quarta-feira, 8 de julho de 2026

45 Anos de Paradise Theater


As efemérides relacionadas ao Styx são bem interessantes no quesito número 6. Dois de seus principais discos completam 50 e 45 anos, respectivamente, em 2026 (e um deles ainda envolve 1996, um ano crucial na história dos estadunidenses de Chicago). Estou falando de Crystal Ball e Paradise Theatre. Hoje, trago a história do segundo, o qual já completou sua efeméride em janeiro, como veremos adiante, deixando para daqui alguns meses a importância dos 50 anos de Crystal Ball.

Styx em 1981. Da esquerda para direita:
Dennis De Young, James “JY” Young, Tommy Shaw, John Panozzo e Chuck Panozzo

O Styx havia lançado Cornerstone em 1979, quarto álbum (nono na carreira dos caras) de uma sequência impecável que consolidou aquela que é considerada a formação clássica, com Dennis DeYoung (vocais, teclados, piano), James "JY" Young (vocais, guitarras), Tommy Shaw (vocais, guitarras, vocoder), e os irmãos gêmeos Chuck Panozzo (baixo, pedal bass) e John Panozzo (bateria, percussão). O álbum trouxe o mega-hit "Babe", responsável por colocar o Styx na segunda posição em vendas nos charts da Billboard, onde permaneceu por 60 semanas.

Porém, o sucesso de "Babe" fez com que o ego de DeYoung, compositor e cantor da canção, inflasse, pressionando por uma direção mais comercial para o som do grupo, enquanto Shaw e Young queriam manter o som mais ligado ao hard/prog de álbuns como Crystal Ball e The Grand Illusion. Durante a turnê de promoção de Cornerstone, a guerra sobre a direção musical só aumentou, até que no início de 1980, o mundo foi surpreendido pela demissão de DeYoung, após uma discussão acirrada entre ele e Shaw sobre qual deveria ser o segundo single de Cornerstone, no caso a balada "First Time" (defendida por DeYoung) ou o rock "Why Me" (defendida por Shaw, que ameaçou sair se "First Time" fosse lançada). A gravadora do quinteto, a A&M, preferiu não perder Shaw, e com isso, DeYoung foi demitido (ou pediu demissão, uma história até hoje controversa). No entanto, em pouco tempo o restante do Styx voltou atrás, e chamou novamente DeYoung para fazer parte do quinteto. Com isso, e com DeYoung cada vez mais líder absoluto do Styx, o grupo vinha dividido para o seu quinto álbum com esta formação (e o décimo na discografia). 

O Teatro que deu nome e inspiração ao álbum de 1981

Ao mesmo tempo, os Estados Unidos estavam passando por uma grande depressão econômica, e ainda o período eleitoral que elegeu Ronald Reagan como seu 40° presidente. Isto tudo abalava DeYoung, que sempre foi um apaixonado por seu país. Eis que um belo dia, caminhando por uma galeria de artes, DeYoung se deparou com a serigrafia de Robert Addison, a qual retratava o Paradise, um teatro de Chicago, localizado na 231 N. Pulaski Road, 60624, inaugurado em 1928 com muita opulência e festividade, tido como um dos maiores teatros do mundo. Mas, durante os anos 30, com a chegada do cinema falado e posteriormente da TV, começou sua decadência, já que o teatro não havia sido projetado para ter uma acústica grandiosa como a das telas do cinema. O Teatro ainda sobreviveu por mais alguns anos, abrigando todos os tipos de mal encarados, mendigos, prostitutas e negócios ilícitos, até ser fechado em 1956 (olha a efeméride) por abandono, e totalmente demolido em 7 de julho de 1958 (há exatos 68 anos).

Ao ver a arte do teatro em ruínas, com a frase estampada “Closed Indefinitely”, DeYoung imaginou que aquilo seria a metáfora perfeita para os Estados Unidos de 1980, e sentiu-se livre para criar uma obra conceitual e ao mesmo crítica. Em suas palavras: “o álbum traz um conceito de esperança e renovação no espírito do povo americano para compreender os problemas que o mundo e este país enfrentam, e encontrar soluções para esses problemas por si mesmos. Não dependa de heróis para fazer o que você deve fazer por si mesmo. Se você odeia seu trabalho, mas tem um sonho, então corra atrás dele. Só não fique sentado reclamando.” Ele segue, com a frase que usou em todos os shows da turnê de Paradise Theater: “a origem deste disco foi em 1975, quando todo mundo, TV, rádios, jornais, um ano antes de acontecer (n. r. 4 de julho de 1976) estavam estampando com orgulho o bicentenário de nossa independência. Ali surgiu algo em minha mente, que coloquei em palavras em ‘Suite Madame Blue’, do Equinox“. A história tem um paralelo, portanto, entre o que ocorreu com o Teatro e o que ocorreu com o povo estadunidense, com cada música fazendo alusão direta ao Teatro, mas implicitamente, contando a história do período pós-Segunda Guerra no país até 1980 (um período exato de 30 anos).

A arte que inspirou a criação de Paradise Theater

Contextualizando, depois da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos viveram um auge econômico que durou toda a década de 50 e boa parte dos anos 60. Porém, escândalos como os do governo Nixon, o assassinato de John Kennedy, a guerra do Vietnã, entre outros, levaram o país a uma decadência terrível. Em 1980, a inflação estadunidense era de 13,5% ao ano, levando à chamada Crise do Petróleo, com muitos postos ficando sem o combustível. Além disso, somente em 1980, o desemprego saltou de 7,5% para 10,8%, isso em pouco mais de seis meses, com cidades gigantes como Chicago, Detroit, Cleveland e até mesmo Seattle a fechar fábricas e perder população. Por fim, a eleição de 1980 (citada no início do texto) foi entre o democrata Jimmy Carter, então presidente dos Estados Unidos, e o ator republicano Ronald Reagan, o que causava uma sensação de desesperança ainda maior entre o povo estadunidense (o que no Brasil alguns diriam ser “uma escolha difícil”), com Reagan tomando posse em 20 de janeiro de 1981.

Um dia antes, em 19 de janeiro de 1981, chegava às lojas Paradise Theater, a sensacional obra metafórica de Dennis DeYoung e Styx para criticar seu próprio país.  Para criar tal obra, DeYoung trouxe músicos extras, empregando um naipe de metais chamado de Hangalator Horn Section, composto por Steve Eisen (saxofone), Bill Simpson (saxofones), Mike Halpin (trombone), John Haynor (trombone),  Dan Barber (trompete), Mark Ohlsen (trompete, flugelhorn), além dos arranjos de Ed Tossing, que criaram canções únicas e memoráveis. 

Single de “Rockin’ the Paradise”

"A.D. 1928" abre os trabalhos, apenas com o piano fazendo a imortal melodia da canção, e DeYoung exaltando a inauguração do Paradise: "Tonight's the night we'll make history / as sure as dogs can fly / And I'll take any risk to tie back the hands of time / And stay with you here all night". É o início do teatro, e a canção exalta a coragem e determinação, e uma certa arrogância da grandiosidade que irá se esperar do teatro. A letra segue "So take your seats and don't be late, we need your spirits high / To turn on these theatre lights and brighten the darkest skies / here in the Paradise". Com este convite para a inauguração, simbolizando a grandiosidade e o otimismo de uma estreia, a chegada de algo novo, começa então "Rockin' the Paradise". 

Animada, com um riff pegado e um ritmo puro rock 'n' roll, a canção mostra o auge do teatro, com uma energia absurda, que mistura peso, rock anos 50 e o ritmo quadrado dos anos 80. A primeira parte faz referência às críticas aos jovens que são considerados preguiçosos, mas que estão esperançosos de uma vida melhor, enquanto a segunda estrofe solta a raiva destes jovens que "não precisam de lucros rápidos ... somente algum filho da puta que trabalhe duro". 

A canção segue no mesmo ritmo, enaltecendo ainda mais estes jovens que "não precisam lutar, e sim desafiar os controladores" em busca de orgulho e de uma nova vida, agitando no Paradise. Para DeYoung: "Um dos maiores crimes nos Estados Unidos é as pessoas não se sentirem úteis. As pessoas precisam se sentir como uma parte útil da sociedade, porque elas são. Precisamos fazer com que as pessoas acreditem em si mesmas — que elas são importantes."

No contexto paralelo com os Estados Unidos, é a força do povo estadunidense se reerguendo após a Segunda Guerra. Chamo atenção para o uso do piano aqui, relembrando musicalmente a sonoridade dos anos 30, algo antigo. O solo da guitarra, com o piano ao fundo, é para dançar animadamente, e a performance de John é muito boa, Disparada a faixa mais alegre do disco, reflete portanto o surgimento de algo novo, o Paradise, e na metáfora, a chegada de uma nova geração de pessoas. 

Compacto de “Too Much Time On My Hands”

A sequência vem com os sintetizadores trazendo uma modernidade para o Paradise, o início do cinema falado, o qual está em "Too Much Time on My Hands", cantada e composta por Shaw. O Teatro está modificado, tentando se adaptar aos novos tempos, mas por alguma razão, não há mais o mesmo sucesso do seu início. A letra destaca alguém que acaba desempregado, e que se sente um "criminoso que não foi preso". 

