quarta-feira, 27 de maio de 2026

Zé Ramalho - Coletiva de Música Paraibana [2018]

Em 26 de maio de 1976, um dos momentos mais importantes, e menos conhecidos, da carreira de Zé Ramalho acontecia no palco do Teatro Santa Rosa, na Paraíba. Durante muitos anos se falou sobre o tal incidente no qual Zé supostamente "teria cortado os próprios cabelos em pleno palco durante um acesso de fúria e indignação", mas isso parecia mais uma lenda urbana, tal qual a associada ao álbum Paebirú, e seu misterioso desaparecimento das lojas por conta da enchente do rio Capibaribe em Pernambuco. 

Mas, eis que a gravadora Discobertas, através de uma verdadeira escavação nos arquivos pessoais do bardo paraibano, encontrou a tal apresentação, e em 2018, trouxe ao mundo no formato de vinil. Mas é a edição em CD, de 2021, que chama a atenção, por trazer o show praticamente na íntegra, e o tal momento lendário sendo conferido para ver como realmente foi o que aconteceu naquela noite quente em João Pessoa. 

Raro compacto do The Gentlemen

Até chegar o dia 26 de maio de 1976, é necessário contextualizar o momento pelo qual Zé passava na época. José Ramalho Neto torna-se Zé ramalho muito cedo. Tendo perdido o pai ainda criança, o menino da Paraíba foi criado pelo avô, que lhe passou ensinamentos sobre culturas e tradições do nordeste na quase provinciana João Pessoa dos anos 50 e 60. Quando adolescente, no final dos anos 60, Zé passa por alguns grupos, dentre eles Os Demônios - ainda estudante do colégio Pixo X -, Os Quatro Loucos, substituindo o guitarrista Vital Farias, com quem participou de festivais em João Pessoa, Eles e The Gentlemen, estas já no início dos anos 70, que levou Zé a sair do estado, tocando nas redondezas em cidades do Pernambuco e de Alagoas, inclusive gravando um compacto (Cristina) pelo selo Rozenblit, hoje, raríssimo, assim como seu único álbum, auto-intitulado, de 1972. 

Os anos passaram e Zé tenta buscar a sorte no Rio de Janeiro, onde participa da última edição do Festival Internacional da Canção, de 1974, e conhece Geraldo Azevedo, com quem iria fazer parcerias importantes tempos depois. Isolado em uma casa de praia, emprestada por uma tia, a qual batizou de Vila Do Sossego, Zé passa a criar canções que se tornariam sucesso em sua carreira, em um período que o próprio chama de Trimestre Das Revelações. Grava, ao lado de Lula Côrtes, o cultuado Paêbirú, com toda sua mitologia por trás da qual vou passar em branco aqui.

Zé na banda de Alceu Valença. Em ordem: Dircinho, Zé da Flauta,
Israel Semente, Paulo Rafael, Zé Ramalho,
Agricio Noya. Alceu Valença no centro

Em 1975, ano de lançamento de Paêbirú, Zé começa a chamar atenção do meio musical na cidade do Rio de Janeiro (RJ) como integrante da banda do cantor pernambucano Alceu Valença, destacando-se no Festival Abertura daquele ano, promovido pela Rede Globo. Foi nele que Marília Gabriela, apresentadora do mesmo, cunhou o nome Zé Ramalho da Paraíba. Participa como violonista do álbum Vivo!, lançado por Alceu Valença em 1976, mas um desentendimento com Alceu fez Ramalho deixar a banda e voltar para João Pessoa (PB). É lá que nosso herói decide investir em shows solo, cantando suas músicas. Em parceria com o poeta Pedro Osmar, organiza a Coletiva de Música Paraibana, e nela, Zé exorciza seus demônios de não ter vingado no Sul, preparando um roteiro que iria abalar à todos os que o conheciam, utilizando uma tesoura para tosquear seu passado em pleno palco, como protesto contra a mídia, e tendo uma surpresa extra nessa sua manifestação. 

