domingo, 30 de novembro de 2025

Eu Desprezo O Meu Passado - Parte I

N. R. Este texto é também uma breve homenagem ao nosso leitor Igor Maxwell, fã de Roberto Carlos

Ah, os álbuns de estreia. Quantas bandas e artistas orgulham-se de terem em seus primeiros discos verdadeiras escolas da arte, essenciais em qualquer prateleira dedicada à música. Led Zeppelin, Black Sabbath, Kiss, The Doors, Jimi Hendrix, Cream, King Crimson, The Stooges, Ramones, Van Halen, Dire Straits, Posssessed, Slayer, Metallica, Mötley Crüe, Guns N' Roses,  Pearl Jam, Rage Against the Machine, Os Mutantes, Secos & Molhados, Legião Urbana ... a lista é enorme de nomes que eternizaram seus primeiros álbuns, e passaram o resto da carreira tendo que tocar no mínimo uma canção destes discos nas suas apresentações. 

Porém, muitos artistas surgiram em sua carreira cantando não exatamente aquilo que gostariam, mas sim fazendo algo que o empresário, ou os pais, ou até mesmo a gravadora obrigou/sugeriu. Fora aqueles que, com o passar dos anos, acabam modificando formações, e abandonaram os estilos que construíram inicialmente, tomando novos rumos inimagináveis quando de seus primeiros discos.

Dentre esses dois mundos, há com certeza uma boa gama de artistas que simplesmente, ao se tornarem gigantes, desprezaram totalmente seus lançamentos iniciais. Quando eu digo desprezar totalmente, quero dizer que nunca mais apresentaram canções de seus primeiros discos, ou se quer as colocaram em alguma coletânea. Trago aqui alguns nomes conhecidos nacional e mundialmente, com a certeza de que deixei outros de fora, mas que o nobre leitor terá o espaço dos comentários para relembrar aquele artista que desprezou totalmente seu passado. Começo com três gigantes nacionais e três nomes do progressivo britânico, e em dois dias, apresento mais seis nomes consagrados mundialmente. 

Roberto Carlos 

Álbum desprezado: Louco Por Você [1961]

Este talvez é o caso mais emblemático de todos os discos que irão aparecer por aqui. Lançado dois anos depois da estreia em compacto do jovem Roberto (com apenas 20 anos), Louco Por Você é uma mistura de estilos musicais que variam de boleros e roquinhos (com destaque para "Só Você"), até MPB (aqui destaca-se "Ser Bem") e música romântica (com uma constrangedora versão para "Cry Me A River", batizada "Chore Por Mim"). A maioria das composições é de Carlos Imperial (responsável por lançar Roberto nas rádios no fim dos anos 50, início dos 60), com arranjos orquestrais feitos por Astor Silva para agradar os "jovens" daquela época. O disco foi um fracasso de vendas (estimativas dizem que vendeu no máximo 500 cópias), e o Rei Roberto, após adquirir esse status monárquico, nunca quis relançar o álbum em formato algum, inclusive quando foram resgatados todos os seus discos da década de 60 no formato de CD. Além disso, solicitou (ordenou?) a retirada do disco na edição digital do iTunes, no ano de 2012, ficando apenas versões piratas e as raras edições comercializadas nos anos 60. Há boatos que ele teria comprado as cópias restantes do disco e mandado destruí-las, o que é uma lenda tão grande quanto a referente ao seu maior rival em termos de raridade nacional, a cópia original de Paebirú. De qualquer forma, apesar de chatinho, a voz marcante de Roberto está lá para todos conferirem. 

Elis Regina 

Álbuns desprezados: Viva a Brotolândia (1961), Poema de Amor (1962), Ellis Regina (1963) e O Bem Do Amor (1963)

A linha musical destes discos da Pimentinha vai na mesma da de Louco Por Você. A diferença central aqui é a idade de Elis. Se Roberto tinha apenas 20 anos em seu disco de estreia, Elis tinha apenas 15 em Viva a Brotolândia, e continuou uma adolescente de 17 e 18 anos nos demais discos, nos quais ela foi rebatizada como Ellis Regina (com dois L's), em uma tentativa indecorosa de conquistar um mercado internacional. Totalmente incapaz de controlar sua carreira, Elis submeteu-se a gravar de tudo um pouco nesse período. Sambinhas, roquinhos, boleros, jazz, tcha-tcha-tcha, e outros estilos da moda, em discos praticamente tão confusos quanto as lembranças de Elis para estes álbuns. Mas, apesar de mesmo muito jovem, e cantando "canções de amor" que pouco correspondiam para uma adolescente, a menina Elis já mostra o vozeirão que a consagraria anos depois em faixas como "À Noite", "Dá Me Um Beijo", "Há Uma História Triste", "Mesmo de Mentira", "Murmúrio", "Outra Vez", "Podes Voltar" e "Retorno" (para pescar duas canções de cada álbum). Estas 4 raridades nunca tiveram relançamentos oficiais enquanto Elis estava viva. Há uma coletânea não oficial, lançada pela Disco Lar em 1969, que apresenta canções dos dois primeiros álbuns, e com a capa idêntica a de Poema de Amor. Em 1982, com o falecimento de Elis, a Som Livre lançou um compacto com "Baby Face" e "Me Deixas Louca", no que seria a primeira e a última gravação de Elis unidas em um único disquinho, bem como a Continental lançou Nasce Uma Estrela..., álbum duplo com Viva a Brotolândia no vinil 1 e Poema de Amor no vinil 2, e em 1989, a Phonodisc relançou Nasce Uma Estrela em versões individuais, batizadas respectivamente 1961 Nasce Uma Estrela - 1º LP De Elis Regina e 1962: A Estrela Brilha - Segundo LP De Elis Regina, totalmente caça-níqueis. Ellis Regina e O Bem Do Amor saíram em raras edições em CD no final dos anos 90 e em meados dos anos 2000, mas honestamente, os quatro são discos apenas para completistas.

