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sábado, 24 de outubro de 2026

Gal Costa - As Várias Pontas De Uma Estrela [2025]



Em 17 de setembro de 2022, Gal Costa fazia sua última apresentação ao vivo. No palco do Coala Festival, o qual contou também com nomes como Maria Bethânia, Djavan, Gilberto Gil, Alceu Valença, Rodrigo Amarante, e muito mais, a baiana trouxe para os fãs um repertório incrível, e que veio à luz na forma de CD simples e LP duplo, acompanhado de uma ecobag, através da Biscoito Fino, com o nome As Várias Pontas de Uma Estrela. O show fez parte da turnê que dá nome ao disco, o qual havia levado Gal novamente aos palcos depois da pandemia, com início em abril de 2022 e passando por festivais como o Breve, em Belo Horizonte, e o CoMA, em Brasília, além de uma data em Berlim, na Alemanha.

Duvido que quem assistiu a apresentação de Gal naquele show, ou mesmo ouve o álbum, consegue imaginar que menos de dois meses depois ela estaria morta, vítima de um infarto fulminante, provavelmente causado por um câncer de cabeça e pescoço, no dia 9 de novembro de 2022. No palco do Memorial da América Latina, Gal está ao lado do trio formado por Limma (teclados), Fabio Sá (baixo) e Vitor Cabral (bateria), além de Tim Bernardes e Rubel como convidados em algumas canções. O trio serve como uma base quase jazzística para Gal passear na sua carreira, recriando clássicos e fazendo uma agradável sessão nostalgia para o fã mais saudoso.

Gal ao vivo no Coala

Gal abre o show com "Fé Cega, Faca Amolada", com um bom apoio vocal, e destacando o piano elétrico de Limma. É visível que a voz da baiana já não é mais a mesma de anos anteriores, mas ao mesmo tempo, sentir sua energia através dos gritos dados fora do microfone, nos causa uma sensação de total simpatia e vontade de curtir junto, ainda mais com o riffzão de piano e e baixo acompanhado pela forte presença da bateria de Vitor Cabral, que migram para o lindo blues de "Hotel das Estrelas", uma das melhores canções da carreira da Galcha (apelido que Gil deu para Gal), e que somente com baixo, piano e bateria, coloca-nos em uma casa inebriada de fumaça e cheiro de álcool, para chapar mesmo. Belíssima versão, novamente com um ótimo arranjo vocal no apoio, onde Gal apoia-se para uma entrega com todas as forças, e fazer jus à um clássico de sua discografia, registrada no excelente Legal (1970), e de versão definitiva em Fa-Tal (1972).

Gal segue revisitando o passado com outro clássico, "Divino Maravilhoso", canção que praticamente lançou a artista ao Brasil no ano de 1968, totalmente reinventada pelo baixo sacolejante de Fábio Sá, e que vem abaixo com a galera cantando o famoso refrão "é preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte". Uma lástima que a voz de Gal já não está com tamanha potência, e percebe-se sua força para cantar, mas mesmo assim, saber que esta foi a última vez que Gal cantou esta canção, arranca lágrimas.

Contra-capa interna do vinil

Depois de dois mega-sucessos do início da carreira, Gal salta para o bolero "Dom de Iludir", obra-prima de Caetano, na qual ele contrapõe Noel Rosa e Vadico, ao criarem o samba "Pra que Mentir", em - mais uma - das geniais letras de Caetano, e que aqui serve para acalmar os ânimos, e nos lembrar da Gal quase crooner do início dos anos 2000. Chegando na sua fase mais recente, Gal traz a ótima "Quando Você Olha Pra Ela", de Mallu Magalhães, registrada no excelente Estratosférica (2015), e que reflete os dramas de uma mulher que percebe que seu companheiro está de olho em alguém mais nova, num bom sambinha onde Gal diverte-se cantando, e o piano elétrico de Limma é a principal atração nessa faixa que encerra o lado A do vinil. 

Seguindo pelo lado B, e mantendo os anos recentes, vem "Palavras no Corpo", do polêmico A Pele do Futuro (2018). Essa linda balada, com climão anos 60, é um dos grandes destaques do último álbum oficial de inéditas de Gal (sendo que Nenhuma Dor, de 2021, traz várias recriações com diversos parceiros), e volta ao passado com a linda "Nada Mais (Lately)", uma arrepiante versão desta obra de Stevie Wonder, que Gal registrou no emblemático Profana (1984). Gal então novamente homenageia Milton Nascimento, em uma animada versão para "Paula E Bebeto", e de seu disco em homenagem à Tom Jobim, faz uma fiel versão para a bossa-nova de "Desafinado", onde o piano elétrico de Limma brilha. Fechando o lado B, Chico Buarque e sua "A História de Lilly Braun", jazz/bluesy raro na obra do carioca, originalmente gravada por Maria Gadú em 2009, e com toda sua vibe hollywoodiana, ganhou muito com o piano de Limma e com um charme grandioso na voz de Gal, inclusive com seus pedidos em inglês para a plateia bater palmas e agitar durante o solo do piano. Musicão!

Vinis coloridos

O vinil dois retorna aos anos 80 através de "Açaí", sucesso de Djavan que Gal registrou em Fantasia (1981), e que surpreendentemente tem o refrão cantado em uníssono pela plateia, e ficou muito boa com o arranjo para piano, baixo e bateria. Seguimos nos anos 80, e com a plateia cantando em altos brados, "Lua De Mel", faixa de Lulu Santos lançada em Lua De Mel Como O Diabo Gosta (1987), um dos discos mais achincalhados da carreira dela, e que particularmente, é daqueles que considero que só eu gosto (um dia escreverei sobre ele aqui). Os anos 80 se encerram com "Sorte", mega-sucesso de Bem Bom (1985), na qual Gal simplesmente deixa a plateia levar no gogó um bom trecho da mesma. Esse resgate oitentista mostra como Gal teve músicas de sucesso, independente da época e da geração, e ouvir a plateia cantando essas duas canções, é arrepiante. Os arranjos para baixo, bateria e piano, dão um ar jazzístico que mudaram bastante a cara dessas faixas, que conseguem fazer com que Gal cante sem se esforçar. 

O lado C encerra-se com mais duas obras essenciais de Caetano, "Como 2 e 2" e "Tigresa". A primeira traz Gal acompanhada de Rubel na voz e violão, e retoma os anos 60 através do órgão elétrico de Limma, e o dueto vocal Gal/Rubel ficou muito legal no palco. Como não cantar "meu amor, tudo certo como 2 e 2 são 5"?? Já a segunda, além de Rubel, temos também a guitarra lisérgica e a voz de Tim Bernardes, e com os seus "gatinhos fofinhos", surge uma linda revisão para uma das melhores canções de toda a carreira de Gal, com um show de Tim na guitarra e na interpretação vocal. Ouvir a plateia cantando ao fundo, o riffzão do álbum Caras e Bocas (1977) sendo retomado em 2022, e lembrar que semanas depois Gal não estaria mais entre nós, cara, quem é fã sabe do que estou falando da emoção que isto passa. 

Tim segue no palco, e no início do lado D, traz o riff e manda ver nos vocais de "Negro Amor", essa fantástica (e - repetidamente - genial!) revisão de Caetano para "It's All Over Now, Baby Blue" de Bob Dylan. A voz de Tim aqui pqp, incrível. Quando Gal começa a cantar até surge um certo estranhamento, por que os falsetes que Tim dá ao longo da canção, rasgando a voz, são fantásticos. E mais um excelente arranjo instrumental aqui. Seguimos com Tim no palco na linda versão de "Vapor Barato", bluesy, charmosa e o órgão e guitarra fazendo as bases para Gal e Tim soltarem suas vozes. Além disso, um solo de órgão e guitarra que são energia pura, demais! E Gal fazendo suas vocalizações então, sem palavras!

