quarta-feira, 26 de novembro de 2008

O Supertramp que poucos conhecem


Tudo bem, você não aguenta um minuto de "The Logical Song", acha o sax de John Helliwell um Kenny G. melhorado, sai correndo ao ouvir a voz aguda de Roger Hodgson e pensa que "School" é mais uma música bonitinha de história de amor, mas o Supertramp um dia foi uma banda de primeira qualidade, diferente do que veio a fazer depois do lançamento do álbum "Crime of the Century", de 1974.

O grupo foi formado no ano de 1969 através de um anúncio do pianista e vocalista Rick Davies no famoso semanário inglês Melody Maker. Responderam ao anúncio diversos músicos, mas os escolhidos foram Roger Hodgson (baixo - sim, ele entrou como baixista - e vocais), Richard Palmer (guitarras - que faria sucesso como letrista do King Crimson) e Robert Millar (bateria).
 
Naquela época, a A&M Records era uma pequena gravadora londrina, e o grupo foi um dos primeiros a assinar com a mesma, lançando o fabuloso álbum Supertramp no início de 1970. O disco traz ótimas canções, mostrando a banda no estilo flower power do fim dos anos 60, mas também com uma certa tendência progressiva. 

O álbum começa com uma pequena vinheta chamada "Surely", e em seguida apresenta "It's a Long Road". Com uma levada bem rock and roll, tendo o órgão e a guitarra como destaques, a música vai apresentando a banda devagar para o ouvinte, contando com um solo de órgão de primeira qualidade e levando à bela balada "Aubade / And I Am Not Like Other Birds of Prey", com uma fabulosa introdução de Rick no órgão. É interessante notar que estas três canções são com Roger nos vocais. Depois de "Crime of the Century" o grupo sempre lançou discos com as faixas alternando os vocais entre Rick e Roger, até a saída do último em 1983. 

Mas, voltando ao disco, após "Aubade ... " seguem "Words Unspoken", onde temos um bom dueto de guitarra e voz, mostrando que o Supertramp sabia fazer, e bem, a parte instrumental, e "Maybe I'm a Beggar", um lamento cantado por Palmer e Hodgson com uma letra irônica. O órgão de Davies está cristalino na faixa, e é interessante ver como a banda tinha potencial suficiente para se encaixar entre os grandes nomes dos anos 70. O lado A encerra com a curta vinheta "Home Again".

A coisa esquenta no lado B, que começa com a rápida "Nothing to Show", onde os vocais são divididos entre Hodgson e Davies. O trabalho de órgão aqui é muito bom, bem como a pegada precisa da bateria de Millar e os acompanhamentos de Palmer. Uma boa faixa que poderia servir de primeira do Lado A. "Shadow Song" acalma a pauleira, dando um clima bem anos 60. 

Em seguida vem a melhor canção do trabalho, "Try Again". O início à la "It's a Beautiful Day", com uma flauta doce sendo envolvida por camadas e camadas de órgão, é acompanhado por uma sequência de versos de Hodgson que, quando você menos percebe, muda para o refrão direto. Após o estribilho a música volta ao seu início, suave e devagar, sendo que novamente o refrão intercala de forma inesperada. A partir de então temos uma longa seção instrumental, com órgão e guitarra fazendo um duelo empolgante, onde Palmer se inspira bastante nos guitarristas de jazz. A música vai aumentando o ritmo até virar um rockão com solos de guitarra bem rasgados e com a banda acompanhando em primeira linha. 

Com certeza você não encontrará nada igual nos demais discos do Supertramp. Por um instante a faixa parece que não vai acabar, só que, de forma inesperada, o som pára. Passos e barulhos são ouvidos por alguns segundos, criando o clima de tensão que a música sugere, afinal ela conta a história de alguém que comete um erro e se arrepende do que faz. Com o passar da canção temos novamente o refrão, tocado de forma bem forte e diferente da maneira que era executado antes do solo, encerrando a faixa com uma dinâmica e com a bateria estraçalhando tudo o que vem pela frente. O Supertramp só viria a fazer algo parecido com isso bem depois, em 1985, quando David Gilmour assumiu as guitarras em "Brother Were You Bound", uma pérola de 16 minutos perdida no fraco álbum de mesmo nome. 

O disco encerra com "Surely (Reprise)", onde a mesma vinheta inicial agora é executada com um belo solo de órgão que lembra muito os bons tempos de Rick Wright. Um detalhe interessante é que esse primeiro álbum foi lançado somente na Inglaterra em 1970. O resto do mundo veio a conhecer o que o Supertramp fez de bom somente em 1977.

