terça-feira, 31 de julho de 2012

UFO - Let It Roll [2010]

Por Mairon Machado


Em meados de 2010 foi lançada a caixa Let It Roll homenageando a principal formação do grupo UFO. Ou seja, aquela contendo Phil Mogg (vocais), Pete Way (Baixo), Michael Schenker (guitarras), Paul Raymond (teclados, guitarras) e Andy Parker (bateria). A caixa conta com quatro CDs trazendo shows inéditos.

Os dois primeiros CDs foram registrados durante a Walk On Water Tour (1995). O primeiro em uma das mais cidades mais apaixonadas pelo UFO (Tóquio) e o segundo na perna americana da turnê, em Palo Alto. Por serem parte da mesma turnê, o repertório é praticamente o mesmo nos dois discos. No entanto, alguns pontos têm que ser destacados. O primeiro é a inclusão, no CD 2, de duas canções de Walk On Water: "Venus" e "Pushed to the Limit", o que torna esse segundo CD mais atraente. Porém, a mixagem é quase a de um bootleg. O som fica embolado por várias vezes, principalmente a voz de Mogg.

Paul Raymond, Michael Schenker, Andy Parker, Pete Way e Phil Mogg

Se você quer ouvir como soava o UFO em 1995 pegue o CD 1. Apesar de não conter canções de Walk On Water, a mixagem é praticamente perfeita, deixando o público lá embaixo e favorecendo toda a banda. Destaque para belas interpretações de clássicos como "Doctor Doctor" e "Natural Thing", além do resgate da cover para "C'mon Everybody", registrada no álbum de estreia.

Michael Schenker


O CD 3 tinha tudo para ser o melhor da caixa. Gravado em 1979 em Midland (Texas) no auge da carreira, revela ao ouvinte a importância da entrada de Raymond no UFO. As bases de guitarra que ele faz para os solos de Schenker tornaram o grupo ainda mais pesado. Schenker parece aceitar numa boa a companhia de um guitarrista/tecladista. O que o alemão faz em faixas como "Rock Bottom", "Love To Love", "Lights Out" e "Cherry" é algo do gabarito de melhores solos da história. O ponto fraco novamente fica para a mixagem, soando mais uma vez como um bootlegzão.

O último CD fica com o título de "melhor da caixa". Trazendo a volta dessa formação em uma apresentação na cidade de Frankfurt, em 1993, soa como se a banda estivesse nos anos 70. Parker e Way estão tocando forte e com uma pegada da época de Strangers In The Night. Schenker, claro, arrasa! Uma pena que um guitarrista tão bom seja tão estúpido ao ponto de menosprezar fãs e amigos, mas como o cara toca!! As duas faixas da carreira solo, presentes nesse CD, demonstram que no violão Schenker também mandava muito bem. Essa apresentação valer os centavos que você aplica na caixinha.

Canções clássicas estão presentes nos quatro CDs: "Let It Roll", "Out in the Streets", "Only You Can Rock Me", "Love To Love", "Too Hot to Handle", "Lights Out", "Doctor Doctor" e "Rock Bottom". Todas com um destaque diferente, tornando atraente ouvir as diferentes versões.


Da parte gráfica, a caixa apresenta apenas algumas fotos (não tão raras) e um formato como que se os CDs compusessem uma combinação de auto-falantes, que chama a atenção, mas não tanto quanto a qualidade das canções registradas, e que é por causa delas que você, fã da banda ou ainda perdido querendo conhecer um pouco mais da história de Michael Schenker nas seis cordas do UFO, deve correr atrás já!

A caixa Let It Roll e seu formato como alto-falantes
Track list

Disco 1 (Nakano Sun Plaza Tokyo, 1995)

1. Natural Thing
2. Mother Mary
3. Let it Roll
4. Out in the Streets
5. This Kids
6. Only You Can Rock Me
7. Love to Love
8. Hot 'n' Ready
9. Too Hot to Handle
10. Lights Out
11. Doctor Doctor
12. Rock Bottom
13. Shoot Shoot
14. C'mon Everybody

Disco 2 (Palo Alto, 1995)

1. Mother Mary
2. Let it Roll
3. This Kids
4. Out in the Streets
5. Venus
6. Pushed to the Limit
7. Love to Love
8. Only You Can Rock Me
9. Too Hot to Handle
10. Lights Out
11. Doctor Doctor
12. Rock Bottom
13. Shoot Shoot
14. C'mon Everybody

Disco 3 (Midland, 1979)

1. Electric Phase
2. Hot 'n' Ready
3. Pack It Up and Go
4. Cherry
5. Out in the Streets
6. Let it Roll
7. Too Hot to Handle
8. Love to Love
9. Doctor Doctor
10. Only You Can Rock Me
11. Lights Out
12. Rock Bottom

Disco 4 (Frankfurt, 1993)

1. Natural Thing
2. Mother Mary
3. Let It Roll
4. Out in the Streets
5. This Kids
6. Only You Can Rock Me
7. Open & Willing
8. Positive Forward
9. Hot 'n' Ready
10. Too Hot to Handle
11. Love to Love
12. Lights Out
13. Doctor Doctor
14. Rock Bottom
15. Shoot Shoot

domingo, 29 de julho de 2012

Jefferson Airplane - Parte I




Quando falamos da cena californiana na década de 60, três bandas são impossíveis de não serem citadas: Big Brother & The Holding Company, Moby Grape e Jefferson Airplane. Já apresentei a história das duas primeiras aqui no blog, e agora, é a vez daquela que conseguiu lançar mais discos, e que apesar de seguir o mesmo caminho de suas companheiras, tornou-se o verdadeiro símbolo do que foi a geração flower-power no Verão do Amor de 1967. Estou falando do Jefferson Airplane.

A história do grupo começa dois anos antes do Verão do Amor, quando Martyn Jerel Buchwald, mais conhecido como o vocalista Marty Balin, resolve abandonar a sua carreira como crooner de bandas pops de San Francisco, tendo lançado os singles "Nobody But You" e "I Specialize in Love", ambos pela Challenge Records, e de líder do quarteto folk The Town Criers, ao lado de Larry Vargo, Jan Ellickson e Bill Collins, para mergulhar na onda lisérgica que começava a surgir naquela região, além de procurar fazer algo na linha dos emergentes The Byrds e Simon & Garfunkel.

Porém, para poder montar a banda, precisava de um lugar para ensaiar. Assim, o primeiro passo para criar o novo grupo foi comprar uma pizzaria na famosa rua Fillmore Street, com a ajuda de um grupo de investidores, e transformar essa pizzaria no clube The Matrix. No clube, através de concursos musicais, começou a angariar os membros de seu novo grupo. Um dia, fazendo um boca-a-boca no clube The Drinking Gourd, Balin conheceu o músico Paul Kantner, famoso por circular nos festivais folk da Bay Area no início dos anos 60, durante o período no qual Jerry Garcia, Janis Joplin e David Crosby começavam a procurar um lugar ao sol na cena californiana.

O grupo em 1965: Kantner, Signe, Kaukonen e Casady (acima);
Spence e Balin (sentados)

Bastou algumas horas conversando para Kantner e Balin encontrarem similaridades musicais, e o convite para Kantner entrar no novo grupo de Balin estava feito. Ainda no The Drinking Gourd, a dupla convidou a vocalista Signe Toly Anderson. O próximo contratado de Kantner foi Jorma Kaukonen, um velho amigo do vocalista, o qual tinham se conhecido na Santa Clara University. Finalmente, Bob Harvey (baixo) e Jerry Peloquin (bateria) completaram a primeira formação do grupo, batizado de Jefferson Airplane.

O nome "Jefferson Airplane" surgiu de uma paródia com o nome do artista Blind Lemon Jefferson, através de uma brincadeira feita por um amigo de Kaukonen. No dia 13 de agosto de 1965, o Jefferson Airplane subiu ao palco do The Matrix pela primeira vez. O som era uma expansão das raízes folk de Balin e Kantner, misturadas com elementos da Invasão Britânica. Gradualmente, o som do grupo foi sendo moldado, principalmente com o consumo de alucinógenos. 

Dois meses depois, ocorre a primeira das diversas mudanças na formação do Jefferson Airplane, com a entrada de Jack Casady e Skip Spence para os lugares de Harvey e Peloquin, respectivamente. A saída de Peloquin ocorreu principalmente por ele não concordar com o uso de drogas por parte de seus colegas de grupo. Spence, apesar de ser um guitarrista em sua origem, aceitou o cargo de baterista principalmente por precisar de dinheiro. Já Harvey foi despedido do grupo por divergências musicais.
Jefferson Airplane
A estreia da nova formação do Jefferson Airplane ocorreu em um show no Berkeley College, em Berkeley. A entrada de Harvey trouxe uma sonoridade nova, com as raízes folk sendo guiadas para o jazz e o blues. As apresentações no The Matrix começaram a chamar a atenção de fãs e imprensa, sendo que o jornalista Ralph Gleason, da conceituada revista San Francisco Chronicle, chegou a eleger o Jefferson Airplane como A Melhor Banda de Todos os Tempos.

