quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Discos Que Parece Que Só Eu Gosto: The London Symphony Orchestra Featuring Ian Anderson - A Classic Case (The London Symphony Orchestra Plays The Music Of Jethro Tull Featuring Ian Anderson)[1985]





Ao mesmo tempo que o rock 'n' roll se consolidava nos anos 60, e tornava-se uma potência nos anos 70, discos com orquestra e rock se tornaram lançamentos tradicionais. A fusão dos dois rendeu pérolas como Days Of Future Passed (The Moody Blues e London Symphony Orchestra, de 1967), Concerto For Group and Orchestra (Deep Purple e The Royal Philharmonic Orchestra, de 1969), Ekseption 00.04 (Ekseption e The Royal Philharmonic Orchestra, de 1971), Live - In Concert With The Edmonton Symphony Orchestra (Procol Harum e a orquestra citada no título, 1972) ou Journey To The Centre of the Earth (Rick Wakeman e a London Symphony Orchestra, de 1974), entre outros,. Uma única orquestra registrando rock 'n' roll em arranjos clássicos, era algo que poderia levar a música clássica para o jovem público dos anos setenta, e por que não, fazer com que alguns jurássicos apaixonados pelas obras de Bach, Beethoven, Chopin e cia., deixassem de torcer o nariz para a música dos cabeludos.

Como podemos ver, tanto as orquestras do Royal Philharmonic quanto a do London Symphony têm participação importante nesse mundo sinfônico + rock, e foram ambas que resolveram incrementar suas discografias, fazendo com que na segunda metade dos anos 70, uma espécie de lançamento se tornasse figura carimbada quase que constantemente. Tratava-se de gravações de músicas clássicas do estilo por uma orquestra. As primeiras gravações desse tipo foram as de Tommy (London Symphony Orchestra, de 1972) e Tubular Bells (The Royal Philharmonic Orchestra, de 1975).

A The Royal Philharmonic preferiu seguir com regravações para um único artista, e assim foram lançados Performs The Best Known Works Of Rick Wakeman (1978), Plays The Beatles - 20th Anniversary Concert (1982), Plays The Queen Collection (1982), ABBAPHONIC - ABBA's Greatest Hits (1983), Objects Of Fantasy - The Music Of Pink Floyd (1989), enquanto eventualmente trabalhou com Frank Zappa (200 Motels, de 1971), David Bedford (Star's End, de 1974), Ramases (Glass Top Coffin, de 1975), Renaissance (A Song For All Seasons, de 1978), além de seguir sua co-irmã, lançando em 1982 Hooked On Rock Classics, com regravações de Beatles, Stones, Derek and the Dominos, Survivor e outros (1982).


Alguns dos álbuns de clássicos do rock interpretados pela Royal Philharmonic Orchestra

Digo seguir a co-irmã por que foi a London Symphony quem resolveu primeiro ampliar sua homenagem ao rock, isso em 1977, quando gravou Classic Rock, coletânea dupla (no Brasil saiu em duas partes) que apresenta sucessos como "Bohemian Rhapsody" (Queen), "Life on Mars" (David Bowie), "Paint it Black" (Rolling Stones), "Whole Lotta Love" (Led Zeppelin), "God Only Knows" (Beach Boys) e mais 13 grandes clássicos de baluartes do rock, de Beatles a Ike & Tina Turner. Esse álbum inova ao re-aaranjar as canções do rock em um estilo bastante clássico, com metais e cordas simulando as guitarras, vocais e teclados, além da presença da bateria, único instrumento mais próximo ao rock.

Em 1979 veio Classic Rock Rhapsody In Black, outra coletânea de sucessos do rock 'n' roll, e a partir dos anos 80, a London Symphony trouxe Classic Rock - Rock Classics (1981), Classic Rock Rock Symphonies (1983), Rock Classic 5 - Themes And Visions (1983), The Power Of Classic Rock (1985), Classic Rock Countdown (1987) e Classic Rock - The Living Years (1989), que além de buscar clássicos do rock na década de 60 e 70, também atualizava peças do rock dos anos 80 em arranjos sinfônicos. A London Symphony, diferentemente da Royal Philharmonic, especializava-se em registra obras de diversos artistas, mas em 1985, resolveu apostar novamente no formato de um álbum exclusivo de um artista, e o homenageado da feita foi o Jethro Tull.


Alguns dos lançamentos da série Classic Rock, com a London Symphony Orchestra

Acompanhada pelo líder flautista, vocalista, violonista, batedor de escanteio, falta, pênalti e também goleiro e técnico do Jethro Tull Ian Anderson, além de participações especiais do guitarrista Martin Barre, do baixista Dave Pegg e do tecladista Peter Vitesse, ou seja, a formação do Jethro Tull que gravou o controverso Under Wraps (1984), e que precisava fazer alguma coisa para poder "arrumar o filme" que havia sido queimado bastante, a London Symphony Orchestra entrou nos estúdios com a intenção de lançar um álbum de Natal em 1985, e assim nasceu A Classic Case (The London Symphony Orchestra Plays The Music Of Jethro Tull Featuring Ian Anderson). Os arranjos ficaram a cargo de David "Dee" Palmer, que acompanhou o Jethro Tull durante boa parte da década de70, ora fazendo arranjos orquestrais ora sendo tecladista.

Porém, parece que o tiro acabou saindo pela culatra. O disco em si acabou sendo tão renegado quanto Under Wraps, e quase todos os fãs de Jethro Tull que eu conheço acabam desprezando seu lançamento. Nosso próprio colega, André Kaminski, ao fazer a Discografia Comentada dos britânicos, se quer mencionou UMA LINHA para A Classic Case. Desconheço as razões para o André ter feito isso, e tão pouco o julgo mal, mas isso só atesta que A Classic Case é um álbum esquecido na vasta discografia de Anderson e cia.


Contra-capa da versão internacional

Porém, eu realmente não entendo isso. Esse foi um dos primeiros discos ligados ao Tull que conheci (Aqualung, Thick as a Brick, The Broadsword and The Beast e Benefit vieram todos juntos à esse, através de um amigo do Micael que é apaixonado pela banda), e foi um caso de amor a primeira ouvida. A união de orquestra com a flauta furiosa de Anderson me causou um impacto muito forte, o suficiente para que A Classic Case se tornasse meu disco favorito da banda por muitos anos (até ouvir A Passion Play), e principalmente, ter sido minha primeira aquisição dos caras. Além disso, o repertório escolhido a dedo mistura canções de todas as fases do Tull, sendo então uma bela entrada ao mundo musical dos britânicos.

A super clássica "Locomotive Breath" surge com o poder das cordas entoando o riff inicial do piano. Os metais emulam os vocais, e o grande destaque é a flauta de Ian Anderson, que repete as linhas vocais e o magistral solo desse petardo de Aqualung (1971) em sua totalidade. O dedilhado de violão mais famoso da história dos britânico introduz "Thick As A Brick". As cordas fazem a parte vocal, e ao longo de pouco mais de quatro minutos, temos aqui apenas três partes do clássico álbum homônimo de 1972, contando novamente com a presença importante da flauta de Anderson, mas sem impactar tanto quanto a original.


