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quarta-feira, 18 de maio de 2022

Ouve Isso Aqui: Álbuns que fazem 50 anos em 2022


Editado por André Kaminski

Tema escolhido por Daniel Benedetti
Com Anderson Godinho, Davi Pascale, Fernando Bueno, Líbia Brigido e Mairon Machado

Lá se vão cinquenta longos anos desde que esses álbuns foram lançados e, como sempre acontece com clássicos atemporais, estes mesmos continuam encantando gerações de ouvintes mundo afora. Nosso amigo Daniel fez uma bela lista de cinco discos lançados em 1972, o ano em que muitos consideram o melhor da história do rock (ou um dos melhores). Convenhamos, daria para tranquilamente fazer cinquenta clássicos lançados há cinquenta anos que ainda assim faltaria disco. Mas os que estão aqui são muito representativos de uma época em que o rock brilhava. Quais os que faltaram? Deixe suas sugestões nos comentários.


T.Rex - The Slider

Daniel: Acho muito interessante a sonoridade do T. Rex, especialmente levando-se em conta a época em que seus álbuns foram lançados. Evidentemente, trata-se de um Rock suave e bem acessível, mas contando com uma atmosfera que sempre me soou estranha e, este contraponto, é o fator que me causa mais interesse. Outro ponto bem relevante é o groove das canções, com um trabalho bem legal do baixista Steve Currie. The Slider é o meu disco favorito do grupo, pois conta com faixas como “Metal Guru”, “The Slider”, “Telegram Sam” e, claro, “Ballrooms of Mars”. Infelizmente, Marc Bolan morreu muito jovem para que pudéssemos desfrutar mais de sua criatividade.

Anderson: O momento em que o projeto de Marc Bolan desenrola e se torna gigante! Não creio estar sendo justo com os demais, mas a cabeça idealizadora e pensante do T. Rex merece o destaque sugerido na capa. O clássico do Glam me agrada bastante principalmente a partir de "Rock On" e segue firme até "Rabbit Fighter". Não sou um grande apreciador da banda, mas respeito muito a história.

André: Nunca tinha ouvido este disco do T.Rex em específico e achei bem legal. O que eu mais ouvi deles foi Futuristic Dragon [1976] que nem é considerado um dos melhores deles mas que eu gosto bastante. Os riffs e melodias são bem simples mas gostosos de ouvir. Apenas achei que ele deu uma exagerada nas faixas, dava para tirar umas três ali que considero fillers. Todavia, um ótimo disco dos tempos áureos do glam rock.

Davi: Clássico do glam rock, simples assim. Aqui, Marc Bolan mantém o alto nível de seu trabalho anterior, o (ótimo) Electric Warrior. Mesclando a levada rock com as linhas vocais mais puxadas para o pop (no bom sentido da expressão), o rapaz criou uma sonoridade bem própria. Há espaço para algumas baladas, onde por alguns momentos nos remetem aos seus dias de Tyranossaurus Rex, mas os momentos mais rock são os meus favoritos. Para ser mais específico, minhas faixas favoritas ficam por conta de “Metal Guru”, “Rock On”, “Telegram Sam”, além da faixa-título. Bela lembrança.

Fernando: Disco com a difícil tarefa de fazer sequencia à um clássico do rock. Geralmente quando uma banda faz muito sucesso com um disco a sequencia tende a ser mais fraca pela pressa de se gravar um disco e capitalizar o sucesso. Mas The Slider é tão bom quanto Electric Warrior. "Metal Guru" seria uma referência ao novo estilo musical? Pelo menos musicalmente não. Interessante pensar que David Bowie tinha uma relação de admiração e competição com Marc Bolan, mas quando se ouve esses discos do T.Rex e os discos até então gravados pelo Bowie percebemos muita similaridade.

Líbia: Músicas seminais nunca envelhecem, sempre serão referências principais em seu nicho, se transportando por gerações. É o caso do T.Rex no The Sliders, você percebe a modernidade já nas primeiras audições. Uma pessoa desavisada e sem conhecimento da banda poderá achar que é um lançamento do século XXI. Há muitos detalhes com um capricho sem igual, se eu for indicar uma música para perceber toda a essência do álbum seria a faixa-título, porém não há fraqueza nas treze faixas dele.

Mairon: Um dos grandes clássicos do Glam Metal, lançado no mesmo ano do aclamadíssimo The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spider from Mars. A sonoridade dos álbuns são um tanto quanto distintas, com o conceito do álbum de Bowie superando em muito as composições não-homogêneas de Marc Bolan. Porém, é inegável a qualidade das baladaças "Mystic Lady" e "Spaceball Ricochet", o bom uso de influências de blues em "Rabbit Fighter" e "The Slider", bem como a grandeza festiva de faixas como "Baby Boomerang", "Baby Strange", "Main Man" e "Metal Guru", para se cantar embriagado a plenos pulmões. E claro, não há como não alavancar muitos pontos para o disco com a pesadíssima "Chariot Choogle", e aquela que talvez seja a melhor canção da carreira do T. Rex, a fantástica "Buick Mackane", com seu riff que destrói sua casa em apenas 3 minutos. Temos ainda a mais Bowie das faixas Bolan, curiosamente chamada "Ballrooms of Mars", a lembrança de "Get it On" no riff de "Telegram Sam", o riff inconfundível de  "Rock On", e é isso o que acaba sendo o predominante ao longo de The Slider, um álbum com riffs que marcaram época. Uma boa escolha de disco para colocar em uma festa roqueira.


Rod Stewart - Never a Dull Moment

Daniel: Sempre fui fã dos trabalhos iniciais do Rod Stewart, seja com Jeff Beck, no Faces ou mesmo na carreira solo. Considero Never a Dull Moment um de seus melhores álbuns. A guitarra afiada de Ronnie Wood é um destaque ao lado da bela e afiada voz de Stewart. Adoro canções como “True Blue” e “Italian Girls”, além da versão matadora para “Twistin' the Night Away”. Quando alguém me fala sobre Rod Stewart, é desta fase que eu me lembro.

Anderson: Na minha concepção o mais fraco dessa seleção (de respeito, aliás), porém com uma música que está facilmente entre as melhores dentre os cinco: "I’d Rather Go Blind". Que som é esse! No mais eu curto bastante "Mama You Been On My Mind" e a animada "Italian Girls". Obviamente que tem a ótima "Twisting the Night Away", mas que não me cativa muito. Baita trabalho.

André: Nunca gostei do Rod Stewart em sua carreira solo. Aliás, nunca também fui fã de seus vocais (principalmente suas interpretações vocais). Porém, ao menos aqui, ele se utiliza de mais influências (mesmo que pequenas) daquele rock mais sessentista que ainda continha blues e um tantinho de folk. Não é ruim, é um disco ouvível para a minha pessoa. Por sinal, peguei ranço dele depois de ouvir um chatíssimo disco antigo que tem ele todo brilhante e de rosa na capa. Depois disso, só o ouvi no Faces. Mas foi bom ouvir esse aqui para saber que talvez eu possa aproveitar algo dele dos seus quatro primeiros discos.

Davi: Sempre gostei muito do Rod Stewart e essa fase inicial sempre foi a minha favorita. Never a Dull Moment é seu quarto álbum solo e mantém o que o cantor vinha fazendo até então. Ou seja, misturava-se canções de rock n roll com baladas folks. Misturava-se canções autorais com covers. A versão de “Twistin´ The Night Away” (Sam Cooke) ficou brilhante e traz um ótimo trabalho vocal de Stewart. Também gosto muito da versão que fez de “Mama, You Been On My Mind” (Bob Dylan). Muito bem resolvida e casou bem no disco. A bola fora fica por conta de “Angel”, que não chega nem perto da linda gravação de Jimi Hendrix. Gosto muito quanto cai de cabeça em um rock mais básico como “Italian Girls” ou até mesmo “True Blue”, canção que carrega a assinatura do The Faces, por sinal. A música mais lembrada pelos fãs de FM é, certamente, “You Wear It Well”, que nada mais é do que uma tentativa de recriar o clássico “Maggie May”. A música não é ruim, mas não tem o mesmo brilho do hit de Every Picture Tells a Story. Contudo, nada disso tira o brilho desse LP. Discaço e um dos meus favoritos dessa lista.

Fernando: Uma galera tende a desmerecer o Rod Stewart pelo direcionamento de sua carreira nos anos 80, mas poucas dessas pessoas chega a ouvir os discos do início dos anos 70 tanto como um artista solo, quanto no Faces. Com um voz única Rod Stewart é um dos melhores cantores de sua geração. Never A Dull Moment, assim como o disco do T Rex citado acima, sucede um grande clássico e também não faz feio. Na verdade esses dois discos compõe o auge do material gravado pelo cantor escocês/inglês.

Líbia: Sabe aquela voz inconfundível e capaz de lotar estádios? Esse é o Rod Stewart. Foi isso que pensei quando coloquei o Never a Dull Moment no play. Conheci esse músico por indicação de uma amiga da minha irmã, e por anos ouvia vez ou outra de forma bem aleatória. É o primeiro álbum ouço inteiro, e Rod com sua voz tão única, interpreta com perfeição as suas composições, passando facilmente do folk ao rock. A "I'd Rather Go Blind" ficou perfeita na versão de Stewart. É um álbum bastante curto, mas bem pensado, e parece tocar todas as áreas do paladar do ouvinte.

Mairon: Depois de sair dos Faces, Rod Stewart se tornou um dos queridinhos da grande mídia musical, com seus discos de um rock pop de fácil acesso. Never a Dull Moment é mais um deles, e olha, não sei o que é, mas a carreira solo de Rod não consegue me conquistar. É um disco com boas músicas? Sim, é sim. A banda que acompanha Rod é praticamente os próprios ex-colegas de Faces ou Jeff Beck Group, tem tudo para dar certo. Mas ao ouvir os metais em "Lost Paraguayos", o rock animado de "Twistin' the Night Away" (Sam Cooke), a revisão country de "Mama, You Been on My Mind" (Bob Dylan), ou mesmo a bonita adaptação para "Angel" (Jimi Hendrix) parece que tudo o que estou a ouvir é algo requentado, já feito anteriormente, e de pior qualidade. Há momentos que são legaizinhos, como "Italian Girls", a delicadeza da baladaça "I'd Rather Go Blind", ou a boa apresentação inicial de "True Blue". Mas quando em todo um disco o que mais me chama atenção é uma peça de 40 segundos no violão, chamada "Interludings", é que algo está errado. Não é um disco ruim, mas não me convenceu de ir atrás da coleção (vasta) do britânico.


Uriah Heep - Demons and Wizards

Daniel: Demons and Wizards é um dos melhores e mais impressionantes álbuns dos anos 1970 que, apesar de ter seu valor mais reconhecido na última década, penso ser ainda pouco reverenciado. A mistura de Hard e Progressivo, com toques de Metal, guiada pela voz inconfundível de David Byron e as guitarras de Mick Box e regida pela genialidade de Ken Hensley forma uma peça fundamental desta banda impressionante. Que álbum, meus amigos!

Anderson: Um dos maiores clássicos do rock de todos os tempos. Simples assim. "The Wizard", "Easy Livin’",  "Poet’s Justice", "Circle of Hands",  "Rainbow Demon" enfim… Se ainda não ouviu pare tudo e faça a lição de casa.

André: Eu simplesmente adoro esse disco. Tenho na minha coleção (que infelizmente anda parada há algum tempo). Não tem faixa ruim aqui, mas minhas favoritas são a lindíssima "The Wizard", a clássica "Easy Livin'" e aqueles teclados divinos de "Circle of Hands" então? Eu duvido que tenha algum ser que frequenta esse site que nunca tenha ouvido esse disco, mas se esse ser existe, não faz ideia do que está perdendo!

Davi: Está aí uma banda que preciso me aprofundar mais. Sim, conheço e tenho alguns discos deles na minha coleção, mas ainda não caí de cabeça na obra como deveria. Demons and Wizards é um de seus trabalhos mais cultuados e não é por acaso. O disco é de uma qualidade ímpar. As execuções são brilhantes e o repertório é bem consistente. A primeira música que ouvi deles foi o hit “Easy Livin´”, que é uma das canções desse álbum, e isso já ajuda a colocar um sorriso no meu rosto. “The Wizard”, com sua belíssima introdução de voz a violão, “All My Life” com uma empolgante slide guitar e a contagiante “Traveller In Time” são os meus momentos favoritos e são faixas que me peguei ouvindo repetidas vezes.

Fernando: Clássico inquestionável. Se você não conhece esse disco pare tudo e trate de ouvi-lo agora, mesmo que antes você tenha colocado um dos dois discos citados acima. E quando você ficar doido pelo que Byron, Hensley, Box, Kerslake e Thain fizeram em Demons and Wizards, ouça de novo por que muito provavelmente você não absorveu tudo o que o disco tem para oferecer.

Líbia: Um dos melhores álbuns que você pode escutar na vida. Já nos primeiros segundos dessa maravilha, você até confunde a realidade com o sonho. É um álbum especial pra mim, de uma forma que acho difícil comentar sobre ele, sinto que fico sem palavras mas a poesia fica no ar. O som da guitarra acústica no "The Wizard" é soberbamente detalhado e tem uma sensação de “ao vivo”. O álbum inteiro parece que foi gravado ontem. As músicas entram em carne e osso imediatamente após dar o play. Elas sobreviverão a décadas inteiras sem danos, o que significa que você pode ouvir daqui a 50 anos, e ainda não ter ouvido o suficiente deles.

Mairon: É bem difícil para mim escolher qual dos lançamentos do Uriah Heep em 1972 eu curto mais. Este é o irmão mais velho (The Magician's Birthday é o mais novo), e marca a estreia da formação clássica do Heep, com David Byron (vocais), Mick Box (guitarras), Ken Hensley (teclados, guitarras, vocais), Gary Thain (baixo) e Lee Kerslake (bateria), esses dois últimos estreantes na banda, e completando as harmonias vocais que se tornaram tradição na banda. O álbum já começa surpreendendo com os violões de "The Wizard", seguida por duas pauladas ("Traveller In Time" e "Easy Livin'") que logo se tornaram hinos da banda. A evolução do disco é fantástica, mesclando faixas pesadas ("All My Life", "Poet's Justice" e "Rainbow Demon") com outras mais amenas ("Circle of Hands", com a  bela e verdadeira frase "today is only yesterday's tomorrow" e a dupla "Paradise"/"The Spell", fantásticas e lindas). Era o Uriah Heep vivendo o início de sua fase áurea, onde cada membro fazia sua participação com destaque, carregados pela genialidade de Ken Hensley. A história conceitual dos dois álbuns é um tanto quanto confusa, mas que são discos incríveis musicalmente, ah, isso ninguém nega.


Santana - Caravanserai

Daniel: Tenho para mim que este é um dos discos mais subestimados dos anos 1970. Talvez por não ser tão direto quanto Abraxas, por exemplo, Caravanserai não é tão citado ou comentado. Mais intimista e introspectivo, Carlos Santana se aprofunda no jazz fusion, com solos ainda mais arrepiantes e menos óbvios, com um quê de imprevisibilidade que faz de suas canções ainda mais instigantes. Ouça “All The Love Of The Universe” e sentirá o que foi afirmado.

Anderson: Um clássico. Santana, mandou essa pérola pros anais da música já quando a banda original não estava em paz completa. O álbum é intenso com longas passagens instrumentais e com um ar um tanto quando introspectivo e hipnotizante. Em minha opinião é um dos álbuns mais icônicos do Santana, mas considere seriamente organizar um momento seu para apreciar a obra, não irá se arrepender.

André: Carlão sempre soube o que faz. Seus discos que misturam rock com aquele sacolejo latino sempre me agradaram. E este é o melhor que de sua longa discografia aqui como banda. Tendo as feras Neal Schon e Gregg Rolie (que logo depois formariam o Journey) é fácil verificar que o mexicano sempre esteve muito bem acompanhado de bons músicos durante toda a carreira. Minha canção de destaque aqui é a que fecha o álbum "Stone Flower" (que eu não reconheci que era uma canção do Tom Jobim) e seu grande conjunto de percussão (algo normal em se tratando de um álbum do Santana).

Davi: O Santana é um artista que sempre gostei muito. Adoro o estilo de tocar do Carlos Santana. É um músico que além de ter um incrível domínio de seu instrumento, tem um estilo muito próprio. Tanto de composição, quanto de timbragem. Basta uma palhetada para sabermos que estamos ouvindo sua guitarra. A sua discografia considero, no geral, muito boa, porém sempre teve um ou outro álbum que nunca consegui morrer de amores e esse é um deles. Claro, o nível de execução é inquestionável, mas as composições nunca me chamaram muito a atenção. A maior parte desse álbum é instrumental e traz os músicos buscando arranjos mais complexos, com uma forte influência de jazz rock. Nada contra, mas ainda prefiro a sonoridade de seus 3 primeiros álbuns, com uma maior influência de música latina. De todo modo, foi legal reescutá-lo.

Fernando: Santana nunca me agradou muito. Ouvi diversas vezes suas músicas, mesmo que nunca, confesso, tenha me apegado à um disco ou à uma fase de sua carreira para conhecer melhor. Ouvi novamente esse disco, algumas passagens me chamaram atenção, mas por muitas vezes fiquei disperso. A primeira faixa, "Eternal Caravan", já não ajuda, pois é quase que uma paisagem musical que não me remete à lugar algum. Aí a faixa seguinte "Waves Within" segue quase a mesma fórmula. Acho que Carlos Santana não é para mim. O mais interessante é saber que os músicos que o acompanhavam sairiam logo depois e formariam uma banda histórica, o Journey.

