terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Lynyrd Skynyrd - Parte I



Um dos principais grupos do Southern Rock terá sua longa e complexa história contada por mim aqui no Baú. O Lynyrd Skynyrd foi um desses fenômenos com poucos equivalentes na história da música. Em menos de meia década, foram de completos desconhecidos a mega astros mundiais, tendo uma infeliz ascensão a ícones após o fatídico acidente de avião em 20 de Outubro de 1977 que vitimou quase todos os integrantes do grupo, encerrando as atividades do Lynyrd Skynyrd em seu auge.

Dividirei o texto em duas partes. Nessa primeira, abordo os álbuns gravados pela banda na década de 70, período no qual o hepteto divulgou o estilo como poucos, conquistando fãs por todo o mundo (Estados Unidos principalmente) e que teve uma tragédia inexplicável encerrando as suas atividades no ano de 1977.


The One Percent em 1969: Ronnie Van Zant, Bob Burns, Gary Rossington (em pé);
 Larry Junstrom e Allen Collins (abaixo)

O grupo foi formado em Jacksoville (Flórida) no verão de 1964, através de Ronnie Van Zant (vocais), Bob Burns (bateria) e Gary Rossington (guitarras), com o nome de The Noble Five. Eles se conheceram em uma partida de beisebol, sendo Bob e Gary pertencentes ao grupo You, Me and Him, tendo como baixista Larry Junstrom. Mudam de nome para The Noble Five, e em seguida, em 1965, mudam para My Backward, ambas as formações já com Larry Junstrom (baixo) e Allen Collins (guitarras). O repertório era composto por versões de clássicos do British Rock, como Beatles, Stones e Yardbirds. Mudaram de nome por diversas vezes, até finalmente adotar The One Percent. 


O raro primeiro compacto da banda
Esse nome durou alguns meses, e enquanto ensaiavam, Burns e Rossington foram suspensos da Rober E. Lee High School, por terem cabelos longos. O professor que os suspendeu era de Educação Física, chamado Leonard Skinner. Como uma "homenagem" ao professor, resolvem adotar o nome que os consagrou, Lynyrd Skynyrd, 

Largam os estudos e começam a ensaiar de oito a doze horas por dia, em uma pequena cabana ao sul de Jacksonville. Nessa época, uma das principais atuações dos rapazes foi abrir para os The Allman Joys, dos irmãos Duane e Gregg Allman, os quais recomendaram o grupo a se esforçarem e criar suas próprias canções. Em 1968, o grupo compõe suas primeiras canções, "Need All My Friends" e "Michelle", registradas em um raro compacto pela gravadora Shade Tree. 



A The One Percent em 170: Allan Collins, Gary Rossington, Ronnie Van Zant, 

Bob Burns e Larry Junstrom



Em junho de 1970, durante o casamento de Collins, surge a primeira interpretação de "Free Bird", ainda sem os longos solos em homenagem a Duane Allman. Ainda em 1970, saem em turnê abrindo para o Strawberry Alarm Clock. Insatisfeito com a carreira musical, Burns decide voltar aos estudos, sendo substituído por Rickey Medlocke. Outro a sair - ser demitido, de fato, foi Junstrom. Sua baixa técnica não agradava aos colegas, e ele foi substituído por Greg Walker, além da entrada de Billy Powell (piano). Essa formação não durou muito. Walker e Medlocke decidiram regressar para a cidade de Blackfoot, e então, Burns retorna para as baquetas. No baixo, Leon Wilkeson é o novo músico. Este durou até o fim de 1972, sendo então substituído por Ed King, guitarrista de origem.

Depois de muitas gravações de demos, e tentativas frustradas em diversos selos, eis que o sol nasce para os garotos. Eles chamam a atenção do produtor Al Kooper, durante uma apresentação em Atlanta. Em março de 1973, com a ajuda de Kooper, assinam com a MCA Records, e assim, começam a gravar o álbum de estreia. Há diversos músicos de estúdio nessa gravação, como Robert Nix (bateria), Steve Katz (harmônica), Bobbi Hall (percussão) e o própio Kooper (baixo, mellotron, mandolin e órgão), creditado como Roosevelt Gook. Após o término das gravações, em abril do mesmo ano, Leon Wilkeson regressa como baixista, com Ed King tornando-se o terceiro guitarrista. 


Um dos pilares do Southern

(Pronounced 'Lĕh-'nérd 'Skin-'nérd) é lançado em setembro de 1973. O álbum de estreia do Lynyrd Skynyrd é um dos quatro pilares de sustentação do chamado Southern Rock, ao lado de Idlewild South (The Allman Brothers Band), Poco (Poco) e Tres Hombres (ZZ Top). Através da suas oito faixas, estão a essência de um período distinto dentro do rock 'n' roll. O riff sacolejante e os assovios em "I Ain't The One" introduzem umas das vozes mais marcantes do rock 'n' roll. O poder de "Poison Whiskey" é tão alucinante quanto a de um uísque batizado, em uma das canções mais esquecidas no repertório do Skynyrd. 

Ronnie Van Zant fazia estardalhaços com simplicidade, como podemos comprovar nas baladaças "Tuesday's Gone" e "Simple Man", mostrando para os anos 80 como fazer uma mulher se derreter sem forçar com palavras melosas. Temos a participação de Al Kooper tocando mandolin na engraçada "Mississippi Kid", que assim como "Gimme Three Steps" e "Things Goin' On", apresenta as influências country que se tornariam uma constante em todos os álbuns do grupo posteriormente, destacando a harmônica de Steve Katz na primeira, o slide de Rossington na segunda e o piano de Powell na terceira. 

Hepteto mágico: Allen Collins, Billy Powell, Bob Burns, Leon Wilkeson,
Ed King, Ronnie Van Zant e Gary Rossington
O álbum encerra com a épica "Free Bird", composta em homenagem a Duane Allman e digna de um dos solos de guitarra mais famosos (e complicados) que já se gravou, no qual Allen Collins simplesmente faz chover utilizando uma sobreposição de três guitarras (que eram reproduzidas fielmente nos shows ao vivo, com Rossington e King complementando o trio). 

O compacto de "Don't Ask Me No Questions"
Não é em vão que (Pronounced 'Lĕh-'nérd 'Skin-'nérd) conquistou platina dupla, vendendo até hoje mais de dois milhões de cópias (apenas nos Estados Unidos) e frequentemente encontrado na lista de melhores de todos os tempos. A participação de Wilkeson ficou relegada apenas para "Mississippi Kid" e "Tuesday's Gone", e na foto que hoje consiste na capa do álbum. 

