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quinta-feira, 30 de julho de 2026

Consultoria Recomenda: Discos em que o vocalista também é o baixista



 Editado por André Kaminski

Tema escolhido por Marcello Zappellini

Com Anderson Godinho, Davi Pascale, Mairon Machado e Marcelo Freire

Quando chegou a minha vez de propor um tema, pensei um pouco e decidi homenagear o instrumento musical que normalmente mais me chama atenção no rock e seus múltiplos subgêneros: o baixo. Mas, simplesmente falar de baixistas não seria muito interessante, então pensei na ideia de trazer recomendações de discos em que o baixista seja o vocalista principal. Uma regra foi aplicada: não poderia haver outro vocalista principal na banda, o que levou a deixar de lado Beatles e Kiss, por exemplo. Embora não tenha ficado explícito, também não caberia indicação de baixista/vocalista em carreira solo. O resultado foi uma lista bem variada, como se pode ver. (Marcello Zappellini)


The Police - Regatta de Blanc [1979]

Por Marcello Zappellini

O segundo disco do The Police não é muito lembrado na carreira da banda, pois não teve a novidade do primeiro nem o impacto de Sinchronicity, mas sempre esteve entre meus favoritos da banda. Diferentemente do primeiro LP, Sting não domina as composições (embora as duas músicas mais conhecidas sejam dele, “Message in a Bottle” e “Walking on the Moon”), pois duas são creditadas aos três, uma a Sting e Stewart Copeland e três foram escritas por Copeland. O riff intrincado de Andy Summers em “Message in a Bottle” abre (muito bem) o disco, seguido pela faixa-título quase instrumental, e por “It’s Alright for You”, que não faria feio no primeiro disco; nessa, o baixo é creditado a Stewart Copeland. “Bring on the Night” traz um baixo mais trabalhado e, como tanto Andy e Stewart estão meio discretos na música, Sting se torna o destaque. “Deathwish” é uma canção injustamente pouco lembrada, em que o nosso baixista/vocalista de novo carrega a melodia. Já “Walking on the Moon” é um primor de simplicidade - ninguém precisa ser Chris Squire ou John Entwistle para fazer o baixo ser o instrumento que mais chama sua atenção. “On Any Other Day” é bem diferente e tem um estilo meio 50s/60s que o Police nunca mais explorou; “The Bed’s Too Big Without You” retoma o reggae com outro riff marcante de baixo, e "Contact” é bem new wave, e traz um interessante baixo em staccato, mas não escapa de ser a mais fraca do disco. Copeland é o responsável por “Does Everyone Stare”, em que toca piano. A enérgica “No Time This Time” encerra o disco, com outra bela linha de baixo em uma música que também podia estar no disco anterior. Nos vocais, Sting desempenha melhor aqui do que no primeiro LP, embora ele ainda fosse melhorar com o tempo; a impressão que tenho é que, para se dissociar do movimento punk, o grupo investiu em uma sonoridade mais sofisticada, o que passa pela voz do baixista. E o reggae é um estilo que favorece o baixo, que confere a necessária pulsação à música, tornando Regatta de Blanc um álbum digno desta lista.

Anderson: Um dos clássicos do The Police, sem sombra de dúvidas. Message in a Bottle e Walking on the Moon não me deixam mentir, mas poderia destacar "Deathwish" ou "The Bed's Too Big Without You" que em minha concepção representam muito a sonoridade da banda naquele momento. Acredito que algumas faixas poderiam ter sido deixadas de lado, mas como o material não é tão extenso é aceitável que permaneçam. Por fim, acho que a sonoridade apresentada pelo The Police aqui representa bem um dos caminhos que o rock estava desbravando no final dos anos 1970, o que torna o material ainda mais relevante.

André: Demorei um tempão, mas o som do The Police me fisgou depois dos 30 anos. É curioso como eles tentam fazer aqui uma espécie de reggae-punk-pop-rock. Como a guitarra de Andy Summers tem pouquissimo overdrive, o baixo de Sting acaba tomando conta da maioria das canções e, como vocalista, o Picada sempre se destacou. Para este tema, um ótimo disco e bem representativo como era de se esperar.

Davi: O The Police foi um grupo pop de primeiríssima linha, que contava com três grandes músicos e uma sonoridade bem definida e bem refinada misturando elementos de vertentes distintas como o punk e o reggae. Sua trajetória foi curta, mas deixou uma discografia impecável repleta de grandes hits e verdadeiras pérolas escondidas. Nesse segundo CD, os hits ficam por conta das inesquecíveis “Message In a Bottle” e “Walking On The Moon”, enquanto meus lados B favoritos ficam por conta de “It´s Alright For You” e “Bring On The Night”. Discão!

Mairon: Nunca fui muito com a cara do The Police, e sempre me perguntava o por que disso. Ouvi os discos da banda há muitos anos atrás, e desisti. Me culpava por um certo lado, pois alguns amigos que conheço consideram a banda revolucionária. Então, fui de coração aberto, quase 20 anos depois, para ouvir esse segundo disco deles, e pqp, logo de cara, em "Message in the Bottle", me dei conta de quão insuportável (e vexatório) é o Sting, que como baixista acho limitadíssimo, tentar cantar como o Bob Marley, e quão é terrível essa ideia de três britânicos quadradões tentarem fazer reggae de branco. O Clash ao menos foi honesto e fez letras que representavam um pouco o que é o reggae, mas isso aqui?? Que coisa tinhosa, que coisa detestável, que coisa triste saber que Andy Summers e Stewart Copeland, estes sim muito talentosos, fizeram parte de algo tão chato. Me surpreende um pouco de saber que o Rush gostou disso aqui, e se inspirou neles para fazerem "The Spirit of Radio", por que olha, musicalmente é vomitativo o que esses caras fizeram. Não tenho mais palavras para mostrar meu ranço com o The Police, mas se alguém quiser vir defender esses otários, que vá ouvir a imundíce chatíssima dos "io io ios" e "ie ie ies" da faixa-título ou de "Walking on the Moon". Me perdoa Marcelo (certeza que foi tu quem recomendou), mas que baita bost@. Preciso ouvir Zappa para limpar meus ouvidos.

Marcelo: Gosto bastante do The Police, embora entenda perfeitamente quem tenha dificuldade com a banda, sobretudo quando a mistura de reggae, punk, pop e rock parece mais calculada do que espontânea. Em Regatta de Blanc, porém, acho que esse equilíbrio funciona muito bem. Sting ainda não é o compositor absoluto que se tornaria depois, mas sua presença como baixista e vocalista já organiza boa parte da identidade do grupo. “Message in a Bottle” e “Walking on the Moon” são as pérolas evidentes e tocadas à exaustão nas boas rádios brasileiras do início da década de 80, mas “Bring on the Night” e “The Bed’s Too Big Without You” são as aulas de Sting sobre como baixistas podem, além de acompanhar os demais instrumentos, também conduzir o clima da música.


Robin Trower - Robin Trower Live [1976]

Por Marcelo Freire

 Minha indicação foi este Robin Trower Live, muito mais por James Dewar do que pelo próprio Trower, por mais absurdo que isso pareça diante de um guitarrista desse tamanho e do tanto que eu o amo, vide o que já escrevi sobre ele aqui na casa. Dewar era aquele tipo de músico que, sem parecer disputar espaço, sustentava tudo: baixo firme, pesado, cheio de presença, e uma voz soul/blues absolutamente fantástica, meu Deus, como cantava fácil esse homem... Em “Too Rolling Stoned”, “Daydream”, “I Can’t Wait Much Longer” e “Little Bit of Sympathy”, ele mostra por que foi o parceiro ideal de Trower. O disco tem todos os méritos de um grande registro ao vivo setentista, mas, dentro deste tema, o que mais me interessa é perceber como Dewar consegue ser base e frente ao mesmo tempo, sem transformar isso em exibicionismo.

