quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Sagrado Coração da Terra

Ivan Corrêa e Marco Antonio Botelho (acima),
Augusto Rennó, Marcus Viana e Zé Marcos (abaixo)


Praticamente desconhecido em nossas terras, o grupo mineiro Sagrado Coração da Terra conquistou uma legião de fãs internacionalmente, principalmente na Europa e no Japão, aonde seus álbuns foram todos relançados em CD antes mesmo disso acontecer em nosso país.

O Sagrado em 1979, ainda em formação:Alexandre Lopes, Edson Pla, Zé Artur, Cristiana Ramos e Marcus Viana
Formado em 1979 pelo multi-instrumentista Marcus Viana (violino, voz, mandolin, piano, teclados, violões), que pouco antes havia feito parte do hoje reconhecido Saecula Saeculorum, o Sagrado passou por diversas formações ao longo de sua carreira, e lançou apenas cinco álbuns de estúdio, os quais contam com uma sonoridade única, que talvez por isso, o distingua tanto de outras bandas contemporâneas ao seus álbuns, sendo classificado por muitos como o precursor da World Music e da New Age em nosso país, ao lado dos também mineiros do Uakti. 

Desde o início, o grupo teve como objetivo misturar elementos elétricos e acústicos em uma sonoridade nova, trazendo elementos barrocos e eruditos fundidos a elementos do rock progressivo britânico. Esse estilo acabou prejudicando o início da banda, que passou quatro anos ensaiando, tocando em pequenos locais e buscando uma gravadora, sofrendo diversas mudanças de formação nesse período, sendo uma das principais com Viana, , Alexandre Lopes (guitarra), Edson Pla (baixo), Cristiana Ramos (Piano) e Zé Artur (bateria).

Edson Pla, Cristiana Ramos, Zé Artur, Alexandre Lopes e Marcus Viana.

Em 1984, finalmente a jovem gravadora Arteciencia resolveu apostar nos mineiros, que contava na formação com Viana, Vanessa Falabella (voz), Marquinhos Gaughin (baixo), Nenen (bateria), Inês Brando (piano), Giácomo Lombardi (sintetizadores), Fernando Campos (guitarra), Sebastião Vianna (flauta), Andersen Vianna (flauta), Miriam Vianna (harpa), Gilberto Diniz (baixo sem trastes), Lincoln Cheib (pratos), Paulinho Santos (percussão) e Alexandre Lopes (violão). Em 1985, chegou às lojas Sagrado, o primeiro álbum do grupo.

A estreia do Sagrado, em 1985

Para quem esperava algo na linha do trabalho feito por Viana no grupo Saecula Saecuorum durante a década de 70 (e que só teve seu trabalho lançado nos anos 2000), o Sagrado aparece com letras positivas, para cima, falando de amor, natureza e esperança,  As experimentações com barulhos de natureza, que marcam a carreira da banda, estão presentes em "Lições da História", nas vocalizações indígenas de "Memória das Selvas" e na introdução da balada instrumental "A Glória das Manhãs", com Viana exibindo-se ao piano, enquanto "Asas", a faixa-título e "Arte do Sol" destacam a voz de Vanessa e possuem interessantes arranjos instrumentais, destacando a participação de Nenen na segunda. 

"Corpo Veleiro" e "A Luz É Terna" indicam o futuro de trilhas de novelas que Viana seguiria durante toda sua carreira. "Feliz (Abertura de Selvagem)" é uma curta vinheta instrumental no LP, que tem exatamente na instrumental "Deus Dançarino" seu melhor momento, com fortes inspirações em Genesis e Mahavishnu Orchestra. 

Alexandre Lopes, Esdra 'Neném'', Marcus Viana, Vanessa Falabella, Gilberto 'Giló'' e Inês Brando
Destaque para o encarte do vinil original, o qual possui uma imagem de um menino segurando um violino em preto e branco, e abrindo o mesmo ao meio, revelando o menino tocando o violino.

Sagrado acabou saindo em CD no Japão, em 1988, através do selo Crime, trazendo como bônus a faixa "Urban Ragas". Outros dois relançamentos em CD ocorreram no Japão: em 1996, pelo selo Nexus; em 2008, pelo selo Belle Antique. Ambas as versões idênticas ao lançamento de 1988.

