sábado, 8 de dezembro de 2018

Consultoria Recomenda: Casais




Com Fernando Bueno, Mairon Machado, Ronaldo Rodrigues, Davi Pascale, Alisson Caetano e Nilo Vieira


A convivência de um casal exige muita paciência, dedicação, carinho, atenção, confiança, entre outras diversas qualidades positivas que façam da união dos dois algo saudável e possível de existir. Imagina então tentar levar tudo isso para os palcos e estúdios. Vários foram os casais que fizeram sucesso no mundo da música. Alguns por muitos anos, com vários lançamentos. Outros, por breve período de tempo, com apenas um único disco. Alguns casais são clássicos, outros poucos sabem que havia um casal naquela banda. O Consultoria Recomenda de hoje resgata seis discos de bandas/artistas que são casais, passeando pelas décadas de 60, 70, 80, 90 e 2000. Use nossos comentários para indicar outros álbuns e casais que você lembre, e claro, fique a vontade para ler as opiniões de nossos consultores.

Ike & Tina Turner – River Deep – Mountain High (1966)
Recomendado por Fernando Bueno
É impossível ouvir esse disco sem lembrar de todas as histórias do relacionamento do casal Ike e Tina. Lembro que eu sabia quem era a Tina Turner somente por conta de Mad Max 3 e na época ouvi/li um comentário sobre o filme em que metade dele era falando em como ela sofreu com o ex-marido. Como pode um cara tão talentoso como músico, produtor, arranjador ser tão escroto como pessoa? Nesse disco ele deixou que Tina brilhasse mais, mas imagina a pressão sobre a moça. Impressiona é que quando se vê imagens da época ela se entrega tanto no palco que fica a certeza que era seu modo de desabafar. Até mesmo a capa entrega como estava o clima com os olhar distante de Tina em contraponto com o olhar de vigia de Ike.
Mairon: Um dos grandes discos de casais de todos os tempos, esse álbum era uma das minhas opções quando o tema foi sugerido. Ike e Tina fizeram tudo o que se podia no mundo da música, e em especial, suas gravações são pura energia, além de um talento incomensurável. Nesse álbum em especial, Ike resolveu ficar apenas na produção, dando apenas um apoio vocal em faixas rockers do porte de “Make ‘Em Wait” e “It’s Gonna Work Out Fine”. Largando sua guitarra, ele cria na produção um disco sem igual. É muito vigor exalado de “A Fool in Love”, “Oh Baby!”, “Such a Fool for You” e “You’re So Fine”. A faixa-título é um clássico, sem mais, na qual Tina solta a voz (como ela cantava), e a wall of sound de Phil Spector cria raízes. Mas quer entender o que é essa parede sonora, cai de boca no chão em “A Love Like Yours (Don’t Come Knocking Everyday)”, “Hold On Baby”,”Save the Last Dance for Me”. Mesmo quando a dupla resolve entregar-se à emoção de sons mais amenos, vide “Every Day I Have to Cry” e “I Idolize You”, a coisa arrepia até a espinha. O relançamento de 1969 trouxe mais da parede sonora em “I’ll Never Need More Than This”, Uma banda sensacional, com as Ikettes obviamente fazendo um trabalho fantástico, e um disco para ser ouvido por eras.
Ronaldo: O famoso casal Turner deveria ter mais mérito por sua contribuição para o pop do meado dos 60’s. O legado da dupla ficou para sempre pichado pelo machismo e agressividade de Ike Turner e obscurecido pelo sucesso estrondoso da carreira solo de Tina Turner a partir do fim dos anos 70. Ike era um guitarrista habilidoso, com origens no blues, e era o gerentão de um combo que mesclava com habilidade a energia do r&b junto de um girl-group envenado, cuja locomotiva era Tina e sua incrível habilidade de cantar e dançar simultaneamente. Apesar do disco ter arranjos orquestrais pomposos e um pouco exagerados, se trata de um disco bem divertido, com um clássica faixa título. Indicado para quem achava Amy Winehouse uma grande novidade.
Davi: Os bastidores desse disco devem ter sido surreal. Tanto Ike quanto Phil Spector são conhecidos por serem um tanto quanto temperamentais. Ninguém questiona as habilidades de Phil Spector enquanto produtor. Eu, particularmente, não gosto da produção dele no Let It Be (The Beatles), mas adoro o trabalho que fez com grupos como The Crystals, The Ronettes e os Righteous Brothers. Ike, enquanto pessoa, também não era nenhum exemplo, mas não há como negar suas qualidades enquanto músico. Musicalmente, lógico que a junção deu certo. Mas, que as gravações devem ter sido o que hoje se costuma chamar de tiro, porrada e bomba, não duvido nada. O disco é simplesmente delicioso. Traz aquele R&B maroto, com base na soul music, uma sonoridade alegre, mas ainda transbordando emoção. Sonoridade, simplesmente, mágica. Tina Turner já era uma cantora de mão cheia. Trabalho vocal maravilhoso. E o repertório é muito legal também. “Idolize You”, “Such a Fool For You” e “A Fool In Love” são gravações perfeitas. “River Deep, Mountain High”, então, nem se fala. Clássico absoluto. Em uma palavra: Discaço! Um dos mais legais dessa lista.
Nilo: Não eram um bom exemplo de casal, mas a química artística aqui é inegável. Se somente com Ike na mesa a tendência era a grandiosidade, com Phil Spector o negócio atingiu níveis absurdos. A voz de Tina ecoa pra todo lado, parece que gravaram num ginásio. Nenhuma canção passa dos quatro minutos, mas a sensação ao final é de ter sobrevivido a um apocalipse apaixonado. Impossível não respeitar, mesmo que não esteja alinhado com minhas preferências.
Alisson: Dois pilares sustentam o interesse pelo disco. O primeiro é a produção de Phil Spector. Se o disco ganhou a intensidade e reverência que possui atualmente, muito se deve aos arranjos orquestrais e à produção, que faz parecer uma execução gravada ao vivo de dentro de um estádio. O segundo é a entrega de Tina Turner em basicamente todas as canções. A emoção de sua voz em clássicos como “A Love Like Yours” e na faixa título talvez provaram para a própria Tina que ela poderia ser gigante sem o sofrimento excruciante que passava ao lado de Ike na época.

