sábado, 6 de junho de 2026

Maravilhas do Mundo Prog: Rush - Jacob's Ladder [1980]


O Ano de 1980 começou diferente para o Rush. Meses antes, em apenas quatro semanas (entre setembro e outubro de 1979) o grupo havia encerrado as gravações de seu sétimo álbum, Permanent Waves, nos estúdios Le Studio, entre as montanhas de Morin Heights em Quebec, no Canadá. O lugar idílico e contemplativo, com paredes de vidro onde se viam apenas neve, nuvens, montanhas, árvores e um lago, inspirou o trio Alex Lifeson (guitarras, guitarra de doze cordas, violões, violão de 12 cordas, violão clássico, bass pedal sinthesizer), Geddy Lee (baixo, violão de doze cordas, mini-moog, bass pedal synthesizer, vocais) e Neil Peart (bateria, sinos, tímpano, tubular bells, Wind Chimes, triângulo, Bell Tree, Vibraslap) a buscar novas sonoridades para a nova década que estava entrando em suas casas. Dentro destas sonoridades, o grupo The Police foi uma grande força motora para o Rush ampliar seus sons progressivos, e começarem a criar canções mais acessíveis, não tão grandiosas quanto suas Maravilhas "2112" e "Cygnus X-1 Book Two: Hemispheres", mas capazes ainda de trazerem novidades para os fãs.

O Rush no Le Studio, em outubro de 1979

O processo de composição começou em meados de julho de 1979, seis semanas após a última apresentação do trio durante a turnê de Hemispheres, a qual ocorreu em 4 de junho, no Pink Pop Festival de Galeen, na Holanda. Depois de merecidas férias, Lee, Lifeson e Peart não sabiam bem o que queriam, mas sabiam bem O QUE NÃO QUERIAM. Como explicou Lee para o jornalista Jon Sutherland, em uma entrevista para a revista Record Review em 1980: "Chega um ponto em que você se pega caindo num certo padrão, e aí é hora de sacudir a cabeça, se soltar e fazer algo diferente. No que diz respeito a álbuns conceituais, a gente já fez isso. Levamos isso até o limite lógico, e agora é hora de fazer outra coisa."

Era uma clara ideia de sair das longas e conceituais faixas de seus discos anteriores, e com essa mentalidade, a banda migrou para a fazenda Lakewood em julho de 79, há duas horas da cidade Natal dos rapazes, Toronto, onde começaram a criar e compor novas canções, mergulhando em improvisações que logo na primeira noite viraram a primeira composição, batizada "Uncle Tounouse". Partes dela iriam ser usadas para criar outras canções logo adiante. Após duas semanas trancafiados, com Peart tendo seu próprio espaço para pensar as letras, e Lee e Lifeson desenvolverem seus lados musicais, quatro faixas estavam prontas: "The Spirit of Radio", "Freewill", "Entre Nous" e nossa Maravilha de hoje, "Jacob's Ladder".

Alex Lifeson, Neil Peart e Geddy Lee.
O Rush em pleno trabalho de criação, outubro de 1979

De lá, partem para o Sound Kitchen, um estúdio em Toronto, para registrarem as demos dessas quatro faixas, e logo em seguida, em setembro de 79, já estavam novamente com o pé na estrada para apresentar duas delas ao seu público, no caso "The Spirit of Radio" e "Freewill". "Entre Nous" e "Jacob's Ladder" continuaram a ser aperfeiçoadas durante as passagens de som, e então, como dito no início do texto, ainda em setembro isolam-se em Morin Heights para encerrar as gravações. Apenas a menção de Le Studio para os fãs do Rush já traz uma visão romântica sobre aquele período, no que o jornalista Ray Wawrzyniak considera como "o casamento perfeito". 

Vamos às palavras de Peart sobre o local: "Le Studio é um local maravilhoso, aninhado no vale das montanhas Laurentian, cerca de 60 milhas (100 kms) ao norte de Montreal. Está situado em 250 acres de terreno acidentado e arborizado, ao redor de um lago particular. Em uma extremidade do lago fica o estúdio, e na outra, a cerca de uma milha (pouco mais de 1,5 km), está a casa de hóspedes luxuosa e confortável. Nós nos deslocávamos de bicicleta, barco a remo, a pé, ou, por preguiça ou mau tempo, de carro. Chegamos no auge da glória plena do outono, e ficamos lá durante um autêntico Verão de São Martinho (Indian Summer em inglês), e saudamos a chegada da neve e do inverno, tudo isso nas nossas quatro semanas de estadia.". 

Neil Peart

Peart continua, agora comentando sobre o estúdio em si: "O local de gravação é, obviamente, nada menos que excelente em todos os sentidos. A própria sala tem uma parede inteira de vidro, com vista para um cenário espetacular do lago e das montanhas. Isso está em contraste direto com a maioria dos estúdios, que são mais como cofres isolados e atemporais, o que, nesse aspecto, claro, não é necessariamente ruim. Nós trabalhamos sob a luz do sol, e dava pra observar a mudança das estações nos momentos de descanso, em vez de ter uma visão pouco iluminada e esfumaçada de equipamentos musicais e eletrônicos". 

Com esse ambiente em sua volta, a amizade entre os três membros da banda tornou-se ainda mais forte, ensaiando e gravando durante o dia, e jogando vôlei durante a noite, tornando-se um lugar definido por Lee como "especial em nossos corações". Definitivamente, não havia local melhor para Permanent Waves ser concebido. 

Encarte de Permanent Waves, com a dedicatória em “The Spirit of Radio”

Lançado em 14 de janeiro de 1980, o álbum abre com "The Spirit of Radio", justamente trazendo a ideia da importância do rádio para a música, sendo esta uma das canções mais comerciais - e não à toa, de maior sucesso - da história do trio canadense misturando elementos do rock principalmente com o reggae. Como lembra Lifeson: "estávamos sempre tocando reggae no estúdio, e costumávamos fazer a introdução de 'Working Man' nesse estilo durante os shows, e foi então que isto logo tornou-se 'The Spirit of Radio'. Pensamos que fazer um reggae iria nos fazer sorrir e ter um pouco de diversão". O Rush passou a tocar nas rádios frequentemente pós-"The Spirit of Radio", que talvez só seja batida em termos de popularidade por "Tom Sawyer". 

Vale lembrar que no encarte do álbum, há uma inscrição que diz: "inspirado pelo 'espírito do rádio' de Toronto, vivo e bem (até agora)", em uma homenagem à David Marsden, o cara responsável por lançar o Rush nas rádios, anos antes, quando era funcionário da CHUM-FM, de Toronto, tocando canções do primeiro disco do grupo. O nome da canção é uma homenagem ao slogan criado por David para a rádio e o programa que ele estava em 1979, a CFNY-FM, de Toronto.

