quinta-feira, 30 de junho de 2011

Maravilhas do Mundo Prog: King Crimson - Islands [1971]




Em 1971, o King Crimson, o quarto gigante do rock progressivo britânico (a saber, os três primeiros são Pink Floyd, Yes e Genesis, e ainda tem o quinto, Emerson Lake & Palmer), estava ainda se reerguendo de uma queda descomunal. A saída de Greg Lake (baixo, vocais) no início de 1970 para ir integrar o Emerson Lake and Palmer, e também da dupla Michael (bateria) e Peter Giles (baixo), fiéis escudeiros do mentor do King Crimson, Robert Fripp (guitarra, mellotron, pedal peter, harmonia e sundry implements) desde os tempos de Giles, Giles & Fripp, quase fizeram com que o guitarrista fosse parar no Yes, que estava a procura de um substituto para Peter Banks. Depois de dois álbuns lançados (In the Court of the Crimson King, de 1969; In the Wake of Poseidon, de 1970), Fripp se via a beira do limite.

Graças aos deuses dinossáuricos, o guitarrista manteve-se na luta, e reformulou o seu grupo no espetacular Lizard, um dos melhores e mais injustiçados discos do King Crimson. Chamando o vocalista do Yes, Jon Anderson, para colaborar no álbum, Fripp estabeleceu a nova formação do King Crimson com Gordon Haskell (baixo, voz), Mel Collins (ex-Cirkus no saxofone e flautas), Andy McCulloch (bateria) e a essencial colaboração de Peter Sinfield escrevendo letras, e como depois seria designado, sons, danças e visões (uma forma engraçada de homenagear o comportamento de Sinfield nos estúdios). Contando com a colaboração dos músicos convidados Keith Tippett (piano), Robin Miller (oboé), Mark Charig (trompete) e Nick Evans (trombone), a nova formação do King Crimson voltava-se para o jazz, aprofundando as experimentações que já ocorriam nos dois primeiros álbuns em canções como "Indoor Games" e "Cirkus".

A chamada "segunda encarnação" do King Crimson: Collins, Wallace, Burrell e Fripp
Mas Lizard também apontava uma direção nova na musicalidade do King Crimson. As belas "Lady of the Dancing Water", e a longa faixa-título, são composições leves e muito absorvedoras do que podemos dizer "amenidade Frippiana", com andamentos simples, sem exageros, prevalecendo melodias ricas e extremamente emocionantes, sendo que é na primeira parte da suíte "Lizard", "Prince Rupert Awakes", que Jon Anderson dá o ar da graça.

Só que depois do lançamento de Lizard, uma nova reformulação ocorreu. Gordon e McCulloch saíram do grupo, e para os seus lugares, entram o jovem Boz Burrell (baixo, voz) e Ian Wallace (bateria). Ao lado de Mel Collins (o único remanescente) e tendo ainda a colaboração de Sinfield, bem como dos músicos que haviam participado de Lizard Keith Tippett (piano), Robin Miller (oboé), Mark Charig (trompete), acrescentando Paulina Lucas (voz soprano) e Harry Miller (viola), Fripp explorou ainda mais o lado orquestral e melódico de seus novos músicos, lançando um dos álbuns mais bonitos da história.

Robert Fripp
Islands chegou as lojas no início de dezembro de 1971. Para muitos, uma grande decepção. Para outros (eu incluso), o mais belo disco da carreira do grupo. Sem contar com as intrincadas escalas frippianas, ou tampouco com sessões pesadas entre guitarra e saxofone, Islands passa como um rio sereno pelo seu quarto, deixando apenas o leve barulho de canções ricamente harmoniosas e belas, levando ao extremo o que havia sido trabalhado na suíte "Lizard" e também em "Lady of the Dancing Water". 

Canções como "Formentera Lady" (com um show a parte da viola e da flauta, e  as ensandecidas linhas vocais de Paulina), "The Letters" e a viajante "Sailor's Tale" (essa mostrando um ótimo trabalho de guitarra, baixo, bateria e claro, os metais de Collins), são amostras perfeitas da simplicidade jazzística dessa nova encarnação do King Crimson, com o piano de Tippett beirando o free jazz, em frenêsis criativos que, ao lado da viola, da flauta e principalmente, da doce voz de Burrell, açucararam as viagens progressivas de Fripp.

Boz Burrell, Ian Wallace e Mel Collins
Mas é na faixa-título que o grupo se supera. Estrategicamente posicionada na última faixa do lado B, concluindo o LP após o espetáculo de "Prelude: Song of the Gulls", "Islands" é daquelas maravilhas para serem admiradas até os últimos instantes de vida.

A canção começa com acordes de piano trazendo a voz de Burrell, acompanhada pelo saxofone. Boz canta lentamente a bonita letra da canção, que narra sobre como as ilhas são formadas, fazendo uma alusão de como o ser humano cria suas próprias ilhas que o isolam das demais pessoas. O piano dedilha encantadoramente durante o refrão da letra, com a voz de Boz sendo ouvida ao fundo, e então, fica apenas o piano, sozinho, solando muito suave e acompanhando o solo de trompete.

Esse solo repete a melodia vocal do refrão, trazendo o baixo de Boz fazendo leves marcações acompanhando o tema do trompete. Boz retorna ao refrão, sobreposto pelo baixo e pelo piano. Tippett dedilha o piano mais rapidamente, trazendo o oboé, o qual repete a melodia vocal do refrão, para Boz encerrar a letra, com o oboé sempre acompanhando a melodia vocal e tendo o piano como o guia das notas cegas do saxofone de Collins, o qual faz um tema diferente do que está sendo executado no centro da canção.

O oboé então reaparece, fazendo novamente o tema do refrão, e muito devagar, a bateria aparece, bem como a guitarra, para ao mesmo tempo que Boz repete o refrão, o trompete solar preguiçoso e muito belo, deixando as notas da guitarra de Fripp soarem como um saboroso tempero, complementado pelo acréscimo do mellotron e levando ao lindo final da canção, com piano e trompete dividindo as atenções sobre o suave andamento de baixo, mellotron e bateria, o qual cresce tão suave quanto se possa imaginar, encerrando essa maravilha com uma tímida lágrima insistindo em brotar de seus olhos, tamanha beleza e emoção transmitida pelo King Crimson, deixando apenas um longo acorde de piano soar no seu quarto nos segundos finais.

Capa interna de Islands

Depois de Islands, essa mesma formação gravou o estrondoso ao vivo Earthbound (1972), e uma nova reformulação ocorreu no King Crimson, com a entrada de John Wetton (baixo, voz), Bill Bruford (bateria), Jamie Muir (percussão) e David Cross (violino). Com ela, o King Crimson conquistou seu posto entre os cinco principais nomes do rock progressivo britânico (ao lado de Yes, Emerson lake & Palmer, Pink Floyd e Genesis) através da trilogia Lark's Tongues in Aspic (1973), Starless and Bible Black (1974) e Red (1974). 

Esses três discos são essenciais na coleção de qualquer apreciador de rock progressivo, e bem diferentes do que a chamada "segunda encarnação" do King Crimson havia feito na sua fase jazzística. O grupo deixou de existir depois de 1975, voltando nos anos 80 (e posteriormente nos anos 90) tendo como principal atração as peripécias instrumentais de Adrian Belew (guitarras) e sessões de improviso quase que intermináveis, mas sem jamais conseguir alcançar os vôos que havia feito nos anos 70.

Capa do relançamento de Islands
Sei que vou sofrer ataques, mas me perdoem os conservadores e xiitas fãs da fase com Bill Bruford na bateria. Obviamente, esse período é possuidor de muitas maravilhas, mas o primeiro nome que me vem a cabeça quando me perguntam "qual é a melhor obra do King Crimson" é justamente o nome de Islands, um dos discos mais bonitos da história do rock progressivo, que no dia do meu enterro eu gostaria que fosse tocado todo seu lado B (ao lado de "Woudn't it be Nice", do Beach Boys), e cuja maravilhosa faixa-título é o sinônimo para o nome dessa seção. Ou seja, poderíamos mudar esse título para Islands do Mundo Prog que estaríamos com uma excelente referência do que é uma verdadeira MARAVILHA.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Podcast Grandes Nomes do Rock #25: Saxon




Por Mairon Machado (Publicado originalmente no blog Consultoria do Rock)

Essa semana, o Podcast Grandes Nomes do Rock homenageia uma das principais bandas da New Wave of British Heavy Metal, (NWOBHM) Saxon, que teve um álbum recentemente lançado no último 03 de junho, o excelente  Call to Arms. Em uma hora e meia de programa, passearemos por canções da carreira do grupo desde seu início até os dias de hoje, participações de membros do Saxon em outros grupos/projetos, versões de canções que o Saxon gravou, porém interpretadas pelos artistas que as compuseram, e uma homenagem a NWOBHM apresentando um bloco somente com bandas do estilo.