Esse primeiro álbum teve alguma relevância na região do triângulo mineiro, possibilitando ao Sagrado Coração da Terra fazer shows pelo sudeste de nosso país. Nesses shows, novas composições começaram a surgir, permitindo que o grupo voltasse aos estúdios para registrar seu segundo álbum. Com uma nova formação, tendo Viana na companhia de Rennó na guitarra, e dos novatos Ivan Correia (baixo), Marco Antonio Botelho (bateria), José Marcos Teixeira (sintetizadores) e João Guimarães (bateria eletrônica), sendo que duas canções possuem a participação de Nenem na bateria, em 1987 é lançado Flecha.

A revelação para o sul do Brasil

Flecha se tornou um clássico no rock progressivo nacional, projetando o Sagrado Coração da Terra para o sul do Brasil. O álbum é dividido em dois lados: As Canções e As Sinfonias. No Lado As Canções estão canções curtas, que trazem as letras positivas e futuristas de Viana, porém com arranjos sonolentos perto das canções de Sagrado, e também aproveitando-se um pouco do clima oitentista com inserções de bateria eletrônica, principalmente na faixa-título, que foi inserida na trilha sonora da novela global Que Rei Sou Eu?, a primeira participação de Viana em novelas, com videoclipe sendo exibido no fantástico e tudo o mais. 

O nível novelístico continua nas fracas baladas "Manhã dos 33", "Seres Humanos" e "Carinhos Quentes", com raros instantes progressivos, e a vinheta "Paz" é o único momento decente deste lado, em um lindo trabalho instrumental de Viana apenas com violino e sintetizadores. 

Ivan Corrêa, Zé Marcos, Marcus Viana, Marco Antônio Botelho e Augusto Rennó.
Porém, o lado As Sinfonias acaba com a melosidade do lado oposto, com apenas três longas canções que marcaram época no rock progressivo nacional, começando com "Tocatta", e Viana esbanjando virtuosismo nos teclados, seguindo éla épica "Cosmos X Caos", talvez a principal suíte do rock progressivo no final da década de 80, digna de ser chamada de Maravilha Prog, lembrando muito as canções de Milton Nascimento durante a fase Clube da Esquina, porém com um arranjo musical complexo, além de uma letra fantástica e mudanças que encantam em seus quase onze minutos de duração, principalmente durante o longo trecho central apresentando o solo de violino, e encerrando com a linda instrumental "O Futuro da Terra", apresentando uma série de solos de flauta (por Anderson Viana) e de violino, em um clima muito leve e encantador. 

O grupo ao vivo nos anos 80

O trabalho de Flecha levou o Sagrado para a Ásia. Assim como Sagrado, Flecha foi lançado em CD naquele país em 1988, trazendo o mesmo conteúdo da versão vinílica brasileira. A novidade de Flecha é que ele também saiu em LP pelas terras nipônicas. Em 2008, o selo Belle Antique relançou Flecha em CD no Japão, com as mesmas faixas da versão original.

O grupo cresceu, e fez uma série de apresentações pelo país. Ao mesmo tempo, a participação de "Flecha" em Que Rei Sou Eu? levou Marcus para ser convidado a cômpor uma canção para a novela Kananga do Japão, da Rede Manchete. O resultado foi a faixa "Tango", mas o mais importante não foi isso, e sim a apresentação de Marcus para o diretor Jayme Monjardim.

As trilhas de Pantanal, revelando o Sagrado Coração da Terra para o Brasil

É Monjardim o responsável pelo convite para Marcus produzir a trilha do maior sucesso em termos de novelas lançadas pela Rede Manchete, Pantanal. Lançada em dois volumes, esta Trilha Sonora vendeu muito em 1990, e tem Marcus interpretando canções de forma solo ("Amor Selvagem", "Reino das Águas", "Espírito da Terra" e "Noite") e também com o Sagrado ("Pantanal", "A Glória das Manhãs" e "Paz"), as quais serviram de base para o lançamento do terceiro LP do Sagrado no ano seguinte, e colocaram o Sagrado Coração da Terra como uma banda reconhecida agora nacionalmente.

A formação de Farol da Liberdade tem Viana (violino, teclados), Renno (guitara, violões), Lincoln Cheib (bateria), a dupla Anderson e Sebastião Viana nas flautas, Ronaldo Pellicano (teclados), Ivan Correia (baixo) e Paula Santoro (voz). 

Farol da Liberdade, o disco do auge na carreira dos mineiros

Consolidados perante o mercado nacional, o grupo regrava algumas canções de Pantanal e ainda cria novas canções, gerando um belo trabalho, o primeiro lançado pelo selo Sonhos & Sons, de propriedade de Viana, e que relançou todos os álbuns anteriores do grupo, bem como os lançados a partir de então, além de uma série de grupos e artistas New Age.