Parte frontal do encarte

O álbum segue com "Freewill", outra faixa que traz esse sentido de novos ares para o Rush, principalmente na letra, e então, fechando o lado A, nossa maravilha. Na Bíblia, a Escada de Jacó é uma escada que leva ao Céu, sendo retratada em um sonho que o Patriarca Jacó teve durante a fuga de seu irmão Esaú, no Livro do Gênesis (capítulo 28:10-19). Trago aqui o trecho da citação bíblica:

"E Jacó saiu de Beer-Sabá e foi em direção a Harã... ele pegou uma das pedras do lugar, colocou-a sob a cabeça e deitou-se ali para dormir. E ele sonhou, e eis uma escada erguida na terra, e o topo dela alcançava o céu; e contemplem os anjos de Deus ascendendo e descendo sobre ela ... A terra onde jazes, a ti a darei e à tua descendência. E a tua semente será como o pó da terra, e espalharás para o oeste, para o oriente, para o norte e para o sul. E em ti e em tua descendência todas as famílias da terra serão abençoadas..."

O significado do sonho tem sido debatido e causado diversas interpretações, mas a maioria delas concorda que Jacó é colocado diante de suas obrigações e da herança do povo escolhido por Deus. Os anjos subindo e descendo da escada podem significar a própria vinda e ascensão dos homens à Terra. De qualquer forma, a inspiração do sonho, e da construção da escada, influenciou os meteorologistas a batizar o fenômeno meteorológico onde a luz do Sol rompe nuvens durante uma tempestade, ou até em dias fechados, exatamente de Escada de Jacó. 

Geddy Lee

E este fenômeno esteve no Le Studio, e com a visão das luzes do Sol nas paredes de vidro do estúdio, Peart teve a inspiração para criar esta obra-prima. Conforme seu relato: "A maioria das ideias que lidamos dessa vez eram menores e, em alguns casos, como em 'Jacob's Ladder', vistas como uma ideia cinematográfica." Ele segue: "Criamos toda a música primeiro para evocar uma imagem – o efeito da Escada de Jacó – e pintar o quadro, com as letras adicionadas só como um pequeno detalhe, depois, para torná-la mais descritiva." Era o início do Rush começando a criar pequenas peças cinemáticas, que seriam muito bem exploradas em Moving Pictures

Fechando a concepção de nossa Maravilha, Neil nos conta que "na letra, eu retiro muitas referências da Bíblia, pois ela é uma fonte muito colorida de imagens. Eu não cresci em um meio religioso, mas cercado por religião, indo à escola dominical e tendo lições de educação religiosa na escola. Então, todas estas coisas sugerem elas mesmas como metáforas. 'Escada de Jacó' é uma frase adorável, aquelas duas palavras por si só. E de fato nós iniciamos com isto. Antes de qualquer letra ser escrita, falamos sobre a imagem de uma 'Escada de Jacó', de um céu nublado se aproximando, e de repente, todos estes feixes de luz que todo mundo viu. Isto foi muito inspirador para mim, mas nós tivemos a mesma experiência em comum. Então, nós criamos a música a partir daquela visão, ou imagem, e escrevemos o som inteiro. Depois, escrevi alguns versos para fazer a imagem mais acurada, e também para trazer os vocais como mais um instrumento sonoro".

Alex Lifeson

Um fenômeno lindo só poderia gerar uma música linda. O baixo surge marcando o tempo junto de um longo acorde de sintetizador, trazendo o dedilhado da guitarra e as batidas marciais de Peart, em uma introdução enigmática, até que a guitarra passa a fazer os mesmos acordes do baixo. A voz de Lee surge sobre camadas de sintetizadores, trazendo a letra:

"The clouds prepare for battle

In the dark and brooding silence

Bruised and sullen stormclouds

Have the light of day obscured

Looming low and ominous

In twilight premature

Thunderheads are rumbling

In a distant overture"

"As nuvens se preparam para a batalha

No silêncio escuro e sombrio

Nuvens de tempestade roxas e carrancudas

Ocultaram a luz do dia  

Aproximando-se baixas e ameaçadoras

Num crepúsculo prematuro

As nuvens de trovoada ribombam

Numa abertura distante"

A medida que Lee vai cantando, a canção vai tornando-se cada vez mais tensa, até explodir com as batidas de Peart. Lifeson e Lee soltam notas longas que fazem a base para o lindo solo de Lifeson, carregado de eco e muitos, mas muitos bends e notas agudas. Um dos solos mais lindos de sua carreira, sem exagerar nas notas rápidas, apenas sentimento puro, solando simples enquanto baixo, teclados e bateria conduzem-no para romper o céu. Eis que então "Jacob's Ladder" ganha mais tensão, com baixo, guitarra e bateria fazendo o ritmo  igualmente, como nuvens chocando-se para criar trovões, utilizando-se de variações sobre seis acordes menores, enquanto o sintetizador apenas faz a camada que interliga tudo para o grande clímax da canção. 

De forma etérea, entre os sons de sintetizadores que surgem nas caixas de som, novamente enigmáticos, trazendo ao ouvinte a sensação das nuvens no espaço, soltas, e um céu fechado a ser colorido conforme se queira pelas luzes do Sol. A voz robótica de Lee surge, na mesma melodia do sintetizador Oberheim:

"All at once,

The clouds are parted

Light streams down

In bright unbroken beams"

"De repente,

As nuvens se abrem

A luz jorra lá de cima

Em raios brilhantes e contínuos"

Uma escada de Jacó, flagrada no Japão

Então, a 'Escada de Jacó' começa a ser pintada pelo Rush em seu céu imaginário, após as batidas dos sinos tubulares, começando com a guitarra de Lifeson fazendo seu dedilhado, e com pequenas batidas que lembram pinceladas suaves, cada raiar de luz jorrar das nuvens, as quais vão se tornando mais agressivas na medida que Peart impõem ritmo "à pintura", como mais raios de luz rasgando o céu. Lee também faz marcações com seu baixo, enquanto o sintetizador passeia seu pincel junto com a guitarra e a bateria para criar a mais perfeita ilustração deste céu iluminando-se. Tudo encerra-se com guitarra e baixo solando juntos, enquanto Peart dá um show à parte, concluindo uma obra prima, seja no céu imaginário, seja na audição real, com batidas fortes de guitarra, baixo e bateria, trazendo então a voz de Lee:

"Follow men’s eyes

As they look to the skies

The shifting shafts of shining

Weave the fabric of their dreams…"

"Siga o olhar dos homens

Enquanto fitam os céus

Os raios mutáveis e brilhantes

Tecem o tecido de seus sonhos"

Um pouco mais do Rush no Le Studio

Assim, de forma avassaladora, a letra é concluída, mostrando como os homens estão fascinados com o que veem no céu, ao mesmo tempo que estamos todos fascinados com o que ouvimos nas caixas de som, deixando apenas o ritmo marcial do baixo e os longos acordes de teclados ressoando pela sala para podermos refletir sobre a tempestade musical que passou. Fantástico. 

O lado B segue com mais uma faixa bem comercial, "Entre Nous", seguida por "Different Strings", com seu complexo andamento que exigiu de Peart o uso de um metrônomo para concluí-la, e outra Maravilha Prog, "Natural Science". Mas esta é papo para outra postagem. 

Contra-capa de Permanent Waves

Permanent Waves atingiu a quarta posição nas paradas dos Estados Unidos, onde recebeu ouro (500 mil cópias vendidas) apenas três meses após seu lançamento - e posteriormente, em 1987, tornou-se platina, com um milhão de cópias vendidas - e número três no Reino Unido e Canadá. O single de "The Spirit of Radio" foi o primeiro dos canadenses a superar o Top 30 nas paradas estadunidenses. 