É no The Matrix que entra o nome de Matthew Katz, famoso empresário da Bay Area, responsável por lançar diversos grupos da região e colocá-los em gravadoras. Katz ofereceu seus dotes e contatos, e rapidamente, virou o empresário do grupo. A primeira tarefa: levar o Jefferson Airplane para tocar fora de San Francisco, algo que ainda demoraria um pouco mais para acontecer.

Por outro lado, os shows pela região da Bay Area não paravam de crescer. Dois deles são marcantes para o grupo. O primeiro deles ocorreu no dia 16 de outubro de 1965, quando se apresentaram no Longshoremen's Hall de San Francisco, tendo como banda de abertura o grupo The Great Society, cuja vocalista era a jovem Grace Slick. Esse foi o primeiro contato entre Slick e o Airplane, o que mudaria a vida e a trajetória da banda meses depois. 

O outro importante show do Airplane ocorreu no dia 06 de novembro, durante uma apresentação beneficente organizada pelo promotor Bill Graham. Nessa época, Graham ainda não era o famoso diretor do Fillmore, mas mesmo assim, a apresentação incendiária do Airplane chamou a atenção do produtor, que futuramente teve com o Jefferson Airplane um dos principais nomes de divulgação de seu local de concertos.

Com Katz de empresário, fazendo divulgações e prometendo muita grana para o grupo, finalmente em novembro de 1965 o Airplane assina um contrato com a poderosa RCA Victor, onde de cara, recebem $ 25.000 dólares para a gravação de compactos. O contrato com a RCA Victor foi assinado após os diretores da empresa ouvirem uma demo contendo "The Other Side of This Life". 

Marty Balin, Paul Kantner, Spencer Dryden, Signe Anderson e Jorma Kaukonen

O contrato com a RCA alavancou o número de shows do Airplane, ajudado pela promoção de Katz e de Graham, que em dezembro, abriu as portas do Fillmore West, no dia 10 de dezembro de 1965, tocando ao lado de grupos como o The Great Society, The John Handy Quintet, The Mystery Trend e San Thomas & The Gentlemen's Band.e também sendo atração no famoso rival do Fillmore, o Avalon Ballroom. Não tardou para o primeiro compacto do Airplane chegar às lojas, trazendo no lado A "It's No Secret", e no lado B a polêmica "Runnin' Round the World", com insinuações ao uso de maconha na frase "The nights I've spent with you have been fantastic trips".

Durante dezembro de 1965 e fevereiro de 1966, gravam o seu primeiro LP. Em março de 1966, Skip Spence sai para formar o Moby Grape, dando lugar a Spencer Dryden. Baterista de formação jazzística, Dryden, que vinha do grupo Ashes (que futuramente tornou-se o The Peanut Butter Conspiracy) ampliou as performances musicais do grupo, formando uma das melhores cozinhas musicais de todos os tempos ao lado de Cassady, dando segurança para longos improvisos de guitarra, e entre eles, sensacionais duelos de baixo e bateria.

Somente em setembro de 1966 foi lançado o LP de estreia do grupo, tudo por que no período entre abril e agosto daquele ano, o Jefferson Airplane já havia sentido na pele os problemas e maracutaias gerados por Mathew Katz, como desvio de dinheiro. Katz foi despedido de seu posto em agosto daquela ano, entrando em litígio com o grupo em uma longa batalha judicial que durou 20 anos (parecido com o que ocorreu com o Moby Grape).


A desconhecida estreia do Airplane, ainda com Skip Spence e Signe Anderson

Para o lugar de Katz, Bill Thompson foi contratado, e é Thompson quem consegue abrir as portas para finalmente a RCA liberar o primeiro álbum. No dia 15 do mês seguinte, Takes Off chegou às lojas. O álbum é uma tímida mas sensacional estreia de um grupo ainda em formação, mas com um futuro promissor, e repleto de canções curtas, abrindo com "Blues from an Airplane", começando com as notas de baixo e guitarra, assim como as agressivas batidas de Spence, trazendo as vocalizações e a voz característica de Balin cantando uma bonita canção, destacando o maravilhoso arranjo vocal da mesma.

Paul Kantner assume os vocais de "Let Me In", outra na qual o dedilhado faz a introdução, mas a bateria de Spence está mais acelerada. A guitarra de Kaukonen chama a atenção em um solo altamente lisérgico, caracterizando o som da guitarra vinda da Bay Area, assim como a endiabrada sessão rítmica de Spence, uma espécie de Keith Moon americano, tocando alucinadamente, e o baixo ensurdecedor e truculento de Casady.

"Bringing Me Down" retorna ao ritmo de "Blues from an Airplane", com outro interessante arranjo vocal, e com as guitarras agora fazendo linhas similares ao de nomes como Rolling Stones, Yardbirds e Beatles em sua fase inicial. A animada "It's No Secret" revela os dotes vocais de Balin, com sua voz marcante, sendo a mais similar ao estilo flower-power que caracterizaria as bandas de San Francisco meses depois, além de novamente o arranjo vocal ganhar bastante destaque.

O lado A encerra-se com uma versão para "Tobacco Road", de John D. Loudermilk. Aqui, a canção começa com um lindo dedilhado das guitarras, acompanhado por marcações e viradas da bateria em uma balada sensacional cantada por Balin, em uma das melhores canções dessa fase embrionária do Jefferson Airplane, pilar de grupos como Big Brother & The Holding Company, Quicksilver Messenger Service e Sha-na-na, em mais um show vocal do trio Balin, Kautner e Signe.


O lado B de Takes Off

No lado B, temos "Come Up the Years", uma leve balada na qual os arranjos vocais são soberanos em encantar o ouvinte, e com Spence mandando ver na percussão, seguida por "Run Around", segunda a trazer os vocais de Kantner e com um complicado dedilhado de guitarra, além do baixão de Casady estar batendo de frente na cara do ouvinte.

A linda "Let's Get Together", de Dino Valente, vem na sequência, com Kantner dividindo os vocais com Signe magnificamente. A voz de Signe é grave, mas muito bela, seguida pela agitada "Don't Slip Away", com Kaukonen sendo a principal atração mostrando dedilhados velozes em sua guitarra. 

Signe é a vocalista principal na cover para "Chauffeur Blues", de Lester Melrose, em um blues embalado na qual a vocalista solta sua voz rouca e rasgada, com mais um interessante solo de Kaukonen. Por fim, a balada "And I Like It" encerra esse belo LP de estreia, com Balin soltando sua voz chorosa e Spence mostrando que mesmo sendo um grande guitarrista, era capaz de conduzir um blues embriagante como poucos.

De Takes Off, saíram os compactos "Come Up the Years" / "Blues from an Airplane" (maio de 1966) e "Bringing Me Down" / "Let Me In" (agosto de 1966). Apesar de nunca terem saído da Bay Area até aquele momento, o Jefferson Airplane conquistou um mercado inimaginável para o seu primeiro álbum, com Takes Off ganhando disco de ouro. A prensagem inicial de 15 mil cópias feita pela RCA esgotou-se rapidamente, sendo que somente em San Francisco, o disco vendeu mais de 10 mil cópias.

A RCA foi obrigada a relançar Takes Off, e nessa segunda versão, retiraram "Runnin' Round This World", justamente por causa da palavra "Viagem" escrita na mesma, assim como "Let Me In" teve as frases "you shut your door; you know where" por "you shut your door; now it ain't fair" e "Don't tell me you want money" para "Don't tell me it ain't funny". "Run Around" também sofreu edições, com a frase "flowers that sway as you lay under me" sendo substituída por "flowers that sway as you stay here by me". Encontrar a versão original de Takes Off é tão complicada quanto encontrar uma agulha no palheiro, e se achar, custará alguns milhares de dólares.

O álbum foi relançado em 2003, trazendo mais nove canções bônus: "Runnin' Round this Worls", "High Flying Bird", "It's Alright", "Go to Her", "Let Me In", "Run Around", "Chauffeur Blues", "And I Like It" e "Blues from an Airplane".
Signe Anderson

Em outubro, Signe Toly decidiu sair do grupo, pois precisava dedicar-se ao seu primeiro filho, que havia nascido em maio. O último show de Signe com o grupo foi realizado no dia 15 de outubro, no Fillmore West. Na noite seguinte, a jovem vocalista do The Great Society, Grace Slick, era convidada para assumir o posto, tendo como cachê 750 doletas mensais.