Tim Bernardes, Gal e Rubel no palco do Coala

Rubel volta ao palco, e novamente com Tim, entoam "Baby", voltando então ao fim dos 60 em pleno tropicalismo, em uma versão samba/bossa nova para colocar as emoções nos eixos. Novamente, a voz e a interpretação de Tim são pontos altíssimos para o disco. Uma lástima O Terno ter acabado e a carreira solo dele não ser tão brilhante quanto a da sua ex-banda. Tinham tudo para ir longe! Fechando o disco, Gal resgata "Um Dia De Domingo", parceria original dela com Tim Maia (outro Tim) e lembrando que a canção foi um grande sucesso na América Latina e em Portugal, mas que a imprensa "bateu muito" nela por que a faixa foi escrita por Michael Sullivan e Paulo Massadas, os quais a imprensa perseguia bastante. A plateia solta a voz nessa linda balada fazendo a parte original de Tim, e claro, sem a presença do síndico, perde bastante. E depois que Gal interpretou a voz de Tim no excelente Recanto Ao Vivo (2013), não tem como não lembrar que há versões melhores. Mas é muito bom ter ela no track list.

Ecobag

Fechando o disco, chegamos no polêmico momento do show, no qual Gal faz uma fala política como raramente se viu ela fazer, dizendo que dali alguns dias (mais precisamente 15 dias depois), haveria eleições. "Vamos votar direitinho, vamos votar com sabedoria e com inteligência. Vamos votar sem ódio e vamos votar com amor", enquanto fazia com a mão esquerda a letra L, que normalmente é um gesto usado por apoiadores de Lula. Assim, vem a paulada "Brasil", um de seus maiores sucessos, colocando o Coala para dançar e cantar juntos. Propositalmente (?), a Biscoito Fino deixou os gritos da plateia ao final do show, com "olê, olê, olá, Lula, Lula" (vai ter conservador que não irá comprar o disco por causa disso, certeza). 

Gal em seus últimos momentos no palco, fazendo o L

Em véspera de eleições, e 4 anos depois, é interessante que o mundo político no Brasil mudou pouco ou quase nada. Lula continua na ativa, e vai para tentar mais um mandato, mas terá a oposição de um dos piores senados já eleitos (se não o pior) na história do Brasil. Já Bolsonaro cometeu uma série de crimes, dentre eles tentativa de gole, e está preso em regime domicilia. Mas deixou seu filho Flávio no lugar, um homem que vive da política há anos sem apresentar projetos que beneficiem a sociedade, e com uma série de investigações nas costas que vão desde rachadinha, recebimento de propina do Vorcaro, até beneficiar criminosos e milicianos. Os dois estão no segundo turno, amanhã, e infelizmente, só resta torcer para que o menos pior ganhe. Por outro lado, Gal deixou saudades, deixou uma infinita lista de canções atemporais, e deixou no palco do Coala uma mensagem que na época acabou dando certo. Gal tinha razão, votem com amor. Obrigado Biscoito Fino.

Contra-capa do vinil

Track list

1. Fé Cega, Faca Amolada

2. Hotel das Estrelas

3. Divino Maravilhoso

4. Dom de Iludir

5. Quando Você Olha Pra Ela

6. Palavras no Corpo

7. Nada Mais (Lately)

8. Paula e Bebeto

9. Desafinado

10. A História de Lily Braun

11. Açaí

12. Lua de Mel

13. Sorte

14. Como 2 e 2 (com Rubel)

15. Tigresa (com Rubel e Tim Bernardes)

16. Negro Amor (com Tim Bernardes)

17. Vapor Barato (com Rubel e Tim Bernardes)

18. Baby (com Rubel e Tim Bernardes)

Bis:

19. Um Dia de Domingo

20. Brasil

sábado, 3 de outubro de 2026

Pink Floyd - At Pompeii MCMLXXII [2025]


Depois de 43 anos, eis que finalmente o famoso show do Pink Floyd em Pompeia é lançado oficialmente em formatos de áudio (LP e CD). Gravado entre 3 e 7 de outubro de 1971, ou seja, há 55 anos, no famoso anfiteatro romano da cidade Italiana soterrada pelas cinzas do vulcão Vesúvio, no ano 90 d. C., a apresentação de David Gilmour (guitarra, vocais), Roger Waters (baixo, vocais, percussão), Rick Wright (teclados, vocais) e Nick Mason (bateria, percussão) ficou eternizada nas telas mundiais através do filme Pink Floyd At Pompeii, de 1972, e que saiu ao longo dos anos nos formatos VHS, DVD, Laserdisc e Blu-Ray. 

David Gilmour, Roger Waters, Rick Wright e Nick Mason. Pink Floyd em Pompeia

Porém, para quem queria apenas ouvir o show, existiam somente vinis e CDs bootlegs, em uma quantidade infinita, mas o Floyd recusava-se a lançar algo oficial. Até que ano passado, At Pompeii MCMLXXII veio definitivamente para agradar os fãs, e preencher um grande vazio na discografia dos britânicos. O álbum foi lançado em CD e LP duplos, e possui exatamente o mesmo track list do famoso filme de 1972. 

"Pompeii Intro" no filme serve para apresentar os participantes do espetáculo (no caso os nomes dos músicos e demais envolvidos no projeto), e aqui, são apenas batidas e barulhos de sintetizadores, que levam à "Echoes (Part One)", uma performance fantástica do Pink Floyd para a linda suíte de Meddle (que havia acabado de ser lançado). A versão apresentada pelo quarteto nas ruínas de Pompeia é muito fiel ao que foi registrado em estúdio, sem tirar nem pôr, mas uma coisa que fica clara já na audição é que ver as imagens impacta da apresentação impacta bem mais do que apenas ouvir. De qualquer forma, é uma bela versão, onde a harmonia vocal entre Wright e Gilmour é encantadora, assim como Gilmour também brilha em seu solo, com uma poderosa camada sonora comandada pelas viradas de Mason e a marcação do órgão e do baixo. 

O "palco" do Pink Floyd em Pompeia

Mas, como no filme, "Echoes" é encerrada abruptamente após o "reggae" que conduz o segundo solo de Gilmour, começando então "Careful With That Axe, Eugene", a qual está próxima do registrado em Ummagumma (1969). Uma faixa soturna, onde os berros de Waters emulando Eugene são apavorantes, e também merece destaque Mason, que particularmente faz uma de suas melhores performances da carreira em Pompeia, como também podemos comprovar em "A Saucerful Of Secrets". Outra faixa bem próxima ao que foi registrado em Ummagumma, tem em suas duas partes uma distinção muito clara musicalmente. 

Enquanto a primeira é uma viagem ácida por solos improvisados de Gilmour sobre as batidas violentas de Mason, a segunda é uma bela balada onde os vocais angelicais de Gilmour se sobressaem e emocionam, diferenciando da versão de Ummagumma exatamente nessa segunda parte, já que os vocais apresentam-se apenas em uma única estrofe, e não em duas como no disco de 1969. Novamente, ver a apresentação é bem mais impactante do que apenas ouvir, seja por entender como Gilmour arranca tanto barulho de sua guitarra (esfregando o slide impiedosamente sobre as cordas e apertando tudo que é botão de seus pedais), seja por Wright espancando seu piano, seja pela performance inesquecível de Waters espancando o gongo sob a luz do Sol de Pompeia. Porém, ouvir a segunda parte, com o órgão de Wright brilhando, e a já citada voz de Gilmour, é arrepiante, numa das melhores versões já registrada dessa canção.

Imagens do "show" do Pink Floyd em Pompeia, no encarte do CD
A versão em CD

Seguimos por "One Of These Days", bem fiel à versão de Meddle, e com mais um show por parte de Mason, ao mesmo tempo de como é bom ouvir o Floyd capaz de experimentar sem medo, o que também ocorre na sensacional "Set The Controls For The Heart Of The Sun", também similar ao que ouvimos em Ummagumma, destacando os fantasmagóricos teclados de Wright, o vocal sussurrado e soturno de Waters, que também espanca o gongo sem dó. Musicaço! 

Passamos então por "Mademoiselle Nobs", uma versão inicial para o que viria a ser "Seamus", ou seja, um blues comandado pela cachorrinha Nobs (isso mesmo, é uma cadelinha que 'canta' a música, mostrando mais uma vez a liberdade criativa do Floyd) enquanto é acariciada por Wright e incentivada pela gaitinha de Gilmour, e o CD 1 encerra-se com "Echoes (Part Two)", pegando então a suíte a partir do fim do reggae de "Echoes (Part One)", com os 'baulhos de baleia" advindas da guitarra de Gilmour, e todo o trecho final.

No CD 2, temos uma versão não editada de "A Saucerful of Secrets", onde a introdução da primeira parte é bem mais longa, tendo a faixa no total quase 13 minutos (em comparação aos 10 minutos do CD 1) e uma tomada alternativa para "Careful With that Axe, Eugene", sem tantos berros por parte de Waters, que não acrescentam muito no conjunto final da obra. Acompanha a obra um pequeno livreto de 12 páginas com imagens da banda, das gravações e informações técnicas. 