Anderson: Definitivamente não gosto de álbuns ao vivo e esse me lembrou o motivo. Uma coisa é ir no show e viver aqueles momentos com todo o contexto emocionante que contam histórias únicas e pessoais. Agora, os álbuns ao vivo não expressam tudo isso, entendo sua importância em vários sentidos, como para registrar os distintos momentos pelos quais uma banda passa, bem como disponibilizar um material para um público que, possivelmente, nunca teria como ver in loco. Dito isso, o material apresenta todos os excessos que em um show caem bem, mas que se tornam maçantes em uma audição cuidadosa em casa. A banda, por sua vez, está impecável, reza a lenda que não sabiam que o material se tornaria um disco. Musicalmente, Trower mostra os motivos de ser considerado um dos grandes. Particularmente, as baladas me pegaram: Daydream e I Can't Wait Much Longer são muito boas e a execução é muito boa. Enfim, um ótimo material para quem curte Live.

André: Ótimo disco ao vivo de Trower, um destaque na guitarra blues rock. Em conjunto com o vocalista e baixista James Dewar, que também canta e toca pacas, temos um lindíssimo disco do melhor do que o blues rock setentista pode oferecer. Curioso como o comparam ao Hendrix. Mas a bem da verdade, realmente é o sujeito que eu mais vejo ter chegado próximo em termos de guitarra neste estilo.

Davi: Clássico álbum do grande guitarrista Robin Trower. Lembro que um tempo atrás, indiquei o Bridge of Sighs, em uma outra edição do Consultoria Recomenda. Bacana ver mais um disco dele por aqui. Não tem muito o que falar de novidade. Robin é um guitarrista brilhante, James Dewar é um vocalista de mão cheia (embora o trabalho vocal dele aqui tenha sido refeito em estúdio), e o set é fantástico. Claro... Como o LP da época era simples (atualmente existe uma edição de luxo mais completa), faltavam alguns sons como a fantástica “Day of The Eagle”, mas não tem como criticar um disco que traz sons como “Little Bit of Sympathy”, “Lady Love” e “Rock Me Baby”. Audição obrigatória!

Mairon: Robin Trower, James Dewar e Bill Lordan formaram um dos grandes power trios da história. Assim como Taste e a Stevie Ray Vaughan Band, a Robin Trower Trio era escorada na genialidade de seus guitarristas (para quem não sabe, o Taste era liderado por Rory Gallagher). Robin Trower sempre foi um filhotão de Jimi Hendrix, e suas qualidades são inquestionáveis, mas como o Recomenda se trata de baixista e vocalista, me concentro então a analisar o trabalho de Dewar. Seus vocais britânicos são nítidos e brilhantes, me lembrando muito os de Bobby Martin (que acompanhou Zappa nos anos 80) em faixas como a dançante "Too Rolling Stoned", o rockaço "Lady Love" e a doloridíssima "Daydream", uma das mais lindas canções da carreira de Trower, assim como a bela " I Can't Wait Much Longer", na qual Trower demole na guitarra. Além disso, o groove do seu baixo é a sólida base para "Little Bit Of Sympathy", "Rock Me Baby" e principalmente "Alethea", faixa pegadíssima, com um ótimo solo de Lordan, que remete diretamente ao Jimi Hendrix Experience e ao Cream. Apesar de achar que a mixagem do baixo está baixa ao longo de todo o álbum, é um disco que acerta em cheio no coração de quem ama rock, e principalmente, um bom e vigoroso power trio..

Marcello: O quarto disco-solo do ex-guitarrista do Procol Harum é um absurdo de bom, e faz parte dessa lista por causa da presença do gigantesco James Dewar, ex-Stone The Crows e não somente um baixista excelente, como um vocalista dono de uma voz simplesmente fenomenal, cheia de soul. Falei mais desse álbum na matéria sobre o rock ao vivo  em 1976, e para não me repetir, vou me concentrar no desempenho de Dewar. O músico já brilha na introdução de “Too Rolling Stoned”, antes de Trower entrar com sua guitarra com wah-wah, e quando Dewar começa a cantar você percebe que está diante de algo especial. “Daydream”, mais suave e romântica, permite a nosso herói explorar sua bela voz, ao passo que “Rock Me Baby” prova que ele podia cantar blues muito bem. “Lady Love”, que encerra o antigo lado 1, não permite muito destaque a Dewar, mas na sequência tem-se a monumental “I Can’t Wait Much Longer”, em que Robin estraçalha na guitarra – mas James consegue nos fazer esquecer dele em alguns momentos. “Alethea” se assemelha um pouco em termos de desempenho vocal a “Too Rolling Stoned”, e o disco se encerra com “Little Bit of Sympathy”, em que Trower arrasa novamente e Bill Lordan tem direito a um curto solo de bateria. Preciso chamar atenção para o timbre pesado de James no baixo, que soa em alguns momentos como se ele usasse distorção, mas, até onde sei, isso não ocorre. Robin trabalharia com bons baixistas (Jack Bruce, por exemplo), mas James Dewar (infelizmente falecido ainda jovem) foi seu parceiro ideal, e Live! está aí para provar.


Som Nosso de Cada Dia - Som Nosso [1977]

Por Mairon Machado

Minha recomendação é mais uma forma de homenagear um dos maiores baixistas/vocalistas do Brasil, além de ser um cara muito simpático e querido, que tive a honra de entrevistar pouco antes de seu falecimento. Pedrão Baldanza tocou com praticamente todos os grandes nomes que o nosso país revelou, e foi na Som Nosso de Cada Dia que teve sua criatividade progressiva revelada, através do excelente Sneges (1974). Depois de uma reformulação no line-up da banda, em 1977 veio o segundo álbum da banda, com uma sonoridade totalmente moderna e diferente de seu trabalho antecessor.  famoso Lado Sábado é para realmente se divertir com uma noitada de fim de semana. Nele, os vocais rasgados e trêmulos de Pedrão de sobressaem em faixas como , "Levante a Cabeça", "Pra Swingar" e seu baixo swingado aparece em faixas como "François", além de comandar o riffzão no groove de "Estação da Luz", "Pra Segurar", praticamente arrebentando as cordas, e "Vida de Artista". Já o lado Domingo é para aquele dia que você apenas relaxar com um som bastante progressivo, na linha Snegs, com os vocais característicos de Pedrão comandando "Bem No fim", e uma baita linha de baixo, e a tocante "Neblina", carregada nos viajantes teclados e nas delirantes vocalizações de Pedrão, além do baixão de "Água Limpa" e "Rara Confluência", pauladas prog com muito moog e guitarra. Destaque total neste lado para "Montanhas", com um show a parte do baixo de Pedrão (e da bateria de Pedrinho), e certamente a faixa mais Snegs de um disco incompreendido, sendo fundamental e necessário de ser apresentado para as novas gerações.

Anderson: Não conhecia a banda, mas sua audição gerou momentos agradáveis. Sendo bem direto, há uma distinção interessante entre músicas mais animadas que podem ser inseridas no contexto da disco music e do funk, músicas que soam muito acessíveis, e por outro lado algo voltado para o rock progressivo. As músicas Bem no Fim e Montanhas representam bem esse segundo momento do álbum. Em minha opinião essa segunda parte é muito mais interessante do que o início, apesar de o disco como um todo ser muito agradável. Vale a pena ouvir na íntegra.

André: Gosto muito deste disco e Pedrão é o cara! Seu baixo pulsa com vida em praticamente todo o disco. Prog, funk, soul e jazz se misturam aqui facilmente, com a banda conseguindo a façanha de fazer essa salada sonora soar muito boa. Para um disco dos anos 70 com essa qualidade de som, tem que se tirar todos os chapéus possíveis.

Davi: Em Som Nosso, o grupo do saudoso Pedro Baldanza atacava em 2 frentes. O lado A trazia uma sonoridade com uma pegada funk/soul e um pezinho na MPB. OS arranjos são bem resolvidos e os músicos são excelentes. Quem curte aquela sonoridade setentista do Tim Maia deve curtir, principalmente a faixa “Levante a Cabeça”. Contudo, me identifico mais com a segunda metade do LP, onde os músicos apostam em uma sonoridade jazz/rock com forte influência do rock progressivo. Nessa segunda metade, o grande destaque vai para a bela faixa “Montanhas”. Foi um disco legal de reescutar, mas ainda prefiro o Snegs.

