segunda-feira, 3 de junho de 2013

Van der Graaf Generator - Godbluff Live [2003]



A perda da virgindade a gente nunca esquece. Isso é uma verdade absoluta. O dia em que perdi a virgindade ainda hoje está na minha mente. Uma sexta-feira 13 de agosto de 2004, um frio do cão, e eu ali, em frente a TV, assistindo ao VHS pirata do DVD que aqui comento.

Naquele dia, o Van Der Graaf Generator me mostrou que o mundo era muito mais complexo do que eu pensava, e bastou os primeiros cinco minutos do VHS Godbluff Live 1975 para eu sair da minha infância ouvindo Pink Floyd, Yes e King Crimson e entrar num mundo muito mais complexo, o que eu e meus amigos chamamos de "drogas pesadas", em busca de bandas que mostrassem não somente uma música, mas além, uma mensagem, uma razão para viver, uma capacidade de condensar informações que jamais eu havia pensado existir.

O DVD Godbluff Live foi lançado em 15 de julho de 2003, trazendo ali a apresentação na íntegra do álbum Godbluff, lançado em 1975, e que marcou a volta do grupo após um hiato de três anos onde eles se recuperaram dos estressantes dias de gravações de uma obra seminal da música, o álbum Pawn Hearts (1972).

Peter Hammil, David Jackson, Hugh Banton e Guy Evans

Essa apresentação ocorreu no Palácio de Exposições de Charleroi, no dia 27 de setembro de 1975, tendo na formação do VDGG Peter Hammill (teclados, voz), Hugh Banton (teclados), David Jackson (sax, flauta) e Guy Evans (bateria). O vídeo começa com a imagem de Jackson cercado por dois saxofones enquanto toca flauta, com Guy marcando o tempo no cymbal e Hugh fazendo alguns acordes no órgão, para Hammill desfilar uma das letras mais emocionantes que ele já escreveu, "The Undercover Man".

Basta as duas primeiras estrofes para entendermos por que Hammill é um dos melhores vocalistas do progressivo, pois a capacidade de passar emoção ao ouvinte é tamanha, como que se juntasse Peter Gabriel, John Wetton, Jon Anderson e Greg Lake tudo em uma só pessoa, forçando as cordas vocais até o limite.

A bela letra é contemplada com um lindo arranjo, mas que encaixa perfeitamente na famosa frase "ame ou odeie". Jackson solta o fôlego no solo de sax, executando o momento mais embalado da canção, e ai percebemos a principal falha do DVD. Além da imagem ser de uma qualidade não muito boa, o excesso de closes individuais torna a apresentação maçante em determinados momentos, pois não conseguimos ver o grupo por completo e tão pouco saber se o que estamos ouvindo é o que estamos vendo.

Mas vamos nos deter apenas na parte musical. Após a excepcional "The Undercover Man", vêm a faixa que encerrado o lado A de Godbluff, "Arrow". Hammill faz alguns efeitos nos teclados, e os 4, com o nível de concentração mais que elevado, detonam os complicadíssimos 9 minutos desse petardo, onde Jackson é a principal atração, com solos delirantes, repletos de efeitos como reverbs e wah-wah. As veias de Hammill saltam da garganta, contando a tensa e complica letra nos níveis mais altos que ele pode alcançar.

Um ponto positivo para o DVD vai no fato de você escolher a opção de legendas, sendo possível ter as letras de Hammill em português ou inglês. Coloque em português e descubra que existem palavras que você nem sabia que existia!

Se a qualidade da imagem não é das melhores, o som é perfeito, podendo ser ouvido claramente a base de baixo feita por Hugh. Aqui, podemos ter uma ideia de como a VDGG se distribuia no palco, já que uma imagem por trás da bateria mostra Jackson ao centro, Hugh à esquerda de quem está assitindo, Guy atras de Jackson e Hammill à direita de quem está assistindo. Ambos os tecladistas estão de lado para o público, um de frente para o outro.

Passada a maravilha de "Arrow", surge mais outro petardo, "Scorched Earth", com os acordes dos órgãos de Hammill e Hugh fazendo o riff junto com Jackson, e Hammill mandando ver na voz. O peso do sax e dos teclados atinge quem está vendo como uma bigorna, e os gritos de Hammill parecem serem os de uma agonia intensa. A canção alterna momentos calmos, somente no órgão de Hugh, e outros pesados, com todos tocando juntos, hipnotizando facilmente.

Se você não gosta de progressivo, corra rápido, pois a sequência de duelos entre sax e órgãos é a perfeita amostra de quão talentosos eram os integrantes da VDGG, com destaque maior para o excelente acompanhamento de Guy.

O show encerra-se com "Sleepwalkers", onde Hammill abandona o teclado, e caminhando pelo palco, declama raivosamente uma complicada letra, tendo ao fundo o peso das notas do sax de Jackson e do órgão de Hugh. O que Jackson faz aqui é sobrenatural, e os gritos de Hammill novamente assustam. A canção ainda dá direito a uma parte "cômica", onde Hammill começa a dançar pelo palco Jackson manda ver no sax e Guy praticamente destrói o bumbo com seu pé direito.

