quinta-feira, 6 de abril de 2017

Entrevista Exclusiva: Elias Mizrahi (Veludo)



O Baú do Mairon hoje faz uma entrevista histórica. Depois de algum tempo afastado das grandes mídias, o multi-instrumentista Elias Mizrahi está de volta aos palcos e estúdios, e tive a honra de trocar algumas ideias em um bate-papo muito confidencial e revelador. Elias nos conta abaixo como foi sua conturbada e emocionante apresentação no Totem Prog Festival, sua história com o famoso grupo progressivo Veludo, do qual foi líder e mentor pilotando os teclados da banda, a importante participação no disco Bandido, de Ney Matogrosso, e ainda faz revelações sobre seu futuro próximo, bem como nos dá um emocionado relato sobre seu início musical ainda na infância, guiado pela sua irmã e guru Florinda Mizrahi. 

Uma história forte de um dos mais emblemáticos e importantes nomes da música nacional. Confira.




Meu caro Elias, antes de mais nada obrigado por aceitar compartilhar sua história conosco. Sinta-se à vontade, nossa casa é seu lar.
Primeiro, eu queria agradecer por você ter vindo à mim. É um prazer poder colaborar com veículo de tamanho gabarito e importância como o seu. Que carrega em sua proposta divulgar a arte suprema, coincidindo com a pauta de minha trajetória do melhor do Rock também. Este fato em si me coloca a vontade para abrir com exclusividade a essa entrevista que segue. E também agradeço ao Ronaldo Rodrigues por ter sido o primeiro camarada a vir aqui e me entrevistar, em 2009, no meu apartamento. Grande camarada. Tá servido de um cafezinho e um sanduíche?

(Risos) Daqui há pouco irei jantar. Começo pedindo que nos conte como foi a sua iniciação à música e em que momento você decidiu que iria ser músico?
Deixei um pedacinho do meu lanche para você. Pode deixar que eu vou guardar na geladeira para não estragar. Então, isso foi um presente de Deus. Eu tinha cinco anos quando fiz meu primeiro show. Eu tinha uma irmã mais velha, e com cinco anos, no primeiro dia de aula, fui obrigado a aprender a tocar piano com partitura, daí tinha uma professora que batia com uma régua quando errava a partitura. Imagina, com cinco anos, você aprender clave de sol, barras, escalas... Eu aprendia de ouvido. Daí minha irmã, Florinda, a minha guru, me ensinava os momentos que tinha que mudar a página, para enganar a professora, por que eu não queria ter que ficar aprendendo teoria, veja só. Então, no primeiro dia de aula, cada pessoa que chegava lá ganhava um número. Tinha umas mil pessoas, e esse número era sorteado. Sortearam o número três, e ninguém tinha o número. A minha irmã interferiu, por que iam sortear outro número, mas ela sabia que o três era o meu número. Daí eu fui levado pro palco. Eu podia ser um aluno igual aos da primeira série, mas não, eu não tive vergonha, eu cantei ali com o pessoal, e ali eu percebi a força do palco. Depois, com sete anos, na Sala Cecília Meirelles, eu fiz uma nova apresentação, apresentei uma música que eu compus, e foi quando percebi que eu era um artista.

Elias Mizrahi

Você é de uma geração importantíssima para o rock nacional, e que viveu os conturbados momentos da ditadura militar em nosso país. Havia muita repressão por ser músico de rock ‘n’ roll em uma cidade como o Rio de Janeiro?
Minha irmã mais velha esteve torturada em pau-de-arara, sabe, e acabou pegando a arma do torturador, e você pode imaginar o que aconteceu...

Dentro da sua formação musical, quais foram as principais bandas que o inspiravam na época e que acabaram influenciando na criação de um grupo de rock progressivo do porte do Veludo?
O fato mais relevante disso tudo foi o programa Sábado Som, do Nelson Motta, o programa de maior audiência do rock ‘n’ roll nacional. Esse foi o primeiro programa de vídeos do país; o pessoal ficava louco esperando para ver os primeiros clipes da história, coisa que viriam a me influenciar, que são Doors, Jethro Tull, Deep Purple, Led Zeppelin, Janis Joplin, King Crimson, Bad Company, Wishbone Ash, Mahavishnu Orchestra, Jimi Hendrix, Ravi Shankar, e principalmente, Yes. Sou e sempre serei um Yesmaníaco; naquela época não tinha essa porra de internet, e a gente não sabia da onde vinham, eram raridades, não tínhamos acesso. Hoje você pode entrar em museus e tal, mas enfim, a internet pode ser usada para o bem e para o mal, mas aquilo é o que me deu a base do progressivo. Sensacional!

