segunda-feira, 9 de julho de 2018

Cat Stevens - Mona Bone Jakon [1970]




Eis que você é um garoto de 19 anos que consegue conquistar a Europa logo no seu primeiro álbum de estreia. Com a pressão pelo sucesso, acaba sucumbindo a uma grave doença, e fica acamado por quase um ano. Nesse período, cria um dos melhores de sua carreira, e por que não, da música mundial. Estou falando do britânico Cat Stevens, hoje também conhecido como Yusuf Islam.

Stevens aos 18 anos
Antes de converter-se ao mundo do islamismo, Stevens teve uma carreira de grande sucesso no mundo inteiro. Para quem não sabe, ele é o autor da linda "Wild World", que depois ficou conhecida aqui no Brasil através das vozes de Pepê & Neném, com o atentado "Nada Me Faz Esquecer", além de ter recebido versões desde Jimmy Cliff e UB-40 até Mr. Big. Essa canção é do quarto álbum de Stevens, Tea for Tillerman (1970), lançado no mesmo ano daquela que julgo ser sua obra-prima, Mona Bone Jakon.

Esse, portanto, é  o terceiro álbum de Stevens. Chegou às lojas em abril de 1970, e foi o divisor de águas na carreira do artista, conquistando ouro nos Estados Unidos. Stevens teve um um início de carreira estardalhante, com os sucessos "I Love My Dog", "Matthew and Son" e "I'm Gonna Get Me a Gun", do aclamado disco de estreia de Stevens, Matthew and Son (1967). 

A estrondosa estreia de Cat
A faixa-título conquistou segunda posição no Reino Unido, com o álbum chegando na sétima posição, um fato raro no mundo da música para alguém tão jovem. A pressão pela repetição do sucesso era enorme, e o inglês não conseguiu repetir a façanha em seu segundo disco, New Masters, de 1967.

O fracasso de New Masters deixou Stevens muito doente, diagnosticado com tuberculose e infarte do pulmão. Com isso, acabou ficando um ano em repouso forçado, boa parte no hospital King Edward VII Hospital em Midhurst, West Sussex. Lá, começou a compor as canções de seu próximo disco, inspirado por uma vida espiritual e praticando Yoga, meditação e estudos de metafísica, além de tornar-se vegetariano. 

Cat, compondo no hospital

Assim, após se reabilitar, entra em estúdio acompanhado de Alun Davies (violão), John Ryan (baixo) e Harvey Burns (bateria), além dos arranjos de Del Newman e da produção do ex-baixista dos Yardbirds, Paul Samwell-Smith, Smith foi o responsável por "limpar" o som de Stevens, com uma alta qualidade sonora que beneficiou a performance folk rock de Stevens.

Mas foi por conta do nome de Peter Gabriel,vocalista e flautista do Genesis, que eu conheci esse discaço, daqueles que marcaram minha formação musical. Ainda hoje, mesmo passado mais de 20 anos da primeira audição, rola fácil na vitrola, sempre causando a mesma sensação de conforto, emoção, prazer e saudade de descobrir um artista, e dos tempos que bons cantores surgiam pelos quatro cantos do mundo. Explicarei o por que de Gabriel adiante.

Patti e Cat
"Lady D'arbanville", homenagem de Stevens a sua namorada americana, Patti D'arbanville é a responsável por abrir os trabalhos, com o dedilhado do violão e o vocal sofrido de Stevens, em uma música que você se apaixona de cara. Basta ouvir essa canção para saber que o que virá pela frente é um álbum espetacular. A percussão e o baixo pulsante são temperos a mais adicionados na canção, a qual considero uma das melhores da carreira de Stevens. "Maybe You're Right" é uma balada pop ao piano, na qual Stevens coloca para fora seus sentimentos, e com um delicado acompanhamento de violão, baixo e arranjos orquestrais.

"Pop Star" é um grande clássico da carreira de Stevens, na qual ele grita para sua mãe "Yes, I'm Gonna Be a Pop Star" sob a levada de baixo e violão, no melhor estilo folk flower power, em uma faixa ótima para agitar luais mundo a fora. O piano sessentista de "I Think I See the Light" nos remete fácil para o primeiro álbum do Genesis, From Genesis to Revelation, e depois que a banda surge acompanhando os vocais de Stevens, é fácil mesmo confundir a canção com algum material perdido do início do famoso grupo de Peter Gabriel. Aliás, Stevens por vezes até emula Gabriel nas vocalizações, principalmente nos trêmolos vocais que o vocalista e flautista fez destaque em sua carreira.

O lado A encerra com outra linda balada ao violão, a tocante "Trouble". A dolorida interpretação de Stevens é de arrancar lágrimas, e o andamento suave de baixo, bateria e piano vão causando uma sensação tão marcante que é impossível descrever com palavras. Certamente, cantar essa canção em um dia de auto-estima lá embaixo fará um bem danado para o corpo e a mente.

Cat, em 1970

A faixa-título surge com violões, maracas e o vocal de Stevens carregado de efeitos, em uma faixa curta e bem experimental, chegando a mais um clássico, "I Wish I Wish", faixa suave, embalada pelo violão e piano, que lembra bastante "Wide World", o clássico citado acima. Destaque para o breve solo de violão por Davies. E eis que surge Gabriel, fazendo breves passagens de flauta na ótima "Katmandu", faixa com apenas o dedilhado do violão de Stevens e seu vocal, e que irá agradar aqueles que gostam de algo na linha de Nick Drake.

