segunda-feira, 18 de março de 2013

Antonio Adolfo e A Brazuca




Hoje, venho resgatar a obra de um dos grandes músicos do nosso Brasil Varonil, que em apenas dois álbuns, marcou época no final da década de 60 e início da década de 70, ao lado de uma banda competente e também marcante. Trata-se do pianista Antonio Adolfo, que com o grupo A Brazuca, registrou os álbuns Antônio Adolfo e a Brazuca (1969) e Antonio Adolfo e a Brazuca (1970).

Tibério Gaspar e Antonio Adolfo
O carioca do bairro de Santa Teresa Antonio Adolfo nasceu em 10 de fevereiro de 1947, filho de um violonista da Orquestra do Teatro Municipal começou a carreira muito cedo, incentivado por seu pai, e aos dezesseis anos, já fazia parte do clube da bossa-nova Samba a Cinco, com o qual era assíduo músico no famoso bar Beco das Garrafas.

Ainda aos dezesseis anos, fundou o Trio 3-D, com o qual lançou seu primeiro álbum, Tema 3-D, em 1964. Na companhia do pianista, estão Cacho Pomar (baixo e vocal) e Dom Um Romão (bateria), além das participalções especiais de Nelson Serra de Castro (bateria), Claudio Roditi (trompete) e Arisio Rabin (violão). O que ouvimos é uma mistura de jazz com o som brasileiro no melhor estilo da bossa-nova carioca, destacando as brilhantes versões para "Consolação", "Garota de Ipanema", "Samba de Uma Nota Só", "Berimbau", entre outras.

No ano seguinte, o Trio 3-D lançou O Trio 3-D Convida, agora tendo a participação de Carlinhos Monjardim (baixo), Nelson Serra (bateria), Paulo Moura (sax alto), Raul de Souza (trombone de piston), Edson Maciel (trombone de vara), J.T. Meirelles (sax tenor) e Jorginho (sax alto), além da participação de Eumir Deodato nos arranjos para metais. Os destaques ficam por conta destes arranjos em canções como "Reza", "Minha Namorada", "Tema 3-D" e "Peter Samba", além de Serra destruindo com solos rápidos em "Nega Dina", A bossa-nova aproxima-se ainda mais do jazz, com solos individuais para saxofone, trompete e trombone que são verdadeiras pérolas na música nacional.

A genialidade de Antonio Adolfo desponta, e em 1967, o Trio 3-D, sob o pseudônimo de Conjunto 3-D, grava Muito na Onda, com Manuel Gusmão (baixo), Nelson Serra de Castro (bateria), Helio Delmiro (guitarra), Eduardo Conde (vocal) e a jovem, com apenas vinte anos, Beth Carvalho nos vocais. O grupo volta-se para o exterior, passeando pela música francesa ("Un Homme Et Une Femme"), americana ("See You In September", "When the Saints Go Marching In" e "Watermelon Man", além de clássicos nacionais como "É Preciso Cantar", "Noite dos Mascarados" e "Sonho de Lugar".

Ainda com o Trio 3-D, Antonio Adolfo participou da peça musical Pobre Menina Rica, criada por Carlos Lyra e Vinícius de Moraes, e foi a partir dela que alcançou o status como um dos principais pianistas da noite musical carioca. A partir de 1967, em parceria com o letrista Tibério Gaspar, Adolfo se transformou também em um reconhecido compositor, começando a produzir seus primeiros sucessos individuais. É aqui que nasce o grupo Brazuca, o qual revolucionou a música nacional instaurando eletrônica e técnicas nas composições sutis do pop brasileiro do final da década de 60.


O grupo defendendo "Juliana", com Maia e Adolfo no centro

Passam a participar de festivais como acompanhantes e também como artistas principais. Em 1968, fazem sucesso no Festival Nacional da Canção com "Sá Marina", e no ano seguinte, a primeira parceria com Gaspar, conquista espaço com "Juliana", vice-campeã da quarta edição do Festival Internacional da Canção.


A estreia da Brazuca

O segundo lugar garantiu um contrato com a gravadora EMI, e assim, A Brazuca lançou seu primeiro disco, auto-intitulado. O grupo era formado por Antonio Adolfo (piano, arranjos), Luizão Maia e Alex Malheiros (baixo), Victor Manga (bateria), Luiz Cladio Ramos (guitarra), Julie (vocal) e Bimba (vocal). Antonio Adolfo e A Brazuca abre com "Juliana", destacando o naipe de metais entoando o riff inicial e a participação mais que fundamental do piano elétrico de Adolfo, além da bela voz de Julie.