É o início da decadência do Teatro, e consequentemente, um retrato do aumento do desemprego no país no início dos anos 70. Uma das canções de maior sucesso do Styx (ao lado de “Lady”), com suas palmas no refrão que qualquer fã da banda adora fazer, e claro, mais um belo solo das guitarras, acompanhadas pelos sintetizadores. O andamento quadradão, a simplicidade dos acordes de guitarra, o refrão extremamente grudento (quem nunca se pegou cantando o refrão ou fazendo os " t-t-t-t-ts" do refrão, dando aquela dançadinha marota a lá Bowie??) e as citadas palmas entre as palavras que formam o nome da canção, animaram muitas festas adolescentes durante os anos 80. 

Compacto japonês de
“Nothing Ever Goes As Planned”

"Nothing Ever Goes as Planned" muda novamente a sonoridade, ainda mais moderna, começando com a bela introdução e o solo da guitarra de Shaw, apresentando citações ao reggae, e cantada por DeYoung, e a primeira a trazer o naipe de metais. Destaque para o solo carregado de wah-wah, além de mais um refrão grudento ("nothing ever goes as planned/It's a hell of a notion/Even Pharaohs turn to sand/Like a drop in the ocean"). 

Liricamente, é o retrato da visão de fracasso que chega ao Teatro (e dos Estados Unidos). Tudo o que havia sido comemorado começa a naufragar, dar errado, igual aos grandes faraós que não resistiram ao tempo. Isto gera uma forte frustração ao Paradise, e ao encerramento do Lado A com a nostálgica "The Best of Times". 


Compacto de “The Best of Times” (leia o texto)

Outro grande sucesso de Paradise Theater,  ela retoma a melodia de “A.D. 1928", mas com a melancolia tomando conta da letra, no lugar da alegria da faixa de abertura: "I know you feel these are the worst of times / I do believe it's true / When people lock their doors and hide inside / Rumor has it it's the end of Paradise". Os melhores tempos do Paradise estão apenas na memória, e em um mundo de ponta cabeça, o narrador lembra-se desse passado ainda esperançoso, apesar de ver as ruínas do Teatro.

Em sua vida vida pessoal, com tudo que está destruindo-o profissionalmente, tem-se de bom as lembranças e a companhia da pessoa amada. O Teatro fecha suas portas, e a canção conclui que "The best of times are when I'm alone with you", como canta DeYoung em outro refrão enormemente conhecido, tendo aquela harmonia vocal que somente o Styx conseguia fazer (OK, o Queen também fazia algo similar no início de carreira) em uma das baladas mais famosas da história do grupo. 

Nas palavras de DeYoung sobre a canção, "Ela veio pra mim porque eu estava tentando entender o que é que me permite enfrentar as mudanças no mundo e no nosso país. E eu decidi: 'Bom, o amor é uma coisa boa'. Se você tem alguém em quem confia pra te apoiar e você apoia essa pessoa, isso é fundamentalmente algo bom". O personagem da música encontra consolo se fechando, trancando a porta, abaixando as persianas e ficando no abraço de alguém em quem confia e ama". O Paradise está ruindo, os Estados Unidos vivem do saudosismo, e então, entramos no complexo e pesado lado B de Paradise Theater

Capa gatefold interna de Paradise Theater

Abrindo os trabalhos, temos "Lonely People", com o barulho da chuva, trovões, gritos e um saxofone que sola endiabrado. O tempo passou, e agora,  o Teatro está vazio, sozinho, apenas com os mendigos dormindo em seu interior. O arranjo de metais e o peso das guitarras apresentam o refrão marcante, trazendo a voz de DeYoung, que narra as últimas apresentações de cinema no Teatro vazio. O narrador assiste um filme de James Cagney (galã do cinema estadunidense nos anos 30 e 40), e percebe que são os últimos dias do local que lhe deu tanta alegria. A analogia vai com os Estados Unidos isolado durante a guerra fria. A melodia e o arranjo da canção retratam fielmente os pesados momentos de vazio do Teatro através das guitarras, com destaque para os solos de Tommy e JY. Chama a atenção o estranho solo dos sintetizadores, e o ótimo solo de JY, além do peso da canção, muito diferente do que ouvimos no lado A. 

Com a voz delicada de Shaw, "She Cares" retrata o momento onde o Teatro se vê às moscas, mas tem esperanças de que ainda há alguém que se importa com ele, fazendo referência aos soldados estadunidenses que foram para a guerra do Vietnã, com as namoradas/esposas que independente do que acontecer na guerra, estarão esperando por eles. A canção tem um certo ar de ballad-rock dos anos 50, bastante melancólica, e os "wow-wow-wow" tipicamente cinquentistas, destacando o solo de Eisen no saxofone, carregando para o dramático fim do Paradise. 

A linda versão em vinil, gravada a laser

Isso começa em "Snowblind", que entrega a autodestruição do Teatro, que passa a ser usado por traficantes. O dedilhado nervoso do piano traz a assombrosa voz de JY, com o Teatro "olhando-se no espelho", no seu momento de declínio, chocado com o que está vendo, e leva aos vocais de Shaw, no seu momento totalmente "cego pela neve" (gíria para "chapado de cocaína") que toma conta do Teatro. São os altos (Shaw) e baixos (JY) do vício em cocaína que tomou conta de uma geração estadunidense na década de 70, estampados através dos vocais. É uma crítica forte ao consumo das drogas, direta, sem firulas. Que baita solo de JY aqui, com muitos bends e notas velozes, e que música sensacional. O andamento levemente blueseiro dá um charme especial para esta canção, que gerou polêmica após grupos religiosos e a comunidade do Parents Music Resource Center (PMRC) alegarem supostas mensagens satânicas escondidas na mesma, quando ouvida ao contrário. 

Segundo eles, a afirmação era de que a frase "I try so hard to make it so" ("eu tento tanto fazer dar certo") surgia como "Satan moves through our voices" ("Satã se movimenta através de nossas vozes"). DeYoung debochou da história, alegando que: "Quem toca nossos discos ao contrário é o Anticristo. A gente já tem dificuldade suficiente pra fazer esses discos soarem certo tocando do jeito certo. As pessoas não têm nada melhor pra fazer? É o Styx. Vocês conseguem imaginar atacar os caras que fizeram 'Babe'? Ah, pelo amor de Deus". JY foi o mais veemente em rebater esta afirmação, chegando a dizer que "Se fôssemos colocar alguma mensagem em nossas músicas, teríamos colocado de forma que estivesse na música normalmente. Não de um jeito que você precisasse comprar um gravador de fita de US$ 400 para ouvir". Posteriormente, o Styx realmente incluiu mensagens de trás para frente no álbum seguinte, Kilroy Was Here, outro disco conceitual falando sobre a censura ao rock (as mensagens foram colocadas propositalmente, para zoar mesmo os grupos religiosos e o PMRC).

Dennis DeYoung, o mestre de cerimônias e criador da obra aqui apresentada

Finalmente, o Teatro é tomado por traficantes, mendigos, divorciados e falidos que pedem trocados na sua porta, já fechado. É "Half-Penny, Two-Penny", uma das melhores canções da carreira do Styx, e que também faz uma auto-referência, com um ritmo que lembra muito o sucesso "Miss America", lançado pela banda em The Grand Illusion (1978). O ritmo disco, com as guitarras pesadas de JY e Shaw, nos remete facilmente ao fim dos anos 70. O sonho americano virou esmola, mas é o jeito americano de ser "Justice for money what can you say / Yes, Mrs. Cleaver your son's home to stay / We all know it's the American Way", com Mrs. Cleaver sendo a personagem June Cleaver, da série "Leave It to Beaver" (no Brasil, Aquele Beijo), que foi ao ar nos anos 50, e tinha na senhora Cleaver o exemplo de Dona de Casa perfeita, com um padrão de perfeição pomposo, de vestido, pérolas, maquiada e salto alto, mesmo só pra lavar louça ou cuidar do jardim. Uma crítica ao exibicionismo das elites estadunidenses que não importam-se com os "inferiores". 

O refrão traz esperanças com um possível fim do Paradise, a possibilidade de algo novo surgir daquela imundice. Uma paulada, com o ótimo riff das guitarras e um excelente andamento de John e Chuck. A marcação do baixo é grudenta e dançante, além do riff, que cantarolamos sem querer junto à voz de James. A mudança no emotivo refrão, os barulhos de britadeiras e máquinas que levam à demolição do Paradise Theater, inclusive por pessoas que frequentaram o lugar quando eram crianças e jovens, entre acordes de piano, o badalar de um sino torturante, e o sempre marcante baixo de Chuck, são os pontos principais dessa excelente e incrível faixa  (impossível ouvir e não lembrar de "Run Like Hell", do Pink Floyd). Ao mesmo tempo, as conversas entre a demolição são pauladas críticas ao governo estadunidense ("What the hell you doin’? / We’re tearing this old building down here / Oh you’re kiddin’ me, remember when we were kids / And we used to come here every Saturday afternoon to see a cartoon? / Yeah, I remember / Well what’s she lost to? / Who knows politicians, taxes it’s a disgrace / I’m not surprised, they make me sick"). Pancada na cabeça dos políticos, e a faixa encerra-se com os excelentes solos de JY, Tommy e, após uma mudança sonora, o lindo solo de sax de Eisen. 