Lado A

"Elegy" é uma das mais belas faixas registradas em A Classic Case. A combinação entre orquestra e a flauta causa emoções fortíssimas até em uma estátua. Um registro perfeito, que supera inclusive o original, lançado em Stormwatch (1979), assim como "Boureé", um espetáculo orquestral que impressiona pela sua imposição sonora logo de início, até baixo e flauta trazerem o consagrado riff de Bach. Na sequência, o que ouvimos em Stand Up (1969) está também registrado aqui, com Anderson mandando ver no solo de flauta, e a orquestra fazendo intervenções pontuais. Fechando o Lado A, a surpreendente "Fly By Night". Gravada por Anderson no seu álbum solo Walk Into Light (1983), aqui ela mantém o mesmo arranjo oitentista registrado originalmente, mas ganhou um clima de trilha sonora de filme de ficção científica através da orquestra, o que elevou em muitos pontos sua criação e inserção no álbum.

Outro super-clássico, "Aqualung", abre o lado B com a orquestra assumindo todos os postos. Um dos principais sucessos da banda, aqui é tratada com toda a honra e grandiosidade que merece, sem tirar uma nota do lugar. "Too Old To Rock 'n' Roll To Young To Die" é outra que a orquestra encaixou super bem. A guitarra da introdução está presente, as cordas emulam os vocais de Anderson, o saxofone. Tudo encaixadinho e agradável aos que apreciam a obra. O Medley com "Teacher", "Bungle In The Jungle", "Rainbow Blues" e "Locomotive Breath" possui a participação de Anderson na flauta, e os metais fazendo uma participação dançante e boa para aumentar o som durante a audição.


Lado B

Para fechar o álbum, uma versão praticamente idêntica para "Living In The Past", com o baixão, flauta e tudo mais, e "Warchild", uma faixa soberana, com uma orquestração que modificou totalmente o arranjo original, tornando-a muito mais próxima a grandes trilhas sonoras do que a pérola progressiva do álbum homônimo de 1974, e que encerra com chave de ouro esse rico trabalho clássico,

Depois, vieram We Know What We Like: The Music Of Genesis (1987), e só nos anos 90 a London Symphony resolveu investir alto nesse tipo de lançamento, com cinco discos em 1994 - Symphonic Music Of The Rolling Stones, Plays The Music Of The BeatlesPlays The Music Of Abba - Symphonic RockFortress: The London Symphony Orchestra Performs The Music Of StingOrchestra On The Rock - Queen - The Long Goodbye - dois em 1995 - Symphonic Music Of Procol Harum e Plays The Music Of The Eagles, além do disco Symphonic Music of Yes, outro projeto com arranjos de David Palmer, ao lado de Bill Bruford, Steve Howe e Jon Anderson. A partir dos anos 2000, pararam os lançamentos desse tipo, até por que a nova geração musical já havia praticamente abandonado o estilo clássico, mas A Classic Case ficou para a história, tanto pelo seu ousado - na época - estilo de adaptação de canções progressivas com arranjos clássicos como por ser um dos álbuns ligados ao Jethro Tull menos comentados em toda sua história, seja para bem ou para o mal. Concordam?
Contra-capa da versão americana e britânica


Track list

1. Locomotive Breath
2. Thick As A Brick
3. Elegy
4. Boureé
5. Fly By Night
6. Aqualung
7. Too Old To Rock 'n' Roll, Too Young To Die
8. Medley (Bungle in the Jungle / Rainbow Blues / Locomotive Breath)
9. Living in the Past
10. Warchild

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Livros: Novos Baianos (A História Do Grupo Que Mudou a MPB) [2014]


Luiz Galvão é um dos mais renomados poetas, diretores e letristas de nosso país. Ao lado de Moraes Moreira, Paulinho Boca de Cantor e Baby Consuelo (hoje do Brasil), fundou no início dos anos 70 o grupo Novos Baianos, que simplesmente redefiniu a Música Popular Brasileira ao unir samba, rock, frevo e diversos outros estilos em um som único. Isso gerou clássicos atemporais, tais como "Preta Pretinha", "Mistério Do Planeta", "Tinindo, Trincando", "Quando Você Chegar", "Swing de Campo Grande", entre outras grandes obras regravadas de outros artistas, como "Brasil Pandeiro" (Assis Valente), "Na Cadência do Samba" (Ataulfo Alves e Paulo Gesta), "Brasileirinho" (Pereira Costa e Waldir Azevedo) e "O Samba Da Minha Terra" (Dorival Caymmi), só para citar alguns.

A história de essas e outras grandes canções do grupo, bem como da vida particular de Luiz Galvão, e claro, curiosidades advindas dos baianos, é registrada no livro Novos Baianos (A História do Grupo Que Mudou A MPB), lançado em 2014 pela editora Lazuli. O contexto central é uma ampliação de Anos 70 Novos Baianos, lançado pela editora 34 em 1997, com mais histórias e também uma atualização (e imagens) sobre a banda pós tal livro, já que ainda em 1997, o Novos Baianos fez uma reunião que acabou resultando no ótimo disco ao vivo Infinito Circular (1998).


Para quem é fã do grupo por conta dos seus principais álbuns (no caso, o clássico e insuperável Acabou Chorare - 1972, e Novos Baianos F. C. - 1973), irá se deliciar com o autor das letras contando a origem e a inspiração para a criação de sua obra. Galvão narra com detalhes o que significam, por exemplo, a abelha abelhinha de "Acabou Chorare", por que enquanto corria a barca eu ia lhe chamar em "Preta, Pretinha", as travessuras do moleque brincando de velho, me chamando de Pedro em "Quando Você Chegar", entre outras histórias de canções menos memoráveis, tais como "De Vera" (primeira parceria com Moraes), “Dona Nita e Dona Helena”, “Só Se Não For Brasileiro Nessa Hora”, "Ferro Na Boneca" ou "Escorrega Sebosa".

O primeiro show da banda, no Teatro Vila Velha em setembro de 1969, participação defendendo "De Vera" no Festival da Record do mesmo ano (onde nasce o nome Novos Baianos), os complicados dias vivendo em São Paulo, a influência do chorinho nas composições do grupo, bem como a criação dos primeiros Trio Elétricos na Bahia, são alguns dos grandes êxitos que Galvão traz para o leitor. Até mesmo os filhos dos novos baianos são apresentados como nomes representantes da MPB.


O livro não segue uma ordem cronológica, mas de fácil leitura, nos surpreende ao longo de suas 300 páginas com histórias pessoais de Galvão, que envolvem desde os problemas com drogas e diversos relacionamentos com muitas mulheres, até ancorar no porto milagroso da esposa Janete, os conflitos políticos e sociais com a ditadura, e as peladas clássicas na Vargem Grande, onde o grupo se instalou em regime comunitário, jogando muito futebol e perdendo muito dinheiro. Vale ressaltar que mesmo assumindo que consumia maconha como uma atividade rotineira, o autor revela que abandonou as drogas há muito tempo, e que quando percebeu o mal que as mesmas fazem, arrependeu-se de ter usado as mesmas. Acho interessante que ele fala abertamente sobre isso, sem problemas.