Com a entrada de Slick, formou-se uma linha de frente vocal sólida e inovadora, que ao lado da guitarra lisérgica de Kaukonen e da cozinha mais do que fenomenal de Dryden e Cassady, consolidou o Jefferson Airplane como referencial nos shows da Bay Area. Quase todos os festivais passaram a recrutar o grupo para ser o headliner do mesmo. 

Para melhorar a situação do grupo, começam a aparecer com frequência nas rádios locais, virando capa do Newsweek como o principal representante da cena musical de San Francisco, o que levou inúmeros jovens dos Estados Unidos a ir para a cidade em busca deste "novo som" divulgado no semanário, começando assim a dar origem e espalhar a onda da cultura hippie pelos Estados Unidos.

1967 começou com o Jefferson Airplane em alta, visitando pela primeira vez a costa leste dos Estados Unidos. No dia 14 de janeiro, fazem o show de abertura do famoso Human Be-In, um concerto realizado no Golden Gate Park, em Nova Iorque, ao lado de Grateful Dead e Quicksilver Messenger Service, um dos pilares fundamentais para o famoso Verão do Amor de 1967.


O disco que marcou época: Surrealistic Pillow
De volta à San Francisco, trancam-se nos estúdios em Los Angeles, e com a ajuda do produtor Rick Jarrard, a co-produção de Jerry Garcia (responsável também pelo nome do disco), e com um custo de $ 8000 dólares, em apenas treze dias gravam Surrealistic Pillow, o primeiro disco do grupo lançado internacionalmente, em fevereiro daquele ano. 

A percussão de Dryden abre o LP com "She Has Funny Cars", trazendo o riff de guitarras e baixo, bem como os vocais do novo trio cantando a canção na mesma linha de algumas faixas de Takes Off! Porém, basta o andamento da canção para percebermos que a entrada de Slick dá uma nova cara, sobrepondo as vozes masculinas com a feminina de forma que cada um canta independente, convergindo para um mesmo ponto central, que é a frase de encerramento de cada estrofe, encerrando com um endiabrado solo de Kaukonen.

A cover de "Somebody to Love" (original do Great Society) apresenta a voz de Slick para o mundo, em um dos maiores clássicos da carreira do Airplane, com a bateria pegada de Dryden comandando essa locomotiva sonora e um dos refrões mais grudentos da geração hippie, e com Kaukonen gravando seu nome cada vez mais como um dos maiores guitarristas de sua geração, fazendo um solo que inspirou nomes como James Gurley e John Cippolina. A country "My Best Friend" é o último suspiro de Skip Spence no airplane, com um ritmo muito similar ao que o então baterista viria fazer anos depois como guiarrista do Moby Grape, em álbuns como 20 Granite Creek e Wow.

A linda "Today" faz a nossa iniciação aos momentos acústicos psicodélicos do Airplane, com a voz de Kantner saindo de alguma gruta obscura no interior de San Francisco e com Jerry Garcia sendo o responsável por criar o riff principal da canção, e o lado A encerra-se com "Comin' Back to Me", outra linda balada acústica, mas agora apresentando a voz de Balin como destaque, entoando um belo poema no melhor estilo Bob Dylan, tendo ao fundo apenas o violão dedilhado de Kaukonen e Jerry Garcia e uma flauta doce arrepiantemente hipnotizadora, tocada por Slick. Pilar das experimentações flower-power e perfeita para acender um incenso, gravada após Balin consumir aquele que ele diz ser "O maior baseado de sua vida!".


O lado A de Surrealistic Pillow
O Lado B abre com "3/5 of a Mile in 10 Seconds", trazendo o ritmo-locomotiva de "Somebody to Love", e as vocalizações levantando o ânimo novamente, em outro grande clássico do grupo, seguido por "D.C.B.A.–25", destacando o baixo de Casady em uma canção mais psicodélica, na qual os dedilhados das guitarras se fazem mais presentes, além de outro belo trabalho vocal.

A flauta doce retorna em "How Do You Feel" (original de Tom Mastin), mais um marco hippie que poderia facilmente estar presente em algum álbum do The Mamas & The Papas, tamanha perfeição vocal, mas com a diferença no sensacional trabalho de violões, enquanto a instrumental "Embryonic Journey" é uma lisérgica apresentação de violões feita por Kaukonen, que influenciou Jimmy Page agravar sua clássica "Bron-Yr-Aur". O dedilhado veloz, com uma afinação diferente (D) do violão, é uma amostra da genialidade desse monstro da guitarra, e ouvir "Embryonic Journey" é compreender da onde veio a inspiração acústica não só de Page, mas de Eric Clapton, Pete Townshed e outros.

Para complementar a maravilhosa "Embryonic Journey", a surrealistíca "White Rabbit" surge com o baixão de Casady e a guitarra dedilhada de Kaukonen, trazendo a voz com tons orientais de Slick, arrepiando os últimos cabelos do lugar aonde o sol não bate, com uma interpretação simplesmente fodástica. Os que não se ajoelham perante a potência chocante de "White Rabbit" é por que são surdos ou mal da cabeça. O crescendo da canção, com seu ritmo marcial, falando sobre as iniciações ao vício do LSD que levam o iniciado a mergulhar no mundo de Alice no País das Maravilhas, é tão sobrenatural quanto a letra de Slick, a qual foi composta ainda nos tempos do Great Society, e não tem como não ficar louco com esses dois minutos e trinta e dois segundos de um grandioso clássico.

Por fim, "Plastic Fantastic Lover" encerra esse essencial álbum com mais violões, mas agora em um ritmo agitado, sem os dedilhados, e a guitarra de Kaukonen comendo solta em solos rasgadíssimos.

O LP entrou na lista dos 200 mais vendidos da Billboard no dia 25 de março de 1967, e lá, permaneceu por um ano, conquistando a posição máxima de terceiro lugar, vendendo mais de um milhão de cópias, e conquistando ouro no dia 24 de julho de 1967. A versão inglesa de Surrealistic Pillow acabou sendo lançada (originalmente) como sendo uma mescla dos dois primeiros álbuns (o que também veio a ocorrer com outros grupos californianos meses depois). O mais interessante é que nessa versão ficou de fora, por exemplo, "White Rabbit", a qual só seria conhecida pelos ingleses anos depois.

Do álbum, saíram os singles "My Best Friend" (posição 103 nos charts), "Somebody to Love" (quinta posição nos charts) e "White Rabbit" (oitava posição nos charts). O sucesso dos dois últimos singles colocou o Jefferson Airplane como a banda preferida de 9 a cada 10 americanos, sendo eleitos o melhor grupo de 1967 em praticamente todas as pesquisas realizadas naquele ano. A fusão de folk com psicodelia explodiu como uma bomba atômica, e a partir de Surrealistic Pillow, o mundo tomava conhecimento do chamado Som de San Francisco. Sem sombra de dúvidas, esse é o álbum mais importante da carreira do grupo, e um dos mais importantes da geração flower-power, ao lado de Moby Grape (lançado pelo Moby Grape em 1967) e Cheap Thrills (lançado pelo Big Brother & The Holding Company em 1968).

O relançamento em 2003 trouxe mais sete canções bônus: "In the Morning", "J. P. P. McStep B. Blues", "Go to Her", "Come Back baby", "Somebody to Love (mono version)", "Somebody to Love (mono version)" e "D. C. B. A. - 25".

A partir de então, o grupo não parou de crescer. Em maio, já estavam na TV, na primeira apresentação de Grace Slick diante das câmeras, chamando a atenção dos fãs tanto por sua beleza quanto por sua performance quase-estática e fria. Essa apresentação foi no programa The Smothers Brothers Comedy Hour, da CBS, onde interpretaram "Somebody to Love" e "White Rabbit". O grupo participou de outros programas de TV, como o Tonight Show, de Johnny Carson, e o The Ed Sullivan Show, mas foi no The Smothers Brothers em que as famosas luzes psicodélicas, que viraram marca registrada nos shows grupo, surgiu ao mundo pela primeira vez.

 No dia 17 de junho, viram uma das maiores atrações do Monterey Pop Festival, sendo o sexto grupo a subir no palco na segunda noite do festival, e mandar ver em um dos melhores shows da carreira da banda. Infelizmente, apenas duas canções acabaram entrando no filme do festival ("High Flying Bird" e "Today"), mas o show completo é encontrado facilmente em bootlegs espalhados pela internet.


O complexo After Bathing Baxter's

Em setembro, apresentam-se no Hollywood Bowl, tendo como banda de abertura o Grateful Dead, encerrando o ano como a atração principal no festival de virada do ano do Fillmore West, tendo como banda de abertura Big Brother & The Holding Company. Um mês antes, chegou às lojas o terceiro LP do grupo, After Bathing at Baxter's, lançado no dia 30 de novembro daquele ano. Ao contrário de Surrealistic Pillow, esse álbum demorou quatro meses para ser concluído, muito por que o grupo estava experimentando fortemente com drogas e com as próprias canções, que começavam a guiar-se para um som pesado e longe do folk inicial. Canções longas para os padrões do Jefferson Airplane passam a figurar nos sulcos do vinil, que é uma verdadeira experimentação musical, mesclando partes de diversas canções para formar mini-suítes, e inclusive entrando na chamada Musique Concrete idealizada por Frank Zappa no seu álbum Freak Out! (1966). Outro destaque vai para o maior arranjo dos vocais.