O vozeirão de Stevens toma conta da curtinha "Time", com uma levada pesada do violão e uma das melhores letras do álbum, levando a "Fill My Eyes", outra ótima faixa de se cantar em um luau e alegrar a gurizada. Fechando o disco, "Lilywhite" é uma brilhante mensagem de Stevens ao mundo, com o violão e as orquestrações fazendo a cama para o britânico soltar sua voz cheia de paz.

Yusuf Islam

O nome Mona Bone Jakon é um apelido dado por Stevens para seu pênis. "Trouble", "I Wish, I Wish" e "I Think I See the Light" fizeram parte da trilha sonora do seriado Harold and Maude, de Colin Higgins, em 1971 (o filme aqui no Brasil é conhecido como Ensina-me A Viver). A trilha oficial é toda de Stevens, e só foi lançada em 2007. A produção, a cargo de Paul Samwell-Smith, mostra que além das músicas dos Yardbirds, os caras tinham talento também para comandar grandes discos. Foi o álbum que marcou o lançamento da carreira de Stevens nos Estados Unidos. 

Por lá, vendeu quase 1 milhão de cópias em pouco mais de cinco anos, e continua a vender bem, apesar de Stevens ter sido proibido de entrar no país por conta de sua conversão ao islamismo, o que gerou muita polêmica desnecessária, e portanto, não irei tratar aqui. Por fim, é um daqueles álbuns para ser ouvido a vida inteira, em qualquer momento.

Contra-capa do vinil

Track list

1. Lady D'arbanville
2. Maybe You're Right
3. Pop Star
4. I Think I See the Light
5. Trouble
6. Mona Bone Jakon
7. I Wish I Wish
8. Katmandu
9. Time
10. Fill My Eyes
11. Lilywhite

domingo, 1 de julho de 2018

Supertramp - Parte II


Continuo hoje a apresentar a Discografia Comentada do grupo britânico Supertramp. Com a saída de um dos seus principais membros, Roger Hodgson, coube ao pianista e vocalista Rick Davies continuar o legado da banda, com mais quatro álbuns de estúdio e dois ao vivo. Vamos à eles.

Primeiro álbum sem Hodgson, e com participação de David Gilmour

Com a saída de Hodgson, Davies, John Anthony Helliwell (saxofone, vocais), Bob Siebenberg (bateria) e Dougie Thomson (baixo) cravam o pé na estrada progressiva que era o desejo de Davies, e criam um disco excelente, apesar de muitos ainda torcerem o nariz para Brother Where You Bound até hoje. Lançado em 1985, nele Davies é o nome do disco. A sinistra "No Inbetween", com boa presença do saxofone, e a linda "Ever Open Door", cuja interpretação vocal e técnica ao piano são de emocionar, são alguns de seus melhores trabalhos em toda a carreira, principalmente  a última, onde é apenas ele, piano e sintetizadores. Para quem busca lembranças do passado Trampiano, aconselho ouvir direto "Still In Love", a qual parece saída das gravações de Breakfast in America, essencialmente pelas vocalizações e o saxofone. 
Rick Davies, David Gilmour, Bob Siebenberg, John Helliwell e Dougie Thomson
Temos mais um hit, "Cannonball", faixa dançante, misturando elementos de jazz e pop, onde a presença de sintetizadores é marcante. Os sintetizadores também são o centro das atenções na prog "Better Days", que lembra um pouco algo da The Alan Parsons Project, e inclui vozes da campanha eleitoral americana de 1984. O grande destaque fica para a participação de David Gilmour, fazendo os solos da sensacional faixa-título. Essa foi uma das primeiras "Maravilhas do Mundo Prog" que escrevi aqui pro site, e ainda hoje, é uma das minhas favoritas da banda, sendo com certeza a melhor canção do Supertramp pós-Hodgson. A faixa havia sido composta na época de ... Famous Last Words ..., com dez minutos de duração, mas acabou sendo abortada, em virtude de Hodgson querer afastar-se das tendências progressivas. Foi reconstruída três anos depois, baseada no livro 1984 (George Orwell) e retratando a crise da Guerra Fria, e com mais de dezesseis minutos de duração, ocupa boa parte do lado B. A participação de Gilmour, apesar de curta, é brilhante! Há uma versão demo, até hoje não lançada, com Hodgson nas guitarras. O guitarrista Scott Gorham (Thin Lizzy, Pink Foyd) é o responsável pela guitarra base nessa suíte, que por si só já vale a aquisição de Brother Where You Bound. 

A essencial The Autobiography
Além de Scott e Gilmour, o álbum conta com a participação de Marty Walsh (guitarras), Scott Page (flautas), Doug Wintz (trombone) e Cha Cha (backing vocals). Vigésima posição no Reino Unido, vigésima primeira nos Estados Unidos, e a sensação de que o grupo tinha forças para permanecer sem Hodgson era certa.

O grupo fez uma pequena excursão para promover o álbum, sem incluir nenhuma canção composta por Hodgson. Em 1986, é lançada a coletânea The Autobiography of Supetramp, facilmente uma das melhores coletâneas já lançadas não só pelo grupo, mas por toda a indústria musical. São onze canções, abrangendo apenas os álbuns pós Crime of the Century, e excluindo também Crisis? What Crisis?. Para quem quer conhecer a banda, é altamente recomendável.