Rita Lee 

Álbuns desprezados: Build Up [1970] e Hoje É O primeiro Dia Do Resto da Sua Vida [1972]

Diferente de Elis e Roberto Carlos, aqui o caso de desprezo não é pela qualidade, mas talvez por quem acompanha a artista principal na produção: Arnaldo Baptista. Nos seus dois discos de estreia, Rita Lee estava ainda nos Mutantes, e é na companhia do então marido Arnaldo, Sergio Dias, Liminha e Dinho Leme (os então colega de Mutantes) que ela grava álbuns muito bons, que facilmente estão entre os melhores que ela já lançou. Build Up fez um pequeno sucesso quando de seu lançamento, tendo sido responsável, segundo as más línguas, pelo início do fim de Rita com os Mutantes - o álbum havia vendido mais sozinho do que os 4 discos lançados pela banda até então, e a fama teria subido à cabeça de Rita. Faixas como "Sucesso Aqui Vou Eu" e "José" viraram preferidas dos fãs logo de cara, mas há bem mais neste bom disco. Já o segundo álbum tem a forte presença dos músicos do Mutantes, e é uma sensacional experiência sonora para quem admira o som do então quinteto, com destaque para faixas como "Superfície do Planeta", que já revela os caminhos progressivos que eles iriam assumir logo em seguida, "Tapupukitipa", outra faixa com grandes temperos progressivos, e a própria faixa-título. Coloco facilmente este num Top 5 da ruiva (se bobear, Top 3). Porém, após sair dos Mutantes, criar a Tutti-Frutti logo em seguida, e passar o resto de sua vida ao lado do marido Roberto de Carvalho, Rita nunca se deu ao trabalho de tocar uma única canção destes discos. Ambos foram relançados em vinil em 1986, e em CD em 1992, e canções de ambos os discos saíram por coletâneas não-autorizadas da Fontana (selo ligado à Philips), no caso O Melhor De Rita Lee (1976), e da Polyfar (selo ligado à Polygram), no caso Os Grandes Sucessos De Ritta Lee (1981), e estão presentes no Box Discografia (de 2015), que abrange toda a carreira solo de Rita, mas mesmo assim, a ruiva nunca mais deu atenção para essas joias musicais. 

Genesis 

Álbum desprezado: From Genesis to Revelation [1969]

O Genesis começou mudando de baterista como quem muda de roupa. Em menos de um ano passaram 3 nomes pelas baquetas da banda, sendo os principais John Silver e Chris Stewart. From Genesis to Revelation é a estreia do grupo, e surgiu através do produtor, escritor e empresário Jonathan King, que foi o responsável por batizar o nome da banda, sugerir arranjos (a cargo de Arthur Greenslade), ajudar nas composições, e que com tudo isso, ficou detentor dos direitos sobre o disco. Até hoje, ele é o nome para o qual From Genesis To Revelation pertence, mesmo com a insistência de Tony Banks (tecladista do Genesis) em comprá-lo. É um Genesis muito diferente daquele que se torna um gigante prog no ano seguinte, com letras místicas/religiosas, e que junto com a capa preta somente com o título do álbum, foi catalogado em lojas de música nas seções religiosas, sendo impossível de ser encontrado por alguém que quisesse ouvir o som leve da banda. Dentre as 13 faixas há várias músicas de bom nível, e destaco "In the Beginning", "In Limbo", "The Conqueror" e principalmente "The Serpent". O álbum foi relançado inúmeras vezes pelas mãos de King, mas o Genesis que se forma com Banks, Peter Gabriel, Mike Rutherford, Steve Hackett e Phil Collins a partir da década de 70, jamais tocou uma única canção deste bom disco  (apesar de reaproveitar alguns trechos instrumentais de uma que outra canção). E mesmo coletâneas oficiais como os boxes Genesis (1982),  Genesis - The Best Of! - Special Club Edition - 10 records (1985) e  Archive 1967-75 (1998) não trazem nada do álbum, no máximo algumas mixagens diferentes no caso de Archive ..., e só.