Recentemente, você foi um dos principais nomes a participar no festival Totem Prog, ocorrido nos dias 11 e 12 de março em São Paulo. Como foi a sua apresentação e a participação do público durante o Totem?
Foi lindo. Emocionante e inusitado também. Enfim, acabou que fiz na garra. O Roberto Oka, produtor d’O Terço e do Som Nosso de Cada Dia, me convidou para preparar um trabalho totalmente novo. Daí eu me preparei, mas essa apresentação foi complicada. Eu tive problema que cara, é engraçado. Eu sou cético, apesar de ter nascido hebreu, mas tem essa coisa do destino. Morreu o filho do baterista, o baixista ia ser o Jacques Morelenbaum, mas algumas semanas antes ele foi apartar a briga dos cachorros dele e caiu, quebrou o braço... Os arranjos que eu havia quebrado a cabeça para ele fazer de nada adiantara... Em suma, lá se foi a banda. Pra completar, não deixaram embarcar o meu teclado para São Paulo, e então...


Durante o Totem Prog


Mas por que não deixaram?
A Gol Linhas Aéreas passou a exigir caixa de alumínio para transportar instrumentos. E como eu ia conseguir uma caixa de alumínio dentro do aeroporto?

Bom, e então, o que aconteceu?
Eu entrei no palco, pedi um piano. Seria bom, pois como você sabe, meu instrumento de origem é ele. E nada! Kkk. Quando toco o tecladinho... Bichooooo! Sem como. Tentei a primeira do repertorio e parei. Mole? Mas pensei poder. Resultado, jamais. Sai de perto do teclado, me dirigi à todos para pedir desculpas. Cara! Primeiro, senti que os assentos antes vagos estavam tomados. Segundo, o olhar forte e brilhante de todos no meu. E agora, o pior! Ou melhor! Kkk. Meu amigo! Meu chapa! Simplesmente, 4 a 5 pessoas da plateia de distintos locais, simplesmente resolvem cantar perfeitamente o tema de “Egoismo”: "Sinto como se estivesse perto, de um pensamento forte Que me levanta, Te empurra, E se desfaz....”. Arrepiou os poros, alma,  o poeta, até o tecladinho... kkkk. Mudei tudo. Ainda bem que tenho milhares de composições e fui direto. Cantei.... Mais do que o Elias com 17 anos. Kkk Chamei meu Deus interior e as lagrimas foram nossa resposta. Eu me comovi. Pena que por eu ter dito que o DVD não tava valendo, foi registrado apenas um tema. Mas que legal, pois até hoje, de boca em boca, quebrei a mídia. Foi a força do passado que me fez fazer aquilo.

Sensacional, um momento histórico.
Em suma, o show aconteceu, e eu, sinceramente devo confessar, em caráter exclusivo, o quanto mudou a minha vida depois de minha apresentação em SAMPA solo no TOTEM fest. Foi realmente muito forte. O que prova o poder que exerce a verdadeira arte magna sendo executada ao vivo, com a carga de quem jamais deixou de evoluir e acreditar através de seu dom, atingir um estágio superior. E rapidamente se fez soar. De tal forma, tive de sofrer calado, escondendo a ferida durante quase meio século daqueles homens com jeito de rei, ignorando aquela massa de gente que viveram o melhor do melhor som. Aqueles que me serviram de combustível e até hoje mantiveram a chama acesa. Até o Oka subiu no palco para me abraçar. Agora tá cheio de músico querendo entrar na banda, mas antes ... E tenho um guitarrista que é um talento, e que ainda vou revelar, assim que conseguir alguém para ocupar o posto de baixista e de baterista.

Um pouco mais do Totem Prog

Esse então é o seu retorno definitivo aos palcos?
Na verdade, eu voltei com uma canja que fiz no Teatro Solar. Ali toquei solo, de frente pro público, e percebi o olhar das pessoas, todo mundo me olhando; foi uma química entre nós que formou uma banda, e daí me deu confiança para seguir em frente. E no Totem, as pessoas começaram a cantar comigo, não deixaram eu sair do palco, foi lindo.