Líbia: Não consigo pensar em muitas outras bandas que despertam tanta emoção interior como Santana nos primeiros 4 álbuns. No Caravanserai a banda está no auge da sua criatividade. Ele é feito para apreciar como um todo, as faixas servem de pilares uma para as outras, ao longo do caminho vai mostrando o incrível virtuosismo que esta banda era capaz de fazer. Você não quer que ele acabe, e quando menos espera, finaliza com a "Every Step of the Way". Aproveite essa viagem sem pressa.

Mairon: Esse eu lembro até hoje o desbunde que foi a primeira audição. Era fã de Santana da fase Abraxas, III e Amigos, e não sabia nada de uma fase Devadip. Não lembro como Caravanserai chegou às minhas mãos (Micael, foi naquelas promoções de 5 por 10?), mas lembro que ao colocar o disco para rodar, aquele monte de grilos, saxofone, não fazia sentido nenhum com o que já havia ouvido de Santana. O magistral lado A seguiu praticamente todo instrumental, com apenas duas faixas com vocais, e nas demais 4 canções, muito experimentalismo, com a tradicional percussão da Santana destruindo, e um Devadip Carlos Santana em plena forma, com solos animalescos. Destaque mais que especial para a leveza de "Song of the Wind", o ritmo flamenco de "All the Love of the Universe" e a pancadaria em "Waves Within". O lado B segue com mais experimentalismo, através dos teclados de Gregg Rollie (outro que está mandando muito bem aqui) e percussões de "Future Primitive", nas maluquices na introdução da sensacional "Every Step of the Way", e o destaque central para o estonteante ritmo de "La Fuente Del Ritmo", de tirar o fôlego. Temos ainda uma magistral revisão para "Stone Flower", de Tom Jobim, com cuíca e tudo. Um dos melhores discos da carreira do Santana, e uma grata audição para esse Ouve Isso Aqui.


Stephen Stills & Manassas - Manassas

Daniel: Eu li uma vez que Stephen Stills considera Manassas uma de suas melhores obras e eu não consigo discordar dele. Manassas traz um time de músicos de primeiro nível o acompanhando em uma mistura riquíssima de Blues, Country, Folk e, claro, Rock. O lançamento original em vinil é álbum duplo, com cada um dos quatro lados, teoricamente, dedicado a um dos supracitados estilos, mas, o que faz desta obra inesquecível, é justamente a sobreposição das abordagens musicais, sempre realizadas com refinamento ímpar. Apesar da duração extensa, o álbum passa de modo muito fluido. Discaço!

Anderson: Não conhecia e logo na segunda música achei muito bom! Muito blues, folk, country e um rock aqui e ali modulando uma constante alternância entre momentos mais calmos e agitados. Originalmente um disco duplo cujos quatro lados possuem denominação e teoricamente nos provem diferentes perspectivas sonoras. Baita álbum que ainda não terminei de digerir.

André: Tá aí uma grande surpresa dessa lista. Serviu para me mostrar como eu devo ir atrás com mais frequência dos discos-solos de integrantes de bandas famosas. Geralmente não são tão falados, mas volta e meia me surpreendo com ótimas músicas. Mesmo sendo bastante longo, a variedade de blues, country e folk e as composições de tão boa qualidade, com uma ou outra exceção, fazem este disco passar rápido que nem senti. Adorei a percussão e a guitarra ardida de "Anyway". E "So Begins the Task" virou meio que obrigatória nos shows dele e digna de uma beleza típica do CSN. Obrigado pela sugestão aí Daniel, esse disco merece mesmo ser muito mais divulgado internet afora.

Davi: Depois do Rod Stewart, esse é o meu favorito da lista. O repertório é bem variado e conta com levadas de rock, blues, folk, bluegrass, country e até música latina (influencia perceptível na levada de percussão de algumas faixas). O LP era duplo e cada lado era focado em uma sonoridade diferente. O lado A e lado D eram os lados mais roqueiros, enquanto o lado B e o lado C eram os mais calmos. É até difícil citar um momento de destaque, já que o LP é bem consistente, mas para não ficar em cima do muro vou citar as faixas “Song of Love”, “Anyway”, “Colorado”, “Johnny´s Garden” e “Right Now” como destaques.  Discaço!

Fernando: Ok...todo mundo conhece Stephen Stills, lá do Crosby, Stills & Nash, ou mesmo na versão com Neil Young. O Buffalo Springfield eu também conheço, mas nunca fui atrás do que ele fez depois disso. Para uma primeira audição, achei bastante interessante, mas esse é daqueles discos que precisam de várias audições para sacar melhor todo o conteúdo de seus quatro lados dos LPs.

Líbia: Como nunca tinha ouvido falar desse monumento? Ótima indicação do Daniel. Pra não ficar tão vergonhoso, já conhecia o Stephen Stills do Buffalo Springfield e da superbanda Crosby, Stills, Nash & Young, essa segunda estou escutando os trabalhos com calma a pouco mais de 1 ano. Mais essa beleza chamada Manassas também conquistou meus ouvidos com sua variedade de country, folk e blues rock, com uma sobreposição dos estilos durante todo o álbum. Parece ser aquele tipo de álbum que envelhece bem, e em qualquer época ele vai te curar. Imagino que quem é músico enxergar muitos detalhes entusiasmantes e inspiradores!

Mairon: Confesso que fui surpreendido com esse álbum. Achei que ia encontrar algo na linha folk da Crosby Stills & Nash, mas ... O disco é dividido em 4 lados distintos. O lado A (The Raven) é encantador. A percussão e linhas de guitarra das duas primeiras canções me remeteram direto ao Southern da Allman Brothers, e na sequência, o blues de "Jet Set (Sigh)" fez com que qualquer pré-conceito que eu tinha contra Manassas caísse por terra (que gaitinha mágica). O southern segue em "Anyway", e que lindeza é essa "Both of Us (Bound to Lose)" hein? O lado B (The Wilderness) já é mais o que eu esperava, com muitas influências country, e não me foi uma audição tão agradável quanto The Raven. O lado C (Consider) me levou à Califórnia do fim dos anos 60. Gostei de "It doesn't Matter", uma mera amostra do que a Quicksilver Messenger Service foi em sua segunda fase, as inspirações Grateful Deadianas de "The Love Gangster", os violões e harmonias vocais de "Bound to Fall" a la Jefferson Airplane, a viajante "Move Around", muito da maluquete, e "Johnny's Garden" é muito Moby Grape, assim como "How Far". Excelente lado. Finalmente, o lado D (Rock & Roll Is Here to Stay) é o mais versátil com elementos country ("What To Do"), a jam roquer de "The Treasure" (Take One)", os elementos acústicos de "Blues Man", e em essencial, "Right Now", faixa impressionante com sua velocidade e belas passagens de piano e guitarra. No geral, foi uma grata surpresa, valeu a indicação Daniel?

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Melhores de 2018





O ano de 2018 foi bastante atrativo em termos de lançamentos. Não consegui ouvir muitos álbuns esse ano (pouco mais de 50), mas a maioria do que ouvi é de ótima qualidade. Fechar os 10 não foi uma tarefa fácil, mas depois de muitas audições, e considerações daqueles finaleiras, eis aqui minha lista de 2018, e que 2019 seja um ano de muitos lançamentos e paz à todos!


Greta Van Fleet - Anthem of the Peaceful Army


Um disco de inéditas do Led Zeppelin é covardia perto de outros tantos lançamentos desse ano. Ok que o Greta Van Fleet não é o Zeppelin de chumbo, mas seu álbum de estreia é um marco nas produções sonoras desse século. Os guris conseguiram sugar tudo o que podiam do D. N. A. de Page e Plant (principalmente), e nos colocaram diretamente nos anos 70. Que tesão me dá em escutar "Lover, Leaver", puta merda. Uma pegada meio "Whole Lotta Love", som foda do caralho! O mesmo acontece com "Brave New World", com seu cheirão de imponência, muito bem construída e de fácil agrado. Ouvir "Mountain of the Sun" e "The Cold Wind" é ter certeza de que estamos com sobras de estúdio de Physical Graffitti ou Houses of the Holy, assim como a baladaça "Watching Over", linda! "You're The One" possui D. N. A. da cruza de "Your Time Is Gonna Come" e "Thank You". "When the Curtain Falls" traz aquele sabor de jovialidade que Led Zeppelin II nos faz sentir em cada audição. "Age of Man" já é mais representativa da fase In Through The Outdoor. "Anthem" e "The New Day" brotam das sessões acústicas de III ou IV. Por trás de tudo isso, há um toque de modernidade e uma clara percepção que John Bonham e John Paul Jones são seres sobrenaturais impossíveis de serem copiados, mas cara, o que sobra é de altíssimo nível. Várias bandas já foram comparadas com gigantes. Até o Aerosmith era acusado de chupar as músicas dos Stones, e hoje, não há quem não reconheça a qualidade dos caras. Quando o GVF encontrar seus próprios caminhos, será uma banda a ser reverenciada por anos como seus ídolos zeppelianos. E viva esse grandioso disco.



Saxon - Thunderbolt


Outra grande covardia de 2018 é mais um lançamento do Saxon. Os britânicos, mesmo com a idade avançada, estão mandando ver. Thunderbolt tem homenagem à Lemmy Kilminster ("They Played Rock 'n' Roll"), aos carros "("Speed Merchants") e aos roadies ("Roadie's Song"), peso em demasia durante “Predator”, “Nosferatu (The Vampires Waltz)” e na faixa-título, referências das mitologias nórdicas (“Sons of Odin) e celtas (“A Wizard’s of Tale”), solos de guitarra para delirar (“Sniper” e “The Secret of Flight”) e uma banda afiadíssima. Não consegui ver a apresentação do grupo em São Paulo nesse ano, mas já estou com o ingresso para o show de Porto Alegre em março, que com certeza, é o mais aguardo por mim para 2019, pelo menos por enquanto.Comentei mais sobre a edição DELUXE de Thunderbolt aqui, e longa vida para os velhinhos.




El Efecto - Memórias do Fogo

O grupo carioca fez um dos grandes shows que tive oportunidade de ver esse ano, e comprovou para mim aquilo que eu já imaginava: o talento desses caras é imensurável. Seu novo álbum, Memórias do Fogo, traz uma evolução inacreditável para uma banda que parece ser um camaleão a cada disco. Se em Pedras e Sonhos os fãs acharam que o grupo havia chegado no ápice de criatividade, e com A Cantiga É Uma Arma o grupo mudou para um lado totalmente acústico, a surpresa ao ouvir canções como "Café", "O Monge E O Executivo", e principalmente, “O Drama da Humana Manada”, é digna de uma estrela azul, a mais gigante do espaço. É uma mistura de elementos musicais, sejam eles da América Latina, África, samba, rap, hard rock e muito rock pesado. As letras são um tapa na cara da sociedade hipócrita e imbecil que permeia nosso país - quiçá o mundo - nos dias de hoje, com fortes cunhos sociais e políticos. Os melhores exemplos são "Chama Negra" e "Carlos e Tereza", que retratam as lutas dos oprimidos perante a arrogância e soberania da classe alta. Para completar, "Incêndios" é tão violenta que no show citado acima, muitos foram os que fecharam a roda punk e não aguentaram a pressão da faixa. Sete canções, sete petardos, sete aulas de composição, sete espetáculos da Música Popular Brasileira, para serem reverenciados eternamente.




Merlin - The Wizard

Disco fantástico desses americanos, que unem heavy metal, progressivo, new wave, pop eletrônico, e elementos musicais que irão confundir seu cérebro. Guitarras pesadas e ácidas, vozes distorcidas e um saxofone surpreendente, entre sintetizadores e uma bateria avassaladora, devoram qualquer conceito de novidade que você possa conhecer. Dentre as faixas de destaque, "Abyss" é a que aparece de cara, com a guitarra e o saxofone mandando ver, ao lado do espetáculo sonoro de mais de dez minutos, batizado "The Wizard Suite", com certeza uma das melhores músicas que ouvi em 2018. Arrepiante de ouvir o saxofone e as viagens maluquetes de "Sage's Crystal Staff ", fazendo nos lembrar dos bons tempos do King Crimson de Lizard, mas com temperos muito mais rebuscados. Delicie-se com os sintetizadores e as notas de saxofone na sensacional "Iron Borne" e pule pela casa ao som do ritmo cavalgante de "Tarantula Hawk". Os admiradores de um som no estilo Ghost irão prestigiar "Golem" e "Gravelord". Para quem quer ser surpreendido com muita música boa, The Wizard é o álbum do ano entre as bandas novas do exterior.




Whoopie Cat - Illusion of Choice

Os australianos já haviam me conquistado em 2016 com o seu belíssimo EP de estreia. Quando finalmente lançaram Illusion of Choice, podemos comprovar que o amadurecimento do grupo é fantástico. Logo de cara, os onze minutos de "Ophidian" nos traz uma balada bluesy para deixar desde Rober Plant até David Coverdale com inveja, sendo a presença da flauta a grande atração da mesma. Os solos rasgados ("Sweet Jane" com certeza vai te fazer cair o queixo) e melódicos ("Gentle Goodbye") de Jesse Juzwin ainda estão lá, assim como a voz apaixonada de Dan Smoo (no bluesaço "Tell Me You'll Stay" e na tocante "Cicada") e a presença mais constante dos teclados ("Dissolution" e "Fear Is Blind") e vocalizações ("Sun Don't Shine II") de Jo Eileen. Porém, o grupo resolveu ampliar sua sonoridade, e como é ótimo quando banda novata explora mais do que já fazia. Discuto perfeito, que só não ficou em posições mais acima por que realmente, os que estão aí em cima são foda.



Uriah Heep - Living The Dream

O Uriah Heep é uma das raras bandas do final da década de 60 que conseguiu sobreviver ao turbilhão de lançamos pífios nos anos 80 e se renovou totalmente. Depois da entrada do vocalista Bernie Shaw, especialmente, cada novo lançamento é uma obra de arte para os fãs. Não é diferente com Living the Dream. Mick Box mantendo seu padrão de alta qualidade nas guitarras, Phil Lanzon mandando ver nos teclados, e uma cozinha impecável formam toda a cama sonora necessária para o vocalista soltar sua bela voz, e fazer o fã contente. Todas as músicas são sensacionais, mas não há como não destacar a genial "Grazed by Heaven", pancada que abre o disco com um riff violento de órgão e guitarra, e a mágica "Rocks in the Road", com mais de oito minutos hipnotizantes. Outro álbum que resenhei aqui, e que o Heep continue em ação por muitos anos.








Judas Priest - Firepower


Creio que esse é o arroz de festa nas listas aqui dos Consultores, e é justo. Mesmo com o abalo psicológico causado pela doença de Glen Tipton, o Judas manteve-se na ativa, e entregou um álbum excepcional, como tem sido desde o retorno de Halford aos vocais. Considero esse álbum melhor que Redeemer of Souls, que já era incrível, por conta de haver a jovialidade na guitarra de Richie Faulkner. O que precisei falar sobre ele, resenhei aqui, e só torço para que não seja a despedida da banda, apesar que se for, é uma despedida gloriosa.






Naxatras - III

Em 2015, a estreia desses gregos foi eleita por mim como o melhor álbum daquele ano. Agora, em seu terceiro full lenght, o trio continua mandando ver em seu som psicodélico e carregado de inspirações sabbháticas, porém tirando as distorções dos vocais em algumas faixas (vide "You Won't Be Left Alone" e "Spring Song"), flertando com outros ritmos (reggae em "Land of Infinite Time", violões acústicos e slide guitar na baladaça "White Morning") e caprichando em linhas melódicas e chapadas (a doentia "Machine" em principal), deixando o baixão de John Vagenas brilhar mais, como na dançante instrumental "On the Silver Line". Com isso, temos um desbunde sonoro, em faixas longas e muito inspiradas, sendo "Prophet" a única canção que ainda nos remete aquela anda ainda sem tanta maturidade, mas com muita categoria e competência, lá de 2015. O Naxatras para mim é a banda da década, e torço muito para que eles possam se apresentar aqui no Brasil um dia.



Orphaned Land - Unsung Prophets & Dead Messiahs

Um dos primeiros discos lançados em 2018 foi obviamente uma de minhas primeiras e agradáveis audições. Conheci o Orphaned Land numa lista de Consultoria Recomenda, e logo virei fã da banda. A mistura de elementos orientais com o peso ocidental é de fácil assimilação para meus ouvidos, e sendo assim, fico chapado quando o grupo resolve unir os instrumentos e vocalizações orientais ("Yedidi") com guitarras pesadas e uma bateria destroçante. Unsung Prophets & Dead Messiahs , aguardado depois do fracasso de All is One (será esse um daqueles Discos Que Parece Que Só Eu Gosto?) há cinco anos atrás, está longe de ser um The Neverending Way of ORwarriOR, quiçá um Mabool, mas tem seus momentos. As inspirações death floydianas em "The Cave" e “Only the Dead Have seen the End of War”, a presença de Steve Hackett na sensacional “Chains Fall to Gravity”, e as maluquices “All Knowing Eye” são os grandes momentos. Um som épico com grande tempero de antiguidade, que deve ser ouvido com atenção e dedicação.




Le_Mol - Heads Heads Heads


Conheço pouco do gênero post rock, e confesso que o pouco que conheço não é muito do meu agrado. Porém, e sempre há um porém, ouvir e conhecer o grupo austríaco Le_Mol foi uma das grandes alegrias sonoras de 2018. É difícil descrever o som da banda, mas se fosse para resumir em uma única palavra, diria experimentalismo. Piano, guitarras distorcidas, ritmos robóticos, sintetizadores malucos, peso misturado com delicadeza, passam por nossos ouvidos ao longo de pouco mais de 40 minutos, deixando-nos em uma sensação de embriaguez e dormência que dura por algumas horas. Uma segunda audição causa ainda mais chapação, acompanhada agora da necessidade urgente de tentar entender o que realmente sai das caixas de som. Nos momentos de sanidade, "Temperatures Will Drop – Pekoppa" brilha com sobras nos ouvidos. Enfim, com diversas audições, você já está viciado na música dos austríacos, mas ainda assim, entender o que eles criam é complexo demais para uma simples resenha de Melhores do Ano. Acredito que Heads Heads Heads ainda vai crescer muito em meu conceito, mas nesse momento, ele sendo responsável por fechar minha lista de 2018 é uma surpresa até para mim.