Penso que At Pompeii MCMLXXII poderia ter corrigido o erro de separação de "Echoes", tornando-a uma única peça, que ficaria ainda melhor de ser apreciada do que as peças dividas lançadas originalmente. Mas esse errinho é pequeno, e cabe agora apreciar essa que é uma das melhores apresentações da história do Floyd, com uma excelente qualidade de mixagem e masterização. E se puder conseguir a versão em vídeo, melhor ainda.

Contra-capa do CD

Track list

CD 1

1. Pompeii Intro 

2. Echoes (Part 1)

3. Careful With That Axe, Eugene

4. A Saucerful Of Secrets

5. One Of These Days

6. Set The Controls For The Heart Of The Sun

7. Mademoiselle Nobs

8. Echoes (Part 2)

CD 2

1. Careful With That Axe, Eugene (Alternate Take)

2. A Saucerful Of Secrets (Unedited)

Tommy Bolin - The Ultimate Teaser

 Teaser - Re-mastered

1-1 The Grind

1-2 Homeward Strut

1-3 Dreamer

1-4 Savannah Woman

1-5 Teaser

1-6 People, People 4:55

1-7 Marching Powder

1-8 Wild Dogs

1-9 Lotus

Alternates & Outtakes

2-1 Teaser

2-2 Flying Fingers

2-3 Cookoo

2-4 Wild Dogs

2-5 Chameleon

Alternates & Outtakes

3-1 Crazed Fandango

3-2 People, People

3-3 Smooth Fandango

3-4 Marching Powder

3-5 Homeward Strut

3-5 Oriental Sky (Lotus)

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

50 Anos de Crystal Ball


Conforme prometido, apresento hoje a história de Crystal Ball. Mas por que o sexto álbum dos estadunidenses merece um texto aqui no site? Bom, por que ao meu ver, ele foi fundamental para direcionar o Styx para novos caminhos sonoros que fizeram da banda uma maiores de sua geração, além de influenciar nomes como Boston, Journey, Kansas, entre outros, praticamente criando o rock de arena, mas, principalmente, revelar ao mundo o talento de Tommy Shaw.

Voltando no tempo, o ano é 1975. O Styx estava lutando na estrada desde 1970, em uma gravadora pequena (a Wooden Knickel, a qual chegou a apelidar os caras durante este período) e com apenas um sucesso em sua carreira, "Lady", de Styx II (1972). A formação do grupo à época era Dennis DeYoung (teclados, vocais, piano), James JY Young (guitarra, vocais), John Curulewski (guitarras), John Pannozzo (bateria) e Chuck Pannozzo (baixo), e após o lançamento de Equinox, no primeiro dia de dezembro de 1975, o quinto disco da banda, Curulewski decidiu que ia seguir outros caminhos musicais.
A formação inicial do Styx: James JY Young, Dennis DeYoung,
John Curulewski, John Panozzo e Chuck Panozzo

Este era o primeiro disco do grupo com uma grande gravadora, a A&M. Porém, Curulewski sentia-se com dúvidas no novo contrato, chegando a afirmar que "está acontecendo a mesma merda com a A&M que aconteceu com a Wooden Nickel. Não estão investindo na gente, não estão fazendo divulgação, não estão nos dando os bons horários de turnê". Ao mesmo tempo, Frampton Comes Alive!, de Peter Frampton, chegou às lojas também lançado pela A&M, e seu lançamento só piorou as coisas, pois afinal, o disco ao vivo do guitarrista estourou inesperadamente, e assim, o Styx passou a não receber a atenção da A&M.

DeYoung também estava insatisfeito com a forma como Equinox foi divulgado. “Eis o que aconteceu: ele parou nas paradas na posição 60 e não chegou a disco de ouro. Originalmente vendeu cerca de 350 mil cópias. Foi, mais uma vez, uma falha da gravadora... eles deixaram Equinox cair.” Disse DeYoung para o jornalista Sterling Whitaker, em 2007. Sobre Comes Alive!, DeYoung complementa: “Aquilo afetou todo o mercado da música, porque aquele álbum mostrou aos executivos das gravadoras que era possível vender milhões de álbuns para os jovens sem precisar de singles de sucesso. Em certo sentido, a A&M, para nós naquela época, virou uma gravadora pequena e sem distribuição, porque o Frampton estava em todo lugar e Equinox foi jogado pra escanteio.”

Com um temperamento difícil, acusado de não ser uma pessoa positiva, sempre infeliz, e que não se relacionava bem fora dos palcos, levando o apelido de "rebelde", chegou ao ponto de que nenhum dos outro quatro membros do Styx queriam dividir quarto de hotel com Curulewski. Cabia ao tour manager Jim Vose ser o responsável por acolher e acompanhar Curulewski. Nas palavras de Vose: “Eu sempre me certificava de ficar com ele pra tentar ser pacificador e intermediário. Ele era um pouco mais radical, uma pessoa muito criativa, mas com algumas ideias diferentes. Ninguém se dava bem com ele”.

O styx à época de Equinox: Dennis DeYoung, James JY Young,
John Curulewski, Chuck Panozzo e John Panozzo

Para piorar a situação, depois de ter sido considerado um compositor importante para o Styx - afinal, ele co-escreveu "Lady" - , Curulewski teve apenas um crédito completo ("Prelude 12") e dois co-créditos ("Born for Adventure" e "Mother Dear") em Equinox, fazendo-o realmente sentir-se incomodado com o comportamento dos demais colegas. Vose estava lá no derradeiro dia do guitarrista na banda, 6 de dezembro de 1975, menos de uma semana pós-lançamento de Equinox. Com problemas de saúde e decepcionado com o comportamento autoritário de DeYoung, Curulewski pediu as contas após um show, no qual houve uma grande discussão entre ele e DeYoung. Curulewski estava com laringite e tentou cancelar a apresentação dentro dos camarins, enquanto 12000 fãs aguardavam o Styx. Ele fez o show abaixo de remédios, mas ao final, DeYoung disse a Curulewski: "Eu nunca mais quero subir no palco com você", ao que ele respondeu: "Ok, então eu peço demissão", e foi cuidar de si e de sua família.

O temperamento forte de Curulewski já havia o feito a pedir demissão outras vezes, mas dessa vez os colegas de banda levaram a sério. Voltando ao depoimento de Vose: "DeYoung basicamente me perguntou o que eu achava, depois se virou e disse ‘Some daqui’, e os outros apoiaram. Naquela época eles não tinham escolha. DeYoung sempre teve o poder". Por fim, a presença de Derek Sutton como novo empresário do grupo foi a gota d'água para encerrar de vez as contribuições de Curulewski com o Styx. Foi ele quem colocou a pá de cal, afirmando que "a gente troca ele" e pronto, pois julgava que o Styx ainda não tinham tido nenhum sucesso de verdade. Curulewski tornou-se professor de música em Chicago, tocando eventualmente em algumas bandas, vindo a falecer em 13 de fevereiro de 1988, vítima de aneurisma cerebral, aos 37 anos.

Com uma turnê nacional prestes a começar, o Styx não tinha muito tempo para achar um substituto, e então, surge o nome de Tommy Shaw. Nascido no Alabama, em Montgomery, Tommy deixou a pequena cidade ao se formar no ensino médio, para buscar sucesso no mundo da música. Ele passou por grupos como o The Smoke Ring e o MSFunk, onde tocou por três anos. O MSFunk era empresariado por pessoas de Chicago, e numa das apresentações do grupo na cidade, Shaw foi visto pelo pessoal do Styx.

Com o término da MSFunk, Shaw voltou para Montgomery, indo tocar no Harvest, mas logo recebeu a ligação de Jim Vose e o convite para fazer audição para o Styx. Shaw disse: "Eu peguei o avião e fui pra lá no dia seguinte, e eles nem me pediram para tocar guitarra. A guitarra nem saiu do case". Assim que o Styx ouviu a fita demo de Shaw e ele provou que conseguia cantar a harmonia aguda em "Lady", ele foi contratado, no dia 12 de dezembro de 1975.

