sábado, 3 de maio de 2014

Fábrica de Discos Rozenblit


Há algum tempo, meu querido colega de Consultoria do Rock, e um dos meus ídolos atuais nos teclados, Ronaldo Rodrigues, vem nos brindando com a belíssima série Selos Lendários, que abrangeu alguns (se não todos) dos principais selos da música, como Vertigo, Chrysalis, Atlantic e outros tantos, totalizando onze matérias ao todo. 

Com a devida autorização de Ronaldo, resolvi complementar sua incrível pesquisa dos selos, e assim, hoje e no mês que vêm irei apresentar dois selos extremamente lendários, com os quais eu tenho particular interesse tanto da parte musical quanto por sua história. Estou falando do alemão ECM Records e dos selos ligados à Fábrica de Discos Rozenblit.

Hoje, falarei sobre os selos cujos discos saíram pela Fábrica Rozenblit, com destaque para o Mocambo e o Solar, e que entrou para a história do rock de forma muito inusitada, como veremos a seguir, mas que para muitos não passa de um mito imaginativo para cobrir a verdade.

Fred Figner

Para entender as origens da Rozenblit, voltamos no tempo, mais precisamente quando o tcheco Fred Figner saí de sua cidade Natal, Milewko, e vai para os Estados Unidos, em busca de trabalho, em meados do século XIX. Nessa mesma época, Thomas Edison criava um aparelho que registrava vozes e sons em um cilindro giratório, que estava fascinando os americanos. O jovem Figner foi um dos que ficaram fascinados com a invenção, e tendo um cilindro gravado, e dezenas de cilindros prontos para serem gravados, partiu da América para o Brasil, desembarcando em Belém no ano de 1891.

De Belém, Figner passou a viajar por diversas cidades, apresentando a incrível invenção de Edison, até fixar-se no Rio de Janeiro, onde passou a importar cilindros, e vender os mesmos na primeira loja de discos do país, a Casa Edison, localizada na Rua Uruguaiana. Quando Figner chegou ao Rio, Emile Berliner havia aperfeiçoado o cilindro de Edison, envolvendo-o com cera. Este novo cilindro era mais fácil de manipular, e com ele, em 1900, Figner abriu o primeiro estúdio de gravação do país, instalado na nova sede da Loja Edison, na famosa Rua do Ouvidor (Coração do Rio de Janeiro). 


Loja Edison na Rua do Ouvidor

A simplicidade dos discos de Figner assusta até hoje pela sua forma rude, mas capaz de reproduzir sons. Feitos de cera de carnaúba, os discos eram tocados em vitrolas importadas, movidas a manivela, e só podiam registrar sons em uma das faces. Desta maneira totalmente amadora, mas revolucionária, nasceu o primeiro disco nacional, trazendo o cantor Manuel Pedro dos Santos, o Bahiano, cantando a canção "Isto é Bom". A bolacha foi lançada em 1902, e nem é necessário comentar seu valor nos dias de hoje. 

Depois de "Isto é Bom", vários artistas passaram a buscar a Loja Edison para registrar seu material, e dar um jeito de ganhar um $ extra, pois os músicos só conseguiam arrecadar finanças nas apresentações nos teatros e saraus da cidade. Figner abriu uma filial da Loja Edison em São Paulo. Em 1913, com o grande número de artistas gravando na loja, Figner resolveu fundar o primeiro selo da indústria fonográfica nacional, o Odeon, localizado no bairro da Tijuca, Rio de Janeiro. 


O primeiro disco lançado no mercado nacional

Durante onze anos a Odeon foi o principal selo do país, registrando discos de artistas como Aracy Cortes, Vitor Dumas, Xisto Bahia, entre outros. Depois, veio a RCA Victor, que junto da Columbia e da Odeon, dominaram o mercado fonográfico brasileiro entre 1920 e 1960, período no qual o número de fábricas o país saltou das três citadas para cento e cinquenta. 

Dentre todas as gravadoras, apenas uma estava localizada fora do eixo sul-sudeste, a hoje Lendária Rozenblit. Por exatos 30 anos, a Fábrica pernambucana foi responsável por divulgar artistas nordestinos, sendo a mesma localizada na Estrada dos Remédios, entre o Largo da Paz e a Abdias de Carvalho, na capital Recife, no sugestivo (depois veremos por que) bairro de Afogados, onde hoje funciona uma revendedora de carros. 