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10 Menções honrosas

Dave Matthews Band - Come Tomorrow

Rikard Sjoblom’s Gungfly – Friendship

Alice in Chains - Rainier Fog

Electric Octopus - Pipe Dream Train

The Smashing Pumpkins - Shiny and Oh So Bright, Vol. 1 / LP: No Past. No Future. No Sun.

Lady Gaga and Bradley Cooper – A Star Is Born

Wolftooth - Wolftooth

Mulamba – Mulamba

Roger Daltrey - As Long as I Have You

Birth of Joy – Hyper Focus

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Uriah Heep - Living The Dream [2018]



Como é bom ouvir um disco novinho, de uma banda antiga que você admira, e gostar do mesmo do início ao fim. É isso que Bernie Shaw (vocais), Mick Box (guitarras), Davey Rimmer (baixo), Phil Lanzon (teclados) e Russell Gilbrook (bateria), os caras do Uriah Heep, vêm fazendo há algum tempo, e que se mantém no excelente Living The Dream, seu mais recente álbum, que chegou às lojas no último 14 de setembro.

Esse é o vigésimo quinto álbum do Heep, e já abre com uma pancadaria na bateria, um riffzão pegado de órgão, baixo e guitarra, e uma faixa veloz e sensacional chamada "Grazed By Heaven". A performance vocal de Shaw aqui é fantástica, e o refrão, além de grudento, é para botar os pulmões para fora do corpo. Os solos de Box e Lanzon são de tirar o chapéu - o que é o mínimo de se esperar desses monstros - , e duvido que você não se surpreenda com a virada que a canção dá em sua parte central, quase Sabbhática. E puta que pariu, como esse Gilbrook adora detonar e espancar as peles de sua bateria. Um rinoceronte em formato de gente!


Phil Lanzon, Bernie Shat, Russell Gilbrook, Mick Box e Davey Rimmer. Uriah Heep 2018, no encarte de Living the Dream.

Na sequência, vem a pesada faixa-título, que dá uma boa acalmada nos ânimos perto da violência que foi a apresentação do disco. Porém, preste atenção na reta final da canção, já que é outra que dá uma guinada bem forte em direção a rumos nada a ver com o que estávamos ouvindo. "Take Away My Soul" abusa de um refrão grudento, e conta com boa participação do órgão (com um trecho que me lembra "July Morning") e da guitarra, com outro solo fantástico, além de mais uma performance vocal soberba de Shaw.

"Knocking At My Door" tem um ar de fim dos anos oitenta em suas linhas de guitarras, lembrando Raging Silence (1989) e Different World (1989), mas com mais peso, essencialmente por conta de Gilbrook, e Box despejando wah-wah nos ouvidos. A longa "Rocks In The Road", e suas três distintas partes, é uma canção puramente Heepiana, com um refrão forte, marcação pulsante do baixo, e um riff exuberante por órgão, guitarra e baixo. A partir dos dois minutos, a canção desencadeia para uma etapa progressiva, muito breve, somente com órgão, guitarra dedilhada e os vocais de Shaw, que leva a uma série de solos de órgão e sintetizadores por mais de quatro minutos. Prepare-se para viajar sem sair do seu quarto, e sentir a sensação de um belo Hammond invadindo seu cérebro!!!!

Foto promocional do Heep

Os momentos acústicos iniciais da delícia "Waters Flowin" nos fazem sentir no meio da mata, para cantarmos os "la-la-las" junto de Shaw. A faixa encerra com uma breve participação de cordas. Voltamos a pancadaria descomunal em "It's All Been Said". Mais um riff poderoso, Lanzon se destacando acima dos demais, e de repente, uma linda balada ao piano, com Shaw carregando sua voz em dramaticidade, além de uma tímida participação de baixo e sintetizadores. Então, voltamos a pancadaria, e de novo balada, e de novo pancada, e isso em apenas seis minutos. Surpreendente e típica faixa para gritarmos "SE FUDER!!", de tanta alegria, ainda mais com o maravilhoso solo de Hammond. E o solo de Box, bah, arrepiante!!!

Estamos chegando ao final de Living The Dream. Se você é xiita-heep, e não aceita um disco da banda sem nenhuma baladinha, então esqueça. "Goodbye To Innocence" é um rock 'n' roll para sacudir o esqueleto, com aquela pegada bem anos 70 (parece que estamos ouvindo Lee Kerslake e Gary Thain comandando a cozinha, enquanto Ken Hensley está mandando ver no órgão). Que música ótima, e que refrão massa de cantar junto. O mesmo ocorre em "Falling Under Your Spell", para retornar aos temas mágicos de Magician's Birthday e Demons And Wizards (ambos de 1972).

A limitada versão DELUXE, com camiseta, CD e DVD


Para encerrar, "Dreams Of Yesteryear" grava mais um refrão em nossa cabeça, e o disco fecha com uma canção leve, mas longe de ser uma balada. Algumas versões trazem como bônus versões alternativas de "Grazed By Heaven" e "Take Away My Soul". Lá fora, Living The Dream saiu em vinil branco (Europa), vinil transparente (exclusivo na Itália), e vinil azul (Estados Unidos). Também há uma tiragem com CD + DVD, na qual o DVD traz o documentário Making The Dream, além dos clipes de "Grazed By Heaven" e "Take Away My Soul", e uma versão DELUXE, com CD, DVD e camiseta.

Depois do hiato de quatro anos desde Outsider, e de sete após o ótimo Into The Wild, os velhinhos mostram que ainda tem muita lenha para queimar. Box e Lanzon formam talvez a melhor dupla de guitarra e teclados da atualidade. Shaw continua com sua voz intacta, e a nova cozinha formada por Gilbrook e Rimmer deu um gás ao grupo que parece mergulhado em uma piscina com água da jovialidade. Disco para se ouvir por diversas vezes ao longo da semana, e um dos fortes candidatos a melhor de 2018.

Contra-capa do vinil


Track list

1. Grazed By Heaven
2. Living The Dream
3. Take Away My Soul
4. Knocking At My Door
5. Rocks In The Road
6. Waters Flowin
7. It's All Been Said
8. Goodbye To Innocence
9. Falling Under Your Spell
10. Dreams Of Yesteryear

sábado, 3 de junho de 2017

Melhores de Todos os Tempos - Aqueles que Faltaram: por Flavio Pontes

Badlands em 1991: Jake E. Lee, Ray Gillen, Jeff Martin e Greg Chaisson


Por Flavio Pontes

Edição de Diogo Bizotto

Com Alexandre Teixeira Pontes, André Kaminski, Bernardo Brum, Christiano Almeida, Davi Pascale, Fernando Bueno, Mairon Machado, Ronaldo Rodrigues e Ulisses Macedo

Aqueles que vêm acompanhando a série percebem que minhas reverências são pelo rock pesado e algumas variações. A lista abaixo não fugirá desse tema. Percebo, ainda, que 80% dos discos foram citados anteriormente por algum participante da série em edições anteriores. Acredito, então, que esta lista acaba por não divergir das escolhas da Consultoria do Rock e ajuda de alguma forma, resolvendo alguns lapsos e dando-me a chance para homenagear ótimos trabalhos.

Uriah Heep - Demons and Wizards (1972)
Flavio: O Uriah Heep foi por muito tempo uma lacuna em minha discografia. Na verdade, achei que nunca gostaria da banda, pois sempre ouvia coisas aqui e ali e elas não me cativavam. Um amigo sempre insistia: "Ouça Demons and Wizards", e eu ouvia uma música ou outra e não me animava. Faltava entender o álbum como um todo. Depois de muito, já recentemente, finalmente resolvi conhecer este trabalho. Gradativamente, o disco foi me ganhando a ponto de estar relacionando-o sem nenhuma hesitação. Está tudo aqui: rock progressivo com peso e grande performance da banda, desde o single "Easy Livin'" às mais "lado b", como "Rainbow Demon" e "The Spell" (como deixar de destacar o trabalho do baixista Gary Thain?). A cozinha se completa com o excelente Lee Kerslake, que mais tarde ajudaria a ressuscitar a carreira de Ozzy Osbourne em seus primeiros discos solo. Há um trabalho vocal de grande qualidade, com apoio da banda a David Byron, que é dono de uma extensão e timbres fantásticos, que se destacam em, por exemplo, "Poet's Justice" e na linda "Circle of Hands". E ainda há os ótimos trabalhos dos "donos" da banda na época: Mick Box e Ken Hensley. Enfim, Demons and Wizards é um grande álbum, que merecia estar registrado aqui, ajudando a também me redimir por tantos anos em que não dei a devida atenção ao grupo.
Alexandre: Um pouco de hard rock, um pé no progressivo, algo do psicodélico da década anterior... Em minha opinião, este é o melhor álbum do Uriah Heep. Não é um grupo pelo qual eu tenha tanta admiração, mas este disco se destaca. Ele possui um grande hit – "Easy Livin’" –, uma faixa clássica – "The Wizard" – e um conteúdo bem equilibrado, demais canções de muito bom nível. O destaque absoluto entre os músicos é o excelente vocal de David Byron, mas é preciso também citar o papel importante do tecladista Ken Hensley na construção do som da banda. Seus timbres no órgão Hammond são a maior característica do grupo nessa época. Em contrapartida, considero Mick Box um guitarrista que perde em comparação aos grandes do instrumento da época, em especial se pensarmos em bandas com Deep Purple e Led Zeppelin. O grande baterista Lee Kerslake, que fez bonito nos primeiros álbuns de Ozzy Osbourne, tem um papel mais discreto, uma pena. Voltando às canções, é um álbum praticamente sem pontos fracos. Posso destacar facilmente, além de "The Wizard", as faixas "Rainbow Demon", "Paradise/The Spell" e "Circle of Hands", a minha favorita. Acabei indicando mais de metade do álbum, veja lá... Um pouco abaixo das demais, "All My Life", apesar dos vocais incríveis de Byron lá no fim da canção. O ano de 1972 é poderoso na música, com uma grande concorrência na praça, mas eu encontraria sim um espaço para este disco.
André: Uma das coisas pelas quais mais lamento é não ter participado das edições setentistas da série. Se eu estivesse entre os participantes, teria votado em Demons and Wizards, porque é um discaço. Caso alguém fale qualquer coisa negativa a seu respeito, ignore-o e coloque-o na sua "lista negra" de consultores. Guitarras lindas colocando grooves grudentos, solando ("Traveller in Time" é perfeita nisso)... David Byron tem uma garganta divina e as composições são brilhantes. "Easy Livin'" e aquela guitarra desconcertante, sinos, coro de vozes e Hensley destroçando seu teclado é uma das minhas faixas favoritas de todos os tempos. O ano pode ter sido concorrido, mas sim, foi uma injustiça o que fizeram com o Uriah Heep, que passou batido nos anos 1970.
Bernardo: Estamos falando de uma banda que lançou 12 discos entre 1970 e 1978, tornando-se, entre ...Very 'Eavy... Very 'Umble e Fallen Angel, ícones tanto do rock progressivo quanto do hard rock setentista, e um dos principais responsáveis por isso é Demons and Wizards, que os alçou à fama. Intrincado, pesado e com uma atmosfera etérea, dá para entender o fascínio provocado à época.
Christiano: Demons and Wizards é considerado por muitos como a obra-prima do Uriah Heep. Embora a sequência de álbuns da fase Byron seja irrepreensível, não é um exagero dizer que este disco ocupa um lugar especial na discografia da banda. Não digo isso por conta dele trazer talvez a faixa de maior sucesso do Heep – “Easy Livin'” –, mas porque ele apresenta alguma coisa especial, um equilíbrio perfeito entre as experimentações de Salisbury (1971) e o peso e as melodias cativantes de Look at Yourself (1971). Aliás, como é assustador que esses três discos tenham sido concebidos em apenas dois anos. Além de todas essas qualidades, não posso deixar de afirmar que minha música preferida da banda está neste álbum: “Paradise/The Spell”, uma viagem meio progressiva e angustiantemente perfeita. Sem dúvidas, um dos melhores discos da década de 1970.
Davi: Disco bem bacana, com várias composições fortes. “Easy Livin'” é, indiscutivelmente, um clássico, mas também vale prestar atenção no slide guitar de “All My Life”, no teclado roqueiro de “The Spell”, nos violões de “The Wizard” enas harmonias vocais e na influência prog de “Poet's Justice”. Bom disco...
Diogo: Mesmo em uma época de excessos, o Uriah Heep já era meio kitsch, dramático. Felizmente, isso funcionava a contento, talvez ainda mais em Demons and Wizards, que é um excelente álbum, no qual os excessos do grupo casaram bem em composições ajustadas. A aura mística de canções como "Circle of Hands" e "Rainbow Demon" combinou perfeitamente com os expressivos vocais de David Byron e com a atmosfera permeada de teclados criada por Ken Hensley, fazendo dessas duas os grandes destaques do disco. Digo isso pois realmente se trata de músicas magníficas, inesquecíveis, já que "Traveller in Time", "Poet's Justice" e "The Spell" também são exemplos da grande banda que um dia o Uriah Heep foi, ainda melhor ajustada com a entrada de Gary Thain e Lee Kerslake. "The Wizard" é outro momento de rara beleza que mostra como o Uriah Heep era uma formação única. Alerta aos interessados: não deixem de procurar uma faixa-bônus chamada "Why", registrada ainda com Mark Clarke no baixo. Além do espetáculo dado pelo músico, trata-se de uma das melhores canções já feitas pelo Uriah Heep, evidente destaque no disco ao lado das citadas "Circle of Hands" e "Rainbow Demon".
Fernando: Que vocalista fantástico era David Byron, não? Somente com esta extensão da série temos a real noção das maravilhas que ficaram de fora. Demons and Wizards é um disco extraordinário. Da linda “The Wizard” à progressiva “The Spell”, temos várias outras faixas marcantes. É deste disco, por exemplo, o superclássico “Easy Livin'”, que, com pouco mais de dois minutos, conseguiu condensar o que de melhor poderíamos ter da interação de guitarra, baixo e voz, sendo cada um deles protagonista, isso sem esquecer da brilhante linha de baixo. Só acho que a capa poderia ser um pouquinho melhor.
Mairon: Aqui está uma banda que realmente merecia ter tido mais espaço na série, e Demons and Wizards é uma bela escolha. A primeira parte da mágica história sobre a luta entre magos e demônios apresenta uma banda totalmente madura, estreando o talentosíssimo baixista Gary Thain e fazendo com soberania canções que marcaram época, como a baladaça "Circle of Hands" – com uma das introduções mais emblemáticas do rock e aquele arrepiante solo de slide por Ken Hensley – e "Easy Livin'", com seu baita andamento e espetacular conjunto de notas entre baixo, órgão e guitarra que o ajudaram a vender mais de 3 milhões de cópias e fazer o Heep ser reconhecido mundialmente. Além disso, temos aquele conjunto de "sombra e luz" que poucas bandas na década de 1970 tinham tanta capacidade de fazer quanto o Heep. Basta ver a insanidade que é o peso de "Traveller in Time" – uma das faixas mais potentes do grupo, com um solo arrebatador do guitarrista Mick Box, mas ainda com uma doçura melódica durante seus trechos cantados pelo excelente David Byron, que também faz misérias em "All My Life" –, a fantástica "Rainbow Demon" – os acordes arrebatadores do órgão são para assustar – e as harmonias vocais trabalhadas à exaustão durante "Poet's Justice", na qual Ken Hensley solta-se ao órgão. Há espaços para momentos acústicos, exalados em "The Wizard" e, principalmente, durante "Paradise", faixa que dá espaço para a sensacional "The Spell", a canção mais linda de 1972. O trecho ao piano, com Hensley solando com o slide guitar e as vocalizações perfeitamente encaixadas, faz arrepiar até os cabelos caídos da cabeça de Esperidião Amin, lançando definitivamente o feitiço sobre os admiradores de um hardão setentista. Que música, senhoras e senhores. Gosto muito do encerramento da história, o álbum The Magician's Birthday, também de 1972, que foi o que escolhi para a edição dedicada a esse ano, mas se este estivesse presente, principalmente no lugar de Harvest (Neil Young) ou Talking Book (Stevie Wonder), quiçá Machine Head (Deep Purple), eu iria aplaudi-lo de pé.
Ronaldo: O melhor disco dos ingleses, lançado no prolífico ano de 1972 (no qual o grupo lançou outro ponto alto de sua carreira, o sucessor The Magician's Birthday). O maior trunfo de Demons and Wizards é a diluição dos clichês do grupo (vocais fantasmagóricos, gritos histéricos e dramatizações cafonas foram mais bem dosados do que nos demais discos do grupo) e a pegada exata na sonoridade para suas composições. Há grandes momentos acústicos ("The Wizard" e "Paradise" são de uma rara beleza), uma profusão da sonoridade do Hammond, linhas vocais muito bem construídas e arranjos inteligentes em toda a sua extensão.
Ulisses: Da série "já tentei gostar e não consigo". Sou capaz de ouvir todos os méritos do grupo: a forte presença do Hammond por todo o registro, o vocal expressivo de Byron e os arranjos fantasiosos da banda. Mas somente algumas composições me impressionam, como "Poet's Justice". Deixo os comentários "de verdade" para os meus coleguinhas, mas admito que o resgate de um álbum tão querido por muuuitos roqueiros é super válido.

