quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Maravilhas do Mundo Prog: Cannabis India - Lapis [1973]



Quando falamos dos grandes power-trio do rock progressivo, certamente o primeiro nome que vem à mente do fã é o britânico Emerson Lake & Palmer, união de três gigantes em seus instrumentos (Keith Emerson, teclados, Greg Lake, baixo, vocais, e Carl Palmer, bateria) que mostrou ao mundo como fazer rock sem guitarras. A fama do ELP espalhou-se pelo mundo, e concebeu mais um gigante na Europa, mais precisamente na então Alemanha Ocidental. Ali, o Triumvirat do tecladista Jürgen Fritz atravessou a década de 70 com diversas mudanças na formação, mas sempre como um trio poderosíssimo, capaz de bater de frente com as obras Maravilhosas advindas da Terra da Rainha.

Quase na garagem ao lado, porém muito menos desconhecido, o Triumvirat tinha a companhia de outro belíssimo trio progressivo, relegado a obscuridade eterna por conta principalmente do nome adotado para a banda: Cannabis India.

O grupo surgiu em 1971, na pequena cidade de Wuppertal, mesmo local de um grupo que tornou-se cultuado entre os admiradores de krautrock, o obscuro Höderlin, através dos músicos Oliver Petry (órgão, vocais), Dirk Fleck (baixo) e Rüdiger Braune (bateria). Antes, eles faziam parte de um grupo concentrado em executar covers da British Invasion, o The Futures, cujo principal formador, Burckhard Eick, acabou tornando-se o empresário do Cannabis India. Vale ressaltar que Oliver tinha dezesseis anos quando o grupo nasceu, mas tinha uma longa história musical, estudando música clássica desde os sete anos de idade.

O grupo começou a fazer apresentações em diversas cidades da Europa, assim como virou atração em festivais espalhados pela Alemanha, abrindo para nomes hoje consagrados como Birth Opera, Earth and Fire, Fumble entre outros. Dois shows foram marcantes nesse período, o primeiro deles em Berlin, e outro no Wuppstock Festival, na cidade Natal dos garotos. Ambos os shows ocorreram em 1973, e foi graças a eles que surgiu o convite para as primeiras gravações em estúdio da banda.

As gravações ocorreram em 11 maio de 1973, no Südwestfunk Studios em Baden Baden, mas foram lançadas somente em 2009 pelo selo Long Hair, através da série SWF Session, que resgatou nomes obscuros como Jud's Gallery, Coupla Prog e Kollektiv. O nome da bolachinha: SWF Session 1973, uma peça exemplar para mostrar aos que querem conhecer o rock progressivo por que se fala tanto da união entre a música clássica com o rock, já que os dotes clássicos de Petry são exibidos constantemente nas quatro estonteantes faixas instrumentais da bolacha.

O álbum abre com "Hand of the King", potência sonora que une os melhores momentos e Emerson Lake & Palmer, Triumvirat e Atomic Rooster em uma única canção, com o diferencial sendo exatamente as belas escalas clássicas das teclas de Petry, um belíssimo músico infelizmente relegado à obscuridade eterna, se não fosse o advento da internet. Vale a pena citar o quão belos instrumentistas são Fleck e Braune, com o primeiro praticamente solando o tempo todo ao lado de Petry, e o segundo providenciando ritmos impecáveis e dançantes para as belezas sonoras criada pela dupla, nessa canção que tranquilamente poderia estar sendo resenhada por aqui. Porém, escolhi a canção que vem na sequência.

Contra-capa do álbum

"Lapis" surge com uma imponente sequência de notas de órgão e baixo, com a bateria estraçalhando, seguida por marcações que nos remetem rapidamente para "Tarkus" (Emerson Lake & Palmer), intercaladas por velozes escalas do órgão. As marcações vão diminuindo, e com a entrada do moog, começa o ritmo alucinante da canção, com Petry solando alucinadamente, enquanto Braune rufa endemoniado e Fleck faz as marcações no baixo como se fosse a base de uma orquestra.

A velocidade do solo de Petry é incrível, explorando escalas clássicas com uma habilidade comum apenas entre os gigantes do teclado prog, e chama bastante a atenção as batidas fortes da bateria. A canção ganha ritmo através das marcações de Braune, enquanto baixo e órgão dão seu espetáculo de duelos e momentos individuais, deixando o ouvinte exausto e satisfeito com toda a explosão musical.

Depois de três minutos com uma velocidade absurda, a bateria conduz o baixo para uma suave canção, na qual o órgão é o principal instrumento em um solo de arrancar lágrimas. O que Petry faz com o instrumento, utilizando escalas lentas, longos acordes e uma dose extra de emoção advinda da cozinha, causa uma comoção até em estátuas, fazendo o aparelho de CD banhar-se em lágrimas, e gradualmente, o ritmo vai retornando através das velozes escalas de Petry, enquanto a cozinha Braune / Fleck mantém uma marcação constante e dançante.

Passagens entre os três instrumentos fazendo as mesmas batidas concluem esse momento, levando a segunda metade da nossa Maravilha, aberta por um belo solo clássico do órgão, transportando o ouvinte para um Igreja Medieval, e ganhando mais emoção com o retorno de baixo e bateria, que fazem um crescendo único para o órgão poder ser explorado sem piedade, ora com notas curtas, ora com acordes longos, ora atacado por notas velozes, ora com apenas a mão sendo sentada sem piedade nas teclas. Prepare o lenço, por que "Lapis" certamente já está fazendo até as paredes chorarem nesse momento.

Finalmente, breves segundos de silêncio estouram no baixo muito veloz, seguido pelo ritmo jazzístico da bateria. O órgão repete a velocidade e as notas do baixo, e então simplesmente Petry destrói as teclas com acordes longos, agudos e arrepiantes, enquanto a bateria pega fogo em um ritmo jazzy. A escala do baixo é repetida por diversas vezes, e a pauleira come solta, cada músico ganhando destaque em separado, e então, os três músicos voltam para o início da canção, com mais marcações que nos remetem facilmente para Emerson Lake & Palmer, mas com momentos bastante intrincados, na qual Braune é o polvo de dezesseis tentáculos (e não oito) tamanha a fúria e velocidade de suas batidas em pratos, tons e bumbo.

Petry faz uma velocíssima escala no órgão, e com muito barulhos em acordes arrepiantes, leva "Lapis" ao encerramento junto das marcações de baixo e bateria, concluindo essa Maravilhosa peça de doze minutos com um longo e assombroso acorde de órgão, e muito barulho por parte de baixo e bateria. De tirar o fôlego!

Encarte de SWF Sessions 1973, com breve história do Cannabis India em alemão

"Revolver" é uma canção mais alegre, na qual o órgão parece cantar, e Petry abusa de escalas clássicas acompanhado pela impressionante velocidade das batidas de Braune e da marcação perfeita de Fleck. Essas mesmas linhas clássicas são ressaltadas na linda versão para a "Nona Sinfonia" de Beethoven, obviamente intitulada "Beethoven's 9th", e concentrada especialmente na magistral, e por que não Maravilhosa, interpretação de Petry, tendo a fiel e fundamental participação da cozinha Braune / Fleck.

Depois das gravações, o Cannabis India ganhou um guitarrista, Martin Köhmstedt, ex-integrante do grupo Solomon Jackdaw, mas não demorou muito tempo no seu posto, já que logo no início de 1974, o Cannabis India separou-se. Petry acabou fundando o grupo Universe, ao lado de ex-membros do Solomon Jackdaw, Detlev Dalitz (baixo), Bernd Frielingsdorf (bateria) e Detlev Krause (guitarras), os quais fizeram um breve registro que entrou como bônus de SWF Sessions 1973, as faixas "Mirror" e "The Hunt", ambas mais acessíveis, porém mantendo a potência progressiva das cinco canções anteriores, com belas passagens clássicas seja no órgão ou na guitarra, e destacando uma maior presença do moog ao lado do órgão na primeira, e os vocais Gillanianos (além do moog) de Petry na segunda.

Os três álbuns do grupo Gate

Martin acabou ingressando no grupo Gate, onde registrou três álbuns: Live (1977), Red Light Sister (1977) e Well Done (1980). Os membros da Cannabis India voltaram a tocar juntos anos depois, em um projeto chamado Fritz Mueller Band, o qual fez diversas apresentações abrindo para Neu! e Kraftwerk no final dos anos 70, e gravou o álbum Kommt, trazendo um som que mistura punk com psicodelia, longe dos tempos áureos do progressivo de SWF Sessions. 

Braune tocou com o grupo The Ramblers, formando o Kowalski na década de 80, grupo pelo qual registrou dois álbuns: Schlagende Wetter (1982) e Over Man Underground, versão inglesa de Schlagende Wetter, lançada em 1983, ambos pelo selo Virgin. Dirk fundou o grupo Mama, enquanto Petry tornou-se vocalista do Empire, registrando apenas um álbum em 1981, e hoje vive como empresário e webdesigner. 

Quanto ao Cannabis India, sobrou a missão para os caçadores de preciosidades buscar essa relíquia chapante, de uma banda que podia ter sido uma das maiores do prog alemão, mas o destino infelizmente não quis dessa forma.

PS: Infelizmente, não encontrei nenhuma imagem do trio, o que corrobora a raridade que é o Cannabis India.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Robert Plant - Lullaby and... The Ceaseless Roar [2014]


É fato que o ano de 2014, assim como 2013, vem trazendo diversas novidades no mercado fonográfico mundial. Além de bons grupos que surgem como promessas de grandes bandas, alguns medalhões voltaram para os estúdios, e saíram de lá com álbuns muito interessantes (Uriah Heep, U2 ou Judas Priest) ou fracassos retumbantes (Yes e Santana).

O caso de Robert Plant não está nem no primeiro e nem no segundo, mas em um patamar que é a curva divisória entre ambos. Afinal, seu mais recente álbum, Lullaby and... The Ceaseless Roar, apesar de não impressionar como nos tempos de outrora no Led Zeppelin, mantém em alta os mais recentes - nem tão recentes assim - álbuns do eterno ex-vocalista do Led Zeppelin (Dreamland, de 2002, e Mighty Arranger, de 2005), muito por conta da participação do grupo Strange Sensation, composto por John Baggott (teclados), Porl Thompson (guitarrras), Justin Adams (guitarras, Gimbri, Darbuka), Charlie Jones (baixo) e Clive Deamer (bateria, percussão) em Dreamland, e Adams, Deamer, Baggott, Billy Fuller (baixo) e Liam "Skin" Tyson (violão, guitarras, lap steel guitar, baixo) em Mighty Rearranger.

Billy Fuller, Dave Smith, Juldeh Camara, Robert Plant, John Baggott, Liam “Skin” Tyson e Justin Adams

Agora, Plant surge lançando seu décimo álbum acompanhado pela Strange Sensation rebatizada para  The Sensational Space Shifters, formada por Justin Adams (Bendirs, Djembe, guitarras, Thardant, background vocals), Liam "Skin" Tyson (banjo, guitarra, background vocals), John Baggott (teclados, loops, moog bass, piano, tabla, background vocals), Juldeh Camara (Kologo, Ritti, Fulani vocals), Billy Fuller (baixo, programações, omnichord, upright bass) e Dave Smith (bateria), sendo que o álbum (na versão em CD e Vinil) chegou às lojas mundias no último dia 08 de setembro.

Quem acompanhou os últimos discos solo, deparou-se com as experimentações africanas e orientais cada vez mais acentuadas nas composições de Plant, e aqui, elas aparecem com força na ótima faixa de abertura, "Little Maggie", a qual explora com maestria os toques animados da composição oriental com a música eletrônica, assim como sua irmã "Arbaden (Maggie's Babby)", faixa que encerra o álbum resgatando a letra de "Little Maggie", ou então na envolvente viagem de "Embrace Another Fall", com os instrumentos orientais cercados por densas camadas de sintetizadores, em um ambiente bastante denso, e uma arrepiante participação dos vocais de Julie Murphy.

Vinil

Plant apresenta a voz que o consagrou mundialmente nas suaves "Rainbow" e "House of Love", com a experiência de compor canções românticas e agradáveis para homens e mulheres, trazendo melodias que ficam na cabeça do ouvinte por dias, ou na Zeppeliana "Turn It Up", que resgata as experimentações de Plant com Jimmy Page (guitarrista do Led Zeppelin) realizadas em No Quarter (1994) e Walking into Clarksdale (1998), e ainda aproxima-se do pop romântico com "Somebody There", boa faixa para tocar nas rádios e sem experimentações muito expressivas.

Os que desejam viajar conduzidos pela música de Plant poderão fazê-los pelas estradas intrincadas de " Up on the Hollow Hill (Understanding Arthur)", com a guitarra de Adams sendo o principal instrumento entre a levada percussiva bastante pesada, ou com os dedos levantados e um sorriso no rosto na alegre "Poor Howard", inspirada em "Po' Howard", de Leadbelly, e que também possui seus momentos No Quartet, apresentando as vocalizações de Nicola Powell.

Encarte

Para quem gosta da fase Manic Nirvana (1990) e Fate of Nations (1993), "Pocketful Golden" certamente trará momentos de nostalgia, apesar da demasiada (mas não intolerante) inclusão de eletrônicos. Já os que apenas querem curtir um bom álbum, ficarão fascinados com a delicadeza emocional de "A Stolen Kiss", com Plant acompanhado apenas por um piano muito triste e intervenções da guitarra, nesta que talvez seja a canção mais dolorida de toda a carreira solo de Plant,

O que chama a atenção é que em todas as canções de Lullaby and... The Ceaseless Roar temos a participação de no mínimo quatro integrantes da Space Shifters, ao lado de Plant obviamente. A instrumentação é impecável, e após ouvir o disco, você fica com a sensação de que precisa ouvir de novo para capturar melhor as nuances escondidas nos belos arranjos, dos quais "House of Love", "Embrace Another Fall" e "A Stolen Kiss" são os pontos mais fortes, não tendo nenhum ponto negativo.

Capa interna

Plant, no alto de seus 66 anos, definiu o álbum como uma gravação para celebrar, poderosa, africana, em um encontro de Trance com Led Zeppelin. Não ouço muito de Led Zeppelin em Lullaby and ... The Ceaseless Roar, mas sim bastante do que Plant fez com Page em Walking into Clarksdale. Se o Led iria virar o que a dupla registrou naquele ano, isso não posso afirmar, mas o que está registrado no álbum aqui resenhado está como disse lá no início, muito longe de ser algo do nível dos trabalhos do Zeppelin de Chumbo, mas tão pouco um disco a ser desprezado. 

Aposto minhas fichas que com o passar dos anos, Lullaby and ... The Ceaseless Roar irá entrar nos Top 5's de Robert Plant facilmente, sendo que no contexto geral, é um álbum para ser ouvido e absorvido aos poucos. 

Contra-capa

Track list

1. Little Maggie
2. Rainbow
3. Pocketful of Golden
4. Embrace Another Fall
5. Turn It Up
6. A Stolen Kiss
7. Somebody There
8. Poor Howard
9. House of Love
10. Up on the Hollow Hill (Understanding Arthur)
11. Arbaden (Maggie's Babby)

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Maravilhas do Mundo Prog: Mutantes – Hey Joe [1992]



Há quinze dias, comentei aqui no Maravilhas do Mundo Prog sobre a última joia criada pelo grupo na década de 70, a incrível "Cavaleiros Negros", lançada em 1976. Depois daquele ano, o grupo liderado por Sérgio Dias (guitarra, violões, Sitar, vocais) peregrinou pela Itália, voltando ao Brasil em 1978, quando realizou mais dois shows até encerrar as atividades em junho daquele ano, após dois malfadados shows, um em São Paulo e outro em Ribeirão Preto. Sérgio seguiu com uma carreira solo de altos e baixos, mudando-se para os Estados Unidos e apagando a chama Mutante de vez.

