domingo, 7 de julho de 2019

Javali - Life is a Song [2019]




Em 2017, o grupo Pop Javali, formado por Marcelo Frizzo (baixo/vocal), Jaéder Menossi (guitarra/backings) e Loks Rasmussen (bateria/backings), lançou seu terceiro full lenght, Resilient, que foi resenhado aqui, e que mostrava uma evolução positiva para o grupo. Porém, em meados do ano passado, a banda anunciou uma mudança de nome, retirando o Pop e ficando apenas Javali. Apesar do Pop ter sido retirado, parece que ele surgiu com força no primeiro EP da Javali, intitulado Life is a Song, e que chegou ao mercado dos streamings em março desse ano, e no formato físico em abril.

O álbum começa com "Runaway", uma faixa mais leve em relação aos demais álbuns, lembrando um pouco grupos do hard dos anos 90, como Extreme. Algo similar ocorre em "Singing Along", apesar de essa já possuir linhas mais pesadas e trabalhadas. O refrão é marcante, e a base lembra um pouco Black Sabbath fase Tony Martin. "Empty Promisses" e "Child's Frustration" mostram o peso tradicional que levou o Pop Javali ao mundo, inclusive fazendo sucesso na Holanda, onde foi registrado Live in Amsterdam, destacando os belos solos de Jaéder. 


A segunda metade do CD é bem melhor que sua primeira, principalmente com a velocidade e o baixão de "Cruel Past", assim como ótimas passagens de guitarra, tornam essa candidata a melhor faixa de Life is a Song. O baixão também é destaque em "Dancing In The Fire", outra faixa com grande pique para pular pela casa ou nos shows. Como bônus, temos a pesadíssima "Read My Mind", uma faixa que parece ter sido gravada ao vivo em estúdio, com uma mixagem bastante crua, mas que assim como suas duas antecessoras, empolga na audição.

Em 26 minutos, o CD encerra-se, deixando a sensação de que o Javali mudou de nome e também de status. As canções foram gravadas em São Paulo no segundo semestre de 2018, no  Studio Atmosphera, com a captação e registro a cargo do produtor Edinho Junior, enquanto a mixagem e masterização foram feitas no estúdio Fusão, a cargo de Thiago Bianchi  (Noturnall). A arte da capa  foi desenvolvida pelo parceiro da banda João Duart, e a distribuição é a cargo da Miranda Records e Altafonte (via digital).  



Aliás, o grupo vem cada vez mais utilizando as modernas ferramentas da “era da internet” como forma de aproximar-se de seu público. Sua discografia está inteiramente disponível em todas as plataformas digitais, e o contato com o público é grandemente explorado por meio de vídeos da banda, bem como o canal oficial de youtube da Javali mostra-se eficaz tanto para divulgação como para aproximação, na medida em que disponibilizam filmagens de bastidores, entrevistas, making-offs, playlists com trabalhos individuais de cada um de seus músicos, entre outros. Para incrementar essa parte virtual, toda semana novos vídeos trazem para seus seguidores performances exclusivas e dicas práticas de execução em que a audiência poderá conferir mais de perto cada instrumento da banda.

Concluindo, se antes tínhamos uma banda que estava cada vez mais se consolidando na cena metálica mundial, hoje o Javali parece estar fincando seus pés no hard rock, mas ainda necessita comer algum feijão para finalmente alcançar o status de incontestável,reconquistar os fãs que já havia arrebatado nos tempos de Resilient e Live in Amsterdam.


Track list


1. Runaway
2. Empty Promisses
3. Singing Along
4. Child's Frustration
5. Cruel Past
6. Dancing In The Fire
7. Read My Mind (Bonus Track)


quinta-feira, 13 de junho de 2019

Focus - Parte II



Depois de um longo retiro, com apenas dois álbuns lançados em um período de mais de vinte anos, o grupo firmou-se nos anos 2000, lançando álbuns de estúdio regularmente e ressurgindo como uma das maiores forças do rock progressivo atual. Voltando no tempo, em 1985, novamente o nome Focus apareceu no cenário musical, e dessa vez, de forma totalmente surpreendente.

Um dos piores discos da história

Lançado em 1985, Focus é sem dúvidas, essa é a maior mancha negra da história do Focus, e quiçá da história da música. Quando ninguém esperava, a união de Akkerman e Van Leer foi anunciada em 1984, e assim, criou-se uma grande expectativa para o que seria parido pelos dois gênios comandantes do grupo dez anos após a separação. Quando Focus chegou ao mercado, a decepção foi maior do que a imensa barriga (e careca) estampada por Van Leer na contra-capa do álbum. 

O excesso de sintetizadores e batidas eletrônicas em nada convergem para os instrumentos acústicos (violão e flauta respectivamente) ostentados pela dupla na contra-capa do LP. O único momento razoável é "King Kong", principalmente por não conter nada eletrônico, mas nada mirabolante, e a jam "Who's Calling", enaltecendo as virtudes de Akkerman na guitarra e Van Leer na flauta. Há alguns momentos interessantes durante "Russian Roulette", com a participação do baixista Tato Gomez, e "Olé Judy", que lembra um pouco o que Rick Wakeman fez na mesma época, mas pelo menos dando espaço para a flauta e a guitarra se exibirem agradavelmente. 

Jan Akkerman e Thijs Van Leer (1985)

O resto são canções injustificáveis, seja "Indian Summer", tendo a presença de Tato e também da tabla de Ustad Zamir Ahmad Khan, a participação de Ruud Jacobs tocando baixo durante os insuportáveis dez minutos de "Beethoven's Revenge" ou Sergio Castillo fazendo a percussão eletrônica de "Le Tango", uma terrível tentativa de tornar o tango moderno. Um disco muito fraco, que é a mais pura demonstração de como os anos 80 serviram para destruir com a carreira de grandes nomes do rock dos anos 70. Recomendado apenas para colecionistas.

Bert Ruiter, Thijs Van Leer, Jan Akkerman e Pierre Van der Linden, Na reunião de 1990


Em 1990, a principal formação do Focus, com Van Leer, Akkerman, Bert Ruiter (baixo) e Pierre Van der Linden (bateria) voltou a se reunir para duas apresentações nos programas da TV holandesa Veronika e Goud van Oud. Infelizmente, quando todos achavam que a reunião iria vingar, nada mais do que essas duas apresentações surgiu. Em 1993, Van Leer e Akkerman dividiram o palco durante o North Sea Jaz Festival. Van Leer continuou sua carreira solo, e em 1999, reformulou o Focus, trazendo na formação Hans Cleuver (baterista da primeira formação da banda), Ruiter e Menno Gootjes (guitarras). 