Kiss - Rock and Roll Over (1976)
Flavio: O Kiss é a primeira banda que me direcionou de forma definitiva para o rock. Em 1983, quando o grupo veio ao Brasil, fui conquistado e nunca mais abandonei essa paixão. Durante mais de um ano, tudo que eu ouvia era Kiss e nada mais. Depois de tantos anos conhecendo a banda, hoje vejo sua discografia de uma forma mais ampla. Lançado no mesmo ano que Destroyer (1976) e por muitas vezes considerado o irmão fraco, Rock and Roll Over foi gravado em um momento em que a banda já estava consagrada, mas ainda procurando seu verdadeiro som. Se os três primeiros foram de alguma forma mal produzidos, e o quarto em estúdio, o aclamado Destroyer, foi "superproduzido" em uma abundância de polidez e sofisticação por Bob Ezrin, o que tentar a seguir? Ao procurar o produtor Eddie Kramer, o grupo tentou um meio termo, reduzindo a sofisticação, tentando traduzir seu verdadeiro som para a bolacha. Ao gravar canções como "I Want You", "Calling Dr. Love", "Makin' Love", "Take Me", "Ladies Room" e "Mr. Speed", a banda consagrou seu estilo. Há pontos não tão interessantes? Sim, "Baby Driver" e "Love 'Em and Leave 'Em" são mais fracas e poderiam ser substituídas, mas o "core" do álbum é o que importa. Ao verificar Destroyer coerentemente colocado na edição dedicada a 1976, entendo que seu irmão Rock and Roll Over talvez seja o maior significado do que o Kiss realmente é, e desta forma não poderia ser esquecido.
Alexandre: Em 1975, com Alive!, a banda conseguiu atingir a popularidade, mas Destroyer, apesar de tantos hits, inicialmente não obteve a mesma repercussão do disco ao vivo. Essa situação foi parcialmente revertida com a balada "Beth", mas a banda só foi realmente sedimentar sua força e excepcional vendagem de álbuns com Rock and Roll Over. Ao optar por trazer um produtor (Eddie Kramer) que os fizesse soar como deveriam, deixando os teclados e orquestras de Destroyer de lado, o grupo finalmente conseguiu mostrar pelo que seria reconhecido. Esse é, para mim, o maior mérito de Rock and Roll Over. Sou um fã confesso da banda, mas prefiro quando eles se arriscam um pouco mais, em álbuns como Lick it Up (1983), Music from The Elder (1981) e até em Revenge (1992). Preciso reconhecer, porém, que se me pedissem algo que representasse a banda, talvez indicasse este, ainda mais do que seu sucessor, Love Gun (1977). Faixas diretas, com o DNA festivo da banda, criatividade em alta, em especial para Paul Stanley, mas também nas faixas de Simmons. "I Want You", "Hard Luck Woman" (que foi feita para Rod Stewart), "Calling Dr. Love" e "Makin’ Love" são músicas que hoje em dia entrariam em um setlist do grupo, 40 anos depois. Aliás, "Makin’ Love" tem um excelente solo de Frehley, um dos seus melhores. Só não o considero como algo que beira a perfeição pois há algumas faixas mais fracas, como "Baby Driver" e "See You in Your Dreams". Trata-se, contudo, de um álbum absolutamente clássico, talvez o maior de todos na banda, até pela capa. A indicação é bastante correta.
André: Nada de especial, mais um bom disco do Kiss em sua melhor fase. Destaco o estilo despojado de "Mr. Speed" e a ótima balada cantada por Criss e sua voz rouca, "Hard Luck Woman". Tenho preferência por alguns outros, até mesmo da fase oitentista da banda, mas é um Kiss clássico e agradável, que não faz feio em qualquer ambiente em que seja tocado.
Bernardo: Kiss tentando continuar o sucesso de Destroyer, álbum com tantos sucessos que parecia uma coletânea, alcançando mais ou menos o intento. O disco não é tão consistente e já denuncia a repetição na qual o Kiss cairia, mas não dá para ignorar "Calling Dr. Love" e "Hard Luck Woman".
Christiano: Não sou um grande admirador do Kiss. Sendo assim, já adianto que, em termos musicais, Rock and Roll Over não me diz muita coisa. É um disco divertido, bastante enérgico etc. Traz algumas músicas realmente muito boas – “I Want You”, “See You in Your Dreams” e “Calling Dr. Love” –, outras dispensáveis e meio cansativas – “Take Me”, “Love 'Em and Leave 'Em”. Claro que a banda é muito importante para a história do rock. Além disso, o álbum é um registro da fase clássica dos mascarados. Continuo achando, contudo, imagem demais e música de menos.
Davi: Sei que muita gente virá com a reclamação de "mais um álbum do Kiss", mas este ter ficado de fora foi realmente uma injustiça. Rock and Roll Over traz o Kiss em seu auge. Formação original hiperentrosada, na fase em que as aventuras com o álcool e as drogas ainda não haviam deteriorado a relação entre os músicos. O tracklist é quase perfeito. Peter Criss voltou a soltar o vozeirão em “Baby Driver” e “Hard Luck Woman” (musica que Paul Stanley compôs pensando em enviá-la para Rod Stewart, daí a levada meio Bread). “Makin' Love”, “Take Me”, “Mr. Speed” e “Ladies Room”, embora não sejam exatamente hits (são clássicos para os fãs, mas duvido que quem não os acompanha de perto as conheça), são extremamente empolgantes. “I Want You” e “Calling Dr. Love” são clássicos absolutos que ganhavam ainda mais força nos shows. Para mim, a única bola fora é “Love 'Em and Leave 'Em”. Clássico!
Diogo: Rock and Roll Over talvez seja o melhor exemplo daquilo que é o Kiss, para o bem e para o mal. Explico: há algumas ótimas músicas, mas, no geral, a maior parte do disco varia entre o regular e o bom. São canções que, por mais que não sejam excepcionais, foram pensadas para soar bem nos shows, que é o território no qual o Kiss melhor se expressa. Álbuns bons quase na íntegra, como Destroyer (1976) e Creatures of the Night (1982), são exceções, e o melhor material geralmente sai das mãos de Paul Stanley. Os três grandes exemplos em Rock and Roll Over confirmam a tese. "I Want You" é uma excelente abertura, enquanto "Makin' Love" flerta com o heavy metal e traz um ótimo solo de Ace Frehley. A melhor, porém, é "Hard Luck Woman", mesmo não sendo cantada por Paul. Não que Peter Criss não faça um bom trabalho nessa balada de pegada country (ele faz), mas tanto a versão cantada por Paul no MTV Unplugged (1996, apenas no vídeo) quanto aquela interpretada por Garth Brooks (tendo o Kiss como banda de apoio) para o tributo Kiss My Ass: Classic Kiss Regrooved (1994) são ainda melhores. De resto, há um misto de boas faixas, como "Take Me" e "Calling Dr. Love", com outras pouco memoráveis, caso de "Baby Driver" e "Love 'Em and Leave 'Em".
Fernando: Disco clássico do Kiss! O dedilhado no início de “I Want You” até nos engana um pouco, mas depois da introdução é rock and roll até o fim. Mesmo as faixas menos lembradas são legais, como é o caso de “Mr. Speed”, “Baby Driver” e “See You in Your Dreams”. “Love ‘Em and Leave ‘Em” poderia estar até hoje nos setlists, mas entendo sua ausência. É uma pena, porém, que “Hard Luck Woman” não seja mais lembrada. Com Peter Criss cantando, é uma das faixas das quais mais gosto da banda. Gostaria de ver Paul Stanley, que foi quem a compôs, fazendo os vocais principais.
Mairon: O Kiss entrou com alguns discos improváveis, mas não com aqueles que eu jurava que entrariam. Este é um daqueles sobre os quais tenho dúvidas, já que foi lançado após o clássico Destroyer, que entrou na edição abrangendo 1976 e que julgo melhor que Rock and Roll Over para representar a banda. O álbum possui muitos rocks tipicamente Kiss, tornando-o bem homogêneo. Basta ouvir a sequência com "Take Me", a clássica "Calling Dr. Love" e "Ladies Room". Os riffs são parecidos, não há muita mudança. A coisa continua similar em "Love 'Em and Leave 'Em", "Mr. Speed" e "See You in Your Dreams", meras canções com um refrão para grudar, um solo tímido e nada mais. Gosto muito da pegada de "I Want You" e "Makin' Love", que demonstram sim que o Kiss era capaz de fazer música boa além do rock tradicional. Joguem as pedras, mas "Baby Driver" me agrada bastante. É a canção de Criss que mais curto, junto a "Black Diamond"; e, francamente, Mr. Criss, poderíamos ter ficado sem ouvir "Hard Luck Woman", né, meu caro? Dois álbuns do Kiss na mesma lista não ficaria bem, mas não deixa de ser um bom disco para curtir com amigos.
Ronaldo: Musicalmente, o Kiss sempre foi um grupo bastante limitado, mas foram magistrais na consolidação (e na venda) de uma atitude cativante ao público. Felizmente, Rock and Roll Over também traz alguns dos melhores momentos musicais do grupo. Disco bem produzido (supera em qualidade de gravação os lançamentos anteriores), com boa pegada, guitarras que são pura funcionalidade e economia e boas vocalizações. Estrofes e refrãos assobiáveis, tudo feito sob medida para divertir e agradar a generalidade do público rock.
Ulisses: Para um álbum do Kiss, banda que sempre me disse pouca coisa (curto apenas alguns hits), até que a audição foi agradável. Rock básico e sem pretensões, deixando os riffs de blues rock e o bom andamento das composições ditarem o bom aproveitamento do disco. Gostei da abertura, "I Want You", da divertida "Mr. Speed" e da séria "Hard Luck Woman" – apesar de não gostar da voz de Peter Criss, ela se encaixa bem nessa faixa.

Scorpions - Taken By Force (1977)
Flavio: Eu sou fã da fase preliminar do Scorpions (Ulrich Roth), e já "carimbei" com aprovação a escolha do Fernando Bueno, Virgin Killer (1976). Entre os quatro com Roth, porém, considero como os dois melhores In Trance (1975) e Taken By Force. São muito parelhos, tive que fazer uma "escolha de Sofia" para tirar um deles. Na verdade, cheguei a considerar manter ambos, mas como são apenas dez... Escolhi Taken By Force também pela importância como influenciador para os guitarristas neoclássicos. "We'll Burn the Sky" e, principalmente, "The Sails of Charon" são referências para os guitarristas que desenvolveriam o estilo. O álbum traz também um apontamento para um disco com canções mais calcadas na linha melódica vocal, de forma a tentar tornar a banda comercialmente mais acessível. Por um lado, considero interessante explorar a melodia, já que Klaus Meine tem performance soberba no disco (e na carreira toda), mas segundo se conta, esse direcionamento ocasionou a saída do gênio Roth após a turnê. Novamente, é ele o destaque, com solos irrepreensíveis e canções influentes. Considero destaques as duas já citadas, além da faixa de abertura e da lindíssima "Born to Touch Your Feelings", mas gosto de todas. Sem Roth, a banda gradativamente se tornaria mais leve, mais comercial, a ponto de provocar meu desinteresse, mas isso é outra história. Ainda há outros consultores que, entre seus esquecidos, poderiam escolher In Trance também, que tal?
Alexandre: Que maravilha de disco! Em 1977? Fácil, fácil… A começar por Ulrich Roth, sempre… As linhas do virtuoso guitarrista, que está no meu top 5 da década de 1970, parecem saltar dos alto-falantes enquanto escrevo estas linhas. Este é, para mim, o melhor disco de estúdio dos alemães com Roth, em uma difícil comparação com In Trance e Virgin Killer. "The Sails of Charon" é o fiel da balança nessa comparação, porque ela sai do maravilhoso para o genial. Novamente, pontos para Ulrich, o compositor dessa obra-prima. Mas Taken By Force não é só isso, há diversas músicas fantásticas, como "Steamrock Fever", "The Riot of Our Time" e, principalmente, "We’ll Burn the Sky", outra aula de Roth. O disco até tem algumas faixas menos favoráveis, como "I’ve Got to Be Free". Particularmente, não curto "He’s a Woman, She’s a Man", que começa a desenhar uma linha mais comercial, motivo principal da saída do genial guitarrista solo pouco tempo depois deste lançamento. Por fim, preciso destacar o grande trabalho de composição de toda a banda, em especial Schenker, e também o timbre único de Klaus Meine. Suas linhas de interpretação ímpar, que se sobressaem também nas baladas, como "Born to Touch Your Feelings", são a cereja do bolo neste excelente trabalho.
André: Mais uma prova de que o Scorpions passa longe de ser uma banda de baladas grudentas como tantos pensam. Disco hard rock com várias canções quase heavy metal. O fato é que, apesar do peso, o grupo continuou colocando suas melodias em composições do mais puro rock 'n' roll, nas quais é impossível não prestar atenção. "We'll Burn the Sky" é simplesmente incrível e minha favorita. "Your Light" é empolgante e uma demonstração de bom gosto de linhas de guitarras e um swing delicioso de bateria. Esse período foi simplesmente mágico para os escorpiões.
Bernardo: Já dava para ver a banda que faria "Rock You Like a Hurricane" e "Still Loving You", ainda que tudo pareça demais com o hard rock que estava na moda à época e que vinham cultivando desde In Trance. Entretanto, está lotado de bons momentos.
Christiano: Disco perfeito! Talvez, o melhor do Scorpions. Já abre com “Steamrock Fever”, mostrando a banda em seu auge tanto criativo quanto técnico. Digo isso com segurança, e mostro as provas: escute “The Riot of Our Time” e veja como ela flui por caminhos imprevisíveis, mesclando um rastro do experimentalismo dos tempos de Fly to the Rainbow (1974) à pegada mais pesada predominante no resto do disco. Por falar em peso, é impossível não mencionar aquele que talvez seja o auge dessa fase do Scorpions, “The Sails of Charon”, obra-prima escondida na discografia da banda. Ainda tem a clássica e pesada “He’s a Woman, She’s a Man”, além de Uli Jon Roth mostrando sua genialidade em “Your Light”. Um clássico.
Davi: Último álbum da fase Uli Jon Roth, ainda contando com uma sonoridade mais crua e mais pesada do que aquela a qual os fãs dos anos 1980 estão acostumados. Embora “Steamrock Fever” seja adorada entre os fãs, não me empolga tanto. Para falar a verdade, acredito que este seja o álbum da fase Uli que menos curto. Os destaques ficam por conta de “We'll Burn the Sky” e do classicão “He's a Woman, She's a Man”, minha favorita.
Diogo: Taken By Force foi mais um firme passo em direção a um som mais pesado e ao mesmo tempo com maior apelo popular. Isso, claro, tendo como parâmetro o que a banda vinha fazendo até então, não o que fez de Blackout (1982) em diante. Nem por isso Uli Jon Roth deixou de marcar seu último registro ao lado da banda com faixas com sua assinatura e a fluidez ao instrumento que lhe era típica. "I've Got to Be Free" e "Your Light" são duas ótimas mostras de seu talento, mas "The Sails of Charon" é espetacular em sua pegada oriental, uma fortíssima concorrente a melhor canção já registrada pela banda. Felizmente, Rudolf Schenker e Klaus Meine não ficaram muito para trás, ajudando a fazer de Taken By Force um dos três melhores álbuns lançados pelo Scorpions. O peso acessível ao qual me referi mais acima fica evidente em "Steamrock Fever" e em "He's a Woman, She's a Man", com contribuição do novato baterista Herman Rarebell, uma ótima inclusão ao line-up. Por outro lado, se escutasse "The Riot of Our Time" sem acompanhar os créditos, seria capaz de jurar que a composição é de Uli; claro, sem subestimar os talentos de Rudolf e Klaus. Aliás, méritos ao guitarrista base por musicar o poema que originou "We'll Burn the Sky" e transformá-la em uma dinâmica semibalada, outro destaque evidente de um disco recheado de canções marcantes. É a segunda vez consecutiva que o Scorpions aparece aqui, mas não vou reclamar nem um pouco se In Trance der as caras em alguma outra edição.
Fernando: Os Scorpions emplacam dois discos em duas edições consecutivas. Até hoje não entendi por que o povo ficou tão chocado com a capa, fazendo com que tivessem que mudar para a alternativa horrível de colocar a mesma imagem que estava na contracapa. “Steamrock Fever” é um dos clássicos da banda. Não preciso nem ouvi-la para que a música não saia da minha cabeça. Li um comentário super engraçado em algum lugar aí, era mais ou menos assim: antes de Klaus Meine aprender a assobiar, o Scorpions era uma banda que detonava. E faz sentido, já que nesses discos dos anos 1970, o Scorpions era mais heavy do que hard e cada disco era uma pérola.
Mairon: O que eu tinha para escrever sobre este álbum está na Discografia Comentada que publiquei há algum tempo. Apenas para complementar o que foi dito lá, afirmo que a despedida de Uli Roth é impactante, carregada principalmente pelo inconfundível estilo do alemão em faixas épicas como "We'll Burn the Sky" – uma linda homenagem de Monika Dannemann para seu falecido namorado, simplesmente Jimi Hendrix –, "The Sails of Charon" e "Your Light". Para a alegria de muitos, ele fica quietinho, apenas concentrado em tocar sua guitarra magistralmente. A edição dedicada a 1977 foi praticamente perfeita, e mesmo não tendo votado neste álbum, acho que ele poderia muito bem estar ao menos no lugar do Kraftwerk.
Ronaldo: Cada vez mais pesado, o Scorpions definitivamente se afastou da psicodelia e, junto com o Judas Priest, escreveu a maioria das equações do heavy metal oitentista. Em Taken By Force, o som é bastante direto, a rítmica mais linear e as guitarras mais pesadas. Há que se destacar que o DNA setentista ainda se fazia presente em pequenas sutilezas que foram ignoradas pelas gerações seguintes dessa escola de som (coisas como o groove de guitarras sem distorção em "I've Got to Be Free" e um uso mais inteligente dos violões). Além disso, a produção sonora separa diametralmente o rock dos anos 1970 para o dos anos 1980: bateria e baixo eram devidamente valorizados nas mixagens, deixando o som encorpado e menos dependente das guitarras. Tudo isso é mérito deste grande disco, dessa grande banda.
Ulisses: O melhor álbum da era Roth, e não é só por causa da clássica "The Sails of Charon"; o disco inteiro é ótimo, tendo "We'll Burn the Sky" e "I've Got to Be Free" como outros grandes destaques. A folksy "Your Light" também merece reconhecimento, assim como a balada "Born to Touch Your Feelings", que é ótima no geral, mas encerra de forma estranha e desnecessária, com esquisitas vozes femininas. P.S.: Será que In Trance e talvez Fly to the Rainbow também serão resgatados por aqui?