Os anos se passaram e sempre ficou uma sombra do passado pairando sobre a cabeça não só de Sérgio, mas dos outros dois membros da formação inicial: Rita Lee (vocais, teclados, percussão) e Arnaldo Baptista (baixo, teclados, mellotron, moog, órgão, vocais). Enquanto Rita consolidou uma carreira solo de extremo sucesso, seja com o grupo Tutti Frutti entre os anos de 1974 e 1977, seja com o marido Roberto de Carvalho, a partir de 1978, Arnaldo tentou de tudo o que pôde erguer uma carreira solo, lançado o aclamado Lóki!? em 1974 e Singin' Alone em 1982, além de montar a Patrulha do Espaço no final da década de 70, ao lado do excelente baterista Rolando Castelo Jr.. Porém, na virada do ano de 1982, Arnaldo jogou-se do terceiro andar de um prédio onde estava internado para tratamento, e acabou praticamente destruindo sua carreira musical. Apesar de ter sobrevivido à queda, Arnaldo ficou com diversas sequelas, e ano após ano, vem fazendo um longo tratamento de recuperação, gerando resultados satisfatórios.

Acima: Rita Lee com o Tutti Frutti (esquerda) e com o marido Roberto de Carvalho (direita);
Abaixo: Arnaldo Baptista e a Patrulha do Espaço

Em 1988, através de Luiz Carlos Calanca, as canções da Patrulha do Espaço com Arnaldo Baptista foram finalmente lançadas através dos excelentes O Elo Perdido e ... Faremos Uma Noitada Excelente. No ano seguinte, quando começaram a serem preparadas as atrações para a segunda edição do Rock in Rio, boatos de que o trio Rita, Sérgio e Arnaldo iriam voltar brotaram de todos os lados. Mas os contatos não passaram de reuniões Titanic, e mais uma vez o sonho era adiado indefinidamente.

Como consolo, e aproveitando-se do grande retorno que o Mutantes teve à mídia através da exposição que o líder do Nirvana, Kurt Cobain, fez quando de sua vinda ao Brasil, e com grande incentivo de Sérgio, a gravadora Polydor, através do produtor Mayrton Bahia, retirou da gaveta o projeto gravado em 1973 pelo quarteto Sérgio Dias, Arnaldo Baptista, Dinho Leme (bateria, tabla, percussão) e Liminha (baixo, violão e voz), o fantástico álbum O A E O Z.

Liminha, Arnaldo Baptista, Sérgio Dias e Dinho Leme

Em uma fase onde o quarteto vivia, respirava e se alimentava de rock progressivo, O A E O Z foi originalmente concebido para ser um álbum duplo, gravado totalmente ao vivo nos estúdios, e com um dos vinis sendo dedicado à faixa-título, uma suíte com mais de 40 minutos de duração, nos moldes das grandes peças musicas de Yes, Genesis e Emerson Lake & Palmer, os grandes expoentes britânicos do rock progressivo da época. Lembrando que na época o quarteto vivia em uma casa na Serra da Cantareira, onde passava ensaiando, ouvindo muita música e consumindo diversos tipos de drogas, em uma comunidade na qual todos viviam como se fossem uma única pessoa, gerando o famoso lema "Uma Pessoa Só". A faixa "O A E O Z" iria registrar essa espécie de "religião", na qual todos eram um só, desde o A até o Z, e como a própria letra da suíte afirma, sendo o começo e o fim em uma pessoa só. A audácia e por que não estranha comunidade acabou sendo vetada pela Polygram, que considerou o projeto totalmente anti-comercial, e engavetou o álbum por diversos anos.

Decepcionado, Arnaldo saiu da banda, que seguiu adiante temporariamente com Manito (Incríveis, Som Nosso de Cada Dia) no seu lugar, e depois, já com Túlio Mourão nos teclados, começou a gravação de Tudo Foi Feito Pelo Sol, ocasionando então na Maravilhosa "Pitágoras", apresentada aqui em setembro passado.

Rara imagem dos Mutantes: Rui Motta e Liminha (acima); Túlio Mourão e Sérgio Dias (abaixo)

Ao que consta, quando O A E O Z chegou às lojas, muito do material que foi registrado em 1973 acabou sendo perdido. Se isso é mito, não posso afirmar, mas o que afirmo tranquilamente é que mesmo o CD sendo curto, com quase cinquenta minutos, o grupo conseguiu apresentar parte da suíte O A E O Z, através de três Maravilhosas mini-suítes, das quais escolhi a maior delas para ser apresentada por aqui, "Hey Joe".

O álbum abre com a primeira mini-suíte, "O A E O Z", explorando os dotes musicais de Arnaldo nos teclados, em pouco mais de oito minutos de belíssimas experimentações, que nos remetem por diversas vezes para passagens de Tales from Topographic Oceans (lançado pelo Yes também em 1973) e gravam na mente as palavras "sou o começo, sou o fim, sou o A e o Z numa pessoa só", o lema do grupo na época. Após passarmos pelo rock simples de "Rolling Stones" e a intrincada peça acústica de "Você Sabe", baseada explicitamente em linhas da Mahavishnu Orchestra, chegamos na segunda parte da suíte, a Maravilhosa "Hey Joe".

Sérgio Dias e Liminha, ao vivo em 1973,
durante o espetáculo
Mutantes com 2000 Watts de Rock

A mais longa das três mini-suítes começa com um dedilhado sombrio da guitarra de Sérgio, carregada de efeitos, em uma longa e bela introdução que nos coloca dentro da viagem musical que o Mutantes irá apresentar ao ouvinte. A voz adocicada de Sérgio surge ao mesmo tempo em que ele dedilha a guitarra, com intervenções do moog de Arnaldo e do baixo de Liminha, também carregado de distorção. Duas estrofes vocais explodem em uma série de vocalizações acompanhadas por rufadas de bateria e que novamente, nos levam para álbuns do Yes como Close to the Edge e o já citado Tales from Topographic Oceans. O trabalho vocal é fantástico, muito bem construído, e enquanto os instrumentos se sobrepôem, o trio Liminha, Arnaldo e Sérgio dá um show.

Uma breve passagem leva para o pesado riff de baixo e guitarra, trazendo o duelo vocal de Sérgio com o órgão de Arnaldo, e assim "Hey Joe" vai sendo construída, com mais uma variação surpreendente, agora com a guitarra de Sérgio acompanhada pelo órgão, em um novo riff que é repetido pelo baixo, responsável por resgatar o ritmo da canção.

Dinho faz batidas intrincadas enquanto Sérgio solta a voz sobre o riff de baixo, as viagens passagens do mellotron e o dedilhado da guitarra. Esse momento é fantástico e arrepiante. O que Sérgio canta é um absurdo, e as vocalizações ao fundo são emocionantes, arrancando lágrimas junto com as camadas de teclados, o pesado baixo de Liminha, bem na cara do ouvinte, e momentos instrumentais que fazem qualquer fã de Yes vibrar com o que está ouvindo.

A nossa Maravilha muda novamente, ganhando tons de apreensão com mais um novo dedilhado da guitarra, acompanhado pelo órgão assombroso de Arnaldo. Sérgio executa arrepiantes vocalizações, ganhando pontos até entre aqueles que nunca souberam valorizar sua capacidade vocal, e os minutos que se passam sob o comando tenso do órgão e do dedilhado da guitarra, com Liminha socando seu baixo em batidas precisas e pontuais, mescladas com percussões delirantes, só podem ter sido concebidas por gênios do rock progressivo.



Encarte de O A E O Z, devidamente autografado

"Hey Joe" modifica-se mais uma vez, surpreendendo novamente voltando para um ritmo mais ameno com o dedilhado da guitarra, o órgão de Arnaldo e as escalas de baixo e bateria supostamente inspiradas em "The Remembering" e "Ritual" (Yes). Sérgio canta com vocais duplicados, entoando o nome da canção, e o ritmo ameno, quase jazzístico, é mais uma prova de que os garotos aprenderam muito bem as lições de rock progressivo que tiveram com os britânicos.

Finalmente, "Hey Joe" encaminha-se para o final repetindo o lema "Todos juntos, reunidos, numa pessoa só", sobre um andamento simples dos quatro instrumentos, concluindo com uma breve passagem de baixo.

Logo na sequência, a suíte "O A E O Z" é encerrada com outra Maravilha musical, "Uma Pessoa Só", a mais curta das mini-suítes, com pouco mais de sete minutos de duração de uma canção que praticamente virou o apelido do álbum, já que sua letra é a mais forte dentre as três partes que apareceram no álbum, destacando a emocionante interpretação de Arnaldo, que inclusive registrou a sua versão para "Uma Pessoa Só" no já citado Lóki!?. O álbum encerra-se com o agito de "Ainda Vou Transar Com Você", último registro de uma formação inesquecível para o rock progressivo mundial.

Arnaldo na Cantareira
Vale resgatar que pouco antes das gravações de O A E O Z, os Mutantes apresentaram o espetáculo Mutantes com 2000 Watts de Rock, iniciado em 12 de janeiro de 1973 no Teatro Aquarius, em São Paulo. Era a primeira apresentação dos Mutantes sem Rita Lee, e nesse show, traziam instrumentos inéditos no Brasil como mellotron, Sitar, moog e clavinete, o grupo tinha a seu dispor uma máquina sonora do mesmo porte do que o Pink Floyd tinha durante a turnê de Dark Side of the Moon (1973), oferendo aos fãs os 2000 Watts de potência que o nome do espetáculo propagandeava. Esse show passou por diversas cidades do interior do país, e também em Porto Alegre, Florianópolis, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador, onde lotaram o Teatro Castro Alves com mais de cinco mil pessoas. O grupo começava a viver um auge progressivo no Brasil.

As influências para a mudança no som do Mutantes não foi somente por conta do rock progressivo britânico. Arnaldo, em uma de suas descidas da Serra da Cantareira, viu o ensaio de uma banda chamada Mescla, no bairro da Aclimação, em São Paulo. A Mescla era liderada por Bartô, um maluco que raspava lascas de ácido diretamente nos olhos. Esse grupo, mergulhado em ácido, fazia um som viajante, e eram muitos mais novos do que os Mutantes. Aquele tipo de som era o objetivo de Arnaldo, virando uma cobiça a posição de melhor banda do país, não só musicalmente, mas tecnicamente, e que espalhou-se aos demais, e culminou com Maravilhosas canções que apareceram em sequência por aqui.

Mutantes em 2012, nada progressivo

O A E O Z foi lançado em CD e em uma tiragem limitadíssima de 700 cópias em vinil. Depois de seu lançamento, passaram quatorze anos de muitos boatos, ainda mais quando do lançamento de Tecnicolor, álbum gravado na Europa em 1970 com o quinteto Sérgio, Arnaldo, Rita, Dinho e Liminha, mas somente em 2006 os Mutantes voltaram à atividade com Sérgio, Arnaldo e Dinho acompanhados por Zélia Duncan, no inesquecível show no Barbican Theatre em Londres, e uma grandiosa excursão de retorno feita pelo Brasil e também Estados Unidos e Europa. Arnaldo e Zélia saíram pouco antes do lançamento de Haih ... or Amortecedor (2010), e Dinho ano passado, quando do lançamento de Fool Metal Jack, álbuns que resgatam um pouco do lado irônico dos Mutantes, que sobrevivem com uma formação muito diferente daquela que se consagrou como talvez a melhor banda de rock progressivo da América Latina.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Santana - Corazón [2014]



O que leva um artista consagrado a manter-se em ativa? Seria a conquista de novos fãs? Continuar acesa a chama de um passado de glórias? Inovar musicalmente e chocar o mundo com um álbum de relevância? Faturar mais algum com o que sabe fazer de melhor?

No caso do guitarrista Carlos Santana, a última indagação parece a correta. Afinal, depois do aclamado lançamento de Supernatural (1999), seguido pelos também aclamados Shaman (2002) e All That I Am (2005), Santana ficou cinco anos sem lançar nenhum material original, tentando redescobrir a fórmula do sucesso que foi com Supernatural, fazendo canções mais diretas e com a participação de diversos cantores convidados para interpretar sua música. Como não conseguiu reinventar a roda, resolveu apostar em covers, e saiu-se muito bem com Guitar Heaven (2010), um dos melhores trabalhos de sua carreira.

Novos parceiros musicais (!) de Carlos Santana?

Veio Shape Shifter (2012), tentando volta às origens do grupo, mantendo apenas dois vocalistas fixos - no caso Andy Vargas e Tony Lindsay - e um grande fracasso comercial, apesar do álbum também ser muito bom. Daí que em busca de mais um $, e só pode ser essa a resposta, Santana resolveu que não adiantava voltar ao passado distante, mas sim ao passado recente, e pouco antes de apresentar-se na festa de encerramento da Copa do Mundo do Brasil, lançou ao mundo Corazón.

Trazendo doze canções, e tendo como propaganda o fato de ser totalmente cantado em espanhol, esse álbum é bastante decepcionante, pois além de não ser uma sequência natural para Shape Shifter, tão pouco consegue colocar na cabeça e no corpo do fã clássicos como "Maria Maria", "Smooth" ou "Corazón Espinado", que apesar de puramente populares, são boas músicas para se ouvir em uma festa. Para piorar, Santana a banda não existe no álbum. O número de convidados é tamanho (mais de 30 músicos participam do álbum) que em nenhuma canção temos um grupo fechado, o que torna tudo ainda mais triste.

Casal Carlos Santana e Cindy Blackwell com excelente química dentro e fora dos estúdios

Começando pelo o que é bom, vá direto para a faixa cinco, "Iron Lion Zion", com a participação de Ziggy Marley e ChocQuib Town, o que já diz o que é a música, um reggae de primeira linha que casou perfeitamente com a guitarra de Santana, confira a singela vinheta instrumental "I See Your Face" e a presença magnífica do saxofonista Wayne Shorter dando um espetáculo a parte na apimentada "Yo Soy La Luz", tendo a percussão de Cindy Blackman (esposa de Carlos Santana), vocais que consagraram a banda, percussões e um arranjo de metais impressionante. 

Depois, coloque o CD na estante e volte a ouvir somente quando bater a curiosidade, já que Corazón começa decepcionando logo na abertura, com o riff conhecidíssimo de "Saideira", um dos grandes sucessos comerciais do grupo brasileiro Skank sendo interpretado pelo próprio Samuel Rosa (guitarrista e vocalista do grupo mineiro) em espanhol, e apresentando um arranjo peculiar a latinidade de Santana, mas que não empolga mesmo com as intervenções dos sempre vibrantes solos de guitarra do músico que empresta seu nome à banda. O pior de tudo é que dentre as parcerias feitas pelo músico para Corazón, a de Samuel Rosa é uma das menos piores.

Uai! Mas que dupla cê foi me formar sô! (Samuel Rosa e Carlos Santana)

"Margarita", com Romeo Santos nos vocais, parece ter saído das piores lembranças dos piores momentos da carreira do mexicano, soando como uma canção de Romeo Santos com a participação especial de Santana, e beirando o ridículo com a mistura de frases em espanhol com um refrão em inglês. Aguentar a choradeira de Miguel em "Indy", acompanhado apenas de Santana, é missão complicada para quem um dia idolatrou "Jingo", "Soul Sacrifice" ou "Toussaint L'overture", e o bolero La Flaca, com os vocais por Juanes, resgata momentos interessantes de outras canções similares lançadas no passado recente da banda, mas também não empolga. 

A tríade do terror é completada pela tosca recriação de "Oye Como Va", rebatizada como "Oye 2014" e com os vocais rappers de Pitbull (?!) complementados por samplers hip-hop injustificáveis para quem um dia gravou pérolas como Caravanserai ou Abraxas. E antes que esqueça, nem perca seu tempo com "Feel It Coming Back", trazendo Diego Torres nos vocais (sinceramente, essa daí só pode ser algum sertanejo universitário com Maná de muito mal gosto que Carlos Santana ouviu em sua passagem pelo Brasil).

