quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Review Exclusivo: Robert Plant (Porto Alegre, 29 de outubro de 2012)




Fotos por Fábio Codevilla (Itapema FM)

O Ginásio Gigantinho, patrimônio do Sport Club Internacional e maior ginásio particular do Brasil, foi palco na última segunda-feira de mais uma grande atração na capital gaúcha. Afinal, nas últimas semanas, Porto Alegre voltou a ser uma estação obrigatória na rota das turnês internacionais de grandes nomes do pop rock, e dessa vez, o vocalista Robert Plant deixou suas marcas para os milhares de fãs que lotaram o Ginásio Gigantinho na chuvosa noite de 29 de outubro.

Acompanhado da The Sensational Space Shifters, a qual é formada por Juldeh Camara (ritti, kologo, talking drum e vocais), Justin Adams (guitarra, bendir, vocais), John Baggott (teclados), Liam "Skin" Tyson (guitarra, vocais), Dave Smith (bateria, percussão) e Billy Fuller (baixo, vocais), Plant trouxe toda sua experiência de mais de quarenta anos nos palcos, apresentando sua famosa voz (apesar de sem os mesmos agudos) recheadas de "Baby!", "Oh Yeah!" e "Love", além dos famosos improvisos que marcaram época quando à frente do Led Zeppelin no final da década de 60 e todos os anos 70.

Renato Borghetti e banda, no palco de Robert Plant

O espetáculo musical começou as 20:30 horas, quando para surpresa geral, um artista folclórico do Rio Grande do Sul subiu ao palco para interpretar canções típicas do estado. O acordionista Renato Borghetti (conhecido também como Borghettinho), fez um show emocionante de pouco mais de meia hora, apresentando clássicos do cancioneiro gaúcho como "Mercedita" e "Felicidade", além de uma jazzística versão para "Asa Branca" (Luiz Gonzaga), a qual ele chamou de "frevo", apesar da canção ser um baião. Acompanhado de baixo, violão e do excelente músico Pedrinho Figueiredo, esse último tocando flauta, saxofone e clarinete, Borghetti agradeceu por ter sido o escolhido para representar o estado, e agradou em sua participação, com destaque claro para o virtuosismo exalado por Pedrinho em complicadas linhas de flauta e saxofone. 

Depois da boa e surpreendente apresentação do músico gaúcho, era a vez de Plant assumir o posto dos holofotes centrais. Pontualmente as 21:30, ele e a The Sensational Space Shifters subiram no simples palco montado para uma plateia alucinada, que aproveitou e viajou durante a interpretação de "Tin Pan Valley", canção do álbum Mighty Rearranger, lançado por Plant em 2005 e que foi o principal álbum apresentado no show, com cinco canções no total. Na sequência, "Another Tribe" (outra de Mighty Rearranger) destacou Juldeh Camara e seus estranhos instrumentos africanos, o ritt (um violino de apenas uma corda) e o kologo (uma espécie de banjo).

Robert Plant em momento intimista de seu show
A terceira canção fez o Gigantinho urrar. Nada mais que uma adaptação para a clássica "Friends", clássico gravado pelo Led Zeppelin em III (1970), que em pouco lembrou a versão original, assim como "Spoonful", a qual, para quem se acostumou a ouvir com o Cream, em nada lembrava a versão do ex-grupo de Eric Clapton.

Nesse momento, já era perceptível que o show seria uma sequência do que Plant tem feito nos últimos anos, que é misturar elementos africanos, árabes e orientais com o rock 'n' roll. Por vezes, os improvisos chegaram a soar maçantes, principalmente as vocalizações em africano feitas por Juldeh, mas é inegável que o carisma de Plant diante de uma plateia continua intacto. Os quase doze mil participantes do evento puderam conferir que a capacidade de improvisar de Plant é imbatível, principalmente durante a releitura para a quase irreconhecível (se não fosse a letra) "Black Dog".

Outro ponto de destaque vai para o guitarrista Justin Adams, que além de tocar muito, agita e participa ativamente do show, hora chamando a plateia para bater palmas no ritmo das canções, hora pulando feito um doido no palco. A plateia, aliás, permaneceu embasbacada durante boa parte do show, seguindo o que Plant ordenava como se fosse uma orquestra regida por seu maestro, acompanhando as canções mais desconhecidas com palmas e cantando os clássicos Zeppelianos a plenos pulmões.

Plant e a Sensational Space Shifters
Da carreira solo de Plant, vieram ainda "Somebody Knocking", a bela "All the King Horses" (um dos momentos mais bonitos e especiais da noite para este que vos escreve) e "The Enchanter", todas de Mighty Rearranger, além de "Fixing to Die" (do álbum Dreamland, de 2005), e, do Led, foram apresentadas novas e modificadas versões para "Bron-Y-Aur Stomp" (a única a ficar próxima ao original), "Four Sticks", "Ramble On" (na qual o Gigantinho tremeu durante bons minutos) e "Whole Lotta Love" (outra em que as estruturas do Ginásio mostraram-se bastante sólidas, tamanho o agito da plateia), e que, relembrando as apresentações do Zeppelin de Chumbo, Plant incrementou com releituras para "Who Do You Love", "Steal Away" e "Burn My Body".

Plant e grupo deixaram o palco com a plateia na mão, e voltaram fazendo agradecimentos vários para o Brasil e para o povo brasileiro. Em um momento de humildade, pediu carinhosamente para o público cantar o "Parabéns a Você" em português, para homenagear a um amigo seu que completará sessenta anos no início de novembro, e foi bonito ver os gaúchos cantando a canção sem recorrer à bairrismos como em outros shows. Outro fato que vale ser destacado da plateia é que, apesar de existente, a maldita inclusão digital estava de forma enxugada, com os presentes querendo muito mais assistir ao show do que tentar capturar um registro do mesmo (que está disponível para download no site oficial do cantor).