O grupo partiu para mais uma longa turnê, retornando ao Le Studio para gravar aquele que é considerado sua obra-prima, Moving Pictures. Porém, encerro por aqui - por enquanto - as Maravilhas Progs do Rush, lembrando que em janeiro, o Rush novamente estará entre nous - e eu estarei lá novamente para vê-los.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Zé Ramalho - Coletiva de Música Paraibana [2018]

Em 26 de maio de 1976, um dos momentos mais importantes, e menos conhecidos, da carreira de Zé Ramalho acontecia no palco do Teatro Santa Rosa, na Paraíba. Durante muitos anos se falou sobre o tal incidente no qual Zé supostamente "teria cortado os próprios cabelos em pleno palco durante um acesso de fúria e indignação", mas isso parecia mais uma lenda urbana, tal qual a associada ao álbum Paebirú, e seu misterioso desaparecimento das lojas por conta da enchente do rio Capibaribe em Pernambuco. 

Mas, eis que a gravadora Discobertas, através de uma verdadeira escavação nos arquivos pessoais do bardo paraibano, encontrou a tal apresentação, e em 2018, trouxe ao mundo no formato de vinil. Mas é a edição em CD, de 2021, que chama a atenção, por trazer o show praticamente na íntegra, e o tal momento lendário sendo conferido para ver como realmente foi o que aconteceu naquela noite quente em João Pessoa. 

Raro compacto do The Gentlemen

Até chegar o dia 26 de maio de 1976, é necessário contextualizar o momento pelo qual Zé passava na época. José Ramalho Neto torna-se Zé ramalho muito cedo. Tendo perdido o pai ainda criança, o menino da Paraíba foi criado pelo avô, que lhe passou ensinamentos sobre culturas e tradições do nordeste na quase provinciana João Pessoa dos anos 50 e 60. Quando adolescente, no final dos anos 60, Zé passa por alguns grupos, dentre eles Os Demônios - ainda estudante do colégio Pixo X -, Os Quatro Loucos, substituindo o guitarrista Vital Farias, com quem participou de festivais em João Pessoa, Eles e The Gentlemen, estas já no início dos anos 70, que levou Zé a sair do estado, tocando nas redondezas em cidades do Pernambuco e de Alagoas, inclusive gravando um compacto (Cristina) pelo selo Rozenblit, hoje, raríssimo, assim como seu único álbum, auto-intitulado, de 1972. 

Os anos passaram e Zé tenta buscar a sorte no Rio de Janeiro, onde participa da última edição do Festival Internacional da Canção, de 1974, e conhece Geraldo Azevedo, com quem iria fazer parcerias importantes tempos depois. Isolado em uma casa de praia, emprestada por uma tia, a qual batizou de Vila Do Sossego, Zé passa a criar canções que se tornariam sucesso em sua carreira, em um período que o próprio chama de Trimestre Das Revelações. Grava, ao lado de Lula Côrtes, o cultuado Paêbirú, com toda sua mitologia por trás da qual vou passar em branco aqui.

Zé na banda de Alceu Valença. Em ordem: Dircinho, Zé da Flauta,
Israel Semente, Paulo Rafael, Zé Ramalho,
Agricio Noya. Alceu Valença no centro

Em 1975, ano de lançamento de Paêbirú, Zé começa a chamar atenção do meio musical na cidade do Rio de Janeiro (RJ) como integrante da banda do cantor pernambucano Alceu Valença, destacando-se no Festival Abertura daquele ano, promovido pela Rede Globo. Foi nele que Marília Gabriela, apresentadora do mesmo, cunhou o nome Zé Ramalho da Paraíba. Participa como violonista do álbum Vivo!, lançado por Alceu Valença em 1976, mas um desentendimento com Alceu fez Ramalho deixar a banda e voltar para João Pessoa (PB). É lá que nosso herói decide investir em shows solo, cantando suas músicas. Em parceria com o poeta Pedro Osmar, organiza a Coletiva de Música Paraibana, e nela, Zé exorciza seus demônios de não ter vingado no Sul, preparando um roteiro que iria abalar à todos os que o conheciam, utilizando uma tesoura para tosquear seu passado em pleno palco, como protesto contra a mídia, e tendo uma surpresa extra nessa sua manifestação. 

Lançado em vinil originalmente no ano de 2018, e em CD em 2021, com duas bônus, o show conta apenas com Zé na voz e violões, e abre com "O Sobrevivente", no qual Zé entoa o poema de Carlos Drummond de Andrade, contando sobre as dificuldades de se ser um artista, mostrando já a animosidade e decepção que corria pelo sangue de Zé naquele tempo. Seguimos com "Jardim Das Acácias", levada apenas pelo violão de Zé, e muito fiel ao que viemos conhecer, algum tempo depois, no álbum A Peleja Do Diabo Com O Dono Do Céu (1979), mas com mais improvisos vocais, que fazem a canção atingir nove minutos, levando ao primeiro discurso de Zé na noite, "Discurso 1", que é o primeiro bônus do CD. 

Zé no polêmico show de 50 anos atrás

Zé começa falando que "é um dia muito bonito, importante para falar um monte de coisas para vocês ... " e assim ele começa a fazer seu discurso a favor dos artistas paraibanos, que sofrem o preconceito das mídias, taxados de marginais e maconheiros, repudiados, e que a coletiva paraibana surge para firmar o lugar do músico paraibano. As forças das palavras de Zé impactam, detonando os críticos de música e defendendo o artista paraibano, e na sequência, ele chama ao palco dois músicos que irão lhe acompanhar na próxima canção, Paulinho e Israel, e emenda, emocionado, que "essa música que nós vamos tocar é muito especial para mim, permita-me abusar disso, Mas é que há três dias atrás faleceu meu avô, talvez a única criatura honesta que eu tenha conhecido no mundo, foi ele quem me criou, saindo do sertão, do brejo. Eu nunca tive pai, então vovô fez o papel de avô, de pai, e antes de morrer, fez o papel de filho também, para mim. Avôhai é uma palavra mágica, significa avô e pai. Vovô, esteja em paz, e tenho certeza que está aqui, me olhando". Com mais de dez minutos de duração, "Avôhai" é uma dolorida declamação de amor ao avô-pai de Zé Ramalho, surgindo com um tema nordestino na viola e nas vocalizações, seguindo com os acordes atemporais de um dos maiores sucessos da carreira do paraibano, acompanhado aqui apenas pela percussão e violão. 

Chegamos então no ponto de êxtase do show, registrado como "Discurso 2", o segundo bônus do CD, e que é o momento no qual Zé, descrente de seu futuro como artista, começa seu sacrifício, e que chegou a hora da tesoura. Então, ele explica que "durante sete anos, esse cabelo de louco representou para essa cidade ... em cada fio de cabelo desse daqui, tem dez histórias para contar". Enquanto ele vai fazendo seu discurso, ele começa a cortar seu cabelo em pleno palco, um cabelo cuidado durante 7 anos. A plateia, embasbacada, reage de forma incomodada enquanto ouvimos o discurso agressivo de Zé, e os "tics" da tesoura cortando as "belas madeixas carregadas de piolho, lacraias, lama". Zé provoca a plateia, chegando a se irritar com um dos presentes que o provoca: "quer vir cortar meu irmão, queria que vocês encarassem isso com muito respeito, por que se você nunca teve peito de deixar um cabelo crescer assim, você fique na sua meu irmão", e segue exalando sua tristeza, sua decepção, sua raiva e frustração, cortando o cabelo, fazendo seu sacrifício. 