Gloria Estéfan e Carlos Santana, uma das poucas parcerias que deu certo em Corazón

Tentando salvar a pátria, Santana resgata cantora Glória Estéfan no samba "Besos de Lejos", uma canção que ganha força pelo arranjo vocal e pelo andamento sensual, e com a presença de Los Fabulosos Cadillacs durante "Mal Bicho", outra cantada em espanhol, alivia um pouco mais a decepção, principalmente pela legítima latinidade dos músicos do que pela canção em si, assim como o bonito bolero "Una Noche em Nápoles", com o trio vocal Lila Downs, Niña Pastori e Soledad, que nos remete aos áureos tempos de grupos como Trio Irakitán, Los Tres Diamantes ou Los Dandys, mas com todo o tempero das notas de Carlitos Santana (assim anunciado durante o bolero) ao violão, nessa que compete com "Iron Zion Lion" ao posto de melhor de Corazón.

O álbum recebeu uma versão DELUXE com três bônus (um rearranjo para "Saideira", a versão em português para "Bejos de Lejos", que virou "Beijos de Longe", também interpretada por Gloria Estefan,  e "Amor Correspondido", versão em português para "Feel it Coming Back", também com os vocais de Diego Torres), além de um DVD com o Making-Of de Corazón, e uma versão especial para o mercado latino, trazendo as músicas que ficaram de bônus na versão DELUXE oficial agora como faixas principais, e as versões que estão na versão oficial como bônus na versão DELUXE do mercado espanhol.

Cores para apresentar Corazón

Outro ponto positivo vai para a bela arte da capa, criada pela empresa La Fábrica de Pepinos de Boa Mistura, que caprichou nas cores e psicodelia no encarte do álbum.

Claro que em todas as canções, os solos estridentes e cheios de energia de Carlos Santana estão presentes, mas é só. Percussões enlouquecidas, passagens vibrantes de órgão, vocalizações empolgantes, nada disso é encontrável em Corazón, uma das maiores decepções de 2014, e com certeza, a maior decepção da carreira de Santana.

“Ai mamita querida, yo quiero plata!!”

Para complementar o estado de pobreza associado a Corazón, o álbum já vendeu mais de 100 mil cópias somente nos Estados Unidos, rendendo platina dupla para Corazón e provando que os fãs, indiferentes a porcaria que estão levando para casa, estão famintos, pelas novidades sonoras de Carlitos, cujos bolsos vão enchendo-se novamente.

Contra-capa da versão DELUXE de Corazón

Track list

1. Saideira
2. La Flaca
3. Mal Bicho
4. Oye 2014
5. Iron Lion Zion
6. Una Noche en Nápoles
7. Besos de Lejos
8. Margarita
9. Indy
10. Feel It Coming Back
11. Yo Soy La Luz
12. I See Your Face

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Review Exclusivo: Sérgio Hinds Apresenta "O Terço Lado B" (Rio de Janeiro, 02 de outubro de 2014)



Reviver o passado é um sonho que muitos jovens gostariam de realizar, principalmente os admiradores do rock setentista nacional. Afinal, qual fã de nossa cena brasilis que não viaja com um reencontro do trio Mutantes (Sérgio Dias, Arnaldo Baptista e Rita Lee), ou então, reviver os momentos tropicalistas do final dos anos 60, quiçá o auge da carreira de Raul Seixas, entoando as Leis de Thelema em seus alucinantes shows da fase Gita em 1974.

Pois acredito que os cerca de quatrocentos presentes no Teatro Rival Petrobrás na última quinta-feira, 02 de outubro, na cidade do Rio de Janeiro, sentiram uma nostalgia inimaginável quando Sergio Hinds subiu no palco carioca acompanhado de Ronaldo Rodrigues (teclados, Arcpelago, Massahara, Módulo 1000), Silvio Izy (baixo, vocais) e Fred Barley (bateria, vocais) para apresentar o espetáculo Sérgio Hinds Apresenta "O Terço Lado B", que um dia antes, havia sido realizado no palco do Teatro Bradesco, em Belo Horizonte.

Sérgio Hinds

O objetivo do espetáculo, como o próprio nome diz, é apresentar as canções menos conhecidas da carreira do O Terço, um dos principais grupos do rock progressivo brasileiro, com uma trinca de discos essenciais lançados entre 1975 e 1978 (Criaturas da Noite - 1975, Casa Encantada - 1976, e Mudança de Tempo - 1978), nos quais, comandados por Hinds e pelo parceiro Flávio Venturini, levaram o grupo a ser eleito o melhor grupo do rock brasileiro de 1975, a frente de gigantes como Mutantes e O Som Nosso de Cada Dia.

Porém, a carreira do grupo havia começado em 1970, com um disco tão cobiçado quanto raro, O Têrço, misturando elementos do rock com folk, e  1973, deu grandes passos para o progressivo com o excepcional Terço, trazendo a épica e Maravilhosa suíte "Amanhecer Total" ocupando todo o lado B de um vinil que hoje acabou praticamente esquecido tanto pelos fãs que surgiram pós Criaturas da Noite quanto aos que conheceram a banda somente nos anos 80.

Um brinde à Jorge Amiden

Foi exatamente de Terço que saiu o primeiro lado B a ser apresentado pelo quarteto, a pesadíssima "Deus", que colocou o Rival para cantar, e depois de um brinde promocional da cerveja O Terço, que está no mercado há menos de um ano, tivemos uma linda homenagem ao primeiro guitarrista do grupo, Jorge Amiden, recentemente falecido, através de "Tributo ao Sorriso", canção que ficou mais conhecida recentemente pelo DVD O Terço Ao Vivo (2005), mas que foi composta em 1970 para a participação do grupo no V Festival Internacional da Canção, ocorrido naquele ano.

Então, Sérgio comentou sobre o objetivo do espetáculo, de quão difícil foi lembrar de algumas canções, principalmente uma música longa quanto a que eles iriam apresentar agora, a suíte "Amanhecer Total". Se havia algum barulho na plateia, ele prontamente foi cessado para receber atenciosamente os dezoito minutos mais inimagináveis de um fã d'O Terço, com a Maravilhosa suíte interpretada com suas cinco partes, com grande destaque para a surpreendente e bela interpretação de Barley, fazendo as vozes agudas com precisão, e claro, para todo o quarteto, repassando as intrincadas partes da suíte com muito feeling e atenção. Se houve falhas, somente perfeccionistas notaram, e mais incrível ainda foi saber que o quarteto havia ensaiado apenas uma vez para poder tocar a mesma.

Fred, Sérgio e Silvio, em “Gente do Interior”

Aplausos ensandecidos fizeram o Rival tremer após "Amanhecer Total", e não precisaria o grupo seguir para ter garantido o valor do ingresso, só que haviam se passado apenas meia hora de espetáculo, e Sergio Hinds tinha muito mais para presentear os fãs, que segundo ele, são o principal motivo para a banda estar ali. Em um momento mais intimista, sentados em cadeiras Silvio e Sergio, e com a percussão de Barley, fazem uma bonita versão de "Gente do Interior" (Mudança do Tempo), sem a presença de Ronaldo, que retornou para colocar a primeira canção Lado A d'O Terço nos ouvidos dos fãs, e consequentemente a segunda Maravilha da noite, a suíte "1974".

Com Barley novamente surpreendendo nos vocais, "1974" (Criaturas da Noite) levou alguns presentes às lágrimas, mostrando como a música é capaz de tocar a alma de um ouvinte. Ronaldo também foi um grande destaque com as passagens viajantes de seus teclados soando como se fossem há 40 (como o tempo passa e não percebemos) anos atrás, e o baixão de Silvio duelando com a guitarra de Sérgio foi impressionante, mas o melhor foi soltar a voz com as vocalizações clássicas de "1974", aplaudidíssima em pé por todo o teatro, e ainda, louvada por um dos presentes como "uma música que nos faz ter orgulho do rock brasileiro". Dava para sentir a emoção correr pelo sangue de todo mundo, principalmente de Sérgio, que sorria como uma criança. Foi o segundo grande momento da noite.

Ronaldo Rodrigues

Atendendo a pedidos, "Adormeceu" foi resgatada do obscuro compacto duplo lançado pelo grupo em 1971, época em que construíram os exóticos instrumentos Tritarra e Violoncelo Elétrico, resgatado recentemente (2011) no CD Tributo ao Sorriso (junto com a canção que batiza o álbum e que já foi citada antes), seguida por outro grande Lado A d'O Terço, "Criaturas da Noite" (Criaturas da Noite), cantada em uníssono pelo teatro, e a elegante "Blues do Adeus" (Mudança do Tempo), onde Silvio pode soltar seu vozeirão.

Veio a instrumental "Crucis" (Time Travellers, 1992) e a comprovação de que os presentes no Rival estavam diante de uma das maiores revelações da bateria nacional. Afinal, o longo solo de Barley foi de colocar queixos no chão, tamanha a velocidade e técnica que o monstro de diversos braços apresentou. Além de cantar muito bem, o que ele fez no seu solo foi demais, arrancando aplausos espontaneamente, e mais ainda, fazendo o próprio Sérgio Hinds curvar-se para uma performance inesquecível.

Discos autografados por Sérgio (acima),
Palhetas, baqueta de Fred Barley e autógrafos de Fred e Silvio (abaixo)

O encerramento do show foi uma festa a parte, com a pegada "Lagoa das Lontras", que colocou O Terço novamente nos anos 70, em outra bela obscuridade de Terço, destacando os duelos de baixo e guitarra, seguida pela dançante "Luz de Vela", rockzão na linha Erasmo Carlos, única representante de Casa Encantada, com uma versão muito mais pesada do que a versão original, já que a ausência dos metais que estão no álbum de 1976 foi compensada pela vibrante voz de Silvio, e o espetáculo foi concluído com nada mais nada menos que o maior sucesso D'O Terço, "Hey Amigo", mais uma vez levantando a plateia, que após a banda despedir-se, continuou aplaudindo para trazer o grupo ao palco.

Alguns segundos foram suficiente para que Sergio, com um grande sorriso no rosto, agradece-se à todos, e como que um convite para o show não parar, mandou ver no petardo "Volte Na Próxima Semana" (Criaturas da Noite), inspiradora de tantas bandas do rock brasileiro nos anos 80, deixando o palco após quase duas horas de uma apresentação fantástica e marcante e partindo paro a os camarins.

Um bolha bolhando com Sérgio, Ronaldo e Fred

Pouco depois, Sérgio, Ronaldo, Fred e Silvio (esse só por alguns minutos) ainda deram mais um presente aos fãs que esperaram ao lado do palco, retirando fotos, autografando álbuns, livros e principalmente, jogando conversa fora como se fossem velhos amigos de todos.

Parabenizando ao pessoal da organização do espetáculo, principalmente Claudio Fonzi, o idealizador de todo o projeto, concluo dizendo que não há dúvidas quanto a grande sensação desse belíssimo show, já que não houve um fã saindo do Rival com um adjetivo diferente em sua mente que não fosse "Inesquecível", ou ainda a frase "Valeu a pena esperar" ressonando na cachola até a hora de dormir, se é que isso foi possível depois de tanta adrenalina saída dos palcos do Rival.

Set list, baqueta, folder promocional, palhetas e ingresso autografado por Ronaldo

Set list

1. Deus
2. Tributo ao Sorriso
3. Amanhecer Total
4. Gente do Interior
5. 1974
6. Adormeceu
7. Criaturas da Noite
8. Blues do Adeus
9. Crucis
10. Lagoa das Lontras
11. Luz de Vela
12. Hey Amigo

Bis

13. Volte Na Próxima Semana

sábado, 4 de outubro de 2014

Melhores de Todos os Tempos: 1983


Dio em 1983: Ronnie James Dio, Vinny Appice, Jimmy Bain e Vivian Campbell


Por Diogo Bizotto
Com André Kaminski, Bernardo Brum, Bruno Marise, Davi Pascale, Eudes Baima, Fernando Bueno, José Leonardo Aronna, Leonardo Castro, Mairon Machado e Ulisses Macedo
Participação especial de Rodrigo Gonçalves, editor do portal Metal Revolution
Foi por pouco que Holy Diver não quebrou o recorde de pontuação absoluta mantido desde a edição da série dedicada a 1975 por Physical Grafitti, do Led Zeppelin, que acumulou 173 pontos. Mesmo sem atingir essa marca, é notável a aceitação do primeiro disco do vocalista norte-americano Ronnie James Dio liderando sua própria banda, livre de possíveis limites impostos por Ritchie Blackmore, no Rainbow, e Tony Iommi, no Black Sabbath. Até pessoas não tão afeitas ao heavy metal têm demonstrado, desde bem antes de sua morte, ocorrida em maio de 2010, grande apreço pela obra do baixinho, enfatizando especialmente q qualidade de Holy Diver, tido por muitos como tão bom quanto ou até melhor que seus momentos mais inspirados ao lado de Rainbow e Black Sabbath. De resto, nossa edição dedicada a 1983 é um deleite para os aficionados por heavy metal. Aos descontentes, bem, não deixem de fazer suas críticas lá embaixo, nos comentários, além, é claro, de publicar as listas com seus discos favoritos lançados nesse ano. Como nunca deixo de fazer, lembro que o critério para elaborar todas as partes desta série obedece a pontuação do Campeonato Mundial de Fórmula 1. Boa leitura!
 