Como a banda não fez sucesso, houve uma reformulação dos músicos, com a formação ficando com Davies, Hodgson assumindo as guitarras, Kevin Currie (bateria), Frank Farrell (baixo) e Dave Winthrop (flauta e saxofone). Com essa formação lançam Indelibly Stamped (1971). A capa da mulher nua tatuada causou uma certa polêmica, o que fez com que o nome Supertramp ficasse mais conhecido na Europa. 

O disco mantém a linha do álbum de estréia, abrindo com "Your Poppa Don't Mind", já com Davies mostrando o que podia fazer nos vocais. Essa faixa segue uma linha bem Allman Brothers, o que mostrava que o Supertramp já começava a ficar indeciso sobre qual rumo seguir. 

"Travelled"  começa com uma bela introdução de flauta e violão, em uma levada lenta, que lembra um pouco o que o grupo viria a fazer anos depois, como, por exemplo, em "The Meaning". As vocalizações à la Mamas & The Papas mostra que a banda evoluía também na parte vocal. "Rosie Had Everything Planned" é mais uma faixa bem elaborada, com um ótimo clima de violão e voz. Esse era o essencial da banda, a categoria de Hodgson em prender o ouvinte, e os trabalhos harmônicos de cada integrante eram de primeira qualidade. O baixo e o piano preparam a base para um belo solo de acordeão feito por Farrell. 

A seguir temos "Remember", onde o destaque agora fica por conta de uma das primeiras aparições do saxofone no som do Supertramp, sendo que depois este instrumento viria a ganhar um destaque maior na banda. A faixa tem uma ótima levada, com todos os instrumentos gravados no volume máximo, fazendo com que a audição soe meio distorcida no início. Mesmo assim a música é muito boa e vale a pena ser ouvida. "Forever" retorna ao clima das baladas, fechando o lado A em alto nível.


O lado B abre com a rápida "Potter", onde Withrop mostra seus dotes de vocalista de rock. Essa é outra faixa bem ao estilo sulista americano, e com certeza é uma das melhores do disco. Em seguida temos uma sequência de faixas cantadas por Davies: "Coming Home to See You", cuja introdução praticamente foi copiada na da canção "Crime of the Century", porém virando depois um country rock onde temos uma longo duelo de órgão e harmônica; a balada "Times Have Changed"; e "Friend in Need", que serve de introdução para a última faixa, "Aries", essa sim o de maior destaque entre todas.

A sonoridade e levada do violão de Hodgson, junto com intervenções de flauta e uma leve percussão, levam à uma sequência de improvisos de quase seis minutos, após algumas frases cantadas por Hodgson. Segundo Davies, esta canção entrou no álbum por que a banda estava com dificuldades criativas de elaborar algo, sendo que a mesma havia sido gravada um ano antes em um único take, ao vivo no estúdio, ficando da forma que ficou no vinil.


Um detalhe a ser mencionado é que a capa interna do LP trazia comentários de Davies para cada uma das faixas, tornando a música mais interessante (ou não), dependendo do comentário.

"Aries" foi o último suspiro de "o que vamos fazer daqui pra frente com o Supertramp", pois após isso, mesmo "Indelibly Stamped" sendo um ótimo disco, a banda novamente mudou de formação, agora com a dupla Davies-Hodgson sendo assistidos por Bob Benberg (bateria), John Helliwell (saxofones) e Dougie Thomson (baixo), seguindo uma linha mais comercial e que tornaria o grupo mundialmente conhecido com músicas como "Dreamer", "School", "Babaji" e "Breakfast in America".
Essa é a formação clássica da banda, que gravou álbuns como Crime of the Century (1974), Even in the Quietest Moments ...  (1977) e  ... Famous Last Words ... (1982), e que registrou obras do quilate de "Fool's Overture", "Rudy", "Two of Us" e "Don't Leave Me Now". O material subsequente desta fase merece respeito, mas ficou a sensação de que o Supertramp  poderia ter seguido outros rumos como os de "Try Again", "Nothing to Show", "Potter" e "Aries".

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Shákti: a viagem indiana de John McLaughlin

  
O guitarrista John Mclaughlin sempre foi conhecido pelo seu talento em revelar grandes músicos, e também por ser um ídolo de gênios do calibre de Eddie Van Halen, Steve Vai e até mesmo Frank Zappa. 

