domingo, 10 de novembro de 2019

Discos Que Parece Que Só Eu Gosto: Rick Wright - Wet Dream [1978]




Quando falamos de Pink Floyd, sempre os nomes que surgem são os de Roger Waters (baixo, vocais), David Gilmour (guitarras, vocais) e Syd Barrett (guitarras, vocais). Mesmo ao citar as carreiras solos, os discos desses três artistas sempre aparecem nos bate-papos relativos aos britânicos, deixando para trás os outros dois membros, Nick Mason e Rick Wright. Os álbuns solos de Mason realmente não são assim tão merecedores de atenção por parte dos fãs da banda, mas não consigo compreender como Wet Dream, lançado por Wright, não faz parte das listas de preferidos dos fãs.

Vivendo sua fase mais conturbada na banda, após o lançamento de Animals (1977) e de uma longa turnê que acabou culminando com a despedida de Wright do Pink Floyd, voltando para participar da turnê de The Wall apenas como músico contratado. Nessa entre-safra vivendo também problemas de relacionamento com a esposa Juliette Wright, o músico tirou um período de férias em Lindos, na Grécia, e lá, compôs seu primeiro álbum solo, influenciado bastante por Juliette, que acabou assinando duas das canções do disco.


Unindo forças com Snowy White (guitarras), Mel Collins (saxofone, flauta), Larry Steele (baixo) e Reg Isidore (bateria), Wet Dream surge com "Mediterranean C", uma balada simples, com uma bonita introdução ao piano, a presença do sintetizador e a fundamental presença do saxofone de Collins, fazendo um solo arrepiante e tocante na primeira parte da canção, deixando White brilhar na segunda parte da mesma. Um bonito dedilhado de violão, acompanhado por piano, introduz "Against The Odds". Wright começa a cantar, com toda sua voz aveludada e marcante dos tempos de "Summer '68" ou "Echoes", em outra faixa bastante suave e apreciável de se ouvir, principalmente no retorno do violão com o solo central.

A sequência de alternância de 6 acordes em "Cat Cruise" é simplesmente hipnotizante. Piano, baixo e e guitarra vão variando os acordes (o primeiro em um complexo dedilhado, os demais apenas na marcação), junto com a bateria, para então explodir em um solo de saxofone para rasgar a casa ao meio. O que Collins faz aqui é de se parar tudo e apreciar aqueles grandes momentos que a música nos proporciona. Repentinamente, a faixa ganha velocidade, e então é a vez de White nos abrilhantar com um solo para se brincar de air guitar pela casa. Só por "Cat Cruise", Wet Dream merece estar nas listas de grandes discos de membros ligados ao Pink Floyd. Que faixa sensacional!

"Summer Elegy" nos coloca direto em álbuns como More ou Obscured By Clouds, ou seja, as trilhas sonoras que o Pink Floyd participou, mais precisamente nas canções que Wright canta. Ali, o grupo não fazia questão de se preocupar com experimentações, e vez por outra até deixava se levar por canções mais pop, como é o caso dessa bonita e singela canção, trazendo também um belo solo por White O lado A encerra-se com "Waves", uma faixa mais sombria, levada por guitarra e piano elétrico, e que deixa novamente Collins tomar conta da casa com mais um solo para destruir com o mundo.

O piano sendo dedilhado carinhosamente introduz "Holiday", mais uma faixa a contar com os vocais de Wright, e que também nos remete à faixas de Obscured By Clouds, como "Stay". "Mad Yannis Dance" é um exercício de Wright ao piano elétrico e sintetizador, com tímidas participações de Collins e White. 


Já "Drop In From The Top" é um mergulho no jazz rock, com Wright divertindo-se no órgão, e fazendo uma bela surpresa aos ouvidos. O solo rasgado de White nos faz rememorar os bons tempos da dupla Gilmour / Wright, e essa faixa também coloca Wet Dream alguns degraus mais altos na classificação de discos pink floydianos. Essa faixa foi lançada em um raro compacto francês, em parceria com Gilmour, sendo ela o lado A e "No Way", de David Gilmour (1978), gravado no mesmo estúdio que Wright gravou Wet Dream, no lado B.

Os vocais de Wright retornam em "Pink' Song", que antes que os fãs mais curiosos possam imaginar, não é nenhuma homenagem ao Pink Floyd, mas sim um tributo a governanta do casal Wright, e é outra balada suave, dessa vez destacando a flauta de Collins. O álbum encerra-se com o swing de "Funky Deux", com o groovezão do baixo de Larry Steele apresentando o piano elétrico, guitarra e bateria para chegar no gingado solo de saxofone e guitarra, pontuando positivamente para um álbum muito bom e a ser descoberto.

Wet Dream foi lançado em maio de 1978, e causou um grande impacto no Pink Floyd. Waters foi o que ficou mais indignado por Wright lançar canções sem apresentar as mesmas anteriormente aos colegas. "Rick escreve essas coisas singulares, mas as mantém em segredo e depois as coloca em seus álbuns solo, que ninguém nunca ouviu. Ele nunca as partilhou. Era algo inacreditavelmente estúpido", disse Waters a Mark Blake no livro Nos Bastidores do Pink Floyd. Por essas e outras, durante as gravações de The Wall, Waters sentiu que Richard não estava disposto a contribuir para o disco, e o demitiu da banda. Porém, o músico recusou-se a deixar o grupo sem concluir o álbum, e continuou como músico contratado.

O próprio Wright, em entrevista para Mark Blake em 1996, quando do lançamento de seu segundo álbum solo, Broken China, admitiu que Wet Dream era um pouco amador, com uma produção irregular e letras não eram muito fortes, mas que era um álbum singular do qual gostava. Então, se o dono da obra admite isso, e como ele faleceu há 11 anos, por que parece que só eu curto Wet Dream?


Track list

1. Mediterranean C
2. Against The Odds
3. Cat Cruise
4. Summer Elegy
5. Waves
6. Holiday
7. Mad Yannis Dance
8. Drop In From The Top
9. Pink's Song
10. Funky Deux

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Lista - 1979 em discos: por Mairon Machado



Seguindo com a proposta do meu amigo e colega Ronaldo Rodrigues de trazer listas de melhores discos que completam aniversário fechado em 2019, apresento aqui meus preferidos de 1979.

Esse foi um ano ímpar (não só no número) para a história mundial. Margaret Thatcher chegava ao poder na Inglaterrra, tornando-se a primeira mulher Primeira Ministra da Grã-Bretanha. Na China, Deng Xiaopin abriu o mercado do país para o Ocidente. A guerra do Afeganistão começa exatamente nesse ano, em um dos momentos mais conturbados entre URSS e EUA.