Depois do "Parabéns a Você" (registrado em vídeo por Plant), as lágrimas brotaram dos olhos de quase todos os presentes durante a linda versão para "Going to California", muito fiel ao original, e o espetáculo encerrou após duas horas de apresentação com uma pesadíssima versão para "Rock and Roll", com todos dançando e cantando um dos principais clássicos da carreira do Led.

Muitos desententidos, aliás, comentaram a ausência de canções como "Kashmir", "Stairway to Heaven" ou "All My Love", mostrando que realmente estão por fora do que Plant fez desde 1980. Como fã de sua carreira solo, gostaria de ter ouvido clássicos como "Big Log", "In the Mood", "Tall Cool One", "Tie Die on the Highway" ou "If We're a Carpenter", mas tudo bem, ver e ouvir Plant ao vivo e a cores, com seus rebolados intactos, a levantada de perna ainda sendo feita e os gritos histéricos que influenciaram uma geração de cantores anos depois dele foi o suficiente para ter valido a noite.




Set list

1. Tin Pan Valley
2. Another Tribe
3. Friends 
4. Spoonful
5. Somebody Knocking
6. Black Dog
7. All The King Horses
8. Bron-y-aur Stomp
9. The Enchanter
10 Four Sticks
11 Ramble On
12 Fixing To Die
13 Whole Lotta Love (interpolating Who Do You Love, Steal Away e Bury My Body) 

Bis

14 Going To California
15 Rock and Roll 

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Maravilhas do Mundo Prog: Beto Guedes - Chapéu de Sol [1977]



Quem hoje ouve o músico mineiro Beto Guedes interpretando baladas melosas e sem sal, mal sabe que ele fez (e faz) parte importante da cena progressiva do Brasil na década de 70, tendo lançado uma das obras-primas do gênero em Terra Brasilis, responsável por modificar as direções progressivas em nosso país.

O homem dos
1000 instrumentos
Homem dos mil instrumentos, como foi carinhosamente apelidado por Milton Nascimento, Beto nasceu na cidade de Montes Claros, no dia 13 de agosto de 1951, e desde cedo começou a mostrar suas habilidades como músico. Aos oito, aprendeu a tocar seu primeiro instrumento, o pandeiro, e fez parte de um conjunto regional formado pelo pai, Godofredo Guedes. Aos nove, mudou-se para Belo Horizonte, aonde conheceu o amigo e parceiro musical Lô Borges. 

No auge da beatlemania, Beto e os amigos Márcio Aquino, Lô e Yé Borges montaram, em 1964, o The Beavers, grupo de versões brazucas para clássicos do Beatles. Em 1969, começa a participar de festivais, ganhando o quinto lugar com a canção “Equatorial” (parceria com Lô e Márcio Borges) no Primeiro Festival Estudantil da Canção de Belo Horizonte.

Já no V Festival Internacional da Canção, é revelado ao Brasil com "Feira Moderna", uma de suas canções mais conhecidas, composta em parceria com Fernando Brant. Não tardou para Beto tornar-se uma referência no rock mineiro, fazendo parte do que ficou conhecido como Clube da Esquina, ao lado de Milton Nascimento, Wagner Tiso, Lô Borges, entre outros mineiros que "exilaram-se" no Rio de Janeiro a partir de 1972. 


Wagner Tiso, Beto Guedes e Milton Nascimento
Nesse mesmo ano, estreiou vinilicamente, tocando diversos instrumentos no álbum Clube da Esquina, de Milton e Lô. Dois anos depois, grava uma joia rara do cancioneiro brazuca, o excelente Beto Guedes / Novelli / Danilo Caymmi / Toninho Horta, no qual Beto desfila tocando violão, baixo, craviola, bandolim, teclados, percussão e outros instrumentos. Ainda passou pelo grupo 14 Bis, antes de dedicar-se a sua carreira solo.

Em 1977, lançou seu álbum de estreia, e fez do mesmo a tal obra-prima citada no início do texto. Batizado de A Página do Relâmpago Elétrico, este álbum está facilmente na lista dos dez álbuns essenciais do rock nacional, e chega a ser assustador aos fãs atuais de Beto ouvir o mesmo do início ao fim.

Show na turnê de A Página do Relâmpago Elétrico
Nele, Beto apresenta seus dotes em diversos instrumentos, tocando bandolim, violão, guitarra, flauta e moog, além de cantar. Em sua companhia, estão Toninho Horta (baixo, orquestracão e regência), Robertinho Silva (bateria, percussão), Vermelho (órgão e piano), Flávio Venturini (piano), Hely: (bateria, percussão), Zé Eduardo (violão, guitarra), Faraó (moog), Paulo Guimarães (flauta) e Novelli (piano). Com um time desses, só poderia vir um disco fantástico, e é isso o que realmente temos.

Não dá para negar que a maior atração do LP para os fãs é a bela "Nascente", de Flávio Venturini e Murilo Antunes", a qual ficou imortalizada por Renato Russo na versão ao vivo de "Soldados", registrada no álbum Música p/ Acampamentos, lançado pelo Legião Urbana em 1992, mas A Página do Relâmpago Elétrico possui muito mais.