"Vocês passariam sete anos, criando um filho, para depois matá-lo?". Enquanto corta o cabelo, citando Sansão, surgem um momento que a plateia acaba não resistindo, caindo em risadas quando um dos presentes diz que "mas eu que queria cortar" e Zé responde "chegue amor, venha, vou lhe dar um beijo na sua boca ... vem mostrar que você é paraibano". Zé faz uma crítica ao fato de o chamarem de Zé Ramalho da Paraíba, e encerra seu ato quebrando uma TV em pleno palco (infelizmente não registrado no CD e tão pouco no LP), dedicando uma homenagem para o colega Alceu Valença, entoando então a bela "Espelho Cristalino", junto de "Adeus Segunda-Feira Cinzenta", canção de Alceu Valença unida a obra criada pelo próprio Zé em mais de nove minutos de lindas explorações musicais nos violões e na interpretação dolorida dos vocais do paraibano. 

Texto no encarte do CD

Fechando o show, "A Dança Das Borboletas", outra parceria de Zé com Alceu, com um clima bastante soturno em sua introdução, no qual novamente Zé usufrui de interessantes vocalizações, e a interpretação hipnotizante do violão torna os quase dez minutos da canção uma perfeita ode ao musicalismo do interior da Paraíba, além de fazer citações ao cangaço e também entoar trechos de "Vem Vem", de Geraldo Azevedo

São as presenças dos "Discursos" os pontos principais desta edição em CD, pois são registros históricos de um momento ímpar na carreira de Zé, e que haviam aparecido no CD Zé Ramalho Da Paraíba, de 2008, mas agora surgem exatamente do momento onde foram entoados. Na sequência, no segundo semestre de 1976, Zé, determinado a buscar um novo destino em sua vida, montou seu show de despedida de João Pessoa (PB), Um dia Antes da Vida (registrado no CD homônimo, também lançado pela gravadora Discobertas), que fecha o ciclo inicial da trajetória artística do cantor na sua terra natal. Dois dias depois deste show,  embarcou para o Rio, onde, através da indicação de Nelson Motta, assina contrato com a gravadora CBS (via selo Epic) para fazer, em 1977, o primeiro álbum solo, Zé Ramalho, lançado em 1978.

Dali em diante, Ramalho virou nome nacional na MPB e essa fase inicial em João Pessoa (PB) se tornou a pré-história da carreira do cantor, deixando uma história pouco conhecida fora da Paraíba, e que felizmente foi resgatada para o deleite dos fãs e dos admiradores da Música Nacional Brasileira. Busque este e outros lançamentos da Discobertas (em especial, Atlântida, Um Dia Antes da Vida e Cine Show Madureira 1979), e descubra uma das melhores fases de um artista nacional, principalmente por ser embrionária, crua, e simplesmente dilacerante. 

Contra-capa do CD

Track list

1. O Sobrevivente

2. Jardim Das Acácias

3. Discurso 1

4. Avôhai

5. Discurso 2

6. Medley: Espelho Cristalino / Adeus Segunda-Feira Cinzenta

7. A Dança Das Borboletas

terça-feira, 26 de maio de 2026

40 Anos de The Final Countdown

Há 40 anos, o mundo da música voltava seus olhos para a Suécia. Depois de 5 anos do fim do ABBA, o país escandinavo conseguia novamente colocar sua bandeira entre as maiores nações da música, batendo de frente com Estados Unidos e Inglaterra, através de um disco que marcou época: The Final Countdown. O terceiro disco do Europe foi lançado em 26 de maio de 1986, e alcançou nada mais nada menos que a oitava posição na parada da Billboard estadunidense, bem como primeira posição em diversos países europeus, além de várias posições altas em diversos outros charts mundo afora. 

O Europe era uma banda de relativo sucesso dentro do mercado sueco. Com dois discos lançados (Europe, de 1983, e Wings of Tomorrow, de 1984), em 85 ocorre uma grande mudança na formação do Europe. Sai o baterista Tony Reno e entra Ian Haughland, além do tecladista Mic Michaeli, tornando o quarteto Europe agora um quinteto. Ao mesmo tempo, o grupo já estava começando a preparar o novo álbum, que tinha como principal objetivo tentar conquistar o - complexo - mercado estadunidense. 

Cartaz de On the Loose,
destacando Joey Tempest

As primeiras canções escritas foram "Rock the Night" e "Ninja", as quais surgiram durante a turnê de divulgação de Wings of Tomorrow. Porém, ainda em 1985, algo acontece que muda totalmente a história do Europe. O diretor Staffan Hildebrand convida Joey Tempest, vocalista do grupo (vale aqui lembrar os outros músicos da banda, John Norum na bateria e John Levén no baixo, além de Haughland e Michaeli, sendo esta a chamada formação clássica dos suecos) para fazer a trilha sonora do filme On The Loose

Tempest entregou a faixa solo "Broken Dreams", que junto com "Rock the Night" e "On the Loose", saíram em um EP, em abril de 1985, que era vendido nos cinemas suecos antes da apresentação do filme, e hoje tornou-se uma raridade cobiçada pelos fãs, principalmente fora da Escandinávia. O grupo também aparece no filme, interpretando ao vivo "Rock the Night", que também saiu em um single exclusivo (com uma regravação de "Seven Doors Hotel", faixa do primeiro disco da banda, no lado B), e isto fez grande sucesso, levando o single de "Rock the Night" a alcançar número 4 nas paradas suecas. 

Devido ao enorme sucesso de On the Loose e "Rock the Night", o Europe saiu para uma grande turnê em sua terra natal durante todo 1985, apresentando três novas canções: "Danger on the Track", "Love Chaser" e a balada "Carrie", que inicialmente era apenas com teclados e vocais. Ao mesmo tempo, novas canções começavam a surgir. Eis que então, após a longa turnê, e com mais algumas canções na bagagem, o grupo entra nos estúdios para gravar seu terceiro e grandioso disco, em setembro de 1985, no Powerplay Studios de Zurich, Suíça, tendo como produtor o estadunidense Kevin Elson, o qual tinha no currículo o Journey, e sabia a receita de como "conquistar" o mercado dos EUA.

O Europe no encarte de The Final Countdown

Com mixagem no Fantasy Studios dos Estados Unidos, a cargo de Elson e Wally Buck, durante o março de 1986, além da masterização de Bob Ludwig na clássica Masterdisk, The Final Countdown chegou às lojas, como citado acima, exatamente em 26 de maio de 1986, e já abre com aquele que para mim é o maior clássico do grupo, a faixa-título "The Final Countdown". Tenho esta música como "Anna Julia" é para o Los Hermanos, ou "White Rabbit" é para o Jefferson Airplane, ou seja, uma canção atemporal de uma banda, mas que nada tem a ver com a banda em si, sendo basicamente totalmente diferente de tudo o que foi feito antes ou depois, mas que mesmo assim, é inegável sua importância, goste ou não. 