Marcelo: Por que temos tantas coisas muito boas de se ouvir e, subitamente, nos lembramos de um disco que deveríamos ouvir mais?! Esse é um daqueles discos que sempre me fizeram defender como o rock brasileiro dos anos 70 ainda guarda surpresas imensas. Pedrão Baldanza é o tipo de figura que justifica plenamente a presença nesta postagem: baixo pulsante, voz característica e uma capacidade muito natural de atravessar prog, funk, soul, jazz-rock e música brasileira sem parecer que está apenas colando referências. Gosto especialmente quando o disco assume o balanço do lado “Sábado”, mas o lado “Domingo” também tem momentos progressivos muito bonitos. Talvez seja irregular justamente por tentar muita coisa, mas é uma irregularidade cheia de vida.

Marcello: O representante do rock brasileiro na lista é um grupo de quem só conhecia um disco (que ouvi em fita, aliás!) e nem imaginava que tinha um baixista/vocalista (Pedrão). O disco tinha dois lados bem distintos: o lado A (“Sábado”) começa com “Para Swingar”, que faz jus ao nome com seu balanço funk, os metais e a voz canalhinha de Pedrão. “Levante a Cabeça” já dá mais destaque para o baixo numa música que dura pouco e deixa gostinho de “quero mais”, e “François” tem forte influência de disco music. “Para Segurar” põe os teclados em relevo e outro ótimo arranjo de metais. “Estação da Luz” e “Vida de Artista” foram compostas por Tony Osanah, figura conhecida no cenário da época, a segunda com um ritmo intrincado que destaca novamente os teclados e traz na letra a linha mortal: “para subir na vida é melhor ser ascensorista”. O lado B (“Domingo”) remete ao clássico álbum de estreia do grupo, Snegs (1974), com menor influência de black music. “Bem no Fim” tem outra linha de baixo fantástica e ótimos teclados, e “Montanhas” começa com aquele som “viajante” de meados da década de 70, trazendo uma bateria sensacional de Pedrinho Batera numa música meio jazz-rock, e quando você pensa que a música será toda instrumental, os vocais entram para concluir. “Neblina” não me chamou muito a atenção, mas “Água Limpa” traz um interlúdio instrumental com um piano sensacional. O álbum se encerra com “Rara Confluência”, com uma introdução de sintetizador que lembrou os bons tempos de Rick Wakeman e outra bateria fantástica. Apesar da habilidade impressionante dos músicos envolvidos, confesso que preferi o lado A. Som Nosso é um daqueles discos que se tivessem sido gravados nos EUA ou Inglaterra, poderia ter feito sucesso, especialmente se investisse no som do lado A. Infelizmente, nem aqui vendeu bem, e a banda acabou pouco depois.


Reverend Bizarre - II: Crush the Insects [2005]

Por André Kaminski

Embora o doom metal mais tradicional seja a base (nas quatro últimas faixas), fica claro que a banda se inspira no Sabbath setentista (nas três primeiras). Diferente das temáticas obscuras e melancólicas, o baixista e vocalista Albert Witchfinder volta e meia usa o humor em suas letras na criação de canções que não parecem se levar a sério. Por pouco não indiquei Goddess of Doom, mas pena que era apenas um single homenageando a deusa do terror Vandinha Addams, ou Christina Ricci, que até aceitou ser a capa do disco! É um doom metal divertido (isso existe?) e diferenciado, de uma banda que durou pouco mas que muitos a tem como seu "achado de estimação da qual não contarei a ninguém".

Anderson: Outra banda que não conhecia e que me surpreendeu bastante. O disco é uma loucura, começa mais cru e seco, soa como um stoner rock mais simples e clássico. Colocaria as três primeiras nessa lista, destaque para Doom Over the World, a mais interessante. Eis que a partir da quarta música, um épico de 13 minutos, a sonoridade muda vertiginosamente para um Doom Metal daqueles bem cadenciados. Até o final teremos músicas longas e arrastadas que criam uma atmosfera completamente melancólica. Em minha perspectiva, a última música Fucking Wizard é o maior destaque dessa “fase 2” do material, faz menção ao Black Sabbath, mas ao seu jeito. Acredito que o nome da banda justifica bem o material. Com certeza não é para qualquer um, ainda não sei me surpreendi positiva ou negativamente.

Davi: Segundo álbum da banda de doom metal da Finlândia. Confesso que não conhecia o grupo e que fiquei impressionado em ver como esse álbum é cultuado entre os críticos de metal. Sério... Não consegui enxergar toda essa qualidade que os caras mencionaram. Achei as composições chatas, a audição extremamente cansativa, o som da bateria extremamente sem graça e o trabalho vocal fraquíssimo. Definitivamente, não é pra mim.

Mairon: Nunca tinha ouvido falar desta banda, então, quando olhei a capa do álbum, pensei que viria algo de contexto histórico. O som é um doom metal sem muita energia, e onde o vocal e o baixo de Albert Witchfinder se destacam realmente. Apesar de ser um disco muito longo (1 hora e 13 minutos), e não ser o estilo de música que aprecio hoje em dia, reconheço qualidades no disco, principalmente em "The Devil Rides On" e claro, o épico "Slave of Satan", com uma longa introdução de baixo e que fiz questão de ouvir as duas versões (a versão single, completa, possui 21 minutos!) . Me lembrou algo do Misfits, sei lá, mas mais arrastado, em especial "By This Axe I Rule!" e "Fucking Wizard", cujos trechos velozes são sensacionais, mas o longo trecho arrastado em cada uma delas é bem cansativo. Se essas canções fossem uns 30% mais curtas, seria um ótimo disco. De qualquer forma, irei ouvir os outros dois álbuns do trio finlandês para ver se é assim mesmo. Recomendação interessante.

Marcelo: Aqui eu confesso que apanhei um pouco. O Reverend Bizarre tem aquele culto em torno de si que sempre me deixa curioso, mas é só curiosidade mesmo. mas II: Crush the Insects exige uma disposição que nem sempre tenho para o doom mais arrastado. Albert Witchfinder se encaixa perfeitamente no tema, porque o baixo e a voz são parte central da identidade soturna da banda, e há momentos em que essa combinação funciona muito bem, especialmente quando o disco encurta um pouco o caminho. O problema, para mim, é que algumas faixas longas passam do ponto e começam a transformar peso em repetição. Foi muito bom conhecer, mas não sei se voltarei a ele com frequência, mas que voltarei, voltarei, sobretudo por faixas como a de abertura, “Doom Over The World”. Ah, e a capa é ótima.

Marcello: Quando recebi a lista, minha reação foi “quem???”. Quando vi a capa, minha reação foi “oh, não!”, e fui ouvir o disco sem muita expectativa. Quatro das oito músicas ultrapassam os 10 minutos de duração, e o baixista Albert Witchfinder se mostra um vocalista de bons recursos, além de mostrar segurança nas 4 cordas. “Doom over the World” me lembrou bastante do Black Sabbath: teria sido interessante ouvi-la com Tony Iommi e Tony Martin! Mas dispenso o papo furado no final, que não contribuiu em nada com a música. “The Devil Rides Out” mantém o clima sombrio e um solo curiosamente melodioso. Na sequência, a menor música do disco (só 5’22”!): “Cromwell” fala do Lord Protector, mas, como não fui atrás da letra, não sei o que ele veio fazer aqui no meio do disco – diferentemente das duas primeiras, as influências sabbathianas passam longe dessa música. Foi uma quebra interessante no meio do disco, para falar a verdade. O baixo introduz “Slave of Satan” - da faixa mais curta à mais longa – e os vocais de Witchifinder, embora ocupem pouco espaço na música, são o principal destaque. A música, em si, é um pouco monótona e não caiu no meu gosto. “Council of Ten” mantém o ritmo arrastado da anterior, e de novo o vocal me chamou a atenção, mas a mudança de ritmo n terço final ficou bem legal. “By This Axe I Rule” mantém o clima soturno e o mesmo ritmo das duas anteriores – parece que o baterista se cansou, hehehe. O baixo ganha algumas distorções, tornando-o o instrumento mais proeminente, e puxa uma acelerada na música que mais uma vez me lembrou o Sabbath. “Eternal Forest” não muda muito em relação às músicas anteriores – mesmo problema de “Fucking Wizard”, essa uma “Black Sabbath” (a música, não a banda) sem os mesmos atrativos. No fim das contas, algumas músicas sofreram por ter uma duração muito longa e se tornaram bastante monótonas e repetitivas, mas II: Crush the Insects funcionou bem nas músicas mais curtas – as longas mereciam algumas tesouradas ou pelo menos introduzir outros instrumentos nos arranjos. Foi bom para conhecer, mas não acho que voltarei ao Reverend Bizarre.