O single "Gimme Three Steps" fracassou nas paradas, mas o disco chegou na posição 27 da Billboard, levando o pessoal do Lynyrd a abrir para o The Who durante a turnê americana de QuadropheniaEm janeiro de 1974, começam a gravação do segundo disco. Pouco antes do lançamento, sai o single "Don't Ask Me No Questions", outro fracasso comercial. 


O segundo álbum do Lynyrd, tão fundamental quanto seu antecessor

Em abril daquele ano, Second Helping chega às lojas. Se o primeiro álbum é essencial, a sequência é tão fundamental quanto. Um dos melhores trabalhos do Southern Rock, é nele que está o maior hit do grupo, "Sweet Home Alabama", trazendo vocalizações femininas (Clydie King, Sherlie Matthews e Merry Clayton) eternizada posteriormente nos jogos de beisebol e futebol americando ocorridos naquele estado. Mais uma platina dupla para a coleção do hepteto. É uma resposta às críticas de Neil Young, que criticou o passado racista do sul Norte-Americano em "Southern Man". Foi o segundo single de Second Helping​alcançando a oitava posição na Billboard, a melhor da carreira do grupo.

Outro grande clássico é "Workin' for M. C. A.", afinal, quem nunca cantou a melodia feita pela introdução da guitarra, junto com Van Zant, que levante a mão. Al Kooper novamente participa, agora tocando piano na agitada "Don't Ask Me No Questions", a qual conta com um trio de metais composto por Bobby Keys, Trewor Lawrence e Steve Madiao, e "The Ballad of Curtis Loew", uma linda balada country. Outra balada, porém extremamente caprichada, é "I Need You", com Mike Porter na bateria, e capaz de cortar os pulsos apenas com a voz de Van Zant. 

Billy Powell, Allen Collins, Leon Wilkeson, Bob Burns,
Ronnie Van Zant e Ed King (sentados); Gary Rossington (em pé)

Já "Swamp Music" é um boogie tipicamente Skynyrd, com um ritmo sacolejante. O maior destaque fica por conta de "The Needle and the Spoon", com um show a parte de Allen Collins no wah-wah, e mais um riff poderoro. Os metais também estão presentes em outro boogie, "Call Me the Breeze", que encerra um álbum exemplar de como é possível fazer uma sequência perfeita para um álbum perfeito. Alcançou a posição 12 da Billboard, recebendo platina dupla nos Estados Unidos. 

O single de "Free Bird"
Veio o single de "Free Bird", que chegou a posição 19 da Billboard, levando-os para uma turnê europeia em dezembro de 1974, abrindo para Queen, Humble Pie e Golden Earring. Encerrada a turnê, Bob Burns é substituído por Artimus Pyle. Com a pressão da MCA, devido ao sucesso de Second Helping, logo em janeiro de 1975 começam os registros do terceiro álbum. O grupo usa "Saturday Night Special", composta para o filme The Longest Yard (Robert Aldrich) como música central, lançando-a em single que alcançou a posição 27 da Billboard. 


A estreia de Artimus Pyle no Lynyrd

Em apenas um mês, concluem as gravações de Nuthin' Fancy, o primeiro ao chegar no Top 10 da Billboard, chegando na nona posição, e também o primeiro a entrar nas paradas britânicas, atingindo a posição 43. Com a participação especial de Barry Harwood (dobro, mandolin), David Foster (piano) e Bobbie Hall (percussão), além de Jimmy Hall tocando harmônica no country arrastado de "Made in the Shade" e na agitada "Railroad Song", que imita o som de uma locomotiva no andamento de Pyle, é mais uma bela sequência para os dois antecessores, apesar de eu achar o mais fraco dos três. 

A pegada característica do grupo aparece no boogie "I'm a Country Boy", na citada "Saturday Night Special", com um riff extremamente grudento, e em "On the Hunt", disparada a melhor canção do LP. "Am I Losin" resgata os momentos country, e é interessante como o órgão surge com força no blues "Cheatin' Woman". O álbum encerra com mais um clássico, "Whiskey Rock-a-Roller", que assim como "Sweet Home Alabama", virou obrigatória nos shows do grupo. 


Uma das últimas fotos com King (segundo da direita para a esquerda), e uma
das primeiras com Artimus (terceiro da direita para a esquerda)

Durante a turnê de promoção do álbum, que durou três meses, duas importantes mudanças ocorrem. Primeiro, King pede demissão, deixando o grupo como um sexteto. Em compensação, o conjunto vocal feminino The Honkettes (formado por Leslie Hawkins, Cassie Gaines e Jojo Billingsey) passa a prestar sua voz às canções do grupo, dando uma boa renovada a partir do quarto LP.


O único disco como sexteto

Com um novo produtor, Tom Dowd, o qual havia trabalhado com Cream e The Allman Brothers Band, em fevereiro de 1976 é lançado o quarto álbum, Gimme Back My BulletsÚnico disco do Lynyrd Skynyrd gravado como sexteto (apesar de uma longa sessão de audição para guitarristas, que inclusive contou com o renomado Leslie West como reprovado), esse álbum era para ser originalmente chamado de Ain't No Dowd About It

A faixa-título possui uma levada típica do Skynyrd, mas com um peso que dificilmente encontramos em outras canções do grupo. A pancadaria acalma com “Roll Gypsy Roll”, levada pelos violões e pela voz rasgada de Ronnie, e “Every Mother’s Son”, uma tímida canção com um andamento leve, e que também fez relativo sucesso assim como a faixa-título. O momento mais calmo fica para a bonita balada acústica “All I Can Do is Write About It”, tendo um violino (não identificado no álbum) e Barry Lee Harwood no mandolin. 


Formação como sexteto: Allen Collins, Leon Wilkeson, Gary Rossington,
Artimus Pyle, Ronnie Van Zant e Billy Powell

Lee Freeman apresenta sua harmônica no boogiezão “The Same Old Blues”, representante clássico do Southern Rock, com destaque para Rossington, que também faz misérias com o slide durante toda “Searching”. Ainda temos “Trust” e “Double Trouble”, sendo a última com uma maravilhosa participação das Honkettes, que também dão uma ótima contribuição para “Cry for the Bad Man”, detentora de mais um grande solo de Rossington. Apesar de ter sido o álbum com pior desempenho nos charts britânicos durante a década de 70, ele está muito acima de seu antecessor, batendo de frente com dois primeiros.