Agrônomo de carteirinha, mas poeta de coração, Galvão acabou criando uma grande amizade com recém finado João Gilberto, que acabou apadrinhando ele e os amigos baianos no Rio de Janeiro, cidade onde os Novos Baianos fizeram fama, ainda mais com a introdução dos membros do grupo Os Leif’s, de onde surgiram Pepeu Gomes, Dadi e Jorginho (guitarrista, baixista e baterista respectivamente). Tudo isso também está apresentado com riqueza de detalhes e muito bom humor. Aliás, o relacionamento de Pepeu e Baby também entra na jogada, mas em nenhum momento trazendo babados ou polêmicas, sempre com muito respeito e zelo pelos colegas, assim como todas as citações aos demais membros da banda. Mesmo a saída de Moraes Moreira é tratada de forma ocasional, como algo natural perante o momento que o músico vivia em 1975.


Além das páginas com a história narrada por Galvão, temos também a presença da Discografia e todas as letras das canções registradas pelo Novos Baianos, duas entrevistas feitas pelo autor (uma com Capina e outra com Rogério Duarte), o Um Apêndice Que Resiste Á Cirurgia, com letras inéditas de Galvão e também imagens da carreira do grupo, bem como um texto do ex-presidente José Sarney, publicado na Folha de São Paulo de 25 de abril de 2003, enaltecendo as virtudes e importância do Novos Baianos para a cultura brasileira.

Por outro lado, o livro peca ao praticamente eximir-se de contar a história da banda pós-saída de Moraes, deixando uma sensação de que a banda acabou do nada, mas é um mero detalhe. Afinal, para um grupo tão importante quanto o Novos Baianos, é impossível dizer que sua história um dia irá acabar.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Maestrick - Espresso Della Vita • Solare [2018]



Como é bom quando recebemos um material de uma banda que já conhecemos, e melhor ainda quando esse material te surpreende positivamente. Há alguns anos, o Maestrick figurou nas nossas páginas através do EP The Trick Side Of Some Sons, na qual o trio paulista homenageia diversos baluartes do rock clássico, e que, como muito bem resenhado pelo Micael em tal oportunidade, tornava-se difícil de ouvir sem uma comparação a sério com os homenageados, com o Maestrick ficando muuuuuuuuuuuito aquém em todas as canções.

Pois eis que o tempo passa, e o grupo formado por Fabio Caldeira (vocais, piano, teclados), Renato "Montanha" Somera (baixo, vocais guturais), Heitor Matos (bateria, percussão), faz uma série de nove apresentações na Europa no ano passado, quando visitou Suíça, Itália, Polônia e República Tcheca, e lança Espresso Della Vita • Solare, que causou um alvoroço muito grande aqui e lá fora. Honestamente, consigo facilmente entender o alvoroço que muitos canais da imprensa especializada fizeram para o trio, já que o disco ocupou a primeira posição como Melhor Disco de 2018 nos sites O Subsolo e Gaveta de Bagunças, e a segunda posição de Melhor Disco de 2018 pela rádio Cangaço Rock e nos sites Road To Metal, Terreiro do Heavy Metal e Metal na Lata. Até a japonesa BURRN! avaliou o disco com a nota 86/100, a frente de gigantes como Anthrax e Spock's Beard.



Espresso Della Vita • Solare é a primeira parte de um disco duplo conceitual e traz uma observação da vida humana pela perspectiva de uma viagem de trem. Ele conta com a participação do guitarrista e produtor Adair Daufembach, além de uma série de convidados, destacando a Solare Choral (um coral formado por 3 sopranos, 5 altos, 5 tenores e 3 baixos), e a Solare Orchestra (4 violinos, 1 viola, 1 violoncelo, flauta e tímpano).

O álbum começa com a vinheta "Origami", uma espécie de "Overture" para a jornada musical que irá ser apresentada por pouco mais de uma hora e dez minutos, com destaque para a bateria de Matos. "I A. M. Living" traz o baixo de Somera em evidência, e a parte instrumental chama a atenção novamente pelo belo trabalho de bateria, além da guitarra fazer seu serviço com perfeição. Aqui há a participação do coral e da orquestra, mostrando ao ouvinte que os brasileiros vieram com grandiosidade. Boa faixa para apagar de vez qualquer má-vontade que possa ter ficado anteriormente.


"Rooster Race" começa com um lindo dedilhado de viola caipira feito por Caldeira, e até a participação de um berrante (Neemias Teixeira), em uma faixa veloz, que mistura heavy metal com elementos da música caipira, também muito boa de se ouvir. O piano e o ritmo dançante de "Daily View" mudam totalmente a sonoridade do álbum. Com vocalizações muito bem encaixadas e a suavidade sonora, parece que estamos ouvindo aquelas canções que o Queen usava para preencher seus discos no início da carreira, como "Seaside Randezvous", "Good Old-Fashioned Lover Boy", entre outras. A orquestra aparece com força em "Water Birds", que lembra bastante Sagrado Coração da Terra, divergindo apenas durante o belo solo de Daufembach.

"Keep Trying" é um som mais acessível, não tão pesado, lembrando bastante o grupo Apocalypse, e que traz criatividade ao citar, na letra, discos e canções do Rush. O coral introduz a suíte "The Seed". Dividida em doze partes, é uma faixa de quinze minutos, daquelas que você deve parar tudo que está fazendo para apreciar suas variações, e principalmente, o exímio trabalho de guitarra, baixo e bateria. Sensacional!! O baixo galopante de "Far West" mostra influências country junto ao peso metálico, em mais uma canção bastante criativa.


O lado acústico da Maestrick aparece na balada gospel "Across The River", mudando novamente o direcionamento musical do álbum e mostrando mais diversidade na música dos paulistas. "Penitência", única canção em português, traz um complicado repente feito por Moacir Laurentino e Sebastião da Silva, e em nada se assemelha ao que já tínhamos ouvido anteriormente nesse disco. Parece outra banda em outro mundo musical, misturando peso com o ritmo nordestino. Genial! Voltamos às lembranças do Apocalypse em "Hijos de La Tierra", trazendo parte da letra em espanhol e elementos latinos. O álbum encerra-se com a mini-suíte "Trainsition", uma faixa suave levada pelo riff do piano (martelando na cabeça por algumas horas) em uma longa e envolvente introdução, que nos apresenta mais uma canção bastante trabalhada, para fechar tranquilamente um álbum que nos dá muito o que pensar.

Primeiro, como é bom ver que o Maestrick é outra banda quando compõe suas próprias canções. Bom gosto e muita técnica são os destaques. O bom gosto, principalmente, aparece não só na qualidade das harmonias e composições, mas também no luxuoso encarte de mais de 20 páginas que acompanha o CD, lançado no formato DIGIPACK. O guitarrista Adair Daufembach bem que poderia manter-se fixo. Seu trabalho é impressionante, e eleva a qualidade do álbum em muitos pontos. Por fim, resta aguardar Espresso Della Vita: Lunare, e esperar que o trio continue com o bom gosto musical, investindo nas suas composições e desistindo de coverizar clássicos.


Track list

1.  Origami
2 I A. M. Living
3 Rooster Race
4 Daily View
5 Water Birds
6 Keep Trying
7 The Seed
8 Far West
9 Across The River
10 Penitência
11 Hijos De La Tierra
12 Trainsition



domingo, 7 de julho de 2019

Javali - Life is a Song [2019]




Em 2017, o grupo Pop Javali, formado por Marcelo Frizzo (baixo/vocal), Jaéder Menossi (guitarra/backings) e Loks Rasmussen (bateria/backings), lançou seu terceiro full lenght, Resilient, que foi resenhado aqui, e que mostrava uma evolução positiva para o grupo. Porém, em meados do ano passado, a banda anunciou uma mudança de nome, retirando o Pop e ficando apenas Javali. Apesar do Pop ter sido retirado, parece que ele surgiu com força no primeiro EP da Javali, intitulado Life is a Song, e que chegou ao mercado dos streamings em março desse ano, e no formato físico em abril.