Sacred Reich - The American Way [1990]

Por Anderson Godinho

Esse álbum, na discografia da banda, significa uma mudança para um som mais pesado e menos veloz em relação aos anteriores. Phil Rind comanda as mudanças com algumas passagens mais grooveadas, mas é Greg Hall quem se destaca mais com seus arranjos para a bateria (inclusive em 1991, Hall deixa a banda). As letras também são destaque no sentido de apresentarem um tom mais politizado. Alguns clássicos da banda como Love...Hate e a faixa título The American Way até os dias atuais são lembradas nos shows. Algumas elucubrações e invencionices também são lembradas, mas não necessariamente por serem boas, 31 Flavors é um pavor. De modo geral é um bom disco de Thrash Metal, longe de se destacar em meio à multidão, mas tem bons momentos e é um material lembrado na discografia da clássica banda do Arizona.

André: Já ouvi alguns discos dessa banda, incluive este The American Way. Tem aquela mistura de thrash e groove tal como o contemporâneo Pantera, mas sem a qualidade dos riffs de Dimebag Darrel. É um disco bom, na parte de baixo e vocais, o responsável Phil Rind consegue um desempenho satisfatório embora ele não seja nem um grande baixista e nem um grande cantor. A música que mais gostei foi "Crimes Agains the Humanity", incluisive com a intro fazendo uso em destaque do baixo com os vocais.

Davi: The American Way é o segundo álbum do Sacred Reich. O disco aposta em um thrash metal bem cadenciado, bem trabalhado, com um ‘q’ de groove metal. Gosto bastante tanto de thrash, gosto de groove metal, mas não gostei do disco. O trabalho de guitarra de Wiley Arnett é o muito bom, mas o trabalho vocal de Phil Rind é muito fraco. Sua interpretação não me convence e as linhas vocais não me empolgam. No fim do disco há uma faixa chamada “31 Flavors”, onde a banda soa muito como o Red Hot Chili Peppers na época do Freaky Styley. Algo que destoa totalmente do restante do álbum e, mais uma vez, não convence. A melhor música do disco é “Who´s to Blame”, ainda assim longe do que considero uma grande canção.

Mairon: O Sacred Reich é daquelas bandas que mereciam mais reconhecimento dentro do thrash, e que legal ver os estadunidenses aqui. Este segundo disco é uma mudança sonora radical no som dos caras, lembrando um pouco o Anthrax, graças ao genial líder, baixista, vocalista e faz tudo Phil Rind. Com letras bastante críticas, o álbum é muito coeso, e em termos da performance de Rind, o cara tem uma voz interessante, a qual destaca-se principalmente na pesada "Who's to Blame". Mas admito que curto mais ele como baixista. Afinal, ele cria excelentes riffs, vide "I don't Know" e  "The Way It Is", duelando com as guitarras de Wiley Arnett e Jason Rainey . Gosto bastante da pancada "The American Way", e das longas "Crimes Against Humanity", com o baixo estourando as caixas de som, e "State of Emergency", pesadíssima, e com o baixo também marcando presença. Fechando o disco, como não curtir a audácia de "31 Flavors"?. Um funkzão recheado de slaps no baixo, com Rind emulando Mike Patton, e um ótimo naipe de metais que provoca o ouvinte a "sair da caixinha" e ouvir algo totalmente inovador dentro do Thrash, e com uma letra sensacional. Disco clássico que me surpreendeu de ver por aqui, e me fez abrir um sorriso de orelha a orelha. Parabéns ao consultor que o indicou!

Marcelo: O Sacred Reich era uma banda que eu havia deixado meio esquecida nos anos 90, pois enquanto todo mundo ouvia o Rust in Peace do Megadeth, que é do mesmo ano, eu ouvia esse do Sacred Reich... E voltar a The American Way depois de décadas foi uma grata surpresa. Phil Rind talvez não é nem o vocalista mais impressionante e nem o baixista mais virtuoso da lista, mas tem uma presença muito eficiente, especialmente porque o disco combina bem aquela pegada thrash com momentos mais cadenciados e letras de forte teor crítico. “Love…Hate”, “The American Way” e “Crimes Against Humanity” sustentam muito bem o álbum, mas a faixa que mais me divertiu relembrar foi “31 Flavors”, justamente por quebrar a expectativa e flertar com um funk metal inesperado. 46 anos depois, ainda tem personalidade.

Marcello: Uma banda que ouvi algumas vezes nos anos 90 e estava completamente esquecida para mim. E outra que também não sabia que tinha um baixista (Phil Rind) como vocalista principal. Este segundo LP da banda começa com “Love/Hate”, que te dá uma paulada na cabeça; a faixa-título é um pouco mais cadenciada e lembra um pouco o ritmo que o Metallica seguiu nos anos 90 (gostei bastante do riff de guitarra de Jason Rainey). “The Way It Is” pareceria à primeira vista ser uma música meio conformista, mas repetir “this is reality” ao longo dela mostra que a cabeça de Phil Rind está em outro lugar. “Crimes Against Humanity” traz um bom solo de Wiley Arnett, que infelizmente dura pouco tempo, mas, sobretudo, um desempenho fantástico do baterista Greg Hall. “State of Emergency” mantém o clima da anterior, e gosto bastante do baixo palhetado de Rind nessa música. Daí até o final são três músicas mais curtas (pouco mais de 10 minutos), com a introdução suave de “Who’s to Blame” quebrando o peso do disco – mas não deixe a impressão inicial te enganar, porque depois a música acelera, diminuindo o ritmo novamente para o solo de Wiley. “I Don’t Know”, pelo contrário, não dá moleza para o ouvinte, sendo quase punk. A grande curiosidade é “31 Flavors”, com um ritmo funk que se amplifica com os metais e vocais que parecem rap. Parece um cruzamento do Sacred Reich com o Red Hot Chili Peppers, mas ficou muito legal. Não conheço muito da carreira do Sacred Reich, mas The American Way é um bom disco, ainda que meio curtinho, e vou procurar mais coisas deles para ouvir.


Winger - Pull [1993]

Por Davi Pascale

Esse é e sempre foi o meu álbum favorito do Winger. Não é o mais famoso deles (alcunha que fica com In The Heart of The Young), mas foi o disco que me tornou fã dos rapazes. Os músicos envolvidos são todos de primeiro calibre e Kip Winger é um cantor de mão cheia (algo que já fica claro na música de abertura “Blind Revolution Mad”). O disco é muito bem feito e mescla hard rocks um pouco mais pesados do que o grupo costumava fazer (caso de canções como “Junkyard Dog” e “In My veins”), com baladas de extremo bom gosto (como “Who´s The One”, “Spell I´m Under” e “The Lucky One”), além da divertidíssima “Down Incognito”. A banda entregava aqui um trabalho maduro, com interpretações de primeira, mas o lançamento acabou ofuscado pela mudança de mercado que ocorria na época. Disco altamente recomendado para os fãs de hard rock.

Anderson: Mesmo tendo dado uma “estudada” na carreira do Winger para o Bangers Open Air desse ano, não tinha ouvido esse material na íntegra. É muito bom! Fazia um bom tempo que não ouvia um Hard Rock tão bem feito. Devia ter dado mais atenção ao show de Kip Winger e Cia no festival. Elementos de Skid Row são evidentes, aquele peso característico, mas sem perder a melodia em nenhum momento. Dedilhados, solos, backvocals muito bem pensados chamam a atenção, também. É impressionante como, mesmo tendo perdido o tecladista, tornando-se um trio, a banda soa mais cheia e pesada do que materiais anteriores. Geralmente gosto de apontar ao menos três músicas que me chamaram mais atenção, porém aqui fico com o conjunto da obra, 47 minutos muito bem utilizados. Dessa lista, o que mais gostei de conhecer.