O álbum mais eletrônico do Tramp

Free As A Bird, de 1987, é o primeiro, desde Indelibly Stamped, a não ficar entre os 100 mais nos Estados Unidos, sendo realmente o mais fraco do grupo. O quarteto resolve apostar em um som moderno, experimental, voltado para o eletrônico, e contando com a presença da percussão de Steve Reid e de um naipe de metais, formado por David Woodford, Lee Thornburg, Lon Price, Nick Lane e Scott Page. Além dos metais e de Hart, Marty Walsh também participa como guitarrista, e há um grupo vocal de apoio, formado por Evan Rogers, Karyn White, Linda Foot e Lise Miller. O som é bastante peculiar, e tem-se alguns momentos interessantes, no ritmo de "It's Alright", com um bom solo de piano por Davies, na datada mas gostosa de ouvir "Free as a Bird", resgatando o Wurlitzer e os vocais gospel, e a típica faixa Supertramp "You Never Can Tell With Friends", com um bom tempero jazz dado pelos metais. 

Siebenberg, Thomson, Helliwell e Davies. O quarteto remanescente

Por outro lado, existem músicas sem explicação, que são "Not the Moment", a qual parece trilha de um filme mela-cueca da Sessão da Tarde, e "Where I Stand", primeira composição de Davies em parceria com Hart, cuja voz aguda até lembra Hodgson, mas falta algo para convencer os fãs, é de arrepiar os cabelos e se pensar: "Sério que isso é Supertramp?". No meio termo, faixas sem sal ou açúcar como "I'm Beggin' You", que até alcançou certo status nas paradas dos EUA, "It doesn't Matter" e "Thing For  You", que pouco agregam na carreira do Supertramp. A exceção em todo o disco é "An Awful Thing To Waste", faixa com inspirações progressivas, apesar do excesso de eletrônicos, mas que dá para se perceber que ainda havia uma veia prog pulsante nos britânicos, nessa que é disparada a melhor faixa do álbum. Aos colecionadores, existem quatro versões desse álbum lançadas no formato vinil, com capas em azul (a mais comum), rosa, verde e amarelo.

Supertramp em 88. Brad Cole, Marty Walsh, John Helliwell, Mark Hart e Steve Reid (acima). Bob Siebenberg, Dougie Thomson e Rick Davies (abaixo).

O ao vivo Live 188
A turnê de promoção de Free as a Bird trouxe pela primeira e única vez o Supertramp ao Brasil, durante duas apresentações no Hollywood Rock, abrindo a turnê tendo na formação Davies, Helliwell, Thomson, Siebenberg, Hart, Walsh, Brad Cole (teclados, saxofone) e Steve Reid (percussão). Essa formação está presente no segundo ao vivo, Live '88, com Hart interpretando as canções de Hodgson, e destacando-se as covers para "Hoochie Coochie Man" (Willie Dixon) e "Don't You Lie To Me (I Get Evil)" (Tampa Red), não presente no vinil, além dos registros ao vivo exclusivos para "It's Alright", "Not the Moment" e "Free as a Bird". O CD conta também com "Bloody Well Right". Destaque para a contra-capa, com Davies narrando as peripécias dos shows no Rio e em Sampa, e de sair do calorão brazuca para o intenso frio canadense.

Disco de ouro por Brother Where You Bound

O grupo dá uma pausa, sendo que muitos acham que era o fim. Eis que em 1993, Hodgson e Davies voltam a se encontrar, nessa feita para se apresentar durante um jantar em homenagem a Jerry Moss, co-fundador da A & M Records. Na noite de 14 de abril de 1993, no Hotel Beverly Hills Hilton, Hdgson, Davies e John Helliwell, acompanhados de Jeff Daniel, deixaram as diferenças de lado e interpretaram "The Logical Song" e "Goodbye Stranger". Os chefões voltaram a trabalhar juntos, mas divergências contratuais acabaram com o sonho de reunir a formação clássica do Supertramp. De qualquer forma, Davies seguiu com o timão em mãos, e agora como um octeto, lançou o décimo disco de estúdio da banda, em 1997.

O ótimo disco como octeto

Aproveitando "You Win I Lose" and "And the Light" das composições do reencontro com Hodgson, um novo Supertramp surge em Some Things Never Change, de 1997. Agora, há um octeto, mantendo Davies, Helliwell e Siebenberg, ao lado de Hart (efetivado finalmente), Cliff Hugo (baixo), Lee Thornburg (trompete, trombone e backing vocals), Carl Verheyen (guitarras) e Tom Walsh (percussão). Participam como convidados Bob Danzinger (kalimbas) e a dupla de apoio vocal Karen Lawrence e Kim Nail. A primeira faixa até pode-se imaginar a voz de Hodgson, principalmente durante o refrão, tendo um ritmo próximo ao reggae. A segunda, com Walsh na bateria, é daquelas baladas suaves comandadas pelo Wurlitzer, e destacando o vozeirão de Davies. Aliás, para quem acha o Wurlitzer o principal instrumento do Supertramp, divirta-se com "Get Your Act Together" e "Listen To Me, Please", cantada em dueto por Davies e Hart.  