Vários shows pela Holanda foram realizados, e depois de algumas mudanças na formação, eis que o Focus entra nos anos 2000 com toda força. Van Leer juntou-se aos membros da banda CONXI Bobby Jacobs (baixo), Ruben Van Roon (bateria) e Jan Dumée (guitarras) e ressuscitou o Focus. Van Roon nem chegou a esquentar as baquetas, e foi substituído por Bert Smaak. Esse time lançou Focus 8 em 2002, que colocou o grupo no mercado novamente, através de uma extensa turnê mundial, promovendo o melhor trabalho da banda desde Hamburgo Concerto (1974).

O retorno definitivo do Focus nos anos 2000



 O álbum resgata a sonoridade marcante do Focus anos 70, sendo por exemplo impossível não lembrarmos de "House of the King" durante o solo de flauta e violão de "Tamara's Move", a singela oitava parte (faixa-título) de "Focus", a bela "De Ti O De Mi", e também de segurar as lágrimas na arrepiante revisão instrumental de "Brother", totalmente modificada em relação a péssima canção registrada em Focus Con Proby, tendo Dumée reproduzindo a linha vocal de Proby na guitarra e com uma tímida citação à "Eruption" em seu encerramento. 

Temos uma mistura inovadora do yodel e peso durante "Hurkey Turkey", canção que virou o grande sucesso do álbum, trazendo a participação de Geert Scheijgrond na guitarra, "Neurotyka", uma neta com genes fortemente ligados a avó "Hocus Pocus", gravada ao vivo no estúdio e com Ruben Van Roon na bateria, e "Rock & Rio", alegre homenagem à cidade Maravilhosa. O yodel também está presente em duas canções totalmente opostas, a festiva "Flower Shower", canção bônus totalmente desnecessária, sendo a mais fraca do álbum, e "Što Čes Raditi Ostatac Života?", sem dúvidas a melhor canção de Focus 8, levada pelo dedilhado flamenco do violão, os longos acordes de órgão e um solo magistral de Dumée, que comanda a suavidade e simplicidade de "Blizu Tebé", outra fortemente inspirada nos anos 70. 

Parte interna de Focus 8

A flauta é o principal instrumento de "Fretless Love", trazendo elementos de Focus 3 com o som dos anos 2000. Um retorno essencial e definitivo, trazendo o grupo novamente para os palcos, e possibilitando a geração de uma nova leva de fãs, além do resgate dos mais antigos.



Uma extensa turnê mundial trouxe o Focus pela primeira vez ao Brasil em novembro de 2002, para shows no Rio de Janeiro, Macaé, São Paulo e Belo Horizonte. Essa turnê foi registrada no DVD Live in America (2002). O grupo voltou novamente ao Brasil em março do ano seguinte, com três concorridas apresentações em São Paulo, duas no Rio de Janeiro, uma em Porto Alegre e uma em Belo Horizonte. No mesmo ano, foi lançado o CD Live at BBC de forma oficial. O mesmo já aparecia como bootleg na década de 90, e nele esá uma apresentação da banda na rádio inglesa em fevereiro de 2006. 


Em 2004, Pierre Van der Linden assumiu novamente seu posto, no lugar de Smaak. No mesmo ano, foi lançado o excelente DVD Masters from the Vaults, um documentário repleto de imagens raras e com toda a história dos holandeses, que seguiram excursionando, passando mais uma vez pelo Brasil (em maio de 2005, com quatro apresentações em São Paulo, mais uma apresentação no Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte), até o novo lançamento, em 2006, já com Niels van der Steenhoven no lugar de Dumée. Vale citar que essas vindas ao Brasil ocasionaram um futuro lançamento, como veremos na sequência, graças a uma jam session realizada no "Boteco" Orquídea, em Niterói, junto ao pianista Marvio Ciribelli.
O único álbum com Niels na guitarra

Lançado em 2006, Focus 9 / New Skin traz uma nova formação, que dá uma nova cara para o Focus, principalmente por conta da guitarra jovem de Niels, que foge bastante do virtuosismo empregado por Dumée, e assemelha-se mais as linha de Akkerman, sendo que por diversas vezes confundimos os timbres da guitarra e achamos que é o próprio Jan quem está nas seis cordas, principalmente durante as suaves linhas de "Sylvia's Stepson", transformando-se em uma pesada canção na parte central, e nas duas partes de "Focus", no caso a balada "Focus 7" e a jazzística maluca "Focus 9" (para os curiosos de plantão, "Focus VI" está presente no álbum Reflections, lançado por Van Leer em sua carreira solo, no ano de 1981). 

Por outro lado, o guitarrista criou um suingue inigualável em "Niel's Skin", única faixa de Focus 9 escrita por ele, e que casou muito bem com a cozinha Jacobs / Van der Linden, além de trazer o free jazz como fonte adicional de criatividade para a música clássica durante os épicos e divertidos dez minutos de "European Rap(sody)", na qual Thijs é o astro principal, seja na flauta, no órgão, no piano e até nas vocalizações que aparecem na canção, citando nomes de canções do grupo que acabam formando a letra dessa pequena Maravilha. 

Thijs van Leer; Pierre Van Der Linden; Bobby Jacobs e Niels Van Der Steenhoven. Focus em 2006

O Focus moderno, com Niels e Van Leer emulando as mesmas melodias, está na alegre "Pim" e nas baladas "Ode to Venus"  e "It Takes 2 2 Tango", a qual poderia ser um pouco mais curta. O álbum traz uma recriação instrumental para "Black Beauty" (de Focus Play Focus), que particularmente considero bem melhor que sua versão original, e a segunda parte de duas canções gravadas pelo grupo anteriormente: "Hurkey Turkey 2", um pouco mais lenta que a primeira versão (presente em Focus 8), e com yodels simulando as linhas da "Marcha Turca" de Mozart; e "Just Like Eddy", sequência de "Eddy" (Focus Con Proby) tendo Jo de Roeck nos vocais, e totalmente descartável. Já o excesso de yodels do álbum anterior é desconstruído em Focus 9, aparecendo apenas em "Hurkey Turkey 2" e em "Aya-Yuppie-Hippie-Yee", uma agitada faixa, destacando a performance de Van der Linden, assim como a flauta está mais tímida, aparecendo apenas nas partes leves de "Curtain Call". No geral, um disco muito bom, que mantém a vontade de se ouvir o grupo em alta.


Mais excursões seguiram-se, com outras três vindas ao Brasil: em junho de 2008 (São Paulo, Rio de Janeiro e Recife); em março de 2010 (Belo Horizonte, Juiz de Fora, Porto Alegre, Goiânia e São Paulo); e março de 2012 (Belo Horizonte, Pouso Alegre, Rio de Janeiro, Goiânia, Votorantim e São Paulo). Nesse meio tempo, em janeiro de 2011, Niels anunciou sua saída oficial do Focus, sendo substituído por Menno Gootjes. Esse time voltou ao estúdio para gravar Focus X.

