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sábado, 8 de dezembro de 2018

Consultoria Recomenda: Casais




Com Fernando Bueno, Mairon Machado, Ronaldo Rodrigues, Davi Pascale, Alisson Caetano e Nilo Vieira


A convivência de um casal exige muita paciência, dedicação, carinho, atenção, confiança, entre outras diversas qualidades positivas que façam da união dos dois algo saudável e possível de existir. Imagina então tentar levar tudo isso para os palcos e estúdios. Vários foram os casais que fizeram sucesso no mundo da música. Alguns por muitos anos, com vários lançamentos. Outros, por breve período de tempo, com apenas um único disco. Alguns casais são clássicos, outros poucos sabem que havia um casal naquela banda. O Consultoria Recomenda de hoje resgata seis discos de bandas/artistas que são casais, passeando pelas décadas de 60, 70, 80, 90 e 2000. Use nossos comentários para indicar outros álbuns e casais que você lembre, e claro, fique a vontade para ler as opiniões de nossos consultores.




Ike & Tina Turner – River Deep – Mountain High (1966)
Recomendado por Fernando Bueno


É impossível ouvir esse disco sem lembrar de todas as histórias do relacionamento do casal Ike e Tina. Lembro que eu sabia quem era a Tina Turner somente por conta de Mad Max 3 e na época ouvi/li um comentário sobre o filme em que metade dele era falando em como ela sofreu com o ex-marido. Como pode um cara tão talentoso como músico, produtor, arranjador ser tão escroto como pessoa? Nesse disco ele deixou que Tina brilhasse mais, mas imagina a pressão sobre a moça. Impressiona é que quando se vê imagens da época ela se entrega tanto no palco que fica a certeza que era seu modo de desabafar. Até mesmo a capa entrega como estava o clima com os olhar distante de Tina em contraponto com o olhar de vigia de Ike.


Mairon: Um dos grandes discos de casais de todos os tempos, esse álbum era uma das minhas opções quando o tema foi sugerido. Ike e Tina fizeram tudo o que se podia no mundo da música, e em especial, suas gravações são pura energia, além de um talento incomensurável. Nesse álbum em especial, Ike resolveu ficar apenas na produção, dando apenas um apoio vocal em faixas rockers do porte de “Make ‘Em Wait” e “It’s Gonna Work Out Fine”. Largando sua guitarra, ele cria na produção um disco sem igual. É muito vigor exalado de “A Fool in Love”, “Oh Baby!”, “Such a Fool for You” e “You’re So Fine”. A faixa-título é um clássico, sem mais, na qual Tina solta a voz (como ela cantava), e a wall of sound de Phil Spector cria raízes. Mas quer entender o que é essa parede sonora, cai de boca no chão em “A Love Like Yours (Don’t Come Knocking Everyday)”, “Hold On Baby”,”Save the Last Dance for Me”. Mesmo quando a dupla resolve entregar-se à emoção de sons mais amenos, vide “Every Day I Have to Cry” e “I Idolize You”, a coisa arrepia até a espinha. O relançamento de 1969 trouxe mais da parede sonora em “I’ll Never Need More Than This”, Uma banda sensacional, com as Ikettes obviamente fazendo um trabalho fantástico, e um disco para ser ouvido por eras.


Ronaldo: O famoso casal Turner deveria ter mais mérito por sua contribuição para o pop do meado dos 60’s. O legado da dupla ficou para sempre pichado pelo machismo e agressividade de Ike Turner e obscurecido pelo sucesso estrondoso da carreira solo de Tina Turner a partir do fim dos anos 70. Ike era um guitarrista habilidoso, com origens no blues, e era o gerentão de um combo que mesclava com habilidade a energia do r&b junto de um girl-group envenado, cuja locomotiva era Tina e sua incrível habilidade de cantar e dançar simultaneamente. Apesar do disco ter arranjos orquestrais pomposos e um pouco exagerados, se trata de um disco bem divertido, com um clássica faixa título. Indicado para quem achava Amy Winehouse uma grande novidade.


Davi: Os bastidores desse disco devem ter sido surreal. Tanto Ike quanto Phil Spector são conhecidos por serem um tanto quanto temperamentais. Ninguém questiona as habilidades de Phil Spector enquanto produtor. Eu, particularmente, não gosto da produção dele no Let It Be (The Beatles), mas adoro o trabalho que fez com grupos como The Crystals, The Ronettes e os Righteous Brothers. Ike, enquanto pessoa, também não era nenhum exemplo, mas não há como negar suas qualidades enquanto músico. Musicalmente, lógico que a junção deu certo. Mas, que as gravações devem ter sido o que hoje se costuma chamar de tiro, porrada e bomba, não duvido nada. O disco é simplesmente delicioso. Traz aquele R&B maroto, com base na soul music, uma sonoridade alegre, mas ainda transbordando emoção. Sonoridade, simplesmente, mágica. Tina Turner já era uma cantora de mão cheia. Trabalho vocal maravilhoso. E o repertório é muito legal também. “Idolize You”, “Such a Fool For You” e “A Fool In Love” são gravações perfeitas. “River Deep, Mountain High”, então, nem se fala. Clássico absoluto. Em uma palavra: Discaço! Um dos mais legais dessa lista.


Nilo: Não eram um bom exemplo de casal, mas a química artística aqui é inegável. Se somente com Ike na mesa a tendência era a grandiosidade, com Phil Spector o negócio atingiu níveis absurdos. A voz de Tina ecoa pra todo lado, parece que gravaram num ginásio. Nenhuma canção passa dos quatro minutos, mas a sensação ao final é de ter sobrevivido a um apocalipse apaixonado. Impossível não respeitar, mesmo que não esteja alinhado com minhas preferências.


Alisson: Dois pilares sustentam o interesse pelo disco. O primeiro é a produção de Phil Spector. Se o disco ganhou a intensidade e reverência que possui atualmente, muito se deve aos arranjos orquestrais e à produção, que faz parecer uma execução gravada ao vivo de dentro de um estádio. O segundo é a entrega de Tina Turner em basicamente todas as canções. A emoção de sua voz em clássicos como “A Love Like Yours” e na faixa título talvez provaram para a própria Tina que ela poderia ser gigante sem o sofrimento excruciante que passava ao lado de Ike na época.



It’s A Beautiful Day – It’s A Beautiful Day (1969)
Recomendado por Mairon Machado


Fabulosa estreia dessa grande banda da segunda geração flower power californiano. O casal Linda (teclados) e David LaFlamme (violinos, vocais), ao lado da excepcional Patti Smith (vocais), Hal Wagenet (guitarras), Mitchell Holman (baixo, vocais) e Val Fuentes (bateria) criaram canções fantásticas nesse álbum, e o casamento do órgão com o violino vai muito bem, principalmente nas pérolas “Hot Summer Day”, “Bulgaria” e “Time Is”, além da emblemática “Bombay Calling”, faixa de qualidade acima do comum, cujo riff foi chupado sem dó nem piedade pelo Deep Purple para gravar “Child in Time”, o que levou a uma grande briga entre os dois grupos. O blues viciado de “Wasted Union Blues” é uma pequena amostra das loucuras que o LSD em excesso pode construir. Que baita faixa! Ainda temos a linda “White Bird”, talvez o maior sucesso dos americanos, e a suave “Girl With No Eyes”, Para se chapar a beira de uma praia ensolarada, com muita cerveja e batatas chips bem fritas.


Fernando: O disco iniciou com a melhor faixa do disco, “White Bird”, e fiquei com a impressão que David LaFlamme estava tentando empostar a voz para fazer um contraponto com a voz de Pattie Santos em uma tentativa de suplantar a desigualdade entre os dois. Porém essa impressão foi acabando ao longo do álbum. Também me pareceu que o disco sendo ouvido como um todo ficou um pouco repetitivo e cansativo. Mas quase todas as faixas possuem um trecho que se destaca e nos prende a atenção que vai se dissipando aos poucos novamente até que algum novo trecho nos traga de volta em um ciclo. Talvez seja uma banda para se ouvir aos poucos. “Wasted Union Blues” é linda com instrumentos e vozes se completando perfeitamente e sendo a faixa que eles se afastam um pouco da música psicodélica e caminham para o progressivo.


Ronaldo: Expoente obscurecido da psicodelia norte americana, o It’s A Beatiful Day tinha dois vocalistas, o casal LaFlamme, e trazia o pioneirismo no uso do violino (tocado por Dave LaFlamme) naquele contexto. O som da banda tinha como base o folk acústico-elétrico e composições que beiravam o pop orquestral. A interpretação da banda e a forma pouco ortodoxa com que Dave e Linda dividiam suas vozes (ora de forma descontraída e em outras dramática) trazia uma vibração densa para a música da banda. Em determinados momentos do álbum, as guitarras varrem o chão e trazem o puro acid rock da época.