It’s A Beautiful Day – It’s A Beautiful Day (1969)
Recomendado por Mairon Machado
Fabulosa estreia dessa grande banda da segunda geração flower power californiano. O casal Linda (teclados) e David LaFlamme (violinos, vocais), ao lado da excepcional Patti Smith (vocais), Hal Wagenet (guitarras), Mitchell Holman (baixo, vocais) e Val Fuentes (bateria) criaram canções fantásticas nesse álbum, e o casamento do órgão com o violino vai muito bem, principalmente nas pérolas “Hot Summer Day”, “Bulgaria” e “Time Is”, além da emblemática “Bombay Calling”, faixa de qualidade acima do comum, cujo riff foi chupado sem dó nem piedade pelo Deep Purple para gravar “Child in Time”, o que levou a uma grande briga entre os dois grupos. O blues viciado de “Wasted Union Blues” é uma pequena amostra das loucuras que o LSD em excesso pode construir. Que baita faixa! Ainda temos a linda “White Bird”, talvez o maior sucesso dos americanos, e a suave “Girl With No Eyes”, Para se chapar a beira de uma praia ensolarada, com muita cerveja e batatas chips bem fritas.
Fernando: O disco iniciou com a melhor faixa do disco, “White Bird”, e fiquei com a impressão que David LaFlamme estava tentando empostar a voz para fazer um contraponto com a voz de Pattie Santos em uma tentativa de suplantar a desigualdade entre os dois. Porém essa impressão foi acabando ao longo do álbum. Também me pareceu que o disco sendo ouvido como um todo ficou um pouco repetitivo e cansativo. Mas quase todas as faixas possuem um trecho que se destaca e nos prende a atenção que vai se dissipando aos poucos novamente até que algum novo trecho nos traga de volta em um ciclo. Talvez seja uma banda para se ouvir aos poucos.  “Wasted Union Blues” é linda com instrumentos e vozes se completando perfeitamente e sendo a faixa que eles se afastam um pouco da música psicodélica e caminham para o progressivo.
Ronaldo: Expoente obscurecido da psicodelia norte americana, o It’s A Beatiful Day tinha dois vocalistas, o casal LaFlamme, e trazia o pioneirismo no uso do violino (tocado por Dave LaFlamme) naquele contexto. O som da banda tinha como base o folk acústico-elétrico e composições que beiravam o pop orquestral. A interpretação da banda e a forma pouco ortodoxa com que Dave e Linda dividiam suas vozes (ora de forma descontraída e em outras dramática) trazia uma vibração densa para a música da banda. Em determinados momentos do álbum, as guitarras varrem o chão e trazem o puro acid rock da época.
Davi: Disco muito lembrado pela polêmica “Bombay Calling”. Quem está por fora, o clássico “Child In Time”, do lendário grupo Deep Purple, é uma releitura dessa canção. Não apenas a base do órgão de Jon Lord, mas também a linha vocal criada por Ian Gillan foi claramente inspirada no trabalho de órgão e violino dessa canção. Motivo que me levou a adquirir esse LP alguns anos atrás. Havia ficado curioso para ouvir um pouco mais do grupo. “White Bird” é capaz que seja lembrada por alguns, por ter aparecido em alguns episódios do popular seriado Super Máquina. Para mim, contudo, os grandes momentos ficam por conta de “Hot Summer Day” (canção traz muito do rock psicodélico de San Francisco. Não por acaso, a banda é de lá) e “Wasted Union Blues”, um dos poucos momentos onde a guitarra se sobressai. Na maior parte do tempo, quem se destaca é o casal LaFlamme. A aparição de David vai além do fato de ser a voz do grupo. Seu violino se destaca em vários momentos, assim como o trabalho de órgão e piano de sua esposa Linda. O lado B ficou voltado para as músicas maiores, mais viajadas, mais progs, onde a mais bacana é “Time Is”. No geral, considero um disco não mais do que regular. Embora bem feito, e com uma formação atípica (o que sempre se torna curioso) não tem aquela faixa que me faz querer ouvir de novo e de novo e de novo e de novo…
Nilo: Até o nome denuncia: é aquele típico rock sessentista, com flertes psicodélicos aqui, arronjos mais barrocos acolá (um deles inspiraria “Child in Time”, do Deep Purple), letras repletas de metáforas sobre a natureza… não dá pra dizer que não soa condizente com sua era, mas pessoalmente não me fisgou como um Forever Changes ou Odessey and Oracle – creio que a principal diferença é que estas encapsulavam a vibe ensolarada em canções compactas, enquanto o casal LaFlamme segue uma onda mais livre. Se sua predileção musical é a veia melódica, vá em frente que deve lhe agradar.
Alisson: Passagens psicodélicas que vão se entrecortando com o progressivo básico dos anos 60 em um disco que carrega com força o rótulo “Banda de Rock Psicodélico de San Francisco”. Tudo bem redondo, bem feito, mas parou por aí.

Delaney and Bonnie – On Tour With Eric Clapton (1970)
Recomendado por Ronaldo Rodrigues
No fim dos anos 60, Eric Clapton queria desesperadamente deixar de ser band leader e ficar tão evidenciado nos palcos. Um dos momentos em que esse objetivo foi alcançado foi na tour que ele fez em 1970 com esta brilhante dupla vocal. Os dois mostram gargantas afiadas, espertas alternâncias vocais e ótimos duetos. Os registros da tour esbanjam alto astral com um r&b quente, uma banda de alto nível e a elegância de Clapton na guitarra. As músicas e versões da dupla passeiam pelo rock básico, blues rock e pelo soul com maestria.
Fernando: As pessoas conhecem mais o Delaney and Bonnie pela sua participação na separação do Blind Faith do que pela própria banda. Eu mesmo tinha ouvido muita pouca coisa na época que conheci o Blind Faith e estava maluco pelo disco do Derek and the Dominoes. Engraçado que em uma lista de discos de casais temos aqui um “triângulo musical” demonstrado logo no título do disco. Particularmente não sou um grande entusiasta em comprar discos ao vivo, mas me parece que a versão estendida desse disco com seus 4 CDs é algo a se considerar de ter na coleção. Coisa linda! Também vi shows completos no Youtube com qualidade muito acima da média em se tratando de registros de época.
Mairon: Clássico do blues rock com cheiro de Southern Rock americano, regado pela guitarra britânica de Clapton. Nessa época, tudo o que o homem tocava virava ouro, pouco antes da depressão que levou ao incrível Derek & The Dominoes. Uma banda de apoio sensacional, com um ótimo naipe de metais, entrega aos ouvintes faixas emblemáticas e cheias de energia, do porte de  “Comin’ Home”, “I Don’t Want to Discuss It”, “Only You Know and I Know”, “Things Get Better” e “Where There’s A Will There’s A Way”. Apreciei  blues arrastado de “That’s What My Man Is For”, com Bonnie soltando a voz, Impossível também não vibrar pela sala com as homenagens para Robert Johnson (“Poor Elijah”) e Little Richard (“Little Richard Medley”). O disco até se assemelha ao de Ike e Tina, pela quantidade elevada de alegria e efervescência musical, e mesmo sem Clapton ser o nome principal, os seus solos ao longo da apresentação são um baita diferencial. Excelente recomendação!
Davi: Gravado em uma turnê de 7 dias na Inglaterra, esse álbum ao vivo é muito conhecido entre os fãs de Eric Clapton. A apresentação é excelente, mas se você nunca ouviu o álbum e é um fã de guitarra, vá com calma. Embora tenha seu nome grafado na capa, a participação de Clapton é discreta. Há alguns solos de guitarra bonitos no disco, sem dúvidas (dois exemplos seriam ”Poor Eliah” e “I Don´t Want To Discuss It”), mas são solos criados ‘na medida’, sem espaço para grandes improvisos. A banda de apoio é estelar e traz grandes nomes do rock como Dave Mason (Traffic) e Bobby Keys (Rolling Stones). A sonoridade mescla soul, blues e rock de maneira cativante. “Things Get Better”, “Comin´ Home” e a já citada “I Don´t Want to Discuss It” são os momentos de destaque. O casal entrega um bom trabalho vocal. Só pecam no medley formado por canções de Little Richard. Não que tenha feito feio, mas o rapaz não chega nem perto da potência e nem da emoção transmitida pelo grande Ricardinho. Esse é o único ponto baixo do álbum. Daqui, sairiam a base dos músicos que estiveram em All Things Must Pass Layla And Other Assorted Love Songs. Trabalhos ainda mais legais e ainda mais importantes do que esse. Quem não conhece, se é que alguém não conhece, escute-os. Bacana, a lembrança desse disco.
Nilo: Sem entrar na discussão se o gênero existe ou não, o que se rotula como “blue eyed soul” raramente faz minha cabeça. Acho um som lavado demais. Este registro aqui, mesmo ao vivo e acompanhando um senhor bluesman, soa limpinho demais. Prefiro aquele soul malicioso de Curtis Mayfield e afins, mas creio que o leitor médio do site encontrará em On Tour with Eric Clapton uma boa trilha sonora para aquele churrascão de domingo.
Alisson: Ao vivo dos anos 70 mais sem energia. Execuções sem suingue nenhum, apenas um blue-eyed-soul (vulgo “soul de branco”) engessado. E dói mais ainda quando dedicam medleys à Robert Johnson e Little Richards, mas tudo parece burocrático.