Na música, o rock progressivo que havia assolado boa parte da década de 70 começava a se moldar para tornar-se o AOR. O punk rock e a Dance Music, que haviam estourado em 1977 com Sex Pistols e Bee Gees principalmente, migravam para o fim. Era a época da inserção de novas tecnologias, principalmente eletrônicos, culminando com o nascimento do pós-punk, que revelou, já nos anos 80, gigantes como U2, R. E. M., The Cure e por aí vai. Em paralelo, a NWOBHM entregava de bandeja para a década seguinte nada mais que Iron Maiden, Saxon, Def Leppard ... Dentre os diversos lançamentos daquela época, vários são os que até hoje perambulam nas vitrolas mundo a fora, e que na lista final de 1979 elaborada pelos consultores, os 10 melhores escolhidos foram:

1) Pink Floyd - The Wall

2) AC/DC -Highway To Hell

3) The Clash - London Calling

4) Michael Jackson – Off the Wall

5) Thin Lizzy – Black Rose: A Rock Legend

6) Motörhead – Overkill

7) Supertramp – Breakfast in America

8) Kiss – Dynasty

9) Van Halen – Van Halen II

10) Steve Howe – The Steve Howe Album

Ou seja, um apanhado relevante entre o progressivo (Pink Floyd, Supertramp e Steve Howe) e o rock pesado (AC/DC, Thin Lizzy, Motörhead, Kiss e Van Halen), além do pop de Michael Jackson e do punk de The Clash. Em minha lista de melhores álbuns que não constaram das listas gerais (veja aqui), não citei nenhum disco de 1979, mas não que fosse por que não havia mais nada a ser citado, é que em outros anos, em minha opinião, haviam materiais muito mais importantes a ser feito justiça. Mas, graças a ideia do Ronaldo, aqui posso resgatar mais 10 grandes discos de 40 anos atrás:


Keith Jarrett – Eyes of the Heart

O pianista de jazz Keith Jarrett sempre foi um perfeccionista ao extremo. Formado na escola de Miles Davis, o americano sempre teve um QI acima da média, o que acabava afetando seu genioso e genial cérebro. Comumente, vez por outra Jarrett estressava-se em seus shows, seja com barulhos da plateia, seja com os músicos, seja com o instrumento, seja com ele mesmo. Quando Eyes of the Heart foi gravado, ao lado dos também americanos Dewey Redman (saxofone), Charlie Haden (baixo acústico) e Paul Motian (percussão), em maio de 1976 na Áustria, de forma totalmente improvisada, parte da apresentação acabou sendo desprezada e proibida de publicação por conta do próprio Jarrett não ter gostado dessa gravação. Acredito que Jarrett ficou convencido de o que ele gravou nos 3 lados do vinil (sim, é um vinil duplo de apenas 3 lados) era o melhor que ele podia fazer na época, tanto que logo em seguida ele desmanchou o quarteto. Honestamente, E QUE MELHOR!!! O disco 1 traz a obra "Eyes of the Heart" em suas partes. A primeira é explorativa, começando com percussões e solos de saxofone e um logo solo de piano, em 17 envolventes e explorativos minutos. Quando a segunda parte surge, somente com Jarrett ao piano, o clima é totalmente outro, bastante sombrio e tenso. O solo é lindo e comovente, e na medida que os demais instrumentos (baixo e bateria) entram para acompanhá-lo, a tensão e ansiedade para saber o que virá mais adiante toma conta. Basta então Redman executar a primeira nota de seu saxofone para que tudo faça sentido. Foi exatamente nesse momento que meu coração apaixonado por Heavy Metal traiu o estilo, e se converteu ao jazz. Arrepio só de lembrar desse solo, que é curto, pouco mais de 3 minutos, mas que simplesmente coloca a casa abaixo, levanta a platéia (que não se contém e aplaude o que pode diante do olhar criterioso de Jarrett) e só por isso, faz de Eyes of the Heart um dos Melhores Discos de 1979, sendo que a sequência da obra ("Encore", uma faixa próxima ao free jazz, com um trabalho formidável de piano, e que serve para Jarrett mostrar um pouco de seus dotes ao saxofone) eleva o álbum a um dos Melhores Discos de Todos os Tempos! Ouça sem medo e sem preconceito.


Triumph – Just a Game

O Triumph é uma banda de cabeceira na minha formação, e muito por conta desse álbum. Foi o primeiro disco que ouvi e comprei do trio, influenciado por leituras que diziam que a banda era um primo próximo do Rush. Mero equívoco. O Triumph tem qualidades que o colocam a frente do Rush em várias situações, principalmente quando se trata de um hard rock bem feito. E é isso que os canadenses entregam nesse álbum, onde a divisão dos vocais entre o guitarrista Rik Emmett e o baterista Gil Moore é um espetáculo por si só. Mas vamos as músicas. A faixa-título é daquelas para se gritar em plenos pulmões em arenas lotadas, assim como a linda "Lay It On The Line", uma base simples de três acordes menores que simplesmente fazem você viajar junto da voz aguda e da guitarra afiada de Rik Emmett, um dos guitarristas mais injustiçados que conheço. O que ele faz ao violão na sensacional "Fantasy Serenade" é uma aula de estudo por meses. Ou no jazz  de “Suitcase Blues"? Meu Deus, sem palavras. O que o trio constrói no blues corta pulsos "Young Enough To Cry", que barbaridade, é lindo demais. Por outro lado, o grupo antecipou as trilhas de propagandas de cigarro em muitos anos, fazendo um hard oitentista em plena década de 70 com "Movin' On", "American Girls" e "Hold On". Há um forte apelo para conquistar os jovens americanos, mas quem disse que isso é ruim? Ninguém em 1979 fazia algo se quer próximo do que o Triumph fez com Just A Game, e por isso, ele está aqui hoje! Discão!!!


Pierre Moerlen’s Gong – Downwind

Depois de sair do maluquete Gong, e participar do projeto Gong Expresso, o baterista Pierre Moerlen resolveu montar um timaço sob o pseudônimo de Pierre Moerlen's Gong. E esse timaço tinha os exímios Hansford Rowe (baixo), François Causse (percussão) e Ross Record (guitarras). Assim, nasceu Downwind, uma joia do jazz rock advindo no final dos anos 70, e que é totalmente oposto ao que o Gong fazia. Nomes como Mick Taylor, Mike Oldfield, Steve Winwood e Benoit Moerlen fazem participações mais que especiais. Conheci esse álbum por conta da versão revisitada de "Jingo" (famosa com o Santana), aqui batizada de "Jin-Go-Lo-Ba", e que não tenho palavras para descrever o que a banda faz nessa interpretação no mínimo fenomenal. A linha original percussiva foi mantida, assim como a empolgação e vibração, mas o tempero que o vibrafone e a percussão de Moerlen deu para faixa, puta que pariu, é extremamente delicioso. Só isso já valeu comprar o disco, mas ao ouvir Downwind na íntegra, me deparei com um disco simplesmente soberano e muito bem construído. Primeiro de tudo, quer sentir um grande arrepio na espinha e ver como somente dois músicos podem construir uma pérola, ouça "Emotions", somente vibrafone e violino (além de um suave sintetizador). O nome já diz tudo!! A faixa de abertura, "Aeroplane", em nada lembra as experimentações viajantes de seu ex-grupo, fazendo uma mescla de jazz rock com pop de altíssima qualidade, ainda mais na presença do belo solo de Ross. O swing de "What You Know", com um belíssimo solo de Taylor, é para sair dançando pela casa. Que delícia é sentar num sofá com uma bela dose de uísque e ouvir "Xtasea", uma faixa suave, que desce redondo no cérebro. Moerlen é o nome do disco, sem dúvidas, sobressaindo na sensacional e percussiva "Crosscurrents", intrincada faixa com um excelente trabalho de vibrafone por parte de Benoit. E quem não vibrar com os doze minutos enlouquecedores de vibrafone, percussão, sintetizadores, guitarra e saxofone da faixa-título, na qual Oldfield e Winwood dão suas colaborações, é por que tem sérios problemas de ouvidos. É um clássico disco sensacional a ser descoberto por admiradores de música, independente do estilo, e que em cada audição, conquista mais e mais espaço em minha admiração.