A origem do Saxon começa em 1976, quando Peter "Biff" Byford (voz), Paul Quinn (guitarras), Graham Oliver (guitarras), Steve "Dobby" Dawson (baixo) e David Ward (bateria) fundam o grupo Son of a Bitch. Diversas apresentações de pequeno porte, e o fraco sucesso, fizeram com que Ward saísse do grupo em 78, sendo substituído por Pete Gill. Nascia então uma das principais formações da história do rock, que começou a conquistar fãs com apresentações enlouquecedoras ao lado de outro Grande Nome do Rock, o Motörhead.

O Son of a Bitch conseguiu um contrato com a gravadora Carrere, que exigiu a mudança do nome do grupo. O batismo agora se deu com algo puramente britânico: Saxon, que vinha estampado na capa do primeiro álbum do grupo, lançado em 1979 tendo o título com o nome da banda. 

Saxon fez um relativo sucesso, mas eram nos shows que o grupo começava a crescer. Compondo sem parar, Biff, Dawson e Oliver escrevem material para um álbum duplo. A gravadora recusa a ideia, e acaba lançando dois álbuns diferentes no ano de 1980.

O primeiro deles, Wheels of Steel, foi lançado em maio, colocou o nome do Saxon como um dos mais vendidos no Reino Unido, chegando a quinta posição e levado por clássicos como "Wheels of Steel", "747 (Strangers in the Night)" e "Machine Gun". Já o segundo, Strong Arm of the Law, lançado em setembro, é tido pelos fãs como o melhor disco da carreira do Saxon, destacando as imortais "Heavy Metal Thunder", "20,000 Ft", "Strong Arm of the Law" e "To Hell and Back Again".
Pete Gill, Graham Oliver, Biff Byford, Steve Dawson e Paul Quinn
As turnês do Saxon elevaram o nome do grupo a índices cada vez maiores de número de seguidores, e com o album seguinte, Denim and Leather (1981), os britânicos registram um dos principais hinos do heavy metal nos anos 80, a própria faixa-título. Além dela, "Princess of the Night", "Midnight Rider" e "Fire in the Sky" são outras grandes faixas, qe apresentam a velocidade e peso das guitarras da dupla Quinn/Dawson sustentadas pela precisão da cozinha Oliver / Gill, além da marcante voz de Byford.

Mas, Gill acabou sofrendo com um pequeno acidente com uma das mãos, e foi substituído por Nigel Cloker (ex-Krakatoa, Toyah Willcox). Ele é o responsável por comandar os bumbos na Denim and Leather Tour, que foi registrada no fundamental ao vivo The Eagle Has Landed (um dos melhores ao vivo da história do Heavy Metal). Nessa turnê, o Saxon foi headliner em toda a parte europeia, tendo como banda de abertura nada mais nada menos que o grupo de Ozzy Osbourne.

Após o sucesso de Denim and Leather, a NWOBH começou a entrar em decadência, com diversas bandas do gênero chegando ao seu fim, ou mudando a sonoridade de suas canções. O Saxon manteve o estilo, e fez bem, pois seu próximo álbum, Power & the Glory (1983), se tornou o LP mais bem sucedido em vendas na carreira do grupo. A faixa-título se tornou outro hino do Heavy Metal, e canções como "Warrior", "Midas Touch" e a épica "Eagle Has Landed", colocaram o Saxon finalmente no topo das principais bandas do metal britânico, ao lado de Iron Maiden e Judas Priest, formando a Santíssima Trindade do gênero.

Paul Quinn, Graham Oliver, Biff Byford, Steve Dawson, Nigel Glocker (1984)
Durante a Power and Glory Tour, o Saxon tocou somente em grandes arenas, passando por toda a europa e também nos Estados Unidos, onde contou com o Accept como banda de abertura, com destaque para uma apresentação em Los Angeles, onde somente nessa cidade o LP vendeu 15 mil cópias na primeira semana de vendas.

A turnê do Saxon acabou mostrando aos membros do grupo que realmente, a NWOBHM já não estava mais fazendo tanto sucesso com as canções pesadas. A onda era o chamado Adult Oriented Rock (AOR), com canções mais leves, e dessa forma, o grupo passou a mudar o direcionamento de suas canções já no álbum seguinte. Crusader (1984) ainda mantinha o peso dos álbuns anteriores, mas já dava algumas inclinações para o AOR, mostrando uma "americanização" no som do grupo, objetivando claramente conquistar de vendes o mercado dos Estados Unidos. O LP vendeu 2 milhões de cópias em apenas um ano, e foi seguido de outra grande turnê por europa e América do Norte, contando com o Mötley Crüe e o Krokus como bandas de abertura. Os grandes destaques desse álbum ficam para a cover de "Set Me Free" (original do grupo Sweet) e a épica faixa-título, além da clássica "Just Let Me Rock".
Paul Quinn, Biff Byford, Steve Dawson, Nigel Glocker, Graham Oliver
O grupo então assinou um contrato com a EMI, que olhava com bons olhos a americanização do som do Saxon, a qual veio mais forte ainda em Innocence is no Excuse, lançado em 1985. Os fãs britânicos torceram o nariz para o LP, mas os americanos se encantaram com canções como "Call of the Wild", "Rock 'n' Roll Gypsy", "Devil Rides Out" e "Everybody Up".  Apesar de chegar apenas na posição 130 nos EUA, aos poucos Innocence is no Excuse conquistou os fãs do país, e por lá, esse é o principal LP da carreira da banda.

Mais uma bem sucedida turnê pelos Estados Unidos acabou causando danos para o Saxon. Insatisfeito com as mudanças na sonoridade, Dawson pediu as contas durante a gravação do próximo LP. Rock the Nations, lançado em 1986, é o único disco do grupo a não contar com um baixista oficial. As linhas de baixo foram feitas em sua maioria por Biff Byford, bem como Quinn participou tocando baixo em algumas canções. O destaque maior desse álbum é a participação de Elton John nas canções "Party Til You Puke" e "Northern Lady".

Saxon em 1987: Paul Quinn, Nigel Durham, Biff Byford, Graham Oliver e Paul Johnson
O novo baixista do grupo foi apresentado logo após o lançamento de Rock the Nations. Paul Johnson vinha para adicionar mais tempero americano ao já americanizado e meloso novo som do Saxon, que foi sendo deglutido vagarosamente pelos fãs europeus, enquanto nos Estados Unidos o nome do grupo não conseguia subir. É na turnê desse álbum que o grupo virá atração principal do Reading Festival.

Paul Quinn, Steve Dawson, Biff Byford, Pete Gill e Graham Oliver
Como a meta era mesmo conquistar o mercado americano, o Saxon passou dois anos "estudando" para achar um meio de fazer isso. Então, em 88 lançam Destiny, considerado o pior disco da carreira do grupo, tendo Nigel Durham no lugar de Nigel Glocker. Trazendo logo na abertura uma cover para "Ride the Like Wind" (de Cristopher Cross), Destiny se tornou um dos maiores fracassos comercias da história da NWOBHM, levando a EMI cancelar o contrato com o grupo.

O Saxon navegava em mares tortuosos, e a solução foi assinar um contrato com a gravadora Virgin Records, que na época, voltava-se para a emergente cena do synthpop e da new age. Mas para o Saxon, a situação seria diferente. Tentado reconquistar os velhos fãs, o grupo substituiu Paul Johnson por Nibbs Carter, lançando em 1989 o álbum ao vivo Rock'n'Roll Gypsies, resgatando velhos clássicos da carreira.

Na sequência, lançam mais um álbum ao vivo, Greatest Hits Live (1990), voltando para os estúdios onde registram e lançam, no mesmo ano, o excelente Solid Ball of Rock, um petardo que mostrava aos fãs como o Saxon podia fazer canções pesadas novamente, destacando a excelente "Altar of the Gods", bem como "Baptism of Fire" e "Solid Ball of Rock". O bom desempenho nas vendas de Solid Ball of Rock manteve o Saxon em ativa, e após uma curta série de shows, o grupo voltou aos estúdios, lançando em 1992, Forever Free, com destaque para a cover de "Just Want Make Love to You", de Willie Dixon, e para a excelente canção "Iron Wheels".