Single de "The Ginal Coutdown"

"The Final Countdown" começa com os barulhos de sintetizadores que levam para um dos mais conhecidos riffs de teclados de todos os tempos, em um crescendo mágico (na linha do que é a introdução de "Mr. Crowley", de Ozzy Osbourne), trazendo então o Europe no ritmo cavalgante, para a repetição do riff intodutório. Esse riff havia sido criado anos antes por Tempest, em uma brincadeira de estúdio provavelmente no final de 1981, início de 1982 que acabou evoluindo para algo que seria a faixa de abertura dos shows do Europe. Levén sugeriu que Tempest deveria escrever uma canção baseada naquele riff e assim, inspirado por "Space Oddity", de David Bowie, o vocalista criou  o maior clássico da história dos suecos. Os vocais de Tempest rememoram a história de Bowie, pegando exatamente da contagem final. É impossível não se contagiar pela canção, com backing vocals bem encaixados que facilmente nos fazem reproduzi-los, assim como a ampla citação ao nome da canção, que gruda literalmente na cabeça. 

Norum manda ver no seu solo, o qual considero ainda hoje o mais bonito de sua carreira, e voltamos para a intro, repetindo o refrão e concluindo uma das melhores músicas do hard oitentista com a voz de Tempest sendo repetida em sua mente, e o jogo já ganho a partir daqui. Uma nota adicional é que durante as gravações do álbum, Tempest teve uma reação alérgica a produtos com trigo, forçando o vocalista a mudar sua dieta para conseguir completar o álbum. Para se ter uma ideia, "The Final Countdown" teve os vocais gravados em Estocolmo, enquanto a banda permaneceu na Suíça, enquanto os vocais das demais canções foram regravadas, de última hora, na Califórnia. De qualquer forma, se tornou um baita sucesso! A canção tornou-se obrigatória desde então nas apresentações do grupo, tendo sido apresentada pela primeira vez no show que o grupo fez em Gävle, Suécia, em 29 de abril de 1986. Eu acho que ouvi essa música quando tinha três, no máximo quatro anos. Tenho uma vaga lembrança de sair - ou entrar - de um cinema na minha cidade, Pedro Osório, levado pelas mãos de minha mãe, e de ficar impressionado com aqueles teclados, e ainda hoje, passados 40 anos, me emociono sempre que ouço a canção, que automaticamente me traz uma saudosa memória de minha falecida mãe. Onde quer que ela esteja, além de minhas memórias, certamente ela foi uma das responsáveis por me tornar o colecionador de discos e aficcionado por música que me tornei.

Single de "Rock the Night"

Seguindo com o disco, Norum comanda o riff pesado e as alavancadas da intro de "Rock the Night", já presente no citado On The Loose. Para The Final Countdown, o Europe fez pequenas mudanças sonoras, tirando a parte mais crua do que foi gravado em 1985, e um pouco mais "limada". O baixo pulsa ao invés de cavalgar como em "The Final Countdown", e aqui, Tempest não está exagerando nos vocais, tornando a canção bem agradável do que está presente na bolachinha. Mais um refrão contagiante e grudento, e Norum fazendo dois solos bem virtuosos, com boa velocidade nos dedos. Se o jogo estava ganho em "The Final Countdown", aqui o Europe já está controlando totalmente o campo, e com apenas 15 minutos de audição, decreta a goleada sonora deste disco com a baladaça "Carrie".

Single de "Carrie"

Como ela era uma canção apenas para piano e voz, para The Final Countdown ela recebeu o time completo. O piano elétrico de Michaeli surge com outro riff inesquecível e mágico, para acompanhar a voz dolorida de Tempest, comentando sobre o fim de um relacionamento, lembrando que Carrie, a menina, nunca existiu de verdade - ao menos com este nome - segundo o vocalista. A entrada do Europe vai crescendo a canção, que explode no refrão entoando o nome de "Carrie", e pronto, estamos já fãs de Europe. Três canções que são a melhor representação do que foram os anos 80 musicalmente, com teclados e sintetizadores dominando as camadas sonoras, bases quadradas e simples de baixo e bateria, guitarristas fillers e repletos de virtuose, e um vocalista exageradamente gritante, e que para muitos, é exatamente o que torna os anos 80 terrível, mas para mim, é o espetáculo musical extremamente excelente. Ouçam o solo de Norum em "Carrie" e deleitem-se com algo simples, mas belíssimo, e a faixa encerra-se com uma bonita partipação dos teclados.

Voltamos aos hards mais tradicionais em "Danger on the Track", com um riff combinado de teclados, guitarras e baixo, sem ser no ritmo pulsante, e um ótimo trabalho vocal. Para quem ainda não pegou, o trabalho de construção do Europe mostra-se novamente simples mas grudento, com estrofe refrão-estrofe-solo construídos perfeitamente para o fã cantar. Admirem o solo de Michaeli aqui, lembrando bastante Jon Lord nos anos 70, já que ele utiliza um hammond para o tal, e também o bom solo de Norum, com muitos bends e velocidade. O lado A fecha com "Ninja", faixa mais veloz, cujo riff rapidamente me remete à "Lights Out" (UFO), em uma canção bastante animada, que também poderia figurar como trilha de Animes como Demon Slayer ou Naruto. Segunda faixa mais antiga do disco, eu curto bastante o solo de Norum aqui, utilizando notas mais agudas e vibratos. Podem me chamar de louco, mas tenho muita certeza que há forte inspiração em Michael Schenker para esta canção. 

Pôster que acompanha a versão original sueca
Single de "Cherokee"

O lado B surge com as batidas e o refrão grudento de baixo, guitarra e teclados para "Cherokee", faixa inspirada nos nativos americanos (mais um indicativo de quem eles queriam conquistar), sendo um hardão tipicamente oitentista, com os exageros vocais de Tempest tomando conta das caixas de som, e destacando o baixo marcante de Levén, além do forte refrão e dos belos solos de Norum e Michaeli, este último me remetendo facilmente ao solo de Eddie Van Halen em "Jump". Esta foi a última canção criada para o álbum, ficando pronta uma semana antes das gravações na Suíça, e acabou se tornando o quarto single a ser lançado daqui. Seguimos com os teclados e as vocalizações que abrem "Time Has Come", uma bonita balada inicialmente, que ganha bastante dramaticidade com a entrada do violão, mas, com a entrada da guitarra, baixo e bateria, torna-se outro potente hard oitentista, onde o solo de Norum aqui não é recheado de fillers, mas sim mais pegado e com belos bends e vibratos, como uma boa balada farofa exige.