Frank Zappa – Joe’s Garage Acts II & III

1979 foi um ano sensacional para Frank Zappa. O americano lançou nada mais nada menos que cinco LPs, sendo dois duplos. Destes cinco, um dos duplos (este que vos apresento) é o encerramento da maluquete história de um jovem guitarrista chamado Joe, que arrancou os cabelos da mídia e dos políticos norte-americanos, já que o objetivo da Garage de Joe é narrar a história (fictícia) de um governo tentando acabar com a música através de leis, perseguições e outros atributos que são contados durante o desenvolvimentos dos dois LPs. Se o presidente Bozo curtisse Zappa, certamente saberia o que é Golden Shower, já que esta é apenas uma das várias polêmicas que Zappa mete o bedelho sem dó nem piedade. Para quem não é um iniciado na obra do bigodudo, talvez o disco soe um tanto quanto arrastado ou sem sentido, principalmente pela mescla de estilos, vozes robotizadas (o Central Scrutinizer, que mantém a lei) e muitas conversas que fazem parte do enredo na Garagem de Joe. Mas para quem curte as invenções (e sonzeiras) hilárias de Zappa, tipo "Keep It Greasey" ou "Stick It Out" , aprecia os solos esquisitóides mas contagiantes ("He Used To Cut The Grass", "Outside Now" ou "Packard Goose"), mas principalmente, entende um pouco de inglês e tem a mente aberta para viajar pela criação do artista, Joe's Garage é um prato cheio. Mas vou resumir o por que desse álbum estar aqui em apenas uma canção: "Watermelon In Easter Hay". O solo imaginário de Joe, depois de tantas turbulências pessoais, é tão lindo que chorar será algo natural enquanto você o escuta. Falei sobre essa Maravilha, bem como resumi a história dos dois álbuns, aqui, então, apenas coloque ela para rodar no youtube, no carro, no seu player favorito, e irá entender por que Joe's Garage Acts II & III é um dos melhores discos de 1979.

David Bowie – Lodger

O encerramento da fase Berlim de Bowie é o menos aclamado da trilogia (Low, "Heroes", Lodger), mas não por ser um álbum ruim. Ao contrário, Lodger não vence Low e "Heroes" por que esses discos são insuperáveis em qualidade e inspiração (tanto que os dois estiveram no pódio na lista de Melhores de 1977 feita pelo site), mas possui ótimas faixas que o faz no mínimo um dos grandes lançamentos de 1979. Uma coisa que chama a atenção de cara em Lodger em relação aos seus antecessores é que as inspirações no Krautrock se perderam. Poucas faixas têm aquele "som sombrio" que marca os álbuns de 1977, e aqui elas são a balada "Fantastic Voyage", as esquizóides "Red Money" e "Repetition" e a agitadíssima "Red Sails", uma das melhores faixas dessa trilogia, com inspirações nipônicas em suas melodias. Aliás, o grande diferencial de Lodger é esse, sair dos limites dos muros de Berlim e pegar influências mundias. As experiências eletrônicas de outrora acabam rumando para sons ainda mais distintos, como as percussões africanas de "African Night Flight", o clima oriental de "Yassassin" ou até experimentos vocais, como "Move On". Outras grandes faixas, que eu não me seguro ao ouvir e saio dançando fácil, é a enlouquecedora "Look Back in Anger" (ritmo contagiante para uma sonzeira animal) e "Boys Keep Swimming", que além de ser um som fantástico, ainda possui um dos clipes mais legais que o camaleão fez. O pop dançante de "D. J." foi o maior sucesso do disco. As canções são curtas, nenhuma ultrapassando 4 minutos, perfeitas para uma festa, e levam Bowie com tranquilidade para construir dos álbuns atemporais na sequência (Scary Monsters e Let's Dance), predominando como um dos gênios Pop nos anos 80.


Bruford – One of a Kind

Depois de sair do Yes, Bill Bruford investiu em várias outras bandas. King Crimson, Genesis e U. K. foram algumas delas, até que se deu conta que precisava montar sua própria banda para poder fazer o que curtia. O Bruford é um projeto maravilhoso que une com perfeição jazz e progressivo, através do trabalho não de Bruford, mas do animalesco Jeff Berlin (baixo), do perfeccionista Alln Holdsworth (guitarra, que Bruford "roubou" do U. K.) e dos teclados harmoniosos de Dave Stewart. Terceiro disco da banda, One of a Kind é sem sombra de dúvidas o mais complexo disco que tem a mão do baterista no processo de composição em toda sua carreira. Canções como a faixa-título, “Hell’s Bells”, “Five G” e “Fainting in Coils” extrapolam os limites de um baterista comum, além de ter Jeff Berlin em uma forma fantástica. O que esse cara faz nessas canções, e também na linda "The Abingdon Chasp", não é pouco, sendo uma boa amostra para os que afirmam que Jaco Pastorius foi o responsável pela revolução no baixo. Stewart também brilha com seus sintetizadores durante "Travels With Myself - And Someone Else" enquanto Holdsworth é o cara em "Forever Until Sunday". O encerramento com a Maravilha Prog “The Sahara of Snow” é o grande momento do LP. Suas duas partes mostram ao ouvinte muita quebradeira e intrincação. As batidas na caixa em contra-tempos, as viradas,  o prato levando o ritmo correto, é perfeição pura, sendo um grande panorama de por que Bruford ser um baterista inigualável, e simplesmente o melhor de todos os tempos em minha opinião. Para quem curte um jazz rock na linha do Weather Report, é um prato cheio, e certamente, um dos melhores lançamentos de 1979.