Davi: Disco muito lembrado pela polêmica “Bombay Calling”. Quem está por fora, o clássico “Child In Time”, do lendário grupo Deep Purple, é uma releitura dessa canção. Não apenas a base do órgão de Jon Lord, mas também a linha vocal criada por Ian Gillan foi claramente inspirada no trabalho de órgão e violino dessa canção. Motivo que me levou a adquirir esse LP alguns anos atrás. Havia ficado curioso para ouvir um pouco mais do grupo. “White Bird” é capaz que seja lembrada por alguns, por ter aparecido em alguns episódios do popular seriado Super Máquina. Para mim, contudo, os grandes momentos ficam por conta de “Hot Summer Day” (canção traz muito do rock psicodélico de San Francisco. Não por acaso, a banda é de lá) e “Wasted Union Blues”, um dos poucos momentos onde a guitarra se sobressai. Na maior parte do tempo, quem se destaca é o casal LaFlamme. A aparição de David vai além do fato de ser a voz do grupo. Seu violino se destaca em vários momentos, assim como o trabalho de órgão e piano de sua esposa Linda. O lado B ficou voltado para as músicas maiores, mais viajadas, mais progs, onde a mais bacana é “Time Is”. No geral, considero um disco não mais do que regular. Embora bem feito, e com uma formação atípica (o que sempre se torna curioso) não tem aquela faixa que me faz querer ouvir de novo e de novo e de novo e de novo…


Nilo: Até o nome denuncia: é aquele típico rock sessentista, com flertes psicodélicos aqui, arronjos mais barrocos acolá (um deles inspiraria “Child in Time”, do Deep Purple), letras repletas de metáforas sobre a natureza… não dá pra dizer que não soa condizente com sua era, mas pessoalmente não me fisgou como um Forever Changes ou Odessey and Oracle – creio que a principal diferença é que estas encapsulavam a vibe ensolarada em canções compactas, enquanto o casal LaFlamme segue uma onda mais livre. Se sua predileção musical é a veia melódica, vá em frente que deve lhe agradar.


Alisson: Passagens psicodélicas que vão se entrecortando com o progressivo básico dos anos 60 em um disco que carrega com força o rótulo “Banda de Rock Psicodélico de San Francisco”. Tudo bem redondo, bem feito, mas parou por aí.



Delaney and Bonnie – On Tour With Eric Clapton (1970)
Recomendado por Ronaldo Rodrigues


No fim dos anos 60, Eric Clapton queria desesperadamente deixar de ser band leader e ficar tão evidenciado nos palcos. Um dos momentos em que esse objetivo foi alcançado foi na tour que ele fez em 1970 com esta brilhante dupla vocal. Os dois mostram gargantas afiadas, espertas alternâncias vocais e ótimos duetos. Os registros da tour esbanjam alto astral com um r&b quente, uma banda de alto nível e a elegância de Clapton na guitarra. As músicas e versões da dupla passeiam pelo rock básico, blues rock e pelo soul com maestria.


Fernando: As pessoas conhecem mais o Delaney and Bonnie pela sua participação na separação do Blind Faith do que pela própria banda. Eu mesmo tinha ouvido muita pouca coisa na época que conheci o Blind Faith e estava maluco pelo disco do Derek and the Dominoes. Engraçado que em uma lista de discos de casais temos aqui um “triângulo musical” demonstrado logo no título do disco. Particularmente não sou um grande entusiasta em comprar discos ao vivo, mas me parece que a versão estendida desse disco com seus 4 CDs é algo a se considerar de ter na coleção. Coisa linda! Também vi shows completos no Youtube com qualidade muito acima da média em se tratando de registros de época.


Mairon: Clássico do blues rock com cheiro de Southern Rock americano, regado pela guitarra britânica de Clapton. Nessa época, tudo o que o homem tocava virava ouro, pouco antes da depressão que levou ao incrível Derek & The Dominoes. Uma banda de apoio sensacional, com um ótimo naipe de metais, entrega aos ouvintes faixas emblemáticas e cheias de energia, do porte de “Comin’ Home”, “I Don’t Want to Discuss It”, “Only You Know and I Know”, “Things Get Better” e “Where There’s A Will There’s A Way”. Apreciei blues arrastado de “That’s What My Man Is For”, com Bonnie soltando a voz, Impossível também não vibrar pela sala com as homenagens para Robert Johnson (“Poor Elijah”) e Little Richard (“Little Richard Medley”). O disco até se assemelha ao de Ike e Tina, pela quantidade elevada de alegria e efervescência musical, e mesmo sem Clapton ser o nome principal, os seus solos ao longo da apresentação são um baita diferencial. Excelente recomendação!


Davi: Gravado em uma turnê de 7 dias na Inglaterra, esse álbum ao vivo é muito conhecido entre os fãs de Eric Clapton. A apresentação é excelente, mas se você nunca ouviu o álbum e é um fã de guitarra, vá com calma. Embora tenha seu nome grafado na capa, a participação de Clapton é discreta. Há alguns solos de guitarra bonitos no disco, sem dúvidas (dois exemplos seriam ”Poor Eliah” e “I Don´t Want To Discuss It”), mas são solos criados ‘na medida’, sem espaço para grandes improvisos. A banda de apoio é estelar e traz grandes nomes do rock como Dave Mason (Traffic) e Bobby Keys (Rolling Stones). A sonoridade mescla soul, blues e rock de maneira cativante. “Things Get Better”, “Comin´ Home” e a já citada “I Don´t Want to Discuss It” são os momentos de destaque. O casal entrega um bom trabalho vocal. Só pecam no medley formado por canções de Little Richard. Não que tenha feito feio, mas o rapaz não chega nem perto da potência e nem da emoção transmitida pelo grande Ricardinho. Esse é o único ponto baixo do álbum. Daqui, sairiam a base dos músicos que estiveram em All Things Must Pass e Layla And Other Assorted Love Songs. Trabalhos ainda mais legais e ainda mais importantes do que esse. Quem não conhece, se é que alguém não conhece, escute-os. Bacana, a lembrança desse disco.


Nilo: Sem entrar na discussão se o gênero existe ou não, o que se rotula como “blue eyed soul” raramente faz minha cabeça. Acho um som lavado demais. Este registro aqui, mesmo ao vivo e acompanhando um senhor bluesman, soa limpinho demais. Prefiro aquele soul malicioso de Curtis Mayfield e afins, mas creio que o leitor médio do site encontrará em On Tour with Eric Clapton uma boa trilha sonora para aquele churrascão de domingo.


Alisson: Ao vivo dos anos 70 mais sem energia. Execuções sem suingue nenhum, apenas um blue-eyed-soul (vulgo “soul de branco”) engessado. E dói mais ainda quando dedicam medleys à Robert Johnson e Little Richards, mas tudo parece burocrático.



John Lennon & Yoko Ono – Double Fantasy (1980) 
Recomendado por Davi Pascale


Sim, meus amigos, o ultimo álbum da carreira de John Lennon foi realizado em parceria com sua esposa Yoko Ono. O disco marcava seu retorno às gravações. Já fazia 5 anos que Lennon não lançava um trabalho, mas infelizmente o que era para ser considerado um momento de alegria para seus fãs, acabou se tornando um choque que o mundo jamais esqueceu. Em 8 de Dezembro de 1980, 2 semanas após Double Fantasy chegar às lojas, John Lennon foi assassinado nas portas do edifício Dakota. O que era para ser seu retorno, tornou-se o fim de sua trajetória. As vendas que começaram tímidas, explodiram. Quando o tema foi lançado, esse foi o primeiro álbum que me surgiu em mente. Na minha infância, costumava sair no carro acompanhado de um walkman. Uma de minhas fitinhas era uma seleção que havia criado com canções de John Lennon. “Woman” e “(Just Like) Starting Over” estavam entre elas. Não tinha como citar outro disco… Em Double Fantasy, o trabalho vocal era dividido entre John e Yoko, assim como as composições. Nunca morri de amores pelo trabalho de Yoko Ono. Nunca gostei de seu timbre de voz, nem de suas experimentações malucas, mas sua participação aqui é menos polêmica do que nos demais projetos. Afinal, buscava uma linguagem mais pop. Músicas curtas com refrão. Em alguns momentos, como “I’m Movin’ On”, “Hard Times Are Over” e “Yes, I’m Your Angel”, soa agradável. Mas o creme desse CD são mesmo as músicas de Lennon: “(Just Like) Starting Over” e “Watching The Wheels” são perfeitas. “I’m Losing You”, “Beautiful Boy” e “Woman” são clássicos absolutos. Lennon era um compositor de mão cheia e o resultado final comprova isso. Disco bem bacana!


Fernando: Fiquei com vontade de escrever sem nem ouvir. Já passei muita raiva tentando ouvir a Yoko Ono por conta da insistência do Marco Gaspari – sei que a culpe é minha querido Siri!!! Ouvi mais em respeito ao John Lennon, mesmo sabendo que ele se tornou um chato gigante depois da separação dos Beatles. Também tem a questão história, já que o álbum foi lançado dias antes do trágico assassinato de John. Fico contente de terem escolhido esse álbum do casal, pois ninguém merecia aquela capa da primeira empreitada dos dois juntos. Contente também por esse disco não ser a chatice completa que são os discos da Plastic Ono Band ou o Imagine, por exemplo. Para ser sincero desconheço como era a dinâmica da dupla ao gravar seus discos juntos. Eles apenas dividiam os vocais ou tocavam instrumentos quando o outro estava cantando? No final achei bastante positivo o resultado. John é um baita compositor e Yoko não foi totalmente Yoko. Quem sabe….