Porém, a criatividade já não andava tão em alta, e o Saxon passou a se manter de curtas temporadas nos palcos, e longos períodos afastado dos estúdio. Somente em 1995, o grupo voltaria com um material novo. Dogs of War acabou marcando por ser o último álbum do grupo a contar com a participação de Graham Oliver nas guitarras. A saída de Oliver até hoje não é bem explicada, mas o que importa é que ele acabou reconstruindo o antigo Son of a Bitch, ao lado dos ex-Saxon Steve Dawson (baixo) e Pete Gill (bateria), além do vocalista Ted Bullet.

O Son of a Bitch lançou apenas um CD, Victim of You (1996), e logo deixou de existir, após a saída de Gill. Outro ex-membro do Saxon foi chamado para seu lugar, Nigel Durham, e com a entrada do vocalista John Ward, surgia assim o que a príncipio foi batizado de Saxon. Porém, uma imensa briga entre a dupla Oliver-Dawson contra a dupla Byford-Quinn, começou a pegar em cima do nome Saxon. As imensas divergências acabaram levando aos tribunais decidirem para ambos poderem usar o nome Saxon.

O resultado foi que o Saxon de Byford e Quinn chamou Doug Scarrat para a guitarra, apresentado no álbm ao vivo The Eagle Has Landed part II (1996) e no bom álbum de estúdio Unleash the Beast (1997), com destaque para a canção "The Thin Red Line", enquanto o Saxon de Oliver e Dawson acabou sendo batizado de Oliver/Dawson Saxon, que gravou três álbuns: Re://Landed (2000); It's Alive (2003) e The Second Wave: 25 Years of NWOBHM (2003).

Seguindo então na carreira do Saxon, em 97 saiu o bootleg-oficial Donnington: The Live Tracks, trazendo a apresentação do grupo no Monsters of Rock de 1980. Em 98, outro mimo, BBC Sessions / Live at Reading Festival '86, trazendo uma série de apresentações do grupo no programa BBC Radio 1, todas durante os anos 80, e também parte da apresentação do grupo no Reading Festival de 86.
Graham Oliver, Paul Johnson, Biff Byford, Paul Quinn e Nigel Glocker

Fritz Randow assumiu a bateria do Saxon em 99, no álbum Metalhead, caracterizado pelo estilo definido como Power Metal. No ano seguinte, a coletânea Diamonds and Nuggets chegava as lojas, trazendo muito material raro do início da carreira do grupo. Killing Grond (2001), foi o segundo disco com essa formação, mantendo a linha do Power Metal e destacando a cover para "The Court of the Crimson King" (King Crimson), seguido de outra coletânea, Heavy Metal Thunder (2002).


Somente em 2004 o Saxon lançaria um novo material de estúdio, Lionheart, tendo na bateria o ex-Stratovarius Jörg Michael. Os principais destaques desse álbum são as canções "Man and Machine" e a própria faixa-título. Esse álbum recebeu uma edição especial CD/DVD, cobiçada pelos colecionadores. Em 2006, The Eagle Has Landed part III aumentou a série de álbuns ao vivo do grupo, trazendo novamente Nigel Glocker para a bateria.

Paul Quinn, Doug Scarratt Biff Byford, Nigel Glocker, Nibbs Carter 

Em 2007, o grupo lança The Inner Sanctum, considerado por muitos o melhor disco do Saxon desde Solid Ball of Rock. Esse álbum traz a participação de Lemmy Kilminster na canção "I've Got to Rock (to Stay Alive), e também recebeu uma tiragem limitada na versão CD/DVD. Em 2009, Into the Labyrinth manteve a linha de seu antecessor, destacando "Live to Rock" e "Hellcat".

No último dia 03 de junho, chegou as lojas Call to Arms, mostrando que apesar dos mais de 30 anos de carreira, o Saxon ainda tem muito para dar para seus fãs e principalmente, para o metal mundial.


Discografia do Saxon
Track list Podcast # 24: Viper

Bloco 01
Abertura: “H. R. (Heavy Rock)” [do álbum Soldiers of Sunrise – 1987]
Killera (The Princess of Hell)” [da demo The Killera Sword – 1985]
“Nightmares” [do bootleg Projeto SP Metal / Teatro Lira Paulistano – 1985]
A Cry From The Edge” [do album Theatre of Fate – 1989]
“Living for the Night” [do album Theatre of Fate – 1989]

Bloco 02
Abertura: “To Live Again” [do album Theatre of Fate – 1989]
“The Shelter” [do album Evolution – 1992]
“The Spreading Soul” [do EP Vipera Sapiens – 1994]
“Straight Ahead” [do album Coma Rage – 1995]
“Sábado” [do album Tem Prá Todo Mundo – 1997]
“Knights of Destruction” [da demo Demo 2005 – 2005]
“Soldier Boy” [do album All My Life – 2007]

Bloco 03
Abertura: “Rebel Maniac” [da Apresentação no Programa Livre – 1992]
“Carolina IV” [do álbum Holy Land – 1998 (Angra)]
“Fairy Tale” [do bootleg Clássicos do Rock II – 2009 (Andre Matos e Orquetra de Câmara da ULBRA)]
“Leading On” [do álbum Mentalize - 2009 (Andre Matos)]
“Marte em Capricórnio” [do album Das Kapital – 2010 (Capital Inicial)]

Bloco 04
Abertura: “Dinheiro” [da apresentação no Programa Hebe – 1997]
“Mais do Mesmo” [do álbum Que País É Este 1978 / 1987 - 1987 (Legião Urbana)]
“We Will Rock You” [do álbum Live Killers – 1979 (Queen)]
“I Fought the Law” [do bootleg Liva at RCA – 2008 (Sonny Curtis and The Crickets)]
“Power and the Glory” [do album Power & the Glory - 1983 (Saxon)]

Encerramento: “Love Is All” [do album All My Life – 2007]


sábado, 25 de junho de 2011

O 45 anos de Pet Sounds



Uma voz ou uma canção podem ser tão confortantes para alguém que realmente precisa disto. Quando você faz um grande álbum, isto é bom para você se confidenciar e contar a você mesmo que você pode continuar a gravar com o mesmo espírito de amor e dedicação. Após “God Only Knows”, Carl e eu fizemos sessões de oração pedindo a Deus um guia e vibrações máximas de amor para este single crucial. Esta era a primeira vez que alguém usava a palavra “Deus” em uma canção comercial, até onde eu sei. Durante a produção de Pet Sounds, eu sonhei que tinha um auréola em minha cabeça. Isto pode significar que os anjos estavam observando sobre Pet Sounds.

Este álbum é pessoalmente de mim para você”.

Brian Wilson (1965)
É com essas palavras que Brian Wilson, gênio, líder e fundador do grupo Beach Boys, encerra sua dedicatória aos fãs em um dos álbuns mais lindos já gravados na história da música. Particularmente, Pet Sounds está para mim na lista dos três melhores discos de todos os tempos, e certamente, ao lado dos outros dois (Tales from Topographic Oceans, do Yes; Physical Graffitti, do Led Zeppelin), Pet Sounds é um álbum que qualquer ser humano irá gostar, tornando-o então o melhor disco da história, mesmo tendo contra todos os "especialistas" que atribuem esse prêmio (subjetivo e obviamente, irrelevante) para Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos The Beatles.

Mas não dá para negar a beleza e dedicação que Pet Sounds possui. Ele é um álbum que não tem somente a compreensão musical dos críticos falando sobre  suas músicas durante os anos, e que garantem sua sobrevivência desde seu lançamento em 16 de maio de 1966, mas é talvez um dos poucos  álbuns que tenha sido a verdadeira pedra fundamental do que é considerado como sendo a era mais criativa do rock.

Pet Sounds completou 45 anos no último dia 16 de maio. Massacrado quando de seu lançamento, hoje é um dos discos mais venerados em todo o mundo, encabeçando a lista de melhores discos de todos os tempos em quase todos os sites, revistas, blogs e demais meios de pesquisa relacionadas a história da música.

Mas antes de aprendermos como essa gravação foi feita e o que está contido nas canções de Pet Sounds, um pouco da história dos Beach Boys até aqueles dias torna-se necessária. Desde o início, cada membro do grupo sempre apresentou uma habilidade incrível para cantar, desenvolvendo a harmonização na casa da família Wilson. De fato, com exceção de Brian, que no início também sabia tocar piano, nenhum deles era profissional ou ainda um músico particularmente proficiente quando foram pela primeira vez a estúdio; tocar um instrumento era algo praticamente inconcebível para os garotos em 1961. Porém, os The Beach Boys foram pioneiros no conceito de banda de rock independente.