DeYoung volta com o piano que começou o álbum em "A.D. 1958", mas agora com um tom melancólico. A mesma melodia de “A.D. 1928” e da introdução de “The Best of Times” reaparece, mas com diferença na letra, que agora cita a existência do Teatro apenas na memória daqueles que o acompanharam. "And so, my friends, we'll say goodnight / for time has claimed his prize / but tonight can always last / as long as we keep alive / the memories of Paradise". O Teatro é demolido, fechando o ciclo e abrindo uma nova era de esperanças, construções e pessoas, que acabarão passando por todas as etapas de ascensão e queda novamente, e novamente, e novamente ...  Por fim, "State Street Sadie" é uma "faixa escondida" homenageando uma famosa rua de Chicago, a State Street, com "Sadie" representando a decadência. É apenas uma vinheta ao piano, em ritmo blues, mas com um certo ar de alegria nostálgica, fechando sublimemente este espetáculo de disco.

Notícia sobre a demolição do Paradise Theater, ocorrida há 68 anos

Um ótimo álbum, que identificou com precisão as rachaduras crescentes nas fundações da sociedade atual (mesmo sendo em 1981), e previu tudo o que encontramos hoje sobre a polarização política, o ufanismo barato dos 15 minutos de fama na internet, e o fracasso subsequente que demole por completo famílias e lares não só nos Estados Unidos, mas pelo mundo. 

Paradise Theater atingiu a primeira posição nos Estados Unidos, onde permaneceu por três semanas consecutivas, entre abril e maio de 1981. O disco vendeu muito, com mais de 3 milhões de cópias nos Estados Unidos (platina tripla) até os dias de hoje, tornando-se o maior sucesso comercial do Styx, e foi também o quarto álbum consecutivo da banda a receber a certificação de platina tripla pela RIAA. Para se ter uma ideia, além de primeiro nos EUA, o disco vendeu demais ao redor do mundo, sendo que, por exemplo, ficou em segundo na Argentina (80 mil cópias), terceiro no Canadá (platina, com 100 mil cópias), quinto na Noruega, sexto na Suécia, sétimo na Suíça (ouro, com 25 mil cópias), oitavo no Reino Unido (prata, com 60 mil cópias, maior colocação da banda por lá) e ainda nos 30 mais na Austrália, Alemanha, Holanda e Nova Zelândia.

O compacto gravado a laser, primeiro na história

Quatro singles do álbum entraram nas paradas musicais, com duas músicas alcançando o Top 10. O primeiro single, "The Best of Times " chegou ao 3º lugar na Billboard, por onde permaneceu por quatro semanas, décimo no Canadá e 42° no Reino Unido. Vale lembrar que este foi o primeiro single do mundo a ser lançado com vinil gravado a laser, como estampa o sticker do mesmo. Na sequência, veio "Too Much Time on My Hands ", que foi ao 9º lugar na Billboard - único hit de Shaw no Top 10 com o Styx - e quarto no Canadá. "Nothing Ever Goes as Planned " alcançou somente o 54º lugar, e "Rockin' the Paradise " foi 8º lugar na parada Top Rock Tracks, sendo que seu vídeo clipe foi o décimo a rolar na história da MTV (sempre lembrando que o primeiro clipe foi "Video Killed the Radio Star, do Buggles), na madrugada do dia 1 de agosto de 1981.

Uma versão limitada do vinil apresenta uma imagem da decoração do Teatro gravada em laser dentro dos sulcos do LP (algumas cópias, o design era em cera), tornando-se mais um atrativo junto da qualidade sonora de Paradise Theater. Um fato curioso da capa, pintada pelo artista Chris Hopkins, é que nela, o nome do álbum está Paradise Theatre, enquanto na contracapa e no selo, o título do disco está escrito Paradise Theater,  e na lombada, somente "Paradise". A ideia justamente era causar confusão e uma espécie de ciclo, assim como o conceito geral do álbum. Em seu interior, uma manchete de época retrata o fim da demolição do teatro, em 7 de julho de 1958, e comenta que era um dos maiores teatros já construídos, mas que com a chegada da televisão, acabou sendo abandonado.

James “JY” Young e Tommy Shaw na turnê de Paradise Theater

Uma ambiciosa turnê mundial teve início em 1981, sendo a turnê de maior bilheteria do quinteto (e a época, uma das maiores da história). Inspirada na Broadway e no cinema, o show trazia uma abertura dramática, com um personagem varrendo o teatro sozinho, ao lado de um piano, de onde surgia DeYoung para interpretar "A. D. 1928", emendada com "Rockin' The Paradise", sendo que oito das onze canções de Paradise Theater compunham o set list do show (apenas "Nothing Has Gone Planned", "Lonely People" e "She Cares" ficaram de fora). Encerrando o  show, a mesma sequência final do álbum, com "Half Penny, Two Penny" (tendo todos os barulhos de demolição do teatro) e "A. D. 1958".

O palco remontava a fachada do Paradise, através de luzes brilhantes de neon, como mostra a capa do single com estas duas canções. As luzes alternavam seu brilho, frequências de oscilação, entre outros, lembrando o famoso arco-íris do Rainbow. Cada músico vinha trajado como um "personagem" ligado ao cinema, com JY e Shaw sendo os limpadores, Chuck o garçom, John o garoto que ia assistir aos filmes e DeYoung o Mestre de Cerimônias. Ao final, o telão exibia os créditos do show, trazendo manchetes de jornal apresentando cada um dos integrantes, e o nome de cada colaborador do show, como um filme tradicional. 

Ingresso da Paradise Theater Tour

O Styx seguiu seus caminhos conturbados com mais um álbum conceitual, o já citado (e igualmente excelente) Kilroy Was Here, e uma longa turnê que culminou no primeiro ao vivo da banda, Caught in the Act Live (1984). Porém, o clima entre Shaw e DeYoung já não existia, e após o fim da turnê, a banda se dissolveu. O futuro reservou um retorno inesperado de DeYoung e Shaw tocando juntos nos anos 90, com o Styx apresentando Paradise Theater novamente nos palcos, registrado no excelente CD e DVD Return to Paradise, lançado em 1996 (olha aí, 30 anos atrás). 

Falando então nas efemérides, como citei no início, daqui alguns meses contarei a história de um dos melhores trabalhos da banda, e igualmente marcante para sua história: Crystal Ball (1976). Até lá, para quem não é fã, aproveitem para conhecer uma discografia praticamente impecável, e para quem já é fã, deliciem-se ouvindo, dançando, batendo palmas ou simplesmente apreciando um daqueles discos essenciais na história da música pop mundial. 

Contra-capa de Paradise Theater

Track list

1. AD 1928

2. Rockin' the Paradies

3. Too Much Time On My Hands

4. Nothing Has Gone Planned

5. The Best Of Times

6. Lonely People

7. She Cares

8. Snowblind

9. Half Penny, Two Penny

10. AD 1958

11. State Street Sadie 

terça-feira, 30 de junho de 2026

Cinco Discos Para Conhecer: Brasileiros em Montreux



Inspirado pelas excelentes postagens do meu amigo Marcello Zapelini na Consultoria do Rock, trago hoje uma indicação de Cinco Discos (e mais três bonus tracks) Para Conhecer envolvendo artistas brasileiros que se apresentaram no tradicional festival Suíço. O Brasil teve sua primeira participação no evento de Claude Nobs em 1974, com Milton Nascimento e Flora Purim, e de lá para cá, garantiu diversas "Brazilian Nights", levando a brasilidade para os europeus se deleitarem. Muitos discos foram lançados com registros destas apresentações, e trago aqui aqueles que não necessariamente são os melhores, mas os que de alguma forma são os que particularmente mais me agradam.