Do álbum saíram os singles "Double Trouble" e "Gimme Back My Bullets", que não emplacaram, assim como disco, que recebeu apenas ouro. Pouco depois do lançamento de Gimme Back My Bullets, o irmão mais novo de Cassie Gaines, Steve Gaines, foi adicionado como terceiro guitarrista. 


O ótimo álbum ao vivo


Uma extensa turnê pelos Estados Unidos elevou o nome do Lynyrd Skynyd novamente, além de um famoso show no festival de Knebworth em 1976, abrindo para os Rolling Stones e Todd Rudgren. Essa turnê foi registrada no espetacular One More From The Road (1976), um dos melhores discos ao vivo da história, tendo performances impecáveis par "Free Bird", "Tuesday's Gone", "The Needle and the Spoon" e "Workin' for M. C. A.", entre outras. É o álbum mais vendido da carreira da banda, conquistando platina tripla, chegando a nona posição da Billboard e na décima sétima do Reino Unido, levando-os para um grandioso show, diante de 200 mil pessoas no dia 21 de agosto, no Knebworth Park, ao lado de Rolling Stones, 10cc e Hot Tuna.​

Allen Collins e Artimus Pyle (acima);
Leon Wilkeson, Ronnie Van Zant, Gary Rossington, Steve Gaines e Buddy Powell (abaixo)



1977 começou com a Street Survivors Tour, a qual levou o Lynyrd Skynyrd para suas primeiras apresentações no Japão. Em abril, novamente com Tom Dowd, voltam aos estúdios para gravar o quinto álbum. Uma pequna turnê pelos EUA ocorre entre abril e junho do mesmo ano, e em agosto, voltam para concluir as gravações de Street Survivors, lançado no dia 17 de outubro daquele ano.

A capa original do derradeiro Street Survivors

Esse é daqueles discos que marcaram época. Através de seus sulcos, temos a sensação de uma banda alegre por estar vivendo a melhor fase da carreira. Um naipe de metais é utilizado para deixar o clima ainda mais para cima, como ouvimos em “What’s Your Name”. Como sempre, temos momentos mais calmos através da bonita introdução de “I Never Dreamed”, a qual conta com um interessante arranjo acústico, além do boogie tradicional (com leves pitadas de jazz e blues) em “Honky Tonk Night Time Man”, na qual Collins simplesmente detona seus dedos com um solo muito veloz.

“That’s Smell” parece ter saído das gravações do clássico Layla and Other Assorted Love Songs, de Derek and the Dominoes, tamanha a similaridade das guitarras do grupo com a guitarra de Eric Clapton, e claro, além dos solos de guitarra, a participação das The Honkettes torna a canção ainda mais agradável. “One More Time” foi gravada em 1971, tendo na formação Ed King (guitarra), Greg Walker (baixo), Rick Medlocke (bateria), Tim Smith e Leslie Hawkins (ambos nos backing vocals), além de Van Zant, Collins e Rossington.



Imagens do terrível acidente de avião do dia 20 de outubro (acima);
Notícia contando sobre a tragédia com o Lynyrd (abaixo)



O slide come solto em “You Got That Right”, com a participação de Steve nos vocais, e ainda temos dois blues alucinantes: “Ain’t No Good Life”, também cantada por Steve, com momentos sacanas ao piano e momentos pesados na guitarra; “I Know a Little”, capaz de colocar a casa abaixo através da hipnotizante escala de baixo. Quinto lugar nas paradas da Billboard, alcançando ouro dez dias após seu lançamento, e platina dupla nos Estados Unidos pouco tempo depois, com mais de dois milhões de discos, enfim, esse é o grande disco da carreira do Lynyrd Skynyrd. Uma pena que tenha sido o último dessa fase do grupo.

Três dias após o lançamento desse LP, com cinco shows de grande repercussão, vivendo a melhor fase de sua carreira, o grupo embarcou no avião Convair V-300, que acabou ficando sem combustível a poucos quilômetros do aeroporto de Greenville (Califórnia do Sul). Apesar da tentativa desesperada do piloto em fazer um pouso de emergência, tentando aterrisar em uma pequena pista de pouso, o avião acabou chocando-se contra árvores de uma floresta em Gillsburg, Mississippi, vitimando Van Zant e os irmãos Steve e Cassie Ganies, além de três pessoas da equipe do grupo (piloto, co-piloto e assistante de turnês). Os demais integrantes da banda, bem como o resto da equipe,de apoio, sofreram ferimentos gravíssimos, escapando por pouco da morte.


A capa sem chamas de Street Survivors

O acidente (e a ótima qualidade) alavancaram as vendas de Street Survivors, e não demorou muito a aparecer com uma nova capa, já que a capa original traz uma imagem dos integrantes da banda cercados por forgo, sendo Gaines o que mais contém chamas à sua volta. A pedido da esposa de Gaines, a nova capa contém apenas uma imagem do grupo com um fundo negro.

Lynyrd Skynyrd & The Honkettes: Leon Wilkeson, Artimus Pyle, Allen Collins, Leslie Hawkins,
Gary Rossington, Ronnie Van Zant, Steve Gaines e Jo Billingsley (em pé);
Billy Powell e Cassie Gaines (sentados)
 

O Lynyrd Skynyrd acabou suas atividades depois da tragédia. Allen Collins e Gary Rossington se reuniram na casa de Van Zant, e concordadam em nunca mais voltar com o Lynyrd Skynyrd. Era o fim de uma das grandes bandas dos anos 70. Mas não por completo, como veremos em alguns dias.

domingo, 21 de janeiro de 2018

TNT


"Tchê" Gomes, Felipe Jotz, Charles Master e Marcio "Petralha".
A clássica formação do TNT

No próximo dia 26 de janeiro, um dos maiores nomes do rock gaúcho, e por que não nacional, estaria completando 50 anos. Trata-se de Flávio Basso, ou Júpiter Maçã, como ficou conhecido nos anos 90. Baixista de mão cheia, vocalista de entrega com performances de palco malucas, e um letrista incrível, Júpiter é uma referência no rock gaúcho, ao lado de nomes como Wander Wildner, Humberto Gessinger e Thedy Corrêa. Combinando com isso, o mês de janeiro é aquele onde a maioria dos jovens adolescentes curte uma praia (veraneia, como se diz por aqui). Na minha infância/adolescência, as músicas de um dos grupos que Fábio ajudou a criar tocavam direto lá em casa.