Assim era, com o talentoso irmão Brian tocando baixo, compondo as canções, arranjando as vozes de fundo e (após dois álbuns e uma batalha entre a Capitol e Murry Wilson, pai dos irmãos e primeiro empresário) produzindo as gravações do grupo, apresentando ideias totalmente novas, com inspirações diversas e muito ligadas as harmonias jazzísticas.
Beach Boys em 1961: Alan Jardine, Mike Love, Dennis Wilson, Brian Wilson e Carl Wilson


A formação original dos Beach Boys era quase puramente do mesmo sangue, contando com Brian (baixo, vocais, piano), Carl Wilson (guitarra, irmão do meio dos Wilson), Dennis Wilson (bateria, o caçula dos Wilson) e Mike Love (vocais, primo dos Wilson). A última vaga foi preenchida por Alan Jardine, um colega de classe de Brian, que tocava guitarra e também cantava.

A música popular daquela época era o que podemos chamar de vital para os adolescentes, e quando os ainda The Pendletones (nome original dos Beach Boys) gravaram seu primeiro hit em 1961, "Surfin'", lançado já como The Beach Boys em novembro do mesmo ano, ali os garotos certamente passaram a ter a juventude ao seu lado. 

Beach Boys em 1962: Brian Wilson e Mike Love (em pé), Carl Wilson, David Marks e Dennis Wilson (agachados)
Tanto Dennis quanto Carl ainda estavam no ensino médio quando começaram a fazer suas primeiras gravações. De fato, Carl, o mais jovem de todos, tinha 14 anos, enquanto Mike, o mais velho, tinha apenas 20 anos. Em 1962, quando Alan teve que continuar seus estudos, não existia nenhum outro grupo adolescente na vizinhança dos Wilson. Porém, um vizinho de Mike, David Marks, um surfista e guitarrista de apenas quinze anos, brevemente substituiu Alan. Mas as idades nunca importaram, já que Brian nasceu com um talento que superava a idade, e desde o início, ele generosamente aplicou seu dom para conceber gravações pop de dois minutos, as quais posteriormente ele descreveu como frenesi criativo.

O primeiro LP dos Beach Boys, lançado em 1962

Quando o primeiro álbum dos Beach Boys saiu, Surfin' Safari, no primeiro dia de outubro de 1962, os Beach Boys já causavam uma revolução na música, por apresentar um álbum de longa duração repleto de sucessos (apenas para citar, o primeiro LP dos Beatles, Please, Please Me, o qual muitos alegam ter sido o primeiro LP de longa duração da era pop, foi lançado apenas em 22 de março de 63). Neles, destacam-se clássicos como "Surfin' Safari", "Ten Little Indians", "Summertime Blues", "409" e "Surfin'", com um estilo que é considerado o verdadeiro estilo dos Beach Boys, em rocks leves, falando sobre praias, surfar,  carrões, festas e mulheres, onde as vocalizações do quinteto se destacavam nos belos arranjos de Brian. 


Jardine voltou ao grupo em 64, na mesma época que a cabeça de Brian começava a mudar. Depois de ter gravado seis álbuns em apenas dois anos, o mundo musical de Brian já não era mais o mesmo.

Entre 1962 e 1964, os Beach Boys desenvolveram as paixões musicais de Brian, que evoluiu rapidamente no processo de composição, deixando 16 canções entre os Top 40 hits dos Estados Unidos, incluindo clássicos como “Surfer Girl”, “Fun, Fun, Fun” e o compacto “I Get Around" / "Don’t Worry, Baby”, um dos grandes singles de todos os tempos e que esmagou com os Beatles, atingindo o Número 1 no auge da Beatlemania. Ouvindo estes hits e as faixas desses álbuns iniciais do grupo, fica claro que a construção artística de Brian desenvolveu-se na velocidade da luz.

Em janeiro de 1965, insatisfeito com as canções que não expressavam o que ele realmente sentia, e logo após o sétimo álbum  do grupo, The Beach Boy's Christmas Album, estourar em vendas, Brian ficou determinado a se concentrar em suas composições e também nos modos de gravação, afastando-se das longas e inconsequentes turnês dos Beach Boys, sendo temporariamente substituído nos shows pelo guitarrista Glen Campbell, que já sabia algumas canções do grupo por ter tocado em diversos covers do grupo. Campbell durou pouco tempo, sendo substituído por Bruce Johnston.
Mike Love, Alan Jardine, Bruce Johnston, Carl Wilson e Dennis Wilson (1966)


Com Brian fora da estrada, os Beach Boys tiveram que desenvolver de uma vez por todas as suas habilidades criativas, instrumentais e vocais, ao mesmo tempo que tinham suas obrigações contratuais e datas limites com a gravadora Capitol Records. Nessa época, o grupo lançou um de seus melhores álbuns, Today!, ao mesmo tempo que explodiam os compactos de 45 RPM. O lado A de Today! é repleto de grandes sucessos dos Beach Boys, destacando “When I Grow Up (To Be a Man)”. 

Porém, o lado B de Today! já apresentava uma amostra do que estaria posteriormente em Pet Sounds, com Brian empregando em estúdio músicos treinados e incrivelmente talentosos, os quais podiam explorar seus pensamentos musicalmente, como podemos ouvir em canções como “Please Let Me Wonder" e "In the Back of My Mind”, ou explorar os sentimentos de Brian, em canções como “Kiss Me Baby” e “She Knows Me Too Well”. 

Brian estava expressando suas opiniões sobre amor e relacionamentos, combinando palavras cheias de espiritualidade com música emotiva, além de ritmos, sons e harmonias que expressavam cada um de seus complicados sentimentos. Isto era algo inédito naquele ano de 1965, quando Brian encontrou os músicos que necessitava para expandir sua visão, combinando sua florescente produção técnica com expressões líricas mais maduras.

Today, usado como experiência por Brian Wilson
Além disso, ele cresceu primeiramente seu processo de produção em estúdio, ganhando confiança para desenvolver seus arranjos, o que foi um dos pilares essenciais para que Pet Sounds fosse feito. 


Depois de Today!, em julho de 65 chegava as lojas Summer Days (and Summer Nights), com Brian ousando cada vez mais. A primeira ousadia foi majestosamente empregar uma maravilhosa abertura sinfônica em “California Girls”, bem como o feito musical de “Let Him Run Wild”. Nessa mesma época, os singles “Guess I’m Dumb” (lançado por Glen Campbell) e “The Little Girl I Once Knew”, com todos seus aparatos eletrônicos como órgão e xilofone, mostravam que as experimentações instrumentais de Brian estavam crescendo rapidamente.

Para cada sessão de gravação, Brian propositadamente construía e refinava suas produções. Ao mesmo tempo que elas tornavam-se estruturalmente cada vez mais complexas, os arranjos instrumentais pareciam brotar naturalmente. Como um milagre da natureza, Brian compreendeu a elegância, clareza e o aumento do impacto de suas composições, tendo nas gravações que estava fazendo poderosas faixas instrumentais para encaixar suas letras. Este gentil balanço entre a dinâmica de mixagem das faixas instrumentais com as letras cantadas pelos demais Beach Boys, tendo sempre a voz de Brian ditando a batida do coração de cada um durante a canção, gerou nas gravações de Pet Sounds uma incrível dimensão, na qual o grupo sentia-se no paraíso, já que o que Brian estava escrevendo era praticamente uma biografia individual de cada membro, apesar de conscientemente estar apenas colocando para fora apenas o seu próprio sentimento.
Party!, mais mudanças no som dos Beach Boys

Antes de entrar nas gravações de Pet Sounds, voltamos ao verão de 65, quando Brian estava começando a fazer suas primeiras composições. Naquele momento, a Capitol Records exigiu a produção de um novo álbum, a ser lançado na época do Natal. Brian, que tinha acabado de parir o  nono álbum do grupo em três anos,  foi forçado a abandonar temporariamente suas composições maduras e repletas de sentimento para voltar a fazer um LP na fórmula tradicional dos discos anteriores dos Beach Boys. Durante todo setembro de 1965, o grupo gravou seu décimo álbum, Beach Boys Party!, que apesar de ter atrapalhado o trabalho inicial de Brian, acabou servindo como uma válvula de escape, permitindo então que ele pudesse se concentrar ainda mais no que estava por fazer.

Sem as obrigações contratuais e a pressão dos shows, Brian voltou às experimentações instrumentais, começando com a já citada The Little Girl I Once Knew, lançada como single em outubro de 65, repleta de paradas e inícios que não agradaram aos fãs do grupo, e que a deixaram apenas na posição número 20 das paradas, tornando-se o primeiro deslize da carreira do grupo desde sua estreia.

Brian não estava nem aí para vendas, e em novembro, seguiu nos estúdios, gravando mais e mais faixas instrumentais que, pelo que conhecemos hoje, assemelha-se e muito ao que acabou posteriormente sendo definido como O Som da Califórnia. Deste período, as canções “How Deep is the Ocean” e “Stella by Starlight” são algumas que foram embriões do que estaria em Pet Sounds.