André: Há anos não ouvia este álbum. Embora eu ainda prefira o anterior, este trabalho me soou também muito bom e bem consistente para um hard rock farofa. Já era uma época de vacas magras para o estilo (1993, que excetuando o Guns e mais umas poucas, não havia mais espaço para o gênero), todavia o disco soa pesado e bacana. Porém, para o tema, o disco soou fraco em termos de baixo, com Kip Winger apenas cozinhando sem nenhum solo ou toque diferenciado, exceto em algumas pequenas partes acústicas.

Mairon: Fazia muito tempo que não ouvia o Winger, e foi legal voltar neste terceiro disco dos caras. Acho que é um dos mais pesados da carreira deles, mesmo com as mesclas de momentos acústicos com elementos mais pesados, e muito pelo baixão do Kip Winger, que aliás é um dos grandes vocalistas de sua geração. Reb Beach é um monstro nas seis cordas (não à toa Coverdale o levou para o Whitesnake anos depois), mas concentrando-se na performance de Kip, o cara está soltando a garganta como manda o bom figurino do Heavy Metal da época, e eu destaco aqui seus vocais em "Blind Revolution Mad" e "No Man's Land'. Já no baixo, o trabalho de faixas como "Junkyard Dog (Tears On Stone)" e "Like A Ritual" chamam a atenção pelo peso. E claro, Winger sem baladinha nao é Winger, e ela aparece através da lindinha "The Lucky One", que deve fazer muito casalzinho ainda se ronronear romanticamente, e nao tão empolgante assim "Who's The One", que eu acho a mais fraquinha de Pull. No mais, destaque total para "Spell I'm Under", musicaço com ótimos arranjos vocais, e uma audição de uma banda que sempre é legal redescobrir, apesar de não fazer parte do meu ambiente musical.

Marcelo: Nunca fui exatamente fã do Winger, mas Pull me pareceu um disco melhor do que a reputação da banda poderia sugerir para quem ficou preso apenas à imagem mais farofa dos rapazes nos anos 80. Kip Winger canta muito bem, isso é inegável, e o álbum soa mais pesado, mais maduro e menos glam do que eu esperava. “Blind Revolution Mad” abre muito bem o trabalho, “Down Incognito” tem um refrão daqueles que grudam sem pedir licença, e “The Lucky One” mostra que a banda sabia trabalhar melodias com competência. Ainda não me converte em fã, mas me fez ouvir o Winger com menos preconceito, o que, para uma recomendação, já é bastante coisa.

Marcello: O grupo que leva o nome de Kip Winger era outro que estava esquecido do meu lado, e pensava ter ouvido o disco nos anos 90; no final das contas, acho que só tinha escutado os dois primeiros álbuns deles, pois não reconheci nenhuma música ao colocar Pull pela primeira vez. A banda estava reduzida a um trio, trazendo Reb Beach nas guitarras e Rod Morgenstern na bateria, e no álbum explora um som mais hard e menos glam do que nos discos anteriores. “Blind Revolution Mad” abre (bem) o álbum com uma música bem trabalhada e com boa variação de ritmos. Uma harmônica (inesperada) inicia “Down Incognito” com seu refrão feito para ser berrado ao vivo; uma das melhores músicas do disco, em minha opinião. “Spell I’m Under” é mais leve e mais baladeira, com belo desempenho vocal do chefe da banda; não compromete, mas também não chega a se destacar, apesar do belo solo de Beach. “In My Veins” reintroduz o peso no disco, e apresenta outro bom solo do guitarrista. “Junkyard Dog” remete à abertura, por ter trechos mais suaves, com violões no arranjo. “The Lucky One” é outra das melhores, para mim, uma quase balada muito bem trabalhada, mais uma vez com arranjo incluindo violões, ao passo que “In for the Kill” traz um órgão proeminente na introdução que, infelizmente acaba ficando muito baixo em boa parte da música. “No Man’s Land” não me chamou a atenção em nenhuma das audições, soando como a banda em piloto automático, enquanto “Like a Ritual” (com outro bom desempenho vocal de Kip e um solo de bateria para encerramento) e “Who’s the One” (mais uma música lentinha levada no violão) encerram o disco em nível elevado. Pull é um bom disco, que me agradou mais do que os dois primeiros, mas não me converte em fã do Winger.

 

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Consultoria Recomenda: blues rock britânico



Por André Kaminski
Tema escolhido por Daniel Benedetti
Com Davi Pascale, Fernando Bueno, Mairon Machado e Ronaldo Rodrigues
Após um tempo parado e um ataquezinho de pelanca em que eu pistolei com os consultores (mas eu tinha motivo, estavam me abandonando), voltamos com o Consultoria Recomenda. Sabem como é, eu sou o Roberto Justus da seção, o Fernando que me substituiu fez o papel de João Dória.
Iremos variar a cada dois meses entre um Recomenda e um Ouve Isso Aqui. Nessa edição, o nosso querido estagiário Daniel Benedetti escolheu um excelente tema e nos mandou recomendar discos de blues rock britânico. Os seis discos desta edição e os comentários de nossos consultores demonstram a absurda qualidade musical que este tão amado estilo proporciona aos seus fãs. Fique a vontade para comentar as nossas indicações e sugerir mais discos de qualidade em nossos comentários.

Spooky Tooth - Spooky-Two [1969]
Por Daniel Benedetti
Passei a ouvir este disco mais atenciosamente quando o encontrei em uma lista gringa sobre álbuns de Blues Rock. Desde então, ele tem sido uma presença constante em minhas audições. Seu estilo rústico - e até mesmo ‘cru’ - traz à tona faixas inspiradas como “Evil Woman” e seus intensos 9 minutos. “Lost in My Dream” é mais sorumbática e contrasta bem com “That Was Only Yesterday”. Mas minha preferida é a ótima “Better by You, Better than Me”, a qual ganhou uma versão metálica do Judas Priest.
André: Esta é uma banda em que sempre me prometo de ouvir com mais atenção mas que acabo sempre adiando. Ótima oportunidade para ouvir um pouco mais deste álbum que segundo dizem os críticos, é o melhor deles. Banda interessante que faz muito uso de órgão Hammond e piano. Duas das canções que mais gostei foram "I've Got Enough Heartaches" com aquele arranjo de vozes excelente e "That Was Only Yesterday" que sabe variar entre a calmaria e a energia surpreendendo com tamanha desenvoltura. Deveria mesmo ter me aprofundado neles antes.
Davi: Descobri essa banda alguns anos atrás por conta do Gary Wright. Gosto do trabalho solo dele, fui buscar informação de onde mais ele havia tocado e caí aqui. Não considero o Spooky Tooth uma banda de blues-rock, embora alguns veículos utilizem o rótulo para definir o som da banda. Na real, eles fazem uma mistura de hard rock, psicodelia, soul, prog e blues. Todos esses elementos estão misturados no caldeirão musical do grupo, criando uma sonoridade única e de enorme qualidade. Nesse trabalho, em específico, gosto muito das faixas “Waitin´ For The Wind”, “Evil Woman”, “That Was Only Yesterday” e “Better By You, Better Than Me”. Foi bacana reescutá-lo, é um belo álbum, mas creio que fuja um pouco do tema...
Fernando: Tenho esse disco e fazia anos que não o ouvia. Que voz de Gary Writh!! O único americano entre uma banda de ingleses. “I've Got Enough Heartaches” é uma lindeza e o que Gary e Mike Harrison fazem juntos em “Evil Woman” é fanstástico. E tem música aqui que o Judas Priest colocou em um de seus álbuns “Better By You, Better Than Me”, com a maestria de sempre. Porém, seria esse disco em que o blues esteja mais diluído dos que aparecem nessa lista?
Mairon: A turma de Gary Wright vez que outra pinta no meu computador. Não tenho nada deles em disco, ou mídias, mas sempre que posso passeio pela carreira da banda, e Spooky Two é um dos meus preferidos. Da parte blues, temos o arranjo vocal gospel de "I've Got Enough Heartaches", o ritmo dançante de "That Was Only Yesterday" e o tour de force de 9 minutos em "Evil Woman", sonzeira fantástica como manda o figurino, e que é o resumo da ópera para o Spooky, com um solo de guitarra fantástico, órgão comendo e arranjos vocais incrivelmente bons. Bons arranjos vocais também aparecem em "Feelin' Bad". A dupla de órgão com Mike Harrison é quase um rival ao Van der Graaf de Peter Hammill e Hugh Banton, e por isso eu coloco o Spooky Tooth com um pezinho no progressivo. Exemplos de inspirações prog estão em "Hangman Hang My Shell on a Tree",  "Lost in My Dream" ou "Waitin' for the Wind". E para os metaleiros de plantão, aqui está o original de "Better by You, Better than Me", que o Judas Priest fez questão de manter igualzinha, apenas dando um pouco mais de peso nas guitarras para substituir os teclados. Baita disco, baita banda!
Ronaldo: O Spooky Tooth não era exatamente um grupo de blues, mas um dos muitos grupos britânicos que tinham o blues como base para a criação de uma nova linguagem de rock. Além de uma pegada mais nervosa do que os pares blueseiros, o grupo tinha uma base forte na soul music e uma ênfase nos teclados que os aproximava do rock progressivo (ou de um som mais eclético, como o Traffic). O disco é, em boa parte, calcado em baladas ou músicas de andamento médio. Essa característica não tem correlação com a qualidade do material apresentado, que é de alto nível – composições cativantes, bons arranjos e vocais de primeira (a dupla Mike Harrison e Gary Wright não brincava em serviço). “Evil Woman”, “Lost in My Dreams” e “Better by You, Better than Me” tem um clima mais denso e sinistro, com riffs de guitarra mais evidente. Em uma cena marcada por bandas que tinham verdadeira devoção pelo blues norte-americano, o Spooky Tooth soa um pouco deslocado, ainda que o disco em questão seja muito bom.