O álbum começa com "Runaway", uma faixa mais leve em relação aos demais álbuns, lembrando um pouco grupos do hard dos anos 90, como Extreme. Algo similar ocorre em "Singing Along", apesar de essa já possuir linhas mais pesadas e trabalhadas. O refrão é marcante, e a base lembra um pouco Black Sabbath fase Tony Martin. "Empty Promisses" e "Child's Frustration" mostram o peso tradicional que levou o Pop Javali ao mundo, inclusive fazendo sucesso na Holanda, onde foi registrado Live in Amsterdam, destacando os belos solos de Jaéder. 


A segunda metade do CD é bem melhor que sua primeira, principalmente com a velocidade e o baixão de "Cruel Past", assim como ótimas passagens de guitarra, tornam essa candidata a melhor faixa de Life is a Song. O baixão também é destaque em "Dancing In The Fire", outra faixa com grande pique para pular pela casa ou nos shows. Como bônus, temos a pesadíssima "Read My Mind", uma faixa que parece ter sido gravada ao vivo em estúdio, com uma mixagem bastante crua, mas que assim como suas duas antecessoras, empolga na audição.

Em 26 minutos, o CD encerra-se, deixando a sensação de que o Javali mudou de nome e também de status. As canções foram gravadas em São Paulo no segundo semestre de 2018, no  Studio Atmosphera, com a captação e registro a cargo do produtor Edinho Junior, enquanto a mixagem e masterização foram feitas no estúdio Fusão, a cargo de Thiago Bianchi  (Noturnall). A arte da capa  foi desenvolvida pelo parceiro da banda João Duart, e a distribuição é a cargo da Miranda Records e Altafonte (via digital).  



Aliás, o grupo vem cada vez mais utilizando as modernas ferramentas da “era da internet” como forma de aproximar-se de seu público. Sua discografia está inteiramente disponível em todas as plataformas digitais, e o contato com o público é grandemente explorado por meio de vídeos da banda, bem como o canal oficial de youtube da Javali mostra-se eficaz tanto para divulgação como para aproximação, na medida em que disponibilizam filmagens de bastidores, entrevistas, making-offs, playlists com trabalhos individuais de cada um de seus músicos, entre outros. Para incrementar essa parte virtual, toda semana novos vídeos trazem para seus seguidores performances exclusivas e dicas práticas de execução em que a audiência poderá conferir mais de perto cada instrumento da banda.

Concluindo, se antes tínhamos uma banda que estava cada vez mais se consolidando na cena metálica mundial, hoje o Javali parece estar fincando seus pés no hard rock, mas ainda necessita comer algum feijão para finalmente alcançar o status de incontestável,reconquistar os fãs que já havia arrebatado nos tempos de Resilient e Live in Amsterdam.


Track list


1. Runaway
2. Empty Promisses
3. Singing Along
4. Child's Frustration
5. Cruel Past
6. Dancing In The Fire
7. Read My Mind (Bonus Track)


quinta-feira, 13 de junho de 2019

Focus - Parte II



Depois de um longo retiro, com apenas dois álbuns lançados em um período de mais de vinte anos, o grupo firmou-se nos anos 2000, lançando álbuns de estúdio regularmente e ressurgindo como uma das maiores forças do rock progressivo atual. Voltando no tempo, em 1985, novamente o nome Focus apareceu no cenário musical, e dessa vez, de forma totalmente surpreendente.

Um dos piores discos da história

Lançado em 1985, Focus é sem dúvidas, essa é a maior mancha negra da história do Focus, e quiçá da história da música. Quando ninguém esperava, a união de Akkerman e Van Leer foi anunciada em 1984, e assim, criou-se uma grande expectativa para o que seria parido pelos dois gênios comandantes do grupo dez anos após a separação. Quando Focus chegou ao mercado, a decepção foi maior do que a imensa barriga (e careca) estampada por Van Leer na contra-capa do álbum. 

O excesso de sintetizadores e batidas eletrônicas em nada convergem para os instrumentos acústicos (violão e flauta respectivamente) ostentados pela dupla na contra-capa do LP. O único momento razoável é "King Kong", principalmente por não conter nada eletrônico, mas nada mirabolante, e a jam "Who's Calling", enaltecendo as virtudes de Akkerman na guitarra e Van Leer na flauta. Há alguns momentos interessantes durante "Russian Roulette", com a participação do baixista Tato Gomez, e "Olé Judy", que lembra um pouco o que Rick Wakeman fez na mesma época, mas pelo menos dando espaço para a flauta e a guitarra se exibirem agradavelmente. 

Jan Akkerman e Thijs Van Leer (1985)

O resto são canções injustificáveis, seja "Indian Summer", tendo a presença de Tato e também da tabla de Ustad Zamir Ahmad Khan, a participação de Ruud Jacobs tocando baixo durante os insuportáveis dez minutos de "Beethoven's Revenge" ou Sergio Castillo fazendo a percussão eletrônica de "Le Tango", uma terrível tentativa de tornar o tango moderno. Um disco muito fraco, que é a mais pura demonstração de como os anos 80 serviram para destruir com a carreira de grandes nomes do rock dos anos 70. Recomendado apenas para colecionistas.

Bert Ruiter, Thijs Van Leer, Jan Akkerman e Pierre Van der Linden, Na reunião de 1990


Em 1990, a principal formação do Focus, com Van Leer, Akkerman, Bert Ruiter (baixo) e Pierre Van der Linden (bateria) voltou a se reunir para duas apresentações nos programas da TV holandesa Veronika e Goud van Oud. Infelizmente, quando todos achavam que a reunião iria vingar, nada mais do que essas duas apresentações surgiu. Em 1993, Van Leer e Akkerman dividiram o palco durante o North Sea Jaz Festival. Van Leer continuou sua carreira solo, e em 1999, reformulou o Focus, trazendo na formação Hans Cleuver (baterista da primeira formação da banda), Ruiter e Menno Gootjes (guitarras). 

Vários shows pela Holanda foram realizados, e depois de algumas mudanças na formação, eis que o Focus entra nos anos 2000 com toda força. Van Leer juntou-se aos membros da banda CONXI Bobby Jacobs (baixo), Ruben Van Roon (bateria) e Jan Dumée (guitarras) e ressuscitou o Focus. Van Roon nem chegou a esquentar as baquetas, e foi substituído por Bert Smaak. Esse time lançou Focus 8 em 2002, que colocou o grupo no mercado novamente, através de uma extensa turnê mundial, promovendo o melhor trabalho da banda desde Hamburgo Concerto (1974).

O retorno definitivo do Focus nos anos 2000



 O álbum resgata a sonoridade marcante do Focus anos 70, sendo por exemplo impossível não lembrarmos de "House of the King" durante o solo de flauta e violão de "Tamara's Move", a singela oitava parte (faixa-título) de "Focus", a bela "De Ti O De Mi", e também de segurar as lágrimas na arrepiante revisão instrumental de "Brother", totalmente modificada em relação a péssima canção registrada em Focus Con Proby, tendo Dumée reproduzindo a linha vocal de Proby na guitarra e com uma tímida citação à "Eruption" em seu encerramento. 