Mairon: Lançado pouco antes do assassinato de Lennon, esse álbum é uma despedida um tanto quanto melancólica para alguém do nome Lennon. O flerte com instrumentos eletrônicos, principalmente na bateria, não me agrada, e para tal exemplo, cito “(Just Like) Starting Over”, “Cleanup Time”, a cafona “Dear Yoko” e a chatérrima “Woman”. Dele escapa-se “I’m Losing You”, “Watching the Wheels” e claro, a melhor do disco, a lindíssima “Beautiful Boy (Darling Boy)”, que certamente faz muito marmanjo chorar quando apresentada no inesquecível filme Adorável Professor. Por outro lado, Yoko está sensacional, dando uma aula de canto para os anos 80 através de “Beautiful Boys”, “Kiss Kiss Kiss”, a maluquete jazzística de “Yes, I’m Your Angel”, resgatando seus vagidos na ótima “I’m Moving On” (uma resposta à “I’m Losing You”) e aproveitando-se de estripulias na curtinha “Give Me Something”. Creio que ela peque apenas no desnecessário reggae “Every Man Has a Woman Who Loves Him”. Quanto a John, é um mal que outros artistas (Bob Dylan, Joan Baez, Santana, Eric Clapton, os próprios ex-colegas beatle e por aí vai) da década de 60 sofreram nos anos 80, o que me faz torcer bastante o nariz. É uma pena que não tenham efetivamente trabalhado juntos ao longo do álbum, poderia ter sido criado algo melhor. Se fosse para escolher uma obra do casal, certamente iria indicar a primorosa delícia loucura de Two Virgins. Mas ok, é um disco que se ouve sem mais problemas.


Ronaldo: Dentro desta lista este é o disco em que mais fica transparente a personalidade individual de cada parte. Não era de se esperar algo diferente do controverso casal. Enquanto Lennon assume as rugas e os cabelos brancos, Yoko tenta ser a moderninha antenada. Sua performance como não-vocalista é no mínimo excêntrica e, constrangimentos à parte, o disco vai em banho-maria. Soa como algo que envelheceu mal.


Nilo: Mais que esperada a presença do casal mais famoso do rock neste tema. Uma pena que o disco escolhido não tenha a sinergia visceral que os tornou tão polêmicos, como em Plastic Ono Band e Two Virgins. O esquema de pílulas pop alternando entre autores de Double Fantasy passa mais a sensação de coletânea das favoritas de cada um do que propriamente um álbum, e a polidez excessiva (bateu a saudade do Phil Spector, né John?) não ajuda muito. Ruim talvez não seja o termo, mas é bem chatinho. No fim, é uma despedida problemática e com ares de utopia, condizente com o relacionamento de Lennon e Ono.


Alisson: Tudo bem redondinho e bem gravado. Até por isso o disco cansa já no começo. Não aparecem os momentos experimentais e mais selvagens da época da Plastic Ono Band, então o que resta são canções mais pops e radiofônicas que beiram o descartável.



Slowdive – Souvlaki (1993)
Recomendado por Nilo Vieira


É verdade que o casal Rachel Goswell e Neil Halstead já havia terminado o namoro. Também é fato que, sem esse rompimento, o segundo álbum do Slowdive não seria como é: entre paredes de distorção, efeitos, faixas acústicas e experimentos ambientais do mestre Brian Eno, o clima que prevalece é a melancólico, mesmo que caloroso. Algumas faixas soam como delírios jovens indecifráveis, outras são confissões límpidas e pungentes. De fato, é um disco elogiado por sites como Pitchfork (que inclusive fez um belo mini documentário sobre e você pode sair gritando que é mero hype (faça isso com tudo que você não gosta) após ter ouvido uma única vez e com preguiça. Caso insista, pode encontrar uma obra que será recorrente como apoio nos momentos mais tensos da vida. Fica a seu cargo…


Fernando: Desconhecia o grupo. Essa seara do dream pop, shoegaze não é mesmo a minha praia. Sabe aquele tipo de som que se estiver tocando não incomoda, mas dificilmente sairia da prateleira se eu tivesse o CD? Foi o sentimento que me deu. Algumas coisas lembram o Placebo, outras passagens com vocalizações quase etéreas são bem legais (thanks Brian Eno!), mas no geral não me convenceu. Surpreendeu, entretanto, a nota do disco no Rate Your Music, com impressionantes 4,07. A galera que gosta, curte mesmo.


Mairon: Confesso que nunca tinha ouvido falar dessa banda. Lembrou um pouco de My Chemical Romance aqui, um Keane acolá, talvez até um Smashing Pumpkins, por que não. É um som bastante característico, onde eu curti as incursões mais “progressivas”, com uso de sintetizadores, em faixas como “Altogether”, “Melon Yellow”, “Machine Gun”, “Here She Comes”, “Sing” e a viajante “Souvlaki Space Station”, sintetizadores esses a cargo do renomado Brian Eno. Adorei ficar “chapado ao som de”40 Days”, “Alison” e “When The Sun Hits”, outras que apreciei bastante viajar ao som delas. Fechando tudo, o violãozinho gostoso de “Dagger”, muito suave e agradável aos ouvidos. Não virei fã da banda, não vou comprar o disco, mas foi ótimo ouvir e conhecer Souvlaki.


Ronaldo: Talvez o ouvinte precise ser convencido previamente do estilo que esta banda pratica. As músicas são recheadas de uma beleza estranha e nem sempre funcionam para ouvidos não familiarizados. As harmonias ficam suspensas no ar o tempo todo. É como se fosse uma versão bastante acinzentada das melodias do synth pop, com a crueza das guitarras, em ritmos que se desenrolam vagarosamente.


Davi: Slowdive é uma banda inglesa que surgiu no final dos anos 80 nos arredores de Reading. Seu segundo álbum, Souvlaki, foi lançado em 1993 no meio da explosão do rock alternativo. Os caras apareceram no tempo certo. A sonoridade da banda não era aquela sonoridade suja estilo Mudhoney, a pegada era outra. Repleta de ecos, vocais sussurrados, melancolia, experimentações, delays… É o que os repórteres da época qualificariam como um som cósmico. Se tivesse que utilizar um dos inúmeros nomes criados para subvertentes das subvertentes, utilizaria o termo dream pop. O casal Rachel Goswell e Neil Halstead dividiam os vocais. Particularmente, não gostei da voz de Rachel. Sandy demais para o meu gosto. A voz de Neil me soa mais agradável. O disco é bem feito. Arranjos bem construídos, bem gravadinho, contudo não foi um disco que me cativou. Efeitos e experimentações em excesso. Começa bem, depois de um tempo me cansa. Vale mencionar a participação do cultuado Brian Eno nos teclados de “Here She Comes”, mas as que considerei mais bacaninhas foram “40 Days” e o single “Alisson”, que considero a melhor do disco. Curioso, mas não ouviria novamente.


Alisson: Um disco que consegue capturar a essência dos sentimentos mais íntimos do ser. Difícil não tentar associar a sonoridade do disco com outras lendas do shoegaze/dream pop, como as paredes sonoras do My Bloody Valentine ou as passagens alucinógenas do Dead Can Dance. Porém, é particularidade dessa união de diversas facetas em um disco que vai ser redescoberto por um bom tempo.


Eletric Wizard – Witchcult Today (2007)
Recomendado por Alisson Caetano


O culto à maconha e adoração ao Black Sabbath pelo Electric Wizard sempre foram muito além de cópia pura, como é comum alguns desavisados gritarem por aí. Passagens arrastadas e os riffs tétricos ganham ares de curtição e improvisação livre, enquanto que no caso do Sabbath, esse padrão estava bem formatado em estruturas bem definidas. Witchcult Today, o segundo a contar com as guitarras adicionais de Liz Buckingham, tenta repaginar seu próprio conceito. A produção, feita de maneira completamente analógica, adiciona ares climáticos setentistas ao disco, enquanto as passagens lisérgicas ganham espaço sobre as passagens de peso puro dos discos passados. Um dos últimos exemplares genuínos de criatividade no uso das convenções do gênero stoner/doom e um clássico do estilo.


Fernando: Essas bandas de stoner levam muito a sério a necessidade de soar como a principal referência do estilo. Sabemos que a principal influência para o som é o Black Sabbath, mas é necessário mesmo deixar isso tão explícito em TODAS as músicas? Nem o próprio Sabbath se leva tão a sério assim. O peso absurdo e os riffs quadradões são repetidos à exaustão e caso o ouvinte perca um pouco a atenção vai achar que ouviu uma única música de 60 minutos.