José Rozenblit

O responsável pela criação da fábrica foi José Rozenblit, um pequeno comerciante local, que possuía uma loja no centro de Recife, a Bom Gosto, vendendo desde móveis até eletrodomésticos em geral. A loja Bom Gosto também oferecia algo diferente, vendendo exclusivamente discos da Mercury, e permitindo ao cliente ouvir os discos, oportunidade esta feita em seis cabinas distribuídas pela loja (algo comum nas lojas de antigamente, mas que hoje praticamente inexiste em nosso país) e também gravar compactos.

Um nome importante a registrar sua voz na loja de Rozenblit foi o presidente Getúlio Vargas. Durante a campanha presidencial de 1950, o gaúcho de São Borja foi a Recife realizar uma série de comícios, mas acabou apanhando uma forte gripe que o impedia de viajar. A solução encontrada para divulgar as ideias de Getúlio foi levar sua comitiva para a loja, e lá, gravar discursos que preencheram 160 bolachas de acetato, as quais foram enviadas para emissoras e difusoras de rádio da capital e do interior pernambucano.


A Fábrica de Discos Rozenblit, com o Rio Capibaribe ao fundo
Não tardou portanto para que Rozenblit virasse nome de referência no nordeste, com músicos da Bahia, Ceará, Piauí e Paraíba indo gravar em sua loja. As bolachas eram prensadas no Rio de Janeiro, em 78 rpm, mas Rozenblit teve a ambiciosa ideia de criar sua própria fábrica. Assim, conseguiu uma parceria com seus irmãos, Isaac e Adolfo, e no dia 11 de junho de 1954, fundou a Fábrica de Discos Rozenblit. 

O mais impressionante da Rozenblit era sua estrutura, a maior do país, capaz de abrigar uma orquestra sinfônica inteira, e ao mesmo tempo, gravar, produzir e comercializar discos em alta escala, nos moldes dos padrões internacionais. Além disso, as capas das bolachas também era todas feitas na própria fábrica, empregando dezenas de funcionários da região.


Registro da Fábrica de Discos Rozenblit (acima);
A famosa casinha do selo Mocambo (abaixo)
O primeiro selo fundado pela Rozenblit foi o Mocambo, um dos pioneiros na divulgação do frevo e de ritmos tradicionais nordestinos, como coco, maracatu, baião e xote. 
O Mocambo bateu de frente com a RCA-Victor, que distribuía até então os discos de frevo e de artistas regionais, e foi responsável pelo estourou do carnaval nordestino. Inicialmente, a ideia era de distribuir anualmente 400 mil discos de 78 rpm, algo que foi atingido e mantido durante um bom tempo, até que os pedidos aumentaram bastante. 



Lado A e Lado B do primeiro compacto lançado pelo Mocambo

O primeiro laçamento do selo foi a bolacha "Come e Dorme" (Lado A) e "Boneca" (Lado B), gravadas por Nelson Ferreira e Claudionor Germano respectivamente, acompanhados pela orquestra Jazz PRA-8. Claudionor Germano foi o principal artista do selo no início do mesmo, seguido por Expedito Baracha, Eladir Porto, Alda Perdigão e Capiba, e com a poderosa mão orquestral de Nelson Ferreira.

Entre 1956 e 1970, o selo Mocambo fez crescer no Brasil o frevo, tanto que o disco de frevo mais vendido no Brasil é exatamente do selo, no caso Capiba 25 Anos de Frevo, do próprio Claudionor Germano. A Rozenblit também gravou vozes de escritores pernambucanos, como Gilberto Freyre, Ascenso Ferreira e Mauro Mota, declamando suas obras.



Sucessos do Mocambo

Pelo selo, o frevo difundiu-se pelo país. Grandes sucessos do estilo saíram pelo Mocambo, como Matias da Rocha, Joana Batista e o frevo de bloco "Evocação", o maior lançamento da Mocambo, gravado com direção de Nelson Ferreira (o grande nome por trás das canções do selo) para a orquestra e coral do Bloco Carnavalesco Batutas de São José. Essa bolacha vendeu mais de duzentas mil cópias em todo o Brasil, e fez da canção uma marcha obrigatória nos bailes de carnaval de nosso país.

Calcula-se que entre 1959 e 1966, a Fábrica de Discos Rozenblit deteve 22% do mercado nacional, e mais de 50% do mercado regional.