Beto Guedes, Gal Costa e Ronaldo Bastos
As parcerias com Ronaldo Bastos geraram canções fantásticas e marcantes, como a faixa-título, que abre o LP levemente, com o violão carregado de efeitos e a voz aguda de Beto preenchendo o recinto em um folk-psicodélico viajante, "Tanto" e seus longos acordes de sintetizador e o tema grudento do moog, além de um belíssimo arranjo de cordas, "Choveu", na qual Beto faz um emocionante solo na craviola, e a clássica "Lumiar", uma linda balada psicodélica, com uma letra complicadíssima e uma interpretação emocionada de Beto.

"Maria Solidária", canção de Milton Nascimento e Fernando Brant, ganha uma cara remodelada, mas segue bastante as linhas de composições alegres de Milton, com outra letra complicada e lembrando bastante o ritmo caipira-mineirinho, apesar do moog e do hammond aparecer como instrumento central, e faz chover na linda "Bandolim", única canção exclusivamente de Beto, e que é uma milonga-flamenca com violão, piano, percussão e o instrumento que lhe dá nome fazendo o solo central, além de uma emocionante participação da flauta. 

Mas é a parceria com Flávio Venturini que acabou se tornando uma Maravilha Prog de dimensões gigantescas. "Chapéu do Sol" começa com a marcação de piano e baixo, entre as viradas de bateria, trazendo o lindo tema do moog, construindo uma harmonia hipnotizante. As suaves notas do moog cantam como um Bem-Te-Vi na floresta, e entre diversas manifestações de flautas e teclados, levam-nos ao viajante tema central, com longos acordes do sintetizador, do qual Danilo Caymmi salta com um rápido solo de flauta, tão suave quando o tema do moog.

A introdução é retomada, com a flauta participando ativamente fazendo intervenções, e o moog repete o mesmo tema hipnotizante, levando novamente para os longos acordes dos teclados, acompanhando um leve duelo entre flauta e moog. A profundeza dos acordes dos teclados é muito delirante, retornando então para nova repetição do tema do moog, encerrando essa genial canção com o moog fazendo um último tema, entre as constantes viradas da bateria e dedilhados de piano.

Beto e sua guitarra

"Salve a Rainha" (com a participação de Milton Nascimento, composta por Zé Eduardo e Tavinho Moura) e "Belo Horizonte", delicioso chorinho composto por Godofredo Guedes (pai de Beto), e com Beto novamente brincando com o bandolim, complementam um disco excepcional, o qual deve ser ouvido sem pré-conceitos. Na época de seu lançamento, A Página do Relâmpago Elétrico vendeu vinte mil cópias, superando as expectativas da gravadora EMI e consolidando o nome de Beto entre os principais artistas do país.


No ano seguinte, Beto lançou Amor de Índio, virando ídolo da geração adolescente da época, que levou o álbum seguinte, Sol de Primavera (1980) a vender mais de duzentas mil cópias. A carreira do músico seguiu, cheia de altos e baixos, fugindo totalmente das viagens progressivas e psicodélicas de seu álbum de estreia e com imensos vácuos de lançamentos, tanto que ele possui apenas nove discos de estúdio em 40 anos de carreira.


Beto Guedes

Mas se tivesse lançado apenas A Página do Relâmpago Elétrico, ou um compacto contando somente com "Chapéu do Sol", já seria suficiente para eternizar um dos maiores gênios da música nacional.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Podcast Grandes Nomes do Rock # 43: The Kids are Alright




O Podcast Grandes Nomes do Rock desse mês homenageia o Dia das Crianças. Em uma hora e meia de programa, ouviremos diversos artistas interpretando canções que contenham a palavra criança(s) em seu nome.


Let the Child Play!

Track list Podcast # 42: Ouviram do Ipiranga às Margens Plácidas

Bloco 01
Abertura: "Hino do Estado da Guanabara"
"Meu Novo Cantar" [do álbum Ronnie Von - 1969 (Ronnie Von)]
"UFO" [do álbum Depois do Fim - 1983 (Bacamarte)]
"Amanhecert Total" [do álbum O Terço - 1974 (O Terço)]

Bloco 02
Abertura: "Hino do Estado de Minas Gerais"
"As Crianças da Nova Floresta" [do bootleg Live at Pouso Alegre / MG - 2011 (Recordando o Vale das Maçãs)]
"A Matança do Porco" [do álbum A Matança do Porco - 1972 (Som Imaginário)]
"Bandolim" [do álbum A Página do Relâmpago Elétrico - 1976 (Beto Guedes)]

Bloco 03
Abertura: "Hino do Estado de São Paulo"
"Aurora Boreal" [do bootleg Ribeirão Preto - 1978 (Mutantes)]
"Manhãs de Domingo" [do álbum Psicoacústica - 1988 (Ira!)]
"Marvin" [do álbum Acústico MTV - 1997 (Titãs)]

Bloco 04
Abertura: "Hino do Estado da Bahia"
"Pulsars & Quasars" [do álbum Gal - 1969 (Gal Costa)]
"Maria Bethânia" [do bootleg Caê Ao Vivo - 2010 (Caetano Veloso)]
"Filhos de Gandhi" [do álbum Ogum, Xangô - 1975 (Gilberto Gil & Jorge Ben)]

Bloco 05

Abertura: "Hino do Estado do Rio Grande do Sul"
"A Violência Travestida Faz Seu Trottoir" [do álbum O Papa É Pop! - 1989 (Engenheiros do Hawaii)]
"As Alamedas" [do álbum O Mistério dos Quintais - 1983 (Quintal de Clorofila)]
"La Maison Dieu" [do álbum Uma Outra Estação - 1996 (Legião Urbana)]
"Até Quando Esperar" [do álbum O Concreto Já Rachou - 1985 (Plebe Rude)]

Encerramento: "Hino da Independência do Brasil"

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

35 anos de "Heroes"



O ano é 1977. David Bowie, símbolo sexual, ídolo de milhares de fãs ao redor do mundo, acabou de lançar seu décimo primeiro LP, o sensacional Low, que chegou às lojas uma semana após o músico britânico completar 30 anos. 30 anos que mais pareceram 60, tamanha a quantidade de mudanças na vida de Bowie desde que ainda era um garoto de 15 anos, liderando o grupo The Konrads e tocando em festas de casamento.