01 Holy Diver
Dio – Holy Diver (162 pontos)
André: O bom é que já começarei esta lista com uma rasgação de elogios sem fim deste que é o meu vocalista preferido e que gravou um dos melhores álbuns da história do heavy metal. Um disco em que não há um único ponto fraco e com um clássico atrás do outro, Holy Diver é o cume do Everest do metal oitentista. Poderia citar e destacar todas as músicas deste disco, mas para seguir um padrão de três a quatro faixas, vou comentar sobre como “Stand Up and Shout” me dá vontade de levantar e gritar, “Holy Diver” já me fez fazer muito “air guitar” na adolescência, “Don’t Talk to Strangers” me fez embasbacar com a qualidade e versatilidade vocal do baixinho e a clássica “Rainbow in the Dark”, com seus teclados estonteantes, me faz acreditar que o metal pode sim voltar às rádios. Primeiro lugar merecidíssimo.
Bernardo: O melhor álbum de Dio, com três baita musicões: “Stand Up and Shout”, “Don’t Talk to Strangers” e “Rainbow in the Dark”. Dio mesclou tudo que funcionou em suas bandas antigas em um som pesado, dinâmico e acessível. Grudou que nem chiclete, e este é o seu registro mais bem acabado.
Bruno: Dio saiu brigado do Black Sabbath e montou sua própria banda, lançando sua estreia em carreira solo. É disparado seu melhor trabalho, um disco redondinho com tudo que o heavy metal tem para ofercer de bom: Peso, melodia, solos de guitarra e uma performance vocal incrível. Mesmo assim, ele nem entrou na minha lista, a concorrência era muito grande. Figurar na primeira posição então, nem pensar.
Davi: Clássico absoluto. Disco indispensável na coleção de qualquer pessoa que seja fã de heavy metal. Ronnie James Dio juntou-se ao também ex-Sabbath Vinny Appice, ao ex-Rainbow  Jimmy Bain e ao guitarrista Vivan Campbell e veio com este disco. O resultado não poderia ser outro. Um álbum poderoso, empolgante, cheio de clássicos. Sem dúvidas, uma das grandes vozes do heavy metal em um de seus melhores momentos.  Destaques? “Stand Up and Shout”, “Holy Diver”, “Gypsy”, “Don’t Talk to Strangers”, “Straight Through the Heart” e a clássica “Rainbow in the Dark”.
Diogo: Reunindo uma formação sólida, que incluía um ex-companheiro de Rainbow e um colega do Black Sabbath, Ronnie James Dio aliou-se ao jovem guitarrista norte-irlandês Vivian Campbell e criou um dos álbuns mais marcantes e queridos do heavy metal em geral. Querido? Isso mesmo, pois até pessoas cuja simpatia pelo trabalho do baixinho ou mesmo pelo gênero não é grande admitem admiração por músicas como “Stand Up and Shout”, “Don’t Talk to Strangers”, “Rainbow in the Dark” e a marcante faixa-título, provável melhor canção da carreira do grupo. Isso certamente explica o porquê de Holy Diver estar ocupando a primeira posição em um ano em que o próprio estilo teve outros lançamentos que julgo tão bons quanto ou até melhores, como Balls to the Wall (Accept), Melissa (Mercyful Fate) e Kill ‘em All (Metallica). Citei essas quatro músicas, normalmente as mais adoradas, mas a verdade é que o restante do track list é minado de melodias, riffs, solos e vocalizações marcantes, cujo conjunto atende por nomes como “Gypsy”, “Caught in the Middle” (baita!), “Straight Through the Heart”, “Invisible” e “Shame on the Night” (mais pesada que bunda de elefante, alguém disse certa vez). Hoje, anos após sua morte, às vezes tenho a impressão de que não valorizamos o suficiente a gigante voz de Ronnie, por isso enfatizo mais ainda seu talento, que teve especial amostra em Holy Diver. Verti lágrimas no dia de sua morte, e não tenho vergonha alguma disso.
Eudes: Não sou exatamente fã de Dio, mas o disco é bom. Uma espécie de renascença, em termos mais rápidos e secos, dos modos do heavy metal setentista. Nesse caso, contudo, em que buscamos os melhores de todos os tempos, a láurea para Holy Diversó pode ser entendida como sinal da crise que assolou o rock mainstream nessa época.
Fernando: Dio foi um fenômeno. Deixou-nos logo porque também começou sua carreira bem antes dos seus contemporâneos musicais. Quando formou o Elf, já era um veterano na música. O que ele fez em Holy Diver foi uma mistura do que Rainbow e Black Sabbath fizeram quando ele esteve na banda. A diferença é que dessa vez quem puxava as rédeas era ele. Teve a sorte também de descobrir um garoto prodígio para a guitarra, Vivian Campbell, que se tornaria um desafeto no futuro. Contando com boa parte dos clássicos de sua banda solo, Holy Diver foi um marco no heavy metal.
José Leonardo: Em 1982, Ronnie James Dio deixou o Black Sabbath depois de dois grandes álbuns e formou uma banda com o nome de Dio juntamente com o baterista Vinny Appice, que tocou  junto com ele no Black Sabbath. O grupo foi completado pelo jovem e talentoso guitarrista Vivian Campbell e pelo baixista Jimmy Bain, que havia tocado com Ronnie no Rainbow de Ritchie Blackmore. Em 1983, a banda começou a gravar o seu álbum de estreia, Holy Diver, que foi lançado no mesmo ano.Holy Diver tornou-se outro  clássico do metal e é o terceiro  álbum clássico com os vocais de Ronnie James Dio, depois de Rising (1976), do Rainbow, e Heaven and Hell (1980), do Black Sabbath.  O disco contém muitos clássicos do heavy metal, como a ótima faixa-título, a melódica “Rainbow in the Dark”, a poderosa faixa de abertura, “Stand Up and Shout”, a épica “Don’t Talk to Strangers”, que tem uma das melhores performances vocais de Ronnie.  As demais, “Gypsy”, “Caught in the Middle”, “Invisible” e “Shame on the Night”, também são muito boas e mantêm a qualidade.  O desempenho de Ronnie é mais uma vez surpreendente, e também o jovem guitarrista Vivian Campbell mostra seu talento com ótimos riffs e solos melódicos. Ronnie provou que foi capaz de criar um grande álbum próprio, sem a ajuda de um lendário guitarrista (Ritchie Blackmore ou Tony Iommi). A propósito, ele escreveu todas as letras e produziu o disco. Essencial!
Leonardo: Misturando o peso de sua passagem pelo Black Sabbath, a classe do Rainbow e uma pitada do hard rock que efervescia nos Estados Unidos, Ronnie James Dio e a sua talentosíssima banda lançaram um dos mais emblemáticos discos do heavy metal oitentista. A faixa-título, “Stand Up and Shout”, “Don’t Talk to Strangers”… São tantos clássicos que fica até difícil citar alguma isoladamente. Mas é impossível não destacar o groove de “Caught in the Middle”, com sua melodia marcante e solo inspiradíssimo do guitarrista revelação Vivian Campbell. Tudo isso sem falar na performance de Dio, sempre impressionante.
Mairon: Surpresa total este álbum na primeira posição. Não que ele não mereça tal lugar, mas dificilmente pensaria que a estreia solo do baixinho mais gigante do heavy metal seria tão apreciada pelos consultores. Um disco que abre com a velocidade de “Stand Up and Shout”, bebe das veias sabbáthicas de Heaven and Hell na faixa-título, “Shame On the Night” e “Straight Through the Heart”, revela um dos mais brilhantes guitarristas de sua geração, Vivian Campbell, nas imortais “Don’t Talk to Strangers”, “Invisible” e “Gypsy”, mostra um lado pop desconhecido na carreira de Dio em “Rainbow in the Dark” (o grande sucesso do álbum) e “Caught in the Middle”, merece estar sempre nas listas de melhores, e a primeira posição com certeza não é mera fantasia. Pode até ser uma sequência do que Dio fez com o Black Sabbath, mas é uma sequência soberana, com o baixinho cantando muito. Parabéns pela escolha desse ano. Mais sobre a história deste álbum excelente já comentei aqui.
Rodrigo: Se tem algo que sempre achei impressionante na carreira de Ronnie James Dio, era a capacidade que o vocalista tinha de se reinventar. Afinal de contas, não existem muitos músicos por aí que podem dizer que fizeram parte de três bandas históricas. Quando saiu do Black Sabbath, em 1982, Dio resolveu embarcar em uma carreira solo. Para o primeiro álbum, figuras com quem já havia trabalhado antes, como Vinny Appice, do Black Sabbath, e o baixista Jimmy Bain, parceiro dos tempos de Rainbow. Mas foram os riffs do jovem guitarrista Vivian Campbell que contribuíram bastante para o sucesso do álbum. Este é o tipo de trabalho que ouço do começo ao fim sem pular uma faixa sequer, não importa quantas vezes já tenha feito isso. No lado A do LP, músicas como a faixa-título, “Caught in the Middle”, “Stand Up and Shout” e “Don’t Talk To Strangers” eram das favoritas dos fãs. Quem pensa que no Lado B a qualidade cai, está redondamente enganado. “Straight Trought the Heart”, “Invisible” e a espetacular “Rainbow in the Dark” são lembradas até hoje.
Ulisses: Após a briguinha infantil de Dio e Vinny Appice com Tony Iommi e Geezer Butler devido a supostas confusões na mixagem de Live Evil (1982), o baixinho mais arretado do metal decidiu finalmente estrear sua carreira solo, juntando um time de primeira: Vinny Appice na bateria, Jimmy Bain no baixo e – talvez o grande trunfo, tendo contribuído bastante nas composições – Vivian Campbell na guitarra. E, assim como nos seus tempos de Elf, Rainbow e Sabbath, Dio entregou não só mais um álbum essencial, mas também aquele que melhor o define. A junção entre peso e melodia é perfeita, criando porradas como a abertura “Stand Up and Shout” e “Straight Through the Heart”, e épicos como a faixa-título e a sublime “Don’t Talk to Strangers”, a melhor do disco. Além da clássica “Rainbow in the Dark” (que Dio quase jogou fora, por considerá-la muito farofeira), destaco a subestimada “Shame on the Night”, que encerra o disco com uma atmosfera doom e mística, e poderia figurar, sem dificuldades, em um disco como Heaven and Hell ou Mob Rules (1981). A perfeita síntese do heavy metal tradicional, Holy Diver é perfeito e essencial em qualquer coleção de quem se considere um apreciador da boa música. Simplesmente não existem adjetivos suficientes para descrevê-lo.
 
02 Kill 'em All
Metallica – Kill ‘em All (101 pontos)
André: Considero apenas um bom disco de estreia, pois, para mim, o Metallica se tornou o Metallica com Ride the Lightning (1984). Gosto de “Hit the Lights”, “Whiplash” e “Seek & Destroy”, enquanto as outras variam entre o bom e o mediano. Os vocais ainda esganiçados de Hetfield me incomodam se comparado com o desenvolvimento de sua voz nos discos posteriores. A banda tinha uma baita pegada e um potencial que viria a crescer muito com o passar dos anos, mas aqui ainda eram garotos tirando um som raivoso e sem muito cuidado com as composições.
Bernardo: O marco inicial do thrash metal para muita gente. Cru, rústico e tosco, ainda cheio da marra “Metal Up Your Ass” e com várias músicas espetacularmente rápidas, sujas e furiosas, como “Hit the Lights”, “Whiplash” e o hino “Seek & Destroy”.
Bruno: Apesar de ser considerado como um dos marcos zero do thrash metal, na época de lançamento deste disco e outros expoentes do gênero, como Show no Mercy, do Slayer, e Fistful of Metal, do Anthrax, o termo ainda nem existia. O som que o Metallica fazia em seu disco de estreia era conhecido como power metal, e tinha como características as guitarras gêmeas, riffs cortantes, velocidade, solos em profusão e letras que exaltavam o heavy metal (“Metal Militia”, “Seek & Destroy”, “Whiplash”). Se prestarmos atenção na produção e nos timbres, eles também são bastante diferentes do que ficaria comum no gênero, são mais agudos, emulando uma mistura de Judas Priest e Motörhead. O posto de disco pioneiro do thrash metal pode até ser disputado entre outros nomes, mas em termos de qualidade Kill ‘em All sai na frente. As composições são acima da média e o track list é recheado de clássicos: “Motorbreath”, “Hit the Lights” e “The Four Horsemen”, só pra citar alguns. Os riffs abafados e palhetadas de James Hetfield tornaram-se uma marca registrada do estilo. Um disco que pode soar bastante datado, mas sua influência e qualidade permanecem intactas.
Davi: Há quem odeie o Metallica a partir do Black Album (1991), há quem odeie a patir de Load (1996), mas ninguém odeia os quatro primeiros álbuns. Aula de heavy metal. Simples assim. Excelentes riffs, canções empolgantes. Os fãs de música pesada já haviam provado um pouquinho do grupo com sua participação na coletânea Metal Massacre (1982) com a ótima “Hit the Lights”. Dave Mustaine já estava fora, mas parte de suas criações foram mantidas, fato que causou as primeiras das eternas brigas.  Kill ‘em All mostra uma banda afiada, com um repertório matador. O único senão é o vocal de James Hetfield. Não que fosse ruim, mas prefiro os trabalhos vocais mais atuais, com mais graves. De todo modo, eles não derrubam o álbum. Destaque para “Jump in the Fire”, “No Remorse”, “Seek &Destroy”, “Whiplash” e “The Four Horsemen”.
Diogo: Apesar de meu favoritismo por Ride the Lightning, reconheço que o impacto de ouvir Kill ‘em All pela primeira vez, em 1983, deve ter sido dos mais fulminantes. Nem mesmo a ala mais extrema da NWOBHM, liderada pelo Venom, havia adiantado uma sonoridade tão pesada e cortante, mas ao mesmo tempo cativante, como aquela que o Metallica apresentou em seu primeiro registro oficial. Se o punk incitava o “faça você mesmo”, os thrashers da Califórnia fizeram eles mesmos, mas muito melhor, sem desculpas para incompetência técnica e mostrando garra felina. O charme punk habita canções como “Motorbreath” e “Hit the Lights”, mas o desejo de criar um trabalho com mais complexidade também mostra-se com galhardia, vide minha favorita, “The Four Horsemen”. Muita banda hoje em dia venderia a mãe para conseguir criar apenas um dos riffs que são ouvidos em músicas nas quais eles jorram como cascatas, como “Whiplash”, “Phantom Lord”, “Seek and Destroy”, “Metal Militia” e “No Remorse”, outra que merece ênfase especial. De ruim, apenas a produção um tanto amadora, mas condizente com a situação da época. Felizmente, isso e todo o resto melhoraria ainda mais no ano seguinte, quando a banda lançaria aquele que julgo ser o melhor disco de heavy metal de todos os tempos.
Eudes: Sempre achei o Metallica a banda grande mais bacana desse período. Rock tradicional tocado com vontade e inspiração. O grupo mostra que ser familiar com escalas, melodia e ritmo ainda era condição para seguir a carreira de músico. Isso sem perder, muito pelo contrário, o apelo rock ‘n’ roll. Não votei nele, mas tenho ouvido sempre desde que comecei a pensar nestas linhas que agora escrevo. Bacana.
Fernando: Respondi a um amigo certa vez que o Metallica criou seu som da seguinte maneira: “O Metallica pegou alguns discos da NWOBHM e tocou em sua vitrola em 45 RPM”. Naquela época muitos queriam ser os mais blasfemos, outros queriam ser mais pesados. O Metallica, e algumas bandas da mesma região, queriam ser os mais rápidos. “Whiplash” e “Motorbreath” são prova disso.
José Leonardo: Curto alguma coisa isolada do Metallica, mas a fase inicial, mais thrash, não é minha praia.
Leonardo: Unindo os riffs da NWOBHM com o andamento e a energia do punk/hardcore, o Metallica simplesmente criou um novo estilo, batizado de thrash metal. Não bastasse isso, a qualidade das composições de seu disco de estreia beira o absurdo. E ainda que o som da banda se desenvolvesse muito em seus álbuns seguintes, a energia e a vontade apresentadas neste disco jamais seriam igualadas. Poucos álbuns mudaram ou moldaram os caminhos da música, e este foi um deles. O melhor de 1983, para mim.
Mairon: A estreia do Metallica é um dos grandes álbuns do thrash metal mundial. Gosto muito dos vocais de Hetfield em todo o álbum, sem ser gutural e possibilitando entender as letras; e das levadas de Lars, que, falem mal, mas no Metallica só ele é capaz de tocar; mas principalmente da combinação de riffs entre guitarras e baixo em “Jump in the Fire” e “Whiplash”, o solo enérgico de Kirk Hammet na introdução de “No Remorse”, a ampliação técnica do punk em “Motorbreath”, as mudanças de andamento de “The Four Horsemen” e “Phantom Lord”, a velocidade de “Hit the Lights” e “Metal Militia”. Ou seja, um álbum excelente, que para completar tem a clássica “Seek & Destroy”, obrigatória para encerrar os shows da banda, e uma aula de como tocar baixo em “(Anesthesia) – Pulling Teeth”, registro histórico de um dos maiores baixistas da história, Cliff Burton, conforme a Consultoria do Rock elegeu recentemente, destruindo com escalas, wah-wah e uma distorção esmagadora. De chorar! No ano seguinte, com um álbum muito melhor trabalhado, o Metallica certamente figurará entre os melhores novamente (se não o melhor), mas ainda hoje a simpatia por esta estreia a(ni)madora me arranca arrepios.
Rodrigo: Em 1983, o heavy metal já era amplamente popular e as bandas estavam começando a diversificar seus trabalhos. No rasto de bandas como Motörhead, Judas Priest e outros surgiam grupos que não se contentaram apenas em tocar o mesmo estilo que seus ídolos. Eles elevaram o heavy metal a um novo patamar. Uma das bandas mais bem sucedidas nesse quesito foi o Metallica, que em 1983 lançou seu álbum de estreia, Kill ‘em All. Considerado até hoje como um dos melhores discos de thrash metal de todos os tempos, Kill ‘em All foi extremamente inovador e continua atual até os dias de hoje. A banda norte-americana surpreendeu os fãs de música e a imprensa especializada aberta ao apresentar músicas rápidas e pesadas, mas sem deixar de lado a qualidade das composições, evidenciada pelo bom trabalho dos músicos.
Ulisses: O marco zero do thrash metal. A mistura certeira de elementos da NWOBHM com a crueza do punk empolga desde o início, com a clássica “Hit the Lights”, até o final com “Metal Militia”. Hetfield e Hammett comandam muito bem as guitarras, com riffs e solos vorazes (aquele, com aquela voz gritada e inexperiente, que já viria a melhorar um pouco na sequência, e este, seguia mais ou menos a direção deixada por Mustaine, que não pararia de encher o saco de Hammett por causa disso). Lars está na média, mas pelo menos não toca com a preguiça de hoje dia, e Cliff, como todo mundo já sabe, mostra por que é tão cultuado em seu momento solo, “(Anesthesia) – Pulling Teeth”, apesar de, no restante do disco, a produção não ajudar muito com a aparição de seu instrumento. Canções como “The Four Horsemen” e “No Remorse” possuem viradas interessantes, e coexistem com as pedradas do naipe de “Motorbreath” e “Whiplash”, mantendo o interesse do ouvinte até o fim. Para encerrar, destaco o hino “Seek & Destroy”, cujo riff e refrão todo mundo já entoou milhares de vezes na vida.
 