Mairon: Banda de Doom Metal com vocais carregados de distorção, assim com as guitarras e o baixo. Aliás, acho que até os lençóis do casal Liz Buckingham e Jus Oborn estão adicionados de distorção. É tanto peso e sujeira que os hipopótamos de alguns zoológicos espalhados mundo a fora passam vergonha. Um som interessante de ouvir, apesar de eu não ter conseguido destacar especificamente alguma canção, mas não foi uma tortura ouvi-lo em quase uma hora de audição.


Ronaldo: Grupo britânico de doom metal da década de 90. O casal em questão se divide nas guitarras do grupo, que consegue neste bom álbum compor alguns riffs macabros que o Black Sabbath não gravou. As músicas tem o andamento arrastado e esparsos solos, apesar das generosas passagens instrumentais. A sonoridade da banda é bem construída e os vocais se encaixam ao que estilo pede. Seguindo piamente a cartilha do estilo e usando em demasia as afinações graves, tudo se torna monocromático e tedioso depois de algum tempo de audição.


Davi: Dizem que toda banda stoner é formada por fãs devotos do Black Sabbath. É exatamente essa sensação que bate ao ouvirmos esse álbum. É inegável a influência de álbuns como Master of Reality e Vol.4 nos arranjos. Aliás, o próprio cantor, Jus Oborn, chegou a declarar que o nome da banda surgiu de 2 canções do Black Sabbath: “The Wizard” e “Electric Funeral”. Agora, a pergunta que não quer calar é: o sobrenome Oborn é para lembrar Osbourne? O disco até que é bacana. A sonoridade está de acordo com o gênero: riffs arrastados, baixo com efeito, baterista sentando a mão, vocal cantando como se estivesse de saco cheio. O casal aqui são a guitarrista Liz Buckingham e o cantor/guitarrista Jus Oborn. As guitarras são bem tocadas, mas falta um Iommi na parada. Faltam aqueles riffs que ficam na cabeça. Tony Iommi era um mestre nessa área. Se vão construir algo com uma influência tão escancarada, seria interessante que dessem valor para esse ponto. Outra questão é o vocal. Está dentro do gênero, mas muito morto o tempo todo. Seria interessante tentar cantar algumas notas mais para cima. O próprio Ozzy cantava para cima muitas vezes (ouça “Hole In The Sky”). Muitos gostam de criticar o Madman enquanto cantor, mas é nessas horas que notamos quão foda foi o cara. Talvez ele não tivesse a afinação mais impecável do mundo, mas tinha uma enorme personalidade e um timbre inconfundível. Quando ouvimos essas bandas, vemos o quão importante são essas características. Mas, como disse no início, o disco é bom. Pesado, sombrio, bem tocado. Dentre as canções apresentadas aqui é a que mais curti foi “Torquemada ´71”. Não é aquela Brastemp, mas agrada.


Nilo: Entendo quem não compre o apelo do stoner, pois também torcia o nariz. É um gênero que cultua o Black Sabbath sem pudor, admite e se diverte com isso – não é como um Greta Van Fleet da vida, que chupinha Led, tenta desmentir e se acha a última bolacha do pacote. As diferenças são semânticas: enquanto Iommi & Cia condensavam peso, groove e atmosfera em canções de estrutura pop, bandas como o Electric Wizard e Sleep (erroneamente já trucidado aqui) propõem que o formato de jam soe livre, puxando tais aspectos a níveis extremos. Este disco é um bom exemplar, onde os tons jazzísticos de Geezer e Bill dão lugar a riffs dronados e trechos psicodélicos, que ecoam até o ouvinte entrar em transe junto com os músicos. A entrada de Liz na segunda guitarra deu novo gás ao grupo e, se este não é o melhor álbum dos britânicos, está entre as homenagens mais divertidas aos pioneiros de Birmingham. Ouça sem pressa e sob a influência da marvada que entenderás…

sábado, 1 de junho de 2013

Consultoria do Rock Apresenta: A Psicodelia Californiana (Parte II)

O Consultoria do Rock Apresenta desse mês continua mostrando alguns dos principais nomes da Psicodelia Californiana no final da década de 60. Esse segundo programa especial concentra-se em nomes individuais de extrema relevância, e que consolidaram a Psicodelia para uma geração pós-Monterey e pré-Woodstock, e diferente das bandas da Primeira Geração, seguiram carreira pelos anos 70 e até os anos 80, mas sem a mesma acidez que em suas origens.

Apresentamos por tanto as bandas da Segunda Geração da Psicodelia Californiana.

Para ouvir e assistir, clique aqui!

01. "Wowie Zowie" - The Mothers of Invention: liderados por um dos maiores gênios da música em todos os tempos, o guitarrista, vocalista e maestro Frank Zappa, as "Mães da Invenção" apareceram ao mundo em 1966, com o assustador álbum Freak Out. O primeiro disco duplo da história apresenta muita ironia e críticas à sociedade americana, e como diz seu nome, convida o ouvinte para enlouquecer-se com uma mistura de blues, jazz, be-bop, beat rock, valsa e diversos outros estilos, além de muita experimentação sonora. Esta canção abre o Lado B do vinil, e é uma pequena amostra da sátira-rock que Zappa e seus capangas poderiam construir. Um Pluteus salicinus para aperitivo na nossa degustação de cogumelos ácidos.

02. "Plastic People" - The Mothers of Invention: a acidez lírica de Frank Zappa surge com mais força no segundo álbum da Mothers. Absolutely Free foi lançado em 1967, e é um disco muito mais trabalhado do que seu antecessor, principalmente pela presença marcante da crítica feita com humor. "Plastic People" é um Psilocybe zapotecorum que abre o álbum atingindo em cheio os governantes e a população que aceita corrupção, roubos e sacanagem política sem nenhuma contestação ou manifesto. Zappa ampliou esse conceito nos demais discos de sua carreira, ora com a Mothers ora em carreira solo, revelando ao mundo nomes como Steve Vai, Adrian Belew, Terry Bozzio, Geroge Duke e muitos outros.

03. "Electricity" - Captain Beefheart & His Magic Band: Don Van Vliet foi, ao lado de Zappa, um músico genial e inovador. Com sua Magic Band, o vocalista ficou conhecico como Captain Beefheart, e implementou diversas experimentações na psicodélica cena da Califória, regada por viagens alucinantes em canções curtas, mas muito engenhosas. "Electricity" encerra o Lado A de Safe as a Milk (1967) como um Conocybe tenera, sendo este álbum a estreia do grupo, e um dos essenciais álbuns para se conhecer o Som da Califórnia.

04. "Kandy Korn" - Captain Beefheart & His Magic Band: As viagens aumentam no segundo disco do grupo, Strictly Personal. Com canções mais longas, Captain Beefheart explora sonoridades até então inaudíveis, entre bolhas coloridas e elefantes de cartola. Psilocybe zapotecorum para não se botar defeito. Beefheart ainda lançou mais dez discos até o início dos anos 80, que mesmo sem o impacto dos dois primeiros, ainda mostram muita ironia e inovações.
05. "Section 43" - Country Joe & The Fish: Uma banda voltada contra a guerra do Vietnam, e com um som acidamente estonteante. Liderados por Country Joe McDonald, o Country Joe & The Fish tinha como principal destaque o órgão fantasmagórico de David Cohen. "Section 43" é um Psilocybe zapotecorum com mais de sete minutos de duração, presente no álbum de estreia do grupo, Electric Music for the Mind and Body (1967), outro importante LP dessa geração.

06. "The 'Fish' Cheer / I Feel Like I'm Fixin' to Die" - Country Joe & The Fish: As críticas contra a guerra e o som delirante continuou no segundo disco do grupo, lançado no ano seguinte. Sua faixa-título é uma jazz-waltz que mantém a fábrica de Psilocybe zapotecorum na ativa, e consolida o Country Joe & The Fish como um dos principais nomes da cena psicodélica californiana. O grupo ainda lançou mais três discos posteriormente, porém sem o mesmo efeito alucinógeno de seus dois álbuns iniciais, muito por conta de McDonald ter seguido por uma carreira voltada para o folk e o country.

07. "White Bird" - It's a Beautiful Day: Um dos últimos grupos a contar com a produção de Matthew Katz ("criador" de nomes como Moby Grape e Jefferson Airplane) o It's a Beautiful Day apresentou para os hippies californianos o som mais delirante que eles podiam ouvir. Tendo como base o violino de David LaFlamme, o órgão de sua esposa, Linda LaFlamme, a voz (e as coxas) de Pattie Santos e a guitarra de Hal Wagenet, a banda apresentava um som muito diferente, tendo como principal destaque essa linda balada Conocybe Tenera, presente no maravilhoso álbum de estreia do grupo, em 1969.