Gilberto Gil - Ao Vivo [1978]

A noite de 14 de julho de 1978 entrou para a história do festival de Montreux, muito por conta da apresentação de Gilberto Gil, e que felizmente foi registrada neste belíssimo disco (e também está disponível em vídeo em sites como os YouTubes da vida). Naquele que, até então, foi o maior público do festival, com 3700 pessoas, Gil e uma super banda (ver abaixo) entreteram a plateia da 12a edição do evento de um jeito que somente ele conseguia fazer. Falando tranquilamente em francês, o baiano eleva sua apresentação rapidamente, transformando o cassino de Montreux em uma festa brasileira. O repertório traz canções dos Doces Bárbaros ("Chuck Berry Fields Forever", com letra cantada em inglês,  ainda para uma plateia em marcha lenta, e "São João, Xangô Menino", já levantando o pessoal), homenagem à Luiz Gonzaga (a acelerada "Respeita Januário", que começa a colocar a casa abaixo) e duas faixas da carreira solo de Gil, "Chororô" e "Ela". Porém, são os delirantes improvisos de "Bat Macumba", com citação à "Exaltação À Mangueira" e Gil convocando a plateia para cantar o nome da canção entre muita percussão e palmas, e principalmente, "Procissão", mesclando ainda "Atrás do Trio Elétrico", de Caetano, e fazendo os suíços entoarem "Mamãe Eu Quero" a plenos pulmões, os auges com mais de 11 minutos de duração, de um show eu teve nada mais nada menos que cinco Bis, graças a um público ensandecido que não parava de aplaudir Gil. Em um desses bis, Patrick Moraz e A Cor do Som subiram ao palco para acompanhar o baiano em uma jam session, registrada sob o título "Triole (Jam Session)". As canções em sua maioria são longas, exploratórias musicalmente, mostrando um Gil totalmente solto para desfilar seu talento e carisma. Era o Brasil finalmente fincando seus pés no mercado europeu, e para uma imprensa mundial que ficou excitadíssima com um de nossos maiores representantes musicais. 

Gil (violão, vocais), Rubão (baixo), Pepeu Gomes (guitarra, vocais), Mú Carvalho (teclados, vocais), Jorginho Gomes (bateria) e Djalma Corrêa (percussão)

Participação

A Cor do Som, Ivinho, Patrick Moraz, Mazola e Guti (faixa 8)

1. Chuck Berry Fields Forever

2. Chororô

3. São João, Xangô Menino

4. Respeita Januário

5. Ela

6. Bat Macumba / Exaltação À Mangueira

7. Procissão / Atrás Do Trio Elétrico / Mamãe Eu Quero

8. Triole (Jam Session)

A Cor Do Som - Ao Vivo no Montreux Internacional Jazz Festival [1978]

Na mesma data que Gil enlouqueceu os europeus, pouco antes A Cor do Som também já tinha causado um grande alvoroço. Com uma apresentação de pouco mais de meia hora, para uma plateia formada quase que exclusivamente por jovens, a trupe de Armandinho, Dadi, Mu, Ary e Gustavo (acompanhados ainda por Aroldo Macedo, irmão de Armandinho), fez a primeira apresentação de um grupo brasileiro no festival, e foi tão ovacionada que levou Nobs a encaixá-los em mais uma apresentação à noite. Porém, o público noturno era mais "conservador", e acabou não dando a mesma receptividade aos brasileiros. Resultado: um disco que mostra o fervor da tarde e as vaias da noite sem medo de ser feliz, mas acima de tudo, como este grupo tinha uma capacidade instrumental muito acima dos padrões (vale lembrar que apesar de serem músicos experientes, este é apenas o segundo disco dos caras, e ainda totalmente instrumental). A guitarra e o moog são as atrações de "Dança Saci", ótima faixa para apresentar os dotes musicais do jovem Mú (com apenas 21 anos) aos europeus, o qual comanda o ritmo animado de "Brejeiro" (Ernesto Nazareth) ao piano elétrico. Em "Chegando Da Terra", a perfeição do duelo entre Armandinho e Mú, com uma velocidade impressionante nas notas, é de deixar qualquer um extasiado. Os dois inegavelmente são os músicos centrais, mas também, com a poderosa percussão de Gustavo e Ary, além das bases de Dadi, não tem como a coisa não funcionar (Aroldo participa de algumas das canções apenas). "Cochabamba" e "Festa Na Rua" são faixas virtuosísticas, mas que mostram a vaia comendo solta, enquanto  "Espírito Infantil" e a inesperada "Eleanor Rigby", voltada para o frevo,  apresentam a criatividade na (re)criação de peças com sonoridade puramente brasileira, e com uma complexidade absurda.  Nesta linha, é na sensacional versão de mais de dez minutos de "Arpoador" que os membros d'A Cor Do Som mostram todas as suas capacidades musicais, nesta que é um dos clássicos da banda, onde cada um recebe um pequeno momento solo - difícil saber qual o melhor - sobre uma base avassaladora criada pela genial mente brilhante de Dadi ao baixo, e extrapolando virtuosismo. Uma pequena constelação de estrelas gigantes, e que infelizmente, mudaram seu som radicalmente nos anos 80, sem nunca mais conseguir ter o brilho e a inovação musical de seus dois primeiros e essenciais álbuns. 

Armandinho (guitarra, guitarra baiana), Dadi (baixo), Mú Carvalho (teclados, sintetizadores), Gustavo Schroeter (bateria), Ary Dias (percussão)

Com

Aroldo Macedo (guitarras em 4, 5, 6, 7 e 8)

1. Dança Saci

2. Chegando da Terra

3. Arpoador

4. Cochabamba

5. Brejeiro

6. Espírito Infantil

7. Festa na Rua

8. Eleanor Rigby

Hermeto Pascoal - Ao Vivo Montreux Jazz [1979]

Depois do sucesso de Gil, no ano seguinte foi a vez de outros dois gigantes brilharem na Suíça (e virem parar aqui neste Cinco Discos), naquela que foi conhecida como a primeira Brazilian Night do festival. O primeiro deles é o mago albino Hermeto Pascoal, o qual vinha de gravações com Miles Davis e era idolatrado entre os jazzistas europeus, que o chamavam de "O Bruxo Dos Sons". Nobs o apresenta como "O grupo que irá vir em poucos minutos desenvolveu um incrível sentido de tons, ritmos, harmonias, composição e improviso, absolutamente único. A mistura é simplesmente incrível". Logo na apresentação da banda os urros vindos da plateia já são ensurdecedores, e quando o nome de Hermeto é chamado, bom, aí a casa vem abaixo. A intrincação de "Pintando o Sete", "Maturi" e "Quebrando Tudo", essa alucinante, com vocalizações - endiabradas - duelando com o teclado, assim como nas experimentações vocais e instrumentais de Hermeto em "Remelexo", o saxofone, sobre as palmas da plateia, em "Sax E Aplausos", com mais de 17 minutos de um desfile de improvisos em inúmeros instrumentos, onde Hermeto brilha no saxofone e na melódica, enquanto sua banda destroça nas percussões e nos metais, são de fazer qualquer admirador de música ficar embasbacado. Hermeto está fervendo, no alto dos seus 43 anos, e tudo, mas tudo o que ele faz, é um show a parte. Outro show que por si só vale o vinil são os músicos que acompanham o mago, seja no naipe de metais, que além de brilharem em "Sax e Aplausos", também soltam os pulmões em "Nilza" e "Forró em Santo André", onde o solo de Cacau no saxofone barítono deve ter feito John Coltrane soltar um largo sorriso de faceiro. Apenas desfrute de uma hora e 10 minutos de improvisos, loucuras e muita insanidade no palco, em um show visceral, onde Hermeto dá uma aula nos mais diversos instrumentos, com músicas extremamente complexas, atonais, mas como o próprio Nobs definiu, únicas. Hermeto foi aplaudido por mais de 15 minutos, abalando as estruturas do Cassino de Montreux, voltando quatro vezes para o Bis (e brindando a plateia com mais alguns números de tirar o fôlego, especialmente, a linda "Montreux", música "muito lenta para curtir com a mente, e que foi fabricada no hotel", nas palavras de Hermeto), mas principalmente, abalando o nosso próximo disco. 

Hermeto Pascoal (saxofone soprano, saxofone tenor, flauta, vocais, clavinete, piano, melódica)

Com

Itiberê Zwarg (baixo), Jovino Santos Neto (piano), Cacau (clarinete, saxofone barítono, saxofone tenor, flauta), Nivaldo Ornelas (flauta, saxofone tenor, saxofone soprano), Nenê (bateria, percussão, clavinete) Pernambuco (percussão) e Zabelê (percussão) 

1. Pintando O Sete

2. Forro Em Santo André

3. Remelexo

4. Bem Vinda

5. Sax E Aplausos

6. Lagoa Da Canoa

7. Fátima

8. Terra Verde

9. Maturi

10. Quebrando Tudo

11. Nilza

12. Forró Brasil

13. Montreux

14. Voltando Ao Palco

15. E Adeus

Elis Regina - 13th Montreux Jazz Festival [1982]