John estreou na carreira musical com o excelente álbum "Extrapolation" (1969), onde seu virtuosismo jazzístico, aliado à precisão de Tony Oxley na bateria e Brian Odgers no baixo, bem como o talento de John Surman nos sopros, pode ser considerado como as raízes do fusion e da world music.

Nos anos seguintes, McLaughlin lançou "Devotion" (1970) e "My Goals Beyond" (1971), seguindo a mesma linha de "Extrapolation".

Nesse meio tempo, John tentou realizar aquilo que sempre foi seu sonho: montar um grupo que misturasse jazz, rock'n'roll, blues e música clássica. O maior detalhe desta banda é que ela não deveria ser parecida com outras da época que tentavam soar da mesma forma (o que veio a ser chamado de progressivo), mas sim basear-se única e exclusivamente em longas seções dedicadas ao improviso e à harmonização das canções. 

 
Surge então em 1971 a Mahavishnu Orchestra, onde McLaughlin é apoiado nada mais nada menos por Jerry Goodman (violinos), Billy Cobham (bateria), Jan Hammer (teclados) e Rick Laird (baixo), entre outros menos conhecidos. Isto na primeira encarnação da Mahavishnu. Na segunda (1974), os músicos eram Gayle Moran nos teclados e vocais, Jean-Luc Ponty no violino, Ralphe Armstrong, no baixo e Narada Michael Walden na bateria. 

Como era esperado, a Mahavishnu se revelou uma grande banda, com excelentes músicos, mas com egos muito complicados. Mesmo assim, o grupo fez sucesso com excelentes discos como "The Inner Mountain Flame" de 1971 e "Apocalypse" de 1974.Em 1974 John reencontrou um velho amigo indiano, Lakshminarayanan Shankar (L. Shankar), o qual já tinha feito seu nome tocando com Ornette Coleman e Jimmy Garrison durante o final da década de 60. 

Em um concerto de Shankar, McLaughlin ficou extasiado com a sonoridade que vinha da percussão que acompanhava o violinista, a qual era formada somente por instrumentos indianos.A partir de então, alguns contatos foram feitos e, com poucos ensaios, Shankar e McLaughlin se uniram, formando uma das mais espetaculares bandas da década de 70, a Shakti. 

Basicamente na Shákti McLaughlin teria a oportunidade de fazer aquilo que não conseguia na Mahavishnu: tocar sem compromisso, sem seguir regras, apenas seguindo o sentimento e a própria vontade. Os outros integrantes da Shakti eram Zakir Hussain (tabla), Thetakudi Harihara Vinayakram (ghatam) e Ramnad Raghavan (mridangam), todos naturais da Índia. 

Para tocar com os músicos indianos, John encomendou com o luthier da Gibson, Abraham Wechter, um violão especial, que trazia sete cordas adicionais perpendiculares às seis cordas tradicionais do violão normal, as quais davam um som parecido com o de uma cítara.
 
Logo no primeiro lançamento, uma obra-prima. "Shakti with John McLaughlin" foi gravado ao vivo em um concerto na sala de espetáculos do Colégio South Hampton, em Nova Iorque. O lado A conta com "Joy", com um belo trabalho de Hussain, e "Lotus Feet", que viria aparecer depois na turnê de McLaughlin com Paco De Lucia e Larry Coriell. 

Já no lado B temos a incrível "What Need Have I for This - What Need Have I for That - I Am Dancing at the Feet of My Lord - All is Bliss - All is Bliss", que, conforme seu nome, possui mais de 28 minutos de muita improvisação e sentimento. Durante toda a faixa fica claro que os músicos estão em êxtase em cima do palco, no auge da inspiração e harmonia. Os duelos de ghatam e tabla sobressaem em várias etapas. O clima indiano e a levada diabólica da música com certeza irão fazer você viajar pra outro mundo, mesmo estando no seu quarto. 

Isso era o principal da Shakti, a viagem sem fim. Mesmo contando com um guitarrista de renome, não era ele o destaque da banda, aliás o grupo não tinha um destaque. Todos se encaixavam de forma a harmonizar cada segundo da canção, tornando assim a música uma peça não só para ser ouvida, mas também absorvida como um bom vinho.
Em 1976 a Shakti lança o fabuloso "A Handful of Beauty". Logo de cara, uma inovação: os músicos introduzem a canção "La Danse Du Bonheur" com vocalizações que imitam as batidas de uma tabla. Perfeito!  Após a introdução, uma ótima sequência entre violão e violino dá início a uma levada forte, com um solo de violino rápido e eficiente. "Lady L." diminui um pouco o ritmo da faixa anterior, e trás mais um belo solo de L. Shankar. É difícil não ouvir essa música e compará-la com a versão de "Kashmir" do "UnLeded". 