ABBA - Voulez-Vous

O ABBA pode torcer o nariz de muita gente, mas é inegável que sua música, em termos de pop, tem qualidades altíssimasa. Quando do lançamento de Voulez-Vous, o grupo passava por uma situação interna crítica, que era a separação do casal Björn e Agnetha. Musicalmente, eles viviam o auge de sua fase Dance Music, e entre tapas e beijos, o quarteto entrega aos seus fãs baladas clássicas que tocam até hoje nas festas de seus pais / avós, como "I Have a Dream" e "Chiquitita", e uma das melhores trilhas para os embalos de sábado a noite. Afinal, como segurar o esqueleto com tanto swingue através de "As Good As New", “Does Your Mother Know”, a canção mais Bee Gees que o Bee Gees nunca gravou, não querer sair de carro pelas ruas, sozinho ou acompanhado de uma ceva, cantando o refrão de "The King Has Lost His Crown", o peso da guitarra em “Lovers (Live A Little Longer)“, contrastando com as orquestrações incrivelmente criadas pela dupla Benny / Björn (seriam eles a maior dupla de compositores da história do Pop?) e principalmente, com aquele riff árabe e o ritmo da faixa-título, fácil fácil Top 3 na carreira da banda, e cujo clipe atesta ainda mais quão linda era Agnetha. Que música fantástica!! Perdidas entre tantas faixas boas, outras faixas igualmente contagiantes, mas que vão conquistando o coração aos poucos surgem a cada audição, no caso "Angel Eyes", “Kisses of Fire” e “It It Wasn’t For the Nights”. Podem jogar as pedras, mas vou largar ainda mais pimenta para defender esse disco: só no Brasil, vendeu mais de um milhão e meio de cópias, e no resto do mundo também foi um gigante de vendas, atingindo o primeiro lugar em doze países. Ou seja, aquela frase de que se unanimidade significasse qualidade, mosca não comeria merda, acho que de nenhuma forma se encaixa aqui. Para um disco que vendeu tanto em 1979, sua menção entre os Melhores lançamentos desse ano é extremamente sensata. E musicalmente, ele merece sim essa citação!



Saxon - Saxon

Esse para mim é um dos melhores discos de estreia de todos os tempos. A vitalidade e energia que o quinteto britânico entrega em pouco menos de meia hora é de uma exemplar qualidade que me atiça a garganta quando vejo headbangers defendo outro nome da NWOBHM (vocês sabem bem quem) em comparação ao Saxon. O baixão e o riff empolgante de "Rainbow Theme", seguida pela baladaça "Frozen Rainbow", com aquele solo magistral das guitarras de Paul Quinn e Graham Oliver, impressionam de cara, e particularmente, foi emocionante conferir as duas ao vivo em março desse ano. Mas ainda há mais qualidades para Saxon estar aqui. Os hits "Backs to the Wall" e "Militia Guard", essenciais nas apresentações da banda para levantar o público, as variações de "Judgment Day", com magistral interpretação vocal de Biff Byford, aquele riff clássico mas sempre bem vindo para a cabeça em "Big Teaser" e "Stallions of the Highway", e o agito de "Still Fit To Boogie", são o recheio de um disco essencial para quem quer conhecer as origens do rock pesado que tomou conta dos anos 80. O Saxon ainda faria discos melhores e mais importantes que sua estreia (Wings of Steel, Crusader, Strong Arm of The Law), mas cara, para uns novatos, Saxon é de tanta qualidade que ficar entre os dez mais de 1979 é justíssimo.


Scorpions – Lovedrive

Para mim essa foi uma das maiores surpresas em não comparecimento nas listas. Para um pessoal todo metido a metaleiro, tinha tanta certeza que Lovedrive estaria na lista que acabei nem citando ele. Pois errei brutalmente. E que lástima Lovedrive não estar lá. A presença de Michael Schenker retornando a banda em “Another Piece Of Meat”, com fortes inspirações em Led Zeppelin e um riff grudento, na faixa-título, uma das melhores canções do grupo pós-Uli Roth principalmente por conta de seu baixo galopante, e na pancada instrumental “Coast To Coast”, a qual tornou-se obrigatória nos shows do grupo a partir de então, já fazem de Lovedrive um disco no mínimo histórico. Na verdade, Lovedrive é um divisor de águas na carreira da banda. O hard rock da fase Uli está bastante presente através da citada "Another Piece of Meat" (repito, que baita som), “Loving You Sunday Morning”, que tornou-se um clássico de cara, e na pegada “Can’t Get Enough”, para mim a segunda melhor do disco, atrás apenas de “Coast to Coast”, e onde Jabs emula Uli descaradamente. Por outro lado, a banda passa a voltar seus ouvidos para as baladas, e aqui, o centro das atenções fica para a linda “Always Somewhere” (introdução que me lembra muito "Simple Man", do Lynyrd Skynyrd) e a arrepiante baladaça “Holiday”, uma das interpretações mais marcantes de Klaus Meine, que foi a partir daqui que começou a ganhar mais espaço como compositor e como artista. Único ponto fraco é o reggae no sense de “Is There Anybody There?”. O que os alemães tomaram quando gravaram isso, nem eles sabem. Tirando ela, Lovedrive é um clássico, simplesmente isso, e se você quiser saber mais sobre esse álbum, pode acompanhar aqui.


Elis Regina - Elis, Essa Mulher

Elis, Essa Mulher é um disco de retorno da pimentinha para a Música Popular Brasileira. Depois da esplendorosa turnê Transversal do Tempo (que culminou no excelente álbum homônimo, de 1978), Elis assinou com a WEA, e reencontrou-se com o samba que marcou sua carreira no final dos anos 60, com uma empolgante versão para agitada “Cai Dentro” e a irônica e divertida “Eu Hein Rosa!”, responsáveis por abrir ambos os lados do vinil, e o samba-choro “Pé Sem Cabeça”. É um álbum muito maduro e romântico, que marca bem a fase pessoal de Elis em 1979, com um relacionamento estável ao lado do marido Cesar Camargo Mariano e o sucesso dos shows Falso Brilhante e o citado Transversal do Tempo. Elis explora temas bastante voltados para a intimidade feminina, concentrando-se principalmente nas relações amorosas, e assim ouvimos as belas baladas “Altos e Baixos” e “As Aparências Enganam”, essa com uma excepcional performance de Cesar ao piano, os boleros “Beguine Dodói” e “Bolero de Satã”, o último com participação especial de Cauby Peixoto, e a dolorida e fantástica interpretação de Elis para “Essa Mulher”, uma das mais fortes e arrepiantes de sua carreira. Que música! Que letra! Outra interpretação fantástica é de "Basta de Clamares Inocência", um samba tradicional do mestre Cartola que com Elis virou um jazz rasgado, sofrido, com um groove singelo e contagiante de Luizão Maia, e certamente, com lágrimas correndo dos olhos da cantora em estúdio. Mesmo com tanta música boa, o álbum ficou marcado pelo clássico “O Bêbado E A Equilibrista”, de João Bosco e Aldir Blanc, e que é realmente uma senhora canção. Desde o acordeão de Chiquinho, passando pela letra enorme e complicada, com uma melodia encantadora, ela tornou-se o hino da anistia, e colocou Elis como uma das referências artísticas contra a ditadura, algo que ela havia lutado e muito durante os anos 70. Só por ela, Elis, Essa Mulher já entra nos 10 Melhores Lançamentos Mundiais de 1979, e com o conjunto da obra fechado, se torna para mim disparado o Melhor Disco Nacional lançado há 40 anos.