John Lennon & Yoko Ono – Double Fantasy (1980) 
Recomendado por Davi Pascale
Sim, meus amigos, o ultimo álbum da carreira de John Lennon foi realizado em parceria com sua esposa Yoko Ono. O disco marcava seu retorno às gravações. Já fazia 5 anos que Lennon não lançava um trabalho, mas infelizmente o que era para ser considerado um momento de alegria para seus fãs, acabou se tornando um choque que o mundo jamais esqueceu. Em 8 de Dezembro de 1980, 2 semanas após Double Fantasy chegar às lojas, John Lennon foi assassinado nas portas do edifício Dakota. O que era para ser seu retorno, tornou-se o fim de sua trajetória. As vendas que começaram tímidas, explodiram. Quando o tema foi lançado, esse foi o primeiro álbum que me surgiu em mente. Na minha infância, costumava sair no carro acompanhado de um walkman. Uma de minhas fitinhas era uma seleção que havia criado com canções de John Lennon. “Woman” e “(Just Like) Starting Over” estavam entre elas. Não tinha como citar outro disco… Em Double Fantasy, o trabalho vocal era dividido entre John e Yoko, assim como as composições. Nunca morri de amores pelo trabalho de Yoko Ono. Nunca gostei de seu timbre de voz, nem de suas experimentações malucas, mas sua participação aqui é menos polêmica do que nos demais projetos. Afinal, buscava uma linguagem mais pop. Músicas curtas com refrão. Em alguns momentos, como “I’m Movin’ On”, “Hard Times Are Over” e “Yes, I’m Your Angel”, soa agradável. Mas o creme desse CD são mesmo as músicas de Lennon: “(Just Like) Starting Over” e “Watching The Wheels” são perfeitas. “I’m Losing You”, “Beautiful Boy” e “Woman” são clássicos absolutos. Lennon era um compositor de mão cheia e o resultado final comprova isso. Disco bem bacana!
Fernando: Fiquei com vontade de escrever sem nem ouvir. Já passei muita raiva tentando ouvir a Yoko Ono por conta da insistência do Marco Gaspari – sei que a culpe é minha querido Siri!!! Ouvi mais em respeito ao John Lennon, mesmo sabendo que ele se tornou um chato gigante depois da separação dos Beatles. Também tem a questão história, já que o álbum foi lançado dias antes do trágico assassinato de John. Fico contente de terem escolhido esse álbum do casal, pois ninguém merecia aquela capa da primeira empreitada dos dois juntos. Contente também por esse disco não ser a chatice completa que são os discos da Plastic Ono Band ou o Imagine, por exemplo. Para ser sincero desconheço como era a dinâmica da dupla ao gravar seus discos juntos. Eles apenas dividiam os vocais ou tocavam instrumentos quando o outro estava cantando? No final achei bastante positivo o resultado. John é um baita compositor e Yoko não foi totalmente Yoko. Quem sabe….
Mairon: Lançado pouco antes do assassinato de Lennon, esse álbum é uma despedida um tanto quanto melancólica para alguém do nome Lennon. O flerte com instrumentos eletrônicos, principalmente na bateria, não me agrada, e para tal exemplo, cito “(Just Like) Starting Over”, “Cleanup Time”, a cafona “Dear Yoko” e a chatérrima “Woman”. Dele escapa-se “I’m Losing You”, “Watching the Wheels” e claro, a melhor do disco, a lindíssima “Beautiful Boy (Darling Boy)”, que certamente faz muito marmanjo chorar quando apresentada no inesquecível filme Adorável Professor. Por outro lado, Yoko está sensacional, dando uma aula de canto para os anos 80 através de “Beautiful Boys”, “Kiss Kiss Kiss”, a maluquete jazzística de “Yes, I’m Your Angel”, resgatando seus vagidos na ótima “I’m Moving On” (uma resposta à “I’m Losing You”) e aproveitando-se de estripulias na curtinha “Give Me Something”. Creio que ela peque apenas no desnecessário reggae “Every Man Has a Woman Who Loves Him”. Quanto a John, é um mal que outros artistas (Bob Dylan, Joan Baez, Santana, Eric Clapton, os próprios ex-colegas beatle e por aí vai) da década de 60 sofreram nos anos 80, o que me faz torcer bastante o nariz. É uma pena que não tenham efetivamente trabalhado juntos ao longo do álbum, poderia ter sido criado algo melhor. Se fosse para escolher uma obra do casal, certamente iria indicar a primorosa delícia loucura de Two Virgins. Mas ok, é um disco que se ouve sem mais problemas.
Ronaldo: Dentro desta lista este é o disco em que mais fica transparente a personalidade individual de cada parte. Não era de se esperar algo diferente do controverso casal. Enquanto Lennon assume as rugas e os cabelos brancos, Yoko tenta ser a moderninha antenada. Sua performance como não-vocalista é no mínimo excêntrica e, constrangimentos à parte, o disco vai em banho-maria. Soa como algo que envelheceu mal.
Nilo: Mais que esperada a presença do casal mais famoso do rock neste tema. Uma pena que o disco escolhido não tenha a sinergia visceral que os tornou tão polêmicos, como em Plastic Ono Band e Two Virgins. O esquema de pílulas pop alternando entre autores de Double Fantasy passa mais a sensação de coletânea das favoritas de cada um do que propriamente um álbum, e a polidez excessiva (bateu a saudade do Phil Spector, né John?) não ajuda muito. Ruim talvez não seja o termo, mas é bem chatinho. No fim, é uma despedida problemática e com ares de utopia, condizente com o relacionamento de Lennon e Ono.
Alisson: Tudo bem redondinho e bem gravado. Até por isso o disco cansa já no começo. Não aparecem os momentos experimentais e mais selvagens da época da Plastic Ono Band, então o que resta são canções mais pops e radiofônicas que beiram o descartável.