Lançado em vinil originalmente no ano de 2018, e em CD em 2021, com duas bônus, o show conta apenas com Zé na voz e violões, e abre com "O Sobrevivente", no qual Zé entoa o poema de Carlos Drummond de Andrade, contando sobre as dificuldades de se ser um artista, mostrando já a animosidade e decepção que corria pelo sangue de Zé naquele tempo. Seguimos com "Jardim Das Acácias", levada apenas pelo violão de Zé, e muito fiel ao que viemos conhecer, algum tempo depois, no álbum A Peleja Do Diabo Com O Dono Do Céu (1979), mas com mais improvisos vocais, que fazem a canção atingir nove minutos, levando ao primeiro discurso de Zé na noite, "Discurso 1", que é o primeiro bônus do CD. 

Zé no polêmico show de 50 anos atrás

Zé começa falando que "é um dia muito bonito, importante para falar um monte de coisas para vocês ... " e assim ele começa a fazer seu discurso a favor dos artistas paraibanos, que sofrem o preconceito das mídias, taxados de marginais e maconheiros, repudiados, e que a coletiva paraibana surge para firmar o lugar do músico paraibano. As forças das palavras de Zé impactam, detonando os críticos de música e defendendo o artista paraibano, e na sequência, ele chama ao palco dois músicos que irão lhe acompanhar na próxima canção, Paulinho e Israel, e emenda, emocionado, que "essa música que nós vamos tocar é muito especial para mim, permita-me abusar disso, Mas é que há três dias atrás faleceu meu avô, talvez a única criatura honesta que eu tenha conhecido no mundo, foi ele quem me criou, saindo do sertão, do brejo. Eu nunca tive pai, então vovô fez o papel de avô, de pai, e antes de morrer, fez o papel de filho também, para mim. Avôhai é uma palavra mágica, significa avô e pai. Vovô, esteja em paz, e tenho certeza que está aqui, me olhando". Com mais de dez minutos de duração, "Avôhai" é uma dolorida declamação de amor ao avô-pai de Zé Ramalho, surgindo com um tema nordestino na viola e nas vocalizações, seguindo com os acordes atemporais de um dos maiores sucessos da carreira do paraibano, acompanhado aqui apenas pela percussão e violão. 

Chegamos então no ponto de êxtase do show, registrado como "Discurso 2", o segundo bônus do CD, e que é o momento no qual Zé, descrente de seu futuro como artista, começa seu sacrifício, e que chegou a hora da tesoura. Então, ele explica que "durante sete anos, esse cabelo de louco representou para essa cidade ... em cada fio de cabelo desse daqui, tem dez histórias para contar". Enquanto ele vai fazendo seu discurso, ele começa a cortar seu cabelo em pleno palco, um cabelo cuidado durante 7 anos. A plateia, embasbacada, reage de forma incomodada enquanto ouvimos o discurso agressivo de Zé, e os "tics" da tesoura cortando as "belas madeixas carregadas de piolho, lacraias, lama". Zé provoca a plateia, chegando a se irritar com um dos presentes que o provoca: "quer vir cortar meu irmão, queria que vocês encarassem isso com muito respeito, por que se você nunca teve peito de deixar um cabelo crescer assim, você fique na sua meu irmão", e segue exalando sua tristeza, sua decepção, sua raiva e frustração, cortando o cabelo, fazendo seu sacrifício. 

"Vocês passariam sete anos, criando um filho, para depois matá-lo?". Enquanto corta o cabelo, citando Sansão, surgem um momento que a plateia acaba não resistindo, caindo em risadas quando um dos presentes diz que "mas eu que queria cortar" e Zé responde "chegue amor, venha, vou lhe dar um beijo na sua boca ... vem mostrar que você é paraibano". Zé faz uma crítica ao fato de o chamarem de Zé Ramalho da Paraíba, e encerra seu ato quebrando uma TV em pleno palco (infelizmente não registrado no CD e tão pouco no LP), dedicando uma homenagem para o colega Alceu Valença, entoando então a bela "Espelho Cristalino", junto de "Adeus Segunda-Feira Cinzenta", canção de Alceu Valença unida a obra criada pelo próprio Zé em mais de nove minutos de lindas explorações musicais nos violões e na interpretação dolorida dos vocais do paraibano. 