Hammil então senta em sua cadeira perto do órgão, assumindo a responsabilidade para começar a longa sessão instrumental, com Jackson, Hugh e Hammill tentando engolir um ao outro, em uma sequência de notas pesadíssimas, que levam ao solo de Jackson e ao maravilhoso final da canção.

O quarteto na época de Godbluff

O show acaba com os créditos para a TV francesa que produziu a apresentação, e então, voltamos ao Menu inicial. assim, escolhemos a apresentação na TV holandesa, que trás todo o lado B de Pawn Hearts, começando com "Theme One", onde o teclado fantasmagórico de hugh introduz esta pesadíssima canção, com Jackson soltando o riff no sax e Guy socando a bateria.

Uma canção instrumental muito forte, com apenas teclado, sax e bateria, e que eu lembre a única na história do grupo a não ter a participação de Hammill. O som do órgão de Hugh é impressionante, e a forma como ele conduz o riff com uma das mãos enquanto viaja com a outra é única, sendo um destaque a mais na canção, e mostrando facilmente o por que de ele para mim ser um dos três melhores tecladistas de todos os tempos.

Depois, temos a esperada e fenomenal "A Plague Of Lighthouse Keepers", com os 23 insanos minutos de uma canção assustadora, macabra e sinistra. Sob a luz de velas, o órgão de Hammill começa os lentos acordes, acompanhado por cymbal e sax, e então surge a sinistra letra do marinheiro que está prestes a morrer em alto mar. Apenas aprecie e segure o medo na aterrorizante sessão onde a banda simula o acidente entre dois navios, que mostra claramente que o vídeo foi gravado em dois takes, mas que não muda em nada no conceito geral do que estamos assistindo.

No momento do acidente, velas brilhantes assumem o local das velas iniciais, e Hugh começa a evocar os fantasmas presentes no recinto através de macabras e sinistras notas do órgão, enquanto Jackson, tocando dois saxs ao mesmo tempo, imita o apito dos navios, e Guy destrói a bateria para mostrar o choque entre os gigantes de ferro que atravessam o mar em frente ao farol apagado.

Se está bom para você, se passaram apenas 5 minutos. Muito mais delírio vem pela frente, e é impossível não parar para tentar assimilar cada confusa e ao mesmo tempo esplêndida frase cantada por Hammill. A viagem prossegue, com várias alternâncias de tempo e clima, com destaque para as belas sessões instrumentais onde o duelo de bateria, sax e órgão parece mais como uma batalha de vikings em alto mar, tudo isso enquanto Hammill se esgoela em frases difíceis e quase que irreproduzíveis.

Destaque principalmente para o momento que antecede as estrofes finais, onde Hammill espanca seu órgão até ele quase ser demolido, e para a perfeição do som, sendo possível ouvir quando Hammill liga uma distorção de seu teclado.

Uma obra-prima, sem sombra de dúvidas, com um encerramento espetacular, onde Hammill nos brinda com uma taça de vinho, tendo a certeza de terem interpretado uma execução perfeita deste que é sem dúvida um dos maiores clássicos do rock progressivo ao lado de "Close to the Edge" (Yes), "Supper's Ready" (Genesis), "Karn Evil 9" (Emerson Lake & Palmer) e "Echoes" (Pink Floyd).

O DVD encerra e voltamos ao menu inicial, deixando novamente a opção para você escolher qualquer um dos shows.

Em geral, as únicas falhas ocorrem nas imagens do show da França e no curto tempo do DVD (pouco mais de uma hora os dois shows), além de um erro grotesco no enunciado da contra-capa, que escreve "este conSerto" ao invés de "este conCerto". Também não temos um booklet, entrevistas ou comentários. São apenas os shows e pronto.

Apesar disso, a apresentação na TV holandesa é fora de série. Ver e ouvir a intrepretação completa de "A Plague of Lighthouse Keepers" é uma experiência única, e tendo como abertura "Theme One" fecha com chave de ouro este belíssimo DVD. E claro, ter o prazer de ouvir todo o Godbluff ao vivo, é algo que não tem preço.
Capa e contra-capa desse essencial DVD

E fica o recado:

Se você acha que Neil Peart fazia letras difíceis e complicadas, compre esse DVD.

Se você acha que o King Crimson viajava no palco, compre esse DVD.

Se você acha as canções do Yes complicadas de serem tocadas, compre esse DVD.

Se você acha que o Pink Floyd fazia passagens viajantemente soberbas e calmas, compre esse DVD.

Se você acha que Greg Lake é o melhor vocalista do progressivo, compre esse DVD.

Se você acha que teatral era o Genesis, compre esse DVD.

Se você acha que música é apenas guitarra, baixo e bateria, compre esse DVD.

Se você nunca ouviu Van Der Graaf Generator, pague seus pecados e compre esse DVD.

Você não irá se arrepender!

Set list:

French Show

01.The Undercover Man
02. Arrow
03. Scorched Earth
04. Sleepwalkers

Deutch Show

01. Theme One
02. A Plague Of Lighthouse Keepers :

a. Eyewitness
b. Pictures/Lighthouse
c. Eyewitness
d. S.H.M.
e. Presence of the Night
f. Kosmos Tours
g. (Custard's) Last Stand
h. The Clot Thickens
i. Land's End (Sineline)
j. We Go Now

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