O melhor álbum sem Akkerman na opinião do autor


Contando com uma belíssima arte sob a mão do mestre Roger Dean, Focus X, lançado em 2012, é para mim o melhor álbum do Focus sem Jan Akkerman. O grupo está solto, e a cozinha Ruiter / Jacobs funciona como uma máquina perfeitamente ajustada. A pancada "Father Baccus", que abre a bolacha, entra na lista das melhores faixas que o grupo gravou, e Van Leer comprova seu talento na flauta durante a circense "Talk of the Clown" e a veloz "All Hens On Deck" - que também apresenta um bonito duelo de yodel com guitarra - além de declamar um poema em latim durante a viajante "Hoeratio". 


Menno Gootjes, Thijs Van Leer, Bobby Jacobs e Pierre Van der Linden


Belo também é o trabalho de piano, violão e guitarra em "Amok In Kindergarten". A guitarra de Menno conversa com o ouvinte durante "Message Magique" e "Victoria". Surpreendentemente, temos Ivan Lins fazendo a voz de "Birds Come Fly Over (Le Tango)", e mais surpreendentemente ainda é que é uma boa canção. Outra canção com convidado é "Crossroads", apresentando Berenice Van Leer nas vocalizações, e o papai  Thijs fazendo a voz principal. Focus X também abre espaço para as bonitas melodias da última parte de "Focus", "Focus 10".  A versão japonesa possui dois bônus: “Santa Teresa”, trazendo Ivan Lins nos vocais, em espanhol, e uma versão ao vivo para “Hocus Pocus”. Recentemente, Van Leer declarou que esse é um dos seus discos preferidos da banda, ao lado de Moving Waves e Focus 3.

O grupo retornou ao Brasil para mais apresentações em abril de 2014, com uma grande turnê e shows em Florianopolis (09), Curitiba (12), Pouso Alegre (12), Rio de Janeiro (15), Belo Horizonte (16), Catanduva (17), Porto Alegre (18) e São Paulo (19). No mesmo mês, mais precisamente no dia 29, lançam pelo novo selo, In And Out of Focus Records, mais um álbum.


Coletânea com regravações

Golden Oldies (2014) trata de regravações de clássicos da banda com a formação de Focus X. Estão aqui "Aya Yippie Hippie Yee", "Brother" (similar ao arranjo de Focus 8, e não ao de Con Proby), "Focus 1", "Focus 3 & 2", "Hocus Pocus", "House Of The King", "Neurotica", "Sylvia" e "Tommy" (uma das partes de "Eruption"). Com exceção de "Focus 3 & 2", que faz uma mistura dessas duas partes de "Focus", e de pequenas modificações em "Focus 1" e "Sylvia", conforme apresentadas nos shows da época, bem como Van Leer nos vocais de "Brother", não há nenhum arranjo novo. 

Apenas uma nova formação interpretando de forma fiel os arranjos originais. Claro que os solos de Menno são bastante diferentes dos de Akkerman (nas faixas em que este era o guitarrista), Van Leer acrescenta novos improvisos aqui e acolá, a cozinha modifica algumas partes de determinados trechos das canções, mas no geral, é mais um caça-níqueis do que um item de exceção na discografia da banda. Vale como uma boa coletânea revisitada.
Álbum gravado no Brasil e com músicos brasileiros

Apresentando uma série de convidados, e sob o título Focus and Friends Featuring Marvio Ciribelli, Focus 8.5 / Beyond The Horizon foi gravado em nosso país durante a turnê de 2005, como resultado das tours citadas acima. O pianista Marvio Ciribelli é a atração na capa, e um dos arranjadores ao lado de Van Leer. Além do brasileiro, estão também Sérgio Chiavazzoli (guitarras, violões), David Ganc (Flauta), Marcelo Martins (Flauta), Mário Sève (Flauta), Arthur Maia (baixo), Rogério Fernandes (baixo), Amaro Júnior (bateria), Marcio Bahia (bateria, voz), Fabiano Segalote (Trombone, voz), Amaro Júnior (Percussão), Flavio Santos (Percussão), Marcio Bahia (efeitos), Mylena Ciribelli (ela mesma, repórter esportiva, efeitos e vocais), Thaís Motta (vocais), Marcio Lott (vocais), além de Van Leer, Van Der Linden, Jacobs e Dumée. 

O Focus como banda surge apenas na estonteante "Hola, Como Estas?", belíssima e quebrada faixa com a participação vocal dos amigos brasileiros. Thijs, Jacobs e Pierre estão em "Surrecit Christus", faixa hipnotizante, onde as flautas de Thijs, David e Mário Seve são os destaques junto das vocalizações de Thaís, além de um solo de baixo por Jacobs. Os músicos estão improvisando de forma descontraída, sem compromisso, como comprova-se em "Focus Zero", faixa fantástica na qual Van Der Linden e Van Leer são o centro das atenções, trazendo o brilhante suingue de Marvio ao piano, Arthur no baixo e Sérgio na guitarra. 

A versão nacional, devidamente autografada

É legal de ver a influência do som brasileiro em "Millenium", faixa criada por Dumée, com a participação de Van der Linden, mas onde o principal destaque é o suingue percussivo provocado por Amaro, Flavio, Marcio e Pierre, o piano elétrico de Marvio e o piano acústico do próprio Dumée, que também faz vocalizações na melhor linha Milton Nascimento, sendo essa uma faixa que tranquilamente apareceria em algum disco do Clube da Esquina. Marvio é o responsável pela criação de duas canções, "Rock 5", faixa linda, dividida entre uma balada que destaca as vocalizações de Thaís e uma dançante sessão instrumental, com Jacobs sendo o único membro do Focus a participar, e "Înãlta", marchinha com pitadas progs tendo a flauta de Van Leer e as suaves vocalizações de Mylena tornando a mesma ainda mais agradável. 

Por fim, Van der Linden e Marcio fazem um duelo nada empolgante em "Talking Rhythms", faixa onde somente as baterias e vocalizações estão presentes, e bem desnecessária. No geral, um bom álbum, que no Brasil, foi lançado com uma capa diferente, trazendo caricaturas dos músicos da banda e de alguns dos "amigos". Também é de 2016 o CD e DVD ao vivo Live In England, com o registro de Bilston, no dia 28 de abril de 2009. Mais uma mudança na formação, com Udo Pannekeet substituindo Jacobs, e assim, surge mais um disco da banda, logo após mais uma importante compilação de sobras, chamada The Focus Family Album, de 2017.