Menção honrosa: Led Zeppelin – In Through the Out Door

Gravado entre muitos problemas pessoais de Jimmy Page e Robert Plant, In Through The Out Door é considerado por muitos (eu incluso) como o álbum mais fraco do Led Zeppelin. Mas mesmo o álbum mais fraco do Led é digno de ser um dos Melhores lançamentos de seu ano. A guitarra de Page acaba sendo encoberta pelos teclados e sintetizadores de John Paul Jones, o principal responsável por conseguir lançar este disco. O disco começa bem, com a viajante “In the Evening“, repleta de efeitos na guitarra de Page. Essa é a única canção que Page aparece mais, e aqui percebemos a mudança na voz de Plant, com um timbre diferente do comum, sem tantos agudos e com algum efeito. O recheio do álbum é meia-boca, com “South Bound Saurez”, “Fool in the Rain” e “Hot Dog”, que parecem sobras inacabadas de Houses of the Holy. O grupo se recupera com a animalesca “Carouselambra“, um tour de force de mais de dez minutos, dividido em três partes, variando com climas orientais, outros mais lentos e muitas partes intrincadas. Temos também “All My Love”, uma das mais lindas baladas de todos tempos, contando com o mais famoso solo de Jones nos teclados. “I’m Gonna Crawl”  antecipa o que viria a ser a carreira solo de Plant nos anos oitenta, e é uma triste despedida para uma das maiores bandas da história. Por isso, essa menção honrosa em 11°.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Rick Wakeman - G'olé! [1983]




A carreira do tecladista britânico Rick Wakeman é recheada de altos e baixos. Com mais de uma centena de discos lançados, é impossível que um artista tenha todos eles agradando aos seus fãs, mesmo alguém como Wacko. Porém, há um álbum em especial que nunca ouvi um fã dizer: "Bah, eu gosto muito desse disco", pelo contrário. Quando se trata de G'Olé! - The Official Film Of The 1982 World Cup, a trilha sonora oficial da Copa de 1982, sempre ouço dos fãs que é um dos piores discos já lançados na história do progressivo. Mas eu não consigo concordar.

Lançado em 1983, G'olé! possui as participações especiais de Jackie McAuley e Mitch Dalton nos violões, e da bateria precisa do sempre fiel companheiro de Wacko Tony Fernandez. Vale aqui lembrar um pouco da carreira de Wacko até chegar em G'olé!. Com sua formação clássica, o músico destacou-se no Strawbs, indo parar no Yes onde conquistou sua fama com o aclamado Close to the Edge (1972). No ano seguinte, lançou-se em carreira solo, e o álbum Six Wives of Henry VIII praticamente colocou o nome Rick Wakeman no mesmo patamar do que o de sua então banda Yes. Journey to the Centre of the Earth (1974) e The Myths and Legends of King Arthur and the Knight of the Round Table (1975) fizera tanto sucesso que a estrela de Wakeman foi elevada ao ápice, e com apenas 26 anos, era um dos mais famosos músicos do mundo. 

Clássicos (ou não) devidamente autografados

Com isso, convites para fazer trilhas apareceram à Wacko, e assim vieram Lisztomania (1975), trilha do filme homônimo que narra a história do músico e compositor húngaro Franz Liszt, e White Rock (1977), trilha para os Jogos Olímpicos de Inverno de Innsbruck, Áustria, no mesmo ano. Com essas trilhas, Wakeman pode explorar um lado mais comercial em sua carreira, totalmente em paralelo com os contemporâneos lançamentos da época, No Earthly Connection (1976) e Criminal Record (1977), álbuns conceituais onde as explorações progressivas e instrumentais são levadas a extremos.

Ao mesmo tempo, a vida pessoal de Wakeman estava muito turbulada no final dos anos 70. Problemas financeiros levaram o músico a vender seu Rolls Royce para ajudar a pagar uma dívida de quase 350 mil libras, uma imensa fortuna para época. Isso é uma das razões para que Wakeman tenha aceitado fazer a trilha de White Rock, mas ele acabou gostando desse tipo de som, o que culminou em Rhapsodies (1979), esse sim, um álbum difícil de se ouvir gostando por completo e último com a gravadora A & M, que acompanhou a trajetória do loiro desde o início. 

Wakeman com o Yes em 1978

Em paralelo, ele havia voltado ao Yes, lançando o excelente Going for the One (1977) e Tormato (1978), partindo para uma extensa turnê que acabou registrada em Yesshows (1980). Brigas internas fizeram com que Wacko e o vocalista Jon Anderson pedissem demissão do Yes, e assim, o tecladista entra nos anos 80 completamente no limbo.

Após assinar com a Charisma, sai o conceitual 1984 (1981) e mais uma trilha, agora para o filme de terror The Burning (1981) e Rock 'n' Roll Prophet (1982) que pouco agregaram na discografia, e principalmente, nas finanças do músico, ao ponto de ele se declarar "sem gerente, sem dinheiro e sem casa". Assim nasce G'olé!, com Wakeman tentando se reestruturar financeiramente, independente do que gravar. Acho esse um disco bem interessante de se ouvir, com climas diversificados, sem firulas magníficas ou marcantes mas tão pouco sem ser pobre o suficiente para ficar pegando pó nas prateleiras. 

O selo inglês é em formato de bola ...

"International Flag" abre os trabalhos com um belo tema dos sintetizadores e do piano, e com a presente marcação da bateria de Hernandez. Esse tema é repetido por diversas vezes, e certamente foi usado em muitas formaturas mundo à fora."The Dove (Opening Ceremony)" mostra Wakeman usando com delicadeza do moog e de sintetizadores, em uma bonita faixa que realmente nos dá a sensação de ver as equipes adentrando o estádio de futebol. O piano é o instrumento central da linda "Wayward Spirit". A introdução parece uma sequência para "Awaken", com um dedilhado feroz e agitado. A entrada do riff central modifica a canção, apresentando uma linda faixa onde Wakeman chega a solar com o moog, mas é o piano que permanece sempre como o instrumento chefe da canção, em solos muito tocantes.

"Latin Reel (Theme From G'olé)" é uma faixa que confesso desnecessária. O ritmo alegre e popular lembra as piores canções do ABBA, o que seria algo muito bom de se ouvir se aparecesse, em algum momento, as vozes de Agnetha e Anne-Frida, mas aturar os teclados faceiros de Wakeman, e uma percussão sem-vergonhamente sem-vergonha realmente é difícil. Pule a faixa e vá para "Red Island", uma faixa sensacional, onde sobre uma marcação precisa de baixo e bateria, teclados e coral comandam as variações musicais de uma música bastante climática, até a bateria conduzir o coral para nos remeter aos melhores momentos de Journey To The Centre of The EarthO Lado A encerra-se com "Spanish Holiday", um espetáculo sonoro bastante intenso por parte das diversas variações de instrumentos de solo por Wakeman, e contando com uma importante participação do dedilhado veloz do violão de Jackie McAuley e Mitch Dalton, além da bateria sempre competente de Tony Fernandez.

Já a versão nacional ...