A nova formação do Styx: Dennis DeYoung, Chuck Panozzo, James JY Young,
Tommy Shaw e John Panozzo

O grupo caiu na estrada com a nova formação, com Shaw fazendo sua estreia em 16 de dezembro (quatro dias após ser contratado), no Municipal Auditorium de Zanesville, Ohio. Agora, o Styx tinha um novo compositor, vocalista e guitarrista. Shaw caiu como uma luva para as ideias musicais de DeYoung, e além disso, também era capaz de dividir solos de guitarra com JY sem a timidez de Curulewski, o que era outro fator que incomodava bastante os colegas, pois o antigo guitarrista quase nunca colocava-se à frente do palco para solar, devido a uma espécie de complexo de inferioridade, e sim, muita timidez. Na estrada, passam a escrever as canções do sexto álbum, o qual chegou às lojas no primeiro dia de outubro de 1976.

E Shaw chegou chegando. Cinco das sete faixas do LP trazem sua mão na escrita, começando com a excelente "Put Me On" (obra composta à seis mãos, entre Shaw, JY e DeYoung) e que é uma exaltação as audições de um vinil, e ao mesmo tempo uma das melhores canções da banda. A devastadora introdução dos teclados, com o riff das guitarras e do baixo, é daqueles momentos eternos na carreira de uma banda, com DeYoung mandando ver no virtuosismo. Grandiosa, a introdução traz os vocais de Shaw, JY e DeYoung: "Put me on I'm your brand new record album / Side one, cut one listen to the songs / Play me loud don't you worry 'bout  your neighbours / Hope I make you feel good all day long / All day long" ("Me coloca pra tocar, eu sou seu álbum novo em folha / Lado A, faixa 1, escuta as músicas / Toca alto, não se preocupa com os vizinhos / Espero te fazer se sentir bem o dia todo / O dia todo"). Cara, que coisa sensacional. Quem nunca teve a vontade (e acabou fazendo) de colocar o vinil novinho na agulha, primeira faixa no talo, sem se importar com os vizinhos, e sair pulando pela casa, ouvindo o disco o dia inteiro??

E o mais foda é que "Put Me On" é uma paulada, pesadíssima. Cantada pelo vocal debochado de JY, a canção segue aclamando o vinil como o melhor amigo de um fã: "Put me on and play me loud / I'm the madman screaming in your living room / I'll soon be coming to your town / To sing and play a little tune / I said put me on and play me loud / Turn your stereo up all the way / All the way / Now your body's immersed in sound / So hear the synthesizers play" ("Me coloca pra tocar e toca alto / Eu sou o louco gritando na sua sala de estar / Em breve estarei chegando na sua cidade / Para cantar e tocar uma musiquinha / Eu disse me coloca pra tocar e toca alto / Aumente seu som no máximo / No máximo / Agora seu corpo está imerso no som / Então ouça os sintetizadores tocarem").

Styx, prontos para se tornarem uma das maiores bandas dos EUA

Não sou de colocar letras nos meus textos, mas "Put Me On" merece o destaque por que a letra é sensacional. Simples, direta, falando exatamente o que um fã faz ao ouvir um vinil. Após JY dizer para "ouvir os sintetizadores", DeYoung surge solando alucinadamente com os sintetizadores, levando para o magnífico solo de JY, com notas velozes e muito peso. A canção muda, e num clima quase Yes, camadas de sintetizadores trazem a voz aguda de DeYoung para cantar a última estrofe, acompanhado por violões e o leve andamento de baixo e bateria: "And now you're in the mood / Let the melody just drift your cares away / It's got to do you good / As it mesmerizes you in it's own way / So drift away" ("E agora você está no clima / Deixe a melodia levar suas preocupações embora / Ela tem que te fazer bem / Enquanto te hipnotiza do jeito dela / Então vá se deixando levar"). As vocalizações do grupo, os harmônicos de guitarra, o andamento suave, tudo leva a canção para aqueles momentos etereanos, voltando repentinamente para o riff pegado que encerra de vez uma das melhores faixas de abertura de todos os tempos.

Compacto de "Mademoiselle"
A segunda faixa nos apresenta a voz de Shaw, através de "Mademoiselle", canção cujo single atingiu Top-40 das paradas. Ela lembra muito o Queen de A Night At the Opera e A Day At the Races, com o baixão de Chuck fazendo a introdução, o riff das guitarras gêmeas e as vocalizações esganiçantes. O andamento dançante, com a guitarra e o baixo serpenteando os vocais de Shaw, além dos backing vocals agudos - puro suco de Queen - nos colocam fácil, na verdade, em qualquer álbum da trupe de Freddie Mercury nos anos 70.
Compacto de "Jennifer"

DeYoung volta aos vocais na excepcional "Jennifer", rockzão setentista comandado por piano elétrico e violões, além de uma guitarra carregada de distorções, onde o refrão é demolidor. Mais uma canção pesada, enaltecendo as belezas da menina de 17 anos, cujo amor é tão convidativo e excitante (hoje, com certeza seria uma faixa cancelada nas redes). O solo de JY, repleto de efeitos e alavancadas, e os vocais do refrão, assim como o peso das guitarras, são as grandes atrações de uma faixa poderosa e esplêndida, que encerra-se em um climão prog, cheia de sintetizadores. 

Compacto de "Crystal Ball"

Quando mal percebemos, o lado A se conclui com a faixa-título. Os violões fazem um dos dedilhados mais emblemáticos da carreira do Styx, trazendo o doce vocal de Shaw para mais uma canção brilhante. O longo trecho aos violões segue por duas estrofes que conta sobre o personagem central, que costumava andar na linha mas agora sente-se sozinho e confuso, levando ao refrão onde ele sofre e implora à bola de cristal o que fazer, explodindo num riff mais que pesado, com um espetáculo de vocalizações e o magnífico solo de moog por DeYoung. Que faixa linda e espetacular, e tem em seu final, repetindo o refrão apenas com a voz de Shaw e as guitarras detonado ao fundo, o seu ápice. Arrepiante, não à toa, "Crystal Ball" tornou-se uma das mais tocadas nas apresentações do Styx a partir de então, e um símbolo da era Shaw.


O lado B abre com "Shooz", rockaço feito por JY e Shaw, começando com o estalar de dedos e a voz de Shaw, trazendo o riff de slide feito por Shaw, que solta a garganta em uma hardão estadunidense ótimo, com pitadas southern, e ótimas vocalizações enaltecendo as diversões no fim de semana pelas ruas de Chicago. Seguimos com "This Old Man", linda canção de DeYoung em homenagem ao pai, o trabalhador de uma fábrica de luz durante trinta anos, e que ensinou ao filhou que mostrar o amor deve ser simples, e não se pode esconder os sentimentos. O riff das guitarras gêmeas logo de início já emociona, e a interpretação de DeYoung, sobre os violões de Shaw e JY, é tocante. O refrão certamente faz arrancar lágrimas dos ouvintes mais sensíveis, com os vocais entoando a melodia das guitarras gêmeas, e a marcante presença do hammond de DeYoung. No solo, com o hammond sendo o centro das atenções junto das guitarras, temos um momento mais roqueiro, mas no geral, "This Old Man" é mais uma lindíssima canção da carreira dos caras.

Por fim, como de costume nos álbuns do Styx até então, uma mistura de uma peça clássica com uma composição da banda. Aqui, temos "Clair de Lune", de Claude Debussy, apenas com DeYoung ao piano, introduzindo "Ballerina, uma paulada fenomenal que surge com a voz de DeYoung e o piano alternando bruscamente o tom de "Clair de Lune", de forma mais agressiva. Após a primeira estrofe, entra o hammond acompanhando a voz de DeYoung falando sobre seu encantamento pela bailarina. A banda então passa a acompanhar os vocais, e "Ballerina" ganha ritmo.

Um belo trecho com o dedilhado das guitarras, traz um curto solo de JY, para mais uma breve participação de DeYoung aos vocais, explodindo nos imortais "lá-lá-lás" e "o-o-os" do refrão que grudam em nossa mente. Que momento! A partir daqui é só curtir e ficar cantando junto da banda, enquanto Shaw e JY solam acompanhando os vocais de DeYoung. Fantástico, fechando esplendidamente um disco esplêndido.

O encarte de Crystal Ball traz mini-biografias de cada um dos músicos. Trago os textos para cada músico.

As mini-biografias no encarte do vinil ...