03 Piece of Mind
Iron Maiden – Piece of Mind (85 pontos)
André: Seguindo a sequência de clássicos do Maiden, Piece of Mind prossegue na construção do sucesso que a banda obteve nos anos 1980 com louvor. Deste disco, também recheado de clássicos com temática de guerra, gosto principalmente de “Where Eagles Dare” e seu belo trabalho de guitarras de Dave Murray e Adrian Smith, “Flight of Icarus”, que é a minha música preferida deste disco, com um dos refrãos mais legais que Dickinson já compôs em sua carreira, e “The Trooper”, música que para muitos é a principal cara do Iron Maiden. Talvez o único lado negativo é que Nicko McBrain ainda parece muito preso e quadrado no disco, fazendo-me sentir falta da força de Clive Burr. Mas isso não compromete o excelente resultado geral que o Maiden conseguiu.
Bernardo: Ouvi muito quando era moleque.  Não é tão icônico e cheio de hinos quantoThe Number of the Beast (1982), mas as composições já são mais maduras e ambiciosas, porém sem perder a gana. Destaque para “The Trooper”, com seu ritmo de cavalgada, riff  marcante e a letra de cunho histórico, mostrando que o Maiden pretendia ir além com as capacidades vocais de Dickinson e a adição de Nicko na bateria.
Bruno: É o meu preferido do Iron Maiden com Bruce Dickinson. Apesar de gostar mais de Clive Burr nas baquetas do que de Nicko McBrain, o cara não fez feio em sua estreia, que traz mais um punhado de clássicos da banda. Não é tão celebrado quanto The Number of the Beast, mas o considero uma evolução do anterior.
Davi: Álbum marcado pela estréia de Nicko McBrain, que serviu para consolidar o grupo de vez. The Number of the Beast levou o grupo a outro patamar (tanto em termos de som quanto de popularidade). Esta era a prova de fogo, e não deixaram por menos. Vieram com outro álbum matador. A primeira fase do Iron não tem disco ruim. Os destaques, como não poderiam deixar de ser, são o vocal impressionante de Bruce Dickinson e o baixo mais do que destacado de Steve Harris. “The Trooper” certamente é o grande hino deste trabalho, mas existem outras faixas que são super manjadas entre os fãs da donzela. Entre elas, “Where Eagles Dare”, “Flight of Icarus” e “Die With Your Boots On”. Grande álbum. Que saudade dessa fase do Maiden…
Diogo: Mesmo “amansando” sua sonoridade original, o Iron Maiden registrou outro petardo na forma de Piece of Mind, abusando mais de melodias de fácil assimilação, como pode ser ouvido em “Flight of Icarus”, que já foi uma das minhas favoritas do grupo, mas hoje em dia não goza do mesmo status. Outras, porém, cresceram com o tempo, como é o caso de “Where Eagles Dare”, monstruoso cartão de visitas de Nicko McBrain e mais evidente conexão com a agressividade de discos anteriores, e “Revelations”. “The Trooper”, essa sim, desde sempre figura entre as melhores obras do grupo inglês e jamais abandonará esse posto, pois mostra o melhor do estilo de composição de Steve Harris, fazendo de seu baixo o fio condutor da canção, seguido por guitarras entrecortantes e um Bruce Dickinson fazendo jus ao posto de um dos grandes vocalistas de heavy metal. Apesar de algumas excelentes músicas, o Iron Maiden dá em Piece of Mind os primeiros sinais de cansaço, caso de “Quest for Fire” e “Sun and Steel”. “To Tame a Land” é tida por muitos como uma das preferidas da banda, mas a considero um tanto superestimada. Sim, a instrumentação é boa, em especial a performance de Steve Harris, mas as linhas vocais não são muito do meu agrado, e a letra menos ainda. De qualquer maneira, o saldo ainda é muito positivo.
Eudes: Ouço sem sofrimento. Os meninos da banda tocam bem. As características guitarras cruzadas seguem funcionando bem para empolgar ouvintes adolescentes, embora sejam previsíveis. Colocação do disco comprava o reinado do Iron ao longo dos anos 1980.
Fernando: Vejo Piece of Mind como um The Number of the Beast com mais melodia. A banda manteve o foco e sua musicalidade com mais classe ainda. Nicko McBrain tem na introdução de “Where Eagles Dare” um dos melhores cartões de visita para um músico recém chegado em um grupo. Pegue qualquer música deste álbum (exceto talvez “Quest for Fire” e “Sun and Steel”) e coloque em um set list de show. Além dos clássicos que já são tocados normalmente e nunca podem faltar, as outras seriam recebidas com alegria pelo público. Isso já quer dizer muito sobre a importância de um álbum.
José Leonardo: Torno a repetir: O Iron é a unica banda de heavy metal tradicional que curto bastante. E este segundo disco com o vocalista Bruce Dickinson é tão bom ou até melhor que o anterior. Para variar, mais uma mudança de time, dessa vez com Nicko McBrain substituindo o baterista Clive Burr, estabilizando a formação clássica por uns cinco anos, mais ou menos. Neste disco nota-se um amadurecimento em relação às letras na comparação com os álbum anteriores e melodias muito mais rebuscadas, sem contar a participação mais efetiva de Bruce Dickinson nas composições. Na minha opinião, nenhuma faixa é superflua e os destaques vão para “Where Eagles Dare”, “Revelations”, “The Trooper”, “Flight of Icarus”, “To Tame a Land” e “Still Life”.  Um disco “masterpiece”.
Leonardo: Na minha modesta opinião, o melhor disco da carreira do Iron Maiden. Refinado e complexo, mas ainda pesado, enérgico e empolgante, o grupo foi capaz de reunir uma coleção impressionante de canções neste álbum. A abertura com a épica “Where Eagles Dare” mostrou todo o talento do novo baterista Nicko McBrain, e a sequência “Revelations”, “Flight of Icarus” e “Die With Your Boots On” é de cair o queixo. O segundo lado abre com o clássico “The Trooper” e segue com uma das melhores músicas da banda, “Still Life”, infelizmente ignorada nos shows. Mais uma vez, não há como não citar o esplendoroso trabalho de guitarras da dupla Adrian Smith e Dave Murray e a voz de Bruce Dickinson. Mas, como em todo grande álbum, o que brilha em Piece of Mind são as composições, quase todas de autoria do baixista e chefe Steve Harris.
Mairon: Considero este álbum bem superior ao seu antecessor, apesar de não entrar em um top 5 dos meus preferidos do Iron Maiden. O grupo resgata um pouco o ímpeto punk da fase Di’Anno na excelente “Where Eagles Dare”, com um show das guitarras de Dave Murray e Adrian Smith; criam um dos melhores riffs da NWOBHM em “The Trooper”; e arrebentam as cordas vocais com “Flight of Icarus”, que considero superiores à clássica “Revelations”. Acho que o álbum peca nas comuns “Quest for Fire” e “Still Life”, e passa regular em “Die With Your Boots On” e “Sun and Steel”. Todavia, a melhor faixa do LP, a épica “To Tame a Land”, prepara o Iron Maiden para sua principal sequência de álbuns.
Rodrigo: Muitos me chamam de maluco quando comento isso, mas considero Piece of Mind, de longe, o trabalho menos inspirado lançado pelo Iron Maiden na década de 1980. Embora tenha músicas como “The Trooper”, “Flight of Icarus” e “Where Eagles Dare”, nunca achei que o resto do disco seja do mesmo nível. Felizmente a banda logo retomou a forma em Powerslave (1984).
Ulisses: Não gosto tanto deste álbum quanto dos outros clássicos que a banda fez na mesma época, mas ainda é um disco consistente e que não decepciona. Nicko McBrain, substituindo o saudoso Clive Burr, já mostra serviço logo no começo de “Where Eagles Dare”, e o grupo segue mantendo o pique nas ótimas “Flight of Icarus”, na manjada, mas muito boa “The Trooper”, e em “Sun and Steel”.
 
04 Melissa
Mercyful Fate – Melissa (61 pontos)
André: Curiosamente, sempre gostei muito mais dos discos de King Diamond do que do Mercyful Fate. Sempre falaram que Melissaé o melhor disco que o Rei Diamante já fez, mas não o tenho em tão alta conta quanto Abigail (1987) ou mesmo Voodoo(1998), do King Diamond. Um bom disco de estreia apenas.
Bernardo: Sou da turma que, apesar de curtir bastante o instrumental, não consigo passar pela voz de King Diamond. Mas admiro bastante a teatralidade e dramaticidade que ele gosta de imprimir nas músicas.
Bruno: Tem algumas composições boas e o instrumental é bem competente, mas o falsete do King Diamond não me desce de jeito nenhum. Passo tranquilamente.
Davi: Mercyful Fate é uma banda polêmica. Embora tocassem um som mais tradicional, suas letras muitas vezes abordavam temas satânicos, o que fez com que muitos os associassem ao black metal. Há quem os considere parte dessa cena, há quem diga que não tem nada a ver. Fora as letras polêmicas, outro grande marco, sem dúvida, é a voz de King Diamond, com seus falsetes inconfundíveis. Melissa é um marco não apenas na carreira da banda, mas no metal oitentista de maneira geral. Destaque para os clássicos “Curse of the Pharaohs”, “Into the Coven”, “Black Funeral” e “Melissa”. Típico disco que todo fã de musica pesada tem a obrigação de ouvir.
Diogo: Da improvável Dinamarca emergiu aquela que se tornaria uma das mais influentes bandas de heavy metal da década de 1980, inspirando artistas do underground ao mainstream e transformando-se em objeto de culto graças a seus dois primeiros álbuns, Melissa e Don’t Break the Oath (1984). Dificílimo definir qual é o melhor deles, mas por ora me basta afirmar quão merecido é o fato de Melissa figurar nesta lista. Tomando aquilo de melhor que a NWOBHM havia instituído e somando com as estruturas mais complexas do rock setentista adorado por seus integrantes, o Mercyful Fate  mostrou criatividade ímpar através de canções cheias das mais impressionantes dinâmicas, agregando em sete faixas ideias que serviriam para no mínimo mais dois discos, tamanha é a quantidade de boas sacadas, incluindo dezenas de riffs que fazem de Hank Shermann e Michael Denner uma das mais impactantes duplas de guitarristas da história do heavy metal. Além de tudo, o personagem King Diamond e o cantor Kim Bendix Petersen, capaz de interpretações fenomenais, fazem com que tudo ganhe uma aura ainda mais única, afastando totalmente possíveis comparações. Todas as músicas são excelentes, mas o dinamismo de “Satan’s Fall”, que faz com que uma faixa de 11 minutos soe como se tivesse quatro, é o elemento mais embasbacante da sonoridade do grupo. Mérito também para o baixista Timi Hansen e o baterista Kim Ruzz, que asseguram a solidez das canções. Classicaço!
Eudes: Disco bacana em que a  banda funde música pesada com tons mais discretos e sensíveis típicos de certas correntes do rock oitentista. O álbum é talvez o único desta lista que traz algo de novo e notável, quebrando o lugar-comum metálico que predomina desde a lista dedicada a 1980. Não o incluí na minha seleção pessoal, mas foi bom voltar, depois de muitos anos, a ouvi-lo de novo.
Fernando: Esqueçam um pouco a temática da banda, a maquiagem do vocalista ou a chamativa capa. Preste atenção na música desses caras e percebam que eles podem sim ter tido destaque por tudo aquilo que citei, mas eram compositores de mão cheia.Melissa não possui sequer uma faixa que nos dê vontade de pular, mesmo assim tenho a minha preferida, “Into the Coven”.
José Leonardo: Temos aqui um clássico do metal oitentista. O álbum de estreia da banda dinamarquesa é considerado seu melhor trabalho. Noto uma influência do Judas Priest. Não muito diferente de outras bandas de heavy metal do período, mas neste caso a marca registrada é a temática ocultista e satanista e o vocal peculiar de King Diamond, ou seja, sua extensão vocal, em particular o uso do falsete, além de sua forte presença de palco. Maquiado de forma sombria, King Diamond utiliza um microfone formado por uma tíbia e um fêmur, em cruz. Riffs poderosos e velocidade, mudanças de tempo e solos incendiários. Destaques para “Into the Coven”, “Black Funeral”, a épica “Satan’s Fall” e “Melissa”. Aliás, parece que “Melissa” era o apelido do crânio humano que o vocalista usava como parte do cenário de suas apresentações ao vivo.
Leonardo: Com um dos vocalistas mais carismáticos da cena heavy metal e uma dupla de guitarristas extremamente entrosada, o Mercyful Fate surgiu tomando a cena europeia de assalto, com um disco que influenciaria toda uma geração, tanto música quanto liricamente. O Venom já falava abertamente sobre ocultismo e satanismo em suas letras, mas ninguém levava a banda a sério. Já King Diamond se apresentava como um real praticante das artes negras, fato que dava ao Mercyful Fate uma aura muito mais sombria e sinistra. Musicalmente o disco é soberbo, uma coleção de riffs que se tornariam clássicos e composições inesquecíveis. A voz de King Diamond pode ser estranha ou exagerada na primeira audição, mas uma vez que se acostuma a ela, torna-se parte fundamental do som da banda.
Mairon: Heavy metal na cabeça, com influências da NWOBHM, mas tendo como diferencial o vocal enigmático e único de King Diamond, a estreia do Mercyful Fate é um álbum bastante coeso. As guitarras de Hank Shermann e Michael Denner são os principais atrativos, em um disco cujo maior destaque sem dúvida vai para a épica “Satan’s Fall”, com seus mais de 11 minutos de diversas variações. Não ficaria em um top 30 de 1983: é mais um exagero metálico que se revela pelos consultores.
Rodrigo: Do outro lado do Atlântico, o Mercyful Fate também estava pronto para assombrar o mundo com um heavy metal rápido, vigoroso, baseado em riffs de heavy metal clássico e trabalho exemplar de todos os músicos. Mas o grande destaque eram as letras e a performance completamente não ortodoxas do vocalista Kim Bendix Petersen, popularmente conhecido como King Diamond. As letras escritas por ele escritas causaram grande choque por tratarem de temas pouco usuais para bandas de heavy metal (pelo menos naquela época e de forma tão aberta), como satanismo e histórias de terror. Mais um caso clássico de álbum que deve ser escutado do começo ao fim, sem que seja pulada uma música sequer.
Ulisses: Eu lembro que, quando conheci o Mercyful Fate, foi devido a um apaixonado comentário que dizia, entre outras coisas, que “falar desse maravilhoso álbum é como falar da minha própria mãe”. Curioso, mergulhei no mundo satânico criado por esses dinamarqueses e, olha só, também me apaixonei. Também, pudera, o Mercyful Fate funde uma obsessão doentia pelo lado sombrio e oculto da existência com o peso de bandas como o Judas Priest e Angel Witch, fundamentado sob as guitarras de Hank Shermann e Michael Denner e, principalmente, as incríveis proezas vocais de Kim Petersen, o famoso King Diamond. O grande trunfo do grupo, a performance de Kim no Mercyful Fate (e em sua posterior carreira solo) é um caso sério de ame ou odeie entre os bangers. Eu fico do lado dos que amam. Como não se impressionar com seu fantástico alcance vocal, capaz de ir, com facilidade, dos mais maléficos gritos e rosnados ao mais atordoante falsete? Nada mais justo que esse pessoal cultue o coisa-ruim (ainda que em letras bem toscas), pois o que King e sua trupe fazem em Melissasó pode ser obra do cão. Não preciso destacar aqui nenhuma canção em particular, pois todo o álbum é fluído e digno de nota, sendo a épica “Satan’s Fall” a minha preferida. No ano seguinte, os dinamarqueses lançariam o também seminal Don’t Break the Oath, geralmente preferido por aqueles que apreciam seu som, mas eu fico mesmo com a caveira diabólica de Melissa. Aliás, eu já disse algumas vezes em outras ocasiões: se um dia eu chegar a ter uma filha, seu nome será Melissa. E a culpa é deste disco.
 