Mike Hart, Lee Thornburg, Carl Verheyen, Rick Davies, John Helliwell, Bob Siebenberg, Cliff Hugo e Tom Walsh

Aprecio bastante a introdução de "It's a Hard World", onde o baixo de Hugo se destaca, e a canção em si, ao longo dos seus quase dez minutos de duração, nos remete aos bons tempos de inspirações progs da banda. Outras faixas que gosto são as experimentações jazzísticas dos mais de oito minutos de "C'est What?", o bluesaço "Help Me Down That Road", a balada "Live To Love You", e o ritmo dançante de "Give Me A Chance", cantada exclusivamente por Hart. Ele também é o vocal central de "Sooner or Later", que junto com a faixa-título, é daquelas faixas que não desagradam, mas também não animam. Por outro lado, "Where There's a Will" fecha o álbum com chave de ouro, e uma interpretação vocal magnífica por Davies. Peca por ser um álbum longo (70 minutos), mas está bem acima de seu antecessor em termos de preferência. Da sua turnê de Some Things Never Change pariu o terceiro ao vivo, It Was The Best of Times (original de 1999, posteriormente lançado em 2006, no formato simples, como Live '97), e mais um longo hiato surge pela frente.



Último álbum, até o momento


Depois de cinco anos, o Supertramp volta com Slow Motion (2002), tendo uma modificação em relação a formação anterior, com Jesse Siebenberg no lugar de Tom Walsh. "Goldrush" é uma canção dos tempos da primeira formação da banda, com Richard Palmer-James, e tem um climão bem flower-power. Esta era a faixa de abertura dos shows da banda até Crime of the Century. Há canções que nos remetem direto aos anos 70, como o Wurlitzer de "Broken Heart", boa canção com uma pegada blues, da faixa-título e de "A Sting in the Tail", que ainda apresenta uma harmônica muito idêntica a de "School". 

Supertramp ainda como octeto: Verheyen, Siebenberg, Thornburg, Davies, Hart, Hugo e Helliwell

Outras, seriam melhor se lançadas em um disco solo de Davies, e aqui ficam "Little By Little", "Over You", nas quais faltam uma coesão musical para agradar os ouvidos por completo. Gosto do ritmo e das variações de "Bee In Your Bonnet", que poderia estar em discos como Brother Where You Bound ou ... Famous Last Words .... Destaque para as longas "Tenth Avenue Breakdown" e "Dead Man's Blues", que fazem florescer vestígios do Supertramp progressivo. Na primeira, uma jazzística faixa comandada pelo piano e pelo trompete, destacando o maravilhoso naipe de metais. A segunda, ótima criação de Davies, com o piano martelando nossa cabeça, perfeita participação do hammond, e fantásticos solos de saxofone e trompete, encerrando o disco em alto nível. Foi vendido nos Estados Unidos somente através do site oficial da banda e não conseguiu posição relevante nos charts.


Supertramp em 2002: Cliff Hugo, John Helliwell, Jesse Siebenberg, Rick Davies, Carl Verheyen, Lee Thornburg, Bob Siebenberg e Mark Hart

Como complemento, cito as coletâneas The Very Best of Supertramp (1990), The Very Best of Supertramp 2 (1992), e Retrospectacle – The Supertramp Anthology, lançada em 2005 e resgatando o raro compacto "Land Ho" / "Summer Romance", lançado em 1975. Também destaco o ao vivo Is Everybody Listening? (2001), com uma apresentação do grupo em 1975, apesar de creditado como um show em Ohio em 1976, além da série de lançamentos 70-10 Tour, os quais saíram no formato Instant Live após os shows da turnê de 40 anos. Apesar de ambos afirmarem não haver possibilidades, os fãs não perdem a esperança de um dia voltarem a ter no mesmo palco Rick Davies e Roger Hodgson, líderes de uma formação com um passado glorioso e de grandes feitos, músicas e sucessos.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Elomar - Cancioneiro [2008]



Quem conhece a obra de Elomar, sabe o quanto ele valoriza seus lançamentos. No imenso cenário que a música brasileira possui, o baiano de Vitória da Conquista Elomar Figueira Mello é um ponto fora da curva, impossível de ser classificado, já que o que ele criou é exclusivo, raro e de uma beleza imensurável perto do que foi feito por aqui.



Em virtude dessa sua perfeição, em 2008 foi lançado o sensacional Cancioneiro, material de altíssima qualidade que engloba toda a arte de Elomar através de partituras, letras e textos diversos. O livro, em tiragem limitada de 2000 cópias, tem edição da Duo Editorial, com Planejamento e Gestão da Duo Informação e Cultura em parceria com a Fundação Casa dos Carneiros e Rossane Comunicação. A transcrição da obra de Elomar foi feita pelos "escribas" Avelar Jr., Hudson Lacerda, Kristoff Silva e Maurício Ribeiro, além do próprio Elomar, que transcreveu "Cantiga do Boi Incantado", e acompanhou todo o processo de pertinho. Também colaborou o filho de Elomar, João Omar, um dos músicos mais talentosos que nosso país pariu nos últimos anos.

Com exceção de seu primeiro álbum, Das Barrancas do Rio Gavião (1973), todos os demais álbuns solo oficiais de Elomar são acompanhados de um luxuoso encarte, trazendo letras e informações sobre as histórias contadas pelo bode trovador. O mesmo luxo aplica-se para Cancioneiro. Essa obra foi lançada em uma grande caixa de papelão, no formato 35,5 x 25 cm, que protege a embalagem central, em formato de caixa também, em papel grosso, no qual estão acomodados um livro central, um caderno de notas e letras e 14 cadernos de partituras.