Flavio Basso, saindo do TNT e fundando os Cascavelletes

Fundado em 1984 por Flávio Basso (guitarra, vocais), Charles Master (guitarra, vocais), Márcio Petracco (baixo, vocais) e Alexandre Birck (bateria), o grupo logo em seguida ganhou a adição do guitarrista Nei Van Soria. Como quinteto, duraram pouco, pois Márcio pulou da barca, e Flávio assumiu o baixo. Nascia assim a formação que grava duas faixas para a coletânea Rock Grande do Sul (1986), as quais são "Estou na mão" e "Entra nessa", os únicos registros do TNT com Flávio, que saiu da banda logo em seguida, junto com Nei Van Soria, para formar Os Cascasvelletes (que também merecem uma Discografia Comentada). 

Coletânea que lançou o TNT ao Brasil, e por que não, ao mundo

Com Márcio "Petralha" Petracco de volta, e Luis Henrique "Tchê" Gomes nas guitarras, além de Master e Felipe Jotz na bateria, surge o primeiro disco da banda.Quatro álbuns, dois deles clássicos fundamentais nos botecos, praças e esquinas do Rio Grande do Sul, e muitas músicas para serem tocadas em luaus Brasil à fora, com o refrão na ponta da língua e a alegria de uma das grandes bandas de rock do nosso país.

Sendo assim, aproveito a nostalgia e a data para homenagear tanto a Flávio/Júpiter quanto o seu primeiro grande grupo, TNT. Ok, os mais xiitas irão dizer: "Mas bah, se não fosse o Charles Master, nunca haveria tido TNT" e "O Júpiter nunca gravou um disco completo com o TNT", mas isso é o de menos.

A capa do disco de estreia é inspirada em um álbum do New Order

A estreia full lenght dos "beatles dos pampas", batizada somente de TNT, chega às lojas em 1987. É uma aula de rock 'n' roll para se dançar nas festas e bares durante toda a vida. Com inspirações nos primórdios do rock (anos 50 e 60 principalmente), pitadas de blues, letras de duplo sentido e muito feeling, aqui temos clássicos eternos do BRock. As letras falando sobre sexo, curtição, bebidas e tudo o mais que a vida desregrada de um jovem roqueiro pode ter, obviamente simbolizaram aos jovens daquela geração uma forma de se expressar. De cara, dois grandes clássicos, "Ana Banana" e "Cachorro Louco", até hoje hinos no rock gaúcho. Do mesmo porte, estão "Entra Nessa" e "Identidade Zero", rockabillies sensacionais, com letras engraçadíssimas, "Febem", com um piano estonteante, a baladinha "Me Dá O Cigarro", e a linda rock ballad "Oh Deby", que criaram uma nova definição para a turma do Bonfim (tradicional bairro boêmio de Porto Alegre), que curtia os fins de semana na Redenção: a "chinelagem". 

Dance ao som de "Desse Jeito" e "Liga Essa Bomba", vibre com a gaitinha de boca de "Estou na Mão", enlouqueça com "Ratiação" e grite com força para sua ex o título de "Não Quero Mais Te Ver". Disco seminal na história do rock nacional, no qual todas as canções são composições de Flávio e Charles. A capa é inspirada em Power, Corruption & Lies, lançado pelo New Order em 1983, apesar de o som ser totalmente distinto. O desafio para o segundo disco, sem Flávio para auxiliar, foi grande. Mas os guris conseguiram superar o mesmo no ano seguinte.

TNT II, o grande sucesso dos gaúchos

A parceria "Tchê" Gomes e Charles Master pode ser conferida em TNT II, lançado em 1989, e que apresenta um som mais maduro em relação ao álbum anterior. Logo na primeira faixa, "Não Vai Mais Sorrir (Pra Mim)", com a participação especial de Lulu Santos, podemos ver que o grupo está afim de crescer, com a inclusão do slide guitar em evidência. O slide também surge no leve country "Ela Me Deu O Bolo". Outro ponto que chama a atenção nesse crescimento são os solos de guitarra, que ficaram mais elaborados e profissionais, vide "Baby (Eu Vou Morar N´outro Planeta)", essa inclusive com um pequeno solo de bateria, "Dentro Do Meu Carro", com o wah-wah comendo solto, e "Muito Cuidado". O baixo de Master é uma das grandes atrações, com "Gata Maluca" e a ótima "Tempo No Inferno" sendo exemplos de como colocar o baixo na cara do ouvinte, sem extrapolar. Sem dúvidas, é uma marca registrada no som do TNT, assim como seu vocal escrachado. 

Charles Master, Felipe Jotz, Luiz Henrique "Tchê" Gomes, e Marcio "Petralha" Petracco

Das lembranças do primeiro álbum, temos o rock "Charles Master", destacando o piano e as vocalizações femininas, e o jazz rock "Veja Amor". Os grandes sucessos de TNT II ficaram para o rockabilly "Alazão", com sua letra engraçada pacas, a balada "Irmã do Dr. Robert", que inclusive levaram-os a apresentarem-se no programa global Globo de Ouro, e o mega-sucesso dos pampas "Não Sei", inspirada nos riffs de "Sweet Jane" (Velvet Underground) e única composição do quarteto em conjunto, a qual é cantada até hoje nas diversas festas realizadas por jovens, adolescentes e adultos que viveram o final dos anos 80 no Rio Grande do Sul. Tão fundamental quanto TNT, TNT II é o álbum de maior sucesso dos gaúchos.

Noite Vem, Noite Vai. Único disco como quinteto

Depois de algumas brigas internas. uma reformulação na formação, com a saída de Felipe e a entrada de Paulo Arcari, uma breve pausa para se recuperar do estrondoso sucesso dos dois primeiros discos é necessária. O TNT volta à ativa em 1990, agora como um quinteto, tendo João Maldonado nos teclados. Assim, lançam Noite Vem, Noite Vai, em 1991. Com letras mais reflexivas, sem a alegria infantil de TNT e TNT II, temos aqui uma visão forte do pop que Master desejava seguir dali em diante. Faixas como "Amigo Meu", o blues da faixa-título, "Paz no Seu Coração" e "Quem Procura Acha", a primeira com um belo solo de slide, e as duas últimas com a participação destacada do órgão hammond de Maldonando, fogem do padrão de dois/três minutos que tínhamos até então, mas são boas canções.