Temos uma mistura inovadora do yodel e peso durante "Hurkey Turkey", canção que virou o grande sucesso do álbum, trazendo a participação de Geert Scheijgrond na guitarra, "Neurotyka", uma neta com genes fortemente ligados a avó "Hocus Pocus", gravada ao vivo no estúdio e com Ruben Van Roon na bateria, e "Rock & Rio", alegre homenagem à cidade Maravilhosa. O yodel também está presente em duas canções totalmente opostas, a festiva "Flower Shower", canção bônus totalmente desnecessária, sendo a mais fraca do álbum, e "Što Čes Raditi Ostatac Života?", sem dúvidas a melhor canção de Focus 8, levada pelo dedilhado flamenco do violão, os longos acordes de órgão e um solo magistral de Dumée, que comanda a suavidade e simplicidade de "Blizu Tebé", outra fortemente inspirada nos anos 70. 

Parte interna de Focus 8

A flauta é o principal instrumento de "Fretless Love", trazendo elementos de Focus 3 com o som dos anos 2000. Um retorno essencial e definitivo, trazendo o grupo novamente para os palcos, e possibilitando a geração de uma nova leva de fãs, além do resgate dos mais antigos.



Uma extensa turnê mundial trouxe o Focus pela primeira vez ao Brasil em novembro de 2002, para shows no Rio de Janeiro, Macaé, São Paulo e Belo Horizonte. Essa turnê foi registrada no DVD Live in America (2002). O grupo voltou novamente ao Brasil em março do ano seguinte, com três concorridas apresentações em São Paulo, duas no Rio de Janeiro, uma em Porto Alegre e uma em Belo Horizonte. No mesmo ano, foi lançado o CD Live at BBC de forma oficial. O mesmo já aparecia como bootleg na década de 90, e nele esá uma apresentação da banda na rádio inglesa em fevereiro de 2006. 


Em 2004, Pierre Van der Linden assumiu novamente seu posto, no lugar de Smaak. No mesmo ano, foi lançado o excelente DVD Masters from the Vaults, um documentário repleto de imagens raras e com toda a história dos holandeses, que seguiram excursionando, passando mais uma vez pelo Brasil (em maio de 2005, com quatro apresentações em São Paulo, mais uma apresentação no Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte), até o novo lançamento, em 2006, já com Niels van der Steenhoven no lugar de Dumée. Vale citar que essas vindas ao Brasil ocasionaram um futuro lançamento, como veremos na sequência, graças a uma jam session realizada no "Boteco" Orquídea, em Niterói, junto ao pianista Marvio Ciribelli.
O único álbum com Niels na guitarra

Lançado em 2006, Focus 9 / New Skin traz uma nova formação, que dá uma nova cara para o Focus, principalmente por conta da guitarra jovem de Niels, que foge bastante do virtuosismo empregado por Dumée, e assemelha-se mais as linha de Akkerman, sendo que por diversas vezes confundimos os timbres da guitarra e achamos que é o próprio Jan quem está nas seis cordas, principalmente durante as suaves linhas de "Sylvia's Stepson", transformando-se em uma pesada canção na parte central, e nas duas partes de "Focus", no caso a balada "Focus 7" e a jazzística maluca "Focus 9" (para os curiosos de plantão, "Focus VI" está presente no álbum Reflections, lançado por Van Leer em sua carreira solo, no ano de 1981). 

Por outro lado, o guitarrista criou um suingue inigualável em "Niel's Skin", única faixa de Focus 9 escrita por ele, e que casou muito bem com a cozinha Jacobs / Van der Linden, além de trazer o free jazz como fonte adicional de criatividade para a música clássica durante os épicos e divertidos dez minutos de "European Rap(sody)", na qual Thijs é o astro principal, seja na flauta, no órgão, no piano e até nas vocalizações que aparecem na canção, citando nomes de canções do grupo que acabam formando a letra dessa pequena Maravilha. 

Thijs van Leer; Pierre Van Der Linden; Bobby Jacobs e Niels Van Der Steenhoven. Focus em 2006

O Focus moderno, com Niels e Van Leer emulando as mesmas melodias, está na alegre "Pim" e nas baladas "Ode to Venus"  e "It Takes 2 2 Tango", a qual poderia ser um pouco mais curta. O álbum traz uma recriação instrumental para "Black Beauty" (de Focus Play Focus), que particularmente considero bem melhor que sua versão original, e a segunda parte de duas canções gravadas pelo grupo anteriormente: "Hurkey Turkey 2", um pouco mais lenta que a primeira versão (presente em Focus 8), e com yodels simulando as linhas da "Marcha Turca" de Mozart; e "Just Like Eddy", sequência de "Eddy" (Focus Con Proby) tendo Jo de Roeck nos vocais, e totalmente descartável. Já o excesso de yodels do álbum anterior é desconstruído em Focus 9, aparecendo apenas em "Hurkey Turkey 2" e em "Aya-Yuppie-Hippie-Yee", uma agitada faixa, destacando a performance de Van der Linden, assim como a flauta está mais tímida, aparecendo apenas nas partes leves de "Curtain Call". No geral, um disco muito bom, que mantém a vontade de se ouvir o grupo em alta.


Mais excursões seguiram-se, com outras três vindas ao Brasil: em junho de 2008 (São Paulo, Rio de Janeiro e Recife); em março de 2010 (Belo Horizonte, Juiz de Fora, Porto Alegre, Goiânia e São Paulo); e março de 2012 (Belo Horizonte, Pouso Alegre, Rio de Janeiro, Goiânia, Votorantim e São Paulo). Nesse meio tempo, em janeiro de 2011, Niels anunciou sua saída oficial do Focus, sendo substituído por Menno Gootjes. Esse time voltou ao estúdio para gravar Focus X.

O melhor álbum sem Akkerman na opinião do autor


Contando com uma belíssima arte sob a mão do mestre Roger Dean, Focus X, lançado em 2012, é para mim o melhor álbum do Focus sem Jan Akkerman. O grupo está solto, e a cozinha Ruiter / Jacobs funciona como uma máquina perfeitamente ajustada. A pancada "Father Baccus", que abre a bolacha, entra na lista das melhores faixas que o grupo gravou, e Van Leer comprova seu talento na flauta durante a circense "Talk of the Clown" e a veloz "All Hens On Deck" - que também apresenta um bonito duelo de yodel com guitarra - além de declamar um poema em latim durante a viajante "Hoeratio". 


Menno Gootjes, Thijs Van Leer, Bobby Jacobs e Pierre Van der Linden


Belo também é o trabalho de piano, violão e guitarra em "Amok In Kindergarten". A guitarra de Menno conversa com o ouvinte durante "Message Magique" e "Victoria". Surpreendentemente, temos Ivan Lins fazendo a voz de "Birds Come Fly Over (Le Tango)", e mais surpreendentemente ainda é que é uma boa canção. Outra canção com convidado é "Crossroads", apresentando Berenice Van Leer nas vocalizações, e o papai  Thijs fazendo a voz principal. Focus X também abre espaço para as bonitas melodias da última parte de "Focus", "Focus 10".  A versão japonesa possui dois bônus: “Santa Teresa”, trazendo Ivan Lins nos vocais, em espanhol, e uma versão ao vivo para “Hocus Pocus”. Recentemente, Van Leer declarou que esse é um dos seus discos preferidos da banda, ao lado de Moving Waves e Focus 3.