Slowdive – Souvlaki (1993)
Recomendado por Nilo Vieira
É verdade que o casal Rachel Goswell e Neil Halstead já havia terminado o namoro. Também é fato que, sem esse rompimento, o segundo álbum do Slowdive não seria como é: entre paredes de distorção, efeitos, faixas acústicas e experimentos ambientais do mestre Brian Eno, o clima que prevalece é a melancólico, mesmo que caloroso. Algumas faixas soam como delírios jovens indecifráveis, outras são confissões límpidas e pungentes. De fato, é um disco elogiado por sites como Pitchfork (que inclusive fez um belo mini documentário sobre e você pode sair gritando que é mero hype (faça isso com tudo que você não gosta) após ter ouvido uma única vez e com preguiça. Caso insista, pode encontrar uma obra que será recorrente como apoio nos momentos mais tensos da vida. Fica a seu cargo…
Fernando: Desconhecia o grupo. Essa seara do dream pop, shoegaze não é mesmo a minha praia. Sabe aquele tipo de som que se estiver tocando não incomoda, mas dificilmente sairia da prateleira se eu tivesse o CD? Foi o sentimento que me deu. Algumas coisas lembram o Placebo, outras passagens com vocalizações quase etéreas são bem legais (thanks Brian Eno!), mas no geral não me convenceu. Surpreendeu, entretanto, a nota do disco no Rate Your Music, com impressionantes 4,07. A galera que gosta, curte mesmo.
Mairon: Confesso que nunca tinha ouvido falar dessa banda. Lembrou um pouco de My Chemical Romance aqui, um Keane acolá, talvez até um Smashing Pumpkins, por que não. É um som bastante característico, onde eu curti as incursões mais “progressivas”, com uso de sintetizadores, em faixas como “Altogether”, “Melon Yellow”, “Machine Gun”, “Here She Comes”, “Sing” e a viajante “Souvlaki Space Station”, sintetizadores esses a cargo do renomado Brian Eno. Adorei ficar “chapado ao som de”40 Days”, “Alison” e “When The Sun Hits”, outras que apreciei bastante viajar ao som delas. Fechando tudo, o violãozinho gostoso de “Dagger”, muito suave e agradável aos ouvidos. Não virei fã da banda, não vou comprar o disco, mas foi ótimo ouvir e conhecer Souvlaki.
Ronaldo: Talvez o ouvinte precise ser convencido previamente do estilo que esta banda pratica. As músicas são recheadas de uma beleza estranha e nem sempre funcionam para ouvidos não familiarizados. As harmonias ficam suspensas no ar o tempo todo. É como se fosse uma versão bastante acinzentada das melodias do synth pop, com a crueza das guitarras, em ritmos que se desenrolam vagarosamente.
Davi: Slowdive é uma banda inglesa que surgiu no final dos anos 80 nos arredores de Reading. Seu segundo álbum, Souvlaki, foi lançado em 1993 no meio da explosão do rock alternativo. Os caras apareceram no tempo certo. A sonoridade da banda não era aquela sonoridade suja estilo Mudhoney, a pegada era outra. Repleta de ecos, vocais sussurrados, melancolia, experimentações, delays… É o que os repórteres da época qualificariam como um som cósmico. Se tivesse que utilizar um dos inúmeros nomes criados para subvertentes das subvertentes, utilizaria o termo dream pop. O casal Rachel Goswell e Neil Halstead dividiam os vocais. Particularmente, não gostei da voz de Rachel. Sandy demais para o meu gosto. A voz de Neil me soa mais agradável. O disco é bem feito. Arranjos bem construídos, bem gravadinho, contudo não foi um disco que me cativou. Efeitos e experimentações em excesso. Começa bem, depois de um tempo me cansa. Vale mencionar a participação do cultuado Brian Eno nos teclados de “Here She Comes”, mas as que considerei mais bacaninhas foram “40 Days” e o single “Alisson”, que considero a melhor do disco. Curioso, mas não ouviria novamente.
Alisson: Um disco que consegue capturar a essência dos sentimentos mais íntimos do ser. Difícil não tentar associar a sonoridade do disco com outras lendas do shoegaze/dream pop, como as paredes sonoras do My Bloody Valentine ou as passagens alucinógenas do Dead Can Dance. Porém, é particularidade dessa união de diversas facetas em um disco que vai ser redescoberto por um bom tempo.