08. "Galileo / Do You Remember the Sun" - It's a Beautiful Day: Com a separação do casal LaFlamme, o It's a Beautiful Day mergulha ainda mais nas viagens, extrapolando a parte musical também para a parte lírica. Essa dupla de canções encerra o segundo álbum do grupo, Marrying Maiden (1970), apresentando um enigmático poema e uma suave base instrumental, com um espetáculo vocal e deixando aquela sensação de "barato" dado por um Psylocibe cubensis. Vieram ainda mais dois álbun de estúdio e um ao vivo, porém sem a lisergia do passado da banda.
09. "Iron Butterfly Theme" - Iron Buterfly: O Iron Butterfly pode ser considerado o principal nome da Segunda Geração do flower-power californiano. Seu álbum de estreia, Heavy (1968), destaca o órgão de Doug Ingle e a guitarra de Danny Weis, fazendo uma mistura mais ácida do que o gosto de um Psilocybe zapotecorum, como podemos comprovar nessa belíssima faixa instrumental que encerra o LP.
10. "In-A-Gadda-da-Vida" - Iron Butterfly: No ano seguinte, o Iron Butterfly promovia a entrada do jovem guitarrista Erik Brann. Com apenas 18 anos, o menino estreia em um dos álbuns mais vendidos e aclamados da história do rock californiano, levado principalmente pelos viajantes dezessete minutos de sua faixa-título, uma Amanita muscaria que ainda hoje causa seus danos. O grupo modificou na década de 70, com diversas outras formações, mas deixou um legado venerado por milhões e milhões de fãs ao redor do mundo.

11. "Soul Sacrifice" - Santana: O guitarrista mexicano Carlos Santana mudou-se muito cedo para a Califórnia, e em 1969, estreiou vinílicamente com o homônimo álbum de sua banda, Santana. Carregado por uma sólida parede percussiva, e duelos extraterrestres entre órgão e guitarra, o disco fez grande sucesso, e apresentou, através dessa Pluteus salicinus, o baterista Mike Shrieve, que posteriormente destacou-se no festival de Woodstock.

12. "Se Acabo" - Santana: O segundo LP do grupo, Abraxas (1970), alcançou o primeiro lugar em vendas nos Estados Unidos. Pela primeira vez, um músico latino conquistava tal façanha (que seria repetida por Carlos Santana e sua banda posteriormente por mais três vezes). "Se Acabo" é outra Pluteus salicinus, que encerra nosso Consultoria Apresenta com um espetáculo percussivo.

Tutorial:

 Alguns cogumelos alucinógenos:

Pscilocybe cubensis - cogumelo de pequeno porte, e que foi um dos cogumelos mais utilizados pelos hippies durante o período flower-power.

Psilocybe zapotecorum - cogumelo com fortes poderes alucinógenos, e também com muitos efeitos colaterais.

Amanita muscaria - cogumelo que causa alucinações após quinze minutos de seu consumo.

Conocybe tenera - cogumelo delgado e muito frágil, que provoca pequenas alucinações.

Pluteus salicinus - cogumelo que cresce em madeiras, alucinógeno apenas se ingerido sem tratamento.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Podcast Grandes Nomes do Rock #10: Canções épicas



Por Mairon Machado (Publicado originalmente no blog Consultoria do Rock)

A décima edição do Podcast Grandes Nomes do Rock irá apresentar canções épicas de diferentes bandas e artistas nas décadas de 60, 70, 80 e 90. Em duas horas de muito som, iremos passear pela psicodelia americana das bandas The Doors e It's a Beautiful Day, conhecer a história de um boxeador negro preso injustamente através de Bob Dylan, tocar air guitar com o Rainbow, cantarolar clássicos de Eagles, Legião Urbana e Engenheiros do Hawaii, relembrar o Rock in Rio II com Faith No More, Judas Priest e Guns N' Roses, e bater cabeça com o som do Venom.



Estátua em homenagem a Homero

Track list Podcast # 09 - É Carnaval!

Bloco 01
Abertura: "Carnaval" [do álbum Festival - 1977 (Santana)]
"Sconcerto" [do álbum Sconcerto - 1976 (Il Baricentro)]
"Croma" [do álbum Alphataurus - 1973 (Alphataurus)]
"Bad Conditions" [do álbum Socrates Drank The Conium - 1971 (Socrates Drunk the Conium)]
"∞" [do álbum 666 - 1971 (Aphrodite's Child)]

Bloco 02
Abertura: "Manhã de Carnval" [do álbum The Guitar Trio - 1996 (John McLaughlin, Al di Meola, Paco de Lucia)]
"Sunshine" [da apresentação no programa Turma da Cultura - 2006 (Patrulha do Espaço)
"Lar de Maravilhas" [do álbum Lar de Maravilhas - 1975 (Casa das Máquinas)]
"Dirección de Aquarius" [do álbum Snegs - 1974 (Som Nosso de Cada Dia)]
"As Amazonas" [do álbum Além das Lendas Brasileiras - 1977 (Terreno Baldio)]

Bloco 03
Abertura: "Pierrot" [do bootleg Ao vivo no Forrock João Pessoa  - 2002 (Los Hermanos)]
"Araras" [do álbum Estação da Luz - 2001 (Sérgio Dias)]
"Querida, Querida" [do álbum Haih ... or Amortecedor - 2009 (Mutantes)]
"La Fora" [do álbum Ave Sangria - 1974 (Ave Sangria)]
"1974" [do bootleg Ao Vivo em Londrina - 1975 (O Terço)]

Bloco 04
Abertura: "Todo Carnaval Tem Seu Fim" [do bootleg Coca-Cola Festival - 2003 (Los Hermanos)]
"Lullaby" [do bootleg Rio 90 - 1990 (The Cure)]
"Ashes to Ashes" [do bootleg Rock in Rio - 1990 (David Bowie)]
"Working Men" [do bootleg Rio de Janeiro - 2010 (Rush)]
"If We're A Carpenter" [da apresentação no Hollywood Rock - 1994 (Robert Plant)]

Bloco 05
Abertura: "Carnival Diablos" [do álbum Carnival Diablos - 2001 (Annihilator)]
"Whole Lotta Rosie / Rock 'n' Roll" [da apresentação no Hollywood Rock - 1993 (Dr. Sin)]
"Pretend We're Dead" [da apresentação no Hollywood Rock - 1993 (L7)]
"18 & Life" [do bootleg Crazy in Brazil - 1990 (Skid Row)]
"Scentless Apprentice" [da apresentação no Hollywood Rock - 1993 (Nirvana)]

Encerramento: "Máscara Negra" [da demo Los Hermanos - 1999 (Los Hermanos)]

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

It's A Beautiful Day



Por Mairon Machado

Final da década de 60. A lisergia e o psicodelismo da geração flower-power chegava no seu auge e começava sua auto-destruição, agregando a cultura da liberdade sexual com o "faça amor, não faça guerra" diversas fontes de pensamentos que divergiam das origens remotas de uma geração que pregava a paz acima de tudo.



Entre os expoentes musicais dessa geração, vários acabaram sobrevivendo para as gerações posteriores justamente após a morte dos mesmos, o que ocorreu quase que paralelamente à morte do flower-power, e que podem ser principalmente grifados nos nomes de Jimi Hendrix, Janis Joplin, Big Mama Cass e Jim Morrison.

Outros tantos mudaram a sonoridade e temática das canções, como Santana, The Who, Animals, ...., e muitos, mas muitos mesmos, morreram junto com os 3 Js (apesar dos integrantes ainda permanecerem vivos em sua maioria) e viraram obscuridades que somente nas últimas décadas passaram a receber o valor que lhes deve ser atribuído. Entre eles, está o excepcional grupo It's A Beautiful Day.



Primeira formação do It's A Beautiful Day

Tudo começou com um grupo chamado Orkustra, formado em 1965, e que fazia vários ensaios em um galpão sujo de San Francisco, sem ter membros fixos. Com o passar do tempo, algumas pessoas passaram a participar frequentemente das insanas reuniões da Orkustra, encaminhando para a montagem de uma banda. Entre elas estavam o violinista, flautista e cantor David LaFlamme, que tocara na Orquestra Sinfônca de Utah, e sua esposa, Linda LaFlamme, também de formação clássica e que tocava órgão e piano, além de Jaime Leopold e Bobby Bobosol, que anos depois faria parte da família Manson.



Entre 65 e 67 a Orkustra fez diversas apresentações, tocando inclusive nas principais casas de shows de San Franciso: a Avalon Ballroom e a Matrix, além de participar de programas da TV CBS como um dos expoentes da sonoridade californiana e também de um filme especial sobre San Francisco feito por Dick Clarke.


Ainda tocando com a Orkustra, David passa a fazer parte do grupo de Dan Hicks (que tocava no The Charlatans), chamado Hot Licks, junto com Leopold. O Hot Licks passa a fazer sucesso abrindo para os Charlatans, recebendo críticas positivas da imprensa, e chamando a atenção de vários interessados em empresariar a banda. Enquanto isso, a Orkustra começava a naufragar, principalmente pela falta de uma gerência causada pela saída de Linda, principal responsável por agendar as datas da Orkustra, e que voltara para a música clássica.