"India" talvez seja a mais bela composição do grupo, o que mostra que a Shakti havia evoluído em termos de organização, não detendo-se apenas em evoluir em cima de improvisos. A canção começa com lentos dedilhados e arpejos de John, os quais vão aumentando a cadência lentamente e servem de base para que L. Shankar delire em cima de seu violino. Um longo improviso se faz ouvir, e com certeza, o clima oriental preenche o recinto em que você estiver ouvindo essa canção. Com o passar dos 12 minutos, temos uma pequena sequência de harmônicos executadas juntamente com a percurssão e o violino fechando a canção. Simplesmente demais. 

O lado B começa com a rápida "Kriti", onde temos várias sequências em que o violão faz duelos com o violino e com a tabla. É importante destacar que Zakir Hussain está em papel de destaque em todas as faixas, executando a tabla como poucos. A faixa seguinte, "Isis", está no mesmo nível de "India". Quinze minutos de uma sequência de solos de Shankar e John, sempre intercalados por um riff principal onde ambos fazem algo típico do oriente. 

O LP termina com "Two Sisters", um lamento super lento apenas com John no acompanhamento e L. Shankar executando um solo triste, porém marcante, que deixa um gosto de quero mais para o ouvinte.
                   

Em 1977 é lançado "Natural Elements". O disco tentou abranger um lado mais comercial, não possuindo nenhuma faixa com mais de sete minutos, e com os instrumentos indianos sendo substituídos (ou melhor, superados na audição) por instrumentos mais ocidentais como cymbals, triângulos e bongôs. 

O disco começa com a rápida "Mind Ecology", onde, mesmo com os novos instrumentos, existe uma levada bem oriental. Na sequência, "Face to Face" é a mais comercial de todas. Uma música que poderia ser encaixada em qualquer disco dos anos oitenta. 

A curta "Come on Baby Dance With Me" (olhem o nome da canção!!!) dá início à bela "The Daffodil and The Eagle". Esta é a que mais se assemelha aos sons anteriores da Shakti, até por que é a maior faixa do álbum. O início lento, apenas com o violão e o violino, dá um clima bem oriental, que se alterna depois entre um ritmo mais rápido, ou não. O sincronismo de notas entre McLaughlin e Shankar é fantástico. A mistura de escalas de blues feita por John com um acompanhamento oriental da parte percussiva cria um sabor diferente para o ouvinte, dando realmente um nó na cabeça daquele que não está acostumado com inovações. Essa canção já vale o investimento do disco. 

O Lado B é mais fraco, mas mesmo assim traz momentos interessantes como as vocalizações à la "Danse ..." em "Get Down and Sruti", e também a bela "Peace Of Mind".



John resolveu voltar para a carreira solo após esse álbum, lançando o magistral "Electric Guitarist" em 1978. Depois disso, alternou bons e maus momentos em sua carreira solo, reviveu a Mahavishnu Orchestra nos anos oitenta e fez sucesso com o trio  ao lado deAl Di Meola e Paco De Lucia. Os demais integrantes da Shakti seguiram suas carreiras independentemente, com Vynaiakram sendo o primeiro músico indiano a ganhar um Grammy (isso já na década de 90).

Em 1997, John, Hussain e Vinayakaram, juntos com o músico convidado Hariprasad Chaurasia nas flautas, se reuniram para uma pequena turnê chamada "Remember Shakti", a qual ficou registrada em CD duplo com o mesmo nome. Infelizmente L. Shankar não pôde comparecer aos shows, mas certamente o clima entre os músicos remanescentes era excelente, e o destaque maior do disco fica por conta da faixa "Mukti", com seus mais de 63 minutos (!!!) de muito improviso. Essa formação ainda lançou os álbuns "The Believer" (1999) e "Saturday Night in Bombay" (2001), mas infelizmente acabaram por se separar.