O disco já surge com a guitarra rasgando com a mini-suíte "Streetmasse", dividida em três partes. A primeira é "The Ballad of You and Me and Pooneil", uma embalada faixa em homenagem ao Ursinho Poof, cantada por Balin, Kantner e Slick, com vocalizações estranhas e das mais diversas, principalmente por parte de Slick, destacando o solo de baixo de Casady, carregado de distorção, e a participação primeira do piano de Slick, com acordes pesados. A viajante "A Small Package of Value Will Come to You, Shortly" é a canção que homenageia Freak Out!, trazendo vozes entre notas delirantes de piano, sinos tubulares e a percussão de Dryden, totalmente Zappa, e a primeira suíte encerra-se com "Young Girl Sunday Blues", totalmente flower-power, com Balin e Kantner na linha de frente dos vocais, e mais um fantástico solo de Kaukonen, ganhando espaço faixa após faixa.

A segunda mini-suíte é "The War is Over", dividida em duas partes. "Martha" abre relembrando os momentos acústicos de Surrealistic Pillow, com os violões e a flauta doce, mas com o emprego de guitarras. Nela, Kantner e Slick cantam suavemente, em um poderoso arranjo vocal, e a guitarra de Kaukonen destacando-se entre a cozinha mais que perfeita de Casady e Dryden. "Wild Tyme (H)" surge com a guitarra pesada de Kaukonen, em nada lembrando os momentos iniciais do Jefferson Airplane, com um riff forte e os vocais do trio Balin, Kantner e Slick berrando alucinadamente. O arranjo instrumental dessa canção demonstra que agora, o Jefferson Airplane estava concentrado também no trabalho das guitarras, baixo e bateria, e o solo de Kaukonen fica gravado como mais uma aula para outros nomes do instrumento, solando independentemente da banda, que canta em altos brados uma ótima canção.

O lado A é complementado pela mini-suíte "Hymn to an Older Generation", dividida em "The Last Wall of the Castle", uma agitada peça musical escrita por Kaukonen, tendo sua voz como destaque entre os alucinógenos solos da mesma, carregados de distorção e muita adrenalina, e a linda "Rejoyce", composta por Slick ao piano e com um sombrio acompanhamento percussivo, assustando aos ouvintes acostumados com as canções alegres do álbum de estreia, mas levando ao deleite os fãs de "White Rabbit". É necessário destacar a habilidade de Slick no piano, mostrando ser também uma grande instrumentista, e também o bonito arranjo de metais feito por Dryden.


Lado A do experimental After bathing Baxter's

"How Suite It Is" abre o Lado B, dividida em duas faixas. A primeira é "Watch Her Ride", um rock alegre, começando com o riff de Kantner e o baixo de Casady, além dos solos de Kaukonen ao fundo, e vocalizações fortes durante o refrão;  a segunda é a esquizofrênica "Spare Chaynge", uma longa suíte instrumental com mais de nove surpreendentes minutos em uma longa jam session gravada ao vivo (que durou mais de vinte e quatro minutos quando foi gravada), e criada pelo trio Kaukonen, Dryden e Casady, e somente com eles interpretando a canção, começando com as escalas de baixo entre microfonias da guitarra. 

Pouco a pouco, a percussão vai surgindo, e a guitarra começa a solar notas perdidas. Baixo e guitarra passam a dedilhar, voltando então para as microfonias da guitarra entre batidas fortes nas cordas do baixo. A guitarra então cria uma melodia tímida, envolvida pelos acordes do baixo, e a partir de então, Kaukonen toma conta da canção, com solos rasgados sendo acompanhados pela percussão e pelos acordes em terça executados pelo baixo. O ritmo percussivo de Dryden e do baixo de Casady ganha velocidade, assim como o solo da guitarra,  que encerra a mais lisérgica das canções do Airplane  com um longo sustains da guitarra.

A última das mini-suítes é "Schizoforest Love Suite", abrindo com a balada "Two Heads", com uma linha vocal parecida com a de "White Rabbit", apesar de variações que não a tornam tão atraente quanto a sua irmã famosa, e a dupla "Won't You Try" / "Saturday Afternoon", fantásticas do início ao fim, com os metais se fazendo presente novamente, e resgatando os belos arranjos vocais de Surrealistic Pillow, além da presença marcante do piano durante a virada de uma canção para outra. 

A famosa capa com a aeronave Heath Robinson, foi desenhada pelo renomado artista Ron Cobb. O disco alcançou a décima sétima posição na Billboard, e alavancou o domínio de Slick e Kantner perante Balin, que tornava-se apenas mais um membro da aeronave, tornando-se também mal visto por que suas composições eram excessivamente baladas.

Esse foi o último LP do grupo a trazer canções que entraram no Top 100 da Billboard, no caso, "The Ballad of You and Me and Pooneil", que atingiu a modesta quadragésima terceira posição, e "Watch Her Ride", sexagésima primeira posição. O relançamento em 2003 trouxe mais cinco bônus: "The Ballad of You & Me & Pooneil" (em uma versão com mais de onze minutos de duração); "Martha"; "Two Heads"; "Things are Better in the East" e "Young Girl Sunday Blues".

As canções do Jefferson Airplane pararam de tocar nas rádios principalmente pelo forte apelo às drogas e críticas contra o governo norte-americano. Apesar de não fazerem mais sucesso com singles, o grupo continuou gravando seu nome com boas vendas de LPs. 


Diante da mansão na Fulton Street

As brigas, guerra de egos e o afastamento de Balin começaram a agravar a estrutura do avião. Slick, em um acesso de raiva, deu um ultimato para a dupla, dizendo que ou despediam o empresário Bill Graham ou ela ia embora. Resultado: Graham foi despedido, sendo substituído por Bill Thompson, e o Jefferson Airplane passava a ser uma empresa, com uma luxuosa sede na 2400 Fulton Street, em frente ao Golden Gate Park em San Francisco, comprada pela bagatela de 73 mil dólares. 

Essa empresa conseguiu, junto com o Grateful Dead, comprar os direitos administrativos do Carousel Ballroom. Além dessa casa de shows, o Jefferson Airplane vira figurinha carimbada nos Fillmores e também Kaleidoscope Club, onde fazem uma pequena temporada de shows tendo o Canned Heat como banda de abertura. Os shows viram verdadeiras e viajantes experimentações musicais, com as canções facilmente atingindo mais de dez minutos de duração, a base de muita lisergia e delírios vocais/instrumentais.


Em junho, aparecem na capa da revista Life, onde anunciam sua primeira grande turnê pela Europa, a qual ocorreu entre agosto e setembro de 1968, tendo o The Doors como banda de abertura em todos os shows, que ocorreram na Holanda, Inglaterra, Alemanha e Suécia. Dessa turnê, ficou para a história o famoso Incidente de Amsterdã, no qual, enquanto o Airplane interpretava "Plastic Fantastic Lover", Jim Morrison subiu ao palco completamente chapado, e dançou loucamente aé cair no colo de Marty Balin. Morrison ficou tão exausto que teve que ser hospitalizado, e ficou impossibilitado de cantar pelo The Doors, mas o show continuou com Ray Manzarek fazendo os vocais. Foi nessa turnê também que Slick e Morrison tiveram um pequeno romance, conforme a cantora descreve em sua biografia, lançada em 1998, tendo sido de pouco sucesso.

O quase acústico Crown of Creation

Pouco antes de ir para a Europa, participam como headliners do Newport Pop Festival, ao lado de The Byrds, Grateful dead, Steppenwolf, Sonny & Cher, Canned Heat, entre outros. Na volta da Europa, o quarto LP do grupo é lançado, exatamente em setembro de 1968. Batizado de Crown of Creation, em nada se assemelha ao experimentalismo de After Bathing Baxter's ou a sutileza acústica de Surrealistic Pillow, sendo muito mais trabalhado que ambos, com arranjos complexos tanto da parte instrumental quanto da parte vocal.

O LP abre com "Lather", e uma voz quase infantil de Slick cantando uma balada simples, no qual o destaque fica para o ritmo marcial da percussão, além do solo de nariz (?!) feito por Gary Blackman.
"In Time" é outra bonita balada, cantada por Kantner mas com um interessante arranjo vocal, destacando o baixo de Casady, além das viajantes passagens de guitarra feitas por Kaukonen.