É ai que surge a figura do empresário Matthew Katz. Katz, que havia trabalhado nos embriões do Jefferson Airplane, Indian Puddin' and Pipe, Tripsichord Music Box e Moby Grape, sendo inclusive responsável pelos nomes um tanto quanto diferentes dos grupos, era um produtor falcatrua, que havia prometido mundos e fundos para os grupos por onde passou, mas na hora H, ficava com a grana e nada acontecia, e infelizmente para os membros que formariam o It's A Beautiful Day, nome também criado por Katz, isso não era de conhecimento dos mesmos.


O primeiro contato entre os LaFlamme e Katz ocorreu exatamente no verão de 1967, logo após o estouro da Moby Grape, com os LaFlamme explicando a situação para o produtor, dizendo que Linda não podia mais trabalhar como manager por ter que se dedicar a sua carreira clássica, mas que queriam continuar na ativa.


Katz concorda em produzir a Orkustra, mas com o passar dos dias, vê-se que as intenções de Katz vão além da Orkustra, estando interessado em algo mais chamativo. Pregando o talento vocal de David, ele ressalta que a banda deve mudar o rumo, compondo mais e empregando muito o trabalho vocal, algo como o The Mamas & The Papas já fazia na época.




A deliciosa e talentosa Pattie Santos


De cara, apresenta um achado: a suculenta e deliciosa cantora Pattie Santos. Com apenas 18 anos e trabalhando como balconista em um super-mercado, muitos alegam que Pattie entrou na banda por ser linda, com Katz prometendo tudo o que podia para ter uma chance com a garota, inclusive o sucesso musical. Essa história não passa de mito, já que Pattie além de extremamente gata, era dotada de uma poderosa voz, muito similar a de Grace Slick (vocalista do Jefferson Airplane), que as vezes levava a imprensa injustamente a comparações entre elas, o qual foi desenvolvido em anos cantando como voz principal em uma capela de San Francisco.


Pattie já fazia parte do que Katz batizara de It's A Beautiful Day, um agregado de músicos que nunca existiu de fato, e então, convidou os LaFlamme a fazerem parte deste grupo, levando os membros da Orkustra para lá, o que não ocorre de imediato, com David recusando a mudar o nome de sua banda.


Porém Katz continua a insistir na mudança de Norte dos LaFlamme, e finalmente David atende aos pedidos do produtor, começando então, no mês de agosto de 1967, uma das melhores bandas do psicodelismo de San Francisco, com David, Linda, Pattie e os demais membros da Orkustra ensaiando sob o nome de It's A Beautiful Day.


Uma das primeiras fotos da It's A Beautiful Day. Da esquerda para direita: David LaFlamme, Pattie Santos, Mitchell Holman, Val Fuentes, Hal Wagenet e Linda LaFlamme

David acaba não gostando do fato do It's A Beautiful Day divulgado por Katz ser apenas Pattie, mas enfim, os ensaios continuam no outono de 67, e logo David percebe que o baterista que o acompanhara na Orkustra já não serve mais para o projeto, saindo a caça de um novo músico. Eis que surgem dois garotos de 18 anos que ensaiavam em um caminhão que continha todo o aparato dos dois: Mitchell Holman (baixo) e Val Fuentes (bateria). Logo após serem apresentados aos LaFlamme, Val e Mitchell tem seu caminhão roubado, sendo então "adotados" pelos LaFlamme para conseguir novamente dinheiro para comprar seus equipamentos, o que facilmente levou-os a entrar no It's A Beautiful Day, assim como o guitarrista Hal Wagenet, que já era conhecido por tocar em outras bandas de San Francisco.



David passa a trabalhar como diretor musical, compondo, escrevendo e planejando as canções quase que por instinto, determinando inclusive aonde cada integrante deveria entrar com a participação vocal.


Enquanto isso, Katz fica ausente, sem se intrometer nem na organização de shows ou na produção de algo para gravadoras, o que frustava bastante ao casal LaFlamme, pois tinham colocado toda a esperança nas mãos do famoso manager. Na verdade, Katz pensava em adotar o mesmo sistema feito junto ao Moby Grape e ao Jefferson Airplane: tentar organizar o máximo possível de shows para então, assinar um contrato com uma gravadora, gravar um disco e cair fora com a grana.

Em novembro, com a pressão de David, Katz consegue uma verba para a gravação da primeira bolachinha do It's A Beautiful Day, tendo de um lado a canção "Bulgaria", composta ainda nos tempos de Orkustra, e do outro "Acquarian Dream", canção que nunca foi lançada oficialmente. O single foi gravado como uma edição especial para as rádios, tendo no registro o número SFS7, e obviamente, hoje é uma raridade sem preço tanto no mercado tradicional como no mercado negro da música.


A casa que sediou os primeiros shows do It's A Beautiful Day
Em dezembro, Katz organiza uma série de shows do It's A Beautiful Day na distante Seattle, onde ele em particular consegue um bom dinheiro. Assim, os primeiros shows são realizados no clube Encore Ballroom, que era controlado por Katz, o que não era de conhecimento do grupo, onde durante todo o gelado mês de dezembro de 1967 tocam durante 5 semanas todas as sextas e sábados, fazendo sempre dois shows por noite, tendo como cachê míseros 20 dólares para cada integrante tocar durante todo o tempo agendado.

Isso deixou os LaFlamme furiosos, afinal, novamente Katz sumia e deixava eles com as mãos abanando, sem dinheiro, passando fome e apenas com a promessa de que uma apresentação em San Francisco ocorreria em breve. Na volta a San Francisco, em janeiro de 1968, passam a tocar em pequenos clubes da cidade sem o conhecimento de Katz, o que graduamente passou a fazer com que o nome It's A Beautiful Day se tornasse conhecido pela região, principalmente pelas insanas sequências instrumentais onde David, Linda e Hal viajavam em longos solos.


Enquanto isso, Moby Grape, Quicksilver Messenger Service e Jefferson Airplane estavam virando monstros, com seus discos estourando por toda a costa oeste dos EUA. Dessa forma, abandonam de vez o fanfarrão produtor, que passa a correr atrás do sexteto tentando processá-los pelo uso do nome It's A Beautiful Day, o que deu muita dor de cabeça para David.


Após abrir para Big Brother & The Holding Company e Grateful Dead, surge então o grande momento para o grupo. A partir do empresário Bill Graham (dono das famosas casas Fillmore), são convidado a abrir o show de despedida do Cream no Oakland Coliseum, em 4 de outubro de 1968, substituindo ao Traffic, que estava com Steve Winwood doente para a ocasião. A sensacional apresentação do grupo e o apoio de Graham deram um contrato com a Columbia Records, permitindo a gravação do primeiro álbum, ao mesmo tempo em que uma longa batalha judicial corria entre Katz e os LaFlamme por causa do nome It's A Beautiful Day.


O fundamental álbum de estreia
Apesar de todos os problemas, em 1969 sai o álbum It's A Beautiful Day, que ao lado de Moby Grape, Cheap Thrills (Big Brother & The Holding Company), Surrealistic Pillow (Jefferson Airplane) e Electric Music for the Mind and the Body (Country Joe & The Fish) forma o quinteto essencial do flower-power californiano.

O disco abre com a clássica "White Bird", composta ainda nos dificeis tempos em Seattle, quando o grupo passou o rigoroso inverno de 1967 praticamente a pão e água. A triste canção começa com os teclados de Linda e o violino de David fazendo o tema inicial, trazendo os vocais de David e Pattie acompanhados por um leve andamento de baixo, bateria, além dos acordes de violão e do órgão, seguido pelo refrão e o lindo solo de violino, com Hal e Linda viajando nos acordes de seus instrumentos e Hal fazendo um lindo solo de violão acompanhado pelo baixo, percussão e órgão, onde as intervenções do violino de David é de levar as lágrimas, voltando a letra e seu andamento triste até o encerramento dessa ótima faixa de abertura.

"Hot Summer Day" vem a seguir, com o órgão de Linda fazendo o assustador tema inicial, caindo em uma espetacular balada latina comandado pelo baixo de Mitchell e pela harmonica de Bruce Steinberg, com David e Pattie dividindo os vocais, tendo destaque total para o trabalho do casal LaFlamme, com David solando ao violino, além das viajantes notas da guitarra de Hal. O crescendo final é de arrepiar, onde novamente Linda manda ver em belas notas do órgão.


A fantástica "Wasted Union Blues" surge com a ácida guitarra de Hal, típica do flower-power, e o piano carregado de Linda, com David viajando com a letra da canção, que vai ganhando ritmo como que um trem em andamento, ao mesmo tempo que Pattie passa a acompanhar os vocais de David. Quando pega embalo, é impossível ficar parado, ainda mais com o agitado solo de violino feito por David, com Linda comandando o ritmo das viradas de bateria e também das ácidas notas de Hal. Alucinante e fora do normal são boas definições para outro grande som.