Danny Bryant - Blood Money [2016]
Por André Kaminski
Para diferenciar um pouco dos meus colegas, resolvi indicar este álbum de um britânico mais novo e não tão conhecido por aqui, apesar de já ter uma discografia considerável. Com uma forte influência do blues americano misturado com soul e funk e com uma produção mais moderna, me impressiona muito ouvir ótimas músicas como "Unchained" e o belo sacolejo proporcionado por "On the Rocks". Aliás, como é bom ouvir Bernie Marsden, um dos primeiros guitarristas do início do Whitesnake de volta e solando belamente como sempre.
Daniel: Jamais havia ouvido Danny Bryant e, pesquisando sobre o músico britânico, descobri a existência de sua já longa carreira. Outra boa recomendação. Gostei muito da trinca “Master Plan”, “Slow Suicide” e “Unchained”. A presença do Hammond – e do guitarrista Bernie Marsden – em “Just Won’t Burn” já a transformaram em um grande destaque do disco. Enfim, gostei do álbum e vou passar a acompanhar (e conhecer) a carreira do Danny Bryant.
Davi: Esse cara, eu não conhecia. Gostei bastante. Trabalho de voz diria que correto, mas o trabalho de guitarra é muito bom. Um som tradicional com bastante influência de anos 70, arranjos bem variados. No estilo de tocar, pego bastante influência de Albert King, um 'q' de Stevie Ray Vaughan, mas pego algumas referências de Gary Moore também, como no caso de “Unchained”, por exemplo. Achei muito legal a participação do Bernie Marsden (Whitesnake) em “Just Wont Burn”, mas meus momentos favoritos ficam por conta de “Master Plan”, “Slow Suicide” e “Fool´s Game”. Além da já citada “Unchained”, é claro. Vou procurar ouvir mais algum disco dele.
Fernando: Disco mais novo desses que entraram aqui. Tenho um chute sobre quem o indicou, talvez um consultor que é conhecido por gostar de TUDO e por ter uma coleção gigante. O fato é que é um bom disco, agradável de ouvir, porém falta alguma coisa mais memorável, aquele tipo de coisa que faz a gente ficar cantarolando, uma melodia mais marcante. Alguma coisa.
Mairon: Confesso que desconhecia o trabalho de Danny Bryant até esse recomenda. Bryant apresenta muitas influências de Albert King ("On The Rocks"), Stevie Ray Vaughan ("Fool's Game" e "Master Plan"), Ray Charles ("Unchained"). Bryant toca super bem, o cara é um bom guitarrista de blues, traz bastante feeling, modernão, e faz um blues rock bem comum. Me surpreendi com o resgate de Bernie Marsden em "Just Won't Burn", baladaça bluesy para arregaçar corações, com um duelo de solos muito bom. Gostei do som, mas achei muita mais american blues do que british blues. Se colocasse para tocar, sem dizer que era britânico, jamais iria adivinhar. Bom para conhecer!
Ronaldo: Bom guitarrista contemporâneo de blues-rock. Não acompanho tanto a cena atual do estilo, mas é possível notar por esses e outros trabalhos que os que se aventuram nessa seara atualmente são bem menos puristas que os blues-rockers britânicos dos primórdios. O que se ouve nesse disco é uma grande mistura de diversas vertentes do r&b e da música negra americana, tendo uma pegada frequentemente funkeada nas faixas e baladas embebidas na soul-music. As guitarras são de alto nível, com uma pegada pesada e uma interpretação muito consistente. Há bastante teclado em todas as faixas e, alguns são até um tanto incomuns para o estilo. A instrumental “On the Rocks” mostra o poder de fogo de Bryant e sua banda. Mas no fim das contas, a produção trata de dar ao resultado um verniz mais pop ao trabalho como um todo, o que pode agradar uns e desagradar outros.

Robin Trower - Bridge of Sighs [1975]
Por Davi Pascale
Sempre gostei muito de blues-rock, mas meus artistas favoritos, dentro desse gênero, são, em sua maioria, norte-americanos. Quando pintou o tema fiquei pensando, pensando, pensando... Não queria indicar um disco qualquer, queria indicar “o” disco. Comecei a revirar minha coleção e eis que me deparo com esse CD aqui. Esse é o segundo álbum solo do Robin Trower após sua saída do lendário Procol Harum. Sem grandes frescuras, som honesto, cru e altamente inspirado. Gravado em formato de power trio, o álbum já chama a atenção de cara com o riff impactante de “Day Of The Eagle”. Contando com as mãos de Geoff Emerick (engenheiro de som dos Beatles) e de seu velho parceiro Matthew Fisher na produção, o rapaz entregou um álbum criado na dose certa. Há canções lentas brilhantes como a faixa-título e “In This Place” e canção com riffs arrasa-quarteirão como os de “The Fool and Me” e “Little Bit of Sympathy”. Os solos são perfeitos. James Dewar cantava bem pra cacete e o trabalho de bateria de Reg Isidore era bem eficiente. Ah, muita gente compara o estilo dele tocar aqui com o Jimi Hendrix. Ouça e veja se concorda ou não com a comparação.
André: É um crime pensar no fato do quanto Robin Trower é desconhecido no Brasil. Sujeito extremamente underrated e injustiçado. Nem mesmo em sua terra natal ele teve o reconhecimento que merecia. Pelo menos os Estados Unidos o reconheceram. Aqui tem a melhor faixa da carreira do Trower que é "Too Rolling Stoned", coverizada pelo UFO e que já ouvimos em um War Room passado. Incrível é perceber o esmero por parte do guitarrista em suas composições, das quais claramente se percebe uma dedicação em empolgar o ouvinte. Disco nota 10!
Daniel: Segundo álbum solo de Robin Trower, lançado depois que ele saiu do Procol Harum. Tenho que confessar que havia ouvido este disco há muitos anos e não me recordava dele. “Too Rolling Stoned” é uma porrada nos ouvidos, o ótimo balanço de “Lady Love” contagia, assim como a ‘dolorosa’ guitarra de Trower em “About to Begin”. Ah, claro, a faixa-título é sensacional. Depois que o ouvi novamente, já foram mais diversas audições. Para meu gosto, é o melhor disco da lista.
Fernando: Sabia de sua carreira solo e que esta era bastante de alto nível, mas nunca tinha conhecido o Robin Trower além do Procol Harum. Durante a audição eu notei que conhecia uma das músicas e descobri que a faixa título já foi regravada pelo Opeth. Foi uma ótima experiência e já vou deixar anotado para voltar a ouvir esse disco e os outros, também muito bem avaliados em todos os lugares que pesquisei. Ahhh... ouvi uma versão remaster de 2007 e achei o som fantástico. Fiquei curioso para ouvir em sua versão original.
Mairon: Lembro que quando conheci esse disco, o dono havia assinado na capa a inscrição "O Fantasma de Jimi Hendrix". Eu fiquei impressionado como a guitarra de Trower realmente lembra bastante a de Hendrix, e logo de cara, na ótima "Day of the Eagle", com um riff e um ritmo que iria agradar ao Deus Negro da guitarra, ou na funkeada "The Fool and Me", para mim o melhor som do disco, com um balanço fantástico. Acompanham essas influências "Little Bit of Sympathy", swingada como poucas, e a longa "Too Rolling Stoned", onde as influências Hendrixianas estão presentes em um solo matador de Trower. Porém, não é só de Hendrix que bebe a fonte de Trowe. Há psicodelia em "In This Place", licks vertiginosos em "Lady Love", e claro, muito blues. A faixa-título é o cerne disto, uma aula de blues para ser levada às escolas de música do mundo inteiro, enquanto "About to Begin" é daqueles blues lentos para se chapar com um uísque e só curtir a voz de James Dewar. Aliás, além de um baita guitarrista, o álbum também conta essa voz espetacular de Dewar, que passou pelo Stone the Crows). Curto o álbum, claro, e respeito Trower, com certeza, e por isso, foi uma audição ótima e extremamente bem vinda nesse recomenda.
Ronaldo: Jimi Hendrix foi nascido, batizado e criado no blues. Sua obra, porém, transcendeu em muito as possibilidades oferecidas pelo estilo até então. O impressionante legado do gênio da guitarra gerou uma abordagem totalmente diferenciada no instrumento, que mesclava uma construção inteligente de frases sobre as escalas do blues aliada a uma ferocidade rítmica incomum para os guitarristas de blues. Robin Trower foi um dos ícones do aprofundamento dessa linguagem ao longo dos anos que se seguiram. Mas, novamente, estamos tratando de blues trabalhado e reprocessado com tanta intensidade que é difícil encontrar com clareza os ingredientes originais da mistura. O disco tem um conjunto fantástico de músicas empolgantes, cheias de riffs e solos de guitarra memoráveis, no qual há uma decisiva contribuição dos vocais, do baixo e da bateria. “The Fool and Me” e “Too Rolling Stoned” tem grooves que são impossíveis de enjoar.