O livro central, Cancioneiro, possui 80 páginas, encadernado com capa dura. Ao longo das páginas, que abre com um texto da patrocinadora do projeto, a Petrobrás (através do Projeto da Lei de Incentivo a Cultura), e da editora Duo Editorial, assim como um breve texto do próprio Elomar contando um pouco sobre sua história, lê-se uma bela tese sobre a carreira desse gênio da música nacional, que é o texto central, escrito por João Paulo Cunha, chamado de Cantador do Rio Gavião. São 28 páginas que contam sobre toda a trajetória de Elomar até 2008, além de enaltecer e muito o que é a obra do baiano. Uma leitura muito gostosa e que nos mostram como existe qualidade no nosso país. Também há imagens do processo de criação do livro, da caatinga baiana e a discografia de Elomar, desde os discos solos, passando por projetos paralelos e seus primeiros compactos, além de notas sobre o livro.

No caderno Notas e Letras, são 62 páginas, com textos de João Paulo Cunha, falando sobre o processo de criação de Cancioneiro, um texto de Simone Guerreiro, comentando sobre a importância lírica de Elomar para a música brasileira, as letras das 49 canções escolhidas para representar a carreira de Elomar, bem como explicações básicas para a leitura das partituras. 


Estas são dividas em 14 cadernos, e servem de estudos para iniciantes e também feras dos instrumentos como violão, violinos e violas, já que vários são os trechos que necessitam de muito treinamento e técnica para serem reproduzidos. Só esses cadernos já devem fazer parte de cursos de música no mundo à fora, com certeza. As canções presentes com letras e partituras são:

Acalanto
Arrumação
Balada do filho pródigo
Bespa / do 'Auto da catingueira'
Campo branco
Canção da catingueira
Cantada
Cantiga de amigo
Cantiga do boi encantado
Cantiga do estradar
Canto de guerreiro mongoió
Cantoria pastoral
Cavaleiro do São Joaquim
O cavaleiro da torre
Chula no terreiro
Clariô / do 5º canto do 'Auto da catingueira'
Corban / 7º canto de 'O mendigo e o cantador'
Curvas do rio
Dassanta / fragmento do 1º canto do 'Auto da catingueira'
Deserança
A donzela tiadora / 1º canto de 'O mendigo e o cantador'
Estrela maga dos ciganos
Faviela / fragmento da ópera 'faviela'
Função
Gabriela / 2º canto de 'O mendigo e o cantador'
História de vaqueiros
Homenagem a um menestrel
Incelença para um poeta morto / 4º canto de 'o mendigo e o cantador'
Incelença pro amor retirante
Joana flor das Alagoas
Loas para o justo
Louvação / fragmento do 5º canto do 'Auto da Catingueira'
A meu Deus um canto novo
Na estrada das areias de ouro
Naninha / 6º canto de 'o mendigo e o cantador'
Na quadrada das águas perdidas
Noite de Santo Reis
Parcelada / fragmento do 5º canto do 'Auto da catingueira'
A pergunta / do auto 'o tropeiro Gonsalin'
O peão na amarração
O pidido / 4º canto de 'o mendigo e o cantador'
Puluxias / do auto 'O tropeiro Gonsalin'
O rapto de Juana do tarugo
Retirada
Seresta sertaneza
Tirana / do auto 'o tropeiro Gonsalin'
Um cavaleiro na tempestade
O violeiro
Zefinha



Cancioneiro é um achado para quem aprecia arte no Brasil e no mundo. O registro é de fundamental importância, já que exalta o trabalho primoroso de Elomar e contribui para a divulgação da obra do velho bode violeiro baiano. 

domingo, 17 de junho de 2018

Supertramp - Parte I




Formado no ano de 1969 através de um anúncio do pianista e vocalista Rick Davies (ex-The Joint) no famoso semanário inglês Melody Maker, o Supertramp conquistou o mundo na década de 70 com um pop progressivo de alta qualidade, embalado por grandes clássicos que até hoje tocam nas rádios, e consolidado por uma das formações mais emblemáticas do mundo da música.

Essa Discografia Comentada do grupo britânicos irá ser dividida em duas partes. A primeira abrange os sete discos lançados entre a primeira formação da banda e a saída de um de seus principais membros, Roger Hodgson. A segunda, em quinze dias, trará os álbuns lançados pelo grupo pós-saída de Hodgson.

Uma das grandes estreias de todos os tempos

Lançado em julho de 1970, a estreia homônima do Supertramp é uma joia da psicodelia inglesa. A formação do grupo consistia em um quarteto, tendo como pilares o piano e o vocal de Davies (que também nessa época ainda tocava hammond e harmônica) e o violão, baixo (sim, baixo) e o vocal de Roger Hodgson (que também toca violoncelo e flajolé), na companhia de Richard Palmer (guitarras, balalaika, vocais) e Robert Millar (bateria, harmônica). Supertramp é um álbum muito distinto na discografia da banda, mas não tem um fator importante, que irá surgir e se repetir em todos os discos dessa primeira parte, que é a divisão vocal das músicas entre Davies e Hodgson. 

O predomínio dos vocais é de Hodgson, e assim como seus vocais, o disco também exala uma atmosfera jazzy fundamentada na guitarra e no órgão. A única faixa que há divisão de vocais entre Davies e Hodgson é a pegadaça "Nothing To Show", uma pancada com o baixão de Hodgson e o órgão de Davies espancando a cara do ouvinte através do ritmo de Millar e Palmer, e com uma grandiosa jam session na qual afloram inspirações no órgão e na guitarra. "It's a Long Road" é um som psicodélico levado pelo órgão de Rick, assim como "Shadow Song", faixa flower-power onde podemos ouvir o flajolé com destaque. 