O grupo retornou ao Brasil para mais apresentações em abril de 2014, com uma grande turnê e shows em Florianopolis (09), Curitiba (12), Pouso Alegre (12), Rio de Janeiro (15), Belo Horizonte (16), Catanduva (17), Porto Alegre (18) e São Paulo (19). No mesmo mês, mais precisamente no dia 29, lançam pelo novo selo, In And Out of Focus Records, mais um álbum.


Coletânea com regravações

Golden Oldies (2014) trata de regravações de clássicos da banda com a formação de Focus X. Estão aqui "Aya Yippie Hippie Yee", "Brother" (similar ao arranjo de Focus 8, e não ao de Con Proby), "Focus 1", "Focus 3 & 2", "Hocus Pocus", "House Of The King", "Neurotica", "Sylvia" e "Tommy" (uma das partes de "Eruption"). Com exceção de "Focus 3 & 2", que faz uma mistura dessas duas partes de "Focus", e de pequenas modificações em "Focus 1" e "Sylvia", conforme apresentadas nos shows da época, bem como Van Leer nos vocais de "Brother", não há nenhum arranjo novo. 

Apenas uma nova formação interpretando de forma fiel os arranjos originais. Claro que os solos de Menno são bastante diferentes dos de Akkerman (nas faixas em que este era o guitarrista), Van Leer acrescenta novos improvisos aqui e acolá, a cozinha modifica algumas partes de determinados trechos das canções, mas no geral, é mais um caça-níqueis do que um item de exceção na discografia da banda. Vale como uma boa coletânea revisitada.
Álbum gravado no Brasil e com músicos brasileiros

Apresentando uma série de convidados, e sob o título Focus and Friends Featuring Marvio Ciribelli, Focus 8.5 / Beyond The Horizon foi gravado em nosso país durante a turnê de 2005, como resultado das tours citadas acima. O pianista Marvio Ciribelli é a atração na capa, e um dos arranjadores ao lado de Van Leer. Além do brasileiro, estão também Sérgio Chiavazzoli (guitarras, violões), David Ganc (Flauta), Marcelo Martins (Flauta), Mário Sève (Flauta), Arthur Maia (baixo), Rogério Fernandes (baixo), Amaro Júnior (bateria), Marcio Bahia (bateria, voz), Fabiano Segalote (Trombone, voz), Amaro Júnior (Percussão), Flavio Santos (Percussão), Marcio Bahia (efeitos), Mylena Ciribelli (ela mesma, repórter esportiva, efeitos e vocais), Thaís Motta (vocais), Marcio Lott (vocais), além de Van Leer, Van Der Linden, Jacobs e Dumée. 

O Focus como banda surge apenas na estonteante "Hola, Como Estas?", belíssima e quebrada faixa com a participação vocal dos amigos brasileiros. Thijs, Jacobs e Pierre estão em "Surrecit Christus", faixa hipnotizante, onde as flautas de Thijs, David e Mário Seve são os destaques junto das vocalizações de Thaís, além de um solo de baixo por Jacobs. Os músicos estão improvisando de forma descontraída, sem compromisso, como comprova-se em "Focus Zero", faixa fantástica na qual Van Der Linden e Van Leer são o centro das atenções, trazendo o brilhante suingue de Marvio ao piano, Arthur no baixo e Sérgio na guitarra. 

A versão nacional, devidamente autografada

É legal de ver a influência do som brasileiro em "Millenium", faixa criada por Dumée, com a participação de Van der Linden, mas onde o principal destaque é o suingue percussivo provocado por Amaro, Flavio, Marcio e Pierre, o piano elétrico de Marvio e o piano acústico do próprio Dumée, que também faz vocalizações na melhor linha Milton Nascimento, sendo essa uma faixa que tranquilamente apareceria em algum disco do Clube da Esquina. Marvio é o responsável pela criação de duas canções, "Rock 5", faixa linda, dividida entre uma balada que destaca as vocalizações de Thaís e uma dançante sessão instrumental, com Jacobs sendo o único membro do Focus a participar, e "Înãlta", marchinha com pitadas progs tendo a flauta de Van Leer e as suaves vocalizações de Mylena tornando a mesma ainda mais agradável. 

Por fim, Van der Linden e Marcio fazem um duelo nada empolgante em "Talking Rhythms", faixa onde somente as baterias e vocalizações estão presentes, e bem desnecessária. No geral, um bom álbum, que no Brasil, foi lançado com uma capa diferente, trazendo caricaturas dos músicos da banda e de alguns dos "amigos". Também é de 2016 o CD e DVD ao vivo Live In England, com o registro de Bilston, no dia 28 de abril de 2009. Mais uma mudança na formação, com Udo Pannekeet substituindo Jacobs, e assim, surge mais um disco da banda, logo após mais uma importante compilação de sobras, chamada The Focus Family Album, de 2017.

Coletânea dupla com material diverso
Essa coletânea dupla, com mais uma belíssima arte de Roger Dean, traz canções do Focus somadas a faixas solo de Van Leer, Van Der Linden, Gootjes, Pannekeet e do projeto Swung, um trio com Menno, Jacobs e Van der Linden. Concentrando-se apenas nas canções do Focus, há de tudo um pouco. O Brasil participa com o Estúdio Mosh cedendo espaço para a jam session "Mosh Blues", gravada em 18 de março de 2012, e para "The Fifth Man", registrada no dia 13 de abril 2014. A primeira é uma jam session com improvisos muito simples, enquanto a segunda é uma faixa muito boa, hardeira e mais trabalhada, pensada inclusive de aparecer em Focus XI, mas que foi descartada. "Santa Teresa" é o bônus da versão nipônica de Focus X, com Ivan Lins nos vocais.Falando em Ivan Lins, Van Leer substitui ele nos vocais de "Birds Come Fly Over (Le Tango)", cujo instrumental é idêntico ao de Focus X. Do mesmo álbum temos uma versão editada e com nova mixagem vocal para "Victoria". Ainda, "Five Fourth" nasceu no Brasil, e foi gravada em apenas uma tomada, com os músicos tocando uma sequência de notas escritas por Van Leer no intervalo das gravações de Focus X. "Clair-Obscur" e "Winnie" são versões primárias da mesmas faixas que irão aparecer em Focus XI. "Song For Eva" é uma longa peça de quase dez minutos, trazendo o poema “They Say that Hope is Happiness” de Lord Byron, e com um belo solo de Menno. O vocalista Jo de Roeck, que participou de “Just Like Eddy” em Focus 9, interpreta "Fine Without You". Da "família", "Nature Is Our Friend" e "Let us Wander" foram gravadas exclusivamente para o disco, tendo apenas Van Leer na sua flauta, caminhando junto a natureza. "Hazel" e "Two-part Intervention", também exclusivas do álbum, são lindas peças ao violão clássico, na linha de canções de Bach. Já "Riverdance" e "Spiritual Swung", solos de bateria, foram retiradas de Pierre’s Drum Poetry, um disco apenas para os amigos e familiares, lançado em 2000, mas que teve uma tiragem mundial em 2018. "Song for Yaminah" é uma das faixas que Pannekeet apresentou em seu teste, enquanto "Anaya" destaca o uso do baixo de seis cordas. Já as duas faixas do projeto Swung são do álbum Swung Vol. 1 & 2, de 2014. Apesar de longo (80 minutos), não é um disco a ser desprezado pelos fãs, valendo muito a pena sua posição nas prateleiras.

