparei-me para o pior. Só que a sensação de prazer ao escutar os dois bumbos de Eric Carr e a guitarra pesada de Ace Frehley em “The Oath” (o LP que tenho contém a mesma ordem que a versão europeia e a norte-americana, já que a edição internacional abre com “Fanfare”) foi surpreendente. “Opa, isso não tem a ver com o Kiss, mas está longe de ser ruim.” A entrada dos teclados, as vocalizações e variações animavam mais ainda, e daí veio “Fanfare”, uma vinheta inimaginável para um disco do Kiss, com seu conceito medieval, com orquestrações arrepiantes, seguida pela balada “Just a Boy”, com Paul Stanley dando um show de interpretação e tocando seu belo solo. A partir de então, o que estava incrivelmente fascinante ganha ainda mais força com os vocais de Ace Frehley e o riff complicado de “Dark Light”. Ouvi-lo cantar sempre traz aquela sensação de conforto, mas além dele, Eric Carr é o destaque, dando potência para o kit de bateria de forma que Peter Criss jamais conseguiria. Daí somos surpreendidos novamente por um solo virtuoso de Ace acompanhado por uma sessão rítmica à la Santana dos bons tempos. Pataquemepariu!!! O desenvolver do álbum mantém o nível de surpresas e satisfação elevadíssimo, sendo impossível não darmos os créditos para a velocidade enlouquecedora da instrumental “Escape from the Island”, os teclados fantasmagóricos de “A World Without Heroes”, remetendo-nos aos bons tempos de Dynasty (1979), a pompa (com razões para tal) de “Odyssey”, apresentando orquestrações e a grave voz de Paul, a soberania musical da enigmática “Under the Rose” e o seu pesado coral, capaz de fazer as paredes da casa tremerem, o peso de “I”, candidata a melhor faixa de Music from “The Elder”, e até o riff chupado diretamente de “The Remembering” (Yes) em “Only You”. Ah, e sim, existe Kiss no disco do Kiss, bem escondido durante “Mr. Blackwell”, mas está ali uma apresentação singela do que fez o quarteto mascarado um dos maiores grupos da história, nessa que é a mais fraca do LP. Acredito que a versão internacional seja mais legal de se ouvir por conta do conceito musical, e entendo totalmente por que o disco foi malhado, já que não há nada de Kiss neste álbum do Kiss. O fato é que, quando a melhor formação do quarteto mascarado (Paul Stanley, Gene Simmons, Ace Frehley e Eric Carr) resolveu mostrar que era também capaz de construir músicas além do rock ‘n’ roll simples, e também de tocar soberanamente, eles o fizeram com qualidade ímpar, neste que é o melhor disco da carreira do Kiss, e que mais uma vez me surpreendeu, já que jamais imaginaria vê-lo por aqui.
Ulisses: Disco chato e desinteressante, longe da sonoridade usual do Kiss, o que na verdade pode ser bom para alguns – no meu caso, já não tenho muito apreço pelo quarteto e passei a ter menos ainda quando o ouvi. De bons momentos, diria que apenas a canção “The Oath” e o solo de “Dark Light”. Sugiro que passem longe desta bomba.

08 Too Fast for Love
Mötley Crüe – Too Fast for Love (45 pontos)
André: Os maloqueiros estrearam com um debut memorável. Cheio de feeling, malícia, peso e identidade, o Crüe é uma daquelas bandas que agradam imediatamente em composições energéticas, com a cara da ensolarada Los Angeles. É fácil curtir a sensualidade feminina exalada em faixas como “Come on and Dance”, “Piece of Your Action” e “Too Fast for Love”. Na parte instrumental, o encaixe perfeito das melodias com os vocais e refrãos ganchudos, como em “Take Me to the Top”. E o que falar da dançante “Starry Eyes”? O que mais me impressiona no Mötley Crüe é que são quatro caras que não tocavam apenas para aparecer, mas para fazer o disco mais divertido possível. Acredito que é isso que diferencia o Mötley Crüe das demais bandas do período, e, não à toa, veio o sucesso como consequência.