O Supertramp e sua primeira formação, ao vivo na TV

As leves "Surely", com linda participaçãodo Hammond, e "Words Unspoken", guiada pela guitarra de Palmer e com o marcante vocal de Hodgson, são as únicas que contém elementos mais conhecidos para os apreciadores da banda na fase "The Logical Song", assim como a baladaça "Aubade And I Am Not Like Other Birds of Prey", com uma sensacional execução de Roger ao baixo, e onde percebe-se os dedilhados de violão que iriam ser um dos responsáveis por consagrar a banda anos depois. Para quem curte explorações instrumentais, delicie-se com "Maybe I'm a Beggar", um show de guitarras, órgão, vocalizações (divididas entre Hodgson e Palmer), para sair cantando pela casa, e a épica "Try Again", treze enlouquecedores minutos de um arranjo musical soberbo, e com uma jam session arrepiante, onde podemos conferir um pouco das habilidades de Hodgson ao baixo, e tendo a guitarra de Palmer como principal instrumento. 

Não posso esquecer da leve "Home Again", apenas com voz, guitarra e violão, e da vinheta "Surely", que pouco acrescentam à um disco impecável, talentosissimamente resenhado pelo meu amigo Ronaldo Rodrigues nesse link, e que vendeu muito pouco em sua primeira tiragem. Somente em 1977, com um relançamento americano, é que o mundo veio a realmente conhecer uma obra seminal dos ingleses. Como uma última curiosidade, foi gravado em apenas nove sessões, todas da meia-noite às 6 da manhã, como uma forma de superstição do grupo.


A primeira formação do Supertramp, adicionada do flautista Dave Winthrop.Rick Davies, Roger Hodgson, Richard Palmer, Frank Miller e Winthrop (L to R)
Algumas canções desse álbum entraram na rara trilha do filme Extremes (1972), de Tony Klinger e Michael Lytton.  Foram usadas "Words Unspoken", "Surely" e "Am I Not Like Other Birds Of Prey". Além delas, destaque da trilha para a participação do grupo Arc. A trupe chegou a participar da edição do Festival da Ilha de Wight de 1970, já com o flautista Dave Winthrop. No mesmo festival que se apresentou The Who, The Doors, entre outros, o Supertramp abriu a segunda noite de espetáculos. Mas ainda naquele ano Palmer discutiu com Hodgson e se mandou para escrever as letras do King Crimson, enquanto Millar teve um colapso nervoso durante uma turnê na Noruega, desmontando a banda. A dupla remanescente, Hodgson e Davies, junto com Winthrop, reformulou o grupo no ano seguinte, e criou outro álbum igualmente excelente.
Nova formação para o segundo disco da banda, tão bom quanto o primeiro


A nova formação contava agora com Davies, Winthrop, Hodgson (assumindo as guitarras),  Kevin Currie (bateria) e Frank Farrell (baixo). Lançado em junho de 1971, Indelibly Stamped é um dos melhores trabalhos dos britânicos, ainda bastante usuário de elementos psicodélicos. 

Aqui os vocais de Davies estão predominantes, começando pelo boogie inicial de "Your Poppa Don't Mind", destacando o baixo de Farrell e o solo de piano elétrico, passando por "Coming Home to See You", balada ao piano que transforma-se em um bluegrass instrumental de primeira, o rockzão de "Remember", a primeira participação do saxofone em uma música dos britânicos, e também com um exímio solo de harmônica por Davies, e a dançante "Friend in Need", contendo boas vocalizações.  "Forever" e "Times Have Changed", ambas com Davies nos vocais, são canções representativas do que irá se tornar o Supertramp anos depois, levadas pelo piano e pelo vocal de Davies em baladas emotivas e tocantes. 


Clássica imagem estampada na capa interna do segundo álbum

Falando em baladas, "Rosie Had Everything Planned" também é representante desse estilo, com um belo solo de acordeão por Farrell, e tendo Hodgson ao baixo e vocal. As outras duas canções com Hodgson no vocal são "Travelled", com sua linda introdução apenas com flauta e violão, e sofrendo uma transformação surpreendente, para um rock sessentista muito bom, e a sensacional "Aries", obra seminal da carreira da banda conduzida pelos violões, a voz de Hodgson e uma alucinante flauta, bem como uma leve percussão e intervenções do piano elétrico, em um clima de luau que dura perfeitos 7 minutos. 

Winthrop também dá o ar da graça no posto de vocalista principal, mandando ver em "Potter", faixa com uma pegada na linha The Band, e com ótima participação da guitarra. Como seu antecessor, vendeu muito pouco no seu lançamento, mas a partir do crescimento da banda, ganhou fama, chegando a conquistar ouro no Canadá e na França. Aos colecionadores, a versão original americana possui os bicos dos seios da mulher tapados com estrelas. Edição essa que é uma raridade hoje em dia.


Supertramp em 1972: Dave WInthrop, Roger Hodgson, Frank Farrell, Rick Davies e Kevin Currie


Davies estava convencido de que sua ideia musical era correta, mas talvez os nomes não fossem os apropriados. Então, reformulou o grupo mais uma vez, substituindo a cozinha por dois músicos não ingleses: o americano Bob Siebenberg (bateria, vocais, na época grifado como Bob C. Benberg) e o escocês Dougie Thomson (baixo), o último ex-The Alan Bowl Set, assim como John Anthony Helliwell, o novo saxofonista, e o responsável por dar o toque final para a criação de uma das mais importantes formações do rock mundial.
O incontestável Crime of the Century


Uma grande reformulação no grupo levou à entrada de John Helliwell (saxofone), Bob Siebenberg (bateria) e Dougie Thomson (baixo), unindo-se a Hodgson (agora nos piano elétrico, vocais, guitarras) e Davies (teclados, piano) para fechar uma das formações mais importantes do rock mundial, que estreou com diversos clássicos. 