Farol da Liberdade apresenta músicas excelentes, apesar das baladas novelísticas. A abertura com a hipnotizante "Dança das Fadas", com parte da letra cantada em latim, é um ápice do que o rock progressivo do grupo poderia gerar, em uma das melhores canções da carreira do grupo, e o clima progressivo segue com a bela instrumental "Solidariedade", levada pelo violão e violino, além de um belo acompanhamento de sintetizadores, baixo e bateria. 
Marco Antônio Botelho, Marcus Viana, Ronaldo Pellicano, Ivan Corrêa, Augusto Rennó.
A faixa-título é um representante típico do rock brasileiro nos anos 80, carregada de sintetizadores, enquanto "Raio e Trovão" é uma dançante faixa, tendo um clima mezzo celta, mezzo progressivo que me lembra muito Jethro Tull de meados dos anos 80, além de uma maravilhosa sessão instrumental com violão clássico e violino dando um show a parte. Sem dúvidas, a suíte que encerra o álbum, "The Central Sun of the Universe", é o clímax do álbum, com mais de onze minutos de duração, letra cantada em inglês, uma introdução a la "I Get Up, I Get Down" (Yes), uma longa sessão instrumental destacando piano e violino, além de marcações delirantes de guitarra, baixo e bateria, em mais uma candidata a Maravilha Prog. 

Temos ainda mais uma pequena vinheta, "Olívia", contando com sonorizações e grunhidos do bebê que dá nome à canção, e das faixas de Pantanal aqui aproveitadas, "Amor Selvagem" acaba sendo totalmente descartável, mas "Pantanal", tendo um incrível coral apoiando nas vocalizações, aumenta a quantidade de pontos nesse belo álbum, candidato a melhor da carreira do Sagrado, mas que perde de longe para o quarto e essencial disco do grupo.

Sem perder muito tempo, seguem com a série de shows e composição de novas canções, culminando rapidamente com a gravação do quarto álbum do grupo, o ótimo Grande Espírito


O melhor disco dos mineiros

Grande Espírito é o disco mais trabalhado e construído do Sagrado. As canções novelísticas quase não aparecem, e o resultado final é um trabalho perfeito. A formação do grupo permaneceu a mesma de Farol da Liberdade, e agora, eles tem a companhia de Bauxita nos vocais, dando uma nova cara para a banda, transformando o som em algo mais pesado e bastante experimental, principalmente com a participação mais que especial dos músicos da Uakti, realizando uma união esperada desde Flecha

Esse casamento gerou filhos incríveis, como podemos ouvir na sensacional "Kian" (cantada em tupi-guarani por um coro de vozes). A participação de Milton Nascimento na linda "Eldorado", acompanhado apenas pelo piano e sintetizadores, é o momento mais ameno de um grande disco, ao lado de "Libertas", a canção mais novelística de Grande Espírito, mas com uma letra poderosa que jamais tocaria em novela alguma. 

Lincoln Cheib, Marcus Viana, Ivan Corrêa e Ronaldo Pellicano

Nenem retorna ao grupo para tocar bateria em "Rapsódia Cigana", um espetáculo sonoro com várias sequências com violino, piano e guitarra duelando entre si, e uma viajante sessão com tablas e Sitar (Maravilha Prog sem sombra de dúvidas), e como o grupo crescia cada vez mais internacionalmente, foi inevitável a inclusão de canções com letras em inglês, a cargo da suave "Sweet Water", com a participação de Firmino Cavazza no violoncelo e os violões fazendo uma bela base, e da pesada "Human Beans". 

O ponto máximo novamente vai para uma suíte, aqui a própria faixa-título, com citações indígenas e outra letra manifesto, além de uma base instrumental viajante. A versão em CD conta ainda com a suíte "Pais dos Sonhos Verdes", seguindo a linha de "Grande Espírito" e com importante participação do grupo Uakti. 

A partir de então, o grupo entrou em um longo hiato de sete anos, com Marcus concentrando-se na composição de trilhas para filmes. Somente no início dos anos 2000 com o seu quinto e último álbum de estúdio até o presente momento, A Leste do Sol, A Oeste da Lua.