05 Balls to the Wall
Accept – Balls to the Wall (49 pontos)
André: Apesar de gostar mais de Restless and Wild (1982), foi este disco que fez do Accept um dos grandes destaques do rock alemão. Balls to the Wall seguiu no mesmo estilo do anterior, com guitarras tão cortantes quanto antes, os vocais esganiçados típicos de Udo e aquela pegada rítmica de bateria sempre ganchuda, cortesia do excelente Stefan Kaufmann. “Balls to the Wall” é a típica faixa grooveada de baixo e bateria com um refrão digno dos melhores grupos oitentistas de hard rock. “London Leatherboys” é mais heavy metal clássico, parecida com as bandas da NWOBHM. Para finalizar os destaques, “Losers and Winners” aposta na velocidade e em uma temática curiosa sobre o amor, no qual sempre há perdedores e vencedores. É um ótimo disco que eu aprecio bastante e não entrou na minha lista por pouco.
Bernardo: A faixa-título empolga bastante, com uma bela construção de atmosfera e uma criativa levada de ritmo. Mas é só. Não sei se é porque se encaixa no caso dos caras criarem uma cartilha que depois foi saturada,  mas depois da audição só me lembro da principal  música de trabalho mesmo.
Bruno: Um disco mais polido e bem mais acessível que o anterior, com a  presença da classicíssima faixa-título. Um álbum divertido no geral, mas aquém do anterior. Não merece ficar entre os dez mais.
Davi: O ano de 1983 foi ótimo para o heavy metal e também para o Accept. Os caras tinham a difícil missão de manter o nível atingido no clássico Restless and Wild e conseguiram. Não só mantiveram o nível, com criaram novos clássicos. Canções como “Balls to The Wall”, “London Leatherboys” e “Head Over Heels” até hoje destacam-se em suas apresentações. Essencial!
Diogo: Metallica, Dio, Mercyful Fate, Slayer e outros que me desculpem, mas o grande disco de 1983, pra mim, é Balls to the Wall. Redondíssimo, mais bem produzido e tocado que seu antecessor, o já ótimo Restless and Wild, o álbum tem como maior trunfo a homogeneidade de suas composições e a capacidade de cada uma delas cativar o ouvinte com poucas audições, pois atrás da parede de guitarras, dos coros e da voz esganiçada de Udo, estão melodias de fácil assimilação sobre as quais as letras (cortesia da empresária da banda, Gaby Hauke) encaixam-se sem trauma. Wolf Hoffmann, apesar de não ser um guitarrista extraordinário, é talentoso ao fundir suas influências eruditas ao rock ‘n’ roll de maneira muito mais fluída que muitos artistas mais presunçosos que surgiram anteriormente. Observo a recorrente citação da faixa-título como a de maior destaque (e sim, ela foi muito feliz em sintetizar a sonoridade do disco), mas ressalto que todo o track list é equilibrado, destacando-se um pouco mais na minha opinião “Fight It Back”, “Losing More Than You’ve Ever Had” e “Losers and Winners”, além da minha canção favorita do Accept, a balada “Head Over Heels”, perfeita amostra da simplicidade melódica bem engendrada do quinteto alemão. Ouço-a sempre como se fosse a primeira vez, com grande empolgação.
Eudes: Não conhecia o disco. Ouvi agora para elaborar o comentário. Diagnóstico: pensava que era o disco de 1982.
Fernando: O heavy metal é um ambiente quase que exclusivamente masculino. Ainda mais em 1983. Balls to the Wall transborda testosterona, mesmo que a capa com a perna cabeluda tente desmentir isso. Este disco fez a banda ser conhecida nos Estados Unidos, e quase todas as faixas têm vários ganchos que grudam rapidamente na cabeça.
José Leonardo: Como afirmei em comentários anteriores, este é o único disco deles do qual conheço alguma coisa, ou seja, a faixa-título, “London Leatherboys”  e talvez alguma outra. Repito: boa banda, competente e com bons músicos. Mas acho que é só isso
Leonardo: Mais um desfile de clássicos dos alemães. Mais refinado que seu antecessor,Balls to the Wall apresenta uma coleção de canções mais cadenciadas, com riffs e andamentos muito marcantes, como a fenomenal faixa-título. O vocal esganiçado de Udo pode soar estranho a princípio, mas se encaixa perfeitamente à sonoridade do grupo. Outro destaque incontestável é o guitarrista Wolf Hoffmann, sempre preciso e dono de uma classe rara. Para quem não o conhece, “Head Over Heels”, “Love Child” e “Losers and Winners” são uma ótima apresentação ao som do grupo.
Mairon: Uma das piores capas do heavy metal tradicional apresenta um disco mais do mesmo do grupo alemão. Em comparação ao seu antecessor, nenhuma novidade. Riffs comuns, a voz característica e gritante de Udo e mais um álbum sem fundamento nessas listas de melhores. Para não citar nenhuma canção, ficam a faixa-título e “Losers and Winners” como audíveis, mas não é um álbum que eu vá adquirir para ouvir com frequência. E por favor né, uns baita barbados fazendo algo tão meloso como “Winter Dreams” não dá.
Rodrigo: Ao contrário da maioria das pessoas, prefiro a fase atual do Accept àquela considerada clássica, com o vocalista Udo Dirkschneider. Mesmo tendo isso em mente, é impossível renegar a importância que este álbum tem para a história do heavy metal. Impossível não lembrar do clássico “Balls to the Wall” e seu videoclipe que era exibido à exaustão na MTV.
Ulisses: Engana-se quem pensa que o Accept atingira seu ponto máximo em Restless and Wild. Foram os refrãos grudentos e a atmosfera ora romântica, ora sensual deBalls to the Wall que levaram os germânicos ao topo. As melodias aqui chegaram a um nível absurdamente alto, mas sem deixar o peso de lado, como evidenciado nas pérolas “Love Child”, “London Leatherboys” e “Guardian of the Night”. A faixa-título é um clássico absoluto e marcou toda uma geração, mas a menina dos meus olhos é “Losing More Than You’ve Ever Had”.
 
06 Show No Mercy
Slayer – Show No Mercy (47 pontos)
André: Outra banda entre as “clássicas” do Metal pela qual não tenho tanta estima. Mais um debut (são quatro só nesta lista), o Slayer faz um thrash metal focado no peso e em muitas blasfêmias, mas confesso que prefiro mais o Exodus e o Anthrax nos Estados Unidos e a trinca alemã formada por Kreator, Destruction e Sodom. Sem contar o nosso Sepultura. Este Show No Mercy é veloz e tem boa variedade de riffs, mas o que é digno de elogios em relação a este disco são os solos de guitarra de Hanneman e King, de um bom gosto e de uma técnica impressionante. Os de “Die By the Sword” e “Crionics” são meus preferidos. É um bom disco, que me despertou interesse em ouvir mais coisas da banda.
Bernardo: Malvado até o osso, com uma produção ruim até o osso, fazendo uma barulhada infernal com influências da NWOBHM que nessa época ainda pouco fazia para se destacar do resto.
Bruno: Dos primeiros trabalhos do Slayer, este é o que menos gosto. Não consegue me empolgar como o impecável Reign in Blood (1986) ou o excelente South of Heaven (1988), apesar de reconhecer sua importância para os primórdios da música extrema.
Davi: Belo trabalho de estreia do Slayer.  Considerado um dos marcos iniciais do thrash metal, ao lado de Kill ‘em All, mostrava os músicos começando a buscar seu caminho. Algumas características neste álbum foram abandonadas nos trabalhos posteriores. A imagem satânica com cruzes e pintura no rosto, os agudos de Tom Araya… Mesmo assim, a qualidade das composições é alta e sua audição é empolgante. “Evil Has No Boundaries”, “The Antichrist”, “Die By The Sword” e “Black Magic” levantam até defunto.
Diogo: Caro leitor, quero ter uma conversa séria com você agora. Você tem filhos? Se tem algum amor a eles, imagino que não queira vê-los mergulhados em um oceano de más vibrações, agressividade, vícios e a mais evidente adoração ao tinhoso, não? Pois então não deve, de maneira alguma, permitir que sua prole tome contato com esta obra amaldiçoada intitulada Show No Mercy, pois é justamente isso que ela representa. Ou você esperava algo diferente de canções (se é que posso assim chamá-las) cujos títulos traduzem-se em “O Mal Não Tem Limites”, “O Anticristo”, “Morra pela Espada” e “Magia Negra”? Mesmo que seus filhos não entendam sequer uma palavra de inglês, pode ter certeza que a atmosfera demoníaca criada por aqueles “senhores” chamados Jeff Hanneman, Kerry King, Tom Araya e Dave Lombardo é mais que suficiente para causar danos irreversíveis ao cérebro em formação de jovens propensos a dar ouvidos a qualquer falso profeta escondido sob uma aura de livre expressão. Tomem uma atitude enquanto há tempo, pois muitos já se perderam pelo caminho. Eu sou um deles, e nunca mais o reencontrei.
Eudes: Não conhecia. Parei na metade. Nesse tempo eu já era velho demais para isso. Passei.
Fernando: Comecei a gostar de Slayer por conta de duas músicas: “Evil Has no Boundaries” e “The Antichrist”. Isso foi por volta de 1993. No ano seguinte, vi a banda executando as duas faixas na saudosa primeira edição do festival Monsters of Rock. Depois disso, virei fã incondicional. As duas músicas presentes em Show No Mercyme fizeram ter este álbum como o favorito por muito tempo. Só depois reconheci a importância de Reign in Blood e South of Heaven para o heavy metal em geral e ele caiu um pouco no meu ranking pessoal. Pena que a gravação não tenha a mesma qualidade que o disco seguinte, pois tenho certeza que isso ajudaria a fortalecer as faixas deste ótimo disco de estreia. Engraçado notar que a rebeldia/blasfêmia juvenil se refletiu até na identificação dos lados do disco, no qual os lados A e B tornaram-se os lados 6 e 66.
José Leonardo: Passo. Não é minha praia. Nem consigo ouvir um disco inteiro…
Leonardo: Assim como o Metallica no mesmo ano, o Slayer surgiu unindo os riffs e a classe da NWOBHM com a energia e a velocidade do punk e do hardcore. Mas além disso, o Slayer seguia uma temática muito mais negra e satânica em suas letras, estilo incomum nos Estados Unidos na época. Mas, como o que importa é a música, o que a banda apresentou em Show No Mercy não era nada menos que espetacular. Riffs altamente influenciados pelo Iron Maiden, como em “Crionics”, mas tocados a uma velocidade alucinante, solos rápidos e caóticos e os vocais ainda agudos de Tom Araya formavam uma mistura improvável mas altamente eficiente. O grupo ainda encontraria um estilo mais próprio no futuro, mas as composições deste disco de estreia passariam com mérito no teste do tempo, sendo requisitadas até hoje nos shows da banda.
Mairon: 1983 foi o grande ano da música na década de 1980. O renascimento do Yes como um expoente pop, a despedida do Pink Floyd e o Genesis mergulhado nos sintetizadores marcaram definitivamente o fim do rock progressivo no Reino Unido. No Brasil, porém, Bacamarte, Marco Antonio Araújo e Quintal de Clorofila remavam contra a maré, lançando aqueles que considero os melhores álbuns prog já feitos em nossas terras. Ainda no Reino Unido, David Bowie saía das cinzas do sucesso de “Ashes to Ashes” para virar o maior artista da música mundial com Let’s Dance (injustamente fora desta lista). E ainda, nos Estados Unidos, nasciam duas das maiores bandas do thrash metal mundial, Metallica e Slayer. Antes das duas, o metal era pesado e com alguma virtuose, mas depois delas, ganhou uma velocidade descomunal e riffs não mais cantaroláveis, mas para quebrar pescoços mundo afora. A diferença do Slayer para o Metallica é que a veia punk pulsa muito mais forte, tornando o som mais cru. Ao mesmo tempo, os solos de Jeff Hannemann e Kerry King são mais agressivos e barulhentos que a técnica de Kirk Hammett. Por outro lado, Dave Lombardo está anos-luz à frente de Lars Ulrich, mesmo fazendo o que para ele é muito básico. A velocidade que o homem aplica nas marcações é única no thrash metal. E Tom Araya? Preciso dizer algo sobre o mais carismático baixista/vocalista do thrash? Quanto a Show no Mercy, resumo dizendo que é magnífico do início ao fim, e só não é a perfeição thrash porque, em 1986, os californianos se superaram. Para saber mais sobre o disco, leia minha Discografia Comentada do grupo. Para não ficar sem citar uma canção, ouçam as obras-primas “Crionics” e “Metalstorm/Face the Slayer” e permitam-se introduzir no mundo satânico da maior banda thrash de todos os tempos.
Rodrigo: Em 1983, outra banda californiana deixou o mundo da música boquiaberto ao lançar seu trabalho de estreia repleto de composições rápidas, com letras que abordavam temas como satanismo. Poucos são os grupos que podem se orgulhar de terem lançado um álbum de estreia tão impactante e consistente quanto Show No Mercy. O trabalho é repleto de músicas definitivas do thrash metal, como “The Antichrist”, “Dye By the Sword”, “Fight Till Death” e “Black Magic”. Foi um começo de carreira fulminante para a banda que mais contribuiu para botar o filho dos outros no caminho da vida torta.
Ulisses: Enquanto o Metallica distanciava-se de letras profanas, o Slayer as recebia de braços abertos. Iniciando a carreira com covers de Judas Priest e Iron Maiden, foi a influência de bandas como Venom e até do próprio Metallica que os levou a compor petardos como “Black Magic” e “Die By the Sword”. Araya supreende ao mandar até notas agudas no meio das canções, enquanto Dave Lombardo, então com apenas 18 anos, já impressionava no comando das baquetas – basta dar uma rápida checada na faixa-título.
 