Quando chegou o final de 1965, Brian achou a fonte para beber a inspiração que faltava para terminar suas canções. A solução era lançar o álbum como um álbum solo. Mas, como a gravadora iria reagir? O que seu pai/empresário iria falar? O que era melhor para si mesmo, para o grupo, mas principalmente, para a arte?

O álbum que desafiou Brian Wilson a expor seus sentimentos
A resposta veio além-mar, do outro lado do Atlântico, com Rubber Soul (The Beatles), que inspirou Brian a decidir-se por abrir sua alma ao mundo. Ironicamente, Brian percebeu na “falha” que a Capitol Records (distribuidora dos discos dos Beatles nos Estados Unidos) cometeu, uma chance para vender sua ideia, já que Rubber Soul era o primeiro disco dos Beatles a não ter um single lançado no pais (lembrando que no Reino Unido, o single de “Nowhere Man” atingiu a primeira posição). Assim, Brian passou a idolatrar o fato de se ter um álbum completo como arte, e não apenas uma única canção em um single que depois seria agregada a diversas outras para formar uma espécie de Grandes Hits em um único LP.

Quando Brian ouviu Rubber Soul, seu instinto competitivo atiçou o cérebro para compor canções ainda melhores, e ainda, percebeu que o mundo da música estava sendo ditado por novas regras. O fato mais relevante estava no desprezo aos trabalhos anteriores dos Beach Boys, concentrando-se em um mundo totalmente novo e que não combinava em nada com as velhas canções sobre praias, mulheres, festas e carrões.

Em, dezembro de 1965 eu ouvi Rubber Soul, dos The Beatles. Aquilo foi definitivamente um desafio para mim. Eu vi que cada faixa era muito interessante artisticamente. Eu imediatamente comecei a trabalhar nas canções para Pet Sounds” (Brian Wilson, 1990).

Brian tornou-se obcecado por fazer um álbum melhor que Rubber Soul (vale lembrar que Rubber Soul apenas foi lançado por que os Beatles foram totalmente influenciados por Bob Dylan, que lhes mostrou a importância da letra em uma canção). Porém, Brian estava sozinho em um estúdio, enquanto John Lennon tinha Paul McCartney, e ambos tinham George Martin.
Estou fazendo o melhor disco já gravado em todos os tempos!

Bom, isso não importava para Brian. Com apenas 23 anos, ele foi a público justificar sua ausência nos shows dos Beach Boys com a simples frase: “Eu estou fazendo o melhor disco já gravado em todos os tempos!”.

Os Beach Boys embarcaram em janeiro de 1966 para uma turnê pelo Japão, onde Brian teve tempo e espaço suficiente para musicalmente explorar seu lado psíquico. É nesse período que ele decide contratar Tony Asher como co-escritor, para ajudá-lo na tarefa de concluir o álbum.

Eu chamei um colaborador chamado Tony Asher, e nós passamos dois meses trabalhando juntos ou não. Ele provou ter a habilidade lírica para trabalhar comigo. Em janeiro de 65, eu já havia começado a fazer as faixas instrumentais do eu imaginava ser o álbum. Eu fiz cada faixa e todas as experiências sonoras sozinho. Eu era obcecado por explicar, musicalmente, como eu me sentia por dentro. Isto, eu penso, pode ser definido hoje como o começo de um novo tipo de música de sentimento-sofisticado. Mas depois, eu definitivamente senti que precisava competir com os Beatles”. (Brian Wilson, 1990)

A obsessão de Brian, junto ao seu desgosto com os trabalhos anteriores do grupo, a fonte de ideias de Rubber Soul e os experimentos feitos no período de janeiro/novembro de 65, misturaram-se em um caldeirão mágico que cozinhou o cérebro do músico ao extremo, extraindo a polpa através de composições brilhantes, únicas sentimentalmente, com letras lindas e poderosas, que encantam, emocionam e permanecem sendo fieis a ideia de exposição do amor e do relacionamento entre pessoas até os dias de hoje. Assim nascia Pet Sounds.



  




A importância das vozes de cada membro do grupo foi comprovada, recebendo uma dedicação muito pessoal dos integrantes, que logo perceberam a importância do que estavam fazendo. Ao mesmo tempo, Asher, apresentado a Brian por um amigo próximo e colaborador em oito das 13 canções do álbum, surgiu para resgatar as palavras que lutavam em sair da mente de Brian, completamente preenchida de ideias e sentimentos, mas em conflito emocional com o lado humano do que estava indo parar em cada nota que escrevia. Fácil de explicar, já que Brian acabava de entrar na fase adulta de sua vida.
Brian Wilson e Tony Asher

Com Asher, as canções passaram a ganhar sentido através das letras, com “Woudn’t it Be Nice” falando sobre esperança e amor, “I’m Waiting for the Day” sobre amores imperfeitos, “God Only Knows” sobre graças a um Deus espiritual, “I Know There’s an Answer” sobre busca por respostas, “Here Today” lamentando a fŕagil natureza do amor, “I Just Wasn’t Made for These Times” sobre esquizofrenia e a aceitação de pessoas com anomalias, “Don’t Talk (Put Your Head on My Shoulders)” sobre momentos românticos, “You Still Believe in Me” sobre  a possibilidade de realizar sonhos inimagináveis, “Let’s Go Away for Awhile” sobre fugas fantasiosas e “Caroline No” sobre perda da inocência.


Claramente, o que está contido em Pet Sounds (como veremos no Podcast especial da semana que vem) não é nada próximo as ensolaradas canções iniciais da carreira do grupo, cheias de alegria, festas e bem descompromissadas instrumentalmente. Se você é um fã dessa fase do Beach Boys, bom, quando for ouvir Pet Sounds (se é que já não fez isso) não pense que é o mesmo Beach Boys. Pense como sendo um álbum com a participação dos membros do Beach Boys, produzido por Brian Wilson, e ai você irá ouvir e enxergar a beleza do disco. Caso contrário, poderá cometer a blasfêmia de considerá-lo um dos piores discos que já ouviu.

Os pais de Brian, Donna e Murry Wilson
Mas por que a cabeça de Brian mudou? Foi do nada? Bom, a resposta principal que eu posso dar é que não foi por nada. Em 64, A vida de Brian mudou drasticamente, quando seu pai e empresário Murry Wilson deixou de liderar o grupo por detrás das composições. A tirania de Murry, junto a humilhações públicas e multas sem fundamento aos cinco membros do Beach Boys como 50 dólares por andar com garotas, 100 dólares por falar palavrões e 150 dólares por atraso na montagem dos equipamentos, fora o fato de constantemente agredir Dennis Wilson por não tocar corretamente seu instrumento e ser desinteressado em aprender o mesmo, acabaram levando Mike Love a esmurrar Murry até sangrar. O grupo saiu em defesa de Mike, e no dia seguinte, o pai dos Wilson era demitido de seu posto, além de semanas depois ter sua esposa Donna (mãe do trio-Wilson) pedindo separação.

A ausência do pai no trabalho de produção, e a separação prematura, abalou a vida de Brian, que por ser o mais velho, teve que carregar o fardo de levar o Beach Boys adiante e ainda por cima ter que brigar com seu pai, ao ponto de ficarem muito tempo sem trocar uma palavra.

Brian e Marilyn Wilson
Pouco depois da separação de seus pais, Brian casou-se com Marilyn, uma garota de apenas 17 anos, ao mesmo tempo que, sendo líder do Beach Boys, e com a ausência das multas do pai, passou a consumir drogas, primeiro com maconha e depois, avançando rapidamente para o LSD, já no início de 65, pouco tempo  depois de ter tido um colapso nervoso que quase o levou a morte (uma espécie de infarto). O LSD abriu a mente de Brian não só do ponto de vista musical, mas também sexual. Na visão dele, agora ele era o responsável não só pelo grupo, mas tinha poderes também em sua família.

A conseqüência disso foi imprevista e covarde. Brian, alucinando, agarrou a irmã mais nova de Marilyn, Barbara, à força, tentando estrupá-la, e dias depois, agrediu sua esposa, passando a ter um caso então com a irmã mais velha da mesma, Diane, que foi promovida a secretária do Beach Boys. O difícil relacionamento com Marilyn, e a relação de seus pais, era uma fonte mais que poderosa para inspirar Brian a transbordar seus sentimentos, e assim foi feito em um caríssimo período de gravação. “Eu fiquei apaixonado por alguns meses e encontrei uma forma de gravar isto” (Brian Wilson, 1990).