The Moody Blues 

Álbum desprezado: The Magnificent Moodies [1965]

Para quem conhece o Moody Blues como um dos pais do rock progressivo, com letras densas, álbuns conceituais, camadas de mellotron, a flauta brilhante de Ray Thomas e os vozeirões de John Lodge e Justin Hayward retumbando nas caixas de som, não consegue entender como essa banda transformou-se tanto em pouco tempo. A estreia dos Blues é um bom disco de British Blues, onde quem comanda a trupe é o vocal e a guitarra de um certo Danny Laine (futuro Wings), o qual destaca-se junto de ótimas vocalizações e o piano agitado em rocks/blues típicos do período, como mostram "Bye Bye Bird" (de Sonny Boy Williamson, com Danny comandando a harmônica), "I'll Go Crazy" e "I've got a Dream". Há baladinhas sessentistas para o piano de Mike Pinder brilhar, principalmente na faixa mais conhecida do álbum, "Go Now!", que inclusive batizou relançamentos do disco ao longo dos anos nos Estados Unidos e Canadá, ou nas lindinhas "I Don't Mind" e "Let Me Go". Ray surge com sua flauta aqui acolá, sendo mais atração por seu vozeirão na ótima interpretação vocal para "It Ain't Necessary", de Ira e George Gershwin. O Moody Blues era mais uma boa banda britânica lutando por seu espaço, na linha de Animals, Stones, Beatles, Yardbirds, entre outras, e é inacreditável que apenas a saída de Laine, e a entrada de Lodge e Hayward, levou o grupo a criar algo tão inédito quanto Days of Future Passed dois anos depois, seguindo na mesma linha e conquistando o mundo a partir de então. Nada do que foi gravado aqui foi apresentado ao vivo pós-entrada da dupla Hayward/Lodge. A Decca (detentora dos direitos do álbum) lançou uma coletânea batizada The Beginning Vol. 1, em 1973, pouco depois do primeiro término da banda, que resgata algumas faixas deste período, mas as principais coletâneas da banda, This Is The Moody Blues (1974) e 20 Super Hits By The Moody Blues (1980) não trazem uma única musiquinha de The Magnificent Moodies

Renaissance 

Álbuns desprezados: Renaissance [1969], Illusion [1970]

Quando os Yardbirds acabam em 1968, o vocalista e gaitista Keith Relf já estava pensando em outros caminhos musicais. Sua ideia era focar-se na música renascentista, fugindo do blues e do british rock que o haviam consagrado anos antes. Assim, com a irmã Jane Relf, o parceiro de Birds Jim McCarty e mais baixista Louis Cennamo (baixo) e John Hawken (piano, teclados), forma a Renaissance em 1969. De cara lançam um álbum excelente, um dos pilares do que podemos chamar de prog sinfônico, com lindas faixas comandadas pela voz suave de Jane, o complexo piano de Hawken e melodias/harmonias muito bonitas, vide "Kings & Queens", "Islands" e "Bullet". Divergências musicais e brigas internas levaram à mudanças na formação para o segundo álbum, Illusion - o qual é lançado originalmente só na Holanda e França - , o qual também é uma obra sensacional, mas foi gravado durante mais problemas, já que Keith no meio das gravações, decide pular da barca, deixando o nome Renaissance nas mãos de Hawken e Jane. O álbum acaba sendo uma miscelânea de canções gravadas com Relf e após sua saída, mas com lindas faixas como "Face of Yesterday" e "Golden Thread", estas ainda com Relf. Para terminar o disco, Hawken chamou amigos de uma ex-banda com quem tinha tocando pré-Renaissance (o The Nashville Teens), e dentre eles, Michael Dunford, além da escritora Betty Thatcher. Dentre os registros da nova formação, destaque para "Mr. Pine", primeira composição de Dunford para o grupo, e que teve seu trecho instrumental central reaproveitado anos depois em "Running Hard", um dos mega-sucessos do grupo. Illusion teve uma parca turnê de divulgação, Hawken e Jane desistem do projeto, e Dunford fica a ver navios. Com a parceria de Thatcher, eis então que reformam a Renaissance, agora com Annie Haslam  (vocais), John Tout (piano) e Jon Camp (baixo), mais Terence Sullivan (bateria) e Mick Parsons (guitarra), e o resto é história. Veio Prologue (1972) e a Renaissance de Haslam lançando discos de sucesso atrás de sucesso ao longo dos anos 70, desprezando totalmente o período dos Relf (tanto que após a morte de Keith, os demais ex-Renaissance criam a Illusion, justamente para resgatar canções da primeira geração do Renaissance em homenagem ao loiro). Levou anos para que Annie desse o ar da graça e inserisse a faixa "Island" no repertório do Renaissance, e nas diversas coletâneas da banda, são pegas somente canções a partir de Prologue, sem fazer uma citaçãozinha para estes dois lindos e fundamentais álbuns.

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