"Futilirama" é mais animada, também com um ótimo arranjo de metais e um acompanhamento marcado de Victor Manga, em um estilo que influenciou muitos nomes durante a década de 70, como o pessoal do Clube da Esquina, Erasmo Carlos e Gal Costa, enquanto "Moça" resgata o lado mais simples da bossa-nova carioca, sempre com o piano elétrico fazendo as honras da casa. Nesse ponto, já percebemos também um importante arranjo vocal que revela-se entre as canções da Brazuca.

Adolfo mostra seus dotes ao piano na bela passagem inicial de "Dois tempos", um jazz americano regado pela flauta e pela harmonia de Victor Manga, enquanto "Vôo de Apolo" é uma incursão ao psicodelismo nacional da década de 60, em uma das melhores letras do álbum, e com viajantes passagens de guitarra, bateria e das cordas, além de um solo fantástico de piano elétrico.

O lado A encerra-se com "Porque hoje é domingo", uma agitada canção com muitos metais, voltando à brasilidade destacada em "Futilirama", contando as histórias que acontecem nos domingos cariocas.

"Maria Aparecida" abre o lado B com um ritmo marcado, parecido com o que Gil e Caetano fizeram em canções do álbum Tropicália ou Panis Et Circensis (1968), assim como "Psiu", outra bem no estilo Tropicália de ser. Gosto muito da introdução com flautas de "A cidade e Eu", apesar da canção não ser tão bela quanto sua introdução.

O álbum encerra-se com duas balada: "Pelas Ruas do Meu Bairro", tendo um maravilhoso crescendo de cordas no seu final; e "Teletema", uma singela peça musical tipicamente Jovem Guarda.


Contra-capa do primeiro LP da Brazuca

Na contra-capa do vinil, depoimentos de nomes como Roberto Carlos, Carlos Imperial, Chico Anísio, entre outros, destacam a surpresa e a beleza das canções da Brazuca: "A primeira vez que ouvi falar em 'Brazuca', pensei tratar-se de uma nova aguardente oriunda do bairro italiano de São Paulo (Brás Uca). Porém, após ouvir este álbum, vou colocar no meu dicionário: Brazuca - palavra de língua portuguesa, sinônimo de inteligente, avançado e de muito bom gosto." (Carlos Imperial).

"Uma das grandes preocupações da música no mundo inteiro, é de progredir, sem se afastar do povo. Nunca permanecer ao mesmo lugar, nunca repetir as mesmas ideias, nunca repetir o mesmo som. Eu prefiro uma música antiga com um som novo, do que uma música nova com um som antigo. Fico feliz em ver que a 'Brazuca' pensa como eu". (Roberto Carlos).

Obviamente, com o apoio desses gigantes, a Brazuca ganhou destaque, e em 1969, Antonio Adolfo e sua turma foram convidados para acompanhar a cantora Maysa. O resultado final ficou com Adolfo sendo responsável por boa parte dos arranjos de Maysa (1969), além de ver quatro de suas canções gravadas pela cantora no mesmo álbum.


Tibério Gaspar, Tony Tornado e Antonio Adolfo

No ano seguinte, Adolfo conquista a fase nacional do V Festival Internacional da Canção, com a canção "BR-3", composta em parceria com Tibério Gaspar, e interpretada por Tony Tornado e Trio Ternura, uma balada soul no melhor estilo Sam Cooke. A canção causou polêmica principalmente pelas frases: "E a gente corre na BR-3, e a gente morre na BR-3", mas o vozeirão de Tony Tornado ficou eternizado para a posteridade, dois anos antes do famigerado acidente no Festival de Verão de Guarapari, em 1971, no qual o cantor se atirou de cima do palco e caiu por cima da jovem Maria da Graça Capôs, a qual foi hospitalizada e ficou paralítica. A moça entrou diretamente na justiça contra o vocalista. Tornado chegou a ser preso, sendo liberado após pagamento de fiança. Inclusive o animador Silvio Santos ajudou Tony a pagar sua dívida, mas o acontecido em Guarapari acabou com a carreira artística de um dos maiores cantores que o Brasil já teve.