Beck, Bogert & Appice - Beck, Bogert & Appice [1973]
Por Fernando Bueno
Álbum de estúdio único desse que um dos grandes supergrupos montados nesse período do rock, todos eles influenciados pelo sucesso do Cream, claro! Chegaram a gravar um álbum ao vivo um ano depois. A versão para “Superstition” de Stevie Wonder com o inesquecível início com o talk box é demais. E o que dizer de “Morning Dew” cantada por Camine Appice? Yes!!! He can sing! O som do trio é todo baseado em baixo, guitarra e bateria, mas em algumas faixas eles tem a participação de Duane Hitchings que também era do Cactus, o que fazia quase como se o Jeff Beck tivesse invadido um ensaio da banda e começado a tocar. Caso, por algum motivo, não tenham interesse no álbum sugiro ouvirem pelo menos “I’m So Proud” para ver o trabalho de voz da banda. Excelente!
André: Beck é britânico, mas dá de se dizer que ele lidera os outros dois americanos em um ótimo registro. Interessante é o fato de Carmine Appice ser o principal vocalista da maior parte do tracklist. Por sinal, é com os vocais dele a maioria das músicas que eu mais gostei. A guitarra e o baixo são muito proeminentes, o que não é necessário citar o fato de que são dois monstros em seus respectivos instrumentos. Para quem curte este blues rock já quase pendendo para o hard, está aí uma ótima sugestão.
Daniel: A fusão do guitarrista do Yardbirds com a ‘cozinha’ do Vanilla Fudge/Cactus. Blues e rock se encontram com uma tremenda pegada hard, em um disco curto, mas extremamente prazeroso de se ouvir. Adoro a faixa “Lady” e os vocais de Carmine Appice nela. O sentido de urgência de “Lose Myself with You” e a pegada de “Livin' Alone” precisam ser destacadas. A interessante versão para “Superstition” é um ‘plus’. Outra boa indicação.
Davi: Esse é outro disco que tenho na minha coleção e já fazia um tempo que não colocava para rodar. Aqui não tem erro, né? Com um time desses não tem como o trabalho ser meia bomba, fala sério. Sempre gostei muito do Jeff Beck. Em especial, os álbuns que gravou ao lado do Jeff Beck Group e do Yardbirds. Carmine Appice, então, nem se fala. Ídolo! Entre as músicas mais lentas, gosto bastante de “Oh To Love You” e “Sweet Sweet Surrender”, que considero muito bonitas, mas os grandes destaques acabam sendo os rockões mesmo. “Black Cat Moan”, “Lady” e “Why Should I Care” são minhas favoritas. Só que, mais uma vez, fico em dúvida se ele se encaixa no rótulo blues-rock.
Mairon: A união de um gênio injustiçado da guitarra com dois remanescentes da genial injustiçada Vanilla Fudge se torna um disco genial injustiçado. Digo isso por que poucos são os que se lembram dessa aula de hard rock entregue pelo BBA nesse álbum. Esqueça as baladaças "Im So Proud", "Sweet Sweet Surrender" e "Oh To Love You" se você deseja só quebrar o pescoço, mas se não, aprecie bastante os vocais de Bogert em ambas. Agora, para quebrar o pescoço, todo o resto de Beck Bogert & Appice é demolidor. Certamente você conhece a versão matadora de "Superstition" que o trio apresenta aqui, o que por si só já vale o disco. Mas há mais. A pancadaria de Bogert e Appice no início de "Lady" é para relembrar os bons tempos da Vanilla Fudge ao vivo, mas a linhagem musical é dos melhores tempos do Cream, principalmente pelos vocais. Outra que lembra bastante o Vanilla Fudge é "Why Shoud I Care", rockzão para sair pulando pela casa, e com Appice fazendo misérias nos dois bumbos. Outro rockaço matador é Livin' Alone", com uma sequência instrumental mágica, que começa com Carmine Appice fazendo rufos sozinho, passa por Bogert solando com distorção e culmina com um belo solo de slide feito por Beck, acompanhado por palmas. Jeff Beck mandando ver com o slide em "Black Cat Moan", e o que ele faz com o wah-wah em "Lose Myself With You" é só para que você entenda por que ele é um gênio. Não diria que é um álbum de blues rock britânico, mas que é um baita disco, ô se é!
Ronaldo: Meus comentários aqui me levam a discordar da abordagem dos meus colegas na adequação dos discos ao tema. Nesse caso, estamos tratando mais de produtos derivados do blues-rock do que de blues-rock per se. Esse é um trio de ferro do rock setentista (2/3 da banda era americano e não britânica) que conseguiu se manter unido apenas por um breve período de tempo, deixando um legado em estúdio abaixo do que rendia nos palcos (muito devido a falta de uma produção que favorecesse o peso de sua execução). Ainda sim trata-se de um grande disco - os primeiros segundos de “Black Cat Moan” já são incríveis e indiscutíveis. Apesar do blues estar implícito em todas as escalas pentatônicas exploradas a exaustão nesse disco, creio haver exemplares bem mais representativos do estilo preconizado na lista.