Eletric Wizard – Witchcult Today (2007)
Recomendado por Alisson Caetano
O culto à maconha e adoração ao Black Sabbath pelo Electric Wizard sempre foram muito além de cópia pura, como é comum alguns desavisados gritarem por aí. Passagens arrastadas e os riffs tétricos ganham ares de curtição e improvisação livre, enquanto que no caso do Sabbath, esse padrão estava bem formatado em estruturas bem definidas. Witchcult Today, o segundo a contar com as guitarras adicionais de Liz Buckingham, tenta repaginar seu próprio conceito. A produção, feita de maneira completamente analógica, adiciona ares climáticos setentistas ao disco, enquanto as passagens lisérgicas ganham espaço sobre as passagens de peso puro dos discos passados. Um dos últimos exemplares genuínos de criatividade no uso das convenções do gênero stoner/doom e um clássico do estilo.
Fernando: Essas bandas de stoner levam muito a sério a necessidade de soar como a principal referência do estilo. Sabemos que a principal influência para o som é o Black Sabbath, mas é necessário mesmo deixar isso tão explícito em TODAS as músicas? Nem o próprio Sabbath se leva tão a sério assim. O peso absurdo e os riffs quadradões são repetidos à exaustão e caso o ouvinte perca um pouco a atenção vai achar que ouviu uma única música de 60 minutos.
Mairon: Banda de Doom Metal com vocais carregados de distorção, assim com as guitarras e o baixo. Aliás, acho que até os lençóis do casal Liz Buckingham e Jus Oborn estão adicionados de distorção. É tanto peso e sujeira que os hipopótamos de alguns zoológicos espalhados mundo a fora passam vergonha. Um som interessante de ouvir, apesar de eu não ter conseguido destacar especificamente alguma canção, mas não foi uma tortura ouvi-lo em quase uma hora de audição.
Ronaldo: Grupo britânico de doom metal da década de 90. O casal em questão se divide nas guitarras do grupo, que consegue neste bom álbum compor alguns riffs macabros que o Black Sabbath não gravou. As músicas tem o andamento arrastado e esparsos solos, apesar das generosas passagens instrumentais. A sonoridade da banda é bem construída e os vocais se encaixam ao que estilo pede. Seguindo piamente a cartilha do estilo e usando em demasia as afinações graves, tudo se torna monocromático e tedioso depois de algum tempo de audição.
Davi: Dizem que toda banda stoner é formada por fãs devotos do Black Sabbath. É exatamente essa sensação que bate ao ouvirmos esse álbum. É inegável a influência de álbuns como Master of Reality e Vol.4 nos arranjos. Aliás, o próprio cantor, Jus Oborn, chegou a declarar que o nome da banda surgiu de 2 canções do Black Sabbath: “The Wizard” e “Electric Funeral”. Agora, a pergunta que não quer calar é: o sobrenome Oborn é para lembrar Osbourne? O disco até que é bacana. A sonoridade está de acordo com o gênero: riffs arrastados, baixo com efeito, baterista sentando a mão, vocal cantando como se estivesse de saco cheio. O casal aqui são a guitarrista Liz Buckingham e o cantor/guitarrista Jus Oborn. As guitarras são bem tocadas, mas falta um Iommi na parada. Faltam aqueles riffs que ficam na cabeça. Tony Iommi era um mestre nessa área. Se vão construir algo com uma influência tão escancarada, seria interessante que dessem valor para esse ponto. Outra questão é o vocal. Está dentro do gênero, mas muito morto o tempo todo. Seria interessante tentar cantar algumas notas mais para cima. O próprio Ozzy cantava para cima muitas vezes (ouça “Hole In The Sky”). Muitos gostam de criticar o Madman enquanto cantor, mas é nessas horas que notamos quão foda foi o cara. Talvez ele não tivesse a afinação mais impecável do mundo, mas tinha uma enorme personalidade e um timbre inconfundível. Quando ouvimos essas bandas, vemos o quão importante são essas características. Mas, como disse no início, o disco é bom. Pesado, sombrio, bem tocado. Dentre as canções apresentadas aqui é a que mais curti foi “Torquemada ´71”. Não é aquela Brastemp, mas agrada.
Nilo: Entendo quem não compre o apelo do stoner, pois também torcia o nariz. É um gênero que cultua o Black Sabbath sem pudor, admite e se diverte com isso – não é como um Greta Van Fleet da vida, que chupinha Led, tenta desmentir e se acha a última bolacha do pacote. As diferenças são semânticas: enquanto Iommi & Cia condensavam peso, groove e atmosfera em canções de estrutura pop, bandas como o Electric Wizard e Sleep (erroneamente já trucidado aqui) propõem que o formato de jam soe livre, puxando tais aspectos a níveis extremos. Este disco é um bom exemplar, onde os tons jazzísticos de Geezer e Bill dão lugar a riffs dronados e trechos psicodélicos, que ecoam até o ouvinte entrar em transe junto com os músicos. A entrada de Liz na segunda guitarra deu novo gás ao grupo e, se este não é o melhor álbum dos britânicos, está entre as homenagens mais divertidas aos pioneiros de Birmingham. Ouça sem pressa e sob a influência da marvada que entenderás…

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

DVD: Uganga - Manifesto Cerrado [2017]






O grupo mineiro Uganga surgiu após o ex-baterista do Sarcófago, Manuel "Manu Joker" Henriques, sair do grupo em 1991, e fundar o Ganga Zumba, e depois de quase uma década, tornar-se Uganga (por conta de haver outra banda com esse nome) e um dos principais grupos de thrashcore de nosso país. Desde então, são quatro álbuns de estúdio, um álbum ao vivo e duas turnês europeias. Uma história de mais de 20 anos de sucesso, e que no ano passado, foi narrada no DVD Manifesto Cerrado.

Lançado pela Sapólio Records, em parceria com a Som do Darma, do produtor Eliton Tomasi, Manifesto Cerrado apresenta um documentário de 75 minutos complementado por uma apresentação ao vivo do sexteto para uma pequena plateia, registrada na Estação Stevenson, prédio histórico localizado na zona rural de Araguari, no Triângulo Mineiro. Para quem não conhece a banda, sua formação é Manu “Joker” (vocais), Christian Franco (guitarras), Thiago Soraggi (guitarras), Maurício “Murcego” Pergentino (guitarras), Raphael “Ras” Franco (baixo, vocais) e Marco Henriques (bateria, vocais).


O DVD Documentário aborda uma gama sensacional de informações, que percorrem com propriedade os 20 anos do grupo, através de diversas entrevistas com os membros da Uganga. Ao longo de 75 minutos, temos uma clara divisão em três partes. A primeira apresenta a origem do nome Uganga, explicada por Manu, que também aparece tocando a bateria do Uganga na MTV e no Programa Ultrasom, o início de tudo em 1993, com o primeiro show, histórias com os primeiros guitarristas (Edinho, Marquinho e Christian nas gravações do primeiro CD, Atitude Lótus, de 2003), a mudança de posição de Manu “Joker” da bateria para os vocais, após uma tentativa frustrada de cantar e tocar batera em alguns shows, a entrada de Marco para a bateria, fechando o núcleo dos irmãos Franco e irmãos Henriques, e o encerramento da primeira fase com o lançamento do disco Atitude Lotus.

A segunda parte abrange a estabilização com a formação que grava Na Trilha do Homem de Bem (2006) e Volume 3: Caos Carma Conceito (2009), momento em que a banda alcança o reconhecimento nacional, e fazem sua primeira turnê europeia, registrada no primeiro ao vivo da banda, Eurocaos – Ao Vivo (2013). Esse trecho é muito legal de ver, pois mostra que a gurizada não estava para passeio na Europa, mas sim para fazer um trabalho árduo e de muito reconhecimento pelos colegas de turnê, que passou por países como Alemanha, Áustria, Eslováquia, França, Itália, Polônia, entre outros.


A terceira e última parte apresenta o processo de gravação de Opressor, e é o momento mais legal do DVD. Ali, os integrantes apresentam os motivos que levaram a inclusão da cover "Who Are The True? (original do Vulcano), inclusive com um depoimento do ícone Arthur, líder da Vulcano, as participações de Ralf Klein (Macbeth), Murillo Leite (Genocídio), divulgação de Opressor em programas de rádio, o início da parceria com a Incêndio e a Sapólio, o casamento de Thiago,bem como o nascimento do primeiro filho de Christian, a abertura para o Exodus em 2015, e os delicados momentos com a perda do pai dos irmãos Henriques e o “A Era das Contusões”, onde cada integrante passou por um problema grave, principalmente Christian, que teve que fazer um longo tratamento para se curar, levando o grupo então a ficar com três guitarras, e ao encerramento do documentário com a turnê pelo Nordeste.