No dia 04 de março de 2018, Hans Cleuver, primeiro baterista da banda, faleceu. O baterista, mesmo após sair do Focus, continuou esporadicamente trabalhando com Van Leer e Akkerman nos discos solos dos mesmos.





Focus 11 [2018]

Outra linda capa de Roger Dean dá sequência aos trabalhos e shows que a nova formação já vinha apresentando, com improvisos e muita experimentação, Focus XI encerra (por enquanto) a Discografia dos holandeses no mesmo nível dos álbuns Focus 8 e Focus 9. Das faixas mais Focus, posso citar " How Many Miles?", na linha de "Sylvia" e com Van Leer aos vocais, sem yodel, a bela "Theodora Na Na Na", com um riff de flauta e guitarra hipnotizante, e a intrincada "Mazzel", para mim a melhor do disco, principalmente pela sua complexidade. Mas quer mesmo Focus, então faça uma emocionante volta ao passado de "Focus II" ou "Focus III" com "Mare Nostrum", principalmente pelo timbre Akkermaniano da guitarra de Gootjes, mas com uma virada surpreendente em sua segunda metade, ou com "Focus 11", bem diferente das versões anteriores, e mantendo o nível de capacidade de tocar os ouvidos e a mente ds fãs. No mais, temos de tudo um pouco. Inspirações latinas em "Heaven", com Van Leer destacando-se ao piano, a mistura de jazz e rock 'n' roll de "Palindrome" (um espetáculo a parte de Van der Linden na bateria) e "Who's Calling", ambas lembrando os grandes nomes do jazz rock do final dos anos 70, além de um retorno aos anos 80 em "Final Analysis", momentos de profunda intensidade emocional em "Winnie" (que já tinha dado as caras em Focus Family, aqui registrada com um arranjo idêntico), com a flauta e o piano derretendo corações. "Clair-Obscur", outra que está em Focus Family, também possui um arranjo similar, mas prefiro a versão anterior, mais crua em termos de equalização. Focus 11 foi lançado em uma limitada tiragem em vinil turquesa, especial para colecionadores.

E para mais histórias e notícias, indico o excelente blog Focus the Band, totalmente dedicado ao maior grupo holandês da história da música.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Livro: Bob Dylan - No Direction Home (A Vida E A Música De Bob Dylan) [2010]



Há algum tempo, escrevi sobre o belíssimo DVD duplo No Direction Home, que trata sobre a carreira do músico americano Bob Dylan no período entre seu nascimento em 1941, e o final da década de 60. Esse DVD tem como parente próximo o igualmente belíssimo livro No Direction Home (A Vida E A Música de Bob Dylan). Lançado primeiramente em 1986 pelo escritor Robert Shelton, em 2010 o livro recebeu uma nova edição revisada, que irei tratar hoje sobre ela.

Shelton foi o responsável, digamos assim, por apresentar Dylan ao mundo. Escrevendo para o New York Times, com o título Bob Dylan: Um Cantor de Folk com Estilo Distinto (29 de setembro de 1961), o jornalista foi o primeiro a traçar um perfil positivo para o jovem Dylan, exatamente um ano após o mesmo ter chegado em Nova Iorque. Desde então, acompanhou fielmente a carreira de Dylan, e teve autorização para publicar o livro ainda na década de 60. Porém, No Direction Home demorou quase 20 anos para ficar pronto, e quando estava, Shelton recebeu uma dura missão: ou ele cortava 180 mil palavras da edição apresentada a editora, ou reduzia 35 mil dólares de seu orçamento.


O texto de Robert Shelton, que praticamente apresentou Bob Dylan ao mundo

Isso foi em outubro de 1983, e Shelton preferiu reduzir 35 mil dólares de direitos autorais. Com 210 mil cópias vendidas de imediato, em setembro de 1986 foi lançada a primeira edição, de grandioso sucesso. A edição de 2010 foi atualizada por Elizabeth Thomson e Patrick Humphries. Nela, foram adicionados novos textos, assim como um Prelúdio e uma atualização da Discografia, Bibliografia e Cronologia da carreira de Dylan até 2010.

A edição de 2010 apresenta então o Prelúdio, totalmente inédito, uma Introdução de 10 páginas, Notas da primeira edição, Discografia Selecionada, incluindo participações especiais em discos de alguns autores, mais de 60 fotos distribuídas ao longo de 48 páginas, além da Bibliografia Selecionada e da Cronologia de Dylan a partir de 1979 (ano que Shelton encerrou a escrita de No Direction Home) a 2010 (ano da edição), bem como treze capítulos. A nova edição totaliza 736 páginas.

A introdução deixa clara que na edição de 2010 há uma melhor organização cronológica, adicionando cerca de 20 mil palavras e anedotas advindas dos manuscritos originais de Shelton de 1977. Além disso, são feitas adições aos capítulos Um, Quatro e Dez, além da celebrada entrevista do voo entre Lincoln e Denver, na qual Dylan afirma que era viciado em heroína, estar na íntegra. Por outro lado, em relação ao original, as partes das gravações piratas e Os Novos Dylans foram removidas.


Peter, Paul and Mary, Joan Baez, Bob Dylan, the Freedom Singers, Pete Seeger e Theodore Bikel, cantando “We Shall Overcome” no Newport Folk Festival de 1963.

Os capítulos são divididos por nomes relacionados à frases que aparecem em canções de Dylan, e assim temos:

I - Não Levante A Voz Aqui
II - O Extremo Errado Do Mississippi
III - Talking Greenwich Village Blues
IV - Positivamente 161 West Fourth Street
V - Não Sou Um Fantoche Laureado
VI - Rola, Gutenberg
VII - Diversas Temporadas No Inferno
VIII - O Orfeu Elétrico
IX - No Coliseu
X - Um Pé Na Estrada
XI - Escutando O Silêncio
XII - Correndo Livre
XIII - Trovão, Furacão E Chuva Forte


Robert Shelton e Bob Dylan

Depois do prelúdio e da introdução, Não Levante A Voz Aqui traz ao leitor a vida do pequeno Bob na pacata cidade de Hibbing, Minnesota. A dura vida no interior, bem como o relacionamento com a primeira namorada, Echo Helstom Shivers, são os únicos momentos de atração inicial. É a partir de O Extremo Errado Do Mississippi que o Dylan que conhecemos passa a sair das páginas de No Direction Home. Percebe-se a inteligência e, por que não, arrogância do adolescente Dylan quando ele rouba cerca de 20 discos do amigo John Pancake, colega de faculdade em Dinky Town, apenas por que considerava que o amigo não era um apreciador de música como ele. Esse capítulo traz também informações sobre raras gravações de Dylan em 61, além de algo que chama a atenção durante todo o livro, que é um resumo biográfico da vida / obra de algum artista ou pessoa citada no texto. Nesse capítulo em especial, surgem breves resumos da vida de Woody Guthrie e Chuck Berry, dois nomes fundamentais e influentes na carreira de Dylan.