Charles Master, Marcio Petralha, Paulo Arcari, Luiz Henrique Gomes e João Maldonado.
TNT em 1991

Curto mesmo o embalo setentista de "Daqui Pra Frente", o solo de guitarra em "Não Tenho Medo Da Vida", e o ritmo roqueiro de "Vacilou", uma das raras lembranças do passado festivo do TNT. A banda conseguiu emplacar mais um grande sucesso nas rádios gaúchas, a bela "Nunca Mais Voltar", com o riff sensacional do slide de Marcio, e o sensacional blues "Deus Quis", faixa que considero a melhor de Noite Vem, Noite Vai. Por outro lado, "Estou Louco Por Você" parece saída de ensaios de alguma banda obscura do BRock oitentista, e não faria falta no track list final. Trocando em miúdos, é um álbum aquém de seus antecessores, mas ainda assim, importante para a geração roqueira do sul do país.

Coletânea de rádio gaúcha, com rara canção do TNT

Em 1992, "Tchê" deixa o TNT. Na mesma época, Flávio sai dos Cascavelletes e volta para o seu grupo de origem, mas infelizmente, a tentativa de reviver os primórdios do TNT é frustrada  devido a brigas e divergências musicais. Ficou como registro o single "Você Me Deixa Insano"/"Tá Na Lona", sendo a primeira incluída também na coletânea As 15 mais da Ipanema, da rádio Ipanema de Porto Alegre, e que tornou-se outro pequeno sucesso do TNT no sul. 

A banda encerra as atividades em 1994, com Charles e Flávio, agora rebatizado de Júpiter Maçã, seguindo em carreira solo, enquanto Marcio fundou o Cowboys Espirituais, ao lado de outros grandes nomes do rock gaúcho (Frank Jorge e Julio Reny), e Luiz Henrique seguiu tocando em diversas bandas de Porto Alegre e região. Em 1999, é lançada a coletânea Hot 20, com 20 canções do grupo e que apresentou-os para a geração dos anos 90.

Capa e contracapa do DVD Ao Vivo

Em 2002, o TNT voltou a fazer shows em Porto Alegre, tendo na formação Charles, Luiz Henrique, Márcio e Fábio Ly na bateria. Esses shows culminaram com o CD e DVD Ao Vivo (2004), gravado no bar Electric Circus, em Portão, Rio Grande do Sul, no dia 13 de setembro de 2003, e com a participação de Luciano Albo (violão de 12 cordas, vocais), Alexandre Papel Loureiro (percussão, backing vocals), Roberto Scopel (trompete) e Carlos Mallman: (trombone). Na sequência, Marcio sai da banda, e como um trio, mais um novo álbum de estúdio do TNT vem em 2005.

Álbum único como trio. Despedida dos gaúchos

O derradeiro disco do TNT, Um Por Todos Ou Todos Por Um, é lançado em 2005 como uma tentativa interessante de reviver o passado. Há a participação de Henrique Portugal nos teclados de "Contigo", "Bicho Esquisito" e "Mais Menos". Logo no início, as vocalizações e o riff de "Por Enquanto" nos remetem ao primeiro álbum. Gosto do blues arrastado de "Mais Menos", e de "Ao Redor", "Contigo" e a bela "O Quanto Antes", as duas últimas com a participação de Luciano Albo no baixo, pela pegada mais oitentista e as letras de amor que fazem sentido para os já adultos "guris do TNT", do suingue de "Bicho Esquisito" e do slide no rockabilly "Se Quer Saber". No mais, o som é um tanto cru, faltando uma produção mais rica. Isso pode ser percebido seja nas canções já citadas, e em faixas como "Quando A Noite Vem", "Ondas Legais" e a regravação de "Tá Na Lona" , que apesar de serem legais para curtir, faltam de um certo "tempero" para vingar no paladar do ouvinte, como se tudo tivesse sido gravado em um estúdio caseiro. "Ondas Legais" inclusive tocou um pouco nas rádios, mas não deu certo. 

A útlima formação do TNT, já em 2005: "Tchê" Gomes, Fábio Ly e Charles Master
"A Chuva", "Histórias Felizes"  e "Juro Que Não", apesar da boa participação da guitarra de "Tchê" Gomes, não são das mais agradáveis. Ao encerrar a audição de Um Por Todos Ou Todos Por Um, fica uma sensação de que o TNT viajava nas ondas de outros nomes em voga no rock gaúcho da época, como Bidê O Balde, Acústicos e Valvulados ou Cachorro Grande. É um disco interessante, que fecha com dignidade uma carreira brilhante e meteórica.

Em 2012, Charles, Luis Henrique e João Maldonado, juntos de Régis Sam (baixo) e Bruno Suman (bateria e percussão) gravaram a faixa "Do Teu Sorriso Vou Lembrar, Porto Alegre". A expectativa de que o TNT fosse voltar não ficou além disso. Charles Master ainda faz shows pelo Rio Grande do Sul. Márcio Petralha e "Tchê" Gomes são músicos em Porto Alegre, e Flávio "Júpiter Maçã"Basso foi viver em outra galáxia espiritual em dezembro de 2015.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Steve Vai - Live at the Astoria London [2001]




Assistir um DVD de um guitarrista solo por vezes pode ser entediante, mas não é o caso de Live at the Astoria London. Primeiro DVD da carreira do guitarrista americano Steve Vai, aqui ele está acompanhado de Tony MacAlpine (guitarra, teclados), Billy Sheehan (baixo, violões, voz), Dave Weiner (guitarras) e Virgil Donati (bateria). Um timaço de primeira, que só podia gerar um show fantástico para os ingleses presentes no Astoria nas noites de 06 e 07 de dezembro de 2001.

Quem pensa que irá ver um Vai tomando conta do espaço dos gigantes MacAlpine Sheehan, se engana fortemente. Logo de abertura, uma canção de Sheehan é a atração, "Shyboy", originalmente gravada pelo Talas (primeira banda de Sheehan) e posteriormente, regravada por David Lee Roth no álbum Eat 'em and Smile, o qual conta com Vai e Sheehan. Aqui, o baixista mostra ser também um ótimo vocalista, o que também o faz em "Chameleon", gravada por Sheehan em seu primeiro álbum solo, Compression (2001), e com uma ótima participação de Vai nessa faixa tanto no estúdio quanto neste DVD. E como o cara toca. Seja no baixo Yamaha simples, ou empunhando um gigantesco baixo de dois braços, o cara possui uma técnica invejável, e seus duelos com Vai são delirantes.

Vai e Sheehan, com o baixo de dois braços


Os demais membros também possuem destaque. O jovem Weiner (com apenas 24 anos) tem seus segundos de fama em "Dave's Party Piece". Tive a oportunidade de vê-lo no show desse ano em Porto Alegre, e lá, eu afirmava que ele tocava muito. Pois 16 anos antes, vendo ele nesse DVD, atesto ainda mais que o cara é um monstro, e só fica na sombra de Vai por que quer. Já MacAlpine escolheu os teclados para fazer seu solo, o qual apesar de não ter o virtuosismo que o consagrou, é muito bonito. 