"No Possibla", onde Wakeman abusa dos sintetizadores, e junto com a bateria e o baixo, faz um ritmo bem dançante para nos conduzir à segunda metade do LP, ainda mais com as inspirações flamencas nos acordes do moog.  "Shadows" é outra bela canção, comandada pelo piano elétrico, o ritmo de baixo e bateria, moog, e depois de uma diversa sequências de solos, e uma incrível virada no final da canção, torna-a forte candidata a melhor disco.

Sintetizadores apresentam "Black Pearls", bonita faixa com Wakeman brilhando ao piano e moog.  "Frustration" traz todo o clima de frustração após uma eliminação, em uma faixa sombria, somente com sintetizadores, que parece surgida das melhores viagens da brilhante mente de Vangelis. "Spanish Montage" é um belo duelo de clavinete e violão clássico / flamenco. A participação do violão é muito similar à Steve Howe, e é impossível não abrir um sorriso enquanto a canção vai passando por nossa mente. "G'olé", assim como "Latin Reel", é outra faixa alegre e desnecessária, com grande excesso de sintetizadores, que conclui o álbum de forma um pouco abaixo de sua média geral, mas ainda assim, bastante aceitável perto de outras trilhas sonoras que surgiram nos anos 80, inclusive do próprio Wakeman ...



Track list

1. International Flag
2. The Dove (Opening Ceremony)
3. Wayward Spirit
4. Latin Reel (Theme From G'olé)
5. Red Island
6. Spanish Holiday
7. No Possibla
8. Shadows
9. Black Pearls
10. Frustration
11. Spanish Montage
12. G'olé

domingo, 29 de setembro de 2019

Livro: Rita Lee - Uma Autobiografia [2017]


Em janeiro de 2017, através da Globo Livros, chegou às lojas o alaranjado livro Rita Lee - Uma Autobiografia, trazendo a história da Rainha do Rock nacional, Rita Lee Jones, narrada pela própria. Para os fãs da cantora que fez sucesso ao lado de Mutantes, Tutti Frutti e principalmente, do marido Roberto de Carvalho, Rita conta sua vida como uma vovó sentada diante dos netos comendo bolinho de chuva e tomando chá, e apresentando muitas fotos pessoais (algumas ilustrando essa matéria).

A facilidade na escrita de Rita torna a leitura fácil e rápida. Através de diversos mini-capítulos, e tentando seguir uma ordem cronológica, a autora narra desde sua infância cheia de peripécias ao lado das irmãs no casarão da Vila Mariana em São Paulo, sob os olhares severos e rígidos do "General" papai Charles, até o presente momento, quando decidiu aposentar-se de vez do brilho dos holofotes e viver a vida ao Deus dará. Isso sem jogar muita merda no ventilador, inclusive do seu próprio. O tom depreciativo em termos de diversos nomes citados ao longo do texto, e da própria família de Rita (a qual ela chama de Família Buscapé) pode ser até engraçado de início, mas não convém para um livro de tão importante relevância, já que estamos tratando do maior nome feminino do rock nacional.


Com o pai Charles e o filhote de jaguatirica Guna

Mas voltando as merdas na vida de Rita, uma delas é o fato de ter "perdido a virgindade" com um técnico da máquina de costura Singer que foi consertar a máquina de sua mãe e enfiou uma chave de fenda em sua vagina, isso quando ainda era criança. Nessa mesma época, a menina Rita ficou tão nervosa em sua primeira apresentação em público, tocando piano, que acabou se urinando em pleno palco. Outros grandes problemas surgem ao longo do livro, como a sua conturbada relação com o álcool, que a levou a ser internada por diversas vezes em clínicas de reabilitação. Ainda, Rita trata sem rodeios do acidente que esfacelou o seu maxilar e quase a impediu de cantar em meados dos anos 1990, justamente por conta da bebida, e de várias de suas operações (mastectomia, hemorroida, cordas vocais, retirada da vesícula) e da suspeita de Mal de Parkinson. Ou seja, toca na própria ferida sem medo de sentir dor.

Em termos de carreira musical, Rita apresenta primeiramente sua fase junto aos Mutantes, com a fusão das Teenage Singers (grupo vocal que contava com Rita entre os membros) com os Wooden Faces (que contava com o que Rita chama de triumvirato dos mano: Sergio Dias na guitarra, Arnaldo Baptista no baixo e Cesar Baptista na bateria) no grupo O'Seis. As participações nos programas de Ronnie Von, Quadrado e Redondo, Divino Maravilhoso, Astros do Disco, bem como os festivais da época, e até a peça de teatro O Planeta dos Mutantes, estão presentes sem muitos detalhes, assim como comentários muito breves sobre os cinco discos que Rita lançou junto ao grupo.


Rita no final dos anos 60

De interessante, ficam a seção de fotos para a capa de A Divina Comédia ... Ou Ando Meio Desligado, realizadas na cada dos Baptista, e que segundo a autora, por terem sidos pegos nus na cama da mãe Baptista, foi o estopim para que a mãe de Rita obrigasse o casamento entre ela e um dos irmãos, mesmo ela namorando um flautista chinês chamado Thomas O. Lee, a passagem do grupo pela Europa, com Rita afirmando ter ficado constrangida com o lançamento de Technicolor (álbum intencionalmente gravado para lançar o grupo no Velho Continente, em 1970, mas que só viu a luz do dia nos anos 2000), os dias na Cantareira, período em que gravaram Jardim Elétrico, e claro, o desbunde com o fim do grupo, quando repentinamente, segundo Rita, durante um ensaio, Arnaldo falou: "A gente resolveu que a partir de agora você está fora dos Mutantes porque nós resolvemos seguir na linha progressiva-virtuose e você não tem calibre como instrumentista" ... "Uma escarrada na cara seria menos humilhante". Será? Vale citar que nesse ponto do texto, Rita já se vangloreia do seu álbum de estreia, Build Up, na qual o maior destaque, "José", foi uma música que ozmano detestaram, e que ela tinha muito orgulho.

No limbo entre Mutantes e Tutti-frutti, Rita traz uma viagem lisérgica para a Inglaterra, o dia em que conversou com Jimmy Page na Bahia, o jantar ao lado de Eric Clapton, quando convidou uma "amiga mala" que literalmente acabou com a noite, a formação da Cilibrinas do Éden, ao lado de Lúcia Turnbull, e como ela roubou as cobras de Alice Cooper (Mouchie e Angel) durante a turnê do americano pelo Brasil em 1973, isso com a ajuda do roadie (e novo affair) de Rita, Andy Mills.


No paraíso, com o marido e filhos

Da família ao lado do marido Roberto de Carvalho, há as histórias de seu início de relacionamento, o medo de Roberto não querer assumir ser o pai do primogênito Beto Lee, o nascimento dos três filhos, um aborto por conta de uma gestação extra-uterina, que a artista se condena até hoje, os sucessos dos discos lançados no final dos anos 70, início do 80, quando a rotina disco-show torna-se tão exaustiva que Rita, frustrada com lançamentos pouco inspirados, acaba decidindo parar com as turnês, e curtir muitas férias em lugares paradisíacos.