Alguns dos lançamentos internacionais da Rozenblit

A Fábrica fez uma parceria com selos internacionais, divulgando nomes de gravadoras estrangeiras, essencialmente a Mercury e a Motown, mas também selos menores, como Barclay e Kapp, que tinham suas matrizes importadas compradas pela Fábrica, e depois, prensadas, embaladas e distribuídas pelo país com o selo Rozenblit. Foi assim que o Brasil conheceu trabalhos de artistas como Louis Armstrong, Stevie Wonder, Supremes, Four Tops, Bud Powell e Diana Ross.

Porém, a preocupação com a música local e regional caracterizou a produção da Rozenblit.

Ainda na década de 60, a Fábrica resolveu apostar na jovem cena da Jovem Guarda, e assim criou um novo selo, o AU (Artistas Unidos), que divulgou nomes como Tom Jobim, Ary Barroso, Claudette Soares, Salvador Trio, Johnny Alf, Pixinguinha, Jorge Benjor, Elis Regina, Martinha, Dircinha Batista e a gravação ao vivo das doze músicas classificadas para o II Festival de Música Popular Brasileira, produzido pela TV Record. Os irmãos também resolveram apostar no outro lado da moeda, produzindo também os grupos elétricos da região, conhecido como Udigrudi, que é o que o coloca aqui hoje.  

Lançamentos de rock da Rozenblit:
Os Baobás (acima), Os Canibais (meio) e Tom Zé (abaixo)

O primeiro trabalho ligado ao rock lançado pela Rozenblit foi o grupo Os Baobás, com o compacto simples “Happy Together”, que saiu pelo selo Mocambo. Esse compacto foi lançado em 1966, mesmo ano do segundo lançamento, “Bye Bye My Baby”/ “Pintada de Preto”, a segunda uma versão nacional fiel a original “Paint it Black”, dos Rolling Stones, lembrando que a banda continha o guitarrista Liminha, consagrado anos depois com Os Mutantes, e Tico Terpins, fundador do Joelho de Porco. No ano seguinte, os Baobás novamente pintaram no Mocambo, fazendo sua versão para “Light My Fire” (The Doors) e “Tonite”. Os Baobás aliás são uma história a parte dentro do selo Mocambo, já que seu único LP saiu pelo selo.

Outro raro grupo de rock que lançou seu trabalho pelo Mocambo foi Os Canibais, cujo valor do LP homônimo é incalculável.

Ainda em 1967, o compacto “Máscara Negra”, de Zé Keti, gravado por Dalva de Oliveira, tornava-se a segunda bolacha mais vendida do Mocambo.

O famoso Paebirú

Voltando ao Udigrudi, Tom Zé foi o primeiro nome do movimento a gravar pela Rozenblit, ainda pela Mocambo, e em seguida, com o selo Solar, vieram Flaviola e o Bando de Sol, Marconi Notaro, Lula Cortês, Geraldo Azevedo, Alceu Valença, Lailson e Zé Ramalho. Esse conjunto de nomes lançaram álbuns de extrema relevância para o rock nacional, e que se tornaram consagrados com o passar dos anos principalmente por serem raros, e carregarem uma grande dose de mística por detrás de seus lançamentos. Afinal, na época em que chegaram às lojas, as vendas foram extremamente baixas, já que poucos conseguiam gostar ou assimilar a psicodelia e lisergia de álbuns notórios e fantásticos, como No Sub-Reino dos Metozoários (Marconi Notaro, 1973), Satwa (Lula Cortês e Laílson, 1973), Flaviola e o Bando do Sol (1974), Rosa de Sangue (Lula Cortês, 1980, lançado pelo selo Mocambo) e principalmente, Paebirú (Lula Cortês e Zé Ramalho, 1975).

Clássico slogan do selo Solar
Foi graças a Paebirú que o mundo conheceu o nome Rozenblit. A famosa história de que o álbum teria sido engolido por uma cheia do Rio Capibaribe (localizado ao lado da Fábrica), restando somente 300 cópias da única prensagem de 1000 LPs, ficou eternizada nos anais da história mundial, apesar de hoje a mesma ser reconhecida como lenda. As enchentes realmente aconteciam (tanto que duas quase acabaram com a Fábrica), mas Paebirú tornou-se raro por conta de que o disco não emplacou, e os altos custos para confecção da sua bela capa, e do luxuoso encarte, não podiam ser mantidos em uma época na qual a Rozenblit estava passando por uma grande crise financeira, em partes por conta da grande enchente do Rio Capibaribe, em 1975.

Aliás, as capas e artes dos álbuns da Rozenblit foram inovadoras no país. O visual era diferente do que o pessoal havia se acostumado, trazendo uma foto do artista (geralmente o rosto) e nada mais.