Whitesnake - Ready an' Willing (1980)
Flavio: O Whitesnake está representado na série, porém não em sua fase seminal, normalmente mais esquecida, já que não obteve grande sucesso comercial. A consolidação da banda no hard e no folk/blues rock com a mistura de três ex-membros do Deep Purple com a seção de cordas de Marsden, Moody e Murray está em Ready an' Willing. Temos as ótimas "Fool for Your Loving", a faixa-título e também aquela da qual mais gosto da banda: "Ain't Gonna Cry No More". Se você deseja um bom disco de rock, sem excesso de maneirismos e firulas, o apontaria como um ótimo exemplar. Ready an' Willing também traz outras boas composições, como "Carry Your Load", "Blindman" e "She's a Woman". Trata-se do album mais coeso da primeira fase, antes do grupo migrar para o hair metal do fim dos anos 1980, fato que desagradaria vários fãs mais tradicionais, mas conquistaria muitos outros.
Alexandre: Assim como é o caso do Kiss, considero que temos aqui mais um exemplo do que é a definição da banda, a sua essência. É evidente que há pelo menos dois Whitesnakes durante os anos em que a banda de Coverdale foi conhecida, mas esse é, para dizer o mínimo, o Whitesnake original e sua proposta inicial. Um hard rock calcado em blues, sem exageros de teclados e cabelos esvoaçantes do hair metal dos anos a seguir. Ainda que eu considere o álbum de 1987 algo que não dá muito pra criticar, identifico-me bem mais com essa fase inicial. Dentro dessa proposta, que durou até mais ou menos a época do primeiro Rock in Rio (1985), Ready an’ Willing é a melhor amostra. A começar por "Fool for Your Loving", muito melhor aqui do que no insosso Slip of the Tongue (1989), com uma linha de baixo fantástica. Deixar essa linha de Neil Murray desfavorecida na versão “farofa” é um crime para entrar entre os grandes da história. O problema dessa fase inicial é que os trabalhos até 1982 trazem músicas ótimas ao lado de faixas pouco inspiradas. Neste disco, ao contrário dos demais, quase tudo é bom, e canções como "Blindman" (que tem sua introdução reproduzida no inicio de "Mistreated", no álbum ao vivo lançado em seguida) e a própria faixa-título competem com as melhores obras da banda em toda a carreira. O ponto alto é "Ain’t Gonna Cry No More", para mim a melhor faixa de todos os tempos do Whitesnake. Além da excelente melodia, há espaço para os teclados do saudoso Jon Lord, uma base usando guitarras e violões de 12 cordas em afinação diferente (Open C ou Dó “aberto”), solos com slide e novamente uma linda conducão de baixo de Murray. Outro ponto muito positivo na lista do Flávio.
André: Sempre serei fã do Whitesnake. É muito difícil Coverdale me decepcionar. Naquela fase ainda meio próxima do Deep Purple, Ready an' Willing apresenta rocks blueseiros que a banda abandonaria pouco tempo depois para se focar no glam. Jon Lord e seus teclados dão um toque bem característico e "purpleano" em faixas como a famosa "Fool for Your Loving". Micky Moody e Bernie Marsden podem não ser os guitarristas de mais nome que passaram pelo Whitesnake, mas são deles as guitarras dos cinco primeiros discos da banda, por muitos considerados os melhores. Por um mistério sobre o qual não faço ideia, ouço falar mais de John Sykes, Vivian Campbell e Adrian Vandenberg. Esses caras merecem mais créditos pela qualidade que a banda apresentava neste álbum. É um excelente registro, algo comum em se tratando de Whitesnake.
Bernardo: Deep Purple, Rainbow, Black Sabbath, Whitesnake, Blue Öyster Cult, Iron Maiden... O que seria do rock pesado sem Martin Birch? O homem ajudou a construir carreiras inteiras. A banda de David Coverdale é um exemplo. Ready an' Willing ainda não mostrava um grupo completamente com aquela sonoridade que definiria um certo nicho comercial da música oitentista, mas "Fool for You Loving" já prometia muito.
Christiano: O disco mais Deep Purple do Whitesnake. Justamente por isso, talvez a melhor obra do grupo de Mr. Coverdale. Claro que as participações de Ian Paice e Jon Lord foram determinantes para essa semelhança. Mesmo sabendo que supergrupos não são sinônimos de qualidade, neste caso a coisa funcionou muito bem, o que leva a crer que os caras estavam bastante inspirados. Isso já fica claro logo na primeira faixa, “Fool for Your Loving”, que viria a se tornar um dos clássicos do Whitesnake. É interessante notar como a pegada meio blues, característica dessa fase, foi perfeitamente assimilada à sonoridade soul dos trabalhos de Coverdale com o Purple. Isso fica muito claro em músicas como “Love Man” e a faixa-título. Ótima escolha.
Davi: David Coverdale sempre foi um dos meus ídolos e o Whitesnake é uma banda que cresci ouvindo. Este disco é um dos meus favoritos deles (o que mais curto ainda é Slide It In, de 1984). Bem feliz de vê-lo por aqui. “Blindman” é uma balada interessante (dá a impressão de que ouviram “Soldier of Fortune” e “Ain't No Love in the Heart of the City” no repeat e foram compor), mas os melhores lados B ficam por conta do rock “Black and Blue” e da balada “Carry Your Load”. Como se não bastasse, ainda nos brinda com os clássicos “Sweet Talker”, “Ready an' Willing” e “Fool for Your Loving” na sequência. Não se faz mais discos como este.
Diogo: Ready an' Willing representa o auge da primeira fase do Whitesnake, quando seu rock era bem menos hard e bem mais rhythm 'n' blues. Os lançamentos anteriores já vinham aperfeiçoando o estilo e contam com muitos destaques, mas foi neste disco que tudo ficou redondinho de vez, incluindo a produção de Martin Birch e a entrada de Ian Paice, completando aquela que muitos julgam ser a melhor formação do Whitesnake. A capa representando esse timaço, inclusive, acabou funcionando muito bem, mas não tanto quanto faixas como "Fool for Your Loving", "Sweet Talker" e a faixa-título. A trinca abre o disco e confirma que, naquela época, nenhum ex-integrante do Deep Purple vinha com tanta força quanto David Coverdale. "Love Man" e "Black and Blue" são um pouco genéricas, mas "Carry Your Load" e "She's a Woman" são duas canções dignas de nota, infelizmente esquecidas pela banda e por quase todos os fãs. O melhor mesmo, porém, são as baladas. Quem acha que "Is This Love" é uma boa representação do que o Whitesnake é capaz nessa seara só pode estar de brincadeira. "Ain't Gonna Cry No More" e seu crescendo instrumental, passando do acústico para o elétrico, é uma das melhores obras da carreira de Coverdale. "Blindman", lançada originalmente em seu primeiro disco solo, aparece em uma versão superior, ainda mais acachapante, com uma interpretação magistral e arranjos emocionantes, enaltecendo uma das mais belas letras que Coverdale já escreveu. Meu álbum favorito do Whitesnake é Slide It In (1984), mas o resgate de Ready an' Willing é muito bem vindo.
Fernando: Esses primeiros discos do Whitesnake, nos quais eles tinham muito mais blues em sua música, são demais. Gosto da carreira toda da banda e não acho que David Coverdale fez algum álbum ruim, mas as fases são bem distintas. Acredito que “Fool for Your Loving” é uma das melhores faixas do grupo que mais usa a palavra "love" em suas músicas. Apesar do Whitesnake ser a banda de Coverdale, nessa época eles soavam muito bem como um grupo em que ninguém era maior que ninguém.
Mairon: Sou um fã confesso da Mark III do Deep Purple e um admirador pacífico da obra do Whitesnake, com exceção do disco de 1987, que é uma das melhores audições que já tive na minha vida. Três quintos da Mark III estão nessa formação do Whitesnake como sexteto, e é exatamente a falta dos dois quintos restantes que me impede de ser um fã ardoroso. Adoro faixas mais "purpleanas", como "Sweet Talker", que ficaria muito boa com um duelo vocal entre Coverdale e Hughes, a paulada "She's a Woman", fácil a melhor do disco, e a irmã novinha de "Soldier of Fortune", a arrepiante baladaça "Blindman". Bem que "Ain't Gonna Cry No More" poderia ser toda acústica, hein? Também aprecio os teclados de "Carry Your Load" e o rock 'n' roll ao piano de Jon Lord em "Black and Blue" não é dos piores. Acho, porém, que o estilo das guitarras de Bernie Marsden e Micky Moody e, principalmente, da bateria de Paice não combina com faixas melosas como"Fool for Your Loving" (prefiro a versão presente em Slip of the Tongue). Canções simples demais, como a faixa-título e "Love Man", que destacam principalmente a voz "sensual" de Coverdale, também não me conquistam. Poderia ter entrado no lugar do Joy Division ou de Bruce Springsteen, mas acho que não faria muita diferença no resultado final. Um bom disco, nada mais que isso.
Ronaldo: Com uma ou outra exceção, não há muitos elementos neste disco do Whitesnake que já não tivessem sido explorados em profundidade pelo Deep Purple alguns anos antes. Originalidade não é tudo no rock; a ausência de inovação neste trabalho não o desabona como um bom disco de rock – empolgante, swingado, bem executado. David Coverdale, cada vez mais seguro em sua interpretação e dono do pedaço, dá um show particular neste lançamento. Uma voz versátil, potente, marcante.
Ulisses: Esse Whitesnake do início ainda possuía uma forte influência do blues. Ready an' Willing talvez seja o maior clássico dessa época, muito devido ao hit "Fool for Your Loving". Não morro de amores pela banda, mas o resgate do Flávio é acertado: David Coverdale e sua trupe (que ainda contava com os também ex-Purple Jon Lord e, neste caso, Ian Paice) acertaram a mão em boa parte das composições, sem exageros nem enrolações, vide a ótima "Ain't Gonna Cry No More". Mesmo as que não cheiram e nem fedem, como "Black and Blue" e "She's a Woman", não tiram o mérito do álbum.

Judas Priest - Defenders of the Faith (1984)
Flavio: Após o primeiro disco ao vivo, Unleashed in the East (1979), o Judas Priest procurou fazer um som mais direto e atingir o mercado norte-americano. Em 1984, a banda estava lançando seu quarto álbum dessa sequência, Defenders of the Faith, atingindo para mim o ponto certo dessa fase. A cozinha faz um trabalho seguro, sem destaque, mas também sem comprometer. Não há como deixar de destacar os vocais soberbos de Rob Halford e a dupla de guitarristas, em alternâncias de solos e riffs inspirados. Um disco quase sem defeitos, com grandes composições, em um desfile soberbo. Há músicas com andamento mais rápido, como a clássica faixa de abertura, "Freewheel Burning", e "The Sentinel" (minha preferida dessa fase), além de outras mais cadenciadas, como a espetacular "Some Heads Are Gonna Roll" e "Heavy Duty/Defenders of the Faith". Ainda há espaço para uma quase balada, a lindíssima "Night Comes Down". Como houve grandes lançamentos em 1984, notadamente de heavy metal, talvez este petardo do Judas tenha acabado por não aparecer na edição dedicada a esse ano. Aproveitando então essa oportunidade, resolvi resgatá-lo.
Alexandre: Heavy metal colhido no pé, diria o meu grande amigo Rolf Henrique, que participa do Minuto HM comigo. Um bom disco de heavy metal na essência. Poucas vezes conseguiria uma definição tão próxima, no meu entender. Talvez somente em Holy Diver (1983), do Dio, e, sempre, no Sabbath. É fato que a banda já vinha na busca dessa sonoridade, e com assertividade, em dois álbuns anteriores, British Steel (1980) e Screaming for Vengeance (1982). Acredito, contudo, que em Defenders of the Faith eles subiram mais um degrau em se tratando de composições, linhas vocais e riffs de guitarra. Crédito total para Rob Halford e a dupla Tipton e Downing. O trabalho de Ian Hill é discreto e Dave Holland, no meu entender, é um baterista fraco, mas não consegue estragar o disco. Novamente vejo um álbum quase sem pontos fracos, no qual o metal domina 80% a 90% do conteúdo. Diversas faixas são tocadas nos shows até hoje, como "Freewheel Burning" e "The Sentinel", para mim a melhor. Outro destaque é "Some Heads Are Gonna Roll". Há um pequeno espaço para o hard meio datado de "Rock Hard Ride Free", uma bela quase balada ("Night Comes Down") e um sutil toque industrial/eletrônico ao metal, prioritariamente em "Love Bites". No meu entender, ela é de longe a pior do álbum, mas vez ou outra é revisitada nos shows. Não compromete o resultado final, que é excelente.
André: Entre as grandes bandas, o Judas é a que menos costumo considerar bem. O que eu sinto é um álbum tecnicamente impecável, mas faltam mais faixas que me fisguem e grudem nos meus ouvidos, coisa que mesmo um Sabbath oitentista várias vezes consegue fazer comigo, até em seus discos menos cultuados. Além disso, considero as cinco primeiras faixas bem melhores que as restantes, que passam a pura impressão de serem fillers. A melhor é "Jawbreaker". Talvez eu seja um dos únicos aqui a criticar a banda, mas já ouvi coisa melhor deles, até mesmo entre os quatro discos mais recentes (com Ripper Owens e tudo mais).
Bernardo: A banda não inventou muito, mas conseguiu manter o nível das composições vistas em British Steel e Screaming for Vengeance. "Freewheel Burnin'" e "Love Bites" são dois musicões.
Christiano: Uma tentativa explícita de atingir um público mais amplo. Por isso, características como o timbre datado de bateria talvez possam soar não muito bem para quem estava acostumado com os discos anteriores. Por isso mesmo, não considero Defenders of the Faith como um ponto alto na carreira do Priest. Não que o álbum seja ruim. Longe disso. Ele traz ótimas músicas, como “Jawbreaker”, “The Sentinel” e “Rock Hard Ride Free”, mas a vontade de conquistar um público maior acabou gerando músicas meio enfadonhas como “Love Bites” e “Some Heads Are Gonna Roll”.
Davi: Sem dúvidas é um clássico, mas sou obrigado a reconhecer que sinto falta de um som de bateria mais forte, mais na cara. Deixando isso de lado, o disco traz um Judas Priest afiado. K.K. Downing e Glenn Tipton com riffs certeiros, Rob Halford arrebentando como de costume. O repertório é recheado de ótimos momentos, como os hinos “Freewheel Burning” e “The Sentinel”. Também gosto muito de sons como “Rock Hard Ride Free”, “Eat Me Alive”, “Some Heads Are Gonna Roll” e, é claro, “Jawbreaker”. Contudo, continuo achando “Love Bites” chata pra caralho.
Diogo: Mantivesse o nível das quatro primeiras faixas, Defenders of the Faith seria o melhor álbum do Judas Priest lançado após o fim dos anos 1970. Apesar da produção datada (e da mixagem capenga) ter caído alguns degraus em relação a Screaming for Vengeance e indicar o futuro próximo, trata-se de uma sequência arrebatadora. O flerte com o incipiente speed metal, que seria escancarado posteriormente, dá as caras em "Freewheel Burning" e traz um Rob Halford cada vez mais articulado liricamente. "Jawbreaker" é aquele metalzão mid-tempo que o Judas Priest fazia como pouquíssimos, enquanto "The Sentinel" é uma festa para os amantes da dupla Glenn Tipton/K.K. Downing, que despejam riffs e solos enquanto Halford se esgoela em um dos melhores refrãos que o grupo já criou. Minha preferida, entretanto, é "Rock Hard Ride Free", com grandes melodias vocais e mais uma articulação perfeita entre os guitarristas. O restante do álbum é fraco? Não! Só que não chega perto do nível das citadas. As melhores são "Eat Me Alive", também flertando com o speed metal, e "Some Heads Are Gonna Roll", com boas melodias. Uma coisa que fica bastante evidente é que a banda já havia passado do tempo de procurar um novo baterista, pois o estilo de Dave Holland não se ajustava mais a boa parte do material que o grupo vinha compondo. Não à toa, usou-se uma bateria eletrônica em Ram It Down (1988), no qual algumas faixas já indicavam os velozes caminhos que seriam traçados em Painkiller (1990). A versão oficial, no entanto, dá conta de que a escolha deveu-se a problemas de saúde de Dave.
Fernando: Entendo quando elevam este disco ao patamar de um dos melhores do Judas Priest. Eu não saberia escalonar agora meus preferidos, mas possivelmente colocaria uns quatro ou cinco à frente deste. Como desprezar um álbum com “Freewheel Burning”, “The Sentinel”, “Love Bites”, “Some Heads Are Gonna Roll” e “Night Comes Down”? Só clássicos! Fico me imaginando em 1984, com a consciência que tenho hoje, e não com a que eu tinha com então 6 anos. Que ano para o metal! Esse é o ano do qual tenho mais discos em minha coleção. São 65 e minha wishlist ainda possui mais sete!
Mairon: Um disco que começa com uma pancada como "Freewheel Burning" já merece estar na série, com toda a energia explosiva das guitarras de K.K. e Glenn, a voz agudíssima de Rob e a cozinha magnífica de Ian e Dave, em um prenúncio do que viria a ser "Painkiller", anos depois. A pauleira segue com "Jawbreaker", "The Sentinel" e a ótima "Eat Me Alive", outra forte candidata a melhor do álbum, arrancando pescoços. Já temos indícios de que o som do Judas mudaria, seja em "Love Bites", "Rock Hard Ride Free", "Heavy Duty/Defenders of the Faith", "Some Heads Are Gonna Roll" e, principalmente, "Night Comes Down", uma das mais fracas da carreira do Judas. Com certeza, é o melhor disco do grupo nos anos 1980 (joguem as pedras). Com as várias barbaridades vergonhosas que entraram em 1984, Defenders tinha espaço só por conta de "Freewheel Burning" e "Eat Me Alive". Que baitas músicas!!!
Ronaldo: Imagino e compreendo a importância deste disco para os fãs de heavy metal oitentista. Para quem quiser entender meu comentário a respeito deste álbum, sugiro ouvi-lo logo após a audição de Taken By Force e reparar especialmente na bateria e no baixo dos dois discos. Apesar das boas guitarras, o incômodo causado pela mixagem dos instrumentos joga qualquer bom riff de guitarra no lixo.
Ulisses: Outro registro do Judas Priest que precisava ser resgatado é Defenders of the Faith. Contém logo de cara três das melhores composições do Priest oitentista: "Freewheel Burning", "Jawbreaker" e "The Sentinel" – metaleiro nenhum bota defeito por aqui. Meu problema com o álbum está na segunda metade: "Some Heads Are Gonna Roll" é ultragenérica e as duas últimas faixas, curtinhas e antêmicas, poderiam ter sido limadas em favor de uma composição "de verdade". Resta para "Night Comes Down" e "Eat Me Alive" a tarefa de salvar o dia – embora esta última tenha uma letra ridícula. Na edição abrangendo 1984, caberia substituir o Marillion ou o Minutemen.