Também aparecem comentários sobre o programa Radioamador, que Rita apresentou na Rádio 89 FM, o programa TVLeeZão da MTV, e o sucesso da turnê Bossa 'n' Roll, que Rita fez ao lado de Alex, já que Roberto estava morando nos EUA na época da turnê (início dos anos 90). Também é comovente o relato da viciada Rita sobre seus conturbados problemas com o álcool, que quase acabaram com a família e a levou por diversas vezes à clínicas de reabilitação, além de uma queda feia que fraturou o maxilar e deixou Rita sem falar por alguns meses.


Uma das várias participações do "Ghost Writer"

Para trazer dados importantes que a autora esqueceu, o livro usa de um "ghost writer", o fantasminha Phantom (na realidade Guilherme Samora, um dos maiores colecionadores da vida de Rita no país), e que entrega diversas informações importantes ao leitor. Dentre elas, destacam-se: a primeira gravação das Teenage Singers, no raríssimo álbum autointitulado de Prini Lorez (1964); a estreia dos Mutantes no programa de Ronnie Von em 15 de outubro de 1966; O sucesso de Fruto Proibido (1975), que Rita diz que foi apenas um "disquinho bacana"; o inesquecível show de Ribeirão Preto, pós-prisão, quando os fãs subiram ao palco e arrancaram pedaços da roupa dela, enquanto ela seguia cantando, mesmo grávida; ...

Algumas pessoas recebem subcapítulos especiais, no caso Hebe Camargo, que ajudou a promover a carreira solo de Rita, Elis Regina, que tirou Rita da cadeia, onde ela ficou presa, grávida, por porte de maconha, algo que ela confessa ter sido uma grande injustiça, Ney Matogrosso, o cupido entre ela e seu marido, Roberto de Carvalho, João Gilberto, que convidou Rita para uma participação especial da Globo, e gravou a canção "Brazil com S", e Thomaz Green Morton, o Homem do Rá, que praticamente destruiu (segundo Rita) com a apresentação dela e do marido na apresentação do Rock in Rio de 1985. Até Yoko Ono é citada, sendo esta responsável por vetar canções/versões que Rita iria registrar no álbum Aqui, Ali Em Qualquer Lugar.

Mas nem tudo é uma maravilha no livro. Para começar, em diversos momentos Rita se perde divagando na sua relação com seus animais de estimação (cachorros, cobras, tartarugas, gatos e até onça), festas particulares e presenças de ilustres, como Bill e Hillary Clinton, e não traz detalhes das gravações de seus discos, seja com os Mutantes, seja com o Tutti Frutti. Sobre as gravações de seus principais clássicos com Roberto, Rita fala que "eram momentos de pura criação após grandes noitadas de sexo", e apenas isso. Parece que só uma boa trepada é o suficiente para criar um clássico.


Imagens do livro

O pior é quando fica extremamente chato de estar se lendo o livro e do nada, uma citação menosprezando Arnaldo aparecer. Parece amor retraído, ou então, necessidade de aparecer. Rita realmente coloca toda sua mágoa com o ex-mutante em diversos momentos, dentre eles, quando insinua que ele apenas está fingindo sequelas da famosa queda do terceiro andar do hospital psiquiátrico lá em 1982. Para quem não sabe, Arnaldo foi internado em um hospício e de lá, jogou-se na tentativa de escapar, ficando em coma durante um bom tempo e tendo sequelas gravíssimas até hoje.

Segundo Rita, Arnaldo resolveu jogar-se no dia do aniversário dela, de uma clínica meia-boca para "esquisitinhos" depois de ter queimado o piano da mãe. Rita foi avisada por uma fã de "Loki" que ele estava internado como um indigente. Graças a ela e Roberto, transferiram ele para o Hospital Samaritano, aos cuidados da fã (Lucinha, atual esposa de Arnaldo), que usava "cabelo vermelho e franjinha no melhor estilo Rita Lee". Tempos depois, ela ligou para Arnaldo fingindo ser uma secretária de Kurt Cobain, e ele falou fluentemente e sem gaguejar em inglês. É de um tremendo mal caratismo expor isso de tal forma, e principalmente, afirmar isso. Ainda, relata que durante seu casamento, "Arnaldo comia todas, enquanto eu dava umas voltas com Danny (cachorro de Rita) e fingia não saber nada". Muita mágoa e insinuações criminosas para pouco proveito de leitura ...


No quarto bordel da Rua Pelotas

Antes, ela já destrói a família Baptista. Liberal para sua época, "todos sofriam de renite, respiravam pela boca, babavam muito e cuspiam quando falavam". "Serginho, o caçula gordinho, nunca leu um livro na vida, raramente escovava os dentes, ..., o Sancho Pança do mano mais velho". Sobre Arnaldo, "das vezes que tentamos transar, foi broxante, eu sentia nojinho das babadas dele, que confessou que comigo era bem menos emocionante do que com uma boneca inflável". Se essas informações são verdadeiras, qual a necessidade dessas informações ao leitor? Sejamos honestos ... Ainda, Rita também relata que durante a turnê de Bossa 'n' Roll, tentou fazer um show de reunião com ozmano, mas que acabou não vingando justamente no momento que Arnaldo viu Sergio no palco, ficando revoltado e dizendo que não tocaria com alguém que usa Fender e não Gibson, na velha rivalidade transistorizados x valvulados. "Loki saiu indignado junto da fã-esposa-clone-da-rita-lee e eu, a bruxa que condenou os mutas ao ostracismo, fiquei lá, posando de paisagem".

Primeiro, Mutantes no ostracismo?? Segundo, para que insistir em chamar Lucinha de "clone de Rita Lee"??? É muita pretensão, exibicionismo, ou amor enrustido através de ciúmes mesmo? E digo ciúmes por que quando ela mesma se chama de A Lôka, com essa grafia, já no final do livro, não tem como não sentir uma pontinha grande de saudades do ex-marido ...


Pelada na praia

Para completar, e por que não, dar uma de advogado de defesa, esse parágrafo entrega o que eu tento dizer. Ao falar sobre a mudança que o trio Mutante passa do primeiro para o segundo disco: "Não que ozmano (n. r. Sergio e Arnaldo) fossem desimportantes dentro dos Mutas, muitíssimo pelo contrário, a virtuosidade de Sergio era fato inegável, apenas sua técnica instrumental se mostrava inversamente proporcional ao talento como compositor. De nós, era o que cantava melhor, apesar da mania de imitar Paul McCartney, o que eu considerava vergonhoso. Arnaldo tinhas ótimas ideias, tocava piano e baixo legal, em matéria de ousadia estava anos-luz à frente. Quanto a mim, não tocava nem cantava porra nenhuma". Ou seja, é muita auto-depreciação sem necessidade.

Todos sabemos como os Mutantes foram importantes para o mundo da música, tanto que recentemente, um canal russo elegeu o grupo como o segundo grupo brasileiro mais importante de todos os tempos, atrás apenas do Sepultura, e como nomes como David Byrne e Kurt Cobain, entre outros, babam pelo som dos caras. Então, esse tipo de declaração é no mínimo sem sentido, para não dizer outra coisa. Na obra definitiva sobre sua vida e carreira, que ficará para a eternidade e gerações pesquisarem quem foi Rita Lee, é triste ler tanto ódio e rancor.