A cover de "Triad" (original do The Byrds) traz a participação especial de David Crosby nos violões, e é ele que faz o lindo solo inicial dessa magistral canção. Percebe-se claramente uma tendência acústica nas composições de Crown of Creation, e "Triad" é uma das melhores que o grupo já gravou, com suas mudanças de acordes acompanhando a voz hipnotizante de Slick, também perfeita para se acender um incenso e viajar agarrado em uma garrafa de uísque.

Kaukonen interpreta "Star Track", faixa mais flower-power, na qual ele pisoteia o wah-wah em um efervescente solo, tendo a bela companhia de Casady e Dryden, enquanto "Share a Little Joke" apresenta lisergia na guitarra, mas é outra simples balada com o vocal chorado de Balin, e o lado A encerra-se com a instrumental "Chushingura", que nada mais é do que microfonias, vocalizações, notas aleatórias do piano e barulhos percussivos.


O lado B de Crown of Creation

"If You Feel" abre o lado B em uma linha similar às canções do Grateful Dead, novamente com Kaukonen utilizando o wah-wah com bastante destaque, e mudando a cara acústica do Lado A. Essa tornou-se mais uma canção de sucesso do Jefferson Airplane, assim como a ótima faixa-título, cantada por Balin e Slick, relembrando bastante "Somebody To Love", apesar da maior presença da percussão e do solo deKaukonen ser muito mais virtuoso.

Os vocais também entoam "Ice Cream Phoenix", bela faixa destacando as linhas de baixo de Casady, e com a presença mais do que importante dos violões de Balin, Kantner e Kaukonen. Chama atenção a ponte central, com os vocais de Slick duelando com a guitarra de Kaukonen. 

"Greasy Heart" finalmente apresenta semelhanças com canções de Surrealistic Pillow, principalmente nas linhas vocais de Slick, e o LP encerra-se com a psicodélica "The House at the Pooneil Corners", surgindo com o riff gritante da guitarra e do órgão, detonando peso tanto na parte instrumental quanto na maravilhosa linha vocal. A entrada da bateria transforma o peso em uma faixa dançante, e assim, ela vai se transformando durante seus quase encantadores seis minutos de duração, nos quais o baixo de Casady e as marcações de órgão e bateria são estonteantes. A alternância das vozes entre Kantner e Slcik também cede mais pontos para esta que é a melhor faixa de um LP não tão bom quanto os antecessores, mas ainda assim, fundamental na discografia do grupo.

O relançamento em CD de 2003 veio com mais cinco bônus: "Ribump Ba Bap Dum Dum", "Would You Like a Snack" (parceria com Frank Zappa), "Share a Little Joke", "The Saga of Sydney Spacepig" e "Candy man". O álbum alcançou a sexta posição nas paradas da Billboard, mas os singles afundaram em vendas, com somente "Crown of Creation" atingindo a modesta sexagésima quarta posição nos Estados Unidos. 

Os shows não param, e em um deles, durante uma apresentação em Manhattan, são filmados por Jean-Luc Godard para o projeto One American Movie. Encerram o ano de 1968 com a notícia que Kaukonen e Casady estão criando um projeto paralelo, batizado de Hot Tuna, e para piorar, em janeiro de 1969 Slick é hospitalizada, apresentando um inchaço nas cordas vocais que levam a cantora para uma operação das mesmas.

Por outro lado, em fevereiro do mesmo ano, a RCA lança o primeiro ao vivo do grupo, Bless Its Pointed Little Head, gravado em performances no Fillmore West (entre 24 e 26 de outubro de 1968) e no Fillmore East (28 e 30 de novembro de 1968). O disco aitngiu a décima sétima posição nas paradas da Billboard, e apesar das brigas internas, a fama do Jefferson Airplane não parava de subir.

Conseguiria o grupo sustentar-se com a entrada de uma nova década? É o que veremos em breve,  na segunda parte dessa grande história.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Maravilhas do Mundo Prog: Steve Hackett - Please Don't Touch [1976]




Um dos grandes músicos do rock progressivo é também um dos mais injustiçados dentro do estilo. Estou falando do guitarrista britânico Steve Hackett. Músico inovador, Hackett é um dos responsáveis por introduzir no rock 'n roll o estilo do tapping (tocar as cordas da guitarra batendo nelas com os dedos, alternando as casas do instrumento) e também algo que se tornou muito conhecido dentro do heavy metal melódico nos anos 80, a guitarra sintetizada.

A primeira aparição desse instrumento ocorre em 1976 no disco Please Don't Touch, lançado pouco depois de sua conturbada saída do Genesis. Ao lado de Peter Gabriel (voz, flauta, percussão), Mike Rutherford (baixo, violões, guitarra, vocais), Tony Banks (teclados, violões, vocais) e Phil Collins (bateria, percussão, vocais), participou de uma das mais consagradas formações  do rock mundial. Com eles, gravou os inesquecíveis Nursery Crimes (1971), Foxtrot (1972), Selling England By The Pounds (1973) e The Lamb Lies Down On Broadway (1974), além de Live (1973).

Genesis em 1972: Phil Collins, Steve Hackett, Mike Rutherford,
Peter Gabriel e Tony Banks

A saída de Gabriel após o término da turnê de The Lamb Lies Down On Broadway elevou Phil Collins ao posto de vocalista principal. O Genesis, agora como quarteto, continuou mergulhado no progressivo (apesar de dar pequenos indícios do que iria acontecer anos depois), através dos álbuns A Trick of the Tail (1976), Wind & Wuthering (1976) e o ótimo ao vivo Seconds Out (1977).

Foi durante as gravações de Wind & Wuthering que Hackett começou a compôr algumas canções para um novo álbum do Genesis. Porém, Collins assumiu o posto de chefão do grupo, rejeitando várias composições de Hackett por serem "difíceis" para a nova proposta musical da banda. Indignado, o guitarrista decidiu sair do conjunto e continuar sua carreira solo, a qual havia começado em 1975 com o ótimo Voyage of Acolyte.

Para garantir um trabalho sólido e respeitado, Hackett cercou-se de convidados especiais como Ritchie Havens, Steve Walsh e Phil Ehart (ambos do Kansas), além de uma super banda com Chester Thompson (bateria, percussão), John Hackett (flauta, picolo, teclados), John Acock (teclados) e Tom Fowler (baixo). Para mostrar que era talentoso, resolveu soltar a voz em algumas canções fazendo vozes de fundo. Algo que no Genesis era quase impossível de acontecer.

Steve Hackett, durante gravação de Please Don't Touch

O que foi registrado, em sua maioria, são canções não aproveitadas pelo Genesis. "Narnia" e "Racing A" apresentam a dupla do Kansas. A primeira é uma canções simples que em nada nos remete ao progressivo que seu antigo grupo costumava fazer, mas é muito parecida com o que o Kansas passou a fazer pós-Monolith. A segunda, traz a guitarra sintetizada sendo mostrada ao mundo acompanhada de uma pequena orquestra. Uma mistura do Genesis pós-Gabriel com pop eletrônico, com direito a uma bonita passagem de violão clássico. Outra impressionante habilidade de Hackett. 

"How Can I" é uma linda canção folk, contando com a participação de Havens nos vocais e na percussão. O músico também comanda os vocais em "Icarus Ascending". Essa com uma sonoridade mais pesada, remetendo-nos diretamente às canções de Wind & Wuthering, além de misturar jazz e reggae em uma mesma canção.

Hackett canta em "Carry On Up The Vicarage", sua voz é carregada de efeitos que deformam a mesma tanto para o grave quanto para o agudo. Somente no trecho central podemos conferir a voz de Steve, apesar de ainda existirem outros efeitos. Já RandY Crawford apresenta sua voz soul na balada "Hoping Love Will Last", outra em que as cordas também estão presentes.

"Kim" representa o momento instrumental com um lindo solo de flauta. É exatamente um momento acústico que acabou se tornando a Maravilha Prog dessa semana. Trata-se da faixa-título. 


Contra-capa com o "alerta" para a audição de "Please Don't Touch"
Ela foi oferecida por Hackett ao Genesis ainda na época de A Trick of the Tail e ficou escondida sob os panos do grupo até aparecer no lado B de Please Don't Touch. A contra-capa indica para tomar cuidado com a canção, pois pode deixar o ouvinte confuso e causar problemas de insanidade temporária. E, realmente, é isso que ela faz!

"Please Don't Touch" aparece logo após a vinheta instrumental "Land of a Thousand Autumns", na qual Hackket nos apresenta um pequeno riff central com a guitarra sintetizada explodindo na virada de bateria que apresenta órgão e guitarra repetindo o tema de "Land of a Thousand Autumns". O músico violenta a guitarra através da alavanca, que faz o instrumento gemer. Os sintetizadores dão um clima todo especial para canção. A marcação de baixo e bateria é quebradíssima e os diversos barulhos que surgem ao fundo parecem que constroem uma canção. 