Brian e os Beach Boys em estúdio

As gravações com os demais membros do Beach Boys começaram logo após a volta do Japão. “Após fazer doze faixas e totalmente esgotando algumas das minhas criatividades musicais, eu passei a mostrar o que tinha para os garotos, que acabavam de voltar para a casa após a turnê pelo Japão. Eles todos piraram, completando assim o álbum comigo. Acabamos com um clássico nas mãos” (Brian Wilson, 1990).


Mas, algumas faixas já estavam prontas há alguns meses, e foram trabalhadas o instrumental principalmente durante o mês de janeiro de 1966, sendo que a adição dos vocais duraram longos três meses (um absurdo para a época), estendendo-se até quase final de abril. As introspectivas e pessoais letras de Brian e Asher, bem como as intrincadas e complexas peças instrumentais, foram uma a uma sendo construídas, como cada pincelada de um pintor pra construir uma obra-prima.

Dennis Wilson
Um fato que precisa ser destacado e que é muito importante para o processo de gravação de Pet Sounds é a influência que os dias de Brian ao lado da orquestra de Phil Spector tiveram na mente do garoto Wilson. Trabalhando lado-a-lado com Spector no início de carreira dos Beach Boys, Brian absorveu toda a metodologia de gravação de uma orquestra e de instrumentos diversos, e quando começou a pensar a música de uma nova forma, ele logo pensou que quem poderia auxiliá-lo eram os músicos da orquestra de Phil Spector.

Brian aplicou a concepção que ele batizou de Som Espiritual Branco, onde cada instrumento e timbre vocal era disposto da maneira que, unidos, criavam um novo instrumento, surgindo novos sons que antecederam os sintetizadores em quase duas décadas. Ele enxergava a música como uma pintura impressionista, criando sons para expressar emoções específicas.

Eu experimentei com sons que iriam fazer o ouvinte sentir-se apaixonado. O álbum era um conjunto artístico na frente de outros álbuns e era, na verdade para aquela época, minha maior e melhor produção. Esta foi a primeira vez que eu usei letras mais inspiradas e tradicionais que emitiam sentimentos da minha alma e não o tipo usual dos The Beach Boys” (Brian Wilson, 1990).

Sentimento é a principal palavra que transborda das canções do álbum. O método de gravação usado foi o preferido de Brian. Uma vez que uma canção fosse concluída, ou quando a letra ainda não estava completa, ele entrava no estúdio, ouvia e sempre achava algo a mais para adicionar. Muitas vezes, ocorria de Brian e os músicos chegarem no estúdio apenas com uma linha melódica e um tema vocal padrão, construindo as canções praticamente do zero.

Brian Johnston
Brian trabalhou individualmente com cada músico, mostrando para ele, através de murmuros e cânticos, o que ele queria ouvir daquele determinado instrumento. Os arranjos de Brian, fervendo na sua cabeça, saiam através da expressão de suas mãos e de seu corpo, com os músicos passando ao instrumento o que Brian estava transmitindo. Todos os que estiveram envolvidos no processo de gravação das faixas instrumentais são unânimes em afirmar que o comportamento de Brian era incrível e ao mesmo tempo assustador, parecendo estar possuído pela música que estava sendo gravada.

Depois de cada pessoa conhecer sua parte, as gravações começavam. A princípio, cada sessão de gravação seria para uma determinada canção, com Brian regendo os músicos até reproduzirem o que ele queria. Todas as canções foram tocadas uma a uma desde seu início até o fim, e nenhuma delas saiu como Brian queria logo na primeira gravação, além de que sempre depois de ouvir o resultado final, ele imaginava algo diferente e prontamente aplicava a mudança, seja em um acorde, em uma nota ou até mesmo na batida da bateria.

Enquanto regia uma determinada canção, Brian anotava em papéis ou em algum lugar da sua mente as mudanças que faria para a canção seguinte, ou até mesmo naquela mesma canção, uma pequena amostra do talento que ele possuía. Além disso, Brian, surdo do ouvido direito desde pequeno, conseguia prestar atenção em pequenos detalhes, freqüentemente interrompendo o processo de gravação para corrigir o andamento, uma entrada perdida por algum músico ou uma mudança específica de algum acorde que ele percebeu não ficar como ele pensava. Porém, os músicos por diversas vezes davam ideias para um Brian aberto às sugestões. 

Brian, comandando a orquestra durante gravação de Pet Sounds
No total, 57 músicos foram usados para gravar as treze faixas de Pet Sounds. Além deles, dos Beach Boys, apenas os irmãos Wilson participaram tocando instrumentos, com Dennis (bateria) Carl (guitarra) e Brian (órgão) em “That’s Not Me” e Brian tocando piano em “Pet Sounds”. Aliás, "Pet Sounds" apresenta a inusitada participação dos cães de Brian, Banana e Louie, bem como Brian tocando latas de refrigerante vazias, caixas de papelão e garrafas de vidro. Outra "estranhice" foi a pioneira inclusão do theremin como instrumento principal, fazendo o solo de "I Just Wasn't Made for these Times".

Todos os músicos são unânimes em afirmar que Brian não era o líder orquestral mais risonho e alegre com quem podiam trabalhar, mas ao mesmo tempo, era muito afetuoso e humano com cada músico durante momentos complicados das gravações, sempre elogiando e esboçando um pequeno sorriso quando o músico alcançava as notas desejadas. Trabalhando sete dias por semana, consumindo suas horas de madrugada e dormindo preferencialmente no período diurno, Brian convocava sessões de gravação em datas e horários as vezes absurdos.

Um dos casos mais emblemáticos aconteceu com o guitarrista Billy Strange. Ele havia se separado da esposa há alguns meses, tendo ganho o direito de ver seu filho apenas um domingo por mês. Exatamente no domingo marcado para ficar com o filho, logo no início da manhã, Billy recebeu uma ligação de Brian, dizendo que estava com o seu filho no carro e que precisava urgentemente falar com Billy, convocando-o para ir no estúdio da Western 3 e levar seus instrumentos e mais algum guitarrista que ele encontra-se no caminho. Mas os instrumentos de Billy não estavam em casa, e mesmo assim, como tinha que pegar seu filho, o guitarrista se dirigiu até os estúdios da Western 3. 

No estúdio, Brian agradeceu e começou a cantarolar uma canção ("Sloopy John B") ao mesmo tempo que um instrumental tocava ao fundo. em um determinado momento, Brian interrompeu a canção e falou: "Eu preciso de um solo de violão elétrico de 12 cordas aqui".  Billy prontamente respondeu: "Eu não tenho um violão elétrico de 12 cordas". Deixemos Billy contar o resto da história.

"Então, Brian ligou para a casa de Glenn Wallichs (n. r. proprietário da Wallichsmusic City, uma grande loja musical da cidade, e também co-fundador da Capitol Records) e mandou alguém até a loja. Glenn abriu a loja e trouxe para o estúdio uma Fender 12 cordas e um amplificador Fender Twin. Eu liguei o instrumento e fiz uma passagem de oito ou dezesseis compassos, e Brian ficou extremamente feliz. Ele disse: 'É isto!'. Então, ele tirou um monte de dinheiro do seu bolso e me deu 500 dólares. Antes de eu sair com meu filho, ele ainda me avisou: 'Não esqueça a guitarra e o amplificador, eles são seus'" (Billy Strange, 1996).
Brian, sendo influenciado
Esse era o Brian, profissional mas humilde. Suas peripécias não param por aí. Outro fato muito curioso aconteceu com um dos membros da orquestra responsável por tocar órgão em uma determinada canção. A gravação corria normalmente, mas Brian não estava satisfeito com o som que era feito pelos pedais do órgão. Os músicos gravaram a canção por diversas vezes, mas nada agradava Brian. Então, nosso genial líder do Beach Boys deitou-se sob o banco do músico e começou a tocar os pedais com as mãos, emitindo um determinado som. O músico logo disse: "Eu posso fazer isso" e começou a tocar o que Brian estava tocando. Porém, Brian saltou do chão e pacientemente explicou que o som que o músico estava tirando com os pés não era o mesmo que o feito com as mãos. Resultado: o músico tocou os pedais do órgão deitado sob o banco, obviamente, com as mãos.

Beach Boys no Japão (Love, Dennis, Carl, Brian e Jardine
Os Beach Boys voltaram do Japão e entraram nos estúdios, pouco depois de Brian ter feito uma tentativa de ver se realmente valeria a pena colocá-los na gravação para lançar as canções como um álbum do Beach Boys. Para isso, lançou no dia  07 de março de 66 em carreira solo o single de “Caroline No” / "Summer Means New Love", que apesar de ter virado um clássico na sua carreira, permanecendo sete semanas entre as 100 mais da Billboard e três semanas entre as 40 mais, alcançando a trigésima segunda posição, foi considerado um fiasco comercial.