Dennis

O Styx mitológico era descrito como um rio de fogo que separava o Purgatório do Inferno. O objetivo do Styx musical tem sido acender um fogo finamente controlado no estúdio e, em seguida, deixá-lo enfurecer-se violentamente pelas salas de concerto em apresentações ao vivo. Ao traçar essa chama até sua origem, descobrimos que as primeiras faíscas emanaram do tecladista Dennis De Young, que apropriadamente incorpora esse calor intenso em temperamento e talento. Poucos tinham a disposição para lutar e escapar da turbulenta Comunidade Pullman de Chicago, na Zona Sul, e passaram a se tornar alguém de destaque. De Young participou do campo de batalha local com determinação, de modo que, quando descobriu os teclados por volta dos 16 anos, já estava suficientemente fortalecido para a batalha de dez anos que tinha pela frente. Ao longo desse período, De Young desempenhou o duplo papel de combustível e chama — ele exala o tipo de energia que pode guiar um grupo de cinco pessoas pelos momentos mais difíceis, e exibe continuamente o tipo de habilidade musical que torna o estrelato possível. É assim que Dennis encara tudo — se ele define uma meta pessoal, ela se torna realidade. Apesar de sua presença de palco tempestuosa, Dennis está obstinadamente determinado a estar no controle de si mesmo, de sua carreira e do destino do Styx — e suas canções são a razão principal para o sucesso do Styx até este momento. Seus esforços cooperativos com James Young abriram novos horizontes musicais, e a recente adição de Tommy Shaw já proporcionou mais um estímulo musical aos talentos de Dennis para composição e performance.

Chuck e John

Os irmãos gêmeos Chuck e John Panozzo nasceram com apenas 90 minutos de diferença, mas não poderia haver maior contraste entre os dois. O baterista John é o impaciente que dita o ritmo, revelando uma energia bruta interior que está perpetuamente em busca de uma fuga. Ele é alto e ostenta um cabelo afro volumoso, um tipo um tanto intimidador. Chuck é um pouco menos imponente no comportamento e na aparência, mas sua quase imobilidade no palco carrega seu próprio tipo de ameaça, e suas avaliações mais calmas equilibram a impaciência de seu irmão. Mas independentemente de quem tenha começado, essa dupla incomum de gêmeos tem fornecido o ritmo para o Styx e seus projetos anteriores desde o início. É talvez a telepatia que une o baixo e a bateria do Styx na base musical sólida em que os outros membros do grupo confiam e a partir da qual constroem. Os garotos Panozzo cresceram logo na mesma rua de Dennis, mas os três não se conheceram até que a música lhes deu um terreno comum. Na verdade, é mais preciso chamar os Panozzo de "fundadores" do Styx, porque Dennis originalmente se juntou à banda de garagem deles. Chuck e John têm um orgulho intenso de suas contribuições criativas, tanto no estúdio quanto no palco. A abordagem deles em relação aos seus papéis musicais é uma das características pessoais que compartilham — os dois Panozzo dedicam HORAS INTERMINÁVEIS de prática. John encontra uma fuga do trabalho árduo da música produzindo filmes caseiros sobre o Styx. Chuck é confiante ao trabalho de coordenar a arte dos álbuns e é o árbitro final de bom gosto do Styx. Ambos consideram a produção de filmes como parte de seus planos de longo prazo e, em algum momento, farão uma tentativa séria de cronicar as aventuras do Styx.

... e na capa interna da edição gatefold francesa

JY

Se Dennis De Young é a fera que encontra libertação através do romantismo, então James Young (chamado de "J. Y." pela banda) é o romântico que se torna um monstro na performance. Fora dos palcos, J. Y. desempenha o papel de analista cuidadoso, um homem que adota uma abordagem minuciosa nos negócios da música e em suas idiossincrasias decorrentes. Seu pragmatismo é um trunfo inestimável para o Styx, servindo para equilibrar o temperamento explosivo dos outros hiperativos integrantes do Styx. Ele vem da Comunidade Roseland, que fica adjacente à área de Pullman de onde vêm De Young e os Irmãos Panozzo. Ele se juntou ao trio cerca de seis meses antes de gravarem pela primeira vez e foi o seu trabalho eletrizante na guitarra que originalmente chamou a atenção das gravadoras quando o Styx tocava no circuito de clubes de Chicago. Suas feições marcantes e sua altura de 1,88m o tornam uma figura imponente no palco. Lá, ele deixa de lado sua abordagem geralmente pragmática das coisas e se torna totalmente desinibido. J.Y. sempre foi o Rock 'n Roller do grupo, como mostram suas canções, mas sua presença de palco rosnante e provocadora e sua guitarra selvagem finalmente encontraram um contraponto no sensual lirismo sulista de Tommy Shaw.

Shaw

Caramba, Tommy Shaw. Boas-vindas ao mais novo integrante do Styx, que expandiu o elenco totalmente de Chicago do grupo ao se juntar a eles após a conclusão do álbum anterior, Equinox. Tommy é nativo do interior do Alabama. Sua presença foi sentida imediatamente pelo Styx quando ele saiu em turnê com eles apenas alguns dias após o primeiro ensaio. Tom estava bem preparado para isso, no entanto, tendo dedicado 18 de seus 23 anos à guitarra, trabalhando continuamente, esperando pacientemente por sua oportunidade. Seu impacto foi aparente no palco imediatamente, adicionando uma dimensão revigorante à performance ao vivo do Styx. Ele é um forte comunicador no palco, apesar de suas proporções físicas miúdas, que contrastam com a altura imponente de J. Y. Seu desejo de vencer é algo compartilhado com o resto da banda, e seu talento será um trunfo inestimável para o Styx. De qualquer forma, seus companheiros consideram sua adição ao grupo como a melhor coisa que aconteceu desde que J. Y. se juntou ao grupo 5 anos atrás. Durante seus anos em bandas de circuito de clubes que trabalhavam duro, mais notavelmente a M. S. Funk, Tommy acumulou uma grande quantidade de material. Ao verificar os créditos deste álbum, você notará que ele não perdeu tempo em dar sua contribuição à música do Styx. O grupo demonstrou sua fé no recém-chegado ao dar ao álbum o título de uma música totalmente escrita e cantada por Tommy. As contribuições de Tommy — tanto no estúdio quanto no palco — garantirão um crescimento contínuo para o Styx, fornecendo outro estilo musical e uma abordagem diferente da vida. Seu dinamismo impulsionará o grupo ainda mais em direção à perfeição musical e ao estilo mais individual que eles sempre buscaram.

Com estas credencias, o Styx entrava em uma nova fase. Crystal Ball não teve uma recepção muito boa de início, alcançando apenas a posição 66 na Billboard, a mais baixa de um lançamento do Styx pela A&M. Mas também, o que veio na sequência foram absurdos de vendas. Porém, com o passar dos tempos, Crystal Ball subiu nas vendas, alcançando ouro no Canadá (50 mil cópias) e Estados Unidos (500 mil cópias). A partir daqui, o Styx só iria crescer nos Estados Unidos. The Grand Illusion (1977, 6 milhões de cópias no mundo, sendo 3 milhões apenas nos EUA), Pieces of Eight (1978, 5 milhões em escala mundial, sendo 3 milhões nos Estados Unidos), Cornerstone (1979, 4 milhões em nivel mundial, com metade disso somente nos Estados Unidos) e Paradise Theater (1981, único primeiro lugar nos Estados Unidos, vendendo quase 4 milhões de cópias) colocaram a banda no topo das paradas e vendas, fazendo-a uma das maiores de sua geração. Encerro então as duas homenagens aos álbuns aniversariantes do Styx dizendo simplesmente: ouça!

Contra-capa do vinil

Track listing


1. Put Me On


2. Mademoiselle


3. Jennifer


4. Crystal Ball


5. Shooz


6. This Old Man


7. Clair de Lune / Ballerina

sábado, 29 de agosto de 2026

Syrius - Széttört Álmok [1976]


*as fotos estão sem legenda, principalmente pela dificuldade de identificar ano e alguns músicos

Um dos mais importantes grupos da música húngara e que é muito desconhecido no resto do mundo é o Syrius. Com uma sonoridade muito particular, o Syrius se destacou na década de 70 do outro lado da Cortina de Ferro, e conquistou fãs por países como Polônia, Bulgária, Iugoslávia, URSS e Tchecoslováquia, além de terem feito sucesso na Austrália, tocando um jazz rock inspirado no progressivo e com elementos do blues. Já contei a história da banda neste post, e venho hoje trazer aqui a história e as músicas que envolvem o segundo disco do grupo.