Coletânea dupla com material diverso
Essa coletânea dupla, com mais uma belíssima arte de Roger Dean, traz canções do Focus somadas a faixas solo de Van Leer, Van Der Linden, Gootjes, Pannekeet e do projeto Swung, um trio com Menno, Jacobs e Van der Linden. Concentrando-se apenas nas canções do Focus, há de tudo um pouco. O Brasil participa com o Estúdio Mosh cedendo espaço para a jam session "Mosh Blues", gravada em 18 de março de 2012, e para "The Fifth Man", registrada no dia 13 de abril 2014. A primeira é uma jam session com improvisos muito simples, enquanto a segunda é uma faixa muito boa, hardeira e mais trabalhada, pensada inclusive de aparecer em Focus XI, mas que foi descartada. "Santa Teresa" é o bônus da versão nipônica de Focus X, com Ivan Lins nos vocais.Falando em Ivan Lins, Van Leer substitui ele nos vocais de "Birds Come Fly Over (Le Tango)", cujo instrumental é idêntico ao de Focus X. Do mesmo álbum temos uma versão editada e com nova mixagem vocal para "Victoria". Ainda, "Five Fourth" nasceu no Brasil, e foi gravada em apenas uma tomada, com os músicos tocando uma sequência de notas escritas por Van Leer no intervalo das gravações de Focus X. "Clair-Obscur" e "Winnie" são versões primárias da mesmas faixas que irão aparecer em Focus XI. "Song For Eva" é uma longa peça de quase dez minutos, trazendo o poema “They Say that Hope is Happiness” de Lord Byron, e com um belo solo de Menno. O vocalista Jo de Roeck, que participou de “Just Like Eddy” em Focus 9, interpreta "Fine Without You". Da "família", "Nature Is Our Friend" e "Let us Wander" foram gravadas exclusivamente para o disco, tendo apenas Van Leer na sua flauta, caminhando junto a natureza. "Hazel" e "Two-part Intervention", também exclusivas do álbum, são lindas peças ao violão clássico, na linha de canções de Bach. Já "Riverdance" e "Spiritual Swung", solos de bateria, foram retiradas de Pierre’s Drum Poetry, um disco apenas para os amigos e familiares, lançado em 2000, mas que teve uma tiragem mundial em 2018. "Song for Yaminah" é uma das faixas que Pannekeet apresentou em seu teste, enquanto "Anaya" destaca o uso do baixo de seis cordas. Já as duas faixas do projeto Swung são do álbum Swung Vol. 1 & 2, de 2014. Apesar de longo (80 minutos), não é um disco a ser desprezado pelos fãs, valendo muito a pena sua posição nas prateleiras.

No dia 04 de março de 2018, Hans Cleuver, primeiro baterista da banda, faleceu. O baterista, mesmo após sair do Focus, continuou esporadicamente trabalhando com Van Leer e Akkerman nos discos solos dos mesmos.





Focus 11 [2018]

Outra linda capa de Roger Dean dá sequência aos trabalhos e shows que a nova formação já vinha apresentando, com improvisos e muita experimentação, Focus XI encerra (por enquanto) a Discografia dos holandeses no mesmo nível dos álbuns Focus 8 e Focus 9. Das faixas mais Focus, posso citar " How Many Miles?", na linha de "Sylvia" e com Van Leer aos vocais, sem yodel, a bela "Theodora Na Na Na", com um riff de flauta e guitarra hipnotizante, e a intrincada "Mazzel", para mim a melhor do disco, principalmente pela sua complexidade. Mas quer mesmo Focus, então faça uma emocionante volta ao passado de "Focus II" ou "Focus III" com "Mare Nostrum", principalmente pelo timbre Akkermaniano da guitarra de Gootjes, mas com uma virada surpreendente em sua segunda metade, ou com "Focus 11", bem diferente das versões anteriores, e mantendo o nível de capacidade de tocar os ouvidos e a mente ds fãs. No mais, temos de tudo um pouco. Inspirações latinas em "Heaven", com Van Leer destacando-se ao piano, a mistura de jazz e rock 'n' roll de "Palindrome" (um espetáculo a parte de Van der Linden na bateria) e "Who's Calling", ambas lembrando os grandes nomes do jazz rock do final dos anos 70, além de um retorno aos anos 80 em "Final Analysis", momentos de profunda intensidade emocional em "Winnie" (que já tinha dado as caras em Focus Family, aqui registrada com um arranjo idêntico), com a flauta e o piano derretendo corações. "Clair-Obscur", outra que está em Focus Family, também possui um arranjo similar, mas prefiro a versão anterior, mais crua em termos de equalização. Focus 11 foi lançado em uma limitada tiragem em vinil turquesa, especial para colecionadores.

E para mais histórias e notícias, indico o excelente blog Focus the Band, totalmente dedicado ao maior grupo holandês da história da música.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Livro: Bob Dylan - No Direction Home (A Vida E A Música De Bob Dylan) [2010]



Há algum tempo, escrevi sobre o belíssimo DVD duplo No Direction Home, que trata sobre a carreira do músico americano Bob Dylan no período entre seu nascimento em 1941, e o final da década de 60. Esse DVD tem como parente próximo o igualmente belíssimo livro No Direction Home (A Vida E A Música de Bob Dylan). Lançado primeiramente em 1986 pelo escritor Robert Shelton, em 2010 o livro recebeu uma nova edição revisada, que irei tratar hoje sobre ela.

Shelton foi o responsável, digamos assim, por apresentar Dylan ao mundo. Escrevendo para o New York Times, com o título Bob Dylan: Um Cantor de Folk com Estilo Distinto (29 de setembro de 1961), o jornalista foi o primeiro a traçar um perfil positivo para o jovem Dylan, exatamente um ano após o mesmo ter chegado em Nova Iorque. Desde então, acompanhou fielmente a carreira de Dylan, e teve autorização para publicar o livro ainda na década de 60. Porém, No Direction Home demorou quase 20 anos para ficar pronto, e quando estava, Shelton recebeu uma dura missão: ou ele cortava 180 mil palavras da edição apresentada a editora, ou reduzia 35 mil dólares de seu orçamento.


O texto de Robert Shelton, que praticamente apresentou Bob Dylan ao mundo

Isso foi em outubro de 1983, e Shelton preferiu reduzir 35 mil dólares de direitos autorais. Com 210 mil cópias vendidas de imediato, em setembro de 1986 foi lançada a primeira edição, de grandioso sucesso. A edição de 2010 foi atualizada por Elizabeth Thomson e Patrick Humphries. Nela, foram adicionados novos textos, assim como um Prelúdio e uma atualização da Discografia, Bibliografia e Cronologia da carreira de Dylan até 2010.