Queensrÿche - The Warning (1984)
Flavio: Em 1985, eu havia descoberto definitivamente o rock 'n' roll, notadamente apontando para bandas de rock pesado. Após o primeiro Rock in Rio, outros grupos além do Kiss já estavam habitando minha discografia. Black Sabbath e Iron Maiden foram as primeiras, e o impacto de Piece of Mind (1983) e Powerslave (1984) foi devastador. Lembro então que, no colégio, um amigo falou-me do tal Queensrÿche. Ele dizia que o grupo estava em um patamar bem acima das "novas" bandas do momento, que eram Twisted Sister, Mötley Crüe, Quiet Riot etc. Ao ouvir The Warning, a conquista foi imediata. O disco traz a cara do heavy metal dos anos 1980, notadamente inspirado em Iron Maiden e Judas Priest, porém há um pouco mais. Em The Warning, todas as faixas têm ótimo nível. Algumas são tocadas até hoje, como "Take Hold of the Flame". Dizer que o vocal de Geoff Tate é magistral é redundante, e há também ótimos backing vocals de Michael Wilton, Eddie Jackson e Chris DeGarmo. Além de "Take Hold of the Flame", a faixa-título talvez seja a mais conhecida, e já de início mostra a capacidade da banda. Não posso deixar de ressaltar o excelente trabalho da dupla de guitarristas e da cozinha, impecável. Como pontos diferentes, há o arranjo orquestral na linda faixa de fechamento, "Roads to Madness", e o apontamento para o surgimento do prog metal, tão cultuado no inicio dos anos 1990, com "NM 156", na época a mais esquisita e difícil de entender. Depois de ouvir The Warning, dei razão para o meu amigo, eles estavam em outro patamar...
Alexandre: O ano de 1984 foi mágico para o metal/hard rock. De todas as edições da série, é a desse ano que mais me entristece pelos álbuns que ficaram de fora. O segundo disco desta lista lançado em 1984 é, como Defenders of the Faith, outro grande exemplo disso. Não é preciso ouvir muita coisa, basta escutar a faixa que fecha este espetacular álbum de estreia dessa banda, que muito merecidamente foi citada três vezes na série. "Roads to Madness" é uma suíte com mais de nove minutos que, para mim, rivaliza com "Rime of the Ancient Mariner", do Iron Maiden, entre as excelentes canções de heavy metal com longa duração. O grupo, nesse início de carreira, criou um álbum maduro de heavy metal com letras inteligentes, em um estilo que seria modificado nos próximos trabalhos. Dentro do heavy metal, fez muito bonito. O vocal de Tate é incrível. Poucas vezes se ouviu algo em tão alto timbre com tanta qualidade. As linhas de guitarra de Wilton e DeGarmo são ótimas, já desenvolvendo e costurando o que seria entregue especialmente em Operation: Mindcrime (1988), quatro anos depois. Há um solo dobrado pelos dois em "NM 156" que dispensa mais comentários. Eddie Jackson e Scott Rockenfield entregam um trabalho de muita qualidade, para se ouvir nos detalhes, como no baixo da faixa0-título e no emprego de sinos e rufadas para acentuar a poesia do final de "En Force". Eu poderia ficar aqui escrevendo linhas e linhas sobre todas as faixas, pois não encontro ponto fraco. "NM 156", por exemplo, iniciaria o caminho para o álbum seguinte, o justamente indicado Rage for Order (1986). Ao invés disso, prefiro destacar outra das minhas favoritas, "No Sanctuary", com orquestra e teclados sublinhando a linda canção, além do single "Take Hold of the Flame".
André: Sabe quando você pensa que uma banda tinha tudo para estar entre os gigantes do rock e algo aconteceu no meio do caminho? É aquilo que representa o Queensrÿche. Neste álbum me parecem aquele jovem jogador, tipo o Keirrison, promessa, matador, com um potencial enorme no meio do caminho. Faz algumas boas temporadas e agora é hora de voar... E não decolou. O Rÿche deu essa esperança até Empire (1990). Depois, disso, várias decepções pelos caminhos tomados. Digo fácil que, se essa banda soubesse o que fazer, hoje estaria lotando estádios e brigando para ser headliner ao lado de Maiden e Metallica. A banda, contudo, simplesmente peidou na farofa nos anos em que deveriam ter se estabelecido na cena. Deste disco, adoro "Take Hold of the Flame", uma de suas melhores faixas. "Deliverance" também é fantástica. Trata-se de um álbum para mostrar que, com um pouco mais de gerenciamento por parte da gravadora, estariam brigando pelo topo do heavy metal. Mas como o mundo é um lugar cruel e paciência de fã tem limite, tá aí... Queensrÿche de hoje, fragmentado entre a versão de Tate e a do resto, tocando como banda de segundo escalão em casas noturnas bem menores do que se poderia imaginar.
Bernardo: Pra mim, o Queensrÿche é uma banda de um álbum só (Operation: Mindcrime), e o debut The Warning, apesar de não ser exatamente ruim, só reforça a impressão.
Christiano: Após a ótima estréia com um belo EP lançado em 1983, o Queensrÿche contou com melhores condições para gravar seu primeiro disco completo. The Warning mostra que a banda era capaz de reinventar o que entendíamos como heavy metal. Faziam isso trazendo influência de outros estilos, como rock progressivo, por exemplo. Isso fica claro quando comparamos The Warning com os álbuns lançados em sua época. Mesmo sendo ainda bastante influenciados por grupos como Iron Maiden (“En Force”, “Child of Fire”), é inegável que o Queensrÿche estava criando algo muito peculiar. “Take Hold of the Flame” e “Roads to Madness” já sinalizavam a ousadia dos rapazes, por serem músicas difíceis de enquadrar em algum tipo de rótulo pré-definido daqueles tempos. Ótima escolha.
Davi: Ainda fazendo um som mais simples e tradicional do que aquele que viria a apresentar nos magistrais Operation: Mindcrime e Empire, a galera do Queensrÿche apresentou um álbum empolgante, diminuindo um pouco as influências de Iron Maiden em relação ao EP autointitulado, embora elas ainda se façam presentes. Basta ouvir “Roads to Madness” ou reparar nas linhas de guitarra de “En Force”. A sonoridade está de acordo com a época. Os caras já tocavam incrivelmente bem e o repertório é empolgante. “Warning”, “Deliverance”, “Child of Fire” e o clássico “Take Hold of the Flame” são os destaques. Lançando a campanha #voltaDeGarmoeGeoffTate.
Diogo: Desde os primórdios, o Queensrÿche se destacou entre os companheiros de cena. Após um EP arrebatador, o álbum de estreia veio confirmar que não se tratava de fogo de palha. Mais refinado tanto musical quanto liricamente, o quinteto apresentou um heavy metal de forte influência britânica, mas com um pé fincado no progressivo, algo mais evidente na atmosfera geral do disco do que na estrutura das canções, talvez exceto "Roads to Madness", épico que faz jus a essas influências, e "NM 156". Em especial, duas canções me são muito caras: "Take Hold of the Flame" e "No Sanctuary". A primeira chegou a ser um pequeno hit e solidificou o crescente sucesso do grupo, mostrando não apenas um vocalista muito acima da média, mas uma banda com grande domínio dos instrumentos e gabarito para compor. A segunda, infelizmente deixada de lado nos setlists e na memória afetiva de muitos fãs, expõe o lado mais melancólico do grupo e indica o caminho que seria seguido no sucessor, o estupendo Rage for Order (1986). Em meio a boas interações entre as guitarras e conduções criativas do baterista Scott Rockenfield, o Queensrÿche construiu uma identidade própria, com criatividade, senso melódico apurado e técnica em prol da música, resultando em grandes faixas como "Warning", "En Force" e "Before the Storm". Quem acha que a banda se resume a Operation: Mindcrime e Empire não sabe o que está perdendo. Até Promised Land (1994), o Queensrÿche só acumulou acertos. Por pouco, mas é o melhor disco relembrado pelo Flavio.
Fernando: Confesso que, da primeira vez que ouvi The Warning, não gostei do vocal de Geoff Tate. Achei exagerado demais. Eu já conhecia a banda por Empire e admito que cheguei a ele por conta de “Silent Lucidity”. Passado algum tempo, voltei a ouvi-lo e fui me acostumando, e aí sim o disco me pegou. Hoje é um dos meus preferidos junto a Empire (sim, gosto mais dele do que de Operation: Mindcrime, julguem-me).
Mairon: Mais um álbum de 1984. Trata-se da estreia de uma banda que aprendi a odiar, mas seus primeiros discos estão me trazendo cada vez mais uma indignação: por que foram virar o que viraram? Eles eram tão bons nessa fase inicial. Na edição da seção Consultoria Recomenda abordando EPs, Queensrÿche foi elogiado por mim, e o mesmo posso dizer deste álbum. Gostei bastante do estilo metálico que o grupo apresenta na faixa-título, das lembranças "wishbonashianas" de "No Sanctuary" e da rifferama de "Before the Storm". "En Force", "Take Hold of the Flame" e "Child of Fire" mostram aquele metal mais do mesmo, mas que sempre balança o pescoço. Mesmo que Tate seja uma cópia de Bruce Dickinson, o cara manda bem no gogó. Complementa o álbum "NM 156", com interessantes efeitos sintetizados. "Deliverance" não me chamou atenção. Destaque ainda para os quase dez minutos de "Roads to Madness", fortemente influenciada por nomes como o já citado Wishbone Ash, além de  Iron Maiden e Judas Priest. Não acho que seja um dos melhores discos de todos os tempos, mas entraria fácil na edição dedicada a 1984 no lugar de Minutemen, Prince, The Replacements, Bruce Springsteen e Marillion. Aliás, reafirmo: essa edição traz uma pitada bem forte de vergonha.
Ronaldo: Ainda que imerso na influência do heavy metal dos primeiros anos da década de 1980, o Queensrÿche trabalha bem as dinâmicas e a colocação dos solos de guitarra, conseguindo um resultado distinto para o panorama da época. O foco deixa de ser as guitarras e os refrãos épicos para ser uma noção mais equânime de conjunto. Apontando para uma direção mais progressiva, a banda se dispõe a construir músicas menos lineares, e a resultante disso passa longe de ser maçante ou deslocada. "Before the Storm" é a música que melhor ilustra minhas considerações a respeito.
Ulisses: Ótimo resgate do Flávio. O primeiro full-lenght da banda já mostrava a que vinham: composições maduras, bem compostas e com atmosferas ímpares, destacando a impressionante técnica vocal do afinado Geoff Tate e a sincronia das guitarras de Chris DeGarmo e Michael Wilton. Um belo recorte entre o rock progressivo e o heavy metal tradicional (especialmente pelas vias do Iron Maiden), mas já com uma identidade sonora diferenciada das demais bandas.

Yngwie J. Malmsteen's Rising Force - Marching Out (1985)
Flavio: O sueco é polêmico, tido como insuportável (em vários aspectos), mas não poderia tirar o segundo disco de sua carreira da minha lista. Novamente, há uma "escolha de Sofia", e desta vez inverti meus critérios e não escolhi seu álbum mais infuente, deixando sua estreia para outro consultor. Na época do lançamento, já conhecia o trabalho do guitarrista no magnífico Rising Force (1984), mas em Marching Out Yngwie aponta para basear as canções também nas melodias vocais, com o excelente Jeff Scott Soto. Ao contrário do primeiro, há menos instrumentais, que também não deixam de ser arrebatadoras. O guitarrista vivia seu auge como compositor e as canções são memoráveis. Novamente, um disco que não tem pontos fracos, com excelentes canções na linha "neo-Rainbow", como "I'll See the Light Tonight", a balada "Don't Let It End", a clássica "I Am a Viking" e as soberbas faixas instrumentais, principalmente a que dá título ao álbum. Lembro-me da dificuldade que era comprar o vinil na época, um lançamento importado e muito caro, perseguido por meses a fio e que até hoje habita minha coleção.
Alexandre: O guitarrista sueco havia assombrado boa parte do público e da crítica especializada com seu disco de estréia, em 1984. Motivado talvez por dar mais visibilidade ao seu trabalho, resolveu lançar no ano seguinte um álbum mais voltado para o heavy metal, cantado em quase sua totalidade. O resultado é ótimo, pois as músicas são poderosas, Jeff Scott Soto canta demais e Yngwie está no fino de suas performances. O lado A já abre com o riff sensacional de "I’ll See the Light Tonight", música que nem o temperamental guitarrista se atreve a tirar dos seus setlists. Seguem a bela "Don’t Let It End", uma introdução virtuosa de violões que antecede uma cacetada chamada "Disciples of Hell" e a épica "I Am a Viking". Trata-se de um lado muito forte. O lado B é menos conhecido, mas isso não o desabona, muito pelo contrário. Lá estão duas instrumentais de harmonias lindíssimas ("Overture 1383" e "Marching Out") ensanduichando as demais canções cantadas, também no nível do lado A. Quase não consigo citar as competentes participações dos irmãos Johansson (Jens e Anders) nos teclados e na bateria, respectivamente. São papéis de coadjuvantes a Malmsteen e Soto, mas quando há alguma possibilidade, seus espaços são preenchidos com qualidade, como quando Jens divide o solo com Yngwie em "Anguish and Fear" e "Caught in the Middle". Uma pena que a criatividade do guitarrista se extinguiu e o restante da carreira é quase toda mais do mesmo, acrescida de uma “farofada” vez ou outra, que normalmente não ajuda. Não encontro faixas fracas no disco e ainda cito "Caught in the Middle" como outra de minhas favoritas.
André: Por mais que muitos digam o contrário, não raro sinto um certo preconceito de alguns para com o trabalho do egocêntrico guitarrista sueco. Sim, ele frita notas. Nesses primeiros discos, entretanto, e mais alguns dos anos 1990 e 2000, nunca vi isso transparecer mais do que a própria canção em si. O sujeito pode até ser intragável no dia a dia, mas não ouço sua guitarra tomando toda a canção para si como se deixasse todos os outros instrumentistas apenas fazendo fundo para que ele sole. Marching Out é muito bom, entre meus preferidos, junto com The Seventh Sign (1994), Facing the Animal (1998) e Unleash the Fury (2005) (sim, mesmo tão criticado, está entre meus favoritos), além da trinca inicial. Bangueio fácil ao som de "Disciples of Hell" e "Anguish and Fear".
Bernardo: Esse sujeito nunca me passou nada além de técnica, técnica e técnica... Nunca me comoveu, empolgou ou arrancou alguma reação além de "nossa, toca bem ele".
Christiano: É muito comum dizerem que Malmsteen é só mais um virtuoso, um atleta do instrumento etc. Acho uma enorme besteira reduzir a obra desse velho rabugento a críticas desse tipo. Ao contrário de muitos guitar heroes de seu tempo, o sueco sempre fez questão de compor músicas para toda a banda, que sempre contou com ótimos músicos e vocalistas. Neste exemplo temos Jeff Scott Soto, um dos grandes que acompanhou (e tolerou) Yngwie. Clássicos como "I'll See the Light Tonight" e “I Am a Viking” mostram toda a habilidade de Soto, considerado por muitos como o melhor cantor que trabalhou com Malmsteen. Aliás, é sempre bom lembrar que o hoje balofo guitarrista revolucionou seu instrumento, criando discípulos por todo o planeta. Você pode não gostar, mas sua importância é inegável.
Davi: Depois de deixar todos embasbacados com Rising Force, com os clássicos “Black Star” e “Far Beyond the Sun”, lançando sua emblemática mistura de heavy metal com música clássica, o guitarrista sueco voltou a chamar atenção em Marching Out, nos entregando mais alguns clássicos, dessa vez “I'll See the Light Tonight” e “I Am a Viking”. Jeff Scott Soto já tinha um belo domínio de sua voz. Malmsteen é um talento inquestionável. O cara pode ser um baita de um mala, mas não há como negar suas qualidades enquanto músico. Habilidade inacreditável, puta performance de palco. “On the Run Again” revive “Victim of the City”, dos seus tempos de Steeler. Fora as já citadas, os grandes destaques ficam por conta de “Caught in the Middle” e “Anguish and Fear”. Sem dúvidas, meu malvado favorito.
Diogo: É bem verdade que a carreira de Yngwie Malmsteen deu uma degringolada da segunda metade dos anos 1990 em diante, mas ignorar seu talento e sua influência é birra. Ao menos os quatro primeiros discos são essenciais para curtir e entender o trabalho desse sueco que pode ter ficado muito famoso por seu temperamento explosivo, mas foi essencial no desenvolvimento da guitarra desde seu primeiro álbum, fomentando uma geração de jovens músicos que se dedicaram cada vez mais a estudar o instrumento e levá-lo a patamares poucas vezes alcançados. Para minha sorte, Marching Out é justamente meu favorito, recheado de boas canções, que não se limitam a colocar Yngwie como protagonista, valorizando os (excelentes) músicos e o jovem Jeff Scott Soto, para muitos (a maioria?) o melhor vocalista com quem o sueco trabalhou. Aliás, reparem nos grandes guitarristas dessa época que optaram pela carreira solo ao invés de permanecerem nos domínios de uma banda. Difícil encontrar algum que trabalhe de maneira tão homogênea com seus colegas quanto Malmsteen, mas foi justamente ele que ficou com a má fama. Um quesito que merece crítica são as letras meio bobinhas, mas isso torna-se menor quando somos confrontados com pauladas da estirpe de "I'll See the Light Tonight" (estupenda), "Don't Let It End" (acreditem, houve uma época em que Malmsteen tinha boa mão para baladas e afins), "Disciples of Hell", "On the Run Again"... Todo o álbum é bom. Não apenas um grande solista, o cara riffava bem demais, tal qual um Ritchie Blackmore no auge e cheio de esteróides. A produção pode ser datada, mas adoro o som que ele tira de sua Stratocaster, sujo apenas na medida certa, sem apelações desnecessárias.
Fernando: Muita gente torce o nariz para o sueco que conseguiu afastar muitos fãs por conta de seu egocentrismo e de suas idissioncrasias, mas a trinca inicial de sua carreira é irretocável – alguns também acrescentam Odyssey (1988) nisso. O disco também traz um merecido maior espaço para Jeff Scott Soto. Músicas como “I Am a Viking” marcaram demais. Realmente, é uma pena que um talento tão grande tenha sido ofuscado por um ego também enorme. Muitos citam sua velocidade e seus solos intrincados, mas ele também é fera em criar riffs sensacionais.
Mairon: Daqueles três grandes guitarristas (Vai, Satriani, Malmsteen), o último é, para mim, o mais fritador e exagerado. Não que ele não tenha talento, pelo contrário, toca muito, mas suas músicas não conseguem me agradar, principalmente porque acho Jeff Scott Soto, o vocalista deste disco, um gritão. Claro, apreciei com certeza sua agilidade no violão e a introdução de "Disciples of Hell", esta última um clássico na carreira do sueco, que é estragada pelo vocal, além da linda "Overture 1383" e da melhor faixa, a espetacular "Marching Out". Somente ela, mesmo com três minutos, é melhor que 50% daquela edição horrorosa abrangendo 1985. Então, tá dentro.
Ronaldo: Disco de um verdadeiro velocista de guitarra. Cada música tem cerca de um minuto ou mais de solos de guitarra; o que vem antes e depois dos solos é um power metal bastante datado e pouco memorável.
Ulisses: Um bom exemplo de que ser um virtuoso não significa ser, ao mesmo tempo, um bom compositor. Álbum genérico que impressiona em poucos momentos.