Bernardo: Caramba, homenagem ao megaclássico Sticky Fingers (The Rolling Stones, 1971), atualizado para a estética fetichista dos anos 1980 e de quebra uma paulada como “Live Wire” na abertura, que é até difícil de chamar de farofa – tá mais para heavy metal mesmo. “Merry Go Round” é uma power ballad com passagens instrumentais bem interessantes. “Too Fast for Love” caberia bem em um disco dos Ramones, com sua pegada direta e dançante, vocais chiclete e atitude bad boy. Mas no resultado geral acho a banda ainda muito “verde”. Posteriormente teriam resultados mais consistentes.
Bruno: Quando o assunto é Mötley Crüe, talvez a primeira associação que se faça é com o hair metal, gênero amado e odiado em igual proporção. Bem, quem pegar o disco de estreia da banda com essa imagem na cabeça, pode tomar um susto. O que temos aqui é um hard esporrento, até certo ponto tosco e extremamente grudento. Dá pra perceber que os caras ouviam muito Hanoi Rocks e New York Dolls. A base do som é quase punk, e nem a voz bizarra de Vince Neil estraga. Pelo contrário, dá até um charme. Mas quem definitivamente se destaca é o grande baterista Tommy Lee e o subestimado guitarrista Mick Mars, que dá uma textura sonora impressionante ao álbum. Alguns anos depois, a banda se jogaria de cabeça na onda do glam metal e se perderia completamente, mas Too Fast for Love fica como um registro honesto e de extrema qualidade de uma época de mudanças no som pesado.
Davi: Pra mim, uma das melhores bandas de hard rock da década de 1980. Embora fossem vendidos como hair metal, traziam um som um pouco mais pesado que a maioria dos grupos que levavam esse rótulo (se bem que eu gosto de muitas formações desse período). E embora estivessem sempre envolvidos em polêmicas, eram bons instrumentistas. E os caras já demonstravam todo seu poder de fogo nesse debut, em que se destacam canções como “Live Wire”, “Take Me to the Top”, “Too Fast for Love”, “One With the Show” e “Piece of Your Action”. Discaço!
Diogo: O primeiro disco do Mötley Crüe é uma mistura deliciosa de tudo aquilo que os integrantes consumiam com farinha (risos) desde o café da manhã até o jantar: glam rock, heavy metal, punk rock, power pop e seja lá o que mais for. Tudo isso embalado em um pacote perfeito que unia visual e atitude peculiar levados a extremos, mas que não esquecia o conteúdo: nove canções de qualidade que passeavam pelos estilos citados e os fundiam desavergonhadamente, incluindo ainda uma dose de energia juvenil que faz toda a diferença e ajuda a superar dificuldades de ordem técnica. Afinal, convenhamos, Vince Neil não é exatamente um grande vocalista. O mesmo não pode ser dito de Tommy Lee, desde sempre o maior diferencial do grupo fora as composições de Nikki Sixx, porrando sua bateria sem parcimônia. Mick Mars também manda ver em riffs bem sacados, como não me deixam negar a descaralhante “Live Wire”, maior destaque de Too Fast for Love, “Come On and Dance”, “Take Me to the Top” e “Piece of Your Action”, além da própria faixa-título, todas pequenas gemas dos primórdios de um malogrado estilo que estava surgindo e viria a ser rotulado como glam metal. O Mötley Crüe faria ainda melhor nos anos que estavam por vir, mas Too Fast for Love foi uma belíssima estreia.
Eudes: Hard rock padrão de canções bem tocadas, pesadas, pelo menos mais pesadas do que os congêneres, e pouco inspiradas melodicamente. Quem pode crer que o tema de um inimigo público de responsa pudesse ser aquele rockzinho baba? Passo. Alguém sabe aí se Andy Warhol foi devidamente pago pela capa?
Fernando: Penso que o Mötley Crüe vai emplacar discos em sequência nesta série, pois se meus amigos consultores resolveram dar para Too Fast for Love esse mérito, o que não farão com os álbuns seguintes até Dr. Feelgood (1989)? Mas não pensem que eu não gosto do disco. Gosto e muito, mas entendo que seja inferior se comparado com Shout at the Devil (1983), Theatre of Pain (1985), Girls, Girls, Girls (1987) eDr. Feelgood (1989). Destaque para a paulada que é “Live Wire”!!!