O maluco trecho central surge após uma ponte repleta de marcações extremamente complicadas entre piano, órgão, violão e bateria, com destaque para a performance de Chester Thompson. Nesse trecho central, guitarra e flauta duelam em cima de um tema do folclore britânico. O trecho  é repetido duas vezes, enquanto a ponte é repetida três. Um mágico solo de flauta nos leva novamente para o riff de "Land of a Thousand Autumns", executado entre muitos barulhos pela guitarra e pelo órgão, encerrando essa maravilha com uma abrupta interrupção. Deixa, apenas, o picolo e um fagote reproduzindo o riff principal.

Dessa repetição, nasce "The Voice of Necam". Uma linda passagem de violão feita por Hackett, servindo perfeitamente como conclusão da obra-prima chamada "Please Don't Touch".

Steve Hackett nos anos 2000
Steve Hackett continua em carreira solo até os dias de hoje, tendo gravado mais de uma dezena de LPs que vão desde o blues até a música latina. Em 1985, formou o GTR ao lado de outro gigante do progressivo: Steve Howe. Apesar da sonoridade AOR, o único álbum da banda (GTR, lançado em 1986) apresenta uma sequência para "Please Don't Touch". Trata-se de "Hackett to Bits", na qual o guitarrista mostra toda sua virtuose em cima do riff dessa maravilhosa canção fazendo variações em cima do tema principal. Incrivel! Mesmo tendo ganho uma cara mais moderna. Uma vez Maravilha Prog, sempre Maravilha Prog!!!

terça-feira, 24 de julho de 2012

Review exclusivo: Viper (Porto Alegre, 21/07/2012)



Por Mairon Machado

A primeira parte da turnê comemorando os 25 anos do grupo paulistano Viper foi encerrada na noite do último sábado, 21 de julho, com um espetáculo emocionante no pequeno Teatro do CIEE, em Porto Alegre. Em uma apresentação de quase três horas - Andre Matos (voz, teclados), Pit Passarell (baixo, voz), Felipe Machado (guitarra, voz), Hugo Mariutti (guitarra) e Guilherme Martin (bateria) - resgataram a alegria de se ouvir Power Metal bem tocado, apresentando na íntegra os seus dois primeiros álbuns: Soldiers of Sunrise (1987) e Theatre of Fate (1989).

Mas o show não foi somente isso. Foi um festival de lágrimas, risadas, saudosismo. Uma contagiante performance que sacudiu as estruturas do CIEE. Além de um respeito mútuo entre banda e fãs, que deixou muita gente espantada pelo vigor imposto pelo grupo em cima do palco, mesmo separados por 22 anos.

Phornax

A noite começou com a curta, mas muito boa, apresentação do grupo Phornax. Formado por Cristiano Poschi (voz), Thiago Prandini (guitarra, voz), Maurício Dariva (bateria) e Uesti Papeé (baixo, voz), o quarteto apresentou uma perfomance sólida que agradou ao pequeno público que o assistiu. Apresentando as quatro canções que compoem o EP Silent War (lançado de forma independente nesse ano), demonstraram que, com pequenos ajustes, vão dar o que falar na cena nacional. Um bom show, que animou bastante para a sequência da noite. O grupo possui muito carisma, distribuiu uma canção via Bluetooth aos presentes, além de apresentar ao público uma linda dançarina chamada Aline que fez uma sensual dança do ventre durante uma das canções.

Após uma pequena espera, entrou em cena o aclamado Scelerata. Um dos maiores nomes do metal gaúcho na atualidade. Confesso que achei o show bem chatinho. Apesar da inclusão de "Run to the Hills" (única que levantou o público, que agora já concentrava-se em maior número), o estilo pareceu não agradar a maioria do Teatro que começou a se acomodar nas poltronas do CIEE esperando o show acabar. Não sei como essa banda faz sucesso. Não entendo como Andi Deris e Paul DiAnno já pagaram pau para eles. Enfim, destaca-se pelo menos o trabalho dos guitarristas.

Viper ao vivo

Passada a fraca apresentação do Scelerata, que ainda teve a pífia ideia de chamar o Viper de "Dinossauros do Metal nacional", as cortinas do Teatro se fecharam e a movimentação começou para a grande atração da noite. Com um pequeno atraso, depois de uma longa introdução pré-gravada, o quinteto subiu ao palco detonando "Knights of Destruction", abrindo o Lado A de Soldiers of Sunrise

Detalhar as canções uma por uma é desnecessário, pois a performance é quase perfeita. Por outro lado, os fatos inusitados que ocorreram no show precisam ser trazidos ao nobre leitor. Andre fala muito, conversa bastante e detalha histórias antigas da formação do Viper de forma descontraída, assim como todos os membros da banda que estão muito a vontade tocando seus velhos clássicos.

Logo na primeira conversa, com o teatro lotado, Andre viu Micael e eu segurando a capa dos vinis de Soldiers of Sunrise e Theatre of Fate (respectivamente). Não é que ele vem na nossa direção, pega as capas dos vinis e leva para o palco para dizer que vão apresentar os dois? Ainda diz: "Depois a gente vai autografar esses aqui para vocês!".

Felipe Machado

Cara, ali foi a primeira alegria extra-música, mas ainda tinha mais... Pit, que parece estar com algum problema de saúde e muito acima do estoque alcoólico recomendado para um ser humano foi ao microfone e falou: "Quando estávamos vindo para cá eu vi vocês, com os vinis. Me deu vontade de descer da van e autografar ali mesmo". Cara, um dos principais nomes do metal nacional (se não o maior) viu a gente e ainda se lembrou da gente, isso não tem preço. Mas ainda tinha mais ...

Voltam para seguir as canções de Soldiers of Sunrise. "Nightmares", "The Whipper", "Wings of the Evil" e "Signs of the Night" são apresentadas uma a uma fugindo da sequência natural do LP. Apesar da visível queda na voz de Andre, o cara ainda manda muito bem. Felipe parece um menino que está fazendo seu primeiro show, e, por diversas vezes, passa a guitarra para os fãs tocarem nela, sendo que eu tive a oportunidade de fazer uma pestana para ele tocar (a pedido do mesmo!). Hugo, substituindo Yves Passarell (guitarrista original da banda) faz muito bem as suas partes, talvez até melhor. Sua técnica é perfeita! Martin executa seu conjunto com velocidade e muita técnica e Pit é a atração maior.

Pit Passarell
Apesar de realmente parecer não estar no seu melhor estado de saúde (tomara eu que esteja errado), o baixista é um ídolo para os fãs e também para seus colegas de banda. Por diversas vezes, o grito "Pit! Pit! Pit!" foi pedido para ser entoado por Andre ou por Felipe. O baixista, sempre altamente emocionado, dirigia-se a plateia com muita atenção e carinho. 

Soldiers é encerrado com êxito e, sob muitos aplausos e urros da plateia, o quinteto deixa o palco para dar espaço a apresentação de um engraçado vídeo contando a história da banda desde seu início com várias fotos e imagens raras. Destaca-se a apresentação incendiária (literalmente) no primeiro show de divulgação de Soldiers of Sunrise, no qual um roadie do grupo acabou incendiando as cortinas da escola em que a banda se apresentava de forma totalmente inusitada. 

O vídeo acaba ao som de "Illusions", faixa instrumental que abre Theatre of Fate. Os integrantes voltam ao palco para apresentar este que é um dos melhores discos do rock nacional. "At Least a Chance" e "To Live Again" sacudiram as estruturas do CIEE. A sequência "A Cry from the Edge" / "Living for the Night"  fez muitos presentes perderem a voz tentando cantar os agudos inatingíveis de Andre (que nem ele consegue atingir mais, infelizmente). 

Andre Matos à frente do Viper
Andre comanda as ações, saindo e entrando do palco por diversas vezes, não querendo ser o centro das atenções como muitos pensam por aí. Em uma de suas saídas, volta indignado dizendo que os donos do Teatro pediram para agilizar e tocar as canções de uma vez, pois tinham que fechar o mesmo. Como que em um ataque de rebeldia, mandam uma versão de mais de dezesseis minutos para "Living for the Night". Durante ela, Andre pegou duas baquetas, foi para o lado de Guilherme e deu espaço para Pit apresentar a banda. Com uma voz muito fraca, Pit apresentou um a um, chamando Andre de "Melhor Vocalista do Mundo".

Para agradecer, Andre apresentou Pit contando sua história, dizendo que ele era o responsável por mostrar o som pesado para eles (já que era o mais velho) quando ainda eram garotos, que compôs Power Metal antes mesmo do Helloween e deixou Pit mais emocionado do que já estava. Ainda deu tempo de Andre fazer um belo manifesto, sentando o ferro naqueles que dizem que o grupo voltou apenas para fazer uma turnê comercial dando um direto para uns e outros pseudo-jornalistas metidos a besta, com certa reputação no centro do país, que falam que a cena metálica no Brasil é decadente. Se fosse, todos os shows da To Live Again Tour não teriam sido concluídos com todos os ingressos vendidos. 