Temple of the Dog - Temple of the Dog (1991)
Flavio: Chris Cornell se foi de maneira trágica recentemente, e os sentimentos em relação a este disco são os mais confusos possíveis. O movimento grunge iniciou a década de 1990 destruindo o cada vez mais exagerado hair metal. Nada mais justo, a coisa havia passado do ponto muito tempo antes. A banda mais famosa do movimento, porém, nunca me cativou; sempre achei que faltava um mínimo de qualidade no som do Nirvana, e isso me afastou dela até hoje. Da mesma forma que o punk, não consigo aceitar muito bem a agressividade ou força por si só, sem um mínimo de harmonia e qualidade. Havia, porém, outras bandas colocadas no mesmo movimento que traziam esses outros aspectos. O Pearl Jam, em seu primeiro disco, além de Alice in Chains e Soundgarden, trazem muitas coisas interessantes, e Chris Cornell é uma delas. Temple of the Dog é um projeto de Cornell em homenagem a um amigo morto à época, Andrew Wood, que reuniu os futuros integrantes do Pearl Jam, inclusive o vocalista de apoio convidado, Eddie Vedder. Poderíamos dizer que se trata de quase um pré-Pearl Jam, com Chris Cornell cantando junto. O resultado é ótimo. Gravado sem pressões de gravadoras e autoproduzido, o disco é uma explosão de espontaneidade, com excelentes performances e canções, que acabou por fazer sucesso. Mais um dos discos que funcionam como um todo, Temple of the Dog trouxe os ótimos singles "Say Hello 2 Heaven", "Pushin Forward Back" e "Hunger Strike" (a mais conhecida), além de outros petardos, como "Reach Down", "Times of Trouble", "Four Walled World" e a linda balada "Call Me a Dog". Nunca planejei uma homenagem a Cornell, mas acabo deixando uma singela, incluindo este maravilhoso disco por aqui.
Alexandre: Bem, não há como escrever isto aqui sem lembrar do recente falecimento de Chris Cornell. E é este o álbum com Cornell do qual mais gosto, mais do que os discos com o Soundgarden, mais do que os trabalhos no Audioslave. Nessa época, Chris, que sempre foi tido como um ótimo vocalista, cantava demais. O disco inteiro é isso, timbres fora do comum mesmo. O que a princípio era um projeto homenagem, meio sem querer acabou por ser um dos melhores exemplos da cena em Seattle, e para quem quiser entender como, um dos melhores do gênero Grunge. Se a questão é comparar, só o comparo com Ten (1991), do Pearl Jam. Para mim, todos os demais álbuns da cena estão abaixo deste. Foi como capturar um momento, com a junção despretensiosa desses caras, disponíveis naquele instante.  A mim pouco importa se é Grunge ou não. Importa é que as músicas são ótimas, que o fato de Chris se unir a Eddie Vedder em um bom punhado de canções é algo espetacular, e isso é o que fica. Em especial, a divisão dos vocais em "Hunger Strike", mas também nas demais músicas, prioritariamente a cargo de Cornell, com alguns bons backings de Vedder. Dessas, "Say Hello 2 Heaven", "Reach Down", "Call Me a Dog" e "Four Walled World" se sobressaem. Há de se citar o bom trabalho do conjunto/projeto, que mostra uma química muito forte, inclusive na boa escolha dos timbres e na mixagem e produção. Tudo isso foi feito pelo grupo em coprodução com Rick Parashar, que se encarregou dos timbres de teclados e pianos que sublinham o disco. Para 1991, entraria tranquilo, na minha opinião.
André: Sei que ainda pode haver fãs sentidos pela morte de Cornell lendo esta matéria, mas já adianto que, desde sempre, nunca curti seu vocal. Podem conferir em outras edições da série das quais participei. Não adianta, é algo que não me vai. Se eu já não curtia o Soundgarden, seu projeto paralelo (com uma intenção bonita, diga-se de passagem) me é ainda menos apreciável.
Bernardo: Obrigado por lembrar deste disco um tempo após perdermos Chris Cornell. Que grande vocalista que, acompanhado de Eddie Vedder, fez um dos melhores discos dos anos 1990. Ouça "Hunger Strike" e comprove.
Christiano: Um supertime de músicos da cena de Seattle em uma espécie de colaboração entre membros do Soundgarden e do Pearl Jam, que estavam começando a ter enorme projeção mundial na época. O disco é um tributo a Andrew Wood, vocalista do Mother Love Bone, banda seminal para o que viria a ser conhecido como Grunge. O resultado desse projeto foi um ótimo álbum que gerou clássicos como “Reach Down”, “Hunger Strike” e “Call Me a Dog”. É desnecessário citar a voz marcante e o talento de Chris Cornell que, infelizmente, faleceu há poucos dias.
Davi: Este eu não esperava. Para quem está por fora, trata-se de uma homenagem ao vocalista Andrew Wood, do Mother Love Bone, que morreu aos 24 anos, vítima de uma overdose de heroína. Chris Cornell, outro herói do Grunge que nos deixou recentemente, era colega de quarto de Andrew e quis fazer uma homenagem ao amigo. Sem dúvidas, Cornell era a melhor voz daquela cena. Isso pode ser comprovado não apenas neste álbum, mas também em uma audição mais atenta ao clássico Badmotorfinger (Soundgarden, 1991). O material, em sua maioria, é mais arrastado e melódico que o som mais agressivo do Soundgarden – principalmente se comparado aos dias de Louder than Love (1989) – e da pegada hard do Mother Love Bone. As exceções ficam por conta da pesadinha “Pushin Forward Back” e da swingada “Your Savior”. Este disco caiu nas graças do público depois da explosão do Pearl Jam. Afinal, temos as primeiras gravações profissionais de Eddie Vedder nos hoje clássicos “Say Hello 2 Heaven” e “Hunger Strike”. O Pearl Jam estava sendo criado durante as gravações do disco e Vedder acabou sendo o escolhido para fazer os dois duetos. Também vale prestar atenção em “Wooden Jesus” e “Four Walled World”. Bela lembrança.
Diogo: Este é o único álbum presente nesta lista que eu não possuo em minha coleção, seja em formato físico ou virtual. Apenas conhecia "Hunger Strike", que, inclusive, sequer é a melhor canção. Não à toa, pois acho que Eddie Vedder passa a léguas de distância de ser um vocalista tão bom quanto Chris Cornell. Seus futuros companheiros de Pearl Jam, felizmente, fazem um bom trabalho, com a maior cara de jam trabalhada e retrabalhada. Excedem-se em alguns momentos, que poderiam ter sido limados ("Reach Down" é desenecessariamente longa), mas quando são mais objetivos se saem muito bem. Um disco como este é, inclusive, um furo naquela teoria de que o Grunge é o punk rock que deu certo, pois a sonoridade que se ouve em Temple of the Dog tem muito mais a ver com aquele rock mais largadão feito nos anos 1970 dois dois lados do Atlântico (de Neil Young ao Faces, passando até por – juro! – Free e Bad Company) do que com a urgência do punk. Isso é um exemplo de como o sucesso do Nirvana distorceu as coisas, pois basta observar o restante da cena para perceber uma variedade bem maior do que se supõe. O mais interessante da história toda é que se trata de um projeto concebido antes da coisa toda estourar, então não devia haver toda a pressão e expectativa relacionada a formações desse tipo. O resultado? Ótimas canções como "Say Hello 2 Heaven", "Call Me a Dog" e "Four Walled World".
Fernando: Este é o único disco presente nesta edição que eu não tenho na minha coleção e foi o primeiro que pensei em ouvir quando soube da lamentável morte de Chris Cornell. Curioso é que as pessoas se interessaram mais por ele depois que o Pearl Jam ficou conhecido, por ter a participação de Eddie Vedder, do que necessariamente por conta de Chris Cornell. O dueto de ambos em “Hunger Strike” é ótimo. Bela lembrança!
Mairon: Um timaço Grunge fazendo um discaço Grunge, só pode ser coisa boa. Chris Cornell, Jeff Ament e, principalmente, Stone Gossard e Mike McCready são os caras que mais chamam atenção neste álbum. Claro, o batera Matt Cameron também, mas com exceção do swing de "Your Saviour", ele não tem uma faixa na qual brilhe mais que os colegas. Os guitarristas são o cerne da épica "Reach Down", 11 minutos de um Grunge de altíssimo calibre, com guitarras dobradas e solos matadores. Eles e Cornell arrasam na balada "Call Me a Dog". Já Cornell leva com naturalidade a semibalada "Say Hello 2 Heaven", a calminha (mas nem tanto) "Hunger Strike" e a essencialmente Grunge "Four Walled World". Ainda temos o peso de "Pushin Forward Back" e os momentos acústicos de "Times of Trouble", com um pequeno show particular de Cornell na harmônica. Talvez "Wooden Jesus" e "All Night Thing" sejam peças desnecessárias de um excelente disco. Em uma lista poderosa como a de 1991, Temple of the Dog poderia ter entrado no lugar do Death, ou até mesmo do irmão gêmeo Badmotorfinger. Baita lembrança!!
Ronaldo: Um disco tributo cuja concepção surgiu a partir de jam sessions. É possível notar que as músicas partem de fragmentos musicais muito simples, que foram sendo paulatinamente desenvolvidos em conjunto (ainda que sobre isso pesem as inúmeras repetições desses mesmos fragmentos). O resultado é muito eficaz, com um rock equilibrado e bem vocalizado. O disco passa aquele ar de ressaca que o rock vivia após a enxurrada de excessos do hair metal, ainda que certas músicas pudessem ser melhores com alguns minutos a menos.
Ulisses: Primeira vez que ouço este álbum na íntegra. Já sabia que era uma ideia de Cornell para homenagear um amigo falecido, mas não esperava encontrar Eddie Vedder fazendo alguns vocais de apoio. O CD é historicamente interessante por ser lançado antes da explosão da fama do Soundgarden (com Badmotorfinger, alguns meses depois) e do Pearl Jam. Trata-se de um rock bastante sólido, já com a cara dos anos 1990, e até bem melódico, destacando bons refrãos – soa como um exemplo de transição entre o rock das décadas passadas e a sonoridade de Seattle. "Reach Down", que tem incríveis 11 minutos, se sustenta por seu excelente aspecto jam e me surpreendeu, tornando-se minha favorita.