Flavio: Um disco entre bom e razoável, com mérito para composições criativas, como a faixa de abertura, “Live Wire”, e “Merry Go Round” (cujo título é repetido à exaustão no refrão).  Em compensação, há pontos fracos, como o vocal no limite da afinação (como no início de “Too Fast for Love” e em “On With the Show”) e abuso de exagerados falsetes de Vince Neil (“Take Me to the Top”).  Ponto positivo para a ótima execução da forte bateria de Tommy Lee, já iniciando com dois bumbos na canção de abertura e um bom solo de guitarra em “On With the Show”. Nessa época, a banda se destacava mais pelo visual e ainda estava em fase de amadurecimento musical. Recomendável apenas para fãs do estilo.
José Leonardo: Taí uma banda que eu simplesmente adoro odiar! Tudo sempre me cheirou a armação, marketing puro, sem honestidade, além do visual execrável, calça coladinha, cabelos de salão, e o pior: música previsível e manjada.
Leonardo: O primeiro disco do Mötley Crüe é uma explosão de energia, inocência e vontade. Por mais que os anos tragam experiência aos músicos, tanto no palco quanto em estúdio, tem certas coisas que só a juventude e a falta de estrada proporcionam, e a música presente em Too Fast for Love é a prova disso. Sujas, diretas e até inocentes, mas incrivelmente marcantes e grudentas, canções como “Live Wire”, “Take Me to the Top” e “On With the Show” pavimentaram o caminho para toda uma cena que surgiria nos anos seguintes nos Estados Unidos. E se até os membros do Metallica e Slayer eram fãs do Mötley Crüe nessa época, por que você não pode ser?
Mairon: Too Fast for Love é o primeiro grande disco de glam metal que ouvi, e ainda hoje é meu preferido na discografia do Mötley Crüe, junto de Theatre of Pain. O quarteto norte-americano empregou a sonoridade que a trupe de Eddie Van Halen havia lançado três anos antes, principalmente na criação dos riffs, em um estilo menos técnico e bem mais pesado. Tommy Lee é um grande baterista e Vince Neil um excelente vocalista. “Live Wire”, “Take Me to the Top” por exemplo, são dois atestados do que digo, e que viraram grandes clássicos da carreira do grupo. Mick Mars também é um bom guitarrista, e o melhor momento dele no LP é o solo de “Starry Eyes”. Só Nikki Sixx que sempre achei que nunca foi grandes coisas. Gosto do disco, mas jamais me passou pela cabeça colocá-lo na minha lista de 20 melhores de 1981, tampouco vejo com bons olhos sua inclusão aqui, mas já que outras aberrações entraram, posso dizer que Too Fast for Love está bem longe de ser uma. A história do disco foi brilhantemente contada por nosso colega Pablo Ribeiro aqui. Depois viriam Bon Jovi, Poison, Cinderella …
Ulisses: Normalmente evito e desprezo o metal farofa, mas este disco foi uma rara exceção, talvez justamente por não ser tão farofeiro. Ótimas composições tornam o registro fluído e nunca maçante, mas não acredito que eu volte a ouvi-lo tão cedo.

09 Spellbound
Tygers of Pan Tang – Spellbound (43 pontos)
André: Finalmente um pouco de justiça e reconhecimento aos tigres britânicos, banda que é ignorada e desconhecida por muitos. Comentar sobre este ótimo disco da NWOBHM foi uma grande surpresa. “Gangland” é um heavy metal excepcional, com aqueles timbres de guitarra sujos que sinto falta no excesso de polidez de muitas bandas atuais. Babei também nos solos e riffs que John Sykes e Robb Weir executam em “Take It”. O hard rock empolgante se destaca em “The Story So Far”, com aquela guitarra melodiosa de Sykes comandando a canção. É uma pena que apósCrazy Nights (lançado também em 1981) a banda entrou em uma descendente, com discos ruins ou medianos, que só foi interrompida em 2008 com o bom Animal Instinct.