Ainda em 1970, o grupo lançou um compacto duplo, com as canções "Glória, Glorinha", "O Bailde do Clube", "Ao Redor" e "M. G. 8-80-88". Nesse mesmo ano, na noite de 13 de agosto de 1970, ocorreu um acontecimento que acabou marcando a carreira de Antonio Adolfo. Prestes a começar as gravações de seu segundo disco com a Brazuca, ele soube da morte do amigo baterista Victor Manga, em um grave acidente automobilístico.

Victor, carioca nascido em 23 de julho de 1939, havia começado sua carreira profissional nos anos 60, ao lado de Antonio Adolfo, com o qual fez vários shows no Beco das Garrafas. Em 1965, ao lado de Dom Salvador (piano) e Edson Lobo (baixo), fez parte do Salvador Trio, um ótimo grupo de jazz-samba com o qual gravou o belo Salvador Trio no mesmo ano.

Entre 1968 e 1969, integrou o conjunto A Turma da Pilantragem, da onde foi chamado por Antonio Adolfo para integrar a Brazuca. Um dos principais bateristas da música nacional, Victor faleceu em um terrível acidente, que acabou chocando aos seus colegas, mas principalmente Antonio Adolfo, que acabou compondo uma das maiores obras-primas que a música nacional já pariu.


Segundo LP do grupo, contendo o "Tributo a Victor Manga"

Ela foi registrada no segundo LP do grupo, também intitulado Antonio Adolfo e A Brazuca. Sem Victor Manga, A Brazuca sofre uma reformulação, tendo Adolfo, Luiz Claudio Ramos (guitarra), Luizão Maia (baixo), Paulo Braga (batera), Bimba (vocais) e Luiz Keller (vocais). O disco em si é muito mais trabalhado musicalmente, principalmente na parte vocal, e é considerado por especialistas como um dos principais álbuns da música popular brasileira.

O álbum abre com duas baladas: "Panorama", que surge lentamente com a percussão, violão e o piano elétrico entoando um belo tema. A voz de Keller é bem diferente da de Julie, tornando o som da Brazuca mais "abrasileirado" em comparação ao som soul que tínhamos no primeiro álbum; e "Claudia", com Bimba e Keller dividindo os vocais de uma canção tipicamente Bossa Nova.

Chegamos então ao emocionante "Tributo a Victor Manga". Diferente das duas canções anteriores, ela surge apenas com o tema do piano elétrico e uma marcação no prato. Melancólicamente, Keller passa a declamar um poema, enquanto Bimba e a guitarra repetem o tema do piano elétrico. A bateria passa a fazer um leve ritmo, e o poema de Keller nos apresenta a ausência de Manga:

"Agora
mais um instante
ainda perto a hora
Por aqui e por ali
No areal, no deserto, no Padre Nosso
No nosso dia, na rodovia, a velocidade
Todavia no rosto o riso, a saudade
No novo som, no mesmo tom, em qualquer solo
no sustenido, no bemol
Por aqui e por ali."


Revista Manchete de 1970:
A Brazuca já com Paulo Braga
no lugar de Victor Manga
Basta ele largar o "Vocêêêêê" inicial e os arrepios começam a correr pelo corpo. Em um ritmo dançante, Keller conta a história do acidente que o amigo sofreu como se estivesse de frente para ele. As palavras emocionam: 

"No LP
Imagem de VT, sempre você em tudo que se vê
Sempre 
Você, você
Ô Victor!!!
O sol te estilha sobre o eixo da manhã
Anoiteceu
Você partiu, se repartiu e viajou, e viajou"

E continua a chorar para o amigo, que está morto no asfalto, repartido após o acidente, com gritos dilacerantes  enquanto a bateria comanda o ritmo dançante ao fundo, e Bimba não para de repetir o tema central:

"Oh Victor!
Um passaro ferido que não voa mais
Um barco que perdido não retorna ao cais
Um cosmonauta solto em pleno espaço grita
Paz!
E eu grito, eu grito!
Ô Victor
A vida continua nua como você viu
O mesmo ponto de partida onde você partiu
E agora só a sombra em tudo que ficou
você viveu, amou, sofreu, tocou"

Aqui, o baterista Paulo Braga dá um show de interpretação, homenageando Manga com diversos rolos e rufadas no melhor estilo que o homenageado costumava tocar, acompanhado apenas pela marcação do piano elétrico de Adolfo. 

O Tributo encerra-se com a repetição do tema inicial pela guitarra, vocalizações e piano elétrico, e Adolfo vendo o amigo dividido em dois pedaços, com Keller gritando muito, quase chorando, com dor:

"Você!
Por aqui e por ali
Ao meio, em dois
E depois, sempre, sempre, sempre!.
Oh bicho!
Você se foi,
Amigo!
Você se foi,
Não sei se digo oi,
Ou se digo adeus."