O Veludo tocar com outras bandas clássicas é algo que nasce junto com a banda, já que a primeira apresentação do grupo ocorreu no famoso festival ocorrido em dois dias no Teatro João Caetano do Rio de Janeiro, ao lado de Vímana e Mutantes. Conte-nos um pouco suas lembranças desse importante marco do rock nacional.
Então, era muito legal. Nós ficávamos ensaiando, seis meses direto, umas seis, sete horas por dia, e tocávamos sempre juntos, não só com o Mutantes, mas também com O Terço. Tinha tanto contato. Estreamos no Hollywood Rock, com uma aparelhagem boa, era um bom tempo. O Vímana também, estreou com a gente nesse show do Teatro João Caetano. O primeiro ato foi o Vímana com o Terço, e no segundo ato, nós e o Mutantes. Mas o Vímana tinha aquele guitarrista né, um cara normal; nós tínhamos o Paul (de Castro), um guitar-hero, que era o cara do Veludo Elétrico, que era outra banda, aquela coisa mais rock ‘n’ roll. E aquele guitarrista né, ele nunca compôs nada.

Elias ao vivo com o Veludo

Ele fez fama na Globo, na verdade.
É, concordo. Veja você: O Lulu (Santos, guitarrista do Vímana) nunca revelou um músico ou um artista. É repugnante isso.

Por que o saxofonista Pestana, que participou da primeira formação do grupo, acabou não ficando, e a o mesmo tempo, por que o saxofone não seguiu como um instrumento do line up do Veludo?
Era outra mentalidade, não dava para casar uma mentalidade progressiva com um cara que aceitava qualquer parada, entende?

Existe um registro histórico dessa apresentação em vídeo ou áudio?
Estamos atrás dela, com certeza.


Elias (sentado) nos anos 70


Já no Banana Progressyva, um fã acabou fazendo o registro daquela apresentação, que se tornou o único álbum oficial do Veludo durante muito tempo, Veludo Ao Vivo. Como foi que a banda conseguiu a gravação e qual o momento que a oportunidade para lança-la em disco surgiu?
Na verdade, essa fita estava com minha ex-esposa, e dali saiu o disco.


Por que o lançamento de um LP de estúdio não ocorreu na época?
Eu não poderia abrir mão de trabalhos remunerados, mas também não seria capaz de me vender para uma gravadora, aceitar um contrato que me obrigasse a gravar o que eles quisessem e que não fosse a minha música. Essa foi a razão principal. A Sony quis me comprar por uma grana alta mensal, mas não aceito produzir qualquer porcaria. Eu não vou fazer isso de cantar vulgaridade, não vou aceitar. Eu sou o poeta das minhas músicas, e tenho autonomia para fazer o que quiser, não é?

Que outros momentos você lembra desse período?
Lembro também de um festival que foi realizado na primeira edição do circuito internacional de Surf, no Arpoador com 200 mil pessoas, e fui eu que ajudei a organizar.


Elias (nos teclados), apresentando-se com o Veludo

Por que você acabou saindo da banda e qual a sua opinião sobre a mudança de som que o grupo fez a partir de então, adicionando instrumentos típicos do Brasil nas composições?
Cara, isso é incompetência e ganância. Foi dito aí que eu abandonei a banda. Bom, aí não tinha necessidade de ter duas bandas. O Veludo é uma espécie de orgulho meu. Eu nunca vi ninguém que tenha surgido com duas bandas ao mesmo tempo e com a mesma proposta de progressivo. Eu não gosto muito do rótulo progressivo, mas entendeu, não tinha necessidade. O único tema que tocou no Sábado Som foi “Egoísmo”, e isso não é citado. Eu não saí da banda. É muita heresia. A sexta faixa do CD ao vivo, foi re-arrumada em estúdio, e nunca me foi perguntado isso. É uma sacanagem. Se você entrar na página da postagem do Bordel do Rock, você vai ver os comentários lá, as pessoas que assinam como anônimo, essas pessoas fazem parte de outros veículos, mas sabem o que aconteceu, e eles elogiam, sabe? É isso o que fica. O cara pegou o CD na Argentina, veja só.

E não tem por que disso, não é mesmo? No fim todos vamos virar pó.
Você tem razão. Olha aí ó, quanta gente boa morrendo. Chris Squire, um baixista monstruoso, teve o John Wetton, Greg Lake e tantos outros. Acho que eles tão tudo fazendo uma super banda lá no céu. E veja o Keith Emerson, por exemplo, disseram que ele estava doente, mas olha só, eu assisti ele no Canecão, e ele tocou “Tarkus” exatamente, completa, perfeitamente igual. Um cara doente não toca daquele jeito.