Bernardo: Com uma fúria instrumental equiparável ao Iron Maiden dos dois primeiros álbuns, o Tygers nunca alcançou o mesmo tamanho dos seus companheiros de estilo.Spellbound não é de jogar fora. Tá aí “Hellbound” e suas pesadas e roqueiras passagens de guitarra que não me deixam mentir, assim como o clima quase hard rock de “Take It”, destacando John Sykes como “o cara” da banda. De resto, o grupo segue uma estrutura bem definida, com poucas surpresas, jogando para ganhar em fórmulas que hoje em dia se tornaram clichês. Deverill é um vocalista correto, mas com uma voz comum demais.
Bruno: Gosto bastante de John Sykes, principalmente pelo trabalho no Whitesnake, mas o Tygers of Pan Tang nunca fez muito minha cabeça. Não que o disco seja ruim, é até um grande representante da NWOBHM, com uma cacetada de riffs, solos velozes e melodias, mas pessoalmente não me empolga.
Davi: Segundo trabalho do grupo e o primeiro com o (ótimo) John Sykes. Típica banda que é idolatrada entre as pessoas da cena e não é tão conhecido do grande publico. Os caras faziam um heavy metal cru com ótimos riffs de guitarra, bateria direta e linhas vocais simples, porém bem trabalhadas. Certamente é um disco bacana, mas ainda gosto mais de Crazy Nights. Acho que ele deveria ter entrado nesta lista. Sim, os dois são do mesmo ano…
Diogo: Cara, que surpresa ver este disco por aqui! Tenho em vinil há anos (paguei míseros 2,50 reais!), gosto bastante dele, mas não tinha ideia de que algumas pessoas o colocavam em tão alta conta. Em seus primórdios, o Tygers of Pan Tang era uma das melhores bandas egressas da NWOBHM, e com a entrada do vocalista John Deverill e do grande guitarrista John Sykes isso se tornou ainda mais uma realidade, resultando em um álbum coeso e equilibrado: agressivo na medida certa, mas com espaço para intervenções mais melódicas. Músicas como “Gangland”, “Hellbound”, “Silver and Gold” e “Tyger Bay” são exemplos do heavy metal classudo e recheado de bons riffs que o grupo praticava, enquanto “Mirror” é uma baladaça digna do maior respeito. Além disso, os tigres britânicos também sabiam dosar seu lado mais pesado com sua faceta melódica de maneira bem amarrada, vide “The Story So Far” e “Don’t Stop By” (com Sykes solando lindamente), cujo potencial comercial infelizmente não foi bem aproveitado e/ou reconhecido. Em se tratando de NWOBHM, acredito que Saxon (Denim and Leather) e Def Leppard (High ‘N Dry) tenham lançado discos melhores e sejam mais representativos, mas a presença do Tygers of Pan Tang nesta edição da série passa longe de ser um absurdo.
Eudes: Não conhecia… Ouvi para comentar. No comments…
Fernando: Entendo que este disco seja um dos poucos da NWOBHM que poderiam rivalizar em qualidade com o que o Iron Maiden estava fazendo. Contando com John Sykes como segundo guitarrista e John Deverill substituindo o vocalista Jess Cox, que havia registrado o debut, a banda conseguiu gravar um discaço. O curioso é que outros álbuns conseguiram mais repercussão que Spellbound. Destaques para “Gangland”, “Mirror” e “The Story So Far”. Quem nunca ouviu faça esse favor para seus ouvidos.
Flavio: Um bom/razoável disco de heavy metal/hard rock, com a pegada de riffs acelerados calcados normalmente em bases simples e monótonas, como em “Gangland”, “Hellbound” e “Tyger Bay”. Os solos normalmente rápidos são bem executados pela dupla de guitarristas, recém formada com a aquisição de John Sykes (que iria para o Whitesnake anos depois). Um bom vocal permeia o álbum todo e a cozinha é eficiente. O disco peca por não trazer novidades, sendo as bases bem tradicionais, diria até óbvias, e comercialmente por não ter um grande hit. Talvez a música mais apropriada para execução nas rádios seria o hard leve de “The Story So Far”. A boa balada “Mirror”, apesar de lugar comum, é a que mais gosto do disco. Recomendável apenas para adeptos do estilo.