Na mesma data que Hermeto chocava Montreux, Elis fazia uma de suas maiores apresentações da carreira (e também, aquela que ela considerou uma de suas piores apresentações). A fúria de Elis com sua participação em Montreux se deve à diversos fatos, mas três deles se destacam: 1 - o repertório incluía mais bossas do que canções políticas, devido às exigências contratuais, para agradar o circuito europeu, e isto já fazia Elis torcer o nariz; 2 - ela teve que fazer um show extra como matiné - superlotada - durante a tarde, somente para os mais jovens, devido ao fato de os ingressos terem esgotado rapidamente só para ver o show dela à noite (e quem estava lá naquela tarde afirma até hoje que foi a melhor versão de Elis em todos os tempos); e - a voz desgastada pela apresentação da tarde, e a presença de um grande número de senhores na noite, acabou fazendo ela tremer de ódio, o que, segundo ela, foi crucial para sua performance. Acompanhada pelo marido Cesar Camargo Mariano (um show à parte no piano elétrico) e um supertime, a performance da Pimentinha, honestamente, é arrebatadora. O LP apresenta cinco faixas do show da tarde: "Cai Dentro", peça sensacional de Baden Powell, com uma Elis aplaudidíssima, os clássicos da sua carreira "Madalena", "Na Baixa Do Sapateiro", esta com uma introdução arrepiante e Elis rasgando a voz em uma versão inigualável, e "Upa Neguinho", com uma Elis totalmente solta, falando em francês, dando risada e fazendo muitas improvisações vocais, além das faixas de Milton Nascimento, "Ponta De Areia" e "Fé Cega, Faca Amolada/Maria Maria", nas quais Elis entrega-se de corpo e alma, como sempre fez em seus shows, mas também destacando os viajantes teclados de César, a percussão Muiriana de Chico Batera e o baixo pulsante de Luizão Maia. Do show da noite, a complexa "Cobra Criada", de João Bosco, e o registro de um fundamental terceiro fato: depois de Elis tocar pela tarde, e sair ovacionada, Hermeto Pascoal subiu no palco de Montreux e fez o que fez no disco citado acima. Com a pressão de tentar superar duas performances incríveis, exausta, Elis ainda teve a - sorte/ventura - de que Claude Nobs, empolgadíssimo com os dois shows dos brasileiros, chama-se Hermeto para dividir o palco em um Bis improvisado com a gaúcha. Furiosa, destruída corporalmente, e totalmente surpresa, Elis retornou ao palco para registrar um dos momentos mais emblemáticos já ocorridos em Montreux (e quiçá, na história da música mundial). Literalmente, ela e Hermeto travam um duelo de voz e piano, em um desafio no qual o bruno albino impõe toda sua virtuosidade em "Corcovado", "Garota de Ipanema" - que Elis detestava - e "Asa Branca", tornando-as genialmente irreconhecíveis para os fãs brasileiros, mas que Elis enfrenta de frente, sem baixar a guarda, e sem saber onde o piano de Hermeto estava a levando. Elis superou-se, Hermeto superou-se, e só ouvindo e vendo para tentar se ter noção de 10% do que aconteceu no palco naquele dia. Os dois show acabaram saindo completos anos depois, no álbum duplo Um Dia (2012). O essencial, que é o dueto de Hermeto, felizmente já havia chegado neste que foi o primeiro lançado pós-falecimento dela, mesmo contra a vontade da cantora. Um disco simplesmente histórico!

Elis Regina (vocais), Cesar Camargo Mariano (piano elétrico, teclados), Hélio Delmiro (guitarra), Luizão Maia (baixo), Paulinho Braga (bateria), Chico Batera (percussão)

1. Cobra Criada

2. Cai Dentro

3. Madalena

4. Ponta De Areia

5. Fé Cega Faca Amolada / Maria Maria

6. Na Baixa Do Sapateiro

7. Upa Neguinho

8. Corcovado

9. Garota De Ipanema

10. Asa Branca

Com 

Hermeto Pascoal (piano em 8, 9 e 10)

Os Paralamas do Sucesso - D [1987]

Fiquei muito em dúvida de qual seria o quinto disco aqui presente, e acabei escolhendo o que mais gosto dentre os que ficaram de fora. D é com certeza um álbum energético e vibrante, mostrando a melhor fase d'Os Paralamas do Sucesso, isso em 4 de julho de 1987. No auge de sua carreira, desfrutando do sucesso de Selvagem?, Os Paralamas mandam ver em um repertório para cima e muito animado. Apesar de começar com o freio de mão puxado, trazendo a inédita "Será Que Vai Chover?", que ganharia uma versão de estúdio somente um ano depois, basta começar "Alagados" que a energia visceral que o Brasil já havia sentido durante o Rock in Rio chega até a Suíça. A partir de então, com o jogo ganho, o trio Herbert, Bi e Barone (adicionados de João Fera nos teclados) coloca o Cassino de Montreux abaixo. É petardo atrás de petardo, e com um grupo em excelente fase, desfilar sucessos do porte de "Ska", "A Novidade", "Selvagem" e "Meu Erro". O ápice da noite vai para a espetacular versão de "Óculos", com um longo trecho de improvisos, e também a incrível revisão para "Charles Anjo 45", de Jorge Ben, que conclui um dos melhores discos ao vivo das bandas do chamado BRock. A banda só cresceria mundialmente a partir daqui, conquistando mercados tanto na América do Norte como no Japão, e tendo a certeza que naquele julho de 1987, a Europa já havia começado a se entregar para o som e energia d'Os Paralamas. 

Herbert Vianna (guitarra, vocais), Bi Ribeiro (baixo), João Barone (bateria)

Com

João Fera (teclados)

George Israel (saxofone em 3)

1. Será Que Vai Chover?

2. Alagados

3. Ska

4. Óculos

5. O Homem

6. Selvagem

7. Charles Anjo 45

8. A Novidade

9. Meu Erro

bonus tracks

Para as bônus, pensei em trazer os álbuns de Baby Consuelo, Pepeu Gomes ou João Gilberto registrados por lá, mas escolhi três álbuns que ampliam a quantidade de artistas que tocaram em Montreux, sendo ambos compilações de apresentações brasileiras ocorridas no início dos anos 80. 

Elba Ramalho, Toquinho e Moraes Moreira - Brasil Night - Ao Vivo em Montreux [1981]

Registrada em 4 de julho de 1981, esta compilação resgata a Brasil (com S) Night que levou Elba Ramalho, Toquinho e Moraes Moreira para a Suíça. Musicalmente, a compilação é realmente para admiradores da MPB, já que Moraes Moreira vivia uma fase no mínimo ruim em sua carreira, dando o ar da graça novo baiano apenas em "Davilicença", mas sem a energia de outros registros desta mesma canção, enquanto Elba estava surgindo no Brasil, e até que faz uma apresentação segura, ensinando a plateia a dançar o xote de "Bate Coração" e o baião de "Baião", mas sem conseguir ter a força de uma Elis Regina, em especial na chorosa "Tudo Azul". Toquinho acaba sendo o craque do jogo, trazendo o lindo dedilhado do violão em "Berimbau", com o instrumento que dá nome à canção também se destacando nas mãos de Djalma Corrêa (chocando os europeus, principalmente pela vibração escutada através das caixas de som), revisitando "Asa Branca" de uma forma totalmente desconstruída e comandando a clássica "Samba de Orly", obra prima composta junto de Chico Buarque e Vinícius de Moraes (quem diria que Toquinho iria se tornar um direitoso anos depois). Para poucos, mas estes poucos sabem o que irão apreciar. 

Alceu Valença, Milton Nascimento e Wagner Tiso - Brazil Night Ao Vivo em Montreux [1983]

Na edição de 1982, a Brazil Night teve como nomes Alceu Valença, Milton Nascimento e Wagner Tiso. Dos três shows, a Ariola Discos lançou esta boa compilação, com quatro canções de Alceu Valença, enquanto Milton aparece com três faixas, e Wagner com duas. O pernambucano surge com a animada "No Balanço da Canoa", faz os europeus baterem palma e cantarem durante "Pelas Ruas Que Andei", mas tem como ponto alto a tocante "Talismã" e a endiabrada "Casinha de Buinha", levadas apenas por voz e violão. Já Milton Nascimento manda ver numa veloz "Fé Cega, Faca Amolada", emociona com "Ponta de Areia" e encerra o LP com a entusiasmada "Maria Maria", curiosamente três canções eternizadas por Elis três anos antes. Porém, é o virtuosismo de Wagner Tiso, com um super grupo (Nivaldo Ornelas no saxofone, Helio Delmiro na guitarra, Paulinho carvalho no baixo e Robertinho Silva na bateria, além da percussão de Frank Colón), o qual também acompanhou Milton, que mais chama a atenção. Comandando o piano com uma técnica invejável, Tiso brilha na paulada "Banda da Capital", levantando o Cassino de Montreux, e "Balão", conplexa e intrincada peça instrumental no qual o virtuosismo do mineiro é colocada à prova, junto da percussão de Colón, misturando elementos da música afro-brasileira com o Jazz de vanguarda, para deixar qualquer fã de boa música com um sorriso aberto. 