O batera Virgil Donato dá um show a parte no solo de "Incantation". Com uma habilidade monstra, o cara faz malabarismos com as baquetas em uma velocidade absurda, sem deixar de bater em pratos, caixa e tambores!! Só vendo para crer.

Virgil “destruindo” no seu solo

Bom, mas e Vai? Dediquei dois parágrafos aos membros da banda de apoio, e não falei nada do nome principal?? Sim meus caros, é necessário comentar sobre os demais, por que os caras tocam muito, mas tocam muito mesmo, mas nada se compara ao que é Vai em ação. O homem é um showman de alto estilo, ou melhor, como Dave cita, um grande performer. Basta ver a quantidade de luzes e tecnologia que ele usa durante "Bad Horsie" (luzes também presentes no baixo e nas mãos de Sheehan).

Destaco de cara que o DVD irá surpreender por trazer Vai aos vocais. O guitarrista não é um usual do microfone, mas nesse show, resolveu soltar a voz em duas canções em homenagem à Jimi Hendrix: "Fire" e "Little Wing". E olha, ele fez isso muito bem. Se ele se mantivesse na carreira apenas como vocalista, creio que seria também igualmente reverenciado. 

Vai, cheio de luzes em sua guitarra


Falando em Vai usar a boca, a famosa "linguada" nas cordas é feita com primazia durante "For the Love of God", clássico da carreira do guitarrista, essa é sempre bem-vinda e emocionante, assim como a linda "Whispering a Prayer", que havia acabado de nascer nos palcos de Vai, e hoje em dia tornou-se tão fundamental quanto "For the Love of God".

Outro ponto que chama muito a atenção são os duelos de Vai com MacAlpine. Em "Giant Balls of Gold", eles já dão uma pequena amostra do que são capazes de fazer, mas é durante "Down Deep Into the Pain" que o que sai da telinha torna-se inexplicável. Depois de uma sequência fantástica e veloz de solos entre os dois, com as guitarras nas costas, um executa um solo na guitarra do outro, ao mesmo tempo, com ambos girando ao redor um do outro, ganhando velocidade enquanto a velocidade dos tappings que os músicos estão fazendo aumenta. Inacreditável!

Vai e MacAlpine fazendo coisas inacreditáveis nas guitarras um do outro

Entre vários outros grandes momentos do DVD, há ainda uma entorpecente homenagem para Benny Anderson e Björn Ulvaeus, recriando "One Night in Bangkok", do álbum Chess (1984), lançado pelos ex-membros do ABBA, e Eric Sardinas participando com sua guitarra ressonadora, e seu slide, em "The Attitude Song", na qual Vai empunha uma câmera para filmar seus companheiros durante os solos.

Nos extras, estão entrevistas com Dave, mostrando os camarins do palco de Vai, especialmente roupas e artefatos usados pelo Vai no palco, uma entrevista com Billy falando sobre suas experiências na Ásia, mais especificamente sobre comer em Hong Kong, uma hilária sequência do roadie de Vai junto a Dave, com as necessidades do artista principal (15 segundos hilariantes), a aula de baixo que Billy tem de seu próprio roadie (igualmente hilária), assim como Vai tendo aulas de guitarra de seu roadie, Thomas Nordegg, que também concede uma breve entrevista para o DVD. A passagem de som em Astoria e ensaios em Los Angeles, com as faixas "Giant Balls of Gold" e "Erotic Nightmares" também estão presentes, assim como a biografia de cada membro da banda, discografia completa de Steve Vai e acesso ao site do guitarrista complementam o DVD 2.

A famosa “linguada” de Vai

Para quem quer ter uma aula de guitarra, virtuosismo, performance e simpatia, é uma pedida excelente nesse início de ano.

Track list

Contra-capa do DVD
DVD 1

Shyboy
Giant Balls Of Gold
Erotic Nightmares
Blood And Glory
Dave's Party Piece
Blue Powder
The Crying Machine
The Animal
Bangkok
Tony's Solo
Bad Horsie
Chameleon
Down Deep Into The Pain
Fire
Little Wing
Whispering A Prayer
Incantation
Jibboom
For the Love of God
Liberty
The Attitude Song

DVD 2

Backstage
Behind-The-Scene Footage
Interviews
Band Biographies
Vai Discography
Los Angeles Rehearsals

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Melhores de 2017

Ouvi quase uma centena de lançamentos este ano, alguns horríveis, outros excelentes. Foi difícil compilar apenas 10 aqui para vocês leitores, mas enfim, aí vão aqueles que julgo serem os dez melhores discos de 2017 (e uma menção honrosa). Sendo que desta feita, não irei trazer questões como pontos positivos ou negativos, me focando apenas nos álbuns.

Black Country Communion - BCCIV

Confesso que eu achava que o BCC não ia mais se reunir. Depois das pequenas brigas internas, da dissolução do California Breed e de Glenn Hughes fortalecendo sua carreira solo, eu esperaria que cada membro da banda seguisse seu destino, e pronto. Mas os caras surpreenderam todo mundo, e lançaram mais um álbum magistral. Peso em "Sway", com ótima participação dos teclados de Derek Sherinian, velocidade em "Awake", hard pegado em "The Crow", com um belo solo de baixo e órgão, tudo soando encaixado e perfeito. Há algumas canções surpreendentes, como a soturna "The Cove" e a leve "Over My Head", bem como a longa "Wanderlust", que ganharam um ar "pop" por conta dos teclados, mas nada que as torne ruins. Hughes rasgando a voz em "Collide", Joe Bonamassa fazendo estripulias com a guitarra na ótima "The Last Song for My Resting Place", a qual também emociona com sua voz e o violão, e Jason Bonham cada vez mais aperfeiçoando-se na batida que está impregnada em seu DNA. Falando em Led, quem que não imagina "The Wanton Song" quando começa "Love Remains"? Claro que a música não tem nada a ver com o clássico Zeppeliano, mas o riff é muito parecido. E que combinação arrepiante é a voz de Hughes com o piano e o violão em "When the Morning Comes"! A versão em vinil ainda conta com outra bela canção, "With You I Go", um bom presente aos fãs. Uma união de monstros da música, e que merece a primeira posição com méritos. Hughes está vindo ao Brasil para desfilar os clássicos do Purple em várias cidades, mas como seria bom vê-lo em ação com a BCC. Tomara que um dia venham aqui, e que continuem relevando as brigas para criar obras atemporais como BCCIV.