José Leonardo: Confesso que ouvi este LP na época e não me chamou a atenção. Mais um expoente da NWOBHM. Muito bem tocado, com destaque para John Sykes que viria a integrar o Thin Lizzy e o Whitesnake. Fui ouvir agora e achei um trabalho muito bom.
Leonardo: O melhor disco lançado em 1981! Spellbound foi um álbum à frente de seu tempo, com músicas rápidas e marcantes, que influenciariam toda uma geração, além de apresentar ao mundo o fantástico guitarrista John Sykes, que faria fama e fortuna no Thin Lizzy e no Whitesnake anos depois. Além disso, é impossível não destacar o excelente vocalista John Deverill, que levou, junto com Sykes, o som da banda a outro nível. Em um mundo justo, Spellbound teria o mesmo reconhecimento que discos como The Number of the Beast (Iron Maiden, 1982), Screaming for Vengeance (Judas Priest, 1982) ou Master of Puppets (Metallica, 1986), com a vantagem de ter sido lançado antes de todos esses…
Mairon: Um legítimo representante da NWOBHM, o Tygers of Pan Tang tem uma vasta carreira, bastante obscura por Terra Brasilis. Spellbound, seu segundo álbum, apresenta tudo o que marcou o estilo quando de seu nascimento, que são as levadas cavalgantes de baixo, solos velozes e um vocal bastante gritado, além de riffs grudentos e bastante marcantes. “Gangland”, “Hellbound” e “Tyger Bay” são as canções que destaco, bem como a melhor de todas, a baladaça “Mirror”, tendo como peculiaridade em relação às demais baladas da NWOBHM um teclado que lembra bastante o Triumph de “The Blinding Light Show”. Denim and Leather (Saxon) é, para mim, um disco acima de Spellbound, e poderia representar a NWOBHM em 1981 em seu lugar. Considero sua escolha entre os melhores de 1981 bastante exagerada, apesar de ser um bom álbum, sem dúvidas.
Ulisses: Típico disco veloz de NWOBHM e que prende a atenção do ouvinte do começo ao fim, mesmo nas composições mais lentas e comerciais, como “The Story So Far”. A adição de John Sykes foi uma tremenda jogada de mestre, bastando para isso ouvir clássicos como “Tyger Bay” (que delícia de riff!) e “Hellbound”. O Tygers lançaria, ainda em 1981, o razoável Crazy Nights, até se debandar em uma sequência de álbuns medíocres nos anos seguintes. Mesmo assim, Spellbound é audição obrigatória para quem curte a NWOBHM.

10 Damaged
Black Flag – Damaged (43 pontos)
André: Não adianta, nem o punk rock puro e nem essa mistura com hardcore me fazem apreciar o estilo. Porém, de maneira surpreendente, até vi algumas qualidades na faixa de abertura, “Rise Above”, que me deu esperanças de ouvir algo de positivo. Mas aí veio o resto do disco e minhas expectativas caíram por terra. Aquele espancamento de baixo em “No More” é irritante. Resumidamente, nada que mudasse a minha opinião para com o gênero.
Bernardo: Henry Rollins esmurrando um espelho. Poucas capas conseguem ser mais icônicas na história da música punk na mistura de demonstrar revolta e sintetizar o espírito de um disco. Em seu primeiro álbum com o Black Flag, gravado algumas semanas antes de entrar na banda (todos os seus vocais foram gravados posteriormente), Rollins simboliza toda a angústia de uma geração, cantando sem medo sobre alienação, alcoolismo, depressão e violência, em verdadeiros hinos do estilo, como a destruidora abertura “Rise Above”, o refrão explosivo de “Six Pack”, as passagens marcadas de “Gimmie Gimmie Gimmie” e a icônica “TV Party”, humorada e divertidíssima crítica na qual Rollins e toda a banda em backing vocals dialogam sobre a influência da televisão no cidadão médio, em um belo exercício criativo de narrativa, com o som mais pesado e sujo que a média, abusando da microtonalidade, do ruído, da microfonia e da confusão sonora (o baterista Robo usando um bracelete barulhento para tocar, Rollins improvisando letras, as muitas alternâncias de ritmo por todo disco) para cravar um álbum com sonoridade revoltada e original que, ao lado de outros luminares do hardcore foi fundamental em influenciar praticamente tudo dali para frente que abusasse de barulho, rapidez e agressividade para exorcizar emoções recalcadas.