Para quem curte história da música, é um senhor DVD, com muitas cenas raras, mas ainda há mais, já que agora passamos ao DVD. É uma apresentação de 45 minutos, realizada na Estação Stevenson, em Araguari/MG. A banda está disposta em círculo, tocando um de frente para o outro, com o público, formado exclusivamente por amigos e familiares, em volta da banda, além de uma baixa iluminação, dando caráter bastante intimista. Quando o som começa, é pancadaria do início ao fim. Muitas canções para quebrar o pescoço, com destaque especial para "Sua Lei, Minha Lei", "Nas Entranhas do Sol" e "Modus Vivendi").


Há participações especiais de Eremita, tocando Scratches e Sampler em "Couro Cru", Juarez “Tibanha” da Banda Scourge, fazendo vocalizações em "Moleque de Pedra Voz", Murcego Gonzales, com o solo de guitarra em "Who Are The True?" bem como Tatiane Ribeiro, Moises Mustafa e Lilian Salgado na percussão de"Aos Pés da Grande Árvore". 

Ainda temos um encarte com diversas fotos da banda, infelizmente de um tamanho não muito grande e possível de ser apreciado. De qualquer forma, a iniciativa desse tipo de material é de um valor imensurável para nosso país. Afinal, é com ele que percebemos o trabalho que é se ter uma banda de Heavy Metal em nosso país. O material foi lançado originalmente apenas para youtube, e a versão em DVD saiu logo em sequência. É necessário registra que o documentário foi financiado pelo Programa Municipal de Incentivo à Cultura (PMIC). Para quem gosta de conhecer sobre a história das bandas, e principalmente, ter em seu acervo um material original de alta qualidade, que serve de acervo e aprendizagem sobre a música nacional, é uma grande recomendação.


Track list do show

1 Sua Lei Minha Lei
2 O Campo
3 Nas Entranhas Do Sol
4 Couro Cru
5 Opressor
6 Moleque De Pedra
7 Modus Vivendi
8 Who Are The True
9 Aos Pés Da Grande Árvore
10 Noite

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Review Exclusivo: Roger Waters - Curitiba e Porto Alegre (27 e 31 de outubro de 2018)



Queria fazer um texto sobre os shows de Roger Waters no Brasil, durante a turnê Us + Them, em outro contexto que não o que estamos vivendo em nosso país. Relutei, e pensei bem para chegar a conclusão que ele não irá comentar tudo de política que houve nos shows. Irei falar do que aconteceu musicalmente, e trazer uma visão geral dessa porcaria política. É muito triste ver um artista do tamanho de Waters ser vaiado por seu posicionamento político, e pior, ser xingado impiedosamente por pessoas que pagaram um bom dinheiro para estar na grade VIP, malucos sem noção que passaram apontando o dedo médio e gritando "comunista", "Aqui você vai ir para a cadeia com o Lula" e outras baixarias inacreditáveis, que obviamente ele não ouviu, ele não entendeu, talvez ele tenha visto, mas do alto de sua sabedoria, inteligência e por que não, arrogância que marcam uma carreira impecável de 50 anos e muito sucesso, superou musicalmente (e visualmente) com um show de alto nível.


Waters mandando ver no baixo de "One of These Days"

Baixarias de fanáticos a parte, os dois últimos shows de Waters em nosso país marcaram uma grande mudança em relação as suas últimas passagens, em 2007 e 2012. Se lá ele apresentou The Wall - o clássico disco do Pink Floyd, lançado em 1979 - na íntegra, e em 2007 concentrou-se em trazer Dark Side of The Moon em sua totalidade, com outros clássicos de sua carreira, dessa vez ele não ficou só em um disco, e veio promover o ótimo Is This The Life We Really Want?, que saiu ano passado. Com isso, percorreu também cinco álbuns lançados pelo Pink Floyd, passeando então por Meddle (1971), Dark Side of the Moon (1973), Wish You Were Here (1975), Animals (1977) e o citado The Wall.

Para tal, um palco gigantesco, com um telão igualmente gigantesco, preencheu boa parte dos estádios Couto Pereira (Curitiba, no dia 27) e Beira-Rio (Porto Alegre, no dia 30). O show foi dividido em três partes, muito parecidas entre Curitiba e Porto Alegre, com exceção da terceira parte, que teve canções excluídas em Porto Alegre. Na primeira parte, o show começou com um vídeo de meia hora de uma moça sentada a beira da praia. A imagem representa uma refugiada, fugindo do seu país, e a moça irá aparecer por outras vezes ao longo do show, inclusive no final.

O som do mar vai se confundir com sons de batidas de coração, e então, "Speak To Me" e "Breathe" abrem o espetáculo de forma suave, nos convidando para apreciar Dark Side of the Moon. Foi curioso encerrar "Breathe" e ouvir na sequência "One of These Days". Waters aqui mandou ver no baixo, e o chão tremeu com os solos de Jon Carin (tecladista que fez parte da formação do Pink Floyd pós-saída de Waters, e que no show, além de teclados também tocou violão e foi responsável em "One of These Days pelo slide guitar) e Dave Kilminster (na guitarra). Sonzaço, seguido pelos relógio de "Time", e uma mágica interpretação das vocalistas Holly Laessing e Jess Wolfe (apelidadas de Lucius) para "The Great Gig in the Sky", que não ficou nem perto da original em ambas as apresentações (fazer o que Clare Torry fez é irreproduzível), mas deu um bom agrado aos ouvidos, e encerrou o lado A de Dark Side of the Moon apenas substituindo "On the Run" por "One of These Days", o que confesso, curti bastante.

"Time" e "Welcome to the Machine"

A surpreendente "Welcome to the Machine" veio na sequência, trazendo ao fundo o famoso vídeo que marcou sua execução nos anos 70. Foi aqui que aconteceu a manifestação política em Curitiba, mas em Porto Alegre, passou sem nenhuma manifestação (aliás, a capital gaúcha não teve NADA referente ao Bostonaro). Os demais integrantes da banda de Waters, Jonathan Wilson (guitarra, vocais), Gus Seyffert (baixo) e Joey Waronker (bateria), além de Ian Ritchie (saxofone) e Bo Koster (teclados, guitarras), estão na formação de Is This the Life ..., e fizeram muito bem a apresentação de três canções deste disco, "Déjà Vu", "The Last Refugee" e "Picture That" . Confesso que "The Last Refugee" me levou às lágrimas, ainda mais pelo belíssimo clipe exibido no telão, e que "Picture That" foi um belo tapa na cara de muita gente que estava nos dois estádios só para ouvir as duas seguintes, "Wish You Were Here" e "Another Brick in the Wall Pt. 2". Foi o momento celular, onde os estádios se iluminaram e pude constatar que os retardados que vaiaram Waters só conheciam essas duas músicas mesmo. Agora, o que não entendo é como um cidadão ficou registrando "Another Brick in the Wall Pt. 2" gritando o tempo todo "Vai pra Cuba!", e isso na pista Vip, e depois foi embora ... É vontade de gastar dinheiro!