Sendo assim, o único jeito de atingir um grande público com suas canções era lançá-las escondidas sob o nome de Beach Boys. Então, começou a ensinar a parte vocal de cada um de seus colegas. Essas aos poucos foram adicionadas, e incrivelmente, encaixavam com a música já gravada anteriormente. Algo simples de explicar, já que Brian havia "ouvido" aquilo quando passou a informação para seus colegas. Por vezes, quando Brian dizia para algum membro do Beach Boys: “Faça isso, faça aquilo”, o que estava sendo pedido não fazia nenhum sentido. Porém, quando mixado com a música de fundo, tudo passava a ser como um motor com as engrenagens funcionando perfeitamente. 

Ensinando as partes vocais para Bruce, Jardine e Dennis
Eu fiz a maioria das vozes de Pet Sounds porque eu precisava direcionar a expressão dos meus sentimentos para as pessoas. Este foi um projeto especial por que o mundo da música estava ouvindo algo de mim através do The Beach Boys, e eu precisava ter este álbum para os meus fãs e o meu público de coração e alma” (Brian Wilson, 1990). 

Pet Sounds foi um “fracasso” comercial, atingindo apenas a décima posição e colocando apenas dois hits entre as dez mais ouvidas e mais dois entre as 40 mais.  Ele permaneceu entre os 100 mais vendidos da Billboard por 39 semanas, mas o fato de ter sido o primeiro LP do grupo a não ganhar ouro em seu lançamento, manchou o relacionamento Beach Boys / Capitol Records.

Mike Love
É interessante notar que depois disso a Capitol Records começou uma briga gigantesca com o grupo, e principalmente, com Brian, fazendo pouco caso com os demais lançamentos e sem dar nenhuma atenção para o grupo. Somente as coletâneas The Beach Boys Vol. 1 (1966), The Beach Boys Vol. 2 (1967) e Endless Summer (1974, esse o álbum mais vendido do grupo) voltariam a dar ouro para os Beach Boys quando de seu lançamento. Pet Sounds conquistou platina nos Estados Unidos (mais de um milhão de cópias vendidas) no ano 2000, mas o prejuízo para a Capitol Records na época era colossal, já que a expensiva verba de 16 mil dólares  que havia sido empregado para alugar a orquestra e também as exigências de Brian não foi sanada com as vendas.

Muito do fracasso nos Estados Unidos se deve por causa do surgimento da geração paz e amor, com os hippies torcendo o nariz para todas as complicadas partes vocais e instrumentais do disco, bem como as emotivas letras que ironicamente falavam de amor, um dos lemas dos hippies ao lado da palavra paz. Podemos dizer, em tom de brincadeira, que os hippies não deram amor e tão pouco paz a Pet Sounds, já que o disco foi execrado por muitos.

Queria tanto ter gravado "You Still Believe in Me"
Porém, na Terra Natal dos Beatles, Pet Sounds não parava de vender, sendo aclamado pela imprensa. Enquanto milhões de americanos jogavam o LP  às traças, pessoas com a mente mais aberta estavam de boca aberta com o que ouviam dos sulcos do álbum. Um dos maiores admiradores era nada mais nada menos que Paul McCartney. O efeito virava contra o feiticeiro. Se Brian havia pirado ao ouvir Rubber Soul, tendo se sentido obrigado a gravar algo ainda melhor, Paul encantou-se pelo disco, principalmente por “God Only Knows”, a qual até hoje ele classifica como a melhor música que ele já ouviu, e “You Still Believe in Me”, a canção de outro artista que ele têm mais inveja por não ter sido o compositor.

Paul fez de Pet Sounds o disco de cabeceira da sua vida, dando para seus filhos com a alegação de que nenhuma formação musical é construída sem ter ouvido o álbum, e ouvindo-o tanto que as vezes passava 10 horas seguidas  sentado apreciando as letras e melodias do LP. Isto o levou depois a definir Pet Sounds como sendo não um disco, mas uma invenção musical. Graças a isso, o beatle teve a sobriedade de sentar-se, compor Revolver (1966) e posteriormente Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967), tido por muitos como o melhor e mais importante disco da história.

Balela! Pet Sounds é o merecedor desse posto. O lançamento do disco, em 16 de maio de 1966, pode ser considerado como o Dia da Independência do rock ‘n’ roll. Depois disso, as exigências de gravações, onde você tinha que fazer o que uma gravadora queria, e não o que você queria, começaram a ser vistos com outros olhos, permitindo aos Beatles gravar Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967) e a canção "Revolution # 9" (The Beatles – 1968), e aos Rolling Stones gravar Their Satanic Majesties Request (1967). 

Carl Wilson

Depois de Pet Sounds, e com o lançamento de Revolver pelos Beatles, Brian piorou sua questão mental, e somente ele enxergava uma competição com os garotos de Liverpool. Considerando Revolver um desafio à Pet Sounds, trancou-se em um estúdio para gravar um álbum ainda melhor, o famoso Smile, que iria conter muitas experimentações e ainda mais sentimento, e que ficará para uma outra hora sua história. 


Os Beach Boys no zoológico
Porém, brigas internas, loucura, e o lançamento de Sgt. Pepper’s ..., fizeram com que Brian desistisse do projeto, adiando  o lançamento de Smile por quase 30 anos e entrando em uma vida de vício em cocaína e heroína (onde inclusive foi flagrado oferecendo cocaína para suas filhas de apenas 6 e 7 anos), engordando até ultrapassar os 200 quilos e tendo diversos problemas pessoais que o levaram a ser diagnosticado com esquizofrenia, e ao mesmo tempo para o fundo do poço, de onda só iria sair no final dos anos 80, após muitas internações e um rigoroso tratamento de recuperação.

Enquanto isso, o Beach Boys nunca mais foi o mesmo. Após Pet sounds, enveredou por uma linha psicodélica com os álbuns Smiley Smile (com sobras do projeto Smile) e Wild Honey, ambos de (1967). Duas belas obras que afundaram em vendas. Gravando diversos LPs com o passar dos anos, o grupo caiu após a saída de Brian no final dos anos 60 e passou os anos 70 vivendo do passado. 

Dennis Wilson morreu afogado em 1983, e mesmo a volta do grupo no final dos anos 80, inclusive com Brian participando do retorno de 1988, não conseguiu atingir sequer metade do que já haviam conquistado anteriormente. A morte de Carl Wilson em 1998 foi o fim derradeiro de uma das principais bandas da história, e que, como vimos nessas duas matérias, tem seu nome gravado como sendo a responsável por lançar o melhor disco de todos os tempos, apesar de tudo ter saído da mente brilhante de apenas um dos irmãos Wilson, o velho Brian.


Beach Boys no Zoológico onde foram registradas as imagens da capa de Pet Sounds
Seguem pequenos textos narrando um pouco sobre cada canção do álbum:

“Woudn’t it Be Nice” – gravada em 22/1/66, é uma canção que fala sobre esperança e amor. O lindo tema da introdução apresenta a bateria, destacando o acordeão em um ritmo muito dançante, que acompanha os vocais de Brian em uma das letras mais bonitas do álbum. Os vocais dos demais Beach Boys aparecem na segunda estrofe, e a ponte da terceira estrofe é construída em cima do tema inicial. Linda canção, tema principal do filme romântico “Como Se Fosse a Primeira Vez” (2004), estrelado por Adam Sandler e  Drew Barrymore, e que foi escolhida perfeitamente para mostrar como Pet Sounds vem para o ouvinte.

“You Still Believe in Me” – gravada em 24/1/66, é uma canção sobre possibilidade de realizar sonhos inimagináveis. Com Brian nos vocais, esta é uma remanescente da canção chamada “In My Childhood”, que acabou sendo abortada por que Brian não conseguia construir a letra. O tema vocal da introdução, acompanhado pelo piano, mostra uma balada muito lenta, onde os membros do Beach Boys aparecem com as vocalizações cantando o nome da canção. O ponto alto da mesma é o encerramento, com um show vocal do Beach Boys.

“That’s Not Me” – gravada em 15/2/66, é a primeira canção do álbum com Mike Love nos vocais. Tão agitada quanto “Woudn’t it Be Nice”, possui um lindo órgão fazendo os acordes que acompanham os vocais de Mike, além da guitarra fazendo um sutil tema ao fundo, junto do interessante acompanhamento percussivo. Os vocais não aparecem tanto nessa canção, tendo seus momentos somente durante o refrão, o qual é cantado por Brian e Mike.