A partir de Crime of the Century, lançado em 1974, os britânicos encontram a fórmula do sucesso, e passam a ter a mais importante característica do grupo: a divisão dos vocais. Com Davies, percebe-se um crescimento na interpretação. Ele é responsável pela leve "Asylum", com a presença do piano elétrico em evidência, o jazz "Bloody Well Right", com Hodgson desfilando seus dotes no wah-wah. 


Encarte de Crime of the Century

Já Hodgson emociona através de "Hide in Your Shell", comprovando que além de um ótimo guitarrista também é um exímio pianista e um talentoso vocalista - a dose de emoção que ele atribui à essa faixa, junto com vocalizações muito bem encaixadas, feitas por Christine Helliwell, Scott Gorham e Vicky Siebenberg, é arrepiante - , arrasar corações na suave "If Everyone Is Listening", e comandar o clássico "School", faixa que abre o disco de forma brilhante, através de um riff de harmônica que talvez seja o mais conhecido desse instrumento, e que rapidamente tornou-se essencial em todos os shows da banda a partir de então. 


O single de "Dreamer"
E deixou para a história musical o primeiro grande sucesso do grupo, "Dreamer", faixa comum, pop ao extremo, com o piano Wurlitzer fazendo sua mais importante participação dentre as obras do grupo, mas particularmente, considero a faixa mais fraca do disco, apesar de seu single ter chegado na 13a posição no Reino Unido. 


Já as que considero as melhores faixas são a própria faixa-título, interpretação arregaçante nos vocais e no piano, por parte de Davies, com um crescendo de chorar, e a sensacional "Rudy", uma Maravilha Prog (perdida pela Uol ...) com Davies fazendo misérias ao piano, Helliweel dando uma contribuição incrível com o saxofone, Hodgson estraçalhando com a guitarra e um duelo vocal Hodgson / Davies de tirar o fôlego. Meus colegas consultores e eu comentamos um pouco mais sobre este que é terceira posição dos melhores do grupo em minha opinião (segunda posição) aqui. Chegou entre os 10 mais no Reino Unido (quarta posição), e ficou entre os 40 mais nos Estados Unidos, onde ganhou ouro e o single de "Bloody Well Right" chegou na posição 35.

O mediano quarto álbum

Depois do sucesso de Crime of the Century, e uma longa turnê pela Europa e América do Norte, seria difícil manter o alto nível de qualidade musical que havia sido criado em 1974. Não que o quarto álbum da banda, Crisis? What Crisis?, seja um álbum fraco, mas como é apoiado em canções que ficaram de fora de seu antecessor (para se ter ideia, o Supertramp registrou 42 faixas durante as gravações de Crime of the Century, e só lançou 8), já temos uma ideia do nível mediano que vem pela frente. Um álbum com poucas inspirações progressivas,mas que continua com a democratização das divisões vocais. 

Para Davies, ficou a responsabilidade de comandar a jazzística "Ain't Nobody But Me", o grande sucesso do disco, com ótima participação da guitarra de Hodgson, o ritmo acelerado de "Another Man's Woman", também com importante presença da guitarra, e com um show a parte de Davies ao piano, além de utilizar o Wurlitzer durante a leve "Poor Boy". E que lindo solo de clarinete. Já Hodgson usa o violão e a guitarra para estabelecer suas composições e seus vocais, destacando "Sister Moonshine" como a sua principal canção do álbum, utilizando novamente o flajolé, comandando o dedilhado de "The Meaning", melhor canção do disco, relembrando bastante os primeiros álbum, e criando as bonitas "Easy Does It" e "Two Of Us", garantia certa de romance com o (a) companheiro (a). 


Uma das principais duplas do rock mundial

Hodgson também faz a prima nova de "Dreamer", usufruindo do Wurlitzer durante "Lady". Longe das cordas elétricas, faz até as paredes chorar ao piano elétrico durante a linda "A Soapbox Opera", fácil uma das melhores do LP, contando com a presença de sintetizadores imitando cordas, o que ocorre também na romântica "Just A Normal Day", essa tendo ambos dividindo os vocais. Foi o primeiro disco do Supertramp registrado nos Estados Unidos, o qual virou a sede do Supertramp a partir de então. 

Ficou apenas entre os 20 melhores no Reino Unido, e não atingiu se quer os 40 mais vendidos nos Estados Unidos, mas como disse, não é um disco desprezível. Apenas teve a infelicidade de ser lançado após uma obra-prima, e pior, antes do melhor disco da banda!


O melhor álbum da banda

Even in the Quietest Moments ... (1977) é o álbum que coloca-os novamente nas paradas britânicas e americanas, fazendo uma mistura soberba de baladas pop com pinceladas progressivas, comandado pelo hit "Give a Little Bit", faixa dançante levada pelo violão e voz de Hodgson, como só o Supertramp sabe fazer, destacando o solo de saxofone por Helliwell, e que está frequentemente nas rádios até hoje. Hodgson é a voz na linda faixa título, onde o trabalho de Helliwell é digno de nota. 