Tirando isso, vale citar que "The Happiest Days Of Our Lives" se fez presente, assim como a terceira parte de "Another Brick in the Wall", que encerrou então a primeira parte do show. Também foi bonito ver a mensagem que Waters passou com as crianças encapuzadas durante "The Happiest Days of Our Lives", como se fossem ser executadas, e depois, ao longo de "Another Brick in the Wall Pt. 2", tirando o capuz e a roupa de presidiário para curtirem o show livres, dançando, com a liberdade que toda criança - e ser humano - deve ter, e com a palavra RESIST estampada no peito. Ele não tem ideia do impacto que essa mensagem, junto do clipe de "The Last Refugee", me causou. Ah, houve um pequeno vacilo de Waters na entrada de "Wish You Were Here", isso no show de Curitiba, mas nada que causasse tanto estrago.


Waters em "Picture That" (acima) e as crianças prestes a serem "executadas" em "The Happiest Days of Our Lives" (abaixo)

O intervalo foi recheado de mensagens no telão, que disseram muito para quem tinha que ler, mas duvido que tenha lido, vide o que aconteceu no domingo das eleições ... Enquanto as mensagens rolavam, mais manifestações políticas vinham da plateia, em mais atitudes novamente ridículas de ambos os lados, afinal, aquilo é um show de rock. Enfim, vem a segunda e encantadora segunda parte.

Aqui realmente o show começou. Depois do intervalo com muitas mensagens de resistência a diversos males do mundo, como fascismo, ditadura e até o facebook, o chão começou a tremer, e então, o gigantesco telão transformou-se na usina termelétrica Battersea, que estampa a capa de Animals. Acima do telão, quatro chaminés e o famoso porquinho voando entre elas, e os presentes puderam presenciar uma aula de tecnologia, deixando todos de olhos vidrados, e ouvidos atentos, para as impecáveis apresentações de "Dogs" e "Pigs (Three Different Ones)", ambas do disco de 1977. A forma como a usina surge no telão é encantadora. Uma pena que no Brasil ela não veio "completa", como nos shows do exterior, onde parte dela prolongava-se para a plateia, mas mesmo assim, foi incrível.

Momentos do show de Curitiba (acima) e Porto Alegre (abaixo) durante as execuções de "Dogs" e "Pigs (Three Different Ones)

Musicalmente, "Dogs" foi interpretada fielmente a versão original. Os solos de guitarra, a participação dos teclados, tudo esteve muito bem encaixado. A sacanagem unindo os três animais do disco, com a ovelha servindo champanhe para os porcos, e os cães latindo ao fundo, ficou muito legal, e claro, Waters fantasiado de porco, dizendo que os porcos governam o mundo, e depois mandando um belo "Fuck the Pigs" (já sem máscara) foi de tirar o sarro. "Pigs (Three Different Ones)" foi mais centrada em "homenagear" Donald Trump. O uso do vocoder por parte de Dave me fez viajar no tempo, quando ouvia Animals deitado no meu quarto delirando com aqueles efeitos. Só essas duas faixas já valeram a ida nos dois shows, seja pela música, ou pela beleza que foi a criação da usina no telão.

O mais interessante mesmo foi o que ocorreu em Porto Alegre. Assim que o telão apresentou a palavra "Dogs", um raio gigante cruzou o céu da capital gaúcha. Muitos acharam que fazia parte do show, mas na verdade, foi só um prenuncio do temporal que atingiu a cidade logo em seguida, mas em tempo de ainda acabar o show, o qual foi toda a segunda parte embaixo de água. Inclusive, o porquinho voador, com as palavras Seja Humano estampadas na barriga, deu uma breve volta no estádio e logo foi guardado (em Curitiba ele ficou mais algumas canções "no ar"). O público não arredou o pé em Porto Alegre, e em Curitiba, todos sequinhos curtiram "Money" e "Us and Them", mais duas de Dark Side of The Moon, e que novamente levaram-me às lágrimas. Que músicas belas, e que composições. Presenciar o criador delas tocando ali, diante dos meus olhos, é algo inesquecível.

Mais imagens da Usina, com destaque para o porquinho voando sobre as chaminés (abaixo) e Waters com a máscara de porco (acima)

Veio "Smell the Roses", do novo álbum, e um cheiro forte e repugnante surgindo na frente do palco, que nos fez sentirmos dentro da própria usina termelétrica (esse efeito, para quem não estava na pista, creio que não foi sentido). Fechando a segunda parte do show, o momento mais aguardo, com "Brain Damage", "Eclipse" e a recriação da capa de Dark Side of The Moon, através de um show de lasers que iluminaram os estádios, formando então a pirâmide (lasers branco) e as cores do arco-íris. Vendo de dentro da pirâmide, o efeito não foi tão belo quanto da arquibancada, onde podia se ver explicitamente a capa de Dark Side, mas de qualquer forma, foi muito esperta e inteligente a produção que fez essa obra, encantadora de todos os lugares que fosse vista, e que encerrou a terceira parte do show de forma sublime.

Em Curitiba, Waters deu um breve intervalo, apresentou a banda, contou que a próxima canção ele resolveu tocar no lugar de "Mother", por conta dos problemas judiciais que poderiam surgir, e que a mesma era dividida em três partes. Assim, vieram "Wait for Her", "Oceans Apart" e "Part of Me Died", que ficaram lindas, com muita emoção e mensagens belíssimas de paz vindas do telão. Já em Porto Alegre, com a chuva aumentando e o temporal se aproximando, Waters quebrou o protocolo, disse que não ia apresentar a banda, e foi direto para o final, com "Comfortably Numb". Outra faixa sensacional, com belos solos por parte de Kilminster, e na qual eu tive a oportunidade de ao menos cumprimentar Waters e agradecer por ele ter trazido essa turnê ao Brasil, já que ao final da canção (em ambos os shows), ele desceu do palco e foi dar um tapinha nas mãos dos fãs que se aglomeravam nas grades.



A pirâmide de Dark Side em dois momentos


Foi uma demonstração de simpatia e carisma de Waters, um momento digno de alguém como ele, o qual saiu do palco dizendo amar à todos e agradecendo a presença (e dando uma corridinha para fugir da chuva em Porto Alegre). Com os estádios já iluminados, a mulher sentada na beira da praia volta ao telão, e então, eis que surge sua filha, do meio da praia, para um fraterno e emocionante abraço encerrar definitivamente a apresentação.

