terça-feira, 9 de junho de 2020

Cinco Músicas Para Conhecer: Aguente Firme!




Em tempos tão difíceis de quarentena e indecisões políticas, o que fica na nossa cabeça é a frase "Aguenta firme", "Força", "Se segura". Por incrível que pareça, muitos artistas cantaram isso através de suas músicas. Em inglês, uma tradução possível é Hold On. Diversas são as canções que possuem essa expressão em seu nome, seja a expressão pura e diretamente dita ou derivados como Holding On, Hold On My ... Esse segure firme varia desde se apegar ao amor até os sonhos. A frase é tão emblemática que o programa Médico Sem Fronteiras fez uma campanha publicitária há dois anos utilizando a canção "Everybody Hurts", aquela que quem nunca chorou ouvindo não tem coração, e que tem na expressão "Hold On" seu momento mais emocionante. 

Aqui no Brasil, agora durante a pandemia, o Bradesco lançou uma campanha com a frase "Aguente Firme" em destaque. Fiz um levantamento rápido na minha catalogação de discos e encontrei mais de duas dezenas ligadas com esse tema. Assim, selecionei dentre elas aquelas que tinha apenas a expressão Hold On, e então, depois de muito pensar, escolhi as cinco músicas para conhecer de hoje, deixando mais cinco indicações após, e com certeza, havendo muitas outras que vocês podem citar nos comentários. As escolhas levaram em conta apenas critérios de gosto pessoal.

Deep Purple  - "Hold On" [1974]

Primeira despedida de Blackmore do Purple, Stormbringer é daqueles álbuns ame ou odeie, muito por conta da mistura de estilos. Se por um lado há pauladas como a faixa-título ou "Lady Double Dealer", por outro o funk e o soul tomavam conta, como é o caso da sensacional "Hold On", faixa que mostra na sua letra a já característica marca erótica de David Coverdale (vocais) em parceria com Glenn Hughes (baixo, vocais), pedindo para a mulher segurar firme e aguentar o tranco de sua paixão (eita porra). Musicalmente, além dos duetos vocais, destaques disparados para o solo de piano elétrico de Jon Lord e o ritmo cavalgante extremamente sedutor empunhado por baixo e bateria (Ian Paice). E quanto a Blackmore, o seu solo é tão desnecessário e faceirinho, vulgo sem graça, como quase tudo que ele fez no Purple depois desse álbum. Está somente em Stormbringer, e em algumas das infinitas coletâneas dos ingleses no mercado.

Trapeze - "Hold On " [1978]

Comandado por Mel Galley, o Trapeze tentou sobreviver pós-saída de Glenn Hughes, e lançou três álbuns bastante regulares. Apagando a porta e fechando a luz, com Peter Goalby nos vocais, veio a faixa "Hold On". A letra trata de agarrar-se a amizade fiel, que irá com você até o fim, pois isso é melhor do que estar sozinho, e agarrar-se a vida, mesmo ela não sendo um paraíso. O ritmo é uma espécie de rock leve, que o Trapeze de Hughes até já tinha feito de alguma forma anteriormente, com aquela guitarra southern de Galley serpenteando ao longo das batidas precisas de Galley, em um instrumental bastante gostoso de se ouvir, principalmente no solo de Galley. Além do nome, cito essa canção para mostrar que existem determinadas faixas que é importante conhecer para saber por que algumas coisas não dão certo, como foi a carreira de Goalby pós-Trapeze, principalmente à frente do Uriah Heep. Está no último disco de estúdio da banda Running, o álbum que originalmente foi lançado somente na Alemanha em 1978 (capa do post), mas que ganhou uma versão internacional no ano seguinte, batizada justamente com o nome da faixa, presente também no ao vivo Live In Texas - Dead Armadillos (1981).