A edição de 2010 apresenta então o Prelúdio, totalmente inédito, uma Introdução de 10 páginas, Notas da primeira edição, Discografia Selecionada, incluindo participações especiais em discos de alguns autores, mais de 60 fotos distribuídas ao longo de 48 páginas, além da Bibliografia Selecionada e da Cronologia de Dylan a partir de 1979 (ano que Shelton encerrou a escrita de No Direction Home) a 2010 (ano da edição), bem como treze capítulos. A nova edição totaliza 736 páginas.

A introdução deixa clara que na edição de 2010 há uma melhor organização cronológica, adicionando cerca de 20 mil palavras e anedotas advindas dos manuscritos originais de Shelton de 1977. Além disso, são feitas adições aos capítulos Um, Quatro e Dez, além da celebrada entrevista do voo entre Lincoln e Denver, na qual Dylan afirma que era viciado em heroína, estar na íntegra. Por outro lado, em relação ao original, as partes das gravações piratas e Os Novos Dylans foram removidas.


Peter, Paul and Mary, Joan Baez, Bob Dylan, the Freedom Singers, Pete Seeger e Theodore Bikel, cantando “We Shall Overcome” no Newport Folk Festival de 1963.

Os capítulos são divididos por nomes relacionados à frases que aparecem em canções de Dylan, e assim temos:

I - Não Levante A Voz Aqui
II - O Extremo Errado Do Mississippi
III - Talking Greenwich Village Blues
IV - Positivamente 161 West Fourth Street
V - Não Sou Um Fantoche Laureado
VI - Rola, Gutenberg
VII - Diversas Temporadas No Inferno
VIII - O Orfeu Elétrico
IX - No Coliseu
X - Um Pé Na Estrada
XI - Escutando O Silêncio
XII - Correndo Livre
XIII - Trovão, Furacão E Chuva Forte


Robert Shelton e Bob Dylan

Depois do prelúdio e da introdução, Não Levante A Voz Aqui traz ao leitor a vida do pequeno Bob na pacata cidade de Hibbing, Minnesota. A dura vida no interior, bem como o relacionamento com a primeira namorada, Echo Helstom Shivers, são os únicos momentos de atração inicial. É a partir de O Extremo Errado Do Mississippi que o Dylan que conhecemos passa a sair das páginas de No Direction Home. Percebe-se a inteligência e, por que não, arrogância do adolescente Dylan quando ele rouba cerca de 20 discos do amigo John Pancake, colega de faculdade em Dinky Town, apenas por que considerava que o amigo não era um apreciador de música como ele. Esse capítulo traz também informações sobre raras gravações de Dylan em 61, além de algo que chama a atenção durante todo o livro, que é um resumo biográfico da vida / obra de algum artista ou pessoa citada no texto. Nesse capítulo em especial, surgem breves resumos da vida de Woody Guthrie e Chuck Berry, dois nomes fundamentais e influentes na carreira de Dylan.

Talking Greenwich Village Blues traça a vida de Dylan pegando carona para chegar em Nova Iorque, e seus desaforos com imprensa e pessoas em geral. Destaca também uma importante amizade com o músico Dave Van Ronk, um dos responsáveis por incentivar Dylan a gravar, e o encontro com Guthrie, que deixou Dylan muito emocionado, já que seu ídolo estava vivendo os últimos dias de vida. Por fim, surge o contrato de 5 anos com a Columbia e uma opinião faixa a faixa de Shelton sobre Bob Dylan (1961). Positivamente 161 West Fourth Street relata a parceria calorosa de Dylan com o empresário Albert Groosman. Temos também um faixa a faixa de Freewhellin' (1963) e destaque para o boletim de protesto mimeografado, que divulgou muitas canções de Dylan no início de sua carreira, bem como o raro álbum Broadside Ballads Vol. 1, com faixas de Dylan e diversos outros artistas.


Imagens do livro

Não Sou Um Fantoche Laureado passa a comentar sobre o período do auge da carreira de Dylan no Folk Rock. Aqui aparecem comentários sobre a participação do músico no Newport Folk Festival de 1963, a profunda amizade com Joan Baez, algumas entrevistas, sempre com humor mordaz, e um discurso fracassado no Tom Paine Award de 1963, apresentado na íntegra, e que deixou muita gente indignada com o comportamento agressivo e arrogante do músico, principalmente quando ele alegou ter empatia por alguns sentimentos de Lee Harvey Oswald, isso dias depois do assassinato de John Kennedy.

Rola, Gutenberg traz um faixa a faixa de The Times They Are A-Changing (1964), uma profunda análise das 11 Outlined Epitaphs (textos que aparecem na contra-capa do mesmo disco), um faixa a faixa de Another Side of Bob Dylan (1964) e detalhes sobre a escrita do livro Tarantula, lançado por Dylan somente em 1971. Diversas Temporadas No Inferno tenta mostrar um outro lado de Dylan, ligado as causas sociais e com alguma roda de amigos. Aqui são relatados a participação do artista junto ao comitê de emergência pelas liberdades civis, um longo passeio atravessando os EUA com amigos, a ida para Londres (documentada no já citado DVD No Direction Home) bem como a polêmica apresentação no Newport Folk Festival de 1965, onde realizou seu primeiro shows com uma banda elétrica.


Mais algumas imagens do livro, destacando a capa de Tarantula

Essa fase elétrica tem mais detalhes (e desgastes) em O Orfeu Elétrico. Dylan passa a ser considerado o pai do folk rock, e recebe muitas vaias dos fãs mais antigos, por onde passa. O ápice das vaias ocorre no show de 10 de maio, no Albert Hall, onde é chamado de Judas por um dos fãs (conforme registrado no belíssimo CD da Bootleg Series - Bob Dylan Live 1966, The “Royal Albert Hall” Concert, que apesar do nome errado, registra o show suparcitado. Entrevistas problemáticas para o New York Post e KQTP TV, a complicada turnê inglesa, a filmagem de Don't Look Back e um faixa a faixa de Bringing It All Back Home (1965) e Highway 61 Revisited (1965) também estão presentes nesse que é um dos melhores capítulos do livro para quem gosta de saber podres de seu ídolo.

No Coliseu destaca o grupo canadense The Band, como eles influenciaram na sonoridade de Dylan na segunda metade dos anos 60, inclusive acompanhando o mesmo em shows e gravações de discos, e faz um faixa a faixa detalhado de Blonde On Blonde (1966), considerado por Shelton um dos melhores discos de Dylan. No capítulo Um Pé Na Estrada está a entrevista completa dada por Dylan à Shelton no vôo entre Lincoln e Denver (1965), bem como detalhes da primeira visita de Dylan à Austrália, e uma turnê europeia ainda sob muitas vaias.