Os primeiros LPs duplos do país saíram pelos selos Mocambo e Passarela, pertences à Rozenblit
A Rozenblit criava figuras, brincava com cores e também apresentava ao seu comprador informações detalhadas das obras que ele estava adquirindo através de capas-duplas, encartes caprichados e contra-capas informativas, sem serem apenas os discos do Selo ou traduções como as das outras fábricas. Esse estilo audacioso proporcionou a Rozenblit o lançamento do primeiro LP duplo do Brasil, a coletânea Recife, trazendo em um LP frevos de rua e outro LP somente com frevos-canção.


Obscuridades relançadas pelo selo Mr. Bongo

Após a citada enchente de 1975, o governo do estado de Pernambuco ajudou a empresa a seguir na ativa, ampliando os juros e as datas dos pagamentos das dívidas que a Fábrica tinha, mas na década de 80, não houve como segurar o estouro de uma nova geração musical, e em 1984, as atividades da Fábrica de Discos Rozenblit acabou.

Na década de 90, João Florentino, proprietário do selo Polysom, comprou todo o catálogo da Fábrica de Discos Rozenblit, recebendo mais de mil fitas de rolo com quase todo o material lançado pela Fábrica entre 1954 e 1980. Muitas das fitas já estavam desgastadas, e foram salvas em um longo tratamento de digitalização, feito em parceria com a Universidade Federal de Pernambuco.


Lançamentos do selo Passarela

Em 2006, Florentino uniu-se a Frank Hessing, fundador do MusiConsult Network, empresa que promove e representa artistas brasileiros na Europa, e que fez o meio-de-campo para uma parceria da Polysom com o selo inglês Mr. Bongo, responsável pelo relançamento em vinil de discos obscuros e raros.

Assim, entre 2008 e 2012, foram relançadas obras esquecidas e perdidas no cenário nacional, com destaque para os discos do Udigrudi citados anteriormente, mantendo a arte original de todos. 

Diferentes selos do Mocambo (acima)
e a variação do final dos anos 60 (abaixo)

Quanto as imagens dos selos, quando era o selo Mocambo, o selo mudava as cores, passando pelo preto, vermelho, amarelo, verde, cinza e azul, sempre destacando a casinha musical que consagrou o selo. No final da década de 60, a casinha mudou para um estilo mais icônico, com linhas negras em um crescendo, formando uma espécie de onda sonora, sobre um fundo branco.


Lançamentos do selo AU
O selo Passarela trazia quatro letras P em minúsculos, unindo-se em um pequeno quadrado. Já o selo da AU era bem simples, com as letras AU em vermelho sobre um fundo preto. O selo Solar se diversificou, mas ficou imortalizado por um grande sol que cobria todo o rótulo do vinil de Paebirú, apesar de variar nos demais álbuns do selo. A própria Rozenblit tinha uma imagem própria, que eram os dois R minúsculos invertidos, formando uma espécie de Yin-Yang.

Enfim, esse é um pequeno resumo de uma história fascinante e que não pode ser esquecida. Colecionadores do mundo inteiro desembolsaram (e ainda desembolsam) alguns milhares de dólares para conseguir as versões originais dos acetatos históricos da Fábrica de Discos Rozenblit, cujas lendas e verdades o tornaram o mais Lendário de nosso país.


4 comentários:

  1. Acabamos de escutar na rádio Jornal do Commercio, Recife:
    Faleceu hoje, aos 89 anos de idade,
    José Rozenblit. Foi sepultado no Cemitério Israelita.30 de outubro de 2016.
    Meus sentimentos e muita gratidão a esse corajoso empreendedor.
    Graças a ele, está preservado muito da cultura do Nordeste e do Brasil.

    Minha gratidão também ao Mairon deste precioso Baú, graças a quem temos este rico registro do valioso trabalho da fábrica de discos Rozenblit. Muito obrigada.

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  2. Acabamos de escutar na rádio Jornal do Commercio, Recife:
    Faleceu hoje, aos 89 anos de idade,
    José Rozenblit. Foi sepultado no Cemitério Israelita.30 de outubro de 2016.
    Meus sentimentos e muita gratidão a esse corajoso empreendedor.
    Graças a ele, está preservado muito da cultura do Nordeste e do Brasil.

    Minha gratidão também ao Mairon deste precioso Baú, graças a quem temos este rico registro do valioso trabalho da fábrica de discos Rozenblit. Muito obrigada.

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    Respostas
    1. Poxa, que notícia triste. Minhas saudações para a familia ... Obrigado pela informação, Jazilda

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