Encerrando com uma forte batida nos pratos. Sem sombra de dúvidas, uma das mais emocionantes interpretações vocais já registradas nos discos brasileiros, que rendeu (e ainda rende) muitas lágrimas para os que ouvem a canção. Erroneamente, alguns acreditam que se trata de Tony Tornado nos vocais, mas conforme citado anteriormente, Tornado e sua relação com Adolfo está apenas na interpretação da clássica "BR-3".

O disco continua com a leve "Pela Cidade", tendo os vocais divididos entre Bimba e Keller, destacando a guitarra psicodélica de Ramos, enquanto "Grilopus nº 1 (1ª Parte)" é uma rápida passagem de piano elétrico, antecipando "Que se dane", ótima faixa, nos moldes do Mutantes tropicalista e com Keller soltando seu vozeirão, encerrando o Lado A em alto astral.
Contra-capa do segundo LP da Brazuca

O lado B abre com "Atenção! Atenção!", uma veloz canção interpretada por Keller e recheada de vocalizações de Bimba e Adolfo, além de um psicodélico solo feito por Ramos. "Cotidiano" retorna ao clima bossa-nova, tendo Bimba no melhor estilo Nara Leão.

Já "Tranzamazônica" é uma bela amostra da qualidade musical de Adolfo, com um ritmo nordestino embalado pela bateria e guitarra, e com o pianista fazendo misérias no tema central da canção, além de um espetáculo a parte das vocalizações e das interpretações de Keller e Bimba e a presença de efeitos que imitam pássaros na floresta.

"Cortando caminho" mantém a linha de boas composições do Lado B, destacando aqui o baixo de Luizão Maia, e a vinheta "Grilopus nº 1 (2ª Parte)" é uma insana gritaria acompanhada por percussão, abrindo espaço para "Caminhada" encerrar o LP no melhor estilo nordestino, com percussão e vocalizações sendo o centro das atenções.


A Brazuca: Luizão Maia, Bimba, Luiz Keller e Tibério Gaspar (em pé);
Luiz Claudio Ramos, Antonio Adolfo e Victor Manga (sentados)

Após o lançamento do segundo LP, Antonio Adolfo e Luizão Maia passaram a integrar a banda de Elis Regina, acompanhando a gauchinha na sua primeira turnê pela Europa, no inicio dos anos 70. Maia seguiu com Elis, enquanto Adolfo foi para os Estados Unidos, aonde aprendeu ainda mais sobre jazz.


Vital Lima, Carmelia Alves e Antonio-Adolfo

Em 1977, voltou para nosso país, lançado o primeiro disco independente da história da música nacional, Feito Em Casa, pelo selo criado por ele mesmo, o Artezanal. Neste selo, gravou muito material próprio, e também revisões para a obra de Ernesto Nazareth e Chiquinha Gonzaga.

Oito anos depois, fundou o Centro Musical Antonio Adolfo, participando a partir de então em eventos internacionais, seja como músico, seja como educador, e claro, fazendo sua carreira solo, pela qual recebeu dois Prêmios Sharp (pelos álbuns Antonio Adolfo, de 1995, e Chiquinha com Jazz, de 1997). Além disso, publicou sete livros de material didático para piano, dois livros sobre a música brasileira no exterior e um DVD com video-aula para piano.

Adolfo continua na ativa, apresentando-se e gravando material. Em sua discografia, constam vinte e quatro álbuns de um dos maiores músicos que nosso Brasil tem, e que felizmente, está vivo para contar sua história, apesar de poucos terem conhecimento de sua arte.

3 comentários:

  1. Que beleza de texto. Jamais encontrei na web tanta informação sobre A Brazuca como aqui. É impressionante como, na internet, a quantidade não significa qualidade, um músico e uma banda dessa importância são completamente ignorados. Menos aqui, onde achei preciosos dados sobre eles e comentários interessantes sobre os discos. Inclusive sobre Victor Manga e seu belíssimo tributo. Parabéns. Abç.

    ResponderExcluir
  2. Obrigado Beto. Bem vindo ao blog, e estamos aqui par ao que precisar. Abraços

    ResponderExcluir
  3. Na penúltima foto, não é Victor Manga sentado.
    Ele nao morreu num acidente de automóvel. Faleceu dormindo.

    ResponderExcluir

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...