Alguns pontos preciso ressaltar:

  • O show de Curitiba, para mim, teve muito mais tesão por parte de Waters. Em Porto Alegre, ele pareceu mais frio, ou conformado com a eleição do Bolsonaro. Em Curitiba, ele ainda tinha um gás para queimar, e foi bem mais interativo com a plateia no sentido de tentar fazer algum eleitor repensar o voto.
  • O público em Porto Alegre foi maior, mas não lotou o Beira-Rio. Talvez por que havia semifinal de Libertadores no mesmo horário, ou a ameaça de chuva, enfim. Na média, os dois shows deram 40 mil pessoas cada.
  • A tecnologia dos shows estão cada vez mais surpreendendo, o que é ótimo, mas como é bom ver uma banda afiadinha e sem errar quase nada.
  • A comida e bebida estavam com preços bem abusivos, sem falar no estacionamento. Foi a oportunidade para muitos enriquecerem as custas dos fãs, e pior, a oportunidade de ver que tem muito direitista cheio da grana, que se prestou a comer pra caralho durante o show, vaiar Waters quando podia, bater papo durante "Dogs" ou "The Last Refugee" (só para citar algumas) e ligar o celular para filmar "Another Brick in the Wall, Pt. 2".
  • Interessantíssimo ver que em "Another Brick in the Wall, Pt. 2", até o vendedor de lanches sentou para curtir o espetáculo.
  • Provavelmente essa foi a última turnê de Waters por nosso país.
  • O povo brasileiro, em suma maioria, ainda tem muito a aprender sobre democracia, e principalmente, que em local de show, política, futebol e religião não podem entrar em campo de jeito nenhum.
  • #EleNão!!
Fim de espetáculo

Set list

Speak to Me
Breathe
One of These Days
Time
Breathe (Reprise)
The Great Gig in the Sky
Welcome to the Machine
Déjà Vu
The Last Refugee
Picture That
Wish You Were Here
The Happiest Days of Our Lives
Another Brick in the Wall Part 2
Another Brick in the Wall Part 3
Dogs
Pigs (Three Different Ones)
Money
Us and Them
Smell the Roses
Brain Damage
Eclipse
Wait for Her (Curitiba)
Oceans Apart (Curitiba)
Part of Me Died (Curitiba)
Comfortably Numb

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

The Gard - Madhouse [2018]



Formada em 2010, tendo como principal ideia unir música autoral, rock clássico e contemporâneo, a The Gard tornou-se uma das principais atrações da música pesada de Campinas a partir de então. Apesar de ser fortemente reconhecida por seu show Tributo ao Led Zeppelin, o grupo atravessou a década atual em busca de uma gravadora para registrar suas canções. Somente em abril de 2018, em parceria com a NG2 e o Som do Darma, eis que finalmente chega às lojas o álbum de estreia do trio Beck Norder (baixo, guitarras, vocais), Allan Oliveira (guitarras) e Lucas Mandelo (bateria, vocais).

Intitulado Madhouse, o debut auto-produzido apresenta uma sonoridade bem distinta entre suas faixas, com mesclas de diferentes estilos que torna-se difícil de classificar em uma primeira audição, a qual é prazerosa e capaz de te fazer sentir vontade de colocar o CD novamente para rodar. O álbum abre com "Immigrant Song", o clássico do Zep recebendo um arranjo totalmente inovador - obra da mente de Beck, praticamente o líder do grupo - e que de imediato, surpreende positivamente, tornando-se mais pesada, recebendo violões e modificando boa parte das linhas vocais originais de Plant. A canção inclusive virou single, e ganhou um video-clipe para ajudar na promoção de Madhouse.

O grupo no clipe de "Immigrant Song"

"Play of Gods" vem na sequência, apresentando de cara um belo solo de guitarra por Dennis Arthur, e com um riff que lembra muito o Zep. Dennis também surge no segundo solo, rasgado e com muita distorção. A faixa-título já apresenta uma nova cara no som do The Gard, saindo das raízes setentistas do Led para explorar um som mais moderno, próximo de grupos como Skid Row. É um som simplesmente rocker, que certamente irá agradar aqueles que apreciam os grupos americanos dos anos 90.

Chegamos na melhor canção do álbum, a longa "The Gard Song". Sua introdução com violões e bandolim foge totalmente do que havia sido apresentado até então. Após um minuto, surge o riff que nos mostra uma faixa próxima ao prog rock, com os vocais de Beck lembrando um pouco Michael Kiske na fase Avantasia. São 10 minutos e 30 segundos onde você irá parar o que está fazendo e prestar atenção na interessante construção musical feita pelos campinenses, principalmente a partir de sua segunda metade, onde fãs de Helloween irão delirar com a sequência de riffs e solos de guitarra. Por fim, violões e voz encerram essa grande faixa, a qual parabenizo o The Gard por sua criação.

Lucas Mandelo, Beck Norder e Allan Oliveira

O uso do glockenspiel na introdução e a longo da também experimental "Music Box" leva Madhouse para um novo caminho musical, que me remete a bandas britânicas dos anos sessenta, tais como Beatles ou Stones em suas fases psicodélicas, muito por conta do uso de vocalizações. O instrumento foi tocado por Isadora Conte, e quanto a própria "Music Box", confesso que não me chamou tanto a atenção, talvez por vir logo após "The Gard Song". "Back to Rock" faz jus ao nome, e retorna ao rock pesado apresentado anteriormente na faixa-título. Destaque para a longa introdução, caprichando no solo de Allan, e no riffzão para pular pela casa. É mais uma faixa para se sentir em Slave to the Grind, por exemplo, essencialmente no refrão.

Encarte com caricatura da banda, e o CD

Confesso que quando "Kaiser of the Sea" começou, lembrei-me do nosso colega Thiago Reis. Afinal, é uma canção puramente Black Sabbath fase Tony Martin, daquelas saídas de Cross Purposes ou Headless Cross, mostrando toda a versatilidade da The Gard, ainda mais quando inesperadamente, surge um bonito solo de violão. Fecha Madhouse "Panem et Circensis", voltando as inspirações setentistas, mas ligadas agora ao Aerosmith, onde Allan se aventura no slide guitar, e deixando a sensação de que valeu a pena a audição dos pouco mais de 40 minutos de duração.

O encarte, com 8 páginas, é bem caprichado, apresentando as letras de todas as canções e uma caricatura do trio, além de artes por Samir Monroe e a indicação para o site da banda, onde você pode ouvir Madhouse na íntegra de forma gratuita.  Mas detendo-se apenas no som, que é o que importa, a The Gard passa acima da média em sua estreia, a qual deixa boas expectativas para o futuro da banda. E fica a mensagem do release da banda: " ... temos o privilégio de existir em uma época onde Richard Wagner já trouxe ao mundo seu trabalho. Schoenberg, cantos gregorianos, músicas tribais, Beatles. Temos tudo isso com uma facilidade de acesso que nunca vimos antes. Há muito o que combinar ainda, o que se experimentar e aventurar".

Contra-capa

Track list

Immigrant Song
Play of Gods
Madhouse
The Gard Song
Music Box
Back To Rock
Kaiser of the Sea
Panem Et Circensis

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