Bruno: No começo dos anos 1980, a molecada descontente com a nova onda conservadora que tomava conta dos Estados Unidos resolveu seguir à risca a máxima do punk rock, o “do it yourself”, e, com muita garra, inciativa e criatividade, pegou os quatro acordes dos Ramones e os acelerou ainda mais, e substituiu as letras sobre garotas e diversão por críticas sociais, criando assim o hardcore punk. Um dos primeiros berços desse movimento foi a Costa Oeste, mais especificamente a Califórnia. E um disco que resume bem  essa cena é o LP de estreia do Black Flag, a primeira grande banda do gênero. Após constante troca de vocalistas, o grupo comandado pelo excelente guitarrista Greg Ginn encontrou em um jovem de Washington o frontman perfeito. Henry Rollins assumiu os microfones e as composições, dando uma cara ainda mais politizada às letras da banda, e marcando também os caóticos shows do grupo, com sua postura agressiva em cima do palco. A produção ruim não estraga o arregaço que é Damaged e seus hinos do gênero. Mais opiniões minhas sobre esse disco e o Black Flag podem ser encontradas nas duas partes da Discografia Comentada que fiz do grupo.
Davi: Álbum de estreia do grupo que conta com o cultuado Henry Rollins. Como nunca morri de amores por esse cara (cada vez que assistia o videoclipe de “Liar” ficava com vontade de bater nele), nunca tinha me dado ao trabalho de ouvir este LP. O que encontramos nele? Músicas rápidas, pesadas e diretas com letras falando sobre paranoia, álcool, drogas… Se você é fanático por punk irá se identificar. Quanto a mim, que gosto muito de algumas bandas punk, mas não me considero um punk, não me cativou…
Diogo: Minha dificuldade em lidar com o punk rock já é normalmente grande, então é preciso que um grupo do gênero ou de um subestilo afim tenha algo de muito especial para que sua sonoridade consiga me fisgar. Em se tratando do hardcore, que começava a ganhar força total no início da década de 1980, bandas como Dead Kennedys e Discharge conseguiram apresentar características que me atraíram o suficiente para que eu ouça seus discos com prazer, não apenas como uma experiência a fim de adquirir maior conhecimento musical. O Black Flag, ao menos por enquanto, ainda ficou devendo em relação a isso. Algumas ideias, como as expressas em “Rise Above” e “TV Party” são bastante interessantes, mas não o suficiente para sustentar um álbum na íntegra. Não foi dessa vez que o Black Flag “clicou” comigo.
Eudes: Punk rock em 4 por 4 para animar festa com boas melodias e, o que é raro no gênero, algumas intervenções de guitarra solo. Bom mesmo é a condução de contrabaixo de embrulhar as tripas do ouvinte. Só tinha ouvido de passagem, mas gostei de ouvir com atenção agora. Só não entendi ainda o que diferencia punk e hardcore…
Fernando: Já havia ouvido e não gostado. Já havia dado uma outra chance e não gostei de novo. E não é que fui ouvir para poder escrever essts linhas com mais autoridade e, adivinhem, não gostei de novo. Passo!