O single de “On the Loose”,
ainda como trilha do filme

"Heart of Stone" mantém o padrão oitentista de refrão forte e muito teclado, mas aqui, com Norum fazendo mais estripulias em seu ótimo solo, até com uma pegada mais bluesy no início, mas detonando notas rápidas na sequência. A veloz "On the Loose" nos leva para a reta final do álbum, e também ao já citado filme, com outro magnifico solo de Norum, exalando virtuosismo em notas muito velozes e o nome da canção grudado na nossa mente, fechando com "Love Chaser", iniciando com os teclados que nos remetem a "The Final Countdown", mas logo após, a entrada da guitarra e do baixo cavalgante modificam essa ideia, sendo uma faixa mais simples, onde os teclados e as vocalizações se sobressaem junto de mais um refrão marcante. 

Cinco singles foram lançados de The Final Countdown: "The Final Countdown", "Love Chaser", "Rock the Night", "Carrie" e "Cherokee.". Tempest sugeriu a faixa título como primeiro single, apesar dos demais quererem 'Rock The Night", já que achavam que a canção, por ser diferente das demais do grupo, jamais se tornaria um hit. Porém, a gravadora concordou com Tempest, e então, o compacto da faixa-título atingiu o primeiro lugar em 25 países, incluindo os charts britânicos, onde permaneceu na primeira posição por duas semanas, França e Alemanha, chegando a oitava posição nos Estados Unidos. Já seu vídeo tem mais de 1,3 bilhões de visualizações no YouTube.

Single de “Love Chaser” na trilha
de World Grand Prix Pride One

O single de "Rock the Night" também saiu-se relativamente bem, conquistando segunda posição na Bélgica e Holanda, décima segunda no Reino Unido e vigésima segunda nos Estados Unidos, país onde o single de "Carrie" é o que atingiu a maior posição, chegando no terceiro lugar, e curiosamente atingindo como máximo apenas a décima posição na Irlanda e Suíça, fracassando nos demais países. "Cherokee" não conseguiu emplacar na Europa, e atingiu a modesta posição 72 nos Estados Unidos. Por fim, há também o raro single de "Love Chaser", lançado apenas no Japão, e que não emplacou por lá. Além disso, a canção está na trilha do filme World Grand Prix Pride One, em versões cantada e instrumental, assim como "Carrie" surge na trilha da mesma forma.

A banda começou a turnê de promoção de The Final Coundown no citado show de 29 de abril. O álbum era para ter saído um pouco antes disso, mas acabou atrasando devido a problemas com a capa. No dia do lançamento do disco, há 40 anos, o Europe encerrava a parte sueca da turnê com a segunda apresentação em dois dias (25 e 25) na cidade de Solna, no Solnahallnen, os quais foram filmados para uma transmissão televisiva que acabou culminando no clássico VHS/DVD The Final Countdown Tour ’86 (que originalmente, saiu somente - obviamente - no Japão).

Na sequência, foi a vez dos nipônicos receberem o Europe, onde eram tratados como deuses. O grupo aterrisou por lá em setembro de 1986, fazendo quatro show em Tóquio e ainda concertos em Nagoya e Osaka. Porém, apesar do sucesso, nem tudo era festa nos camarins do Europe. Norum sentia-se cada vez mais incomodado com as diferenças musicais que o Europe havia se tornado, bem como mostrava grande insatisfação com os caminhos que o empresário da banda, Thomas Erdtman, estava dando para os suecos. Em comum acordo, Norum decidiu ficar para a segunda parte da turnê sueca, a qual começou em Örebro no dia 26 de setembro de 1986, assim como a perna europeia, que incluiu apresentações em TVs locais e entrevistas. Porém, em 31 de outubro de 1986, após uma apresentação em Amsterdam, Holanda, Norum pulou da barca, alegando insatisfação com a quantidade de teclados no som do grupo, os quais, segundo ele, enterraram as guitarras.

VHS que cobriu a turnê do
quarentão The Final Countdown

Norum foi então substituído por Kee Marcello (ex-Easy Action), o qual estreia nos clipes de "Rock the Night", "Cherokee" e "Carrie", surgindo oficialmente ao público na apresentação de 12 de dezembro de 1986 na Alemanha, durante o Peters Popshow de Dortmund. Ainda na sequência da turnê, a apresentação no Hammersmith Odeon de 1987 acaba tornando-se o cobiçado VHS/Laser Disc The Final Countdown World Tour

Como curiosidade, anos depois, em 2007, oito das dez faixas do LP aparecem no filme Hot Rod. E para encerrar, The Final Countdown vendeu muito. Conquistou a primeira posição na Suécia (platina, com 100 mil cópias vendidas), Espanha (platina quádrupla, com 400 mil cópias vendidas), Finlândia (platina, com 70 mil cópias vendidas), e Suíça (platina, com 50 mil cópias vendidas), segunda na Itália, terceira na Austrália (platina dupla, com 140 mil cópias vendidas), Holanda (ouro, com 80 mil cópias vendidas) e Nova Zelândia, quarta na Noruega (platina, com 100 mil cópias vendidas), quinta na Áustria, sexta no Canadá (platina dupla, com 200 mil cópias vendidas) e Alemanha (ouro, com 250 mil cópias vendidas), oitava nos Estados Unidos (platina tripla, com 3 milhões de cópias vendidas) e nona no Reino Unido (ouro, com 100 mil cópias vendidas). O aniversariante já ultrapassa a marca de 12 milhões em vendas ao redor do mundo. 

Contra-capa do LP

Track list

1. The Final Countdown

2. Rock the Night

3. Carrie

4. Danger on the Track

5. Ninja

6. Cherokee

7. Time Has Come

8. Heart Of Stone

9. On The Loose

10. Love Chaser





terça-feira, 3 de março de 2026

Cinco Discos Para Conhecer: Willy Verdaguer



Nascido em 21 de julho de 1945 na Argentina, Willy Verdaguer é com certeza um dos maiores nomes da música da América Latina em todos os tempos. Ele construiu sua carreira musical no Brasil, onde veio morar nos anos 1960 e se destacou como contrabaixista, compositor, arranjador, diretor musical e maestro, gravando seu nome na cena da música brasileira tocando ao lado de gigantes da MPB, do Pop e do Rock nacional. São inúmeros discos ao longo de uma carreira de 60 anos, e selecionar apenas cinco foi difícil, mas aí vão eles. 

 Beat Boys - Beat Boys [1968]

Famosos por acompanharem Caetano Veloso no III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, em 1967, com "Alegria, Alegria", o Beat Boys foi um dos grandes nomes da psicodelia nacional no final dos anos 60. Comandados por Tony Osanah e Willy Verdager, o grupo foi pioneiro ao misturar rock e MPB em um festival de música popular, e logo ganhou espaço para lançar seu primeiro e único disco. O disco é rock 'n' roll puro misturado a muita psicodelia como atesta "Abrigo de Palavras em Caixas de Céu", curiosamente cantada em inglês, "Torta De Morangos", misturando espanhol e inglês, trazendo até citação de valsa, música clássica e tango, além da receita da torta dada em português, e a engraçada "Era Uma Menina", composta por Verdaguer, com um forte sotaque portenho e um interessante trecho orquestral. Verdaguer se destaca no arranjo para "Pauvre Cœur", de André Hossein e Gilles Thibaut aqui chamada "Pobre Coração", com o tocante tema de destaque do banjo, harmônica e orquestra, na monumental "Aria Para A Corda Sol", de Bach, na viajante "Abre, Sou Eu", onde órgão e guitarra chamam a atenção para esta faixa do italo-argentino Billy Bond, originalmente chamada "Abre, Soy Yo" (com quem Willy tinha sido parceiro no grupo Los Guantes Negros), e "Your Mother Should Know", dos Beatles, que virou a bonitinha "Coração Que Ninguém Mais Cantou", com um belo arranjo vocal, Temos ainda duas versões para faixas cantadas em inglês, "Wake Me, Shake Me" (de Al Kooper), alucinante e lembrando Animals da segunda metade dos 60, destacando a guitarra ácida de Osanah e o órgão de Toyo, além claro, da marcação fundamental do baixo de Verdaguer, e a linda versão de "A Time For Remembrance" (The Cowsills), com um belíssimo arranjo vocal, além da versão de "Green Tambourine" (Lemon Pipers), aqui batizada de "O Meu Tamborim". Psicodelia puramente latina para quem achava que os ácidos só contagiaram Estados Unidos e Reino Unido. 