As canções beat de outrora foram substancialmente trocadas pelo folk-político de seus dois primeiros álbuns, originaram o Glam Rock a partir do terceiro (parindo também o primeiro personagem importante criado por Bowie, Ziggy Stardust), mergulharam no rock de Alladin Sane (o segundo personagem do camaleão), flertaram com o progressivo em Diamond Dogs e afundou-se na cocaína e nas pastilhas alucinógenas com o The Thin White Duck, isso em apenas seis anos de carreira.


As várias faces de Bowie em "Heroes"
Bowie precisava mudar, se não iria morrer. Essa mudança começou a ser formatada em 1976, pouco depois do lançamento de Station to Station, um dos melhores trabalhos do músico.

Afundado em drogas, Bowie decidiu migrar para a Alemanha, com a finalidade única e exclusiva de livrar-se delas, e na terra do chucrute, deparou-se com um ambiente totalmente diferente daquele que ele havia encontrado na América, aonde gravou Young Americans e o já citado Station to Station.

A Alemanha pós-guerra era um país totalmente diferente do que vemos hoje. Reconstruída com muito esforço, ela passou por diversos problemas até se estabilizar como uma potência econômica mundial, e durante a década de 70, os jovens eram praticamente isolados na sociedade, com difícil acesso ao material que vinha por exemplo, dos Estados Unidos, e consumindo muitas drogas, como é o caso da menina Christiane Felscherinow, imortalizada no filme Christiane F. (e não por acaso, uma grande fã de Bowie).



Foi lá que Bowie, com a ajuda do produtor Brian Eno, e com a companhia (conjugal?) de Iggy Pop, começou a se remodelar, e fazer a limpeza de suas veias e sangue, tornando-se o que ele veio posteriormente a chamar de "Careta Consciente". No início de 1977, abalou as estruturas dos fãs e das casas que adoravam Ziggy Stardust ou The Thin White Duck com o álbum Low, um dos melhores discos de todos os tempos, influenciado pelo krautrock e apresentando canções eletrônicas, densas, tristes, quase que em sua maioria instrumentais. Era o início da fase Berlin!

O lado B inteiro de Low é praticamente destruidor da imagem do Bowie bissexual que o mundo conhecera até então. "Warszawa", "Art Decade", "Weeping Wall" e "Subterraneans" machucam aqueles que pretendem ouvir apenas um disco de rock e sair dançando, principalmente pela sua complexidade quase progressivo, e demoraram a cair no gosto da imprensa, que dividiu-se em elogios e críticas pesadas.





Os fãs receberam o álbum com extrema adoração, carregando as canções do lado A (destacando "Be My Wife" e "Sound And Vision") nos ombros, e fazendo das mesmas novos clássicos ao lado de "Young Americans", "Space Oddity" ou "Starman", colocando Low imediatamente na segunda posição em vendas no Reino Unido. Mais uma vez, Bowie abria espaço para novos sons, e mudava de armadura. Mas a limpeza que ele havia projetado apenas havia começado.


Semanas após o lançamento de Low, Bowie surge com um super-grupo, formado por Robert Fripp (guitarras), Brian Eno (teclados, sintetizadores, guitarras), George Murray (baixo), Dennis Davis (bateria) e Carlos Alomar (guitarras), e com ele, entra nos estúdios da RCA para, adaptar as linhas melancólicas de Low para algo um pouco mais alegre, ao mesmo tempo que arrepiava pela profunda agonia exalada nas suas linhas vocais. No dia 14 de outubro de 1977, chegava às lojas "Heroes"





Assim como Low, o álbum apresenta dois lados bastante distintos. O lado A abre com "Beauty and the Beast", tendo a voz de Bowie carregada de efeitos, e em um embalo suingado que mistura o ritmo da fase soul com música eletrônica, destacando o solo de sintetizador feito por Eno, seguida por "Joe The Lion", um tributo ao artista Chris Burden, famoso por crucificar-se em um fusca no ano de 1974, e que Bowie canta sofreguidão, além do riff melódico de Fripp grudando na cabeça.

Chegamos na faixa-título, seis minutos e sete segundos de genialidade pura, exalada dos poros de David Bowie, Brian Eno e Robert Fripp. Criada em homenagem ao grupo de krautrock Neu!, que gravou uma canção chamada "Hero", temos no seu riff inconfundível, o qual vaga até os dias de hoje como um dos mais importantes da história do rock, a eternização de mais um clássico para a já premiada carreira de Bowie, além de uma letra de forte apelo emocional. Não a toa, essa canção recebeu versões em alemão e em francês, e virou  figurinha carimbada nos shows do camaleão a partir de então. Somente ""Heroes"" já basta para deixar o álbum que leva seu nome no hall de imortal, mas ainda vem mais.





O saxofone na introdução de "Sons of Silent Age" foge de qualquer comparação com as canções de Low, parecendo ter saído de Diamond Dogs, ainda mais pelos teclados viajantes de Eno, em uma belíssima canção que foi resgatada por Bowie na turnê The Glass Spider, durante a década de 80, com um fantástico cerimonial de danças apresentado no palco.


