terça-feira, 3 de setembro de 2013

Sergio Dias - Jazz Mania Live [2003]



Fotos com * retiradas do site www.sergiodias.com.br



Esqueça tudo o que você já ouviu de jazz, fusion, jazz rock e outros gêneros similares. Esqueça Weather Report, The Eleventh House, Return Of Forever, V. S. O. P. e outros grandes grupos como o quinteto de Keith Jarret ou os Jazz Messengers de Art Blakey. Você não precisa ir tão longe para ouvir esse estilo de forma simplesmente insuperável. Basta adquirir o álbum Jazz Mania Live, do guitarrista Sérgio Dias.


A carreira de Serginho foi construída em cima dos Mutantes, como muitos sabem. Com o fim do grupo no final da década de 70, Serginho partiu para uma carreira solo com a finalidade de explorar a música brasileira, lançando o disco Sérgio Dias em 1980, onde conta com a participação, entre outros, de Caetano Veloso. Após o lançamento do álbum, exiliou-se nos Estados Unidos, onde viveu até 1985. Lá, dividiu espaço com gente como Gil Evans, John McLaughlin, Manolo Badrena, Michael Brecker, David Sanborn, Jeremy Steig e Jaco Pastorius, exatamente na fase "brasileira" do Weather Report, ao mesmo tempo que dividia apartamento com L. Shankar e Fernando Saunders.




Versão autografada



Com os parceiros de apê e mais TM Stevens, formou a banda Unit, e passou a tocar em diversos locais de Manhattan. Após a Unit, Serginho formou a Steps Of Imagination, ao lado de Danny Gotlieb, Marcos Silva e TM Stevens, que mudou de nome para Airto e Flora and The Steps Of Imagination quando Airto Moreira e Flora Purim estiveram em um dos ensaios da Steps, curtindo tanto o som que decidiram entrar na banda.


O contato com McLaughlin e o pessoal da Weather mudou a cabeça de Serginho, que voltou para o Brasil afim de fazer evoluir seus conhecimentos jazzísticos. Assim, reuniu músicos brasileiros e criou o projeto Zod, o qual havia iniciado nos Estados Unidos com músicos desconhecidos da América, e com quem figurou na trilha de Armação Ilimitada ("Juba e Lula, wow!!") com a música "Darling Forever Gone".



Sergio Dias *

Cercando-se de excelentes músicos, Jurim Moreira (bateria), José Lourenço (teclados), Paul Lieberman (sopros) e Tony Mendes (baixo), Serginho começou a apresentar seu novo trabalho instrumental em abril de 1985, na edição do Free Jazz festival do Rio e Sampa, ao lado de estrelas como Chet Baker, Egberto Gismonti, Pat metheny e Bob McFerrin.


Depois de algum tempo, reunem-se novamente para uma minitemporada na extinta casa Jazzmania, localizada no Arpoador, entre os dias 23 e 26 de julho de 1986, as quais foram resgatadas, tratadas e cuidadosamente masterizadas 17 anos depois no CD Jazz Mania Live.



O disco abre com "Janeth & Steve", com o sax de Lieberman acompanhado pelos teclados viajantes de Lourenço, bem na linha do Weather Report, com intervenções feita por Sérgio em um clima viajante. A bateria vai surgindo aos poucos através dos pratos e, com um rufar, trás o baixo acompanhando o riff principal feito por Sérgio e Lieberman ao mesmo tempo, com o teclado a executar diversos acordes.


O que ouvimos a seguir é uma sequência fantástica de solos, começando com Sérgio que abusa da alavanca durante uma sessão free jazz, com Lieberman literalmente enlouquecido, a la Coltrane. O acompanhamento baixo/bateria nos faz recordar a Mahavishnu Orchestra, com Sérgio mandando notas e mais notas efusivamente, sobre uma levada complicadíssima da cozinha. As intervenções do teclado são assustadoras, e Sérgio não diminui um segundo o pique e a quantidade de notas. Coloque essa faixa para um admirador de McLaughlin e divirta-se ouvindo o cidadão dizer "Não conhecia esse som do John".

Sérgio destrói a guitarra em alavancas e bends, abrindo espaço para o solo de Moreira, com muitos rufos e batidas nos pratos, como manda o figurino jazzístico. Mais uma prova de que estamos ouvindo uma filial brasileira da Mahavishnu, pois o modo de tocar de Moreira é idêntico ao de Billy Cobham (primeiro baterista da Mahavishnu).

Após o solo de bateria, temos novamente o riff principal executado por Sérgio e Lieberman, e quando menos percebemos, aprecíamos 11 minutos de boa música, feita em homenagem a dois amigos de Sérgio, Janeth e Steve Reynolds, os quais apresentaram a NASA para o guitarrista quando o mesmo excursionava por Houston.




Um dos maiores guitarristas do mundo*


O CD segue com "Suíte Para Filemón Y La Gorda", e uma introdução na linha do U. K., com muito sintetizador e uma quebradeira geral da bateria, além de uma escala hipnotizante do baixo de Mendes. Lieberman entra com a flauta, com Serginho seguindo as notas da flauta em sua fender.

O ritmo ganha uma linda evolução, já que originalmente fora concebida para um desenho animado feito quadro a quadro no canal HBO, por um artista colombiano.