Savoy Brown - Looking In [1970]
Por Mairon Machado
Não se engane pela introdução virtuosa do violão em "Gypsy", esse disco é uma aula de Britsh Blues. O Savoy Brown é um representante muito forte dessa cena, levado por um timaço que estava fervilhando nessa época. O ritmo avasssaladoramente sensual de "Poor Girl", com um baixo fenomenal e um solo de guitarra fabuloso por Kim Simmonds, o grande nome do Savoy Brown na época, já são os verdadeiros pratos desse discaço. Outra sonzeira extremamente sensual é "Sunday Night". O que Simmonds faz com a guitarra aqui é enlouquecedor. Não há pernas que resistam a ginga do baixo de Tone Stevens. Quer blues raiz, ouça "Take It Easy" e duvido não se imaginar ouvindo os clássicos blueseiros do Mississippi. Que sonzeira!! E encarar os 8 minutos de "Leavin' Again" é uma jornada para se chegar ao fim com as pernas e o pescoço destruídos. Delicie-se com as explorações percussivas da faixa-título, os vocais rasgados de Lonesome Dave em "Money Can't Save Your Soul", com Simmonds brilhando também ao piano, e a elegância instrumental de "Sitting an' Thinking". As congas, aliás, são um charme extra para um disco delirante. Espero que meus colegas apreciem.
André: Essa eu já conheço melhor e este disco é fascinante. O que falar do baixão foda de "Money Can't Save Your Soul"? Uma das minhas canções favoritas deste estilo. Citei só o baixo mas todo o arranjo instrumental desta canção é coisa de gênios. O disco todo é um petardo atrás do outro e a indicação de ouvi-los numa matéria com este tema foi mais do que bem vinda.
Daniel: Sexto álbum de estúdio da banda Savoy Brown e é o primeiro a contar com o ótimo Dave Peverett como vocalista. Gosto bastante da banda e Looking In é, bem possivelmente, meu disco preferido do grupo. Foi ótimo ouvir novamente faixas extasiantes como “Sunday Night”, a guitarra frenética de “Looking In” ou mesmo a melodia maliciosa de “Sitting An’ Thinking”. Ótima indicação!
Davi: Ah, bacana a indicação. Já tem um tempo que estava querendo pegar mais alguma coisa deles para ouvir e não sabia por onde começar. A discografia deles é enorme. Parece que esse é um dos álbuns mais famosos deles. Não sou expert no trabalho do Savoy Brown, mas pelo desenho da capa, esperava um disco um pouco mais pesado, com mais músicas na linha da (ótima) “Poor Girl”. No entanto, não há como negar a qualidade do álbum. Muito bem feito e muito bem tocado, sem dúvidas, mas em uma primeira audição não me empolgou tanto. As que mais gostei foram “Leavin´ Again” e a já citada “Poor Girl”. De todo modo, vou procurar ouvir mais alguns álbuns deles.
Fernando: Conheço quase nada de Savoy Brown. Li algo rápido e vi que nesse álbum eles tiveram que lidar com a saída de seu principal membro e compositor. Mas para mim parece que eles souberam se virar muito bem. O que sei é que com esse antigo membro o som tinha mais jazz nessa mistura e aqui o blues ficou mais evidente. Tenho que ouvir o material anterior, mas, me parece, que não fez falta alguma esse outro ingrediente musical. O que dá para notar é que as músicas são muito mais orientadas pela guitarra e menos para a voz.
Ronaldo: Militantes da cena blues desde muito cedo, o Savoy Brown teve muitas formações e uma longa discografia fortemente calcada no blues. Gradualmente, ao longo dos discos, o blues elétrico do grupo foi adquirindo assinatura própria e se metamorfoseando em algo que desaguou no hard rock. Não tão pesados quanto o Led Zeppelin, mas com muita qualidade e personalidade. O disco em questão situa-se em um momento de inflexão da banda, na qual as fronteiras do blues-rock do grupo estavam se expandido. Há blues de qualidade temperado com outros condimentos em todas as faixas desse bom álbum de 1970. Alguns dos destaques são o groove suave e as maravilhosas guitarras de “Sunday Night” e o clima de jam session da faixa “Leavin’ Again”.

Fleetwood Mac - English Rose [1969]
Por Ronaldo Rodrigues
O Fleetwood Mac, encabeçado por Peter Green, era uma das maravilhosas crias do grupo de John Mayall. Uma das primeiras formações da história do rock a ter três guitarristas na mesma banda (apesar de serem raras as faixas em que os três tocassem guitarra simultaneamente), o Fleetwood Mac tinha por mérito o fato de explorar em detalhes diversas facetas do blues e do r&b americano, seja o blues de Chicago (com a presença de naipe de metais), o fraseado de Elmore James, as transições do blues rural para o elétrico, o sentimentalismo das blues-ballads guiadas por vocais ou os momentos mais cheios de groove do cruzamento entre o blues e o gospel. Como destaques, duas icônicas faixas do período – “Black Magic Woman” (eternizada na versão do Santana, lançada em 1971) e a lindíssima “Albatross”.
André: O Fleetwood Mac que eu gosto é esse daí: blues rock mesmo, com guitarras e energia. Parece outra banda quando comparada ao famoso e, em minha opinião, soporífero Rumours [1977]. Peter Green aqui arrebenta na guitarra e na gaita de boca, além de ser o vocalista que eu mais gosto. O mais que clássico "Black Magic Woman" ainda é o destaque principal do cd. Porém, o disco infelizmente cai no defeito de cansar um pouco na parte final com a pouca variedade instrumental ainda mais se compararmos com os outros discos que foram citados por aqui. No mais, me surpreendeu em saber que a falecida Dona Bizantina da Praça é Nossa (quando jovem) é o Mick Fleetwood. "Apolônio, é você Apolônio!"
Daniel: English Rose foi o segundo álbum da Fleetwood Mac nos Estados Unidos e se trata de uma compilação que reúne faixas do álbum Mr. Wonderful, singles e algumas músicas até então inéditas. "Stop Messin' Round" e "I've Lost My Baby" são destaques óbvios, além da bela instrumental acústica, “Albatross”. Gosto muito de “Black Magic Woman” e de “Love That Burns”, mas minha predileta é a ‘sofrida’ “Something Inside of Me”. Excelente indicação!
Davi: Esse álbum, na verdade, é meio que uma coletânea. É um LP criado para o mercado norte-americano misturando o material de Mr Wonderful com canções de singles e afins. Nos anos 60, tinha muito disso. Beatles, Stones, Hollies, todos esses grupos, a discografia americana difere da inglesa por um período. A capa é uma das coisas mais feias que já vi, mas o disco em si é muito bom. Gosto do estilo deles tocarem. Os arranjos são bem variados, misturando momentos calmos com arranjos mais animados no melhor estilo blues de Chicago."Stop Messin´ ´Round”, “Doctor Brown” e “Albatross” são meus momentos favoritos. E ahhh, os (ótimos) músicos do Fleetwood Mac que me perdoem, mas a versão de “Black Magic Woman” com o Santana é muito mais enigmática.
Fernando: Para que conheceu o Fleetwood Mac ali no Rumors, aquele fantástico disco de rock, é difícil pensar que eles tiveram essa fase totalmente blues. É uma outra banda mesmo. Mas aqui, em ser terceiro disco a banda já dava mostras que tinha outras facetas musicais além do blues como vemos em faixas como “Abatross”. Porém “Doctor Brown” quase nem podemos chamá-la de blues rock pois é quase um blues puro. Bom disco, tenho que voltar a ouvi-lo mais.
Mairon: Coletânea de uma daquelas bandas exemplo de como nós éramos um dia, e você não irá acreditar. Cara, saber que o Fleetwood Mac surge dos Bluesbreakers de John Mayall, tocava esses blues tão fantásticos, e depois virou a choradeira com a entrada da Stevie Nicks e da Christine McVie, me dói na alma. Teve um War Room do Rumours que me falaram para ouvir o Fleetwood Mac raiz, e como é bom ouvir Peter Green comandando os ingleses em blues espetaculares como "Doctor Brown" , com um naipe de metais marcando presença na audição ou em "I've Lost My Baby", aqui com o delicioso slide de Jeremy Spencer. As canções que o naipe de metais aparece são as que mais me agradaram. Que tesão de blues ballad são "Without You", "Love That Burns" (solo de piano emocionante) e "Something Inside of Me", puta que pariu. A última lembrou me muito "Ball and Chain", na versão consagrada pela Big Brother & The Holding Company. As instrumentais "Jigsaw Puzzle Blues" e "Evenin' Boogie" são um êxtase por si só, enquanto a outra instrumental, "Albatross", é uma delicadeza tão sutil que a espinha se arrepiou como uma gata no cio. Há ainda o peso (perto das demais) de "One Sunny Day", a recriação estupenda para "Coming Home", de Elmore James, e os sucessos "Black Magic Woman", consagrada pelo Santana em Abraxas, e "Stop Messin' Round", únicas que eu conhecia de antemão. Desconheço o por que Green saiu do grupo, e como as mulheres entraram para levar o Fleetwood Mac a outro patamar, mas cara, essa coletânea e os dois discos anteriores são realmente muito boas.
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