De qualquer forma, a Shakti deixou seu nome registrado na história musical, não somente por ser a primeira banda a misturar sons ocidentais e orientais de uma forma totalmente improvisional, mas também por suas belíssimas composições e arranjos que ficam na cabeça por muito tempo.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Scorpions Fase Uli Roth

Sou um grande admirador da música dos anos 70, e também de diferentes bandas que se tornaram conhecidas por algum som que, no fim das contas, não é o estilo verdadeiro ou inicial das mesmas. Este é o caso do Scorpions, que a maioria conhece como a banda que gravou "Still Loving You" e "Rock You Like a Hurricane", mas poucos ouviram os álbuns "In Trance" e "Lonesome Crow". Enfim, neste espaço quero dar atenção a esses grupos que possuem excelentes materiais (em minha opinião, claro, afinal têm gente que gosta de pagode), mas que, de uma forma ou de outra, são idolatradas por algo mais popular.

A banda alemã Scorpions teve suas origens na metade da década de 60, mais precisamente em 1965. Não vou entrar nos detalhes da história do grupo, pois quero falar mais sobre seus discos, mas, enfim, os irmãos Schenker (Rudolph e Michael) conheceram Klaus Meine e junto com mais dois amigos montaram o Scorpions. No início os caras eram muito influenciados pelos ingleses Yardbirds, The Who, Spooky Tooth e Pretty Things.

Somente em 1972 conseguiram um contrato com uma gravadora e lançaram "Lonesome Crow". Um fato interessante desse álbum é que durante a turnê de divulgação a banda abriu os shows do UFO. Como o guitarrista do UFO estava doente, Michael foi convidado a substituir o mesmo e, no fim das contas, saiu do Scorpions e foi virar líder de outra grande banda dos 70 que também pretendo falar aqui. Bom, voltando ao álbum, "Lonesome Crow" mostra um Scorpions bem setentista. Mutas guitarras à la Hendrix e até um certo clima de psicodelia. Os destaques na minha opinião ficam para "I'm Going Mad" e a belíssima "Lonesome Crow", onde Michael, ainda garoto, mostra porque viria a ser considerado o mestre da Flying V nos anos seguintes.

Com a saída de Michael Schenker a banda passou a procurar um novo guitarrista. Não demorou muito e o próprio Michael indicou o amigo Uli Jon Roth. Uli já tinha feito algum sucesso com um grupo chamado Dawn Road e era muito amigo dos Schenker. Logo de cara ele trouxe uma inovação ao Scorpions. Uli também cantava, portanto o grupo tinha agora, além de um excelente guitarrista, dois grandes cantores que dividiam os vocais em algumas faixas, bem ao estilo do Purple na fase Coverdale-Hughes.


O primeiro álbum de Uli com o Scorpions saiu em 1974 e é uma pedrada. "Fly to the Rainbow" contém hinos do início ao fim. O disco abre com o solo clássico de "Speedy's Coming", já mostrando a nova sonoridade de Uli, usando e abusando de bends e arpejos, os quais marcariam futuramente sua carreira. O lado A segue com "They Need a Million", "Drifting Sun" e "Fly People Fly", apenas amaciando o terreno para o lado B (bons tempos do vinil, onde você tinha esa vantagem).

Virando o disco e colocando a agulha no segundo lado do disco (ou o CD na faixa 5) mais um solo marcante de Uli dá início a "This is My Song". Os vocais rasgados de Klaus e a competentíssima cozinha de Francis Buchholz e Jürgen Rosenthal, bem como o acompanhamento de Rudolph, dão sequência ao belíssimo solo de Uli. Com dedilhados suaves e muitos bends, a letra narra uma pequena história de um rockeiro apaixonado por sua namorada mas que não consegue se livrar da vontade de tocar guitarra. Um CLÁSSICO!


O disco segue com a balada "Far Away", que não uma balada como "Still Loving You", mas sim uma introdução para a grande música do álbum, "Fly To The Rainbow". Essa sim, um dos ícones da geração Roth (posteriormente gravada pelo Therion em "A'arab Zaraq - Lucid Dreaming"). O início acústico mostra que Uli também era um grande violonista, criando um clima meio acampamento. A seguir vemos o quanto a banda estava afiada. Uma pequena sequência de estrofes é cantada por Klaus, seguida pelo riff principal da canção. Com o fim das estrofes, a música novamente muda de clima, agora adquirindo uma tonalidade mais viajante, onde Uli mostra mais uma de suas habilidades, o uso da alavanca. Uli Jon Roth canta pequenas estrofes e emenda um solo inesquecível, onde a alavanca se sobressai de uma forma incrível, somente superada pela versão ao vivo do "Tokyo Tapes". Para mim essa é a melhor canção do Scorpions em todos os tempos, principalmente por que as sequências das estrofes são lindas e muito bem elaboradas.