Indo direto ao assunto, após a estreia dos húngaros, Az Ördög Álarcosbálja, lançado em 1972 na Hungria, enquanto em 1971, foi lançado sob o nome Syrius na Austrália, onde o grupo havia passado uma temporada, a banda fez uma série de concertos pela Hungria, participando também de festivais, onde foram eleitos o melhor grupo no Ljubjlana Jazz Festival daquele ano. A formação clássica do grupo contava com o líder e fundador Zsolt Baronits no saxofone tenor, Jackie Miklós Orszáczky no vocal e baixo, Mihály Ráduly na flauta e saxofone, László Pataki nos teclados, András Veszelinov na bateria, além de Tibor Tátrai na guitarra. O atemporal álbum é um dos melhores discos da história, e “É algo incrivelmente bem pensado, organizado, musicalmente refletido e que forma uma unidade do começo ao fim. Você não consegue tirar uma faixa e dizer: ‘isso é o Syrius’. Não é. O álbum inteiro é a maior e mais decisiva parte da obra do Syrius”, afirma o músico húngaro János Bródy. Porém, o grupo acabou se dissolvendo no final de 1973, com Ráduly indo morar nos Estados Unidos e Jackie voltando para a Austrália, onde formou o grupo experimental Bakery (esse merece um espaço por aqui hein?).

Mas ainda existia um disco a ser lançado, já que o contrato com a Pepita Records previa 2 LPs, e então, em 1975, o grupo retornou, na formação tendo quatro instrumentos de sopro que se tornariam uma continuação digna do segundo capítulo do Syrius. Os arranjos dos sopros, a principal marca registrada do Syrius, foram feitos por Ákos Molnár (saxofone alto), adaptando-se perfeitamente ao estilo dos outros instrumentistas (Endre Sipos e Rudolf Tomsits no trompete, Károly Friedrich no baixo e trombone, e o velho Zsolt Baronits). András Veszelinov e Tibor Tátrai seguiam na bateria e guitarra respectivamente, e agora, a presença de Ottó Schöck nos teclados, junto de Endre Sipos (baixo, trompete), além dos vocais e percussão de Tamás Turai. 

Após a saída de Jackie, Turai (vindo do grupo Non Stop) foi o único capaz de fazer o público esquecê-lo, pois sabia que devia ser ele mesmo, ao invés de tentar imitar o ídolo da banda. Em junho já estavam com um material exaustivamente ensaiado em concertos e tocado com grande sucesso. "Széttört Álmok" correspondia a uma suíte de quase 40 minutos. No estúdio tudo corria bem, mas apenas até o momento em que o supervisor do estúdio encontrou as letras da suíte e achou-as muito sombrias e pessimistas. O supervisor era nada mais que Péter Erdős, executivo da gravadora Pepita, que empacou o trabalho, dizendo: "ou gravamos outras canções, ou encerramos tudo". Coube a Schöck reescrever rapidamente Széttört Álmok e, talvez sob pressão e por rebeldia, nasceu um disco totalmente diferente, coeso, mas absolutamente digno e à altura do Syrius. 

Em comparação ao seu antecessor, Széttört Álmok traz uma sonoridade mais moderna, principalmente pela entrada de Tátrai e Turai, e é totalmente cantado em húngaro (a suíte era toda em inglês). A bateria apresenta o ritmo de "Hajnali Ének" (Song at Dawn), trazendo os teclados, guitarra e baixo, explodindo no saxofone que comanda uma canção dançante, a qual eu facilmente comparo com os bons rocks de Rita Lee na época Tutti Frutti. Claro que os vocais em húngaro soam estranhos a priori, mas a faixa é muito boa, com uma ótima percussão, e com o saxofone sendo o instrumento central, além de um ótimo solo de guitarra. A abertura de "Hol Az Az Ember" (Where Is The Man), com o naipe de metais estourando as caixas de som, me lembra muito Chicago, mas com os vocais, o som ganha mais ritmo, bem dançante e de difícil definição, assim como é difícil ficar parado com o ritmo avassalador da guitarra de Tátrai, que faz um solo espetacular. Baita música, com um arranjo de metais sensacional, e o baixão estourando as caixas de som. O vocal de Baronits me lembra muito o de Derek Shulman (Gentle Giant) em diversos momentos, e aqui mais que nunca. 

A bela balada "Mint Április" (Like April) capricha no piano elétrico e no hammond, relembrando as belas faixas românticas de grupos como Bee Gees e Supertramp, seguindo com "A Láz" (The Fever), faixa que como o nome sugere, está diretamente associada à febre disco que tomava conta do planeta em 1976. O ritmo percussivo, o riff pegajoso da guitarra e baixo, e o estrondoso naipe de metais, fazem desta faixa outra forte candidata a melhor do álbum, ainda mais pelo ótimo arranjo da mesma, e pelo sensacional solo de piano elétrico, além de outro bom solo de guitarra. Bota sonzeira o que esses caras fazem aqui. O lado A encerra com a faixa-título, com o baixão e a percussão trazendo uma faixa em ritmo muito dançante, onde novamente os metais lembram Chicago, e cara, impossível ficar parado com outra canção contagiante, que mesmo sem saber húngaro, saímos cantarolando o empolgante refrão que entoa no nome da canção, a qual não tem nada a ver com a suíte, como falarei mais adiante.

A bateria e percussão abrem o lado B com a estonteante "Kinyújtom Kezem" (I'm Stretching Out My Arms), com o naipezão de metais comandando a pegada dançante, e destaque para o baixo carregado de efeitos aqui. Prepare-se para o solo de trompete, pois Sipos está matador, o cara manda ver, e também para o sensacional solo de piano elétrico. Demais! "Hová Mehetnék" (Where Could I Go?) mantém o ritmo incansável da Syrius, com o naipe de metais em alta mais uma vez, e o trompete de novo sendo o centro das atenções com outro grandioso solo. Atente-se também para a participação do baixo aqui, e claro, para o incansável batera Veszelinov. 

É ele quem faz o solo de introdução para "Igen, Szép Volt" (Yeah, That Was Nice), faixa que certamente deixou o Herbie Hancock de 1975 felicíssimo. Um jazz-funk sacolejante, com boas passagens de guitarra, baixão retumbante e os metais marcando presença. O trompete de Sipos mais uma vez toma conta durante o magnífico solo, mas preste a atenção nas linhas de baixo e nos fraseados e solos de guitarra aqui. E para melhorar tudo, temos um solo de sax soprano simplesmente demais. Que ritmo, que pancadaria, que coisa mais linda!

"Széparcú Idegen" (The Stranger Of Nice Face) encerra o disco com uma faixa mais amena, bastante leve com um ritmo percussivo cadenciado, que lembra as belas baladas do Santana, fazendo a poeira levantada durante todo o lado B baixar de forma sublime, com o lindo solo de saxofone tenor. 

Após o lançamento de Széttört Álmok, o qual teve edições somente na Hungria, cada integrante saiu para fazer carreira de alguma outra forma. Da formação clássica que gravou o primeiro álbum, Veszelinov foi trabalhar no grupo Apostol, com quem lançou o álbum 2 em 1980. Jackie seguiu como músico na Austrália, lançando discos regularmente e vindo a falecer em 2008. Já Miháli retornou para a Václav Zahradník And His East All Stars Band, com quem gravou o disco Interjazz 2 em 1974 (Mihály já havia participado do álbum Interjazz de 1971).

Mas e a suíte "Széttört Álmok", o que deu? Aqui é necessário voltar no tempo e explicar como chegamos aos sonhos quebrados da Syrius. Em 1970, foi trasmitido via rádio  Kossuth, às 21:20 do dia 8 de outubro, uma obra musical em que surgiam imagens do inferno, de um homem abatido e torturado pela vida, divida em cinco movimentos, alguns deles tensos e extremamente completos, com vocais declamados a la os poemas mais assustadores de Edgar Allan Poe. No final da obra, o homem, apesar da ausência do sol, descobre que ainda há seu brilho, e tenta de alguma forma sobreviver. Essa era a suíte "Széttört Álmok" , que a banda nunca pôde lançar oficialmente. Ela foi a primeira composição autoral do Syrius. A transmissão foi felizmente gravada pelos ouvintes, e em 1994 lançada oficialmente como parte do disco Most, Múlt, Lesz, contendo 35 minutos. 