O retorno do grupo nos anos 2000

Lançado em 2000, esse é o álbum mais longo da carreira do Sagrado Coração da Terra, mantendo o nível das composições dos primeiros álbuns, trazendo regravações de canções de Marcus Viana para novelas e a participação de diversos músicos que passaram pela banda, e também de Andre Matos nos vocais de "Bem-Aventurados", com um show a parte do violão flamenco de Augusto Rennó durante a introdução, sendo essa uma rara oportunidade de ouvir Andre cantando em portugês. 

A formação principal é a mesma que gravou Grande Espírito e Farol da Liberdade, e eles recriam "Terra", de Caetano Veloso, dando uma cara totalmente nova para a canção. As letras sobre paz e culto a natureza surgem em "Canção dos Viajantes", "Lágrimas da Mãe do Mundo" e na própria faixa-título, enquanto o clima novelístico surge em "Clair de Lune", destacando as passagens de piano e violino, e "Serras Azuis", com muitas vocalizações femininas. 

Sagrado em 2001
"Oviniana" apresenta um belo arranjo com o violão acústico e o moog, enquanto "Firecircle" traz Viana cantando em inglês. Os momentos máximos vão para o maravilhoso arranjo de cordas e violões de "Madame Butterfly", que tem a participação dos instrumentos indianos Sitar e tabla, além de uma soprano fazendo arrepiantes vocalizações, "Anima Mundi", também com a presença dos intrumentos indianos e viajantes mudanças sonoras, a peça clássica "Allegro", um fantástico solo de piano feito por Viana, a sensacional "Planeta Minas", somente com violino, violões e xilofone durante a sua introdução, virando uma pesada canção ao seu final, "Amigos", bonita balada tendo o violino como destaque, a viajante "Maya", com seu clima todo New Age e repleta de instrumentos de percussão.


Versões em inglês no sexto álbum da banda
Em 2001, Sacred Heart of Earth trouxe revisões em inglês para canções do grupo, além de novos arranjos, e com o lançamento voltado apenas para o mercado internacional, esse álbum complementou o retorno em comemoração aos vinte anos do grupo. As faixas que o compõem foram selecionadas dentre os cinco álbuns anteriores, a menos de Flecha, que não teve nenhuma canção relembrada. 

Assim, estão no mesmo "Sagrado" (Sagrado), "The Central Sun of the Universe" (Farol da Liberdade), "Human Beans", "Gypsy Rapsody" e "Sweet Water" (Grande Espírito), e "East of the Sun, West of the Moon", "Travelling Show", "Firecircle" e "Maya" (A Leste do Sol, A Oeste da Lua), além de uma interpretação para "2001 - Also Sprach Padim Cisso" e " The Green God of the Woods", " The Gates of Heaven", "Carpe Diem" e "Urban Ragas".

Um álbum para completar a coleção, mas sem nenhuma novidade além das letras em inglês. Marcus passou a se dedicar para trilhas de novelas e séries, destacando participações nas novelas Terra Nostra (2000) e O Clone (2001), bem como a trilha do filme Olga (2004), desenvolvendo sua carreira solo e servindo como músico acompanhante em shows e álbuns de diversos artistas.
O retorno em 2012


As coletâneas Canções, com os principais clássicos da banda, e Instrumental, somente com as canções instrumentais do grupo chegaram às lojas em 2002, e mais um hiato ocorre. Em 2009, o DVD Cosmos X Caos - A História Parte 1, chegou às lojas, apresentando um show do grupo realizado em 1989, no Palácio das Artes e trechos de uma apresentação no Rio Art Rock Festival em 1996 no Metropolitan / RJ, além de um documentário descrevendo a trajetória do grupo nestes últimos anos.


Em 2012, através do produtor Claudio Fonzi, o grupo voltou a fazer shows, apresentando-se no Teatro Rival, mesmo local que também recebeu os mineiros em 2013, assim como Belo Horizonte, tendo na formação Vianna, Augusto Rennó (violão e guitarra), Adriano Campagnani (baixo), Eduardo Campos (tímpanos e percussão), Esdra Neném Ferreira (bateria), Danilo Abreu (teclados), uma fusão do antigo e do novo Sagrado com a Transfônica Orkestra, outro projeto musical de Viana, que percorre o país com apresentações eventuais, sendo as próximas ocorrendo em São Paulo nas datas de 21 e 22 de fevereiro, deixando os fãs no aguardo de um novo lançamento do grupo, sendo que para este ano está prometido o lançamento do volume 2 de Cosmos X Caos - A História.

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