O lado A encerra com a bela "Girl With No Eyes", onde o cravo de Linda faz a introdução para a bela e triste letra ser cantada por David, enquanto guitarra e cravo fazem notas e acordes ao fundo. Pattie participa em algumas frases, assim como o violino de David, chegando ao emocionante refrão, onde violino, guitarra e órgão executam as mesmas notas sob a linda melodia vocal feita por Pattie e David. Linda faz um pequeno solo no cravo e a letra é retomada, com a repetição novamente do refrão, encerrando com violino, guitarra e órgão fazendo algumas notas.




Capa interna de It's A Beautiful Day


Outro clássico surge abrindo o lado B, a imortal "Bombay Calling", já com os acordes iniciais e o violino trazendo o famoso riff da canção ao lado do piano elétrico. Esse riff se tornou famoso justamente pelo fato do tecladista do Deep Purple Jon Lord ter chupado na cara dura o mesmo para ser o riff da clássica "Child In Time", registrada no álbum In Rock (1970). As lindas notas orientais do violino são seguidas pela repetição das mesmas pelo órgão de Linda, com o violino entrando ao fundo e tomando conta das caixas de som, para então Hal surgir com um vigoroso e efusivo solo de guitarra, onde a cadência de baixo, bateria e órgão dão o pique para as viradas insanas do violino junto a guitarra.


Baixo e bateria ganham ritmos cavalgantes, com os LaFlammes travando um duelo de violino e órgão junto as vocalizações de David e Pattie, até Linda ficar solando no órgão, voltando então a guitarra e o violino para mais uma sequência de acordes, que levam a repetição do tema oriental inicial, encerrando a canção com um longo acorde de órgão que leva a faixa seguinte, a paulada "Bulgaria".

Um gongo abre os trabalhos de uma viajante canção, onde o violino faz um solo bem intimista, com percussão, órgão e a guitarra criando um ambiente sombrio e assustador. Os vocais de David surgem, mantendo uma linha oriental na melodia que fica ainda mais apavorante com o surgimento dos vocais de Pattie. Devagar, a canção vai ganhando corpo, com Linda delirando no órgão em longas notas.

O piano é o responsável pelo ritmo, e assim, vemos a cara de "Bulgaria", que similarmente a "Wasted Union Blues", vai crescendo com a adição da viajante guitarra de Hal e do baixo de Mitchell, até chegarmos ao eixo central da canção, com violino e vocalizações sendo o destaque principal entre os longos acordes de Linda que levam ao fantástico encerramento da faixa.

O LP encerra com a longa e viajante "Time Is", onde piano, baixo, violino e bateria comandam uma embalada sessão instrumental de abertura, lembrando as músicas tradicionais russas, que trás a tona um fantástico solo de Linda acompanhado pela esquizofrênica guitarra de Hal. David começa a cantar sobre o rápido andamento, com Linda solando entre cada estrofe cantada pelo marido. O órgão e a guitarra insanamente viajam ao fundo enquanto David grita "Time, Time, Time", e então temos uma longa sequência percussiva onde Linda faz um solo magistral no órgão. Admiradores de Jon Lord, ouçam e constatem por que o It's A Beautiful Day era fonte de inspiração para o Purple.

Barulhos percussivos de guitarra e baixo são adicionados a notas de violino, órgão e a percussão de Pattie e Val, levando a delirantes minutos de um free-jazz muito doido, onde Val fica sozinho solando na bateria, rufando na caixa enquanto alterna batida nos tons e rolos entre bumbo e caixa.

A voz de David trás a letra novamente entre a barulheira percussiva, e aos poucos, baixo, piano e guitarra seguem a sequência inicial da canção, uma paulada de tirar o fôlego de qualquer principiante no psicodelismo, fechando com chave de ouro um dos melhores álbuns do estilo.

A capa de It's A Beautiful Day foi feita por George Hunter e pintada por Kent Holliseter, baseada em uma revista que circulou pelos Estados Unidos por volta de 1900, e foi eleita a vigésima quarta capa mais bonita de todos os tempos pela revista Rolling Stone.

Do LP, o single de "White Bird", tendo "Wasted Union Blues" no lado B, alcançou a posição # 118 na parada da Billboard, e os vocais de David e Pattie passaram a ser reconhecidos em todo os EUA, com o It's A Beautiful Day finalmente prestes a conquistar seu lugar ao sol.

Porém, os LaFlamme acabaram separando-se, com Linda abandonando o grupo. Para seu lugar, foi contratado Fred Webb, mas a ausência de Linda podia ser sentida nos estúdios. Mesmo fazendo shows nos Fillmores, o It's A Beautiful Day passava por uma crise interna, e a saída foi agregar ao grupo a participação do Deus da psicodelia e dos filantrópicos alucinógenos Jerry Garcia, fundador e líder do Grateful Dead.


O primeiro LP sem Linda LaFlamme


Jerry foi para os estúdios junto com o It's A Beautiful Day sendo quase uma espécie de padrinho dos mesmos, e assim, em 1970, lançam o segundo álbum, Marrying Maiden, voltado mais para a música country, sem tanta psicodelia, mas que já abre com uma vingaça para o plágio do Deep Purple (que a essas alturas estourava com "Child In Time"), com a faixa "Don and Dewey" chupando claramente o riff da canção "Wring That Neck" do Purple, registrada no álbum do Deep Purple Book Of Taliesyn (1968).

Bateria, órgão, baixo e guitarra puxam o ritmo, trazendo o violino que executa o riff principal de "Wring That Neck". A seguir, o que temos é uma espetacular versão "beautifulniana" para o clássico do Purple, com David, Fred e Hal solando sobre o andamento jazzístico criado por Blackmore e cia., nesta que é disparada a melhor faixa do álbum, contando ainda com um interessante solo de harmônica feito por Mitchell, e que pode ser definida com a famosa frase "olho por olho, dente por dente".

"The Dolphins" muda o clima totalmente, com o piano elétrico apresentando o tema inicial, seguido por uma country-waltz feita por guitarra, baixo, violão e bateria. David canta suavemente, tendo o acompanhamento de Pattie e Fred no refrão, e no solo principal, destaque para o piano de Fred e para o violino de David.

A sessentista "Essence of Now" lembra The Mamas & The Papas com as vocalizações de Pattie e David. O início de baixo e bateria seguido por piano e os vocais distorcidos de David são responsáveis por essa sonoridade bem especial, em uma boa faixa, que antecede a instrumental "Hoedown".

Após uma contagem rápida, o violino de David manda ver em um country típico das fazendas texanas, solando de forma rápida e dançante, passando então para um solo de banjo feito por Jerry Garcia, que também é responsável pelo hilário solo de pedal steel guitar que vem na sequência. Mitchell sola na harmônica e então David retoma a ponta dos solos encerrando a festa com um pequeno duelo com o banjo.

O Lado A encerra com a interessante "Soapstone Mountain", onde o pesado riff de guitarra apresenta uma suave canção, na linha de "Essence of Now", com um refrão grudento e com Hal tocando de forma sublime. Destaque para o solo de órgão feito por Fred, que tem ao fundo um dos melhores andamentos feitos por Val e Mitchell, e também para a guitarra lisérgica de Hal que finalmente dá as caras no solo que leva ao encerramento da canção.


A segunda formação do It's A Beautiful Day

O lado B abre com a canção "Waiting For The Sun", uma rápida viajem lisérgica com vozes e um french-horn criando uma viajante sonoridade que leva para a melosa "Let A Woman Flow", um jazz suave, quase bossa-nova, com um acompanhamento feito por piano, baixo e bateria, além de intervenções do órgão e do violão sob os vocais de David. A bonita sequência instrumental onde piano e violino dividem as mesmas notas é o ponto principal desta canção, abrindo espaço paraa a sequencia da letra que é cantada em espanhol (!), com o violão executando batidas flamencas, retornando então ao ritmo inicial e a letra em inglês, encerrando com um rápido solo de violino.

"It Comes Right Down To You" é um jazz antigo comandado por guitarra e bateria, com Jerry novamente participando no pedal steel guitar e banjo, além de um clarinete tocado por Richard Olsen, seguida por "Good Lovin'", onde um ótimo solo de harmônica introduz para David surgir com a letra, destacando mais um refrão grudento cantado por David e Pattie, resgatando os ácidos acordes do primeiro álbum do grupo.

A linda "Galileo", com barulhos de vento e um dedilhado da guitarra seguidos por flautas, apresenta um poema declamado por Hal, ganhando mais peso com a entrada de uma espécie de "Bolero" de Ravel feito pela bateria, baixo e guitarra, para metais e violinos ficarem solando, retornando então ao encerramento do poema e da canção com um belo tema na guitarra.

O LP fecha com "Do You Remember The Sun", onde o dedilhado de "Galileo" dá origem as tristes vozes de Pattie e David, acompanhados por violão, baixo e bateria, tendo o sintetizador em viajantes intervenções, levando a um refrão forte e marcante.


Capa alternativa do segundo álbum

A capa de Marrying Maiden, assim como It's A Beautiful Day, é muito bonita. Tendo o nome de A Joint Venture, a pintura foi construída por James William Redo III e Roberto Perez-Dias, e só fica relegada a segundo plano justamente pelo fato da capa do LP de estreia ser muito bela. Existe uma segunda capa que também é tão bonita quanto a original, mas que não é muito conhecida dos fãs da banda.