"Széttört Álmok" é uma obra muito mais profunda e complexa do que Az Ördög Álarcosbálja,  cujas faixas, digamos assim, são mais populares. As gravações da transmissão de rádio de 1970 são as únicas de "Széttört Álmok" em húngaro que estão acessíveis no mundo atualmente. Em 1971, ainda na Austrália, gravaram a versão em inglês ("Shattered Dreams"), e alguns de seus movimentos ainda podem ser encontrados no Youtube. Após o retorno do Syrius da Austrália, é provável que a suíte completa nunca mais tenha sido tocada ao vivo em húngaro, já que Jackie só cantava em inglês (vários bootlegs guardam vestígios disso).

Os dois primeiros movimentos da suíte voltaram a ser tocados pelo Syrius em 2001, no festival Margitszigeti Szabadtéri Színpad de Budapeste, em 7 de setembro de 2001. Nessa ocasião o Syrius se reuniu novamente, infelizmente sem Zsolt Baronits, que faleceu em 3 de agosto de 1999. Jackie cantou de forma bem interessante, misturando idiomas, ora em húngaro, ora em inglês, e a gravação do concerto, organizado por Károly Csonkics e Gergely Böszörményi, foi lançada em 2008 com o título The Last Concert. Em 2012, a companhia Szegedi Kortárs Balett interpretou a história da obra de forma muito peculiar, com acompanhamento da Frank Zappa-Syrius Emlékzenekar. Em dezembro de 2016, na apresentação Hommage à Syrius, Iván Vitáris cantou em inglês, com sua banda Ivan & Parazol.

Em 24 de outubro de 2017, o Syrius Legacy apresentou a suíte completa no Festival Színház, tendo como músico convidado Tibor Tátrai. Aqui vale um depoimento de Benkó Akós, líder, baterista e vocalista da Syrius Legacy: "Quando ouvi o Syrius pela primeira vez, sabe o que achei estranho? Em todos os cantores, no Deep Purple, Led Zeppelin ou Colosseum, toda melodia vocal parece ser composta pelas notas de uma escala. Com Jackie eu sempre sinto que a melodia nunca vem das notas fundamentais de uma escala, mas sempre de alguma nota de blues. Tive que trabalhar separadamente as melodias, porque tem intervalos muito difíceis. As três primeiras notas da escala menor estão separadas por semitons — para cima, para baixo. É incrivelmente difícil e genial. Até hoje não ouço nada parecido na Hungria, de alguém estar nesse nível, não só no timbre, mas também na melodia, tão a par e tão original, sem ter gosto e cheiro de teoria musical. Tento fazer as pessoas entenderem a mensagem: gente, ouçam que melodias são essas aqui." 

Voltando então a história da Syrius, em 1995, chegou às lojas Rock Koncertek A Magyar Rádió Archivumából I: Syrius, 1975, que como o nome diz, trata-se de uma apresentação em uma rádio húngara em 1975. Em 2009 saiu a compilação tripla Anno Live, trazendo diversos registros ao vivos totalmente inéditos do grupo entre 1971 e 1973. Todos estes registros são impecáveis, mas tenho que certeza que aqui, poucos ouviram falar da Syrius, e por isso afirmo que Széttört Álmok (e os demais) é um disco que parece que só eu gosto. Você conhece a Syrius?

Contra-capa do álbum

Track list

1. Hajnali Ének 

2. Hol Az Az Ember

3 Mint Április

4. A Láz 

5. Széttört Álmok

6. Kinyújtom Kezem 

7. Hová Mehetnék 

8. Igen, Szép Volt 

9. Széparcú Idegen

sábado, 18 de julho de 2026

Ronnie Von - Ronnie Von [1972]


De um fracasso retumbante no final dos anos 60 a um sucesso cult extraordinário anos depois, Ronnie Von foi obrigado a modificar sua carreira musical diversas vezes. E em uma delas, ele foi tão audacioso quanto sua Trilogia Psicodélica. Com produção de Arnaldo Saccomani, Ronnie Von é - mais um - disco revolucionário na carreira de Ronnie. 

Ronnie em 1972. Tentando voltar ao sucesso?

Muito se fala da famosa Trilogia de Ronnie, a qual, no final dos anos 60, chocou os (e principalmente as) fãs do Pequeno Príncipe. Os discos Ronnie Von (1969),  A Misteriosa Luta do Reino de Parassempre contra o Império de Nuncamais (1969) e A Máquina Voadora (1970) tornaram-se célebres álbuns cult dentro da discografia do niteroiense Ronaldo Lindenberg Von Schilgen Cintra Nogueira, o nosso querido aniversariante (completou ontem, 17 de julho, 82 anos) Ronnie Von, por mudar uma sonoridade ligada ao rock juvenil e ingênuo de seus três primeiros discos, e mostrar uma lisergia, rancor e raivas até então nunca antes ouvida em discos de grandes artistas nacionais. 

Não mesmo. Ronnie ainda desafiou os fãs com uma obra incrível e anti-católica

A Trilogia Psicodélica levou Ronnie do sucesso ao ostracismo em apenas dois anos, vendendo quase nada e tornando os discos originais de época verdadeiras relíquias nas mãos de colecionadores com o passar dos anos, além de virar material de consulta para fãs e admiradores do rock nacional. As capas alucinógenas ajudaram ainda mais a afastar os conservadores seguidores de Ronnie, e hoje, felizmente, os três álbuns passaram a serem reconhecidos como alguns dos melhores lançamentos de rock nacional na história. 

Mas, no início da década de 70, a pressão da gravadora Polydor para que ele voltasse a fabricar um disco que vendesse era enorme. Eis que em 1970, Ronnie teve um contato mais próximo com o espetacular músico Tony Osanah. O ex-líder dos Beat Boys, famoso por acompanhar Caetano Veloso no álbum de estreia solo do baiano (1967), estava envolvido com a cultura afro-brasileira, principalmente do ponto de vista religioso e a umbanda. Nela, ele conheceu a história de um orixá que cuidava das matas e do verde, Oxóssi, e que segundo o próprio Osanah, o inspirou para criar uma "canção que surgiu inesperadamente, ao dedilhar o violão e ter ela pronta em cinco minutos". 

“Minha Gente Amiga” (acima) e “Hei Amigo” (abaixo),
compactos de Ronnie em 1971, indicando a sonoridade que iria vir em 1972

Ao longo de 1971, Ronnie pensava em como retomar a carreira, e para isso, lançou os compactos "Minha Gente Amiga"/"Segundo Motivo" (a mesma "Minha Gente Amiga" que foi regravada pelo Ira! em 1999) e "Hei Amigo"/"É Preciso Aprender", as quatro canções compostas ao lado de Antonio Pedro, apelidado San Martin. Musicalmente, o som traz um Ronnie mais ligado à musica latina, que irá ser ampliado no trabalho de 1972. Estas canções trazem a presença marcante de percussões na linha de grupos como Santana, com apenas "Segundo Motivo" sendo uma balada lindíssima, que lembra os primeiros trabalhos do cantor. Destacam-se aqui os vocais rasgados de Ronnie, algo bem diferente do estilo que ele cantava em seus trabalhos anteriores, além da presença de guitarras lisérgicas/californianas e um hammond endiabrado nas quatro canções. 

Cartaz de divulgação do filme (acima); Ronnie e Marlene França (abaixo),
em cena de Janaína, A Virgem Proibida

Ao mesmo tempo que lançava os dois compactos, Ronnie investiu no cinema. Assim, no final do ano, e início do ano seguinte, participa como ator do filme A Virgem Proibida, de Olivier Perroy. Lançado em 1972, nele Ronnie faz o papel de um artista de sucesso, Ricky Ricardo, o qual decide abandonar a carreira, atormentado pela vida desenfreada dos grandes centros e do convívio com os fãs. Assim, ele foge para as paradisíacas praias de Salvador. Lá, ele acaba se apaixonando por Janaína (Marlene França), uma linda mulher que no fundo é Yemanjá. O filme traz inspirações na cultura afro-brasileira, e uma das canções presentes na trilha do mesmo é "Cavaleiro de Aruanda", a célebre canção de Tony Osanah.