Flavio: O primeiro álbum da banda traz todos os elementos que me fazem não gostar do estilo hardcore/punk. Vocais berrados, por vezes no limite de atonalidade, músicas curtas com simplicidade de acordes, solos e “frases” de guitarra que, na sua maioria, parecem ser feitos de qualquer maneira (“On the Fly”), melodias óbvias, gravação precária, produção pobre. Resolvi acompanhar, enquanto ouvia o disco, o conteúdo das letras, que também é alinhado com o estilo, trazendo normalmente  a expressão de revolta contra o sistema político e a sociedade.  Isso não amenizou a minha avaliação, pois o principal – a música – não funciona para mim. “Life of Pain” tem um riff inicial (que é repetido no final), sobre o qual não há vocal, que talvez seja a melhor parte do disco (tirando a bateria desse trecho). Não que seja alguma coisa que mereça algum elogio, mas logo depois, quando o vocal entra, cai na mesmice do resto do álbum. É um disco recomendável apenas para os fãs do estilo. Foram 34 minutos intermináveis. Destaco apenas o alívio que senti quando terminei de ouvir.
José Leonardo: Definitivamente não é a minha praia…
Leonardo: Um dos melhores discos da cena hardcore da Califórnia, Damaged tem riffs viscerais de guitarra e o vocal sempre agressivo de Henry Rollins. Imperdível para os fãs do estilo.
Mairon: Longe de ser um álbum excelente, Damaged traz um punk rock carregado de distorção, que fez me imaginar uma mistura de Ramones com Venom. O que mais me agradou é o fato do disco ser bastante curto. Quando você está se acostumando com uma música, ela já acaba. Dentre as quinze curtíssimas faixas, consigo achar interessante “TV Party” (Toy Dolls com distorção) e a insanidade de “Damaged II”, muito melhor que a “Damaged I”, que encerra um disco que não teria em minha coleção, pois certamente o máximo que iria ouvi-lo é uma vez a cada muitos anos. Portanto, considero totalmente impossível de ser um dos melhores de 1981. É mais uma das piadinhas que os consultores largam nestas listas, que em 1981 superaram a Zorra Total com tanta falta de criatividade. Pior que Damaged nem para me atiçar a ouvir o resto da discografia do Black Flag serviu.
Ulisses: Não entrou na minha lista por falta de espaço, mas eu lembrei dessa estreia matadora. É uma porrada na orelha do começo ao fim, mas com variação o suficiente para entreter o ouvinte até o desfecho, desde o início com a perfeita “Rise Above” (puta que pariu, que música foda!), além de outros petardos como “TV Party” e “Gimmie Gimmie Gimmie”.

Listas individuais
downloadAndré Kaminski
  1. Dark Star – Dark Star
  2. Soft Cell – Non-Stop Erotic Cabaret
  3. Journey – Escape
  4. Black Sabbath – Mob Rules
  5. Mötley Crüe – Too Fast for Love
  6. Sky – Sky 3
  7. Rush – Moving Pictures
  8. Ozzy Osbourne – Diary of a Madman
  9. Tygers of Pan Tang – Spellbound
  10. Roky Erickson & The Aliens – The Evil One
220px-GC_Fire_of_LoveBernardo Brum
  1. Black Flag – Damaged
  2. The Gun Club – Fire of Love
  3. Kraftwerk – Computerwelt
  4. Wipers – Youth of America
  5. This Heat – Deceit
  6. Siouxsie and the Banshees – Juju
  7. X – Wild Gift
  8. The Cure – Faith
  9. The Rolling Stones – Tattoo You
  10. Stray Cats – Stray Cats
cover_Ramones81Bruno Marise
  1. Rush – Moving Pictures
  2. Black Flag – Damaged
  3. Ozzy Osbourne – Diary of a Madman
  4. Ramones – Pleasant Dreams
  5. Mötley Crüe – Too Fast for Love
  6. D.O.A. – Hardcore ‘81