Davies canta o jazz suave de "Lover Boy", com as vocalizações já características e um bonito solo de guitarra, e comanda sozinho, com voz e piano, a sensacional "Downstream", uma dedicatória de amor perfeita para esses dias de inverno, gravada ao vivo no estúdio em uma única tomada. O ápice do LP vai para seu lado B, um dos melhores de todos os tempos, começando por "Babaji", emotiva canção cantada por Hodgson e com Helliwell também marcando presença em seu solo. Depois, temos "From Now On", super balada comandada por Davies ao piano e voz, com um encerramento em crescendo fascinante, e o saxofone de Helliwell novamente sendo grande atração. 

A formação clássica: John Helliwell, Bob Siebenberg, Rick Davies, Dougie Thomson


e Roger Hodgson


Por fim, a melhor canção dos britânicos, a mini-suíte "Fool's Overture", uma faixa espetacular, onde o quinteto faz valer sua criatividade de composição, entregando algo complexo, admirável, inesquecível e responsável por fazer com que muitos críticos e jornalistas classifiquem a banda como progressiva, já que ela realmente é uma Maravilha Prog (Uol, cadê essa matéria?). A importância de "Fool's Overture" é tamanha para o álbum que a capa de Even in the Quietest Moments ... destaca um Grand Piano na neve, com a partitura da canção. O disco - único da formação clássica a não contar com a participação do piano Wurlitzer - chegou na décima sexta posição nos Estados Unidos (décimo segundo no Reino Unido), e foi o primeiro LP do grupo a conquistar ouro na América (mais de quinhentas mil cópias vendidas). Foi primeiro em vendas na Alemanha e Canadá, segundo na Nova Zelândia e terceiro na Noruega, ampliando o nome do grupo por todo o planeta.


O grandioso Breakfast in America

Com Breakfast in America (1979), finalmente o Supertramp entra no Hall das Grandes Bandas de Todos os Tempos, e se entrega ao mundo Pop, com o Wurlitzer voltando à tona e comandando as principais faixas e consolidando o som próprio da banda. Platina quádrupla nos Estados Unidos (EUA), é até hoje o álbum mais bem sucedido da banda, tendo vendido mais de 20 milhões de cópias até hoje. Só as clássicas “Goodbye Stranger”, “Take the Long Way Home”, “The Logical Song”, e a faixa-título já fazem o álbum merecer os grandes números que atingiu, pois se tornaram singles de muito sucesso. 

"Goodbye Stranger", cantada por Davies e com um refrão marcante entoado por Davies e Hodgson, além do Wurlitzer puxar o riff, atingiu a quinta posição no Canadá e a décima quinta nos EUA. "Take the Long Way Home" é cantada por Hodgson, resgata a presença da harmônica, e também quinto no Canadá, décimo nos EUA, e não lançado no Reino Unido. "The Logical Song" foi número 1 no Canadá, 6 nos EUA e 7 no Reino Unido. Foi a canção que me apresentou ao grupo - ainda hoje tenho grande apreço por ela, apesar de considerá-la uma das mais fracas do disco. "Breakfast in America" ficou em nono no Reino Unido. Essa última possui a participação de Slyde Hyde na tuba e no trombone, e é um Pop direto, grudento, mas muito bom.


single de "Goodbye Stranger"

Escondida nos sulcos de um disco praticamente perfeito, a obra-prima “Child of Vision” é uma perfeita faixa progressiva, disparada a melhor música do LP, cantada por Hodgson e Davies, comandada pelo Wurlitzer e com um longo trecho instrumental onde o solo de piano por Davies é de se aplaudir em pé. Wurlizer também marcante em “Just Another Nervous Wreck”, onde a guitarra também aparece em destaque. 

Tem-se também a força de “Gone Hollywood”, pancada que abre o disco, cantada por Davies acompanhado de fortes vocalizações e fundamental presença do saxofone, e “Lord Is It Mine”, rara faixa com Hodgson ao piano, e forte candidata a melhor balada cantada por ele. Fechando, a simplicidade de “Oh Darling”, mais uma faixa suave com o Wurlitzer em destaque, cantada por Davies, e “Casual Conversations” para tornar o recheio do LP ainda mais gostoso, e deixar nossos ouvidos satisfeitos com um marco musical sendo transmitido.

Algo que chama bastante a atenção é a participação de Helliwell, cada vez mais importante para caracterizar a sonoridade do Supertramp, e que em especial em Breakfast in America, talvez seja sua melhor performance. Primeiro lugar em vendas na Austrália, Áustria, Alemanha, Canadá, Espanha, Nova Zelândia, Noruega e Suécia, segundo na Suécia e Japão (o mais novo mercado conquistado pelo quinteto até então) e terceiro na Itália e Reino Unido. O mundo estava sob os pés dos britânicos.

O excelente ao vivo Paris

Da turnê de divulgação desse álbum, saiu Paris (1980), um dos melhores discos ao vivo de todos os tempos, e que só atesta a importância de Crime of the Century, já que sete das oito faixas do LP estão registradas nesse ao vivo. Aliás, falando em França, Breakfast in America é até hoje um dos cinco discos mais vendidos em todos os tempos naquele país.

O single de "Dreamer", retirado desse álbum, foi sucesso no Canadá e Estados Unidos. O álbum também contém "You Started Laughing", faixa lançada somente como lado B do single de "Lady". O DVD de Paris foi lançado somente em 2012, sob o nome Live in Paris '79. As coisas já não andavam bem entre os membros do grupo. Hodgson havia abandonado Los Angeles, indo viver nas montanhas do Norte da Califórnia. Era o começo do fim do Supertramp, como apresentarei em quinze dias.

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