O lado A é concluído com a sensacional (e esquecida) "Blackout", tendo a guitarra sintetizada de Fripp e o mesmo embalo de "Joe The Lion", porém com o baixão trovejante dando muito mais swingue, sendo impossível permanecer parado durante a audição dessa pérola na carreira de Bowie.




Já o lado B retorna aos instrumentais de Low, porém mais alegre. "V-2 Schneider" apresenta um andamento grudento dos sintetizadores, baixo e bateria, destacando Bowie no saxofone e vocalizações muito bonitas que cantam o nome da canção, além da guitarra de Fripp carregada de distorção ao final, trazendo "Sense of Doubt", somente com Bowie no sintetizador, e que é uma obra-prima da continuação do lado B de Low, com as suas assustadoras quatro notas, antecipando as variações de acordes do instrumento, que é explorado por Bowie como um adolescente que está descobrindo sua sexualidade. 


A linda "Moss Garden" surge com as notas orientais do Koto, também tocado por Bowie, entre mudanças de acordes do sintetizador, levando essa agonia para "Neuköln", um duelo agonizante entre os solos de saxofone com os sintetizadores de Bowie com as distorções de Fripp, que reproduzem sempre as mesmas notas entre camadas de sintetizadores. 


"Heroes" encerra-se com a dançante "The Secret Life of Arabia", a mais animada deste lado, e a única com uma letra, que levanta a moral do ouvinte após a viagem instrumental ouvida nas quatro canções anteriores, antecipando a sonoridade que Bowie iria a seguir no álbum seguinte, o também fundamental Lodger, que encerrou a trilogia Berlin em 1979.





Poderia falar sobre os singles, a turnê, o quanto vendeu, mas prefiro encerrar por aqui. "Heroes" é um disco auto-explicativo, e não precisa ser dito mais do que uma simples palavra: ESSENCIAL!

Obrigado Bowie, Eno e Fripp, gênios da música em geral, por terem parido mais esse grande trabalho em vossas carreiras.



Três gênios reunidos: Robert Fripp, David Bowie e Brian Eno

Track list

1. Beauty and the Beast

2. Joe The Lion
3. "Heroes"
4. Sons of Silent Age
5. Blackout
6. V-2 Schneider
7. Sense of Doubt
8. Moss Garden
9. Neukoln
10. The Secret Life of Arabia

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Supertramp - Live in Germany [1983]




Há alguns anos, eu participava de um outro blog, escrevendo praticamente o mesmo que escrevo aqui no Consultoria do Rock. Graças ao tal blog, conheci pessoas sensacionais, como nossos colaboradores Fernando Bueno e Davi Pascale, além de Daniel Sicchierolli, Ronaldo Rodrigues, Diogo Bizzoto e tantos outros que vieram com o surgimento do Consultoria do Rock, o qual nasceu justamente por uma discidência em opiniões dentre o manda-chuvas do primeiro blog.

Por lá, eu resenhei o DVD Live in Germany, lançado pelo Supertramp como um VHS em 1983,  que chegou às lojas na versão digital em 2004. Lembro que quando escrevi aquela resenha, eu coloquei muito do que envolvia o show registrado no DVD, e pouco me prendi a detalhes do palco ou das canções em si.

Por pura babaquice, o dono do outro blog apagou todas as minhas postagens, e eu perdi essa e tantas outras resenhas que fiz para ele. Mas o tempo passa, e com idas e vindas de DVDs no meu aparelho, eis que um dia resolvi olhar Live in Germany novamente com olhos de resenhador. Não que depois daquela época eu nunca mais tivesse visto o DVD, mas sabe quando bate o dia da inspiração.

E eis que nesse dia, Live in Germany me passou uma sensação ainda mais incrível do que da primeira vez que o resenhei. Esse DVD foi gravado n Reiterstadium, localizado em Munique, Alemanha, no dia 24 de julho de 1983, durante o auge do verão alemão, e transmite ao fã do grupo um dos principais momentos na longa carreira dos ingleses, que é o último show do vocalista, guitarrista e pianista Roger Hodgson.


Bob Siebenberg, Dougie Thomson, Rick Davies
John Helliwell e Roger Hodgson
Na época, Hodgson havia decidido sair do cenário musical por não aguentar mais o ritmo de turnês e gravações, preferindo viver uma vida isolado com sua família. Porém, soube-se depois que divergências musicais entre ele e Rick Davies, o pianista, vocalista e "Poderoso-Chefão" do Supertramp, levaram Roger a desistir de seguir com a carreira ao lado de Davies, John Helliwell (saxofone, voz, instrumentos de sopro), Bob Sienbenberg (bateria) e Dougie Thomson (baixo), mesmo após o estrondoso sucesso do recém lançado (à época) ... Famous Last Words ..., um dos melhores trabalhos do grupo. 

Durante todo o show, é visível que Davies e Hodgson estão em forte atrito, praticamente sem um olhar para o outro. Mais intrigante é o fato de Hodgson estar fazendo um show a parte, tentando despedir-se do público deixando na retina dos fãs uma imagem positiva de sua pessoa.

Assim, o duelo de egos desses dois monstros do rock, amenizado pela serenidade do trio Helliwell, Siebenberg e Thomson, acompanhados também por Scott Page (guitarras, instrumentos de sopro, percussão, vocais) e Fred Mandel (guitarras, saxofone, vocais), transforma-se em uma das melhores performances já vistas em um DVD, e sim, a melhor performance do Supertramp (superando aquela do também sensacional álbum ao vivo Paris, de 1978).