Talking Greenwich Village Blues traça a vida de Dylan pegando carona para chegar em Nova Iorque, e seus desaforos com imprensa e pessoas em geral. Destaca também uma importante amizade com o músico Dave Van Ronk, um dos responsáveis por incentivar Dylan a gravar, e o encontro com Guthrie, que deixou Dylan muito emocionado, já que seu ídolo estava vivendo os últimos dias de vida. Por fim, surge o contrato de 5 anos com a Columbia e uma opinião faixa a faixa de Shelton sobre Bob Dylan (1961). Positivamente 161 West Fourth Street relata a parceria calorosa de Dylan com o empresário Albert Groosman. Temos também um faixa a faixa de Freewhellin' (1963) e destaque para o boletim de protesto mimeografado, que divulgou muitas canções de Dylan no início de sua carreira, bem como o raro álbum Broadside Ballads Vol. 1, com faixas de Dylan e diversos outros artistas.


Imagens do livro

Não Sou Um Fantoche Laureado passa a comentar sobre o período do auge da carreira de Dylan no Folk Rock. Aqui aparecem comentários sobre a participação do músico no Newport Folk Festival de 1963, a profunda amizade com Joan Baez, algumas entrevistas, sempre com humor mordaz, e um discurso fracassado no Tom Paine Award de 1963, apresentado na íntegra, e que deixou muita gente indignada com o comportamento agressivo e arrogante do músico, principalmente quando ele alegou ter empatia por alguns sentimentos de Lee Harvey Oswald, isso dias depois do assassinato de John Kennedy.

Rola, Gutenberg traz um faixa a faixa de The Times They Are A-Changing (1964), uma profunda análise das 11 Outlined Epitaphs (textos que aparecem na contra-capa do mesmo disco), um faixa a faixa de Another Side of Bob Dylan (1964) e detalhes sobre a escrita do livro Tarantula, lançado por Dylan somente em 1971. Diversas Temporadas No Inferno tenta mostrar um outro lado de Dylan, ligado as causas sociais e com alguma roda de amigos. Aqui são relatados a participação do artista junto ao comitê de emergência pelas liberdades civis, um longo passeio atravessando os EUA com amigos, a ida para Londres (documentada no já citado DVD No Direction Home) bem como a polêmica apresentação no Newport Folk Festival de 1965, onde realizou seu primeiro shows com uma banda elétrica.


Mais algumas imagens do livro, destacando a capa de Tarantula

Essa fase elétrica tem mais detalhes (e desgastes) em O Orfeu Elétrico. Dylan passa a ser considerado o pai do folk rock, e recebe muitas vaias dos fãs mais antigos, por onde passa. O ápice das vaias ocorre no show de 10 de maio, no Albert Hall, onde é chamado de Judas por um dos fãs (conforme registrado no belíssimo CD da Bootleg Series - Bob Dylan Live 1966, The “Royal Albert Hall” Concert, que apesar do nome errado, registra o show suparcitado. Entrevistas problemáticas para o New York Post e KQTP TV, a complicada turnê inglesa, a filmagem de Don't Look Back e um faixa a faixa de Bringing It All Back Home (1965) e Highway 61 Revisited (1965) também estão presentes nesse que é um dos melhores capítulos do livro para quem gosta de saber podres de seu ídolo.

No Coliseu destaca o grupo canadense The Band, como eles influenciaram na sonoridade de Dylan na segunda metade dos anos 60, inclusive acompanhando o mesmo em shows e gravações de discos, e faz um faixa a faixa detalhado de Blonde On Blonde (1966), considerado por Shelton um dos melhores discos de Dylan. No capítulo Um Pé Na Estrada está a entrevista completa dada por Dylan à Shelton no vôo entre Lincoln e Denver (1965), bem como detalhes da primeira visita de Dylan à Austrália, e uma turnê europeia ainda sob muitas vaias.


Com a companheira Suze Rotolo, em meados dos anos 60

O acidente de moto que Dylan sofreu em 29 de julho de 1966 aparece em Escutando O Silêncio. Aqui, Shelton descreve com detalhes a cidade de Woodstock, e como foi a recuperação de Dylan pós-acidente. É interessante que ele não se envolve em melodramas ou heroísmos para contar o que aconteceu, passando pelo acidente como se aquilo fosse uma situação corriqueira. Shelton se prende na musicalidade e na recuperação de Dylan, gravado com a The Band o ótimo The Basement Tapes e fazendo uma inesquecível participação de retorno aos palcos no Isle of Wight Festival de 1969. Ainda há um faixa a faixa de John Wesley Harding (1967) e uma pequena parte dedicada a parceria de Dylan com Johnny Cash, outro que tem uma breve biografia apresentada ao leitor. Também há breves comentários sobre Nashville Skyline (1969).

Na reta final do livro, Shelton começa a apressar o passo. Correndo Livre abrange a primeira metade da década de 70, e cinco álbuns: Self Portait (1970, esculachado pelo autor como um dos piores discos de Dylan), breves comentários sobre New Morning (1970), Dylan (1973) e Planet Waves (1974) e um faixa a faixa de Blood on the Tracks (1975), ressaltando que esse último não é um disco em homenagem à Joan Baez como muitos atestam. Também há a brilhante participação de Dylan no Concerto para Bangladesh, que levantou e muito os fundos adquiridos em auxílio ao país, e como Dylan desenvolveu seu lado de ator no filme Pat Garret and Billy the Kid, interpretando o personagem Alias. Ainda há espaço para um breve comentário sobre a grande turnê americana de 1974, e assim, chegamos ao último capítulo de No Direction Home.


Com Joan Baez, na Rolling Thunder Revue

Trovão, Furacão E Chuva Forte resume a segunda metade da década de 70, narrando com precisão diversos momentos da gigantesca turnê Rolling Thunder Revue, que iniciou no final de 1975 e atravessou o EUA ao longo de 1976, totalizando 57 shows e tendo nomes como  Joan Baez, Jack Elliott, Roger McGuinn, Mick Ronson, entre outros, um pouco sobre a história do boxeador Rubin "Hurricane" Cartes, e de como Dylan ficou bastante indignado ao ponto de compor uma canção para o mesmo, e comentários sobre Desire (1976). Ou seja, se em dez capítulos Shelton traça a vida de Dylan durante a década de 60, dois capítulos para uma década tão importante quanto a dos anos 70 acaba sendo pouco, e essa é uma falha importante no livro, já que muitos dos detalhes expressos na década de 60 poderiam ter sido tirados, e fatos como as gravações ao vivo da década de 70, ou até mesmo a conversão cristã de Dylan já no final da década de 70, início dos anos 80, poderia aparecer.

O Poslúdio até tenta fazer isso, principalmente quando comenta sobre a gravação de Live at Budokan, originalmente pensando somente para o Japão, mas que devido ao grande número de lançamentos piratas, acabou sendo lançado no ocidente, tudo em 1978, e breves comentários sobre Street Legal (1978), o último álbum analisado por Shelton na época do lançamento do livro. A fase cristã ficou totalmente de fora, sem se quer um comentário sobre o mesmo, o que considero uma pena, pois é um fato muito relevante na carreira do americano.


Contra-capa

Claro, essa resenha é apenas um resumo de um livro com muitas histórias. Há os relacionamentos de Dylan, passagens interessantes de gravações dos álbuns, diversos e diversos trechos de entrevistas, enfim, muito material. Caso decida adquiri-lo, tenha certeza que você terá em mão um livro grandioso tanto em tamanho quanto em informações, mas essencialmente, um livro crucial e fundamental para quem quiser conhecer detalhadamente a carreira de um dos maiores gênios da arte do século passado.


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