  7. Roky Erickson & The Aliens – The Evil One
  8. Agent Orange – Living in Darkness
  9. The Rolling Stones – Tattoo You
  10. The Cramps – Psychedelic Jungle
TattooYou81Davi Pascale
  1. Rush – Moving Pictures
  2. Ozzy Osbourne – Diary of a Madman
  3. Iron Maiden – Killers
  4. Mötley Crüe – Too Fast for Love
  5. Kiss – Music from “The Elder”
  6. The Rolling Stones – Tattoo You
  7. AC/DC – For Those About to Rock
  8. Journey – Escape
  9. U2 – October
  10. Joan Jett – I Love Rock ‘n Roll
Van_Halen_-_Fair_WarningDiogo Bizotto
  1. Iron Maiden – Killers
  2. Journey – Escape
  3. Van Halen – Fair Warning
  4. Ozzy Osbourne – Diary of a Madman
  5. Black Sabbath – Mob Rules
  6. Def Leppard – High ‘N Dry
  7. Saxon – Denim and Leather
  8. King Crimson – Discipline
  9. Rush – Moving Pictures
  10. Mötley Crüe – Too Fast for Love
grace-jones240214.jpgEudes Baima
  1. King Crimson – Discipline
  2. Grace Jones – Nightclubbing
  3. The Rolling Stones – Tattoo You
  4. Al Di Meola, John McLaughlin & Paco de Lucía – Friday Night in San Francisco
  5. Angela Ro Ro – Escândalo
  6. Ozzy Osbourne – Diary of a Madman
  7. Stray Cats – Stray Cats
  8. The Police – Ghost in the Machine
  9. Rush – Moving Pictures
  10. Kraftwerk – Computerwelt
Triumph-Allied-ForcesFernando Bueno
  1. Iron Maiden – Killers
  2. Rush – Moving Pictures
  3. Triumph – Allied Forces
  4. Blue Öyster Cult – Fire of Unknonwn Origin
  5. Riot – Fire Down Under
  6. Tygers of Pan Tang – Spellbound
  7. Def Leppard – High ‘N Dry
  8. Ozzy Osbourne – Diary of a Madman
  9. Saxon – Denim and Leather
  10. Black Sabbath – Mob Rules
MSG_II_-_1981Flavio Pontes
  1. Black Sabbath – Mob Rules
  2. Kiss – Music from “The Elder”
  3. Ozzy Osbourne – Diary of a Madman
  4. Rush – Moving Pictures
  5. Journey – Escape
  6. Van Halen – Fair Warning
  7. Iron Maiden – Killers
  8. Michael Schenker Group – MSG II
  9. Men at Work – Business as Usual
  10. Phil Collins – Face Value
The_Cure_-_FaithJosé Leonardo Aronna
  1. King Crimson – Discipline
  2. Black Sabbath – Mob Rules
  3. Rush – Moving Pictures
  4. Iron Maiden – Killers
  5. The Rolling Stones – Tattoo You
  6. Ozzy Osbourne – Diary of a Madman
  7. The Cure – Faith
  8. Rick Wakeman – 1984
  9. AC/DC – For Those About to Rock
  10. Frank Zappa – Shut Up and Play ‘Yer Guitar
1871309Leonardo Castro
  1. Tygers of Pan Tang – Spellbound
  2. Iron Maiden – Killers
  3. Riot – Fire Down Under
  4. Mötley Crüe – Too Fast for Love
  5. Black Sabbath – Mob Rules
  6. Def Leppard – High ‘N Dry
  7. Holocaust – The Nightcomers
  8. Venom – Welcome to Hell
  9. Ozzy Osbourne – Diary of a Madman
  10. Saxon – Denim and Leather
elomarfantasialeigaMairon Machado
  1. Elomar – Fantasia Leiga para um Rio Seco
  2. Kiss – Music from “The Elder”
  3. Styx – Paradise Theater
  4. Triumph – Allied Forces
  5. Black Sabbath – Mob Rules
  6. Art Blakey – Album of the Year
  7. Rush – Moving Pictures
  8. Van Halen – Fair Warning
  9. Frank Zappa – You Are What You Is
  10. Saxon – Denim and Leather
boc-Fire of Unknown Origin-frontUlisses Macedo
  1. Rush – Moving Pictures
  2. Black Sabbath – Mob Rules
  3. Riot – Fire Down Under
  4. Blue Öyster Cult – Fire of Unknown Origin
  5. Camel – Nude
  6. Tygers of Pan Tang – Spellbound
  7. Journey – Escape
  8. The Rolling Stones – Tattoo You
  9. Toto – Turn Back
  10. Iron Maiden – Killers
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