Roger Hodgson

O DVD começa surpreendendo, após uma breve introdução, com o grupo detonando "Crazy", canção de abertura de ... Famous Last Words ..., e que com Hodgson esganiçando a garganta, já agita os milhares de alemães que lotam o local. Na sequência, Davies comanda "Ain't Nobody But Me", pérola de  Crisis? What Crisis?, e que mesmo com Davies se esforçando, a principal atração vai novamente para Hodgson, que pisoteia o wah-wah com uma gana incomum para as canções leves do Supertramp.

Helliwell assume o posto de "Mestre de Cerimônias", e anuncia a clássica "Breakfast in America", do álbum homônimo de 1979, seguida por "Bloody Well Right" (Crime of the Century, de 1974) e "It's Raining Again", maior sucesso de ... Famous Last Words ..., e que praticamente põe o estádio abaixo com os pulos dos alemães ensandecidos.

Nesse ponto, é interessante ver que o público alemão, além de agitar muito, também é bastante liberal, já que por diversas vezes podemos ver nas imagens mulheres com os seios de fora. Outro fato interessante é que tirando Davies (sempre com a cara amarrada) e Hodgson, os demais membros estão bem à vontade no palco, e o clima em geral é de festa, ou seja, ninguém percebe que é o show de despedida de Hodgson.


Rick Davies

"Put On Your Old Brown Shoes" (... Famous Last Words ...) mantém o clima de festa, enquanto que "Hide in Your Shell" (Crime of the Century) arranca as primeiras lágrimas dos fãs, mesmo com a invasão de diversos convidados para cantar o trecho final da mesma. Ouvir Hodgson cantando essa canção e não lembrar de um momento triste de um relacionamento que você tenha vivido é praticamente impossível, e nesse ponto, o DVD irá atingir você de uma forma diferente.

Emocionado com a belíssima interpretação de "Hide in Your Shell", os fãs acabam levando um choque quando Hodgson vai para o microfone, e com o violão em punhos, anuncia que é o show de despedida dele no Supertramp, agradecendo à todos pelo apoio até então e interpretando "Give a Little Bit" (Even in the Quietest Moments ..., de 1977) e "Dreamer" (Crime of the Century).


Roger Hodgson, durante "Rudy"
A partir de então, o DVD muda de tom, e o clima de festa ganha ar de seriedade, e o Supertramp mostra aos alemães (e ao mundo) o porque de serem até hoje classificados com um grupo de rock progressivo. Primeiro, Davies interpreta a sensacional "Rudy" (Crime of the Century), um pequeno épico de quase oito minutos, com um duelo de vozes entre ele e Hodgson de arrepiar até os cabelos do suvaco, e com Hodgson novamente pisoteando o wah-wah com gana.

Na sequência, a suíte "Fool's Overture" (Even in the Quietest Moments ... ) é apresentada em todos os seus mais de dez minutos de perfeição progressiva, com suas variações de andamento e as complicadas passagens da introdução. É na introdução de "Fool's Overture" que chegamos ao momento mais emocionante do show.

Principal canção da carreira do Supertramp (apesar do sucesso de tantas outras já citadas no texto), "Fool's Overture" serviu como um desabafo do grupo na época de seu lançamento (por isso o título de "Abertura do Tolo"), e muitos até hoje criticam a pomposidade da mesma. O fato é que é uma suíte linda, e os acordes iniciais, levados apenas pelo teclado de Hodgson, tomam conta de mais de dois minutos da canção.

É óbvio que sendo esse o último show de Hodgson, ele tocando durante dois minutos sozinho no palco, irá sentir emocionado, e com a entrada do belíssimo solo de saxofone após a introdução, Hodgson não se segura, e chora copiosamente no palco, tentando enxugar as lágrimas com a mão esquerda enquanto executa os acordes da canção.

Cantar essa pérola se torna difícil com tamanha dose de emoção, mas Hodgson se sobressai novamente, e conclui "Fool's Overture" soberanamente, deixando todos no estádio (e no sofá) embasbacados com a performance.


John Helliwell
O show encerra-se, mas com o pedido de mais um, o grupo volta para interpretar mais dois clássicos de Crime of the Century: "School" e a própria faixa-título", encerrando o DVD com uma bonita montagem em cima da capa do mesmo, enquanto Helliwell executa o solo final da canção.

Não há extras, encarte ou outro mimo ao fã (pelo menos na versão da gravadora The Max Entertainment), assim como o som não é 5.1 Surround e a imagem é sem riqueza de pixeis ou algo assim, sendo bastante fiel a imagem do VHS de 1983, mas nada disso se faz necessário. As quase duas horas de apresentação do Supertramp são suficientes para você ter uma noite inesquecível.
PS: Veja o DVD ao lado da companheira, será garantia de uma noite mais inesquecível ainda!

Track list

1. Intro
2. Crazy
3. Ain't Nobody But Me
4. Breakfast in America
5. Bloody Well Right
6. It's Raining Again
7. Put On Your Old Brown Shoes
8. Hide in Your Shell
9. Waiting So Long
10. Give a Little Bit
11. From Now On
12. The Logical Song
13. Goodbye Stranger
14. Dreamer
15. Rudy
16. Fool's Overture
17. School
18. Crime of the Century

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Shows inesquecíveis: Paul Di'Anno (Porto Alegre, 18/11/2007)




Apesar da chuva forte que caiu durante todo um fim de semana em Porto Alegre, e da fraquíssima divulgação que teve, o show de Paul Di'Anno na capital gaúcha foi um dos momentos mais inesquecíveis na minha vida diante de palcos.

Lembro de tudo com precisão de detalhes que talvez não venham ao caso, mas alguns detalhes preciso narrar por aqui. Paul e banda chegaram à cidade por volta de 18h (duas horas antes do horário marcado para o show), no mesmo horário que a chuva parou. Eles vieram de van, direto de Curitiba.