A bebê Rita ao lado dos pais e irmãs


A analogia da turma do Bolinha e do Mágico de Oz com os colegas de MPB da época é tão ridícula e pedante quanto a citação que Rita faz para Chico Buarque (no baile, Rita avacalha também com Elis, Aninha, Edu Lobo, Geraldo Vandré e Sérgio Ricardo, além do grupo MPB-4). Outra que sofre nas mãos de rita é a "governanta-empresaria" Mônica Lisboa, que apesar de não ter o nome citado no livro, aparece por diversas vezes, sendo acusada de responsável por acabar com a carreira do Tutti-Frutti, e de usar do nome Rita. Durante as gravações de Entradas & Bandeiras, a mixagem foi totalmente realizada por Luis Carlini, que deixou o álbum "um festival de guitarras atropelando voz, vocais, teclados, baixo ... virou um disco do moço". Com isso, Rita se considera a mocinha ingênua de uma novela colombiana, ludibriada pelo cartel de Medellin (composto por Luis e da Governanta).

Por fim, têm informações muito complicadas de se acreditar. Primeiro, no capítulo Nojinho, ela afirma ter nojo das coisas, que não gosta de dar selinho e coisa e tal. É estranho no mínimo essa informação, já que no dia do lançamento deste livro, Rita distribuiu selinhos aos montes, e no próprio livro ela se auto-elege a criadora do selinho da Hebe ... Mas a pior delas é a pior delas é a de uma Bad Trip ao lado de um amigo (Baratão), no Rio de Janeiro, quando os dois pegaram meio quilo de cocaína e ficaram cheirando durante três dias sem parar. Qualquer um que acompanha programas de investigação criminal ou polícia sabe que meio quilo de cocaína é MUUUUUUUUUITA cocaína, e que se cada um tivesse consumido 250 gr de cocaína em três dias, com certeza não teriam durado para contar a história. É ler e fingir acreditar ...


No lançamento de seu livro


Enfim, o livro é tranquilo de ler, principalmente para quem quer uma linguagem "jovem", mas a ausência de informações pertinentes com uma carreira musical tão ampla, a quantidade de comentários azedos e pouco acrescentadores de conteúdos, e principalmente, o excesso de informações pessoais totalmente inúteis, tornam Uma Autobiografia aqueles casos que você lê uma vez e nunca mais pega novamente. E vamos agora reler o (também) criticado A Divina Comédia dos Mutantes, que para Rita, o autor apenas deveria ter ficado Calado (Carlos Calado é o autor do livro).

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Ecstatic Vision - For The Masses [2019]



O grupo norte-americano Ecstatic Vision, formado por Doug Sabolik (guitarra, órgão, vocais),  Michael Field Connor (baixo), Kevin Nickles (saxofone, flauta, guitarra) e Ricky Kulp (bateria), lançará amanhã, dia 20, seu terceiro álbum, For The Masses. Depois de Sonic Praise ter conquistado a América em 2015, e Raw Rock Fury ter chocado a mesma América com experimentações em 2017, o grupo ano passado mostrou de onde havia tirado suas inspirações, com o ótimo EP de covers Under The Influence.

Neste EP, temos duas homenagens para o Hawkwind, com “Born To Go” e “Master Of The Universe”, o peso do MC5 em “Come Together”, e um tributo ao Zam Rock, através dos grupos Chrissy Zebby Tembo & The Ngozi Family, com a faixa “Troublemaker”, e “The Bad Will Die”, sonzeira do grupo Keith Mlevhu. É exatamente uma continuação dessas influências, porém construídas através de ideias próprias, que temos na audição do ótimo For The Masses.



O som industrial, com barulhos de sirenes, sintetizadores e percussões, toma conta na vinheta de abertura "Sage Wisdom", que nos prepara psicologicamente para as insanidades musicais que virão ao longo de pouco mais de meia hora de música. "Shut Up And Drive" começa com o baixo carregado de distorção puxando o riff junto de efeitos, para explodir na guitarra e bateria, em um ritmo que dá vontade de sair pulando pela casa. A mistura de riffs pesados, efeitos sonoros e os vocais carregados de efeitos lembra de imediato Hawkwind da fase Warrior On The Edge of Time, o que já alavanca muitos pontos para os americanos. O riff fica repetindo-se durante toda a canção (sete minutos e quatorze segundos), enquanto os vocais são alternados com solos de guitarra regados de muito ácido. Lisergia pura!

Mais efeitos de sintetizadores aparecem em "Yuppie Sacrifice", a mais longa do álbum, com quase 9 minutos de duração. É uma doida e embalada faixa, com uma bateria poderosa que comanda o ritmo tribal e a voz de Doug carregada de efeitos. Destaque para o surpreendente solo de saxofone, e a acidez de uma guitarra carregada no wah-wah. "Like a Freak" coloca a casa para baixo. Um riff potente de baixo e guitarra, pancadaria na bateria e um vocal fulminante, numa espécie de punk rock misturado com heavy metal na melhor linha do MC5, que literalmente, deixa o ouvinte enlouquecido.



A faixa-título parece ter brotado de algum álbum esquecido do Gong. Uma maluquice sem tamanho, onde uma bateria dilacerante estraçalha os nossos ouvidos, enquanto vozes, sintetizadores, saxofone à la Coltrane e outros instrumentos de difícil identificação tentam sobreviver a massa sonora que está saindo das caixas de som. Um free jazz rock insanamente sensacional!! A sombria "Magic Touch" nos remete novamente às viagens do Hawkwind. Sintetizadores caprichosamente assustadores, e vocalizações idem, preparam o ambiente para um baixo com distorção ao extremo, e percussões africanas, arrebentarem as caixas de som. De forma inesperada, e oposta ao caos sonoro da percussão e baixo, uma flauta sola ao fundo da parede sonora criada pelo Ecstatic Vision, como uma segunda faixa imersa sob a primeira. Genial! A entrada dos vocais carregados de efeitos apenas servem para apimentar ainda mais a insanidade musical dos americanos, e a faixa encerra-se com um riff sabbhático da guitarra.

For The Masses tem na sua conclusão "Grasping The Void", outra faixa magnífica, onde a mistura dos instrumentos de sopro (flauta e saxofone) e a distorção do baixo e da guitarra, além de uma bateria com um ritmo pulsante, são sensacionais. Vocais carregados de efeitos, hipnotização sonora fácil, enfim, um encerramento que resume toda essa bela obra de 2019.

Não é um disco fácil de se ouvir, e que você irá reproduzir por diversas vezes ao dia, mas com certeza, no momento certo, For the Masses pega de tal jeito que fica impossível não abrir um sorriso com esse retorno ao lisérgico início dos anos 70 sem ter usado qualquer alucinógeno. Grata surpresa!




Track list

1. Sage Wisdom
2. Shut Up And Drive
3. Yuppie Sacrifice
4. Like a Freak
5. For The Masses
6. The Magic Touch
7. Grasping The Void
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...