Com a companheira Suze Rotolo, em meados dos anos 60

O acidente de moto que Dylan sofreu em 29 de julho de 1966 aparece em Escutando O Silêncio. Aqui, Shelton descreve com detalhes a cidade de Woodstock, e como foi a recuperação de Dylan pós-acidente. É interessante que ele não se envolve em melodramas ou heroísmos para contar o que aconteceu, passando pelo acidente como se aquilo fosse uma situação corriqueira. Shelton se prende na musicalidade e na recuperação de Dylan, gravado com a The Band o ótimo The Basement Tapes e fazendo uma inesquecível participação de retorno aos palcos no Isle of Wight Festival de 1969. Ainda há um faixa a faixa de John Wesley Harding (1967) e uma pequena parte dedicada a parceria de Dylan com Johnny Cash, outro que tem uma breve biografia apresentada ao leitor. Também há breves comentários sobre Nashville Skyline (1969).

Na reta final do livro, Shelton começa a apressar o passo. Correndo Livre abrange a primeira metade da década de 70, e cinco álbuns: Self Portait (1970, esculachado pelo autor como um dos piores discos de Dylan), breves comentários sobre New Morning (1970), Dylan (1973) e Planet Waves (1974) e um faixa a faixa de Blood on the Tracks (1975), ressaltando que esse último não é um disco em homenagem à Joan Baez como muitos atestam. Também há a brilhante participação de Dylan no Concerto para Bangladesh, que levantou e muito os fundos adquiridos em auxílio ao país, e como Dylan desenvolveu seu lado de ator no filme Pat Garret and Billy the Kid, interpretando o personagem Alias. Ainda há espaço para um breve comentário sobre a grande turnê americana de 1974, e assim, chegamos ao último capítulo de No Direction Home.


Com Joan Baez, na Rolling Thunder Revue

Trovão, Furacão E Chuva Forte resume a segunda metade da década de 70, narrando com precisão diversos momentos da gigantesca turnê Rolling Thunder Revue, que iniciou no final de 1975 e atravessou o EUA ao longo de 1976, totalizando 57 shows e tendo nomes como  Joan Baez, Jack Elliott, Roger McGuinn, Mick Ronson, entre outros, um pouco sobre a história do boxeador Rubin "Hurricane" Cartes, e de como Dylan ficou bastante indignado ao ponto de compor uma canção para o mesmo, e comentários sobre Desire (1976). Ou seja, se em dez capítulos Shelton traça a vida de Dylan durante a década de 60, dois capítulos para uma década tão importante quanto a dos anos 70 acaba sendo pouco, e essa é uma falha importante no livro, já que muitos dos detalhes expressos na década de 60 poderiam ter sido tirados, e fatos como as gravações ao vivo da década de 70, ou até mesmo a conversão cristã de Dylan já no final da década de 70, início dos anos 80, poderia aparecer.

O Poslúdio até tenta fazer isso, principalmente quando comenta sobre a gravação de Live at Budokan, originalmente pensando somente para o Japão, mas que devido ao grande número de lançamentos piratas, acabou sendo lançado no ocidente, tudo em 1978, e breves comentários sobre Street Legal (1978), o último álbum analisado por Shelton na época do lançamento do livro. A fase cristã ficou totalmente de fora, sem se quer um comentário sobre o mesmo, o que considero uma pena, pois é um fato muito relevante na carreira do americano.


Contra-capa

Claro, essa resenha é apenas um resumo de um livro com muitas histórias. Há os relacionamentos de Dylan, passagens interessantes de gravações dos álbuns, diversos e diversos trechos de entrevistas, enfim, muito material. Caso decida adquiri-lo, tenha certeza que você terá em mão um livro grandioso tanto em tamanho quanto em informações, mas essencialmente, um livro crucial e fundamental para quem quiser conhecer detalhadamente a carreira de um dos maiores gênios da arte do século passado.


domingo, 26 de maio de 2019

FOCUS - Parte I

Jan Akkerman, Pierre van der Linden, Thijs van Leer e Bert Ruiter


O grupo holandês Focus é com certeza o maior grupo de rock progressivo que a Holanda forneceu ao mundo, tanto por conta da música como por conta da técnica e qualidade individual de seus músicos. Uma carreira cheia de altos e baixos, com mais de dez discos que começaremos a abranger a partir de hoje, com o período áureo dos holandeses, nos anos 70, comandados pela dupla Thijs van Leer (órgão, piano, flauta, mellotron), Jan Akkerman (guitarra, violão), até a saída do último em 1976. Posteriormente, em uma segunda parte, traremos a partir do momento quando Akkerman retorna ao grupo nos anos 80, saindo para uma carreira solo de relativo sucesso, deixando o legado para Van Leer governar sozinho.


Jan Akkerman, Thijs Van Leer, Hans Cleuver e Martin Dresden


A estreia dos holandeses é um aperitivo humilde perto da importância que o grupo teria no ano seguinte para o rock progressivo. Conhecido também como In and Out of Focus (nome dado ao lançamento internacional do álbum),  Focus Plays Focus chegou às lojas em 1970. No LP, a formação além de Van Leer e Akkerman, Martin Dresden (baixo, vocais) e Hans Cleuver (bateria), e apresenta jóias instrumentais como "Focus (instrumental version)", com solos simples e encantadores da guitarra, e "Anonymous", que seria a gênese de uma Maravilha Prog lançada dois anos depois através dos solos individuais de cada músico. 

A estreia de 1970


Cleuver apresenta sua voz na jazzística "Happy Nightmare (Mescaline)", "Focus (vocal version)", seguindo as mesmas linha de "Focus (instrumental version)", e nas sessentistas "Sugar Island", "Black Beauty" e "Why Dream", ambas cheirando a mofo psicodélico londrino, com leves aromas do flower-power californiano. A guitarra de Akkerman é o principal destaque em todo LP, mas é inquestionável a fundamental participação da flauta e do órgão de Van Leer, criando o marcante som do grupo. 

Na Alemanha, o álbum trouxe "House of the King" como faixa adicional, uma canção que marcou os fãs por ser muito similar ao que o Jethro Tull fazia na mesma época, sendo fácil encontrar pessoas que confundem as bandas quando ouvem essa canção. Os Estados Unidos, lançaram o álbum no mesmo formato que a versão alemã, porém com as canções em ordem alterada. Existem diferentes capas desse álbum espalhadas pelo mundo, algumas você pode conferir aqui. A capa que estampa esse artigo é a da versão original holandesa. "House of the King" acabou sendo o primeiro sucesso internacional do Focus, apesar de ter saído apenas como compacto em seu país.