No ano seguinte o grupo deu sequência com "In Trance". Só a capa do disco já vale o investimento (uma bela loira transando com a guitarra), mas ao colocar a agulha vemos que o álbum tem muito mais. "Dark Lady" mostra um Scorpions ainda mais afiado, agora com o baterista Rudy Lenners. Uli detona do início ao fim, muito bem acompanhado de Rudolph. Na sequência, a clássica"In Trance" (que apareceria no "Live Bites" anos mais tarde) com o seu refrão característico. Essa foi uma das primeiras canções a antecipar o som que tornaria o Scorpions mais conhecido dos anos 80. A sequência do disco não é tão boa quanto a de "Fly to the Rainbow", mesmo assim temos destaque para os vocais de Uli em composições como "Robot Man" e também para o belo trabalho de Rudolph em "Sun in My Hand".



1976 foi o ano de lançamento de "Virgin Killer". Com a famosa capa da menina nua amarrada, no Brasil esse disco foi lançado com uma capa contendo apenas o corpo de uma mulher tatuado com um escorpião. Todo o disco é constituído por pérolas. Apesar de soar bem mais comercial (o que faria com que dois anos depois Uli deixasse a banda), o trabalho tem ótimas composições.



Começando com "Pictured Life" e "Catch or Train", duas pauladas do início ao fim. Na sequência, "In Your Park" e "Backstage Queen" servem como uma preparação para a faixa-título. "Hell Cat" mostra um Uli totamente influenciado por Hendrix, tanto nos vocais quanto nas guitarras. O mesmo ocorre em "Polar Nights", outra onde Uli abusa dos arpejos. Enfim, um grande álbum que merece ser ouvido com toda atenção.


Em 1977 sai aquele que seria o último álbum de estúdio do Scorpions com Uli Jon Roth. "Taken by Force" mostra que Rudolph e Klaus estavam em atrito com Uli (apesar da saída de Roth ter sido totalmente amigável). A capa desse álbum, com uma imagem de um cemitério, também gerou problemas, fazendo com que no Brasil o disco fosse lançado com uma capa preta com as fotos dos integrantes, que na verdade era a contracapa original.

O disco começa com a pop "Steamrock Fever", que não diz muito a que veio. Porém a faixa seguinte, "We'll Burn the Sky", é uma das mais belas canções já escritas por Rudolph Schenker. A música começa com um leve dedilhado ao estilo de "Still Loving You", com Uli fazendo algumas intervenções. Klaus entra com os vocais e a música muda de clima, adquirindo um ritmo mais agitado e com um refrão marcante. O fim é apoteótico, com Uli fazendo um longo solo e Klaus cantando muito. Simplesmente de chorar.


Na sequência "I've Got to be Free" e "The Riot of Your Time" abrem espaço para "The Sails of Charon". Nesta canção Uli extrapola o limite do uso de arpejos. Com a escala egípcia (muito usada depois por Dave Murray no Iron Maiden), Uli destrói em uma das introduções mais difícies de ser copiadas por um guitarrista que esteja aprendendo a solar (diferente de canções como "Starway to Heaven" e "Smoke on the Water"), o que a torna ainda mais bela. "Your Light" e "He's A Woman - She's A Man" levam à balada "Born to Touch Your Feelings", a qual já é bem um Scorpions anos 80, mas mesmo assim bem bonita.


Com Uli decidindo seguir carreira solo, a banda partiu para uma pequena turnê de despedida, registrando alguns shows no Japão que gerariam o duplo ao vivo "Tokyo Tapes". O álbum é muito bem gravado e trás várias músicas de excelente qualidade, como "We'll Burn the Sky", "In Trance" e "In the Search of Piece of Mind", mas o destaque maior realmente vai para "Fly to the Rainbow". O que Uli faz com o uso de alavanca ali só Hendrix pode explicar.

Infelizmente o Scorpions partiu para outra, lançando trabalhos como "Lovedrive" e "Blackout", que são cultuadíssimos pela mídia em geral, mas que destoam em muito daquilo que a banda fez com Uli Roth.

No ano passado o grupo fez alguns shows com a participação de Uli Jon Roth, onde ficou claro que o atual guitarrista, Mathias Jabs, não estava muito à vontade com a presença do mago Uli ao seu lado.


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