“Don’t Talk (Put Your Head on My Shoulders)” – gravada em 11/2/66, trata de momentos românticos. Brian dá uma pequena amostra de sua potencialidade vocal, acompanhado pelo órgão e pelas cordas. Lindíssima canção, em um arranjo de cordas sensacional e hipnotizante. Clima totalmente relaxado, e com a divina frase “Listen to my heart beat”, onde o baixo faz o ouvinte ouvir o coração de Brian batendo forte. As cordas, junto com a leve participação do tímpano, contornam a ausência dos vocais.

“I’m Waiting for the Day” – gravada em 6/3/66, fala sobre como o amor na Terra é imperfeito, e retorna as canções agitadas. O tímpano da introdução traz o órgão, para o english horn fazer a melodia que acompanha o vocal de Brian. Mandolim, piano elétrico, flauta e baixo são alguns dos instrumentos que aparecem na primeira estrofe. As vocalizações, que entram na segunda parte, são uma aula a parte, com cada membro fazendo uma determinada voz, que por si mesma não é nada, mas fundida com as demais, cria um ritmo dançante. A flauta faz um tímido solo em cima da melodia vocal, seguido pelas vocalizações, e a canção encerra com o ritmo do tímpano e as vocalizações acompanhando Brian.

“Let’s Go Away for Awhile” – gravada em 18/1/66, inicialmente foi pensada para ter uma letra falando sobre fugas fantasiosas, mas acabou sendo uma canção com 12 violinos, quatro saxofones, oboé, piano, vibes, guitarra e violão. Cada instrumento tendo sua contribuição, com os vibes e os violinos fazendo os temas principais, além do leve e belo solo de guitarra. “Let’s Go Away for Awhile” também possui um maravilhoso arranjo de cordas.

Compacto de "Sloop John B"
“Sloop John B” – gravada ainda em 12/7/65, é uma cover de uma canção folk que Alan Jardine apresentou para o grupo, cuja principal versão do Kingston Trio é de aproximadamente 1927. Existe uma versão acústica gravada para essa canção pelos Beach Boys e que está perdida em algum porão da Capitol Records. Foi incluída no LP por que era o principal single dos Beach Boys na época. A entrada dos vibes apresenta o dedilhado das guitarras, com Brian cantando. A canção vai ganhando ritmo, e agora já temos Brian e Mike cantando juntos. Cada estrofe aumenta o número de instrumentos na canção, e finalmente, as vocalizações trazem baixo e bateria para ditar o ritmo da canção. O andamento da canção apresenta ainda alguns segundos do Beach Boys a capella, e ela encerra o lado A com o clima de paz perpetuando em seu lar.

Compacto de "God Only Knows"
“God Only Knows” – gravada em 10/3/66, fala sobre graças a um Deus espiritual. Única com Carl Wilson nos vocais, foi Top 5 na Inglaterra, fazendo o Beach Boys estourar por lá. Ela abre o lado B, com um tema no french horn acompanhado pelo banjo e acordeão. O andamento percussivo traz a doce voz de Carl, em um ritmo muito simpático e tranquilo. Cordas, baixo e mais percussão são adicionados, fazendo a cama de ritmos para a voz de Carl ser ouvida. O pequeno tema instrumental leva para o solo vocal dos grupos (originalmente aqui teríamos um saxofone fazendo o solo), voltando a seqüência e encerrando a canção com a flauta também se fazendo presente ao lado de outros metais e da bateria, que foram acrescentadas às cordas, ao banjo e ao acordeão.

“I Know There’s an Answer” – gravada em 9/2/66, trata sobre busca por respostas. Os teclados, saxofone e percussão fazem a introdução. Mike canta a primeira estrofe e Alan canta a segunda, acompanhado das vocalizações, com Brian cantando o nome da canção acompanhado pelas vocalizações. A letra segue com a mesma sequência vocal, e com um confuso mas magistral arranjo ao fundo, com destaque para o solo de saxofone, acompanhado apenas pelo banjo e percussão. Co-escrita com Terry Saches, empresário de shows do grupo, originalmente se chamava “Hang Up to Your Ego”, mas a gravadora achou que a palavra EGO ia soar desafiadora para o público em geral, e a letra acabou sendo modificada.

“Here Today” – gravada em 11/3/66, trata sobre a tênue natureza do amor, e apresenta novamente Mike Love nos vocais, com o órgão e o baixo sendo os responsáveis pelo acompanhamento inicial de uma canção que vai se transformando com a entrada do saxofone, vocalizações e percussão. O refrão, repleto de vocalizações, e a bela sessão instrumental, com guitarra e baixo acompanhando o tema que as cordas e os metais apresentam, são os maiores destaques, e podemos perceber ao fundo Brian regendo os músicos nas mudanças da intrincada peça instrumental que ele compôs.

“I Just Wasn’t Made for These Times” – gravada em 14/2/66, trata sobre esquizofrenia e a aceitação de pessoas com anomalias. A mais psicodélica canção do álbum possui em grande parte apenas o órgão, bateria e baixo acompanhando os vocais de Brian. A frase “sometimes I feel very sad” exalta tristeza na voz de Brian, narrando a história de um garoto que chora por que pensa que é tão avançado que precisa se afastar das pessoas. Essa foi a primeira canção que Brian experimentou com o theremim, sendo que o instrumento recebeu um momento especial para ele, que é o solo principal da canção.

“Pet Sounds” – gravada em 17/11/65, a faixa que dá título ao álbum foi inicalmente batizada de “Run James Run”, já que era para ter saído em um single de uma trilha sonora de James Bond. Como não deu certo, mudou de nome para batizar o melhor álbum da história. Os Sons de estimação que a canção sugere tem dois signficados: o primeiro é o de que apenas o lado pessoal de Brian está sendo exposto ao ouvinte; o segundo é que os cachorros de Brian, Banana e Louie, participaram da gravação de “Caroline No”, e esses eram os animais de estimação de Brian fazendo seus sons (“Pet Sounds”). A idéia do título é atribuída para Carl Wilson, que atribui o fato para Brian, e na verdade ninguém assume a responsabilidade. A canção em si é totalmente instrumental, e lembra bastante uma trilha para um filme de James Bond, com a guitarra fazendo o solo da canção em uma afinação um tanto que estranha, sobre um andamento mezzo-boleromezzo-mambo, acompanhado por cordas, percussão (latas de refrigerante vazias, caixas e baldes, entre outros, foram usadas como percussão), baixo e metais.

Single de "Caroline No" (Brian Wilson solo)
“Caroline No” – gravada em 31/1/66, trata da perda da inocência. Brian mostra sua genialidade, dando outro significado para as palavras “Carol I Know”. A perda da inocência tratada na canção não é do garoto que está sendo atacado pela Caroline, mas sim do garoto que ataca Carol. Tida por Brian como a melhor canção do álbum, é uma leve balada com Brian cantando sobre camadas de percussão e órgão, com sua voz angelical, encerrando esse maravilhoso LP com os “barulhos de estimação” dos cachorros de Brian, Banana e Louie, latindo para um trem que “passa” pelo estúdio. 


A capa de Pet Sounds foi feita no dia 15 de fevereiro de 1966, no Zoológico de San Diego. Lá, diversas fotos foram realizadas com o grupo e animais do zoológico (algumas delas apresentadas a você nessa matéria) com o objetivo de encontrar uma para simbolizar os "sons de estimação" proposto no título do álbum. O fotógrafo responsável foi George Jerman. A foto com as cabras foi a escolhida por que, segundo Carl Wilson, esses foram os animais que mais barulho fizeram com a presença do grupo.


O nome Pet Sounds surgiu quando Brian contou ao grupo que gostaria de homenagear Phil Spector no próximo álbum. Utilizando as iniciais de Phil Spector (P e S), Carl criativamente sugeriu que já que estavam gravando as canções que revelavam as emoções de Brian, essas eram as canções de estimação de seu irmão, nascendo assim, Pet Sounds.


Porém, como citado acima, essa história é confusa, já que apesar de Brian creditar a ideia para Carl, Carl creditava a ideia para Brian. Existe ainda uma versão de que Mike Love é o responsável pelo título do álbum, mas essa é a menos confiável de todas. Esse é um dos grandes mistérios que um grande álbum como Pet Sounds não poderia deixar de ter.

Vinil original mono 66 e relançamentos de Pet Sounds
Encerro essa homenagem com um lindo cartoon em homenagem ao LP, glorificando sua chegada ao CD em 1990, feito por G. B. Trudeau, e as palavras de George Martin, produtor dos Beatles, que quando perguntado sobre como ele classificaria os Fab Four, respondeu surpreendentemente: “Se existe uma pessoa que eu tenha que escolher como um gênio vivo da música pop, eu escolho Brian Wilson”.

 


 



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