Pierre Van der Linden, Cyrill Havermans, Thijs Van Leer e Jan Akkerman

Como o grupo não emplacou no primeiro álbum, Akkerman decidiu abandonar o navio, e montou uma nova banda, acompanhado de Pierre Van der Linden (bateria) e Cyrill Havermans (baixo, vocais). Porém, Dresden e Cleuver também resolveram abandonar Van Leer, que se juntou aos amigos de Akkerman, nascendo a segunda formação do Focus.Com esta nova formação, o Focus muda totalmente sua forma musical, apostando no rock progressivo instrumental e deixando a voz apenas para servir como um instrumento a fazer vocalizações complementares nas linhas melódicas criadas pelo órgão e guitarra. 

Assim nasce Focus II (1971). A única canção com letra é a experimental "Moving Waves", tendo Van Leer na posição de vocalista e pianista, os únicos instrumentos da canção. Foi com Focus II que o Focus alcançou seu status internacional, principalmente por conta de "Hocus Pocus", uma peça fantástica, na qual Van Leer exibe pela vez primeira toda a graça de suas vocalizações em yodel, algo que marcou a carreira do grupo a partir de então, e que chegou na nona posição nos Estados Unidos. 


A capa original de Focus II (acima) e a mundialmente conhecida Moving Waves (abaixo)

A sequência de solos vocais divididas com os solos de guitarra ainda hoje agita muitas festas mundo afora. Mas Focus II não sobrevive apenas disso, já que também tem um lindo momento solo de Akkerman, batizado de "Le Clochard", no qual ele abrilhanta o ouvinte com uma peça ao violão clássico, acompanhado por longos acordes de órgão, e a beleza de "Janis", destacando Van Leer na flauta. Os holandeses não viraram sinônimo de progressivo por acaso, e o lado prog aparece na sequência de "Focus", chamada "Focus II", uma leve balada progressiva com aproximações fortes no jazz, destacando os crescendos de órgão e guitarra, provando mais uma vez todas as qualidades do injustiçado Akkerman, já que raramente ele aparece nas listas de melhores guitarristas de todos os tempos.

O ápice do LP é a Maravilhosa suíte "Eruption", que através de seus vinte e três minutos, e quatorze partes, faz uma adaptação da ópera Euridice de forma brilhante. Akkerman continua o centro das atenções, com a capacidade de sair de uma erupção sonora de solos rasgados para a suavidade de um lago tranquilo, através do uso do botão de volume e leves bends. Vale lembrar que Focus II é a versão original holandesa, e Moving Waves é a versão internacional.

Cyril saiu do grupo em 1971, após o encerramento da primeira turnê europeia do grupo, sendo substituído por Bert Ruiter, dando origem então a terceira e mais famosa formação dos holandeses, a qual gravou seu álbum mais ambicioso no ano seguinte, e que para muitos, esse é o melhor álbum dos holandeses, e qualidades não faltam para garantir essa primeira posição. 


O ambicioso Focus III

Com Focus III (1972), A entrada de Ruiter trouxe a possibilidade das expansões vocais do yodel, e também motivou Van Leer a se soltar mais. Um exemplo é a abertura, com "Round Goes the Gossip", quando na primeira parte da canção ele apenas entoa o nome da mesma, e na segunda apresenta seu lado soprano cantando em latim. Essa mesma faixa mostra que o jazz misturado ao progressivo está cada vez mais presente nas composições do grupo. "Carnival Fugue" é uma peça clássica comandada pelo piano, com tímida participação dos demais membros do grupo, transformando-se em um jazz fusion em sua segunda parte. A música clássica tambem dá o ar da graça na "Elspeth of Notthingham", com acordes de violão inspirados na música celta, e com a participação da flauta em alguns trechos. 

A arrepiante união do violão clássico e da flauta aparece também em "Love Remembered", capaz de arrancar lágrimas de qualquer ser vivo nesse planeta. Focus III trouxe o terceiro grande sucesso dos holandeses, "Sylvia", canção originalmente composta para fazer parte de um programa de televisão, mas que acabou sendo bastante popular principalmente em sua Terra Natal, com um riff poderoso e uma melodia grudenta da guitarra, e que alcançou a quarta posição nas paradas britânicas. A dupla "Focus III" e "Answers? Questions! Questions? Answers!" mostra Akkerman e Van Leer duelando em solos inesquecíveis, acompanhados pela formidável cozinha Ruiter/Van der Linden. 

Várias versões de Focus III mundo afora (Brasil, Uruguai, Estados Unidos e Alemanha)

Falando em dupla, o álbum foi lançado originalmente no formato duplo, isso graças a inclusão da Maravilhosa "Anonymous Two", uma incrível jam de mais de vinte e seis minutos que ocupa todo o lado C e boa parte do lado D do vinil, e onde o quarteto apresenta-se com solos individuais, tendo como base o riff de "Anonymous", lançada no primeiro álbum. Do primeiro álbum também foi resgatada "House of the King", que finalmente era lançada em um álbum oficial do grupo na Holanda. Existem diferentes capas de Focus III mundo a fora, e as duas apresentadas aqui são a versão original holandesa (primeira) e a versão internacional lançada na América do Norte (segunda).

A bela versão nipônica de at The Rainbow


A segunda turnê europeia aconteceu a partir do segundo semestre de 1972, e foi registrada no essencial at the Rainbow (1973), trazendo um show do grupo gravado no Rainbow Theatre em Londres, e que foi lançada também em VHS, sendo esse vídeo o responsável pela difusão do Focus em países da América do Sul e Ásia.

O escocês Collin Allen (ex-Stone the Crows) substituiu Van der Linden, e essa nova formação continuou inspirada, lançando em 1974 Hamburger Concerto, que julgo ser o melhor LP do grupo.

O melhor álbum da banda na opinião do autor



O álbum apresenta o hardão de "Harem Scarem", a beleza indescritível de "La Cathedrale de Strasbourg", com Van Leer sobressaindo-se ao piano e nos vocais, as experimentações psicodélicas-clássicas de "Birth", apresentando Van Leer no cravo, e fazendo belezuras junto de Akkerman quando pula para o órgão e a flauta, e a música clássica da vinheta "Delitiae Musicae", um magnífico momento somente com alaúde e flauta. 

Porém, nada supera o que o quarteto registrou no lado B desse vinil, que é a suíte-título. Com trechos inspirados em "Variations on a Theme by Haydn", de Joseph Hayden, a suíte é dividida em seis partes. Difícil dizer qual o principal momento dessa Maravilha, já que desde a introdução, com as linhas de baixo de Ruiter, o andamento suave dos primeiros minutos, o riff marcante, os solos vocais de Van Leer, o órgão e a flauta alimentando o cérebro com notas divinas, a pegada na guitarra de Akkerman durante a segunda metade da canção, a epopeia emocionante do encerramento, e Collin Allen fazendo ninguém sentir saudades de Van der Linden, são alguns dos pontos que me tornaram fã dos holandeses. Mais um daqueles momentos mágicos na música. 