Quando cheguei no local de show, o bar Manara, vários fãs já estavam aglomerados, a maioria na faixa dos 30 e poucos. Claro... O comentário maior entre a gurizada era sobre o show do Iron que iria ocorrer em março de 2008, e que eu já tratei dele aqui no blog


Passado das 20h, a fila já dobrava o quarteirão e nada das portas do bar se abrirem. Somente às 21h pudemos entrar no local. Tradicional ponto de encontro de bandas de pagode, o local caiu como uma luva para o show de Di'Anno. Palco pequeno, lugar apertado e uma acústica realmente de "boteco" fizeram com que, segundo o próprio Paul, relembrassem os primeiros anos de sua carreira ao lado de Harris e cia.



Di'Anno no Manara

Às 21:30, a banda local Ghaya subiu ao palco para animar o público. Muito inspirados em Viper, Angra e Shaman, o grupo mostrou um bom repertório. O destaque ficou por conta do cover de "Painkiller", entoado em uníssono por todos no bar.


Após quatro músicas, a Ghaya deixa o palco, e segui-se uma longa espera até o grande show da noite. A expectativa era grande, principalmente em relação ao repertório. "Será que rola um Charlotte The Harlot?", "Tem que rolar 'Prowler'", "Se rolar qualquer uma do Killers pra mim está bom" foram alguns dos comentários que lembro de ter ouvido na fila. 


O forte calor e a ansiedade eram amenizados com dois grandes ventiladores e muito R'N'R advindo das caixas de som espalhadas pelo local. Led Zeppelin, AC/DC, Motorhead, Rainbow, Kiss, Ozzy Osbourne, Deep Purple, entre outros clássicos podiam ser ouvidos.



"Remember Tomorrow"

Às 23:15 (três horas e quinze minutos de atraso) a banda de apoio subiu ao palco. Logo de cara detonam "Idles Of March". Paul subiu mancando muito com um problema no joelho esquerdo, mas em ótima forma vocal, já entoando as primeiras estrofes de "Wratchild". Na sequência veio "Prowler", uma das mais vibradas da noite. Após se apresentar ao público e cumprimentar a todos, duas surpresas: "Marshal Lokjaw" e "Murders In The Rue Morgue". O público estava enlouquecido. Essas pérolas do Killers não estavam na esperança de ninguém no bar.

Seguiram "The Beast Arises" (em homenagem a "My ex-wife, una putarana!!!") e "Children Of Madness", as quais acalmaram um pouco o ânimo do público. A paulada voltou com "Remember Tomorrow", causando emoção em muita gente! Paul mostrou estar em excelente forma vocal, porém fisicamente não conseguiu agitar tanto quanto nos velhos tempos. Mas isso é o de menos. Ver os berros acompanhados pela guitarra é algo indescritível. Fantástico é pouco! "Faith Healer" e "A Song For You" abriram espaço para os clássicos "Killers" (em homenagem "Ao maior assassino de todos os tempos, George Bush"), "Phantom Of The Opera" e "Running Free", todas cantadas do início ao fim pelas cerca de 600 pessoas que lotaram o bar.


Ingresso do show

Após um intervalo de quinze minutos, a competentíssima banda de apoio voltou aos gritos de "Di'Anno, Di'Anno" entoando "Transylvania". Destaque para o excelente Marlon Morlan nas guitarras. Incrível ver como uma instrumental torna-se uma música com vocal. Todos os solos foram cantados juntos pela galera. Arrepiante!!!!!


Paul subiu ao palco mais uma vez, e surpreendeu novamente, agora com "Blietzkrieg Bop" dos Ramones. "Sanctuary" encerrou a noite de forma totalmente satisfatória.


Após o show, Paul recebeu a imprensa especializada e alguns fãs. Obviamente fui conversar com ele. De muito bom humor, mas sentindo muito a lesão no joelho, o cantor me recebeu acompanhado de pizzas, frutas e muita água (ok.. era vodka, mas em garrafa de água).


Eu (ainda com cabelos) e Paul. O tempo passa ...
Com muitas risadas e uma incrível simpatia, Paul disse que está satisfeito com o atual momento de sua carreira. Apesar de fazer o show praticamente com músicas do Iron, sabe da importância que tem na história do heavy metal e se sente muito feliz em ver jovens e adultos cantando suas músicas.

Perguntei a ele o que achou do show, do público e da cidade. Ele disse que adorou, espera voltar mais vezes e pediu muitas desculpas por não conseguir agitar mais. Estava muito cansado da viagem de dezoito horas de Londrina para Porto Alegre. 



Eu e a banda de apoio de Di'Anno
Desculpar o que Paul? O show foi inesquecível! 

Deixo as palavras do guitarrista Marlon quando perguntei a ele sobre a sensação de estar tocando ao lado de um dos ícones da música. "Cara, é incrível quando algo que você sonha torna-se real. Achava que o máximo que veria Paul era em um DVD. E agora estou aqui, tocando com ele. Não tenho nada mais a dizer. Inesquecível!"


Set list


1. Idles of March

2. Wratchild
3. Prowler
4. Marshal Lokjaw
5. Murders in the Rue Morgue
6. The Beast Arises
7. Children of Madness
8. Remember Tomorrow
9. Impaler
10. Faith Healer
11. A Song for You
12. Killers

Bis


13. Phantom of the Opera

14. Running Free

sábado, 6 de outubro de 2012

40 anos de Foxtrot




Quando o vocalista Peter Gabriel subiu no palco do Marquee Club em Londres, na noite do dia 19 de setembro de 1972, vestindo uma fantasia de morcego sob um conjunto sombrio de luzes, bradando os versos de "Watcher of the Skies", o rock progressivo migrava para uma nova dimensão.