Triumph - "Hold On" [1979]

Essa bonita canção do grupo canadense surge com teclados e um dedilhado de violão. O vocalista, guitarrista e monstruoso Rik Emmett entoa a letra, que fala sobre agarrar-se aos sonhos, em deixar o tempo correr e esperar que os sonhos aconteçam, em uma faixa bastante motivadora e emotiva. O ritmo do violão vai ganhando força, trazendo o nome da canção entoado para arenas cantarem em plenos pulmões, e então, surgir o trio mais fantástico do Canadá (joguem as pedras) para mandar um AOR gostoso, com grandes pitadas progressivas, graças a performance impecável de Gil Moore na bateria. Uma letra de 1979 mas que serve muito para os dias de hoje, afinal, só de sonhos podemos pensar em viver pós-pandemia e nesse caos político que o Brasil vive nos últimos anos. Está no obrigatório Just A Game (1979), no ao vivo Stages (1986), além das bolachinhas com "Just A Game" no lado B, lançadas em diversos países.

Wishbone Ash - "Hold On" [1982]

Vivendo sua fase mais conturbada, o Wishbone Ash lançou discos pouco marcantes nos anos 80. Porém, há materiais que se escapam, como essa grande e grudenta faixa que narra sobre o drama de um homem distante mais de cinco mil milhas de sua amante, e que tenta angustiadamente, sem sucesso, ligar para ela, enquanto o operador no telefone lhe diz "Aguente firme, estou tentando fazer a ligação", algo que os jovens de hoje não devem nem ter ideia do que isso significa ... O baixo marcante de Trevor Bolder, os dedilhados das guitarras, uma interpretação vocal fascinante e uma sensualidade jazzística entregue aos fãs, além de um refrão que fica por horas na cabeça, fazem dessa uma das melhores faixas da banda naquela década. Além da bela letra, as guitarras gêmeas de Andy Powell e Laurie Wisefield, marca sagrada dos ingleses, estão saindo das caixas de som para emocionar os fãs em solos magistrais. Fecha a conta a bateria sempre competente de Steve Upton. Está presente em Twin Barrels Burning (1982) e no lado B de um raro compacto espanhol, que ilustra o post.


Beardfish - "Hold On"  [2015]

Imagine-se um velho roqueiro que entra em um dilema: o de sentir-se um prisioneiro em sua cidade natal, sendo forçado à mediocridade pelas pessoas ao seu redor e não sendo capaz de se libertar disso Esse é o conceito de +4626-Comfort Zone, lançado pela trupe sueca de Rikard Sjöblom (vocais, guitarras, teclados e faz tudo) no Beardfish. "Hold On" é a faixa que apresenta ao ouvinte o choque da realidade do velho roqueiro que descobre que o mundo está passando, e ele já não pertence mais ao nível que outrora pertenceu. O "Hold On" aqui clama para o personagem aguentar firme sua atual posição, mesmo com tudo o que possa lhe acontecer. A indignação do personagem central, tentando entender como o tempo passou sem ele perceber, não reconhecendo os olhos que costumavam trazer a chama que existia quando jovem, é apresentada através de 8 incessantes minutos, onde o ritmo da bateria de Magnus Östgren e o baixo marcante de  Robert Hansen fundem a mente para fazer ela entregar aos seus pés e cabeça um balanço filho da puta. Rikard traz todas suas influências de Yes e Genesis para essa faixa, principalmente nas linhas de guitarra, ao lado de David Zackrisson, e nas linhas vocais. Wah-wah comendo solto, riffs grudentos, pulos pela casa cantando os diversos momentos onde a letra nos possibilita isso, e assim como o conceito de "Hold On" nos conta, quando a faixa é concluída você nem percebeu o tempo passar. Uma das melhores obras desse século.

Mais cinco outras "Hold On": 
- The Sons of Champlin (A Circle Filled With Love, 1976);
- Kansas (Audio Visions, 1980);
- Santana (Shangó, 1982);  
- Yes (90125, 1983); 
- Rush (Snakes & Arrows, 2007);

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