"Columbia" é uma viagem em homenagem a NASA. O início dedilhado da guitarra relembra as canções de O A E O Z, ganhando o clima jazzístico com a entrada de sax e teclado executando o tema principal. "Return To Forever" e "The Eleventh House" são os nomes que vêm a cabeça, mas o som é legitimamente brasileiro. Sinais de telégrafo feitos pela guitarra são sequência a parte fusion da canção, cercada de teclados e viajantes intervenções de sax e guitarra.

Teclados e bateria imitam o som da "espaço-nave" Columbia, com baixo e bateria relembrando o tema de 2001: Uma Odisséia No Espaço. A sequência de acordes do teclado, com as alavancadas de Sérgio, são de respirar fundo, e imaginar como uma real trilha para viajar pelo espaço. Destaque para as importantes intervenções de Moreira, que criam um clima espe(a)cial bem interessante, encerrando novamente com o riff principal e a Columbia viajando nas caixas de som.

A sensual "Sabor Caballero" trás um clima todo tropical com o sax de Lieberman e as intervenções de teclado. A levada baixo/bateria é extremamente dançante, e é muito bom ver que Sérgio está apenas como um admirador da beleza sonora, executando imperceptíveis acordes enquanto o tema principal está sendo tocado.

Finalmente, como um Carlos Santana, Serginho começa a solar, acompanhado por teclados e pelo ritmo tropical da bateria e baixo, com direito até aos famosos UH! de Perez Prado. O crescendo no solo de Serginho é interrompido pela entrada do sax executando uma pequena parte do tema principal, e após uma breve sessão de teclados, volta ao início dessa bela canção.




Momento de relaxamento *


Outra suíte, "Brazilian New Wave", vem a seguir, resgatando a mesma canção do álbum de estreia solo de Serginho, mas com uma roupagem totalmente diferente, começando com Liberman solando agonizantemente no pícolo, acompanhado por Lourenço. Os teclados dão origem a um samba-jazz empolgante, com o riff principal sendo executado por sax e guitarra. Lourenço está demais nas viradas da bateria, e o acompanhamento pastoriano de Mendes é fenomenal.

Lieberman assume então a flauta, executando um brasileiríssimo solo, e mais uma vez, Serginho fica relegado a um mero espectador no espetáculo musical criado pelos seus quatro músicos de acompanhamento, com somente alguns acordes na guitarra. Se você não balançar a perna aqui, vá no médico, pois o embalo realmente é contagiante.

Após se admirar do solo de flauta, Sérgio mais uma vez destrói a guitarra em um enlouquecido solo de guitarra, apimentado com timbres de Santana e notas Zappianas impossíveis de serem reproduzidas, mostrando o por que de ser considerado o melhor guitarrista brasileiro de todos os tempos. Um samba-jazz, que assim como essa sessão, é essencial para se esquecer da vida, ainda mais acompanhado de uma garrafa de Rum e espetinhos de queijo/presunto.

Lourenço também tem seu espaço, ao duelar com Sergio em uma feroz sequência de guitarra e moog, voltando ao tema principal e deixando o ouvinte com as pernas bambas nos 9 minutos mais energéticos que ele já experimentou.






Encarte do CD


"Hell's Kitchen" lembra "The Meeting Of Spirits" da Mahavishnu, com um clima oriental apreensivo no dedilhado de Serginho e no solo de Lieberman. As viradas de Lourenço mais uma vez estão muito bem construídas, e a canção ganha um crescendo fantástico, virando um viajante funk, com uma intrincada peça construída por baixo, guitarra, teclado e sax, abrindo espaço para Lieberman solar livremente sobre nuvens de funk e soul music.


Na sequência, é a hora e a vez de Sérgio mandar ver em seu solo, abusando de escalas, alavancas, bends e notas muito velozes, sem perder todo o feeling e o pique do funk criado pela cozinha. O intrincado tema é retomado, com a introdução fazendo novamente as ordens da casa, e Lieberman acabando o fôlego em longas notas de seu sax.





CD de Jazz Mania


Jazz Mania Live encerra com "Twilight In Tunisia", uma balada com Serginho solando na guitarra limpa, acompanhado pelos teclados e sons de natureza. De levar as lágrimas, principalmente com a entrada no tema principal e pelo suave andamento de baixo e bateria, acompanhados por intervenções de piano. Porém, o único pecado do disco ocorre, já que um corte gritante foi feito na canção, que encerra com aplausos no meio do início do segundo solo de Serginho.


Acompanha o CD um interessante encarte contando sobre o período da vida de Sergio pré-gravação de Jazz Mania Live, além de fotos da época.

Depois de ouvir esse disco, fica difícil de entender como que o Brasil não teve sua vertente jazzística profundida pelos seus quatro cantos, pois se trata de um achado em termos de sonoridade e principalmente, de conjunto.

Serginho seguiu uma carreira cigana, perambulando por áreas como piano, orquestrações, voltando ao rock e ressurgindo com os Mutantes em 2006, com o qual permanece excursionando até as datas de hoje, prometendo para breve um novo lançamento, bem longe da incrível fase jazzística que o músico teve durante os anos 80.






Contra-capa do CD



Track list



1. Janeth & Steve
2. Suíte Para Filemón Y La Gorda
3. Columbia
4. Sabor Caballero
5. Brazilian New Wave
6. Hell's Kitchen
7. Twilight in Tunisia

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