Texto no encarte do CD

Fechando o show, "A Dança Das Borboletas", outra parceria de Zé com Alceu, com um clima bastante soturno em sua introdução, no qual novamente Zé usufrui de interessantes vocalizações, e a interpretação hipnotizante do violão torna os quase dez minutos da canção uma perfeita ode ao musicalismo do interior da Paraíba, além de fazer citações ao cangaço e também entoar trechos de "Vem Vem", de Geraldo Azevedo

São as presenças dos "Discursos" os pontos principais desta edição em CD, pois são registros históricos de um momento ímpar na carreira de Zé, e que haviam aparecido no CD Zé Ramalho Da Paraíba, de 2008, mas agora surgem exatamente do momento onde foram entoados. Na sequência, no segundo semestre de 1976, Zé, determinado a buscar um novo destino em sua vida, montou seu show de despedida de João Pessoa (PB), Um dia Antes da Vida (registrado no CD homônimo, também lançado pela gravadora Discobertas), que fecha o ciclo inicial da trajetória artística do cantor na sua terra natal. Dois dias depois deste show,  embarcou para o Rio, onde, através da indicação de Nelson Motta, assina contrato com a gravadora CBS (via selo Epic) para fazer, em 1977, o primeiro álbum solo, Zé Ramalho, lançado em 1978.

Dali em diante, Ramalho virou nome nacional na MPB e essa fase inicial em João Pessoa (PB) se tornou a pré-história da carreira do cantor, deixando uma história pouco conhecida fora da Paraíba, e que felizmente foi resgatada para o deleite dos fãs e dos admiradores da Música Nacional Brasileira. Busque este e outros lançamentos da Discobertas (em especial, Atlântida, Um Dia Antes da Vida e Cine Show Madureira 1979), e descubra uma das melhores fases de um artista nacional, principalmente por ser embrionária, crua, e simplesmente dilacerante. 

Contra-capa do CD

Track list

1. O Sobrevivente

2. Jardim Das Acácias

3. Discurso 1

4. Avôhai

5. Discurso 2

6. Medley: Espelho Cristalino / Adeus Segunda-Feira Cinzenta

7. A Dança Das Borboletas

terça-feira, 26 de maio de 2026

40 Anos de The Final Countdown

Há 40 anos, o mundo da música voltava seus olhos para a Suécia. Depois de 5 anos do fim do ABBA, o país escandinavo conseguia novamente colocar sua bandeira entre as maiores nações da música, batendo de frente com Estados Unidos e Inglaterra, através de um disco que marcou época: The Final Countdown. O terceiro disco do Europe foi lançado em 26 de maio de 1986, e alcançou nada mais nada menos que a oitava posição na parada da Billboard estadunidense, bem como primeira posição em diversos países europeus, além de várias posições altas em diversos outros charts mundo afora. 

O Europe era uma banda de relativo sucesso dentro do mercado sueco. Com dois discos lançados (Europe, de 1983, e Wings of Tomorrow, de 1984), em 85 ocorre uma grande mudança na formação do Europe. Sai o baterista Tony Reno e entra Ian Haughland, além do tecladista Mic Michaeli, tornando o quarteto Europe agora um quinteto. Ao mesmo tempo, o grupo já estava começando a preparar o novo álbum, que tinha como principal objetivo tentar conquistar o - complexo - mercado estadunidense. 

Cartaz de On the Loose,
destacando Joey Tempest

As primeiras canções escritas foram "Rock the Night" e "Ninja", as quais surgiram durante a turnê de divulgação de Wings of Tomorrow. Porém, ainda em 1985, algo acontece que muda totalmente a história do Europe. O diretor Staffan Hildebrand convida Joey Tempest, vocalista do grupo (vale aqui lembrar os outros músicos da banda, John Norum na bateria e John Levén no baixo, além de Haughland e Michaeli, sendo esta a chamada formação clássica dos suecos) para fazer a trilha sonora do filme On The Loose

Tempest entregou a faixa solo "Broken Dreams", que junto com "Rock the Night" e "On the Loose", saíram em um EP, em abril de 1985, que era vendido nos cinemas suecos antes da apresentação do filme, e hoje tornou-se uma raridade cobiçada pelos fãs, principalmente fora da Escandinávia. O grupo também aparece no filme, interpretando ao vivo "Rock the Night", que também saiu em um single exclusivo (com uma regravação de "Seven Doors Hotel", faixa do primeiro disco da banda, no lado B), e isto fez grande sucesso, levando o single de "Rock the Night" a alcançar número 4 nas paradas suecas. 