Caetano Veloso, Ney Matogrosso e João Bosco - Brazil Night Montreux 83 [1983]

O dia 8 de julho de 1983 foi considerado pelo próprio Claude Nobs como a "noite mais emocionante, a mais vibrante e a mais explosiva dos 17 anos de Festival de Música de Montreux", e seu registro em vinil é fundamental estar aqui. Caetano ocupa quase todo o lado A, trazendo três canções somente com voz e violão, no caso a empolgante versão de "Maria Bethânia", as belas revisões para "Eu Sei Que Vou Te Amar/Dindi" e a lindíssima "Terra", apresentada na íntegra e com a plateia acompanhando os vocais do refrão. Com A Outra Banda Da Terra, manda ver em versões mais que perfeitas e energéticas para "Eclipe Oculto" e "Odara", as quais agitam o Cassino de Montreux. Ney faz uma apresentação ainda mais para cima, levando sua androginia e sua super banda (com Pedrão Baldanza, Pisca, Serginho e muito outros nomes importantes da música nacional) para ocupar quase todo o lado B, desfilando sensualidade na baladaça "Deixar Você", fazendo os europeus vibrarem com "Andar Com Fé", "Napoleão" e o forró de "Folia No Matagal", esta trazendo a participação de Caetano como convidado, e fazendo até Nobs sambar. E na simplicidade de João Bosco ("Ruan basco", segundo a apresentação de Nobs), e seu complexo dedilhado de violão, que surge a maior atração do vinil. Totalmente solto, e apenas com o violão de acompanhamento à sua voz, ele vai "cantar um samba" para a galera. O que ele faz em "Linha de Passe", um ritmo descomunal, mas principalmente, no pout-porri com "Nação", "Aquarela do Brasil" - com o Cassino vindo abaixo - e "O Mestre Sala dos Mares", é para desafiar qualquer novato que se acha músico. Discaço, que honestamente, considero uma das melhores compilações nacionais em todos os tempos, e com certeza, talvez o maior representante da diversidade presente na Música Popular Brasileira.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Minhas 10 Favoritas do Jefferson Airplane


Uma de minhas bandas favorita de todos os tempos, a Jefferson Airplane é daquelas que muita gente conhece duas músicas ("Somebody To Love" e "White Rabbit"), mas poucos são os que se aprofundaram em sua carreira. Com apenas oito álbuns de estúdio ao longo de uma carreira que durou, inicialmente, sete anos, e teve suas idas e vindas nos anos 80/90, e diversos álbuns ao vivo, há inúmeras canções espetaculares para serem descobertas, e mostrar por que a Jefferson Airplane foi a maior banda da geração flower-power. Selecionar apenas 10 canções foi tarefa complicadíssima para mim, mas vamos lá.

Jefferson Airplane em 1967. Da esquerda para a direita:
Marty Balin, John Casady, Grace Slick, Jorma Kaukonen
Paul Kantner (à frente), Spencer Dryden (ao fundo)

10. "Chauffeur Blues" [Takes Off, 1966]

Lançada no primeiro - e obscuro - álbum do grupo, ainda com Signe Anderson nos vocais, e o maluquete Skip Spencer na bateria, esta faixa é a única canção oficial da Airplane a trazer a voz de Anderson como destaque, e é um blues sutil, comandado pela percussão de Spence, mas que tem um charminho muito gostoso. Há várias canções similares nessa primeira fase dos californianos, mas "Chauffeur Blues" me dá um certo tesão de ouvir, seja pela voz afiadíssima de Anderson, seja pela simplicidade gostosa, com ares de diversas ervas e pastilhas alucinógenas que as guitarras de Kantner e Kaukonen criam, além do baixão vigoroso de Casady saculejando as caixas de som. 10° lugar para alguns pode até ser um exagero, mas cara, adoro ouvir Anderson soltando a voz aqui. 

9. "How Suite It Is" [After Bathing At Baxter's, 1967]

Um dos discos mais audaciosos da história da música, After Bathing At Baxter's foi lançado após o mega-sucesso de Surrealistic Pillow, e apresenta uma obra complexa e bastante contestada entre os fãs, sendo o verdadeiro Ame ou Odeie da banda. São cinco mini-suítes ao longo de mais de 43 minutos, algo que ninguém tinha feito até então, entre elas, essa obra sensacional chamada "How Suite It Is". A canção mais longa da carreira da banda - em estúdio - , com mais de 12 minutos de duração, é dividida em duas partes. A primeira, "Watch Her Ride", é uma legítima canção Airplaneana, com arranjos vocais bem encaixados sobre uma base instrumental sólida e direta, em pouco mais de três minutos. Já a instrumental "Spare Chaynge" é puro experimentalismo ao longo de mais de 9 minutos (e que no registro original, infelizmente nunca lançado, durou mais de 24 minutos), começando com um longo solo de baixo de Casady, no qual ele abusa de dedilhados cheios de técnica e complexidade. A canção vai ganhando dramaticidade a partir da entrada da percussão de Dryden e principalmente da guitarra, onde Kaukonen utiliza efeitos diversos. Para quem conhece o Jefferson Airplane de "Somebody To Love" e "White Rabbit", com certeza irá se assustar com as experimentações jazzísticas e alucinógenas que o grupo traz aqui, com o fuzz da guitarra de Kaukonen brilhando em toda a segunda metade da canção. Não há nada comparável em toda a discografia dos caras, e praticamente, é o início de uma divisão fundamental que iria levar a banda ao seu fim anos depois. 

8. "Milk Train Honey" [Long John Silver, 1972]

Violino, baixo, guitarra e bateria soltando uma força musical descomunal para Slick cantar a plenos pulmões. Isto é "Milk Train Honey". Impossível não começar a balançar a cabeça como um bom headbanger nesse quase Heavy Metal Flower Power, onde a presença do violino sim, um violino, transforma a faixa para algo ainda mais pesado, com solos e intervenções fatais. A música é pegada, para cima, pedindo para sair derrubando tudo o que tem pela frente, e é impossível tentar cantar o que Slick está cantando, já que ela debulha palavras com aquela agressividade gostosa que qualquer fã do Airplane adora amar. Musicaço!

7. "War Movie" [Bark, 1971]

Um disco que foi lançado entre inúmeras brigas, com a saída do líder Marty Balin e tendo Joey Covington na bateria, além de diversos convidados, Bark apresenta diversas gemas especiais, dentre elas "War Movie", uma canção arrebatadora, surgindo com o arrepiante alerta de bombas e o violão pesadíssimo de Kaukonen, para Slick, Kantner e o convidado Bill Laudner entoarem uma letra poderosíssima, que vai ganhando força com a entrada dos teclados e percussão. Avassaladora, "War Movie" vai derrubando todas as estruturas que aparecem, com sua forte letra criticando a guerra no Vietnã e o governo estadunidense que insistia em mandar jovens para lá, explodindo definitivamente com a bateria demolindo durante o trecho instrumenta arrepiante, onde teclados e guitarra fazem peripécias espetaculares entre as assustadoras vocalizações de Slick e os agonizantes vocais de Kantner. Que pancadaria vem então meu amigo, indicando os caminhos que a banda iria seguir no ano seguinte, em seu derradeiro - e maravilhoso - álbum. 

6. "White Rabbit" [Surrealistic Pillow, 1967]

A canção mais conhecida do Jefferson Airplane na verdade tem origem na antiga banda de Grace Slick, a The Great Society. Temos aqui uma interpretação simplesmente fodástica de Slick. Os que não se ajoelham perante a potência chocante de “White Rabbit” é por que são surdos ou mal da cabeça. O crescendo da canção com seu ritmo marcial, falando sobre as iniciações ao vício do LSD que levam ao mergulho no mundo de Alice no País das Maravilhas, é tão sobrenatural quanto a letra de Slick. Não tem como não ficar louco com esses dois minutos e trinta e dois segundos de um grandioso clássico.

Jefferson Airplane na TV

5. "Wooden Ships" [The Woodstock Experience, 2009]

Se a versão de estúdio já é linda, reproduzir ao vivo um dos arranjos vocais mais lindos da geração flower power, de forma perfeita, só pode trazer essa faixa aqui. O que Grace Slick, Paul Kantner e Marty Balin fizeram no início da manhã do dia 17 de agosto de 1969, lá na fazenda de Woodstock, foi tão histórico - mas não tão reconhecido - quanto a apresentação de Jimi Hendrix no mesmo festival, tendo como um dos ápices essa versão arrebatadora para a canção de David Crosby. Os vocais encaixados perfeitamente são completados pela guitarra endiabrada de Kaukonen, que geme junto com a dolorida voz de Slick. Um crescendo musical estupendo, as harmonias vocais arrepiando, o final apoteótico, com os solos dilacerantes de Kaukonen, que levam a faixa para mais de 21 minutos de duração. Olha, quinto lugar para essa versão talvez seja pouco. Mas é que tem muita música boa por vir. 

4. "We Can Be Together" [Volunteers, 1969]

Sob às luzes das bombas de Napalm que os EUA jogavam no Vietnã, o Jefferson Airplane resolveu enfrentar o governo Nixon e mandou um álbum atemporal. Volunteers, quinto disco de estúdio deles, é um álbum com obras incríveis, que contestam o por quê da guerra, e pregam definitivamente a paz entre os povos, com "We Can Be Together", faixa que abre este disco, sendo a perfeita alusão ao estilo Paz & Amor que marcou a geração flower power. Uma letra poderosa e um instrumental envolvente, complementado pelo piano saltitante do gigante Nicky Hopkins, além da guitarra alucinógena de Kaukonen. Impossível não cantar junto com Slick, Kantner e Balin, seja nos "la la las", nos trechos que citam o nome da canção e principalmente, na emblemática frase "Up against the wall, motherfucker, turn down the wall"! Pesada, contagiante, um tapa na cara da sociedade conservadora estadunidense (e ainda hoje, com um medíocre de presidente), e que não entra no pódio por detalhe. 