Mais dois compactos foram lançados: "Soapstone Mountain" / "Good Lovin'" e "The Dolphins" / "Do You Remember The Sun", que não alcançaram nenhum número respeitável.

Apresentação em Bath


Apesar da baixa venda de Marrying Maiden, o It's A Beautiful Day continuava sendo requisitado para os festivais. Em 27 de junho de 1970 o grupo participou do The Bath Festival, ao lado de gigantes como Led Zeppelin, Pink Floyd, Santana e Frank Zappa.


O Woodstock holandês

Também no final de junho, ao lado do Floyd, Santana, Canned Heat, T. Rex, Family entre outros, o grupo participou do festival Stamping Ground - Holland Pop Festival, conhecido como Woodstock holandês, com uma apresentação delirante para mais de 350 mil pessoas em Rotterdam. Parte dessa apresentação pode ser conferida no DVD oficial do espetáculo, onde o grupo comparece com duas canções: "Open Up Your Heart", onde o filme mostra imagens do pessoal já na ressaca do festival, e a arrepiante e assustadora performance para "Wasted Union Blues", onde um temporal sem dimensões começa a cair no local do evento exatamente quando David começa seu solo. Debaixo de muito vento, raios, trovões e chuva pacas, o It's A Beautiful Day levanta a galera com um solo fantástico, enquanto as faces de David e Pattie (que inclusive ganha belos closes de suas pernas) são iluminadas pelos raios que estouram por toda a parte. Absurdamente insano!


A fantástica caixa trazendo os últimos dias do Fillmore

Após a sequência de shows, o grupo sofreu uma nova reformulação, com Tom Fowler (ex-Frank Zappa) e Bill Gregory substituindo Mitchell e Hal respectivamente. A estreia de ambos ocorre em 1971, no programa de rádio KSAN. Em julho, o grupo faz seus últimos shows no Fillmore West, deixando registrado no filme Fillmore e na caixa Fillmore: The Last Days uma magistral versão de quase 10 minutos para "White Bird".


O meio bom, meio médio disco do camelo

Entram em estúdios com a sensação de que o grupo estava perto do fim, e então gravam o derradeiro Choice Quality Stuff / Anytime. Lançado em 1971, o álbum que também é conhecido como "o disco do camelo" foi dividido em duas partes, e que caracterizam duas sonoridades bem distintas. O lado A, intitulado Choice Quality Stuff, é pesado e bem trabalhado, abrindo com "Creed of Love", onde o riff da guitarra e do baixo, seguido pelo violino, trás os vocais de David com as vocalizações de Pattie, em um ótimo hard que tem um dos grandes refrões da carreira do grupo, além de um ótimo duelo entre Bill e David.

"Bye Bye Baby" é um agitado blues que trás ao disco o que o It's A Beautiful day gostava muito de fazer em suas apresentações. A letra dessa canção é cantada por Pattie e David, e mais uma vez o solo de Bill é o destaque, dividindo espaço com o piano e com o violino cheio de efeitos de David.

A instrumental "The Grand Camel Suite" mantém o bom nível, com a guitarra e o violino fazendo o riff principal, levando a cadência do violino e do órgão com uma cozinha bem southern rock, para então termos os solos de David, Bill e também participações de vocalizações e violão.

"No World For Glad" tem uma bonita introdução ao piano, para então surgir o violino e a voz de David cantando a primeira estrofe da letra. Pattie faz a segunda estrofe e ambos cantam o hardiano refrão, onde Bill manda ver em mais um bom solo. David toca flauta nessa canção, e a sequência da letra se dá agora com a inversão na ordem das estrofes de Pattie e David.

O funk psicodélico de "Lady Love" vem a seguir, com ótima participação do baixo e do órgão, lembrando muito canções da Experience de Jimi Hendrix principalmente pelo ritmo e pelo baixo de Tom durante o solo de Bill.

Falando em ritmo, os percussionistas Jose Chepito Areas e Coke Escovedo e mais o tecladista Gregg Rolie, ambos do grupo Santana, participam da faixa "Words", uma paulada que não poderia deixar de lembrar as canções do Santana, com os vocais sensuais de Pattie que chamam bastante a atenção do ouvinte logo na primeira estrofe. David canta a segunda parte e entramos no fantástico solo de Gregg, seguida pela sequência percussiva puramente santana, levando a conclusão da faixa e ao encerramento do lado Choice ...

O lado Anytime já é bem mais calmo, abrindo com "Place Of Dreams", com a guitarra dedilhando entre notas de violino para trazer os demais instrumentos e os vocais de David, em uma canção bem sessentista.

A instrumental "Oranges & Apples", com seu órgão, violino e o trompete de Bill Atwood, lembra canções latinas em seu tema principal, com destaque apenas para o solo de órgão, seguida por "Anytime", onde Atwood participa novamente tocando os metais que fazem o tema principal. David canta outra leve e dançante canção, que tem o ponto alto no solo de saxofone feito por Atwood.

"Bitter Wine" trás de novo o pessoal do Santana, e o embalo é retomado em uma faixa que é cantada por Pattie e David juntos, encerrando o álbum com a ótima "Misery Loves Company", onde o estrondoso início da guitarra de Bill apresenta os vocais de David com as vocalizações de Pattie ao fundo. Bill é o destaque, solando como nunca, e a letra é retomada com um pique excelente, levantando a moral do álbum e do ouvinte.

A engraçada capa com o camelo andando pelo deserto e se imaginando dirigindo um carrão entre vários parceiros de corcovas, foi feita por George Benett, e chegou a causar alguma polêmica nos EUA por apresentar os testículos do mamífero. Somente um single foi lançado, com "Anytime" / "Oranges and Apples" (1972), que também não fez nenhum sucesso.


O ótimo e delirante ao vivo
Após o lançamento de Choice ..., o grupo partiu para mais uma turnê, a qual ficou registrada no fantástico At Carnegie Hall, lançado em 1972, contando com bombásticas interpretações para clássicos como "Bombay Calling", "Hot Summer Day" e "White Bird".


O último álbum, já sem David LaFlamme

O grupo continuou excursionando por mais alguns meses, até que David largou a banda por problemas contratuais e foi seguir em carreira solo. Patti, Val, Bill e Fred tocaram o barco com Bud Cockrell (baixo) e Greg Bloch (violino), lançando o bom It's A Beautiful Day ... Today em 1973, que contém ótimas canções como "Creator" e "Ain't That Lovin' You", mas que não apresenta a mesma sonoridade dos álbuns anteriores. Em 1974, o anúncio oficial do It's A Beautiful Day era feito.


A última formação do grupo


Em 1976, David regravou "White Bird", alcançando a posição # 89 nas paradas da Billboard, a maior que uma canção do grupo já obteve até então. David seguiu em uma carreira solo sem muito sucesso, fazendo shows e sempre tocando canções do It's A Beautiful Day. Inclusive, erroneamente existe em alguns sites um vídeo como sendo do It's A Beautiful Day em uma apresentação em um festival em 1978, o que na verdade não é fato. aquela é sim uma apresentação da banda de David, e não do It's A Beautfiul Day. Os demais membros do grupo permaneceram na obscuridade durante algum tempo.

Em 14 de dezembro de 1989, a linda Pattie Santos morre em um trágico acidente de carro. No enterro da vocalista, o re-encontro dos membros fundadores (a menos de Linda LaFlamme) faz surgir a ideia de re-ativar o grupo, ainda mais pela busca crescente de adolescentes atrás de mais canções da banda que inspirara uma das principais obras do Deep Purple, já que Ian Gillan havia declarado a importância do It's A Beautiful Day para a inspiração de Jon Lord.

Um ano depois, Fred Webb falecia, e novamente o contato entre Val e David dava origem a uma volta do grupo. Então, o It's a Beautiful Day voltava a ativa em 1997, ora com o nome original ora como David LaFlamme Band, apresentando David e Val da formação original, mais a nova esposa de David, curiosamente também chamada Linda LaFlamme, Toby Gray (baixo), Gary Thomas (teclados) Rob Espinosa (guitarras) e Michael Prichard (percussão).


Cartaz de divulgação de show nos anos 2000

Em 2001, a violinista Vanessa-Mae registrou uma versão para "White Bird", e pasmem, a canção alcançou a posição # 66 nas paradas inglesas. "White Bird" tornou-se um símbolo do grupo e, ao lado de "White Rabbit" (Jefferson Airplane), é uma das canções mais lembradas pela geração que vivenciou o famoso verão do amor e seus dias decorrentes, sendo uma das canções mais regravadas por outros artistas na história do rock.


It's A Beautiful Day hoje 

O It's A Beautiful Day permanece na ativa, fazendo excursões de divulgação dos velhos clássicos do grupo, assim como tantas outras bandas da época fazem na década atual, porém sem compor material novo, apenas resgatando velhas canções dos maravilhosos dias do grupo.
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