07 The Final Cut
Pink Floyd – The Final Cut (43 pontos)
André: Basicamente, um monte de lamúrias políticas por parte de Roger Waters com um pouco de música ao fundo. Depois de ver este álbum entre os dez melhores, já estou me preparando psicologicamente para comentar discos como o Lulu (Metallica e Lou Reed, 2011) e similares.
Bernardo: Ouvi, quase dormi e esqueci. O rock progressivo nos anos 1980 era um zumbi, e a trupe britânica estava basicamente chutando cachorro morto.
Bruno: Não tenho paciência pra nada do Pink Floyd pós-The Wall (1979).
Davi: Em um ano marcado pela explosão do heavy metal, o Pink Floyd conseguiu se destacar com esse belo trabalho mantendo a sua essência. Com arranjos densos e belos, os caras dão uma aula de composição nesse disco cuja audição é intrigante do início ao fim. Vale a pena ouvir.
Diogo: Quando penso em The Final Cut, penso em cansaço. Cansaço em ouvir um disco que sequer tem lampejos dos magníficos discos anteriores da banda, a não ser o fato de que algumas músicas, no máximo, comparam-se às menos memoráveis do antecessor, The Wall. Cansaço do grupo, fato que fica evidente ao ouvir um outrora genial Roger Waters mergulhado excessivamente no abismo de sua mente e dela extraindo canções que não chegam aos pés de clássicos registrados poucos anos antes. David Gilmour e Nick Mason então, são totalmente relegados a um segundo plano. Ao menos o disco tem personalidade, coisa que o insosso posterior A Momentary Lapse of Reason (1987), já sem Waters, não tem. Não chego a considerar The Final Cutruim; na verdade julgo-o melhor que alguns álbuns que já deram as caras nesta série, mas sua inclusão aqui certamente é das mais injustificáveis. Mil vezes um disco de heavy metal cuja relevância é questionável, mas que empolga de ponta a ponta, do que este brochado The Final Cut.
Eudes: The Final Cut marca um fato que já se sabia: o Pink Floyd não existia mais. Fruto do seu total domínio sobre a trade mark Pink Floyd, Waters mais uma vez pensa que é Gershwin ou Townshend e comete um disco conceitual em que a pretensão e o chororô só não são piores do que as fraquíssimas melodias registradas. Para completar, os arranjadores foram acometidos de uma onda de mau gosto que transforma tudo em paisagens de filmes lacrimogêneos de Hollywood. Chato é que depois de vencer na Justiça batalha contra Waters pelo nome da banda, Gilmour continuou arrastando a gloriosa bandeira na lama. Os anos 1980 foram mesmo um inferno!
Fernando: Sei que choverão críticas pelo fato deste disco ter entrado. Acho até que essas críticas são válidas por reconhecer que o grande público não gosta de The Final Cut. Porém, fico pessoalmente satisfeito. Gosto demais do álbum e já expressei meu respeito por ele nessa matéria.
José Leonardo: Disco polêmico, idolatrado por uns e odiado por outros, The Final Cut é o primeiro trabalho do Pink Floyd sob o total comando do baixista Roger Waters. A banda, reduzida a um trio, com o guitarrista David Gilmour e o baterista Nick Mason aparentemente como coadjuvantes e a saída de Richard Wright, até hoje não muito esclarecida, é acrescida por diversos músicos convidados. Na minha opinião, nao é tão ruim quanto alguns podem dizer. Na verdade, acho que este álbum é muito subestimado. Grandes letras e algumas ótimas canções. Pegando carona na veia autobiográfica e antibélica de The Wall, The Final Cut, cujo subtítulo é “A Requiem for the Post-War Dream” e é dedicado ao pai de Roger, morto durante a Segunda Guerra Mundial, leva a narrativa para um dos mais despropositados conflitos ocidentais de que se tem notícia, a Gerra das Malvinas, entre Inglaterra e Argentina. Temos belos arranjos de cordas na faixa de abertura, “The Post War Dream”; ótimas performances de Gilmour, como o solo em “Your Possible Pasts”; a melancolia de “One of the Few”; em “The Hero’s Retur”n parece tentar mudar o clima arrastado das canções anteriores, com um toque meio oriental (a versão em single tem um verso a mais); a extraordinária mixagem da voz de Waters e o saxofone na triste e lenta “The Gunner’s Dream”; o lirismo de “Paranoid Eyes”, que tem um belo piano; “Get Your Filthy Hands Off My Desert”, com seus efeitos sonoros; o ápice da melancolia em “The Fletcher Memorial Home”, o folk de “Southampton Dock”;  a faixa-título “The Final Cut”, que mostra David Gilmour em um de seus melhores solos; a pesada “Not Now John”, com vocais de Gilmour, interrompida em alguns momentos por Waters e ótimos vocais de apoio femininos; e a derradeira e apocalíptica “Two Suns in the Sunset”, com destaque para o saxofone tenor. Obviamente está a anos-luz da genialidade de The Dark Side of the Moon (1973) e Wish You Were Here (1975), mas mesmo assim é um belo disco.
Leonardo: Cansativo ao extremo. Se no auge já era difícil ouvir um disco da banda por completo, em 1983 era tarefa quase impossível…
Mairon: Esse álbum é o clássico AME ou ODEIE. Foi o primeiro disco do Pink Floyd que tive (ganhei de aniversário, quando completei 6 anos) e todo ele foi marcante para mim. A voz dolorida de Waters, lamentando a morte do pai e ampliando a história deThe Wall de maneira comovente, assusta-me até os dias de hoje. Quem critica o álbum por não existir nele o Pink Floyd de outrora, na verdade é uma viúva marota de David Gilmour. As letras fortes, os arranjos fabulosos, uma interpretação tocante, tudo construído pela genial mente de Waters, em um dos melhores discos da banda. Claro, se tivesse sido lançado como obra da carreira solo de Waters, com certeza os detratores não torceriam tanto o nariz para The Final Cut. Difícil destacar uma canção em especial, já que o álbum inteiro se complementa, mas se fosse para escolher três, apresentaria “Your Possible Pasts”, “The Fletcher Memorial Home” e a faixa-título. O único deslize é aquela que destoa totalmente da proposta do disco, “Not Now John”, curiosamente a única que os xiitas relevam por conta de o personagem principal ser Gilmour. Perdoem-nos, Mr. Waters, eles não sabem de nada.
Rodrigo: O último álbum gravado por Roger Waters com o Pink Floyd está longe de ser um dos meus favoritos. Com as tensões internas cada vez maiores e a briga pelo controle criativo do grupo, o conceito do álbum e suas composições foram todos criados por Roger Waters, tendo os outros músicos participado apenas de sua execução. Ao meu ver, esse é o maior problema do álbum. Apostando em conceitos que já haviam dado certo em outros trabalhos, a fórmula deu sinais de desgaste, fato que acabou fazendo com que o álbum se tornasse cansativo, difícil de escutar.
Ulisses: Demasiadamente atmosférico (tirando “Not Now John”, que foge um pouco da direção do disco), é também o mais emocional na discografia do grupo, assim como denso, crítico e pessimista. Há muito enfoque na temática e não muito na musicalidade, fato que gerou tensão entre Waters e Gilmour. Mesmo sob pressão, o guitarrista entrega bons momentos, como no solo da ótima “Your Possible Pasts”. Todas as canções são assinadas por Waters, e as contribuições de Gilmour e Mason são mínimas – pra não falar de Wright, que àquela altura já não fazia mais parte do quarteto. Não é um clássico, mas também não é ruim. A dificuldade está em mergulhar no clima do disco, mas depois que você o faz, a audição até que se torna agradável.
 
08 Lick It Up
Kiss – Lick It Up (33 pontos)
André: Com a banda entrando de vez na moda farofa que inundava as rádios na época, o Kiss se reinventou com mais um disco excelente e pegajoso, cheio de malícia e de veneno. É o meu álbum preferido da fase desmascarada. Falem o que for, mas “Lick It Up” já nasceu clássica e com a cara linguaruda do Kiss e a voz de Stanley se encaixa muito melhor nessa linha glam metal do que na fase pop/disco. O videoclipe dessa canção é simplesmente hilário. “Young and Wasted” demonstra que as canções mais pesadas ficam bem melhores na voz rouca de Simmons. “Fits Like a Glove” traz um belo trabalho de guitarras de Vinnie Vincent a um rock direto e sem firulas de Gene Simmons. Por sinal, Vincent é considerado por muitos a salvação do Kiss oitentista. Se pensarmos que os dois álbuns em que ele participou foram os melhores do Kiss na década, essa afirmação não soa errada. Lamentavelmente, essa união não foi para frente e o Kiss mergulhou em um período negro de álbuns que variam do ruim ao mediano.
Bernardo: Entendo gente que ouve esses discos do Kiss tanto quanto gente que continua vendo filme do Woody Allen todo ano. De onde vocês arranjam paciência, sério? Na metade do disco já tava querendo ver uns vídeos no YouTube.
Bruno: Depois de voltar às origens com o pesado Creatures of the Night (1982), o Kiss tentou mais uma vez se reinventar e se alinhar com o som da época, e lançou um álbum mais pop, com a sonoridade bem próxima ao hair metal que estava em voga. Está longe de ser ruim, mas também não chega nem perto de ser um dos grandes álbuns do Kiss. Depois deste eles foram ladeira abaixo nos anos 1980, com uma porcaria atrás da outra, e só foram voltar a produzir alguma coisa relevante comRevenge (1992).
Davi: Se Creatures of the Night foi o grupo se reencontrando musicalmente, Lick It Up foi a banda se vendo de volta ao mercado. Depois de atravessar um período negro, com três álbuns não tão bem sucedidos comercialmente, o Kiss voltou com tudo invadindo as rádios e as televisões com a canção “Lick It Up”. Depois de muito mistério, seus rostos finalmente foram revelados. A sonoridade mantinha muito da pegada heavy rock do Creatures, além de trazer um Paul Stanley cada vez mais solto nas cordas vocais. Trabalho inspiradíssimo. Um dos pontos altos da bela discografia do grupo. Destaques: “Not for the Innocent”, “Young and Wasted”, “Fits Like a Glove”, “And on the 8th Day” e “Gimme More”. Infelizmente, esse line-up registrou apenas este disco graças ao ego do talentoso Vinnie Vincent.
Diogo: Tecnicamente, minha formação favorita do Kiss conta, além de Paul Stanley e Gene Simmons, com Eric Carr e Vinnie Vincent, justamente a deste Lick It Up. O principal motivo para isso, além da sempre ótima performance de Eric, são as linhas de guitarra encontradas no álbum, cujo conjunto provavelmente é meu favorito entre todos os registros do grupo. Podem até faltar mais composições de alto nível para justificar a inclusão deste disco nesta lista, que julgo exagerada, mas o trabalho de Vincent é sensacional, equilibrando peso, melodia, timbre, técnica e o que mais for, caindo como uma luva naquilo que o Kiss buscava alcançar com sua curva de direcionamento iniciada em Creatures of the Night. É uma pena mesmo que esse quarteto tenha ficado unido formalmente por apenas um álbum, mas foi o suficiente para entregar algumas ótimas músicas, como é o caso “Not for the Innocent” e a faixa-título, além das fenomenais “Exciter” (minha favorita) e “A Million to One”, duas mostras de que a união entre Paul e Vinnie ainda poderia render muita coisa boa. Mas insisto: prestem atenção nas guitarras, pois mesmo em músicas não tão boas assim, como “Young and Wasted”, “Gimme More” e “All Hell’s Breakin’ Loose”, não é brincadeira o que Vinnie está tocando. Entre os discos do Kiss sem máscaras, o único comparável a Lick It Up é Revenge.
Eudes: Eis o mistério da fé! Kiss emplaca discos seguidos na série em sua fase marcada por sua galopante decadência. Isso merece um estudo.
Fernando: Faço parte daqueles fãs do Kiss que gostam de todas suas fases e fecham um poucos os olhos para as coisas menos nobres que a “banda” fez. Escrevo “banda” entre aspas já que é de conhecimento geral que os integrantes oficiais do grupo raramente eram vistos juntos em estúdio e muitas vezes nem gravavam algumas das músicas. Estranho este disco ter entrado, já que sua única composição mais forte é a faixa-título. E falo isso mesmo gostando de várias outras, como “Not for the Innocent” e “All Hell’s Breakin’ Loose”.
José Leonardo: Repito o que escrevi antes: todos sabem que nunca curti o Kiss, nem quando era adolescente. A banda nunca me cativou com seu rock festeiro. E para piorar este nem tem Ace Frehley!
Leonardo: Com o fracasso comercial de Creatures of the Night, o Kiss decidiu tomar uma atitude extremamente ousada, retirar as máscaras que os fizeram famosos e revelar seus rostos e identidades. Mas quem achava que o som também teria alguma mudança drástica em relação ao disco anterior se enganou. Musicalmente, Lick It Upseguia exatamente de onde Creatures of the Night parou, investindo em um hard rock pesado, beirando o heavy metal, com muita ênfase nas guitarras de Vinnie Vincent e na bateria de Eric Carr. A aposta no novo visual foi um sucesso, com o videoclipe da faixa-título explodindo na recém-nascida MTV e dando uma nova vida ao grupo, que renasceria para os anos 1980 a partir deste álbum. Contudo, Lick It Up é muito mais que a faixa-título. Riffs pesados como os de “Fits Like a Glove”, o lado maléfico de Gene Simmons em “Not for the Innocent”, o peso de “Exciter”… Tudo o que um fã do Kiss espera está presente no disco. E há ainda uma das melhores baladas compostas por Paul Stanley, a fenomenal “A Million to One”.
Mairon: O Kiss tirou as máscaras depois da turnê de Creatures of the Night e acabou. Daí veio o mesmo quarteto, sem máscaras, e criou uma nova banda, farofenta e sem graça, chamada Kiss. Lick It Up, álbum de estreia dessa banda, é bem representativo do que foi o hard rock nos anos 1980, com canções melosas sobre amor e sexo, solos de guitarra virtuosos e refrãos grudentos, mas não é dos melhores trabalhos que já ouvi. Claro que é legal de ouvir o rockzão “Fits Like a Glove” (uma das letras mais sacanas que Gene Simmons já cantou), a pancada “Young and Wasted” ou “Exciter”, que abre o disco com a sensação de que teremos uma boa continuação paraCreatures of the Night, mas quando as melhores músicas de um disco do Kiss são as cantadas por Gene, sendo que a única realmente boa cantada por Paul é “Gimme More”, significa que algo está errado. Dificilmente coloco Lick It Up na vitrola (havia um bom tempo que não tocava nele) simplesmente porque não tem nada de mais. Em 1983 houve muito material melhor, principalmente no Brasil.
Rodrigo: Nunca gostei de Kiss.
Ulisses: Tirar a maquiagem não ajudou em nada a melhorar o som…
 
09 Into Glory Ride
Manowar – Into the Glory Ride (32 pontos)
André: Gosto muito mais deste álbum do que de Battle Hymns (1982). O Manowar é aquela típica banda clichê e cheia de lambanças em cima do heavy metal, mas os caras tocam bem e sabem compor músicas divertidas. E o mais interessante desses primeiros discos é que eles ainda tinham muita pegada do bom e velho hard rock, o que dá uma melhorada e tanto em suas composições. “Gloves of Metal” é o ápice deste disco, com direito a couro, spikes e cabeças bangueando em simetria no videoclipe, como todo metal tradicional deve ter.
Bernardo: Hahahahaha, tá ok, essa foi engraçada, galera. Cadê o disco que entrou de verdade?
Bruno: Só pode ser piada né?
Davi: Gosto muito do Manowar, mas este disco nunca figurou entre meus preferidos do grupo. Pelo contrário, o considero o mais fraco da primeira fase. Não o colocaria entre os dez mais de 1983. Sorry.
Diogo: Comentei na edição passada desta série que considero o primeiro álbum da banda, Battle Hymns (1982), o menos interessante entre seus quatro primeiros. Não à toa, a música que melhor se conecta com ele é a única da qual não gosto tanto emInto Glory Ride, “Warlord”, faixa de abertura. Mesmo assim, não posso deixar de admitir: que discaço! De “Secret of Steel” a “March for Revenge (By the Soldiers of Death)”, é pedrada atrás de pedrada, com Joey DeMaio, Ross the Boss e Scott Columbus descendo a mão em seus instrumentos como se o estoque de cordas, peles e baquetas fosse infinito, além da performance de Eric Adams ser marcante como sempre, por mais que alguns ignorem até sua capacidade técnica invejável. Podem continuar com as piadinhas relacionadas à banda, pois se pura diversão for motivo para riso, eu quero mais é motivar ataques dos mais compulsivos, continuando a ouvir canções como as ótimas “Gloves of Metal”, “Gates of Valhalla” e “Revelation (Death’s Angel)” até me tornar um velho senil. Talvez senil eu já seja.
Eudes: Outro que não conhecia antes de ser instado a ouvi-lo pela publicação da lista de melhores. Mas poderia morrer sem esta! Passo.
Fernando: Não esperava que este disco entrasse na lista final, já que não possui faixas tão marcantes quanto o álbum de estreia e o seguinte, Hail to England (1984). Mas esse pode ser um daqueles casos em que um álbum menor acaba tendo sua importância elevada quando lançado entre dois bons discos.
José Leonardo: Outra banda que nunca me chamou atenção. O visual também não ajuda e deixa a coisa meio ridícula. Definitivamente, tô fora!
Leonardo: Mais uma vez, independente da capa cafona ou do que o futuro reservaria para o quarteto norte-americano, é impossível negar a qualidade dos primeiros trabalhos do Manowar. Em seu segundo disco, Into Glory Ride, o grupo definiu o estilo o que o faria famoso, o heavy metal épico. Após uma faixa de abertura mais despojada e rock ‘n’ roll, que lembra o que a banda havia feito em seu disco anterior,Into Glory Ride passa a ser um desfile de riffs e interpretações fortes e cadenciadas, que somados às letras com inspiração na mitologia nórdica, se tornaram a trilha sonora perfeita para os quadrinhos de Conan ou para os livros de JRR Tolkien. Exceto pela cansativa “Hatred”, todas as demais faixas têm esse clima épico e medieval, e têm a capacidade de remeter o ouvinte à Ciméria, a um campo de batalha viking ou ao próprio inferno, onde o diabo em pessoa nos espera. Parece um exagero? Sim, e definitivamente o é. Mas há algo mais exagerado do que Conan ou as histórias da Terra Média? Portanto, não encare o disco ou a banda como algo sério, e sim como diversão, como o bom rock ‘n’ roll costuma ser. Ou existe algo mais chato do que uma banda de rock “séria”? Na dúvida, escute “Gates of Valhalla”, “Secret of Steel” ou “Revelation (Death’s Angel)” e tire suas próprias conclusões. Elas continuam me divertindo mesmo depois de 20 anos que as ouvi pela primeira vez…
Mairon: Se Battle Hymns não havia conquistado meus ouvidos, também não foi comInto Glory Ride que me aticei a conferir a discografia do Manowar. Tirando a épica “Gates of Valhalla” e “Revelation (Deaths Angel)”, o que ouvi foi muita testosterona para pouca inspiração. Para piorar, a voz de Eric Adams é terrível. Não é o tipo de música que ouviria todos os dias, e tampouco é digno de entrar em uma lista de melhores deixando de lado obras singulares como Depois do Fim (Bacamarte) ouEntre um Silêncio e Outro (Marco Antonio Araújo). Nem cito Let’s Dance (David Bowie) porque essa ausência nunca se justificará. Muita testosterona e gritaria para pouca música.
Rodrigo: Após estrear de maneira triunfal com o excelente Battle Hyms no ano anterior, os norte-americanos do Manowar tinham um grande desafio pela frente: conseguir manter a boa impressão causada com o disco de estreia. E a banda alcançou o objetivo com louvor. Into Glory Ride é um dos melhores trabalhos da carreira do Manowar. O disco que marcou a estreia do baterista Scott Columbus mantém a pegada demonstrada no primeiro lançamento e conta com grandes canções, como “Warlord”, “Gloves of Metal” e a espetacular “Gates of Valhalla”, que conta com uma performance vocal que beira o absurdo por parte de Eric Adams.
Ulisses: Gravado em apenas quatro dias, Into Glory Ride conta com sete faixas, das quais apenas uma não fala sobre fantasia, reinos medievais, desgraça generalizada e espadas – é a abertura “Warlord”, com sonoridade que remete, ainda, ao primeiro álbum. O resto constitui um belo e épico trabalho que desenvolve as características que tornariam o Manowar conhecido ao redor do mundo. Também representa a estreia de Scott Columbus, cujas baquetadas retumbantes refinam a atmosfera encantadora de canções como “Secret of Steel”, “Revelation (Death’s Angel)” e “March for Revenge (By the Soldiers of Death)”.
 