3. "Twilight Double Leader" [Long John Silver, 1972]

Essa canção é uma paulada descomunal, como só o Jefferson Airplane sabia fazer. O grupo estava dividido em três aqui, e essas três partes se autodevoram ao longo de quase 5 minutos. Se não vejamos: os vocais gritados do casal Grace Slick/Paul Kantner (o primeiro grupo) se sobrepõem após o riff pesadíssimo do baixo de Jack Casady e da guitarra de Jorma Kaukonen (o segundo grupo, que saíram da Airplane para criarem a Hot Tuna), enquanto a bateria de Joey Covington solta o braço como nunca antes na história do flower-power. O fio condutor dessa batalha sonora é o violino de John Papa Creach (o terceiro grupo, o dos isentos, junto de Covington e dois outros dois bateristas que concluíram o disco em meio a uma crise gigantesca que terminou com a banda), que apesar de sutil, faz as intervenções necessárias para que a faixa não exploda de tanta adrenalina. Que música fantástica, que pegada, e que solo fodido de Kaunonen. Terceiro lugar para ela!

2. "Eat Startch Mom" [Long John Silver, 1972]

Outra música de Long John Silver no Top 3? É meu caro, me desculpe, mas esse disco tem faixas descomunais, e "Eat Startch Mom" é a melhor delas. Última música do último disco da primeira fase do Airplane, ela é comandada pelo riff avassalador de Kaukonen, e uma Slick endiabrada cantando furiosamente. O refrão, de sair gritando pela sala, e o baixo/bigorna de Casady, provocam um terremoto sonoro, e não tem como não se pensar que o Heavy Metal puxou bastante inspiração para ser tão pesado por aqui também. Os solos de Kaukonen, demolindo o wah-wah, com as guitarras sobrepostas e a pancadaria comendo solta ao fundo, abrindo espaço para o violino brilhar, são pontos extras para esta paulada quase desconhecida dos estadunidenses. Só não é a melhor música da banda por que Kaukonen já tinha feito sua obra-prima três anos antes. 

1. "Hey Frederick" [Volunteers, 1969]

Segunda mais longa das canções de estúdio do Jefferson Airplane (atrás apenas da citada "Spare Chaynge"), "Hey Frederick" para mim está no mesmo panteão dos melhores solos de guitarra da história do rock, no qual encontram-se por exemplo "Comfortably Numb", "Stairway To Heaven", "Free Bird" e "Hotel California", porém raramente citada junto destas. Com seus quase 9 minutos, comandados inicialmente pelo piano de Nicky Hopkins e a delicada voz de Slick, a partir de seus 3 minutos ela transforma-se em um épico de solos de guitarras sobrepostas nos quais Kaukonen só não faz chover. Tudo é casado para engrandecer a guitarra de Kaukonen, e o que resta para o ouvinte, a partir do momento que Slick solta seu "how many machine men will you see before you stop your believing", é aumentar as caixas de som e apreciar um solo vibrante e ácido como nunca antes, e nunca depois, se ouviu na história do flower power. Me emociono e arrepio em cada nota que Kaukonen manda sair de sua guitarra, com apenas baixo, bateria e piano acompanhando em um ritmo tão alucinante quanto as guitarras que explodem nas caixas de som. Perfeitamente a mais perfeita canção do Jefferson Airplane, e quiçá, de todas as bandas desta geração 

sábado, 6 de junho de 2026

Maravilhas do Mundo Prog: Rush - Jacob's Ladder [1980]


O Ano de 1980 começou diferente para o Rush. Meses antes, em apenas quatro semanas (entre setembro e outubro de 1979) o grupo havia encerrado as gravações de seu sétimo álbum, Permanent Waves, nos estúdios Le Studio, entre as montanhas de Morin Heights em Quebec, no Canadá. O lugar idílico e contemplativo, com paredes de vidro onde se viam apenas neve, nuvens, montanhas, árvores e um lago, inspirou o trio Alex Lifeson (guitarras, guitarra de doze cordas, violões, violão de 12 cordas, violão clássico, bass pedal sinthesizer), Geddy Lee (baixo, violão de doze cordas, mini-moog, bass pedal synthesizer, vocais) e Neil Peart (bateria, sinos, tímpano, tubular bells, Wind Chimes, triângulo, Bell Tree, Vibraslap) a buscar novas sonoridades para a nova década que estava entrando em suas casas. Dentro destas sonoridades, o grupo The Police foi uma grande força motora para o Rush ampliar seus sons progressivos, e começarem a criar canções mais acessíveis, não tão grandiosas quanto suas Maravilhas "2112" e "Cygnus X-1 Book Two: Hemispheres", mas capazes ainda de trazerem novidades para os fãs.

O Rush no Le Studio, em outubro de 1979

O processo de composição começou em meados de julho de 1979, seis semanas após a última apresentação do trio durante a turnê de Hemispheres, a qual ocorreu em 4 de junho, no Pink Pop Festival de Galeen, na Holanda. Depois de merecidas férias, Lee, Lifeson e Peart não sabiam bem o que queriam, mas sabiam bem O QUE NÃO QUERIAM. Como explicou Lee para o jornalista Jon Sutherland, em uma entrevista para a revista Record Review em 1980: "Chega um ponto em que você se pega caindo num certo padrão, e aí é hora de sacudir a cabeça, se soltar e fazer algo diferente. No que diz respeito a álbuns conceituais, a gente já fez isso. Levamos isso até o limite lógico, e agora é hora de fazer outra coisa."

Era uma clara ideia de sair das longas e conceituais faixas de seus discos anteriores, e com essa mentalidade, a banda migrou para a fazenda Lakewood em julho de 79, há duas horas da cidade Natal dos rapazes, Toronto, onde começaram a criar e compor novas canções, mergulhando em improvisações que logo na primeira noite viraram a primeira composição, batizada "Uncle Tounouse". Partes dela iriam ser usadas para criar outras canções logo adiante. Após duas semanas trancafiados, com Peart tendo seu próprio espaço para pensar as letras, e Lee e Lifeson desenvolverem seus lados musicais, quatro faixas estavam prontas: "The Spirit of Radio", "Freewill", "Entre Nous" e nossa Maravilha de hoje, "Jacob's Ladder".

Alex Lifeson, Neil Peart e Geddy Lee.
O Rush em pleno trabalho de criação, outubro de 1979

De lá, partem para o Sound Kitchen, um estúdio em Toronto, para registrarem as demos dessas quatro faixas, e logo em seguida, em setembro de 79, já estavam novamente com o pé na estrada para apresentar duas delas ao seu público, no caso "The Spirit of Radio" e "Freewill". "Entre Nous" e "Jacob's Ladder" continuaram a ser aperfeiçoadas durante as passagens de som, e então, como dito no início do texto, ainda em setembro isolam-se em Morin Heights para encerrar as gravações. Apenas a menção de Le Studio para os fãs do Rush já traz uma visão romântica sobre aquele período, no que o jornalista Ray Wawrzyniak considera como "o casamento perfeito". 

Vamos às palavras de Peart sobre o local: "Le Studio é um local maravilhoso, aninhado no vale das montanhas Laurentian, cerca de 60 milhas (100 kms) ao norte de Montreal. Está situado em 250 acres de terreno acidentado e arborizado, ao redor de um lago particular. Em uma extremidade do lago fica o estúdio, e na outra, a cerca de uma milha (pouco mais de 1,5 km), está a casa de hóspedes luxuosa e confortável. Nós nos deslocávamos de bicicleta, barco a remo, a pé, ou, por preguiça ou mau tempo, de carro. Chegamos no auge da glória plena do outono, e ficamos lá durante um autêntico Verão de São Martinho (Indian Summer em inglês), e saudamos a chegada da neve e do inverno, tudo isso nas nossas quatro semanas de estadia.". 

Neil Peart

Peart continua, agora comentando sobre o estúdio em si: "O local de gravação é, obviamente, nada menos que excelente em todos os sentidos. A própria sala tem uma parede inteira de vidro, com vista para um cenário espetacular do lago e das montanhas. Isso está em contraste direto com a maioria dos estúdios, que são mais como cofres isolados e atemporais, o que, nesse aspecto, claro, não é necessariamente ruim. Nós trabalhamos sob a luz do sol, e dava pra observar a mudança das estações nos momentos de descanso, em vez de ter uma visão pouco iluminada e esfumaçada de equipamentos musicais e eletrônicos". 

Com esse ambiente em sua volta, a amizade entre os três membros da banda tornou-se ainda mais forte, ensaiando e gravando durante o dia, e jogando vôlei durante a noite, tornando-se um lugar definido por Lee como "especial em nossos corações". Definitivamente, não havia local melhor para Permanent Waves ser concebido. 