Thijs van Leer, Jan Akkerman, Collin Allen e Bert Ruiter

O relançamento em CD trouxe uma faixa bônus, "Early Birth", que é a versão original de "Birth", sem a introdução com o cravo, e na sequência, mais uma mudança na formação, com o americano David Kemper substituindo Allen, leva a Mother Focus, lançado em 1975.

Allen participa em apenas uma faixa, "I Need a Bathroom", uma balada funk que tornou-se a única canção do grupo a ser cantada por Ruiter. O álbum parece contaminado pela onda disco, com muitos sintetizadores, a utilização constante do vocoder (instrumento que imita a voz humana) e canções curtas que fogem bastante dos padrões esperados para o Focus, lembrando grupos como Sly & The Family Stone ou Funkadelic, mas não deixa de ter seus momentos bons, como a peça clássica "Father Bach", somente com órgão e guitarra, o suingue da faixa-título, a sutileza de "Focus IV", sem contar com as linhas de suas antecessoras, mas ainda assim muito bela, e "No Hangs Up", com certeza a faixa mais Focus de Mother Focus

O fraco Mother Focus

A dupla "Soft Vanilla" e "Hard Vanilla" parecem trilha sonora de filme brasileiro dos anos 70, diferenciando apenas pelo instrumento utilizado para o solo principal (flauta sintetizada no primeiro e vocoder no segundo), mas "Bennie Helder" é uma das amostras positivas de como misturar elementos clássicos com o funk e a disco-music, enquanto Akkerman convence que ainda existe genialidade na dupla "Someone's Crying ... What?" / "All Together ... Oh That!". Já "My Sweetheart" e "Tropical Bird" acabam sendo manchas negras na carreira do grupo, que começava a rumar para seu fim.

Akkerman pediu as contas pouco depois, sendo substituído pelo belga Philip Catherine, dando origem a uma nova fase para o Focus. O guitarrista mergulhou em uma carreira solo de destaque, e mesmo com um substituto a altura, as coisas não estavam nada bem. O jeito foi arriscar na loteria, e assim, o grupo manteve-se na ativa, unindo-se ao cantor pop americano P. J. Proby e lançando seu sétimo disco de estúdio, o primeiro sem Akkerman, no ano de 1978. Antes, por esforços do produtor Mike Vernon, mais um álbum com Akkerman chegou na praça, no ano de 1976.


O disco de sobras Ship Of Memories

Ship of Memories é uma coletânea de canções que acabaram ficando de fora dos lançamentos oficiais. Vernon não mediu esforços para manter a chama do Focus acesa durante o período de instabilidade, e resgatou obscuridades não lançadas oficialmente. O lado A foi gravado em duas semanas do ano de 1973, e nele ouvimos uma sequência interessante de canções programadas para compor o quarto álbum dos holandeses. 

"P's March" alterna-se entre solos de flauta e guitarra, e "Focus V" traz as fontes jazzísticas e o andamento que criaram a base musical do Focus. O melhor fica para "Can't Believe My Eyes" e "Out of Vesuvius", ambas experimentações virtuosísticas de Akkerman, inseridas em um andamento sombrio e tenso (a primeira) e em uma levada dançante (a segunda). 

Bert Ruiter, David Kemper, Thijs Van Leer e Philip Catherine

O lado B é mais diversificado, trazendo "Spoke the Lord Creator", gravada em 1970, e que foi a primeira tentativa de recriar "Variations on a Theme by Haydn", "Ship of Memories", um breve solo de bateria e órgão de igreja feito por Van der Linden, "Red Sky at Night", tendo um belo solo de Akkerman, e "Glider", versão original de "Mother Focus" e que particularmente considero melhor que a versão registrada no álbum homônimo, principalmente pela exploração dos yodels. 

Nessa canção, Akkerman toca Sitar elétrico, o que também deu um efeito diferente, e conta com Van der Linden na bateria. "Crackers" é da época de Mother Focus, enaltecendo o lado funk-fusion que predominou no último álbum lançado com Akkerman nas guitarras, sendo uma canção de menor qualidade perto das demais. A contra-capa do álbum apresenta um interessante texto de Mike Vernon contando sua experiência com o grupo e os caminhos que levaram ao lançamento de Ship of Memories, o que é um bom complemento para quem quer se aprofundar na história da banda.



O álbum com o cantor pop PJ Proby






Trazendo na formação Thijs Van Leer (flauta, teclados, vocais), Bert Ruiter (baixo, vocais), Philip Catherine (guitarras), Steve Smith substituindo David Kemer na bateria e a adição do excelente Eef Albers às guitarras, além da voz principal de Proby, Focus Con Proby é lançado em 1978. Os holandeses surpreenderam com um álbum muito diferente do que havia sido apresentado nos discos anteriores, principalmente no fraco Mother Focus (1975). É difícil classificar esse álbum, pois existem momentos preciosos e outros que em nada poderiam estar presentes na Discografia de um gigante como o Focus. 

A voz de Proby é um estranho no ninho para quem estava acostumado com as vocalizações em yodel de Van Leer, mas por outro lado, as guitarras de Albers e Catherine deram uma nova cara para a banda, que no geral, inspira-se no som do final dos anos 70, praticando um som próximo ao de grupos como Weather Report e Eleventh House, e aqui cito a velocidade jazzística de "Sneezing Bull", com Van Leer exibindo-se na flauta (coloque para um amigo e duvido que ele não diga que é Jethro Tull o que está rodando), a exuberância zappiana de "Maximum", com solos de Catherine e Van Leer, a linda "Orion", com Ruiter e Albers fazendo o solo principal juntamente, na alucinante "Night Flight", com Albers gastando seus dedos em um solo impressionante, e outros mais voltados para canções dançantes ( "Tokyo Rose", "How Long" e "Wingless") e baladas mela-cuecas ("Eddy" e "Brother") que em nada acrescentam ao fã dos primeiros álbuns. 

Pela parte instrumental, temos um excelente trabalho, e se você retirar as duas últimas canções com vocais citadas nesse texto, Focus con Proby é um ótimo disco. O problema é que aturar "Eddy" e "Brother" é um constrangimento e tanto para quem já pulou com "Hocus Pocus". O grupo fez uma curta turnê, mas em seguida, Van Leer anunciou o encerramento das atividades do Focus, seguindo para uma carreira solo de relativo sucesso. Porém, em 1985, novamente o nome Focus apareceu no cenário musical, e dessa vez, de forma totalmente surpreendente.


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