Tony Osanah, o gênio por trás de “Cavaleiro de Aruanda”

A canção surgiu em fevereiro de 1972, quando Osanah teve um inesperado encontro na calçada em frente ao antigo prédio do Mappin, na Praça Ramos de Azevedo, centro de São Paulo. Naquele dia, ele esbarrou em um desconhecido, que "... olhou pra mim e falou que eu precisava de ajuda. Ele parecia um velho índio. Pediu para eu acompanhá-lo e disse que eu nem imaginaria o que ia acontecer na minha vida nos próximos meses". O homem era um pai-de-santo, e levou Osanah para um terreiro. Lá, ele teve uma experiência que até hoje não consegue descrever, mas que quando o músico argentino voltou para casa, "recebeu" a letra e a melodia de "Cavaleiro de Aruanda", sendo que ele afirma que "ela foi psicografada para mim"

Enquanto Osanah tinha seus encontros espirituais, o produtor Arnaldo Saccomani sugeriu a Ronnie buscar auxílio em nomes como o de Tony, e no encontro dos dois, perguntando para Tony se ele poderia colaborar no próximo trabalho, a primeira música a ser apresentada foi "Cavaleiro de Aruanda", que sai na trilha do filme, e também é lançada no raro compacto com . Começava ali a criação de outro disco fantástico na carreira do Pequeno Princípe.

Single de “Cavaleiro de Aruanda”

Ronnie Von chegou às lojas na segunda metade de 1972, e abre com "Cavaleiro de Aruanda". O ritmo percussivo avassalador e a guitarra lisérgica de Osanah nos remetem fácil ao Santana de início de carreira. A bateria e as percussões comandam o ritmo, e Ronnie gasta sua voz, acompanhado por um excelente backing vocal feminino, enaltecendo o cavaleiro do mundo espiritual da umbanda. Quem esperava que Ronnie voltaria calmo, com canções românticas para reconquistar seus fãs, logo de cara vê mais um grande desafio e provocação para seu público com as religiões africanas, e ainda, fazendo uma crítica à Igreja Católica e seus preconceitos.

"Hare Krishna" é mais uma canção com temática religiosa, dessa vez, composta por Ronnie e San Martin. Ronnie estava influenciado por George Harrison, bem como as decepções do beatle com Maharishi, e obcecado lendo Baghavad Gita e O Livro dos Vedas. A letra também afronta o catolicismo "salve o mundo de muitos deuses", e a canção traz os vocais femininos exageradamente gritados, baseada em apenas dois acordes, com um ritmo latino das percussões retomando "Minha Gente Amiga" e "Hei Amigo", onde a guitarra de Osanah é o que brilha. As percussões também estão presentes em "Camping", um rockaço no qual Ronnie está cantando com sua voz bastante rouca e rasgada, em um ritmo que lembra algo do Captain Beyond de Sufficiently Breathless. 

Compacto angolano de “Aquela mesma Canção”

A dupla Ronnie e San Martin faz a baladinha "Aquela Mesma Canção", essa fácil fácil a mais comercial do disco, que poderia estar nos primeiros discos de Ronnie, assim como "Tereza Cristina", faixa de amor criada por Arnaldo Saccomani para sua namorada, recheada pelo arranjo orquestral de Briamonte. 

De Ronnie e San Martin temos também a jazzística "Eu Era Humano E Não Sabia", outra com a orquestra sendo uma atração a parte, assim como a linha de baixo e o piano. Ronnie novamente está cantando muito, e a guitarra de Osanah brilha fazendo os acordes bases. "Roke Pros Meus Nervos (Nada Neste Mundo)" é uma faixa que me lembra muito o que O Peso faria anos depois no álbum Em Busca Do Tempo Perdido, com aquela pegada Stones no instrumental, e os vocais rasgados e roucos de Ronnie. 

De Eduardo Araújo e Marcos Durães, Ronnie grava "Veja Com Olhos De Ver", um rock com um riff pesado - sim, Eduardo Araújo também teve sua fase roqueira - onde a guitarra de Osanah e o baixo (seria de Willy Verdaguer?), fazem as bases para Ronnie soltar a voz. Essa faixa é carregada de emoção, seja pelos vocais arrebatadores de Ronnie, seja pelos vocais femininos, seja pelo refrão poderoso, pesadíssimo, ou seja pelo quarteto baixo, bateria, piano e guitarra. As alternâncias de andamento são fenomenais. Preste atenção no que Ronnie faz com sua voz na segunda parte, indo de graves à falsetes. E cara, que refrão massa. Uma das melhores canções registradas pelo cantor, cujo final me lembra muito o que o Deep Purple faria depois em "Mistreated". Pena não saber quem é o baterista aqui, pois o cara demole!

Single de “Tempo de Acordar”

Outra que Ronnie está cantando pra caramba é na dolorida balada "E Essa Gente Passa Cantando", uma fabulosa canção, com um arranjo orquestral fenomenal, um arrepiante vocal de apoio, e Ronnie cantando a la Joe Cocker, rasgando sua voz, em gritos dilacerantes. Que música! 

Retomando o lado comercial, Ronnie traz uma boa versão para "I'll Cry My Heart Out For You", batizada de "Tempo de Acordar". A faixa, original de Neil Lancaster e Cliff Corbertt, destaca o piano e uma bela interpretação de Ronnie, além do fantástico arranjo orquestral de José Briamonte. Por fim, aprecie o lado zeppeliano dos violões e da flauta na lindíssima "Céu Vermelho", e ainda, para fechar o álbum, tem mais um rockaço, "Ninguém Vai Me Segurar", embaladão, com um ótimo ritmo de baixo e bateria, e o piano saltando nas caixas de som, lembrando algo de Chicago, porém sem naipe de metais. 

Single português de "Aquela mesma Canção"

Além de "Cavaleiro de Aruanda", tendo "Tereza Cristina" no lado B e que saiu também em Portugal e no Uruguai, foram lançados os compactos de "Tempo de Acordar" (com "Aquela Mesma Sensação" no lado B), somente no Brasil, e em Portugal e Angola, o compacto "Aquela Mesma Canção", com "Ninguém Vai Me Segurar" no lado B. 

Ronnie Von foi um dos discos mais vendidos no Brasil em 1972 (estima-se que em torno de 100 mil cópias, algo que na época, era considerado um excelente número), puxado pelo sucesso de "Cavaleiro de Aruanda", mas acabou caindo no esquecimento com o passar do tempo. O álbum originalmente teria uma capa gatefold, mas acabou saindo em capa simples, com a imagem da gatefold original vindo em um pôster que acompanha o vinil (raríssimo hoje em dia). 

Ronnie em capa de revista de 1971 (acima) e
O gênio Tony Osanah (abaixo)

Após Ronnie Von, a vida de Osanah sofreu uma reviravolta. Ele relata: "Eu vivia sempre tentando alguma coisa nas gravadoras. Era muito jovem, já casado e despreocupado". Logo depois ele fez parte da banda de apoio dos Secos & Molhados, e então, fama e dinheiro entraram na vida do rapaz. Já Ronnie ainda lançaria mais um disco conturbado - e fantástico -, Ronnie Von (1973), antes de entrar de vez no mercado comercial de canções românticas e populares, indo então a naufragar sua carreira musical nos anos 80. 

Apesar do próprio Ronnie considerar um disco abaixo da trilogia psicodélica, eu discordo bastante. Ronnie Von tornou-se obscurecido pela grandiosidade e a busca pelo fenômeno cult de seus três antecessores, mas merece sim no mínimo (se não mais) o mesmo status que eles. Se você não conhece a obra de Ronnie Von entre 1969 e 1973, corra atrás para descobrir algo incrível e único lançado no país. Agora, se você nunca ouviu Ronnie Von, seja por preconceito, seja por puro desprezo, você não sabe o que está perdendo.

Pôster, com a imagem projetada para ser a capa gatefold (acima)
 e a Contra-capa do vinil (abaixo)

Track list

1. Cavaleiro De Aruanda

2. Tempo De Acordar (I'll Cry My Heart Out For You)

3. Veja Com Olhos De Ver

4. Eu Era Humano E Não Sabia

5. Camping

6. Aquela Mesma Canção

7. E Essa Gente Passa Cantando

8. Hare Krishna

9. Tereza Christina

10. Rock Pros Meus Nervos (Nada Neste Mundo)

11. Céu Vermelho

12. Ninguém Vai Me Segurar

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