Rikard Sjöblom's Gungfly - On Her Journey To The Sun

O final do Beardfish causou algumas feridas que pareciam incuráveis para os fãs dos suecos. Porém, o líder da Banda, Rikard Sjöblom, agregou-se ao Big Big Train e manteve seu trabalho junto ao Gungfly. E é com este último que o espírito do Beardfish sobrevive. Apesar de não ser um disco totalmente conceitual, algo tradicional na sua antiga banda, isso é a única coisa que um xiita pode reclamar no que ficou registrado em On Her Journey to the Sun. Afinal, tudo o mais é sensacional. Rikard trouxe sua marca mais uma vez, evidenciando influências de diversos gigantes progressivos, como Focus ("Keith (The Son of Sun)"), Genesis ("Of the Orb"), Gentle Giant ("If You Fall Part I"), Yes ("My Hero" e "Old Demons Die Hard") e Renaissance ("Over My Eyes"). Além disso, há uma modernização no som que o gordinho faz, principalmente na faixa-título, e uma mostra muito grande do talento individual de Rikar, seja nos teclados, seja na guitarra, no baixo ou até mesmo no acordeão. Destaques para a viajante suíte “The River of Sadness”, a linda "He Held an Axe", com uma melodia emocionante, e a fenomenal "Polymixia", uma jornada instrumental de insaciáveis doze minutos, repletos de variações, para colocar On Her Journey to the Sun no pódio da minha lista. Essencial para quem curte um prog rock atual, e o comentei um pouco mais sobre ele aqui.


Styx - The Mission
Depois de 14 anos sem lançar material inédito, o grupo Styx resolveu sacudir a poeira, e motivou seus fãs a criarem enorme expectativa quanto ao seu primeiro disco de estúdio dessa década. Diversas postagens e entrevistas diziam que The Mission seria um álbum conceitual, e como a banda sempre foi especialista em fazer álbuns conceituais (vide Paradise Theater, Kilroy Was Here e The Grand Illusion, por exemplo), era inegável que o que viria em 2017 só podia ser de alta qualidade. E assim o é. O melhor de tudo nesse álbum é que parece que voltamos aos aos 70, e estamos ouvindo o Styx em sua melhor fase. Logo de cara, após a vinheta "Overture" (há mais duas vinhetas em The Mission, as quais são "Ten Thousand Ways" e "All Systems Stable"), somos levados pelo rockzão de "Gone Gone Gone". Quer balada típica do Styx, então segura a emocionante "Locomotive" ou a estonteante "The Greater Good", onde a voz de Lawrence Gowan, em duelo com Tommy Shaw, lembra muito a de Dennis DeYoung. Gowan, que aliás, dá um espetáculo solo ao piano em "Khedive", linda faixa para relembrar peças como "Clair de Lune". Junto com isso, tudo aquilo que caracterizou a banda, sejam grandes vocalizações, excelentes arranjos, produções fenomenais, estão presentes em The Mission. Algumas faixas soam imponentes, tais como em "Hundred Million Miles from Home", "Time May Bend", "The Outpost" e a épica "Red Storm", forte candidata a melhor do disco (só o dedilhado de violão dessa música já vale umas 4 posições na lista de melhres). Outras soam como o velho Styx em ação, na voz debochada de James Young em "Trouble at the Big Show", nas vocalizações de "Mission to Mars" ou quando o hammond é a força propulsora de "Radio Silence". Forte candidato a melhor disco da banda desde o seu retorno, e fácil um Top 3 de 2017.


Roger Waters - Is this the Life We Really Want?



Um disco que foi muito ouvido por mim esse ano é este Is this the Life We Really Want?, de Roger Waters. Para quem é fã de Pink Floyd, é uma nostalgia revisitada de várias fases da banda, sem soar como um caça-níqueis. É muito difícil não se envolver sentimentalmente com faixas como "Broken Bones", "Déjà Vu", “The Last Refugee”, “The Most Beautiful Girl” e "Wait for Her", para quem aprecia a fase The Final Cut/Pros and Cons of Hitch-hiking, ou a faixa-título, "Bird in a Gale”, "Smell the Roses" e “Picture That” para quem é mais do período Wish You Were Here/Animals. Letras poderosas, melodias envolventes, canções marcantes e a certeza de que Waters ainda é capaz de criar música de alta qualidade. Waters está vindo ao Brasil em 2018, já estou com o ingresso comprado, e a certeza de que será mais um espetáculo inesquecível para todos aqueles que sabem apreciar sua obra. Outro álbum que também fiz questão de comentar mais para vocês, aqui.


U2 - Songs of the Experience

Ansiedade predominava pelo novo lançamento do U2. Sempre é uma surpresa o que os irlandeses fazem, e não foi diferente dessa feita. Songs of the Experience é mais um disco que deverá ser absorvido aos poucos. As canções tem muitos elementos de experimentação, como os eletrônicos de "Get Out of Your Own Way", e os teclados/pianos em "Love Is All We Have Left", "Love Is Bigger Than Anything in Its Way" e "The Little Things That Give You Away". Claro, também há aquelas faixas para os fãs cantarem o refrão em plenos pulmões, "Red Flag Day", "You're the Best Thing About Me", e aquelas que soam descoladas das demais, mas que as audições subsequentes fazem da mesma uma boa canção, no caso "Landlady" e "Summer of Love" Me trouxe lembranças da tríade Achtung Baby - Zooropa - Pop, com elementos de No Line on the Horizon, mas no fim das contas, é o U2 criando outro álbum fundamental e digno de sua discografia. Alguns falam que o U2 virou cópia de si mesmo, que virou inferior as bandas que ele influenciou, mas é tudo balela. "Lights of Home" ganha disparada a posição de melhor música do disco, seguida por "The Blackout", "13 (There is a Light)" e a dançante "American Soul", a qual poderia facilmente ter estado nos discos da tríade que citei acima. E que coisa bem bonitinha é essa "The Showman (Little More Better)", cada vez ganhando mais pontos comigo. O U2 continua tão importante quanto o foi nos anos 80, 90 e 2000, e se adaptando ao mercado sempre de forma positiva para quem está com os ouvidos abertos ao que Bono e cia. é capaz de criar. Fizemos um Test Drive com o disco aqui, e mesmo que o pessoal tenha malhado, não vá pensando que eles tem razão.