Passada a loucura de "Living for the Night" veio a faixa-título. Todos ficaram em silêncio para acompanhar "Moonlight". A performance de Andre não é idêntica a do vinil, mas é invejável ver que ele ainda consegue cantar essa canção. O show encerrou-se com "Prelude to Oblivion" (outra mudança na ordem original). Assim, saem novamente de cena.

Aos gritos de "Viper! Viper! Viper!", retornam meio sem saber o que fazer, visivelmente emocionados. Pit, carregando várias palhetas, anuncia: "Tenho palhetas para vender". Quando vai começar a distribuir as palhetas, olha em direção aonde está o Micael e fala no microfone: "Eu vi você com os discos cara, tá aqui, eu vi você!", dando a palheta para meu irmão. Bah, se o Micael tenta tocar baixo muito é por causa do Pit. Ver ele recebendo a palheta de um de seus maiores ídolos foi mais uma grande alegria.

Fã-bolha e seu ídolo

Pit diz que vão tentar interpretar algumas canções do álbum Evolution. Eu, que estava com a capa do vinil nas mãos, vejo Pit vir na minha direção, pedir a capa do vinil, levar a mesma para o palco e depois vir agradecer por ter o mesmo. Baita parceria, humildade e valorização de um fã, que já brilhava os olhos mais do que as meninas que não paravam de olhar para o Andre, mas no meu caso era de emoção.

Tentam (por que não vão até o fim) interpretar "Evolution", fazem uma estranha versão para "The Spreading Soul" (com Pit e Andre dividindo os vocais), mandam ver em "Rebel Maniac" e encerraram o show com a cover veloz de "We Will Rock You" (gravada originalmente pelo Queen no excepcional Live Killers, de 1979), encerrando o show com muitos agradecimentos, apertos de mãos com os fãs e uma alegria incontrolável de cada um.

Eu, que estava de queixo caído, ainda fui surpreendido por Felipe, que veio direto a mim para dar a sua palheta. E por Hugo, que também se dirigiu a mim e jogou a palheta exatamente sobre as capas dos meus vinis. A guitarra de Felipe foi uma das minhas maiores inspirações para mergulhar no metal há 20 anos. Receber a palheta direto das mãos dele, depois de ter feito uma pestana na sua guitarra e por diversas vezes ter tido a oportunidade de tocar na mesma, alargou ainda mais o sorriso na minha boca. Mas ainda tinha mais ...

Saída do show. É a vez de receber o prometido (em cima do palco) autógrafo. Altamente bem receptivos, um a um os vinis e CDs levados para o quinteto foram sendo autografados entre fotos e conversas descontraídas. Pit era o mais emocionado de todos. Ter abraçado e conversado com esse verdadeiro mestre da música nacional colocou finalmente minha boca nas orelhas, tamanha a alegria que o baixista emana por estar tocando, assim como Felipe, Hugo e Guilherme. Até mesmo Andre foi muito gentil atendendo aos fãs.
Recordações do show: LPs (acima);palhetas, camiseta, set list e baqueta (abaixo)

Saí carregando várias lembranças físicas (palhetas, a baqueta de Guilherme, uma garrafa de água que dividi com Guilherme, o set list do show...), mas as lembranças emocionais de ter visto um grandioso show, acompanhado por aquele que me ensinou a ouvir Viper (no caso, meu irmão Micael) e ter conversado com meus ídolos nacionais do metal valem muito mais do que as lembranças físicas. Impagável é pouco para definir o que aconteceu. Eu diria que, verdadeiramente, é inesquecível!

Obrigado Andre, Felipe, Hugo, Guilherme e Pit por terem realizado o sonho de um garoto de nove anos, que estava no corpo de um homem de vinte e nove anos, revendo e ouvindo seus vinis com a curiosidade e a alegria de um menino que acabou de aprender a andar de bicicleta. Jamais esquecerei isto!!


Por Micael Machado

Bem, depois do emocionante relato do Mairon aí em cima, o que mais posso acrescentar para descrever esta fantástica noite? Talvez pouca coisa... ou não!

Foi lá por 1991, 1992. Minha irmã ou meu irmão (provavelmente ele) estava assistindo ao programa da Mariane no SBT em uma manhã preguiçosa de inverno, em busca de alguns desenhos infantis para se divertir. Algumas bandas costumavam aparecer nesse programa para fazer playbacks de suas canções como forma de divulgação de seus lançamentos. Naquele dia específico, apareceu por lá um quarteto paulista denominado Viper, do qual eu nunca havia ouvido falar. Entre uma pergunta sem noção e outra da apresentadora, os caras tocaram “Living for the Night” e “A Cry From The Edge”, do disco Theatre of Fate (1989). Meu queixo simplesmente caiu com a qualidade das músicas. Começava ali um caso de amor com o grupo, que me levou a conhecer a história daqueles garotos e saber que aquela não era a formação que havia registrado aquele disco. O vocalista Andre Matos havia saído da banda antes dessa apresentação na televisão. Vê-los no Programa Livre do mesmo SBT (então apresentado por um Serginho Groisman totalmente identificado com a juventude brasileira, algo que ele tenta fazer até hoje), dessa vez tocando “ao vivo” músicas de Evolution (1992), seu disco mais recente então, me fez comprar todos os seus discos (já lançados e futuros), me associar ao fã-clube oficial (única banda com a qual fiz isso) e pensar até hoje que não há disco de heavy metal melódico já gravado no Brasil que supere o citado Theatre.

Tive a oportunidade de vê-los ao vivo apenas uma vez, na turnê de Tem Prá Todo Mundo (de 1996). Inexperiente no mundo dos shows, em uma época pré-internet, pensei que iriam tocar apenas músicas daquele disco e não fui à apresentação. Me arrependo até hoje, pois depois disso o grupo se separou e só foi voltar a gravar dez anos depois, lançando o muito bom All My Life (2007) e fazendo uma turnê que, se passou por Porto Alegre eu não fiquei sabendo ou não tive condições de acompanhar.

Até que, no começo deste ano, totalmente do nada surgiu a notícia de que Pit Passarell (baixo e vocais) e Felipe Machado (guitarras) haviam se reunido a Guilherme Martin (bateria) e Andre Matos (voz) para uma turnê comemorativa aos 25 anos do grupo. Yves Passarell, o guitarrista e irmão de Pit, não estaria presente, mas seria substituído por Hugo Mariutti (Ex-Shaaman, atual membro da banda solo de Andre), o que significava que a qualidade seria mantida. A ideia era interpretar na íntegra os dois discos gravados com Andre - os clássicos Soldiers Of Sunrise e Theatre of Fate - além de outras “surpresas”. Quase a realização do que havíamos imaginado em um texto da nossa coluna "Notícias Fictícias que Gostaríamos que Fossem Reais" de maio de 2011. E uma data foi marcada para Porto Alegre, em 21 de julho de 2012. É claro que desta vez eu não iria desperdiçar a oportunidade.

Eu e meu irmão chegamos ao teatro do CIEE com grande expectativa para a noite. Passamos pelo bom show da Phornax (fazia tempos que uma banda de abertura não me impressionava tanto). Ao final, corri para a "lojinha" do lado de fora da sala de espetáculos (administrada pela atenciosa e simpática Ticiane) para adquirir o EP que estavam divulgando, o já citado Silent War. Que eu lembre, apenas o grupo Poços e Nuvens, na abertura do show do Focus em 2003, havia me atingido de tal forma a ponto de comprar o seu disco baseado em um opening act para um grupo de maior expressão. Se mantiverem a qualidade das músicas do EP, esses caras (com quem tive a oportunidade de bater um papo após a apresentação deles, ao lado do Mairon) ainda vão longe.

Phornax e a dançarina
Veio a apresentação da Scelerata. Foram quarenta e cinco minutos que não me agradaram muito. O estilo não é ruim, nem a banda toca mal, mas as composições não caíram no meu gosto. A melhor coisa do show foi o cover para "Run to the Hills" (do Iron Maiden), que deve significar alguma coisa. Talento eles têm, mas não foi a melhor apresentação de abertura da noite.

Scelerata no palco do teatro do Ciee 

Mais meia hora de espera... Chegava, enfim, a hora da atração principal. Se nos outros shows o teatro estava ainda com lugares vazios, na hora do Viper estava totalmente lotado. E ninguém queria ficar sentado em seus lugares. Muitos, como eu e meu irmão, se mandaram para a frente do palco, o que nos propiciou todos os fatos interessantes que ele relatou.