Na contra-capa do álbum Bandido (Ney Matogrosso), com o grupo Terceiro Mundo: Jorge Olmar, Marcelo Salazar, Elber Berloque, Roberto de Carvalho, Elias Mizhari e Jorge Carvalho


Você fez parte do grupo Terceiro Mundo, e registrou com esse grupo, o álbum Bandido, de Ney Matogrosso. Conte-nos suas lembranças das gravações desse álbum, principalmente da faixa bluesy "Aqui e Agora", particularmente um dos melhores trabalhos de sua carreira fora do Veludo.
Boa pergunta. Seguinte, eu participei desse disco que foi o que eu mais participei tanto como compositor como músico. Como compositor, lógico, acabei vendendo os temas, dentre eles, o próprio tema “Bandido Corazón”, por conta do que citei antes. Participar do disco foi lindo, foi maravilhoso, ganhei dinheiro pra caramba. Foi o disco que mais ganhei dinheiro e foi o que mais vendeu até hoje. Meu trabalho foi muito digno.

Chegou a participar dos polêmicos shows dessa turnê, no qual Ney se despia completamente?
Eu fiz a primeira apresentação, que foi em Vitória, e houve um problema por que me prometerem um espaço para eu tocar um tema com a banda e na hora H, não se sucedeu. Foi uma rasteira entre o Guilherme Araújo, que era o produtor do disco, e o próprio Ney, por que no intervalo, eles estavam tão alucinados pelo meu trabalho, principalmente pela faixa que você cita e também por “Mulheres de Atenas”, que eu também fiz o tema para o Chico Buarque, sabia, tem tudo isso aí, mas tudo bem, o que importa mais é que levei a rasteira. A primeira apresentação lotada, esse negócio de tirar a roupa, blá blá blá, não era muito a minha, você sabe, pô, não tem nada a ver com rock progressivo, e daí saí. Terminei o disco e segui para outro caminho com a Rita e com o Roberto, e te digo por que.

O que você fez a partir de então?
Acabei indo estudar nos Estados Unidos, mas foi um saco, não dava para aguentar. Acabei tocando panelas com um grupo de percussionistas latinos, toquei no Central Park, ganhei uma grana. Foi um período bacana.

Capa do CD A-Revolta

Em 2002, o Veludo voltou com A Re-Volta, o primeiro disco de estúdio. Fale-nos um pouco sobre esse álbum.
Em 1994 eu iniciei a gravação de “Portas do Céu”, uma das primeiras músicas que fiz, do CD A Re-Volta, uma sinfonia dedicada ao meu pai. Eu sonhei com essa música, e aí acordei, criei isso na minha mente, e construí do meu sonho, a realidade. A Re-Volta hoje está tão valorizada que todo mundo anda procurando; ninguém mais tem, esgotou, nem eu.

Podemos criar a expectativa de um lançamento inédito com matérias dos anos 70, bem como de composições atuais, para breve?
Opa, vou lhe dar isso em primeira mão. No momento, estou cumprindo além dessa repentina e totalmente inesperada gama de pedidos, dentro de nosso ramo, profissionalmente irrecusáveis. Dentro de minha agenda própria que inclui apresentações, rádios e três teatros para junho. O mais importante e lindo que agora vou revelar com exclusividade e em primeira mão para vocês: Estou entrando em estúdio para gravar meu novo e mais nobre CD, que é meu sonho maior. Estou em êxtase total.... Ensaiando o mais lindo. Totalmente produzido e com o orgulho que compartilho esse presente/futuro de sonho e magia.

A formação do Veludo que gravou A Re-volta: Lincoln Bittencourt, Elias e Gustavo Schroeter

Conte-nos uma história curiosa, ou engraçada, envolvendo sua carreira, seja no Veludo ou fora dele.
Uma história engraçada é que teve uma época que eu toquei com Fafá de Belém e Tamara Taxman. Um dia, no camarim, a gente tava se trocando e a Fafá tinha 2,5 kg de picanha em cada peito, e a outra, não tinha nada. Eu só pensava: “Eu hein?”

Para finalizar, por favor, deixe um recado para nossos leitores e os fãs do Veludo no Brasil e no mundo. Muito obrigado por sua história, saúde e sucesso sempre.
Amei as perguntas, viu. Demonstram conhecimento e labuta. Meus sinceros parabéns. Você fez perguntas muito pertinentes, que poucos sabem, que mostram que você pesquisou e estudou, e isso para mim tem um peso. Apesar dos ETs invejosos, essa é a segunda entrevista mais importante que eu já dei. Tem muita coisa por aí que foi publicado sem me consultar, mas a vida é assim mesmo, a história fala por si só. Abraços carinhosos.

Um comentário:

  1. Caro amigo Mairon!vc poderia colocar os comentários da consultoria aqui!

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