Até então, o rock progressivo era uma ampliação do psicodelismo londrino do final da década de 60, enaltecido em 1967 por álbuns de bandas como Pink Floyd (que veio depois a se tornar um dos principais nomes do estilo), com The Piper at the Gates of Dawn, Beatles e Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, Rolling Stones e Their Satanic Majesties Request, Yardbirds e Little Games, e muitos outros grupos de menor escalão, mas também essenciais para a psicodelia londrina.

Genesis e amigos, destacando Gabriel, no centro,
com a fantasia da raposa.
A cena de Canterbury também fervilhava ideias em 1972, e claro, o lançamento naquele mês de Close to the Edge mostrou ao mundo que o rock progressivo estava ganhando espaço não só como um estilo musical, mas também como uma referência de vida.

Até que Gabriel pisou no palco do Marquee, mostrou a fantasia de morcego ao mundo e praticamente anunciou: o rock progressivo não é composto também de longas canções e letras difíceis, mas também de teatralidade, espetáculo e encenação. A data de 19 de setembro abriu a primeira parte da turnê do quarto álbum do grupo britânico Genesis, que possuía Gabriel nos vocais, e que foi lançado há exatos quarenta anos. O nome do LP: Foxtrot.

Tido por muitos como um dos melhores álbuns da história do progressivo, ele foi gravado nos estúdios da Island em Londres, pela principal formação do Genesis, com Gabriel (voz, flauta, percussão), Steve Hackett (guitarras, violões), Tony Banks (teclados, violões), Mike Rutherfor (baixo, guitarras, violões) e Phil Collins (bateria, percussão, vocais), e é uma verdadeira aula para os iniciantes do rock progressivo.


Phil Collins, Steve Hackett, Mike Rutherford,
Peter Gabriel (e a fantasia de homem-morcego) e Tony Banks

O álbum abre com a já citada "Watcher of the Skies", e uma das introduções mais famosas da história do rock, feita pelos acordes do mellotron de Banks, seguindo com sua complicada marcação no baixo, as variações de andamento do órgão e a guitarra de Hackett soando como uma navalha dentro das caixas de som. 


A bonita balada "Time Table" mostra todo o talento de Banks no piano, enquanto "Get'em out By Friday" destaca Gabriel na flauta, fazendo um solo magnífico, e mais um belíssimo arranjo musical feito pelo quinteto, alternando momentos agitados com outros de pura leveza. "Can-Utility and the Coastliners" vem na sequência, encerrando o lado A sendo a mais próxima do que o grupo havia gravado até então, com passagens acústicas dos violões, flautas e uma estonteante sessão instrumental destacando o mellotron, que intercala acordes assustadores sobre a levada dos violões de Rutherford e Hackett, e Collins demolindo sua bateria. 

O lado B abre com a peça clássica "Horizons", a rival de "Mood for a Day", composta por Steve Howe para o Yes, e que aqui apresenta somente Hackett fazendo um emocionante e ao mesmo tempo intrincado solo no violão, abrindo espaço para a longa suíte "Supper's Ready".


O Homem-flor

Essa maravilha prog passou a ser a canção de encerramento dos shows do Genesis a partir de então, e sem sombra de dúvidas, está no Top 10 das mais importantes suítes do rock progressivo. Suas sete divisões ("Lover's Leap", "The Guaranteed Eternal Sanctuary Man", "Ikhnaton and Itsacon and Their Band of Merry Men", "How Dare I Be So Beautiful?". "Willow Farm", "Apocalypse in 9/8 (Co-Starring the Delicious Talents of Gabble Ratchet)" e "As Sure As Eggs Is Eggs (Aching Men's Feet)") encaixam-se com tamanha perfeição que após seus quase vinte e quatro minutos, o ouvinte sente a sensação de ter passado por uma sessão de massagem no cérebro, tamanha a beleza, complexidade e genialidade dessa obra.

Apenas cinco canções, que foram levadas aos palcos londrinos e europeu entre 1972 e 1973, sendo registradas no ótimo, mas não representativo (perto da grandiosidade da turnê) Live (1973).

Depois de Foxtrot, os grupos de rock progressivo passaram a tratar suas turnês não somente como a apresentação de canções para os fãs, mas também acharam métodos de explicar para os mesmos o que estava sendo expresso nos sulcos dos vinis. 


Capa e contra-capa de Foxtrot

Claro, o Jethro Tull já vinha fazendo algo parecido durante a turnê de Thick as a Brick, mas para a história do rock progressivo, sem Foxtrot jamais teríamos tido a oportunidade de conhecer o homem-morcego, a raposa, o homem-flor ou o falso profeta, ou ainda o velhinho-fantasma de "The Musical Box" ou o Rael mutante de "The Colony of Slippermen", mas principalmente, não teríamos o privilégio de obras como Selling England by the Pound (1973) e The Lamb Lies Down on Broadway (1974), ambas lançadas pelo Genesis, calcadas nos pilares progressivos expressos através de Foxtrot.

Se não é o melhor álbum do grupo, é o primeiro ponto de sela na carreira do mesmo. Depois dele, veio o auge do sucesso do Genesis, para aí surgir um novo ponto de sela, em 1975, com a saída de Gabriel. Mas isso é assunto para outra hora. 

Track list

1. Watcher of the Skies
2. Time Table
3. Get'em Out By Friday
4. Can-Utility and the Coastliners
5. Horizons
6. Supper's Ready

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