Nas duas primeiras músicas, fiquei como um tiete louco agitando as capas dos vinis de Soldiers e Theatre para o grupo. Felipe, bem à minha frente, foi o primeiro a perceber, depois Pit e finalmente Andre que, como o Mairon disse, veio até nós e "apresentou" os discos ao público. Nunca algo nem próximo disso havia me acontecido em todos esses anos de idas a shows. Agora, ouvir Pit dizer que havia nos visto com os discos embaixo do braço na chegada ao teatro e que se emocionou a ponto de querer parar e assiná-los ali mesmo foi muito bom.



O show continuou com a categoria de sempre. Felipe agitando muito, sempre carinhoso com o público. Diversas vezes se ajoelhava ou deitava no palco, pertinho de quem estava ali na "zona do gargarejo", colocando sua guitarra perto o suficiente para que os fãs pudessem tocá-la. Lembro dele fazendo um solo olhando diretamente para três garotas da primeira fila e, ao final do mesmo, tocar rapidamente na cabeça de cada uma (como que as abençoando). Um momento que pode ter passado batido para muitos, mas que com certeza significou muito para elas.


Viper ao vivo

Por várias vezes o público clamou o nome de Pit, não apenas quando Andre incentivava, mas também de forma espontânea e natural. O cara é uma figura com sua fala desajeitada e jeito desengonçado (também me passou a impressão de ter algum problema de saúde, mas, sinceramente, espero estar errado). Felipe comentou ao final, na conversa comigo e meu irmão, que Pit ainda tem "trejeitos de front-man". Ele foi o vocalista principal por muitos anos e todos eles foram apresentados nessa noite. Dentre histórias divertidas e íntimas do círculo do grupo (em certo ponto, ao contar da época de adolescente dos membros do Viper e lembrar do começo da banda, ele pareceu envergonhado de dizer que tocavam com instrumentos sem qualidade e que ele, baterista, tinha um tanque do Falcon e dois lápis para fingir de bateria. Feita a revelação, se denominou um man-in-black, e fez um gesto com a mão como se segurasse a caneta que os personagens do filme usam para fazer as testemunhas de um evento esquecerem o que viram. Nos mandando "olhar para a luz", perguntou se tinha funcionado ou se ainda lembrávamos da história, rindo bastante ao ouvir a resposta que ainda lembrávamos de tudo. Foi a grande figura da noite, o centro das atenções e, segundo Andre, o responsável por tudo aquilo estar acontecendo. Salve, salve, grande Pit Passarell!



Andre Matos dispensa comentários. Os anos de estrada o transformaram em um dos maiores front-man do rock mundial, assim como uma das melhores vozes do metal. Ainda que alguns teimem em dizer que seu alcance vocal não é mais o mesmo, ele ainda detona no microfone, como demonstrou ao longo de toda a noite. Além disso, é dono de um carisma e simpatia enormes, o que faz com que todos se rendam à sua performance de palco. Discursou em favor do metal nacional, dizendo que o teatro lotado era a prova de que o público ainda apoia o estilo, ao contrário do que alguns apregoam. Agradeceu por diversas vezes aos presentes e ainda nos fez cantar o Hino Rio-grandense inteiro "para que os outros membros do Viper vissem o quanto os gaúchos se orgulham de seu estado", segundo suas palavras. Reclamou por ainda não ter tomado chimarrão naquela noite e elogiou o vinho produzido em Bento Gonçalves. Um perfeito entertainer que conquistou a todos os presentes!


Andre Matos ao teclado

Guilherme Martin, que curiosamente nunca gravou material oficial com o grupo, apesar de estar presente em vários momentos importantes de sua história, manda muito bem em seu kit de bateria. Assim como o "novato" Hugo Mariutti que, sendo um músico mais técnico que Yves Passarell, o substituiu a contento, apesar de sua postura tímida e retraída no canto do palco como se não se sentisse à vontade na banda. Bobagem... O cara parece nascido para tocar no grupo! Apesar de algumas falhas no som de sua guitarra ao longo da apresentação (por vezes não se conseguia ouvir o instrumento com clareza), mandou muito bem!



Ainda houve tempo para eu receber uma palheta diretamente das mãos de Pit, um dos músicos que me fez optar por tocar baixo, e de cumprimentar Felipe e Andre ainda no palco em uma noite que, se tivesse terminado ali, seria perfeita. Mas ainda havia mais.



Na volta para o bis, Felipe disse que tinha visto uma faixa pedindo a música "Evolution" e que a mostrássemos para Pit (que ainda não tinha voltado ao palco) para tentar convencê-lo a tocá-la. Quando o baixista voltou, a faixa foi passada às suas mãos e, após alguma enrolação, ele tocou e cantou toda a introdução com potentes linhas de baixo e a interpretação da letra até a parte "I will bring you back home, dead or alive, I don't know". Andre então disse que o grupo não havia ensaiado o resto. Pit anunciou que tocariam outra daquele disco, vindo até o Mairon e pegando a capa do mesmo para mostrar ao público. "The Spreading Soul", que nunca foi das minhas favoritas deste vinil, teve uma bela versão com os vocais divididos entre Pit e Andre. O teatro incendiou mesmo com "Rebel Maniac" (cantada por Andre, com a presença dos músicos da Sceleratta e membros da equipe técnica nos backing vocals) e a versão rápida de "We Will Rock You" - que algum imbecil da revista Bizz certa vez chamou de "sacrilégio com a versão lenta original", sem se aperceber que o próprio Queen a tocava desta forma em seus concertos. Certos jornalistas musicais, hein, vou lhes contar...



O show terminou e a noite não parecia poder ficar melhor. Mas ficou! Encontramos os membros da banda para autógrafos e bate papo, sendo que primeiro me dirigi a Hugo (que parecia meio isolado pelos fãs, um pouco escondido mais ao fundo) com meus CDs do Shaaman e de Andre solo para ele autografar. Depois, foi a vez de Guilherme, que assinou o encarte de Theatre. Quando eu e o Mairon lhe falamos que tínhamos ganhado palhetas dos outros membros, ele pediu para alguém trazer uma baqueta, entregando-a ao Mairon com a frase "não é justo você ter uma lembrança dos outros e não ter nenhuma minha". Puxa... Quando eu esperaria que um músico reconhecido fizesse algo assim tão humilde e, ao mesmo tempo, tão grandioso para com um simples fã? Foi de emocionar!

Pit finalmente apareceu e foi a ele que me dirigi. Conversei bastante, contei algumas histórias da minha relação com a banda e ele parecia honestamente feliz e emocionado ao ouvir o relato de um simples fã como eu. Pediu para tirar várias fotos e foi de uma atenção enorme para comigo e o Mairon. Não tenho palavras para descrever este momento, o qual, sozinho, já valeu a noite!


Fã-bolha e seu ídolo

Felipe foi o próximo e uma brincadeira que eu e o Mairon temos há anos não poderia deixar de ser feita. Após lhe apresentarmos nossas identidades para que ele não tivesse dúvidas quanto à coincidência, lhe chamamos de "primo" devido a termos o mesmo sobrenome. Ele achou legal e tentou achar relações entre sua família (paulista) e a nossa (gaúcha), sem sucesso, é claro. Mesmo assim, foi com a frase "um autógrafo do primo Felipe Machado" que assinou os discos, em mais uma demonstração de como esses caras são gente boa pacas!



Um segurança tentava tirar os fãs que ainda restavam para fora do teatro, que tinha de ser entregue, mas ainda faltava falar com Andre. Sentado em uma das poltronas, nos recebeu com simpatia e autografou a tudo e conversou com todos com uma humildade que muitos músicos de menor expressão não possuem. Apesar de rápido, foi outro momento marcante e fomos delicadamente "colocados para fora" pelo segurança para que o teatro pudesse ser fechado.



Voltamos para casa comentando os vários fatos marcantes de uma noite inesquecível. Foi só ao chegar que percebi que não tinha pego sequer um autógrafo de Pit, tendo ficado "perdido" no agradável bate papo e na improvisada "sessão de fotos" que fizemos. Sendo assim, Pit, se vier a ler estas linhas, saiba que tens a obrigação de voltar a tocar em Porto Alegre e autografar adequadamente os meus discos, além de fazer um show tão bom ou ainda melhor que este (se é que isto é possível). Vou ficar esperando!


Set list

Set list

Parte 1: Soldiers of Sunrise

1. Intro
2. Knights of Destruction
3. Nightmares
4. The Whipper
5. Wings of the Evil
6. Signs of the Night
7. Killera (Princess of Hell)
8. Soldiers of Sunrise
9. Law of the Sword
10. H. R.

Parte 2 - Theatre of Fate

1. Illusions
2. At Least a Chance
3. To Live Again
4. A Cry from the Edge
5. Living for the Night
6. Theatre of Fate
7. Moonlight
8. Prelude to Oblivion

Bis

9. Evolution (Excerpt)
10. The Spreading Soul
11. Rebel Maniac
12. We Will Rock You
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...