Tony Osanah (guitarra e voz), Cacho Valdez (guitarra), Toyo (órgão), Willy Verdaguer (baixo) e Marcelo Frias (bateria)

1. A Felicidade

2. A Time For Remembrance

3. O Meu Tamborim

4. Era Uma Menina

5. Abre, Sou Eu

6. Abrigo De Palavras Em Caixas De Céu

7. Wake Me, Shake Me

8. Pobre Coração

9. Sempre Esperando

10. Canção Que Ninguém Mais Cantou

11. Aria Para 4ª Corda De Sol

12. Torta De Morangos


Caetano Veloso - Caetano Veloso [1968]

O disco de estreia de Caetano Veloso conta com os Beat Boys como banda de apoio em algumas faixas, e claro, Willy deixa sua marca lá. Se você admira o riff de guitarra e teclado no inicio da canção, e o andamento da clássica "Alegria, Alegria", saiba que o responsável por ambos é o argentino. Preste atenção e veja como é o baixo quem faz a sustentação para todos os demais instrumentos deste clássico da Tropicália. Não à toa, quem estuda música e arte no Brasil, reconhece que o arranjo dessa canção, de autoria de Willy, é um marco para a entrada da guitarra elétrica e do baixo elétrico na MPB, criando então o rock em nosso país. Mas há mais em Caetano Veloso e nas criações de Willy. Temos o sacolejante baixo na psicodélica "Anunciação", dando indícios do que Willy faria ano depois com o Secos & Molhados, e o agito de " Soy Loco Por Ti, América", onde o riff inicial é um dos mais marcantes da carreira de Willy, além de ele comandar o ritmo empolgante da festa que é esta animada canção. O Beat-Boys faz as bases ainda da balada-rock "No dia Que Eu Vim-me Embora", entoam a psicodelia tropicaliana em "Clara", e se divertem na sensacional "Ave-Maria", cantada em latim e tendo o baixo de Willy novamente como destaque, solando enquanto Caetano entoa sua "oração". Era a Tropicália começando a ferver, e semanas depois, explodir no Brasil com o sensacional Tropicália ou Panis Et Circensis, com os Mutantes ocupando o espaço dos Beat-Boys. Mas as bases já haviam sido lançadas aqui.

Caetano Veloso (Vocais, Violão)

Com: Cacho Valdez (guitarras em 3, 4, 6, 9, 10, 11)

Willy Verdaguer (baixo em 3, 4, 6, 9, 10, 11)

Tony Osanah (guitarras, violão em 3, 4, 6, 9, 10, 11)

Marcelo Frias (bateria em 3, 4, 6, 9, 10, 11)

Toyo (órgão em 3, 4, 6, 9, 10, 11)

Gal Costa (Vocais em 9)

Mutantes (banda de apoio em 12)

1. Tropicália

2. Clarice

3. No Dia Em Que Eu Vim-me Embora

4. Alegria, Alegria

5. Onde Andarás

6. Anunciação

7. Superbacana

8. Paisagem Útil

9. Clara

10. Soy Loco Por Tí, América

11. Ave Maria

12. Eles

Secos & Molhados - Secos & Molhados [1974]

Criador de riffs, Willy acabou apresentado à João Ricardo, e foi responsável por criar obras como a famosa introdução de "Sangue Latino", ou  o riffzão de "Amor", considerado o mais fundamental feito no Brasil, tornando Verdaguer uma referência no baixo, ambas presentes no álbum de estreia do Secos & Molhados. Mas ao meu ver, é no segundo disco da banda que ele consegue colocar realmente a mão na massa e fazer uma performance impressionante. Se não vejamos, o que é a estupidez de velocidade do riff de "Vôo", arrebentando as caixas de som com uma velocidade impressionante, mandando ver na palhetada como se fosse um riff de Heavy Metal. A mesma velocidade surge no riffzão de "Angústia", uma pancada que não entendo como ainda não foi feita uma versão completa com guitarras e um hammondzão, já que é puro hard setentista. Junto com o piano, é o monstro responsável para a base do vocal arrepiante de Ney Matogrosso no arrepiante blues "Delírio" (Cazuza certamente ouviu muito essa música para criar "O Tempo Não Pára"). Além disso, conduz "Flores Astrais" com maestria, em uma base que por si só é um lindo solo de baixo (acompanhe e se delicie com a linha do instrumento durante as vocalizações iniciais. as estrofes e o solo de flauta, além da marcação pulsante do refrão). Em "Hierofante", também o baixo é um instrumento de destaque, solando ao fundo ao invés de simplesmente fazer marcação do tempo, em escalas velozes que acompanha a furiosa guitarra de John (o trecho onde guitarra e baixo duelam é sensacional). Por mim, faz o simples, mas marcante, acompanhamento do pseudo-blues "Toada & Rock & Mambo & Tango & etc.", mostrando que também era um gigante quando tinha que fazer o básico. Um dos melhores trabalhos em toda a sua carreira. 

Ney Matogrosso (vocais), João Ricardo (vocais, violões, harmônica), Gerson Conrad (vocais)

John Flavin (violão solo em 1; guitarras em 2, 7, 8, 12 e 13), 

Jorge Omar (violão em 3, 5 e 10; viola em 10)

Emilio Carrera (piano em 2, 4, 7, 8, 9 e 12; órgão em 2 e 12; sanfona em 13)

Norival D'Angelo (bateria em 2, 6, 8, 12 e 13; timbales em 4, percussão em 7)

Sérgio Rosadas (flauta transversal em 2, 4 e 11)

Willie Verdaguer (violão baixo em 1, baixo em 2, 4, 6, 7, 8, 12 e 13), 

Triana Romero (castanholas em 1)

1. Tercer Mundo

2. Flores Astrais

3. Não: Não Digas nada

4. Medo Mulato

5. Oh! Mulher Infiel

6. Vôo

7. Angústia

8. O Hierofante

9. Caixinha de Música do João

10. O Doce e o Amargo

11. Preto Velho

12. Delírio

13. Toada & Rock & Mambo & Tanto & Etc. 


João Ricardo - João Ricardo [1975]