Encarte de Permanent Waves, com a dedicatória em “The Spirit of Radio”

Lançado em 14 de janeiro de 1980, o álbum abre com "The Spirit of Radio", justamente trazendo a ideia da importância do rádio para a música, sendo esta uma das canções mais comerciais - e não à toa, de maior sucesso - da história do trio canadense misturando elementos do rock principalmente com o reggae. Como lembra Lifeson: "estávamos sempre tocando reggae no estúdio, e costumávamos fazer a introdução de 'Working Man' nesse estilo durante os shows, e foi então que isto logo tornou-se 'The Spirit of Radio'. Pensamos que fazer um reggae iria nos fazer sorrir e ter um pouco de diversão". O Rush passou a tocar nas rádios frequentemente pós-"The Spirit of Radio", que talvez só seja batida em termos de popularidade por "Tom Sawyer". 

Vale lembrar que no encarte do álbum, há uma inscrição que diz: "inspirado pelo 'espírito do rádio' de Toronto, vivo e bem (até agora)", em uma homenagem à David Marsden, o cara responsável por lançar o Rush nas rádios, anos antes, quando era funcionário da CHUM-FM, de Toronto, tocando canções do primeiro disco do grupo. O nome da canção é uma homenagem ao slogan criado por David para a rádio e o programa que ele estava em 1979, a CFNY-FM, de Toronto.

Parte frontal do encarte

O álbum segue com "Freewill", outra faixa que traz esse sentido de novos ares para o Rush, principalmente na letra, e então, fechando o lado A, nossa maravilha. Na Bíblia, a Escada de Jacó é uma escada que leva ao Céu, sendo retratada em um sonho que o Patriarca Jacó teve durante a fuga de seu irmão Esaú, no Livro do Gênesis (capítulo 28:10-19). Trago aqui o trecho da citação bíblica:

"E Jacó saiu de Beer-Sabá e foi em direção a Harã... ele pegou uma das pedras do lugar, colocou-a sob a cabeça e deitou-se ali para dormir. E ele sonhou, e eis uma escada erguida na terra, e o topo dela alcançava o céu; e contemplem os anjos de Deus ascendendo e descendo sobre ela ... A terra onde jazes, a ti a darei e à tua descendência. E a tua semente será como o pó da terra, e espalharás para o oeste, para o oriente, para o norte e para o sul. E em ti e em tua descendência todas as famílias da terra serão abençoadas..."

O significado do sonho tem sido debatido e causado diversas interpretações, mas a maioria delas concorda que Jacó é colocado diante de suas obrigações e da herança do povo escolhido por Deus. Os anjos subindo e descendo da escada podem significar a própria vinda e ascensão dos homens à Terra. De qualquer forma, a inspiração do sonho, e da construção da escada, influenciou os meteorologistas a batizar o fenômeno meteorológico onde a luz do Sol rompe nuvens durante uma tempestade, ou até em dias fechados, exatamente de Escada de Jacó. 

Geddy Lee

E este fenômeno esteve no Le Studio, e com a visão das luzes do Sol nas paredes de vidro do estúdio, Peart teve a inspiração para criar esta obra-prima. Conforme seu relato: "A maioria das ideias que lidamos dessa vez eram menores e, em alguns casos, como em 'Jacob's Ladder', vistas como uma ideia cinematográfica." Ele segue: "Criamos toda a música primeiro para evocar uma imagem – o efeito da Escada de Jacó – e pintar o quadro, com as letras adicionadas só como um pequeno detalhe, depois, para torná-la mais descritiva." Era o início do Rush começando a criar pequenas peças cinemáticas, que seriam muito bem exploradas em Moving Pictures

Fechando a concepção de nossa Maravilha, Neil nos conta que "na letra, eu retiro muitas referências da Bíblia, pois ela é uma fonte muito colorida de imagens. Eu não cresci em um meio religioso, mas cercado por religião, indo à escola dominical e tendo lições de educação religiosa na escola. Então, todas estas coisas sugerem elas mesmas como metáforas. 'Escada de Jacó' é uma frase adorável, aquelas duas palavras por si só. E de fato nós iniciamos com isto. Antes de qualquer letra ser escrita, falamos sobre a imagem de uma 'Escada de Jacó', de um céu nublado se aproximando, e de repente, todos estes feixes de luz que todo mundo viu. Isto foi muito inspirador para mim, mas nós tivemos a mesma experiência em comum. Então, nós criamos a música a partir daquela visão, ou imagem, e escrevemos o som inteiro. Depois, escrevi alguns versos para fazer a imagem mais acurada, e também para trazer os vocais como mais um instrumento sonoro".

Alex Lifeson

Um fenômeno lindo só poderia gerar uma música linda. O baixo surge marcando o tempo junto de um longo acorde de sintetizador, trazendo o dedilhado da guitarra e as batidas marciais de Peart, em uma introdução enigmática, até que a guitarra passa a fazer os mesmos acordes do baixo. A voz de Lee surge sobre camadas de sintetizadores, trazendo a letra:

"The clouds prepare for battle

In the dark and brooding silence

Bruised and sullen stormclouds

Have the light of day obscured

Looming low and ominous

In twilight premature

Thunderheads are rumbling

In a distant overture"

"As nuvens se preparam para a batalha

No silêncio escuro e sombrio

Nuvens de tempestade roxas e carrancudas

Ocultaram a luz do dia  

Aproximando-se baixas e ameaçadoras

Num crepúsculo prematuro

As nuvens de trovoada ribombam

Numa abertura distante"

A medida que Lee vai cantando, a canção vai tornando-se cada vez mais tensa, até explodir com as batidas de Peart. Lifeson e Lee soltam notas longas que fazem a base para o lindo solo de Lifeson, carregado de eco e muitos, mas muitos bends e notas agudas. Um dos solos mais lindos de sua carreira, sem exagerar nas notas rápidas, apenas sentimento puro, solando simples enquanto baixo, teclados e bateria conduzem-no para romper o céu. Eis que então "Jacob's Ladder" ganha mais tensão, com baixo, guitarra e bateria fazendo o ritmo  igualmente, como nuvens chocando-se para criar trovões, utilizando-se de variações sobre seis acordes menores, enquanto o sintetizador apenas faz a camada que interliga tudo para o grande clímax da canção. 

De forma etérea, entre os sons de sintetizadores que surgem nas caixas de som, novamente enigmáticos, trazendo ao ouvinte a sensação das nuvens no espaço, soltas, e um céu fechado a ser colorido conforme se queira pelas luzes do Sol. A voz robótica de Lee surge, na mesma melodia do sintetizador Oberheim:

"All at once,

The clouds are parted

Light streams down

In bright unbroken beams"

"De repente,

As nuvens se abrem

A luz jorra lá de cima

Em raios brilhantes e contínuos"

Uma escada de Jacó, flagrada no Japão

Então, a 'Escada de Jacó' começa a ser pintada pelo Rush em seu céu imaginário, após as batidas dos sinos tubulares, começando com a guitarra de Lifeson fazendo seu dedilhado, e com pequenas batidas que lembram pinceladas suaves, cada raiar de luz jorrar das nuvens, as quais vão se tornando mais agressivas na medida que Peart impõem ritmo "à pintura", como mais raios de luz rasgando o céu. Lee também faz marcações com seu baixo, enquanto o sintetizador passeia seu pincel junto com a guitarra e a bateria para criar a mais perfeita ilustração deste céu iluminando-se. Tudo encerra-se com guitarra e baixo solando juntos, enquanto Peart dá um show à parte, concluindo uma obra prima, seja no céu imaginário, seja na audição real, com batidas fortes de guitarra, baixo e bateria, trazendo então a voz de Lee:

"Follow men’s eyes

As they look to the skies

The shifting shafts of shining

Weave the fabric of their dreams…"

"Siga o olhar dos homens

Enquanto fitam os céus

Os raios mutáveis e brilhantes

Tecem o tecido de seus sonhos"

Um pouco mais do Rush no Le Studio

Assim, de forma avassaladora, a letra é concluída, mostrando como os homens estão fascinados com o que veem no céu, ao mesmo tempo que estamos todos fascinados com o que ouvimos nas caixas de som, deixando apenas o ritmo marcial do baixo e os longos acordes de teclados ressoando pela sala para podermos refletir sobre a tempestade musical que passou. Fantástico. 

O lado B segue com mais uma faixa bem comercial, "Entre Nous", seguida por "Different Strings", com seu complexo andamento que exigiu de Peart o uso de um metrônomo para concluí-la, e outra Maravilha Prog, "Natural Science". Mas esta é papo para outra postagem. 

Contra-capa de Permanent Waves

Permanent Waves atingiu a quarta posição nas paradas dos Estados Unidos, onde recebeu ouro (500 mil cópias vendidas) apenas três meses após seu lançamento - e posteriormente, em 1987, tornou-se platina, com um milhão de cópias vendidas - e número três no Reino Unido e Canadá. O single de "The Spirit of Radio" foi o primeiro dos canadenses a superar o Top 30 nas paradas estadunidenses. 

O grupo partiu para mais uma longa turnê, retornando ao Le Studio para gravar aquele que é considerado sua obra-prima, Moving Pictures. Porém, encerro por aqui - por enquanto - as Maravilhas Progs do Rush, lembrando que em janeiro, o Rush novamente estará entre nous - e eu estarei lá novamente para vê-los.

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