Badlands - Voodoo Highway (1991)
Flavio: As tais gravações em fitas cassete ainda permeavam meus hábitos quando fui conhecer essa banda, estimulado pela presença de Jake E. Lee. Ao fazer um apanhado deste disco em um dos lados da fita, fui gradativamente compreendendo como Voodoo Highway é forte. Eu gostava de tudo, e que vocalista era esse? Ray Gillen tinha um vocal impressionante, muito bem aplicável ao estilo hard rock, que já estava em baixa na época e talvez por isso não tenha consagrado o Badlands. Em Voodoo Highway, além do forte hard rock calcado na espetacular guitarra de Jake, há algumas pitadas de country rock e de blues, como o slide de "The Last Time", na faixa-título, em "Whiskey Dust" e na entrada de "Joey's Blues". O forte mesmo, porém, é o hard rock "zeppeliano" adaptado para os anos 1990. O trabalho da cozinha é ótimo, como em "Soul Stealer". O baterista Jeff Martin, substituindo Eric Singer, parece ainda mais bem adaptado à banda, ajudando a fazer com que este segundo disco consiga ser superior à ótima estreia. Há leves pitadas funk/soul na ótima "3 Day Funk". Destaco também "Show Me the Way" e "Silver Horses". Apesar de adorar a versão original de "Fire and Rain" (James Taylor), adorei também o que o Badlands fez, tornando-a quase irreconhecível, outro destaque (e devem vir pedradas de tudo quanto é lado). Voodoo Highway é um super disco. Que bom que tive a oportunidade de resgatá-lo!
Alexandre: Apesar do não ter mais Eric Singer na batera, é bem melhor que o já bom disco de estreia. Ray Gillen é mais um dos grandes cantores que habitam esta lista. Jake E. Lee sempre foi um dos meus guitarristas favoritos, apesar dos grandes desafios que teve de encarar na banda de Ozzy, pelo menos dois: substituir alguém insubstituível como Randy Rhoads e ter de aturar as sacanagens de Ozzy e Sharon. Pelo motivo dois, Jake largou o posto de prestígio e resolveu tocar esse projeto com a ajuda de Gillen. O resultado é uma mistura especial de hard rock com toques de country, blues e um pouco do funk norte-americano em 12 ótimas canções próprias, além de uma senhora releitura de "Fire and Rain", de James Taylor, que ficou inacreditavelmente boa nessa versão recheada de overdrives. A boa cozinha de Jeff Martin e Greg Chaisson faz um trabalho bem competente durante todo o disco, mas neste caso o negócio realmente fica bem mais concentrado entre Ray e Jake. O guitarrista se arrisca nos violões em "Joe’s Blues", com grande maestria. A dupla assina as demais canções praticamente sozinhos, com uma ou outra intervenção de Greg. De resto, é destacar os melhores momentos, pois apenas a faixa-título me parece não ter a força para ser o nome do álbum. "Silver Horses" é minha primeira eleita, destacada de tantas outras boas canções. A música tem um riff que faria Stevie Ray Vaughan exibir seu melhor sorriso, seja lá onde ele estiver. "Show me the Way", "The Last Time" e "3 Day Funk" também estão entre minhas preferidas. Os desentendimentos entre Ray Gillen e Jake E. Lee, somados aos problemas de saúde do vocalista, não deixaram que esse supergrupo fosse para frente. É certo que o álbum também saiu em uma época em que não havia muito espaço para o estilo, fato que também atrapalhou. Uma pena, pois se trata de um ótimo disco muito bem lembrado pelo Flávio.
André: Adoro a guitarra de Jake E. Lee com Ozzy. Também adoro os vocais de Ray Gillen. Um time de primeira forma o Badlands, banda muito subestimada da cena. Ouvindo agora, lamento não ter me lembrado deste discaço para a edição abrangendo 1991. Flávio fez justiça a este álbum. Hard rock excelente, temperado de blues, contando com "Shine On" e Lee nos presenteando com licks ganchudos. "Whiskey Dust" é outra em veia similar. Só Ozzy para saber reconhecer um guitarrista foda mesmo para recrutar para sua banda solo.
Bernardo: Tem um ex-vocalista do Black Sabbath e um ex-guitarrista de Ozzy Osbourne. E ainda consegue ser sem graça.
Christiano: O início da década de 1990 foi uma época muito interessante. Enquanto o hard rock espalhafatoso de bandas como Poison e Warrant mostrava claros sinais de desgaste, uma nova geração de músicos apresentava uma nova estética tanto musical quanto comportamental. Era a tal cena de Seattle, representada por grupos como Nirvana, Pearl Jam e Soundgarden. Acessórios como baton, purpurina e pó-de-arroz deram lugar a camisas de flanela e a uma reaproximação com um tipo de rock mais básico, sujo e introspectivo. No meio de toda essa mudança, alguns grupos de hard rock retomaram as raízes mais blueseiras do estilo, dando novo fôlego ao que já parecia morto. Ao lado do Cinderella, o Badlands foi uma dessas bandas. Voodoo Highway é seu segundo trabalho e traz uma maior ênfase na pegada blues já bastante evidente em seu álbum de estreia. A presença de músicos já bem reconhecidos naquela época, como Jake E. Lee e Ray Gillen, não foi suficiente para alavancar a carreira do Badlands. É uma pena, visto que neste segundo álbum somos presenteados com pérolas como “Whiskey Dust”, “Show Me the Way” e “Soul Stealer”. Infelizmente, este é um exemplo perfeito de disco injustiçado.
Davi: Ainda não consegui decidir de qual álbum gosto mais. Se deste ou do autointitulado (1989). Dusk (1998) é, sem dúvidas, o mais fraco, mas também não dá para malhar, até porque é um trabalho que eles não chegaram a finalizar. Quando o disco póstumo saiu, o CD com as demos já existia havia alguns anos. Voltando a este trabalho, Jeff Martin é um bom baterista, mas não tem a pegada e nem a criatividade de Eric Singer. Jake E. Lee sempre foi um monstro (o trabalho que ele fez com o Ozzy é animal. Gosto até mais dele do que de Zakky Wylde) e Ray Gillen é simplesmente um dos grandes vocalistas do hard rock. Acho uma pena que nunca tenha alcançado o reconhecimento que merecia. Em termos de composição, é perfeito. Pode até deixar no repeat. Para não dizer que fugi da raia, minhas preferidas são “The Last Time”, “Whiskey Dust”, “3 Day Funk”, “Silver Horses”, “Soul Stealer, “Fire and Rain” e “Heaven's Train”. Este era um dos que estariam na minha lista. Maldade isso...
Diogo: Já devo ter dito algo parecido antes, mas azar. Quem associa o Badlands ao glam metal em função do contexto da época e pelo fato de Jake E. Lee ter gravado o álbum mais "colorido" de Ozzy Osbourne não faz a mínima ideia do que está falando e sequer se deu ao trabalho de ouvir os discos. Tanto Voodoo Highway quanto o álbum de estreia são excelentes exemplos de rock pesado de pegada blueseira. Gosto um pouco mais do primeiro, com uma produção de maior qualidade, mas Voodoo Highway também é uma bela obra. Jake E. Lee é um dos melhores guitarristas de sua época e um dos menos firuleiros. Recusava-se, inclusive, a usar ponte móvel em suas guitarras, mantendo um set-up mais reduzido que seus companheiros de geração. Ray Gillen teve uma carreira curtíssima, mas isso bastou para que se tornasse um dos meus vocalistas favoritos. Juntos a uma cozinha competente, a dupla botou para fora faixas que são a fiel representação da origem norte-americana do rock, com swing, muito blues, alma sulista e a pinta de que chegaram no estúdio, plugaram os instrumentos e começaram a compor em cima de jams puxadas por Jake. "The Last Time" é minha favorita, escolha certa para divulgar o álbum, mas praticamente todo o disco é muito bom, destacando-se talvez "Show Me the Way", "Soul Stealer", "Whiskey Dust" e "Silver Horses" levemente acima. Não me canso de reafirmar: o que toca esse Jake E. Lee é coisa de louco, inspiração para guitarristas de diferentes estirpes. Pena que, após o insucesso do Badlands, deixou a carreira musical meio de lado e só voltou a aparecer com algum destaque há poucos anos.
Fernando: Particularmente, prefiro o disco de estreia. Sempre achei este segundo bem inferior ao primeiro, e ambos muito superiores ao terceiro e último. Ouvindo agora eu acabei gostando até mais do que das outras vezes. Ou seja, ele subiu um pouco mais no meu conceito. A voz de Ray Gillen está fantástica neste álbum, aliás, algo frequente em toda sua curta carreira.
Mairon: Este é o segundo disco dessa bandaça, que infelizmente não durou muito tempo. Com Jeff Martin substituindo Eric Singer, o grupo perdeu um pouco de força, mas mesmo assim continuou mandando ver. Ray Gillen é um baita vocalista, basta ver o que ele faz em faixas como "The Last Time", a gospel "In a Dream", acompanhado apenas pelo dobro de Jake E. Lee, e a baladaça "Fire and Rain". Já Jake é um dos guitarristas mais injustiçados que conheço, estraçalhando na guitarra em "Whiskey Dust", Silver Horses", arrepiando com o dobro em "Voodoo Highway", criando um riff grudento em "Heaven's Train" e debulhando o violão em "Joe's Blues". Quando se fala nos grandes nomes dos anos 1980, sempre vêm Malmsteen, Satriani, Vai, Randy Rhoads e até Zakk Wylde, mas o cara é um animal. Não sei por que, mas a linha harmônica de "Shine On" e "3 Day Funk" me lembra algo do Grand Funk Railroad, acho que pelo embalão delas (a primeira tem um gene de "Sin's a Good Man's Brother" muito forte nos meus ouvidos nas linhas vocais), enquanto "Soul Stealer" é o Led Zeppelin pisando nos anos 1990. Fecham Voodoo Highway "Show Me the Way" e o embalo de "Love Don't Mean a Thing", o que atesta o fato de que o que esses caras tocavam virava algo prazerosamente audível. Prefiro o primeiro, mas este entrava fácil no lugar do Death, com certeza.
Ronaldo: Nada como um boa leitura do passado para se escrever um presente mais interessante. Acho que isso poderia ter sido dito naquele 1991 em que o Badlands estava buscando um lugar ao sol. E a síntese dessa busca é justamente retomar como centro da música a noção do conjunto (algo que os leitores da CR devem estar cansados de me ver destacar como ponto positivo em minhas resenhas). É um tipo de disco que se pode ouvir diversas vezes e em cada uma delas ter um incrível prazer ao acompanhar apenas a voz; em outro ouvir as precisas linhas de baixo e em outro vibrar com a destreza da bateria ou o vigor das guitarras. Pura lúxuria instrumental a serviço de um rock 'n' roll de primeira grandeza.
Ulisses: Não sei por que nunca me graduei do autointitulado da banda. Valeu pelo empurrão, Flavio! Voodoo Highway é um bom disco, sólido do começo ao fim. Sem muitas faixas fracas ("In a Dream" é uma delas) e contando com um Jake E. Lee que está dando aulas de guitarra no álbum inteiro – me impressionou especialmente em "Whiskey Dust" e "Silver Horses". A cozinha é proeminente e criativa e Ray Gillen é um excelente vocalista. Fãs de hard rock não têm do que reclamar.

Coverdale•Page - Coverdale•Page (1993)
Flavio: Este foi o meu último escolhido e também é o caçula da lista, com quase 25 anos de lançamento. Ao me deparar com a defesa de Coverdale•Page, questionei-me firmemente por que, por exemplo, havia deixado outro petardo alemão com Ulrich Roth de fora para considerá-lo, e fui tentar me contextualizar para justificar a escolha. Quando comecei a me envolver com o rock 'n' roll, o Led Zeppelin havia encerrado atividades anos antes, eu já estava orfão. É claro que os registros do Led Zeppelin foram sendo conhecidos paulatinamente até eu considerá-la a melhor banda que existiu no planeta. E o que isso tem a ver com este disco? Bom, ao saber do lançamento, tive a chance de rever Page acompanhado de uma grande presença, um grande vocalista. Esse fato apontava para um pequeno prêmio de consolação, tendo enfim uma novidade de Page lançada na minha época de rock 'n' roll! Ao ouvir Coverdale se esforçando para soar como Plant (talvez venham me crucificar de todas as formas), decidi ver o lado bom. Achei ótima a ideia. Coverdale adoraria ser Plant e eu adorei que ele tentou sê-lo neste disco. Então não há nada de errado: o álbum é ótimo, com muitos elementos da melhor banda do planeta e também outros tantos que Plant, quer dizer, Coverdale trouxe da sua bagagem. Há ótimas canções, com Page muito inspirado, usando aquelas afinações esquisitas e instrumentos folk/acústicos, misturados no puro hard rock, para meu deleite. Destaco duas canções, mas deixo claro que gosto de tudo: o bluesaço lento "Don't Leave Me This Way" e o petardo "Whisper a Prayer for the Dying" justificam este disco como nada menos que espetacular. Por fim, pelo que sei, Plant entendeu isso aqui e logo a seguir voltaria a dupla com Page.  E em 1996 estava eu na Praça da Apoteose, vendo os dois juntos.
Alexandre: Tinha tudo para ser um excelente álbum, e de fato é um bom trabalho, mas fica o sentimento de que se David Coverdale tentasse soar mais como ele mesmo (principalmente no início da carreira junto ao Whitesnake) e menos como um Robert Plant envelhecido, tentando agudos em plenos anos 1990, o resultado poderia ser ainda melhor. "Whisper a Prayer for the Dying" é uma grande composição de Jimmy Page, que poderia ter ficado melhor sem os agudos exagerados de David. Esse é o único ponto desfavorável à junção desses talentos indiscutíveis. Juntamente com o álbum do Uriah Heep, trata-se do álbum do qual menos gosto em uma lista impecável. Isso não quer dizer que não haja muita coisa interessante. Afinal, é o velho Page destilando classe, se destacando nas linhas menos óbvias de "Waiting on You". As baladas, momentos em que Coverdale sempre foi um dos grandes, ficaram excelentes. "Take Me for a Little While" e "Take a Look at Yourself" são ótimas canções, que mostram o melhor do vocalista. Além disso, David sempre deu interpretações marcantes para os blues, desta forma "Don’t Leave Me This Way", mesmo com certo exagero dos agudos no fim, é simplesmente sensacional. A canção juntou dois monstros naquilo em que eles são mestres, é a melhor do álbum. Quando Coverdale tenta demais ser Plant, como em "Easy Does It", eu passo. Mas para 1993 este disco entra, e digo mais, é melhor que a grande maioria do que está relacionado naquela edição.
André: Em se tratando de dois nomes fortes do rock, esperava coisa muito melhor. Não digo que seja ruim, mas é aquela sensação de que o peso da camisa que ambos vestem me traz expectativas enormes. Gostaria de ver algo como uma mistura das duas bandas, mas a impressão que dá é de apenas um disco de sobras do Whitesnake. Nem Page passa aquele toque Led Zeppelin que eu esperaria, dando a impressão de ser apenas mais um membro do grupo de Coverdale. Gosto de "Take a Look at Yourself", mas é pouco para tantas outras músicas que ficam ali no médio, com um pouco de bom. Aliás, acho "Easy Does It" bem chatinha. Enfim, aquele disco nota 6,5, que não me trouxe muita coisa.
Bernardo: O famoso "álbum naftalina", juntando dois medalhões que já haviam visto melhores dias para compor um pálido fantasma do que ambos já foram. Não tem nada que seja metade do que foram a Mark III do Deep Purple ou mesmo o Led Zeppelin, mas bem, são Coverdale e Page, certo? Mesmo que lancem um álbum de covers de sertanejo universitário  tocado com cítaras, só a curiosidade já vale.
Christiano: Jimmy Page é um dos maiores guitarristas de todos os tempos. Coverdale gravou discos clássicos com o Deep Purple e o Whitesnake. A união dessas duas lendas foi recebida com entusiasmo por seus admiradores. O resultado? Um disco muito bom, embora eu não o considere um primor. A abertura, com “Shake My Tree”, é empolgante. “Waiting on You” mantém o nível. No entanto, apesar do início altamente promissor, a coisa esfria um pouco em “Over Now” e “Feeling Hot”. Mas “Easy Does It” recoloca o trem nos trilhos, lembrando os tempos de Led Zeppelin. Outro ponto alto é “Don’t Leave Me this Way”, com Page mostrando sua capacidade de criar climas pesados e meio místicos. Não o considero um clássico, mas é um bom álbum.
Davi: Fazia muito tempo que não ouvia este disco. Não porque não tenha curtido, pelo contrário. Ouvi tanto na época que resolvi deixá-lo um pouco de lado. Perdi as contas de quantas vezes “Shake My Tree” e “Pride and Joy” tocaram nos meus falantes. Também não tinha como essa junção dar errado, né? Sem contar que Coverdale estava em uma puta fase, cantando pra caralho (repare em “Absolution Blues” e tire suas conclusões). “Feeling Hot” traz a pegada Zeppelin em evidência, assim como as quebradas de bateria em “Take a Look at Yourself”. Outro grande destaque é o rock “Waiting on You”. Para ouvir no talo!
Diogo: Sabe quando o resultado é inferior à soma dos fatores? Este é um exemplo. Veja bem, eu gosto muito do disco, tenho minha cópia há vários anos, mas quem espera algo tão retumbante quanto a mistura desses dois grandes talentos pode se decepcionar. Em alguns momentos, isso se concretiza, em outros não. "Shake My Tree" foi a escolha perfeita para abrir o disco, mostrando aquilo que esses caras sabem fazer de melhor, um pleno amálgama de seus estilos. "Waiting on You" (especialmente), "Take Me for a Little While" e "Feeling Hot" também empolgam bastante, soando mais como se Coverdale tivesse contratado Page para o Whitesnake do que qualquer outra coisa. O equilíbrio volta à tona com "Whisper a Prayer for the Dying", outra boa canção, correto encerramento de um disco deslocado de sua época, mas que serviu para novamente colocar em evidência o nome de Jimmy Page, pouco produtivo na década de 1980 tanto em quantidade quanto em qualidade. De negativo, destaco que a produção acabou deixando a sonoridade lustrosa demais e um pouco confusa.
Fernando: Juntar dois monstros assim é garantia de coisa boa. Em muitos momentos, David Coverdale tenta emular um pouco Robert Plant, o que até gerou um comentário sarcástico do próprio Plant sobre isso. Aliás, Page queria mesmo ter seu antigo parceiro de Led Zeppelin, mas ele se recusou. Em algumas faixas, o álbum soa como se o Led Zeppelin tivesse gravado algum material nos anos 1990, como na faixa de abertura, “Shake My Tree”. Entretanto, a balança também pendeu para o lado do Whitesnake em “Waiting on You”. Vale a pena para fãs das carreiras de ambos.
Mairon: David Coverdale novamente se fazendo presente na lista do Flávio, e aqui acompanhado de Jimmy Page. Temos uma fusão sensacional do som do Led Zeppelin com o do Whitesnake, apesar de Coverdale exagerar em emular Robert Plant, mas nada disso prejudica o álbum. As canções mais "zeppelianas" são "Shake My Tree", contando até com Coverdale na harmônica – ótima para abrir um álbum –; a intro à la "In the Evening" de "Absolution Blues" – faixa veloz com um piquezão bem Led –; "Easy Does It", que lembra muito canções de Led Zeppelin III (1970), por conta dos momentos acústicos – assim como "Pride and Joy", que parece saída das gravações de Led Zeppelin IV (1971), de novo com a harmônica de Coverdale mandando fortes emoções para o cérebro –; os elementos orientais de "Over Now e aquele climão "Kashmir"/"I'm Gonna Crawl" de "Don't Leave Me This Way", com um grandioso solo de Page. O Whitesnake está presente nas baladaças "Take a Look at Yourself" e "Take Me for a Little While", enquanto "Whisper a Prayer for the Dying' (com uma leve citação a "Kashmir"), "Waiting on You" e "Feeling Hot" mesclam bem o espírito farofa do Whitesnake com o peso da guitarra, baixo e bateria do Led. Trata-se de um dos grandes discos dos anos 1990, que novamente trouxe Page para as páginas (perdoem o trocadilho) da mídia. É uma lástima que o projeto não tenha continuado, mas ao que parece Coverdale quer retomá-lo. Tomara! Se o Flávio tivesse participado da edição dedicada a 1993, este álbum certamente teria entrado, já que votei nele em terceiro colocado. Assim não precisaríamos de absurdos como Death, Nirvana e Carcass. Mais um a sair da minha lista. Parabéns, Flávio.
Ronaldo: Talvez o melhor momento de Jimmy Page após o Led Zeppelin. Neste disco, ele apresenta sua leitura do blues, com a interpretação peculiar e pouco reverenciosa que lhe tornou célebre. Aliado à poderosa voz de David Coverdale, este foi um caso em que a soma dos talentos confirmou o axioma da matemática.
Ulisses: Para um álbum que une dois monstros do rock, nunca conseguiu me impressionar, a não ser nos momentos de arranjos épicos e expressivos, um pouco deslocados do lugar comum do hard rock. É o caso de "Over Now" e "Whisper a Prayer for the Dying". "Take Me for a Little While" é boa, mas sua duração passa do ponto. Já troços insossos como "Easy Does It" e "Take a Look at Yourself" poderiam ter ficado de fora...
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