Black Pussy - Power




Quando ouvi esse disco pela primeira vez, logo de cara percebi que ele estaria na minha lista de melhores de 2017. Foi um dos álbuns que mais ouvi esse ano, muito em virtude de um som psicodélico altamente alucinógeno, pegado, com grudentas frases de guitarra e vocais, mas também com suas várias fontes de inspirações no hard setentista. As faixas te deixam em êxtase, com vontade de sair pulando pela casa e curtindo o rock 'n' roll de primeira que sai das caixas de som, em especial "Girlfriend", "Full Tilt Boogie", "Parasols", "Take You There", e o petardo "Home Sweet Home", uma sonzeira que sintetiza a psicodelia e o hard com perfeição. Ainda por cima, entrevistei Dustin Hill, o líder dos americanos, em uma entrevista muito legal. Quer mais?





Tuber - Out Of The Blue
Quando ouvi o disco Out of the Blue, jurei que estava sendo captado por algum prédio de festas de Manchester. O som post-punk é muito forte, só que com o passar da primeira música, você percebe que ali há uma novidade, e que os "ingleses" na verdade é um quarteto grego, que está em ação desde 2010. Os caras misturam eletrônicos e peso sem piedade, e isso é o principal no Tuber, como atestam "Cat Class" e "Moon Rabbit", faixas que vão deixar-te encucado com o que está sendo criado ali. Esse é o segundo álbum do grupo, perfeito para quem aprecia grupos como Smiths ou Joy Division, mas com um detalhe, tudo instrumental, e com fortes pitadas de Stoner. Curti muito ouvir Out of the Blue, principalmente " Luckily Dead", "Noman", "Russian" e a faixa-título. Para ser surpreendido, e conquistar o Top 10 da minha lista.


Supersoul - Faith Bender
Ouvi o Supersoul na finaleira do ano, bem daquelas do sem queres. Estava ocupado no trabalho, e não tinha percebido que tinha deixado o youtube selecionado no modo reprodução automática. Depois de curtir uma das minhas bandas preferidas de 2015 (Naxatras), entrou um riffzão setentista, uma voz carregada de efeitos e uma sonzeira animalesca. Meus ouvidos começaram a vibrar na frequência daquele som, e tive que parar o que estava fazendo para conferir o que era. Supersoul é outro power trio da Grécia, e nesse seu álbum de estreia, entrega aos fãs um som sujo, pesado, e repleto de energia. São 14 faixas, que fazem você sair de uma pancada violenta ("Faith Bender", "Freedom Prayer", "Mind Me When I'm Gone" e "The Manipulator") para faixas dançantes ("Gold") e até blues ballad hardona ("Came Back To Moscow"). "Blackhorse", "Jacob Williams" e "The Torment" soam modernas, mezzo White Stripes, mas ao mesmo tempo tem aquela veia de antiguidade, que agrada fácil. Como resistir as vocalizações do refrão de "Sea Of Tears"? Ainda temos espaço para a experimentação de "Carve My Stone", o blues elétrico "Wrong Side Of Suicide", a delicadeza de "Divine", enfim. Ótimo disco, e vida longa para o Supersoul. Ah, não engane-se com a capa, o álbum não é nada careta.


Electric Octopus - Driving Under The Influence Of Jams
Ano passado, o Electric Octopus entrou na minha lista de Melhores de 2016 com um álbum de uma hora e dez minutos, tendo apenas três canções. Pois em 2017, eles conseguiram fazer algo ainda melhor, mais delirante, e confesso, para poucos. Afinal, os caras vieram com uma fome do cão, e deixaram-se viajar por suas inspirações mais diversas para criar um álbum de 3 horas e 54 minutos somente de improvisos longos, viajantes, ácidos, chapantes, tudo o que você precisa para ficar naquele "barato" sem usar nenhum alucinógeno além da música. São nove faixas onde baixo e bateria (e camadas de teclados) criam a base para a guitarra de Tyrell Black ressonar maravilhosamente nas caixas de som. É voltar ao tempo dos longos improvisos de nomes como Grateful Dead, Allman Brothers, Canned Heat, e por aí vai. Um dos grandes momentos, para os mais chegados, é quando a base de "Walk on the Wild Side" (Lou Reed) surge para guiar as explorações de guitarra em "New Jam #2". Obviamente que um álbum dessa duração não é comum, e o mesmo foi lançado somente para download, mas olha, você não irá desperdiçar quatro horas ouvindo esse petardo. Pelo contrário, vai ver como ainda há músicos capazes de, com muita inspiração, usufruir de uma boa e bela jam. Aproveito também para indicar os outros três discos lançado pelo trio esse ano, Chaotic Wavemaker, Iliudi e Smokyhead, ambos igualmente acachapantes.



Universal Hippies - Dead Hippie's Revolution



Terceira banda grega, e essa segue os moldes clássicos do Stoner. Canções instrumentais, arrastadas, com solos de guitarra chapantes e muita viagem lisérgica. O que chama a atenção, além da mentalidade Stoner, é a influência hard rock, explícita nos riffs de guitarra e nos solos talhados a martelo para satisfazer os ouvintes. Procurem as faixas "Holy Slave", "Mariner's Dream", "Mountain", ou melhor, procure ouvir todo o álbum. Mais uma bela banda saindo da Terra de Zeus.


Menção honrosa

Robert Plant - Carry Fire


Cada novo lançamento da carreira de Plant mostra como o eterno vocalista do Led Zeppelin se reinventou de tal forma com o passar do tempo e continua capaz de alegrar os ouvidos dos fãs dos britânicos. Ouvi Carry Fire muito recentemente (o disco saiu em outubro) e por isso, não consegui colocá-lo numa posição acima dos demais, apesar de ele ter ficado um tempo nas minhas preferências. Nesse álbum, Plant buscou influências no seu passado hippie, e entregou canções belíssimas, tais como "New World" e o climão oriental da faixa-título. Temos a participação especial de Chrissie Hynde na viagem "Bluebirds Over the Mountain", e o som da The Sensational Space Shifters, que novamente acompanha Plant, com os elementos acústicos sensacionais, sendo o viola de Seth Lakeman e os violões de Justin Adams outras grandes atrações. Para quem curte Led Zeppelin III, "The May Queen" e "Carving Up the World Again... A Wall and Not a Fence" são uma macarronada com molho de calabresa, e "Season's Song" leva o prêmio de melhor canção de Carry Fire lindíssima e viajante através da voz de Plant. Belo disco, que merece ainda mais audições.
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