Ok, fica meio estranho colocar um disco do Secos & Molhados e este do João Ricardo aqui, mas é que a participação de Willy no álbum de estreia do eterno português é crucial. Se não, ouça suas linhas estonteantes de faixas como os rockaços "Rock E Role Comigo", "Se Sabe, Sabe" e "Salve-Se Quem Puder", na leve e hipnotizante "Janelas Verdes", onde seu baixo marca e sola conduzindo magnificamente esta linda canção. Sem sombra de dúvidas, seu trabalho na paulada "Viva E Deixe Viver" e no mini-épico prog "Sorte Cigana", esta forte candidata a melhor música de toda a carreira de João Ricardo (incluindo o Secos & Molhados), é um atestado final de por que o cara é um dos maiores baixistas da América Latina. E o que é o seu solo na introdução de "Balada Para Um Coiote"? E ainda resgatar o riff de "Amor" na mesma faixa, que coisa mais linda! Willy puxa o ritmo da caribenha "Os Metálicos Senhores Satânicos", e além disso, é responsável pelos arranjos de 10 das 11 canções do disco, com destaque para o de "Vira Safado" - com importante participação do baixo na marcação. Depois daqui, sua carreira perambulou por diversos outros gêneros, mas em termos de rock, João Ricardo para mim é a melhor performance de Willy ao baixo. 

João Ricardo (violão de 6 cordas, violão de 12 cordas, harmônica, percussão)

Roberto de Carvalho (guitarra, steel guitar), Emílio Carrera (órgão, piano, sintetizador, sanfona), Pestana (flauta, saxofone tenor, alto saxofone), Willy Verdaguer (baixo), Roberto De Barros (bateria)

1. Salve-Se Quem Puder

2. Vira Safado

3. Janelas Verdes

4. Sorte Cigana

5. Se Sabe, Sabe

6. Balada Para Um Coiote

7. Rock E Role Comigo

8. Fofoquinha 

9. Os Metálicos Senhores Satânicos

10. Doce Doçura

11. Viva E Deixe Viver

Verdaguer - Humauaca [1994]

A estreia de Willy em carreira solo acontece quase 30 anos depois de ele começar a sua carreira como músico, e é uma pedrada. Ao lado de um timaço musical, o músico cria aqui uma das melhores obras do progressivo nacional nos anos 90. Faixas como as complexas "Charara",  "Dança Dos Dedos" e "Jogo da Memória", atestam cada vez mais a genialidade de Verdaguer para criar riffs incríveis. As influências de nomes como King Crimson, Focus e Gentle Giant são nítidas aqui. Mas há bem mais do que os gigantes do prog europeu ao longo de Humauaca. Aprecie o ritmo dançante de "Nova Espanha", com ótima participação da flauta de Marcelo Mig e da guitarra de Marcelo Pizzarro, além de um solo magistral de Verdaguer, com o baixo carregado de efeitos, as lindas "Montanhas" e "Humauaca", as quais apresentam fortes inspirações latinas, tendo a faixa-título vocais que nos remetem ao Vox Dei de La Biblia, e o swing brazuca de "Galho de Arruda", trazendo Derico (aquele, do Sexteto do Jô) no saxofone, Derico este que dá um show à parte na já citada "Jogo da Memória". Quer curtir um blues portenho, vibre com seu uísque e rasgue seu portunhol cantando "Rara Vez". E fechando a audição, delicie-se com os mais de dez minutos de experimentações e variações em "Pulomelu", simplesmente sensacional. Daqueles discos quase desconhecidos, mas com uma qualidade imensurável!

Willy Verdaguer (baixo), Marcelo Pizzarro (guitarras), Tadeu Passareli (teclados), Marcelo Mig (flauta), Gilberto Faveri (bateria)

com

Eduardo Avena (percussão)

Derico Sciotti (saxofone)

Luiz De Boni (sintetizador em 4)

Billy Bond (vocais em 4 e 9)

1. Dança Dos Dedos

2. Nova Espanha

3. Charara

4. Humahuaca

5. Pulomelu

6. Galho De Arruda

7. Montanhas

8. Jogo Da Memória

9. Rara Vez

Bônus Track

Inspirado pelo meu amigo e colega de Consultoria do Rock Marcello Zapelini, e com uma discografia tão vasta, ficar apenas em cinco discos de Willy é muito pouco. Sendo assim, incluo aqui um bônus, para atiçar ainda mais a curiosidade do leitor.

Raíces de América - Fruto do Suor [1982]

Surgido no Brasil para um espetáculo musical, com produção e direção a cargo do produtor Enrique Bergen, como uma espécie de união contra a ditadura que assolava a América do Sul nos anos 70, o Raíces da América uniu músicos argentinos, chilenos e brasileiros, e dentre eles, Willy Verdaguer e o velho parceiro Tony Osanah. Seus dois primeiros álbuns traziam fortes críticas à opressão que o povo latino-americano sofria contra os militares, mas é em Fruto do Suor que o grupo se torna um dos queridinhos dos movimentos estudantis Brasil (e por que não, América Latina inteira) à fora. Baseado em um som carregado de temas políticos, folclóricos, cotidianos e musicais, que privilegia as raízes musicais dos países supracitados, o Raíces da América tem exatamente em Willy  um dos seus pilares centrais. Ele compôs a folclórica "Pajarito Gorríon", mas não é como compositor que ele brilha, mas sim, ao violão, e claro, no baixo. Sua veia de criar ótimos riffs está no violão-baixo de "Charanguito" (admire a linha que ele constrói aqui), na ótima "Canción Con Todos", com o baixo carregado de efeitos, ou na flamenca "Angelitos Negros", cujo baixo retumba junto das castanholas de forma espetacular. Mas são versões mais que fantásticas que se destacam ao longo de Fruto do Suor. O grupo revisita a linda "Pedro Nadie", obra do ítalo-argentino Piero, que havia ganho o V Festival Internacional da Canção de 1970, saudando o trabalhador do campo, mandam ver em uma épica versão para "O Violeiro" de Elomar, aqui batizada "El Guitarreiro", emocionam na fundamental "Canción Para La Unidad Latinoamericana" de Pablo Milanés, com um show a parte do baixo de Willy, e eternizam uma das mais belas versões para "O Que Será" (Chico Buarque), com Willy brilhando agora ao violão e também no órgão. A versão para "Soy Loco Por Ti América" (de Gil, Capinan e Torquato Neto) sacudiu bastante o povo brasileiro, e claro, o baixo de Willy marca presença no riff inicial e conduzindo essa dança com muita energia, assim como fôra em Caetano Veloso. O ápice do álbum é a faixa-título, obra-prima na carreira de Tony Osanah e Enrique Bergen, cuja linha de baixo de Willy conduz o forte texto da dupla, exaltando a força dos imigrantes que auxiliaram a construir a América do Sul, e que por diversas atrocidades e interesses, separaram em países povos irmãos, clamando por não serem chamados de estrangeiros, em um país construído por todos e que não tem dono, A canção foi segunda colocada no Festival MPB Shell de 1982, promovido pela Rede Globo, e tornou-se o hino dos imigrantes latinos que vivem no Brasil. Disco fundamental em qualquer Diretório Acadêmico das universidades de nosso continente, de um grupo que eternizou um momento triste que infelizmente, as vezes parece querer retornar para assombrar nossas vidas. 


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