10 War
U2 – War (30 pontos)
André: Nunca gostei do U2. Nem na sua fase “menos pop”. Fui ouvir War despido de qualquer preconceito e, apesar de achar as músicas bem feitas (convenhamos que Bono canta muito bem), digo novamente que a banda não foi feita para me agradar.
Bernardo: Muitos acham que o U2 sempre foi mala e outros amam de paixão. Concordo que, com o tempo, a exposição progressiva e os constantes redirecionamentos e tentativas de atualização, a banda tenha perdido bastante do seu interesse musical e só restou a pregação messiânica. Mas pelo menos em sua primeira fase, o U2 fazia um pós punk melódico e dramático, com uma capacidade e tanto para cravar hinos politizados de se cantar em uníssono. Caso da primeira faixa, “Sunday Bloody Sunday”, com a referência à tragédia construída em  torno de uma batida militar e ríspida, a repetição estilística do dramático riff de guitarra e as harmonias cantadas em alto e bom tom por Bono. Ainda resta espaço para outras belas músicas, como “New Year’s Day”, com uma grande linha de baixo e com a adição de  teclado de The Edge, e o pulsante rock de “Two Hearts Beat as One”. Talvez o grande problema da banda seja ter se tornado icônica demais, fato que cedo ou tarde acabou complicando para o lado deles.
Bruno: Sou uma pessoa bastante cabeça aberta em relação a música. Tenho ouvidos para uma infinidade de bandas e geralmente não crio ódio ou aversão aos artistas que não fazem muito o meu estilo, mas claro, existem algumas exceções. O U2 é uma delas. Abomino o som que Bono Vox, The Edge e cia fazem. Rockzinho xoxo, comportado e inofensivo. Não consigo detectar um pingo de honestidade no trabalho dos caras. Pode até ter sido representativo para a época, mas não faz minha cabeça de jeito nenhum. Tá ali no mesmo patamar do Coldplay de rock “bonzinho”, tipo de música que me incomoda absurdamente. E Bono é um dos caras mais insuportáveis do ramo.
Davi: Tive uma criação atípica. Cresci ouvindo o metal pesado do Anthrax, o hard poser do Poison, o pop de Prince, o progressivo do Yes, o blues de Stevie Ray Vaughan, o reggae de Bob Marley, o deboche do Ultraje a Rigor. Sendo assim, uma pessoa que nunca se prendeu a tribos e tendo começado a curtir musica nos anos 1980, claro que U2 fez parte de minha criação musical. As guitarras de The Edge, as letras politizadas (especialmente a de “Sunday Bloody Sunday”, que conta com a batida contagiante de Larry Mullen Jr.) e os trabalhos vocais de Bono foram um marco para a geração. Só quem viveu a época para saber o forte impacto que esses caras causaram e o que este trabalho representou. Inclusão mais do que merecida. Um marco na carreira do U2 e um marco dos anos 1980. Quer apostar que vai ter gente dizendo que é uma vergonha este álbum estar entre tantos registros de heavy metal? Puta disco!
Diogo: O U2 já havia apresentando bons momentos nos dois primeiros discos, mas emWar virou gente grande de vez. Os dois maiores clássicos presentes no álbum, “Sunday Bloody Sunday”, e “New Year’s Day”, realmente são excelentes, especialmente este último, que conta com uma linha de baixo simples e pulsante, bem enfatizada na mixagem, algo que sempre me agrada. Felizmente, o disco não fica só nisso, sendo “Seconds”, “Like a Song…”, “Surrender” e, especialmente, “Two Hearts Beat As One” as mais interessantes. Ao meu ver, porém, acho que a banda faria melhor no lançamento seguinte, The Unforgettable Fire (1984), dotado de composições ainda mais memoráveis e uma atmosfera das mais distintas. Hoje em dia o U2 parece arregimentar mais detratores do que Coldplay e Nickelback juntos, mas isso deve-se mais à aura messiânica que o grupo assumiu, querendo ou não, do que ao talento de seus músicos, entre os quais o mais capacitado é o guitarrista The Edge, que ainda evoluiria muito e se tornaria um artesão de timbres.
Eudes: Nunca entendi direito a babação de proporções épicas e globais em torno da banda. Não que seja ruim. Este disco em particular é legal demais. Mas U2 é de fato um grupo musicalmente pouco ousado. O problema é que são mestres em temperar bem o feijão com arroz: boas melodias, execuções enérgicas, vocalista de bons dotes e um guitarrista que compensa a técnica limitada com um bom gosto excepcional para timbres e harmonias. Um dos discos mais notáveis do período e provavelmente o mais legal da banda, que, entretanto, até hoje, sem espantar o ouvinte, faz gravações agradáveis.
Fernando: O primeiro disco maior da carreira do U2. Já com alguns anos de bagagem a banda mostrou que essa experiência se refletiu também na maturidade das letras. Apesar de tudo isso se ser exemplificado em “Sunday Bloody Sunday” (um dos grandes clássicos do rock), é “New Year’s Day” que me faz ter respeito por essa banda que habita um limiar entre o rock e o pop que faz muitos radicais ignorá-los.
José Leonardo: Tive este disco em LP, faz muito tempo. Tem algumas coisas legais, como “Sunday Bloody Sunday”, “New Year’s Day”, “Seconds” e “Like a Song”, por exemplo. Mas não achei o bicho e fiquei pouco tempo com ele. Pena que, à medida que a banda foi  ficando mais popular, o som foi ficando mais pop. A propósito, o primeiro álbum deles foi lançado aqui na época e passou totalmente despercebido!
Leonardo: Quando o U2 era uma banda legal. Pena que não seja mais, pois o estilo que o grupo adotava no início de carreira era muito mais interessante do que os dos últimos 20 anos…
Mairon: O U2 vinha havia três anos crescendo com sua música, e conseguiu alçar voos maiores com War. Apesar de muitos considerarem seu sucessor, The Unforgettable Fire, como o verdadeiro disco da virada, creio que foi em War que o U2 descobriu como mostrar suas canções-manifesto de forma a conquistar o mercado. Afinal, quem nunca vibrou com “Sunday Bloody Sunday” (que ganhou uma ridícula versão toda alegre pelo grupo brasileiro Sambô) que atire a primeira pedra. Mas War possui muito mais do que esse grande clássico dos irlandeses. O U2 ajudou a formatar o som dos anos 1980 com joias escondidas sob a sombra de “Sunday Bloody Sunday”, seja na simpática “Two Heart Beat As One”, na agitada “Like a Song…”, na dançante “The Refugee” ou na viajante “Surrender”. O que diferencia o U2 das outras bandas da época é a capacidade exploratória de faixas como “Seconds”, “Drowning Man” e “Red Light”, com a introdução de instrumentos diferentes ou passagens instrumentais/vocais que você não irá encontrar em nenhuma outra banda. Além disso, em War está contida a melhor música lançada nos anos 1980 pelo U2, “New Year’s Day”, com The Edge criando um riff hipnotizante nos teclados, e a obrigatória “”40″”, que a partir de então virou marcante nos encerramentos das apresentações da banda. Que bom que este disco está aqui, para amenizar a METALERA que virou esta lista de melhores de 1983.
Rodrigo: Se tem uma banda neste mundo que eu realmente não suporto, essa banda é o U2. Por esse motivo, irei me abster de comentar que é para não ofender os fãs do grupo.
Ulisses: U2 não é a minha praia. Até cheguei a ouvir o disco, mas só confirmou minha opinião sobre a banda: “ééé, mais ou menos, mais ou menos…”.
 
Listas individuais
André Kaminski11 Patience
  1. Dio – Holy Diver
  2. Peter Hammill – Patience
  3. Kiss – Lick It Up
  4. IQ – Tales from the Lush Attic
  5. Quintal de Clorofila – O Mistério dos Quintais
  6. Eloy – Performance
  7. Iron Maiden – Piece of Mind
  8. Dokken – Breaking the Chains
  9. Alice Cooper – DaDa
  10. Savage – Loose N’ Lethal
Bernardo Brum12 Swordfishtrombones
  1. Tom Waits – Swordfishtrombones
  2. Violent Femmes – Violent Femmes
  3. Talking Heads – Speaking in Tongues
  4. U2 – War
  5. Wipers – Over the Edge
  6. R.E.M. – Murmur
  7. Minutemen – What Makes a Man Starts Fires?
  8. Sonic Youth – Confusion Is Sex
  9. Bad Brains – Rock for Light
  10. Misfits – Earth A.D./Wolfs Blood
Bruno Marise13 Rock for Light
  1. Bad Brains – Rock for Light
  2. Suicidal Tendencies – Suicidal Tendencies
  3. Billy Bragg – Life’s a Riot With Spy vs. Spy
  4. Metallica – Kill ‘em All
  5. David Bowie – Let’s Dance
  6. Minutemen – What Makes a Man Starts Fires?
  7. Misfits – Earth A.D./Wolfs Blood
  8. Wipers – Over the Edge
  9. Stevie Ray Vaughan – Texas Flood
  10. Twisted Sister – You Can’t Stop Rock ‘n’ Roll
Davi Pascale14 Texas Flood
  1. Dio – Holy Diver
  2. Kiss – Lick It Up
  3. Iron Maiden – Piece of Mind
  4. U2 – War
  5. Metallica – Kill ‘em All
  6. Stevie Ray Vaughan – Texas Flood
  7. Mötley Crüe – Shout at the Devil
  8. Ozzy Osbourne – Bark at the Moon
  9. Def Leppard – Pyromania
  10. Mercyful Fate – Melissa
Diogo Bizotto15 Pyromania
  1. Accept – Balls to the Wall
  2. Mercyful Fate – Melissa
  3. Metallica – Kill ‘em All
  4. Slayer – Show No Mercy
  5. Dio – Holy Diver
  6. Manowar – Into Glory Ride
  7. Iron Maiden – Piece of Mind
  8. Def Leppard – Pyromania
  9. Mötley Crüe – Shout at the Devil
  10. Journey – Frontiers
Eudes Baima16 Synchronicity
  1. The Police – Synchronicity
  2. Elvis Costello and the Attractions – Punch the Clock
  3. The Waterboys – The Waterboys
  4. Durutti Column – Another Setting
  5. Chico Buarque e Edu Lobo – O Grande Circo Místico
  6. HüskerDü – Everything Falls Apart
  7. Lulu Santos – O Ritmo do Momento
  8. U2 – War
  9. Barão Vermelho – Barão Vermelho 2
  10. Quintal de Clorofila – O Mistério dos Quintais
Fernando Bueno17 Metal Health
  1. Iron Maiden – Piece of Mind
  2. Dio – Holy Diver
  3. Metallica – Kill ‘em All
  4. Mercyful Fate – Melissa
  5. Pink Floyd – The Final Cut
  6. Accept – Balls to the Wall
  7. Quiet Riot – Metal Health
  8. Slayer – Show No Mercy
  9. Raven – All for One
  10. Satan – Court in the Act
José Leonardo Aronna18 Script for a Jester's Tear
  1. Marillion – Scrip for a Jester’s Tear
  2. Dio – Holy Diver
  3. Pink Floyd – The Final Cut
  4. Iron Maiden – Piece of Mind
  5. Black Sabbath – Born Again
  6. Lou Reed – Legendary Hearts
  7. Mike Oldfield – Crises
  8. Steve Hackett – Bay of Things
  9. David Bowie – Let’s Dance
  10. Yes – 90125
Leonardo Castro19 Deliver Us
  1. Metallica – Kill ‘em All
  2. Manowar – Into Glory Ride
  3. Iron Maiden – Piece of Mind
  4. Warlord – Deliver Us
  5. Slayer – Show No Mercy
  6. Dio – Holy Diver
  7. Mötley Crüe – Shout at the Devil
  8. Accept – Balls to the Wall
  9. Def Leppard – Pyromania
  10. Satan – Court in the Act
Mairon Machado20 Depois do Fim
  1. Bacamarte – Depois do Fim
  2. Pink Floyd – The Final Cut
  3. Marco Antonio Araújo – Entre um Silêncio e Outro
  4. David Bowie – Let’s Dance
  5. Quintal de Clorofila – O Mistério dos Quintais
  6. Dio – Holy Diver
  7. Slayer – Show No Mercy
  8. Metallica – Kill ‘em All
  9. U2 – War
  10. Ramones – Subterranean Jungle
Rodrigo Gonçalves21 Frontiers
  1. Dio – Holy Diver
  2. Metallica – Kill ‘em All
  3. Slayer – Show No Mercy
  4. Mercyful Fate – Melissa
  5. Journey – Frontiers
  6. Ozzy Osbourne – Bark at the Moon
  7. Iron Maiden – Piece of Mind
  8. Black Sabbath – Born Again
  9. Thin Lizzy – Thunder and Lightning
  10. Saxon – Power and the Glory
Ulisses Macedo22 Crystal Logic
  1. Dio – Holy Diver
  2. Mercyful Fate – Melissa
  3. Manilla Road – Crystal Logic
  4. Accept – Balls to the Wall
  5. Stevie Ray Vaughan – Texas Flood
  6. Quiet Riot – Metal Health
  7. Manowar – Into Glory Ride
  8. Blue Öyster Cult – The Revölution By Night
  9. Metallica –Kill ‘em All
  10. Europe – Europe
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...