Devido ao enorme sucesso de On the Loose e "Rock the Night", o Europe saiu para uma grande turnê em sua terra natal durante todo 1985, apresentando três novas canções: "Danger on the Track", "Love Chaser" e a balada "Carrie", que inicialmente era apenas com teclados e vocais. Ao mesmo tempo, novas canções começavam a surgir. Eis que então, após a longa turnê, e com mais algumas canções na bagagem, o grupo entra nos estúdios para gravar seu terceiro e grandioso disco, em setembro de 1985, no Powerplay Studios de Zurich, Suíça, tendo como produtor o estadunidense Kevin Elson, o qual tinha no currículo o Journey, e sabia a receita de como "conquistar" o mercado dos EUA.

O Europe no encarte de The Final Countdown

Com mixagem no Fantasy Studios dos Estados Unidos, a cargo de Elson e Wally Buck, durante o março de 1986, além da masterização de Bob Ludwig na clássica Masterdisk, The Final Countdown chegou às lojas, como citado acima, exatamente em 26 de maio de 1986, e já abre com aquele que para mim é o maior clássico do grupo, a faixa-título "The Final Countdown". Tenho esta música como "Anna Julia" é para o Los Hermanos, ou "White Rabbit" é para o Jefferson Airplane, ou seja, uma canção atemporal de uma banda, mas que nada tem a ver com a banda em si, sendo basicamente totalmente diferente de tudo o que foi feito antes ou depois, mas que mesmo assim, é inegável sua importância, goste ou não. 

Single de "The Ginal Coutdown"

"The Final Countdown" começa com os barulhos de sintetizadores que levam para um dos mais conhecidos riffs de teclados de todos os tempos, em um crescendo mágico (na linha do que é a introdução de "Mr. Crowley", de Ozzy Osbourne), trazendo então o Europe no ritmo cavalgante, para a repetição do riff intodutório. Esse riff havia sido criado anos antes por Tempest, em uma brincadeira de estúdio provavelmente no final de 1981, início de 1982 que acabou evoluindo para algo que seria a faixa de abertura dos shows do Europe. Levén sugeriu que Tempest deveria escrever uma canção baseada naquele riff e assim, inspirado por "Space Oddity", de David Bowie, o vocalista criou  o maior clássico da história dos suecos. Os vocais de Tempest rememoram a história de Bowie, pegando exatamente da contagem final. É impossível não se contagiar pela canção, com backing vocals bem encaixados que facilmente nos fazem reproduzi-los, assim como a ampla citação ao nome da canção, que gruda literalmente na cabeça. 

Norum manda ver no seu solo, o qual considero ainda hoje o mais bonito de sua carreira, e voltamos para a intro, repetindo o refrão e concluindo uma das melhores músicas do hard oitentista com a voz de Tempest sendo repetida em sua mente, e o jogo já ganho a partir daqui. Uma nota adicional é que durante as gravações do álbum, Tempest teve uma reação alérgica a produtos com trigo, forçando o vocalista a mudar sua dieta para conseguir completar o álbum. Para se ter uma ideia, "The Final Countdown" teve os vocais gravados em Estocolmo, enquanto a banda permaneceu na Suíça, enquanto os vocais das demais canções foram regravadas, de última hora, na Califórnia. De qualquer forma, se tornou um baita sucesso! A canção tornou-se obrigatória desde então nas apresentações do grupo, tendo sido apresentada pela primeira vez no show que o grupo fez em Gävle, Suécia, em 29 de abril de 1986. Eu acho que ouvi essa música quando tinha três, no máximo quatro anos. Tenho uma vaga lembrança de sair - ou entrar - de um cinema na minha cidade, Pedro Osório, levado pelas mãos de minha mãe, e de ficar impressionado com aqueles teclados, e ainda hoje, passados 40 anos, me emociono sempre que ouço a canção, que automaticamente me traz uma saudosa memória de minha falecida mãe. Onde quer que ela esteja, além de minhas memórias, certamente ela foi uma das responsáveis por me tornar o colecionador de discos e aficcionado por música que me tornei.

Single de "Rock the Night"

Seguindo com o disco, Norum comanda o riff pesado e as alavancadas da intro de "Rock the Night", já presente no citado On The Loose. Para The Final Countdown, o Europe fez pequenas mudanças sonoras, tirando a parte mais crua do que foi gravado em 1985, e um pouco mais "limada". O baixo pulsa ao invés de cavalgar como em "The Final Countdown", e aqui, Tempest não está exagerando nos vocais, tornando a canção bem agradável do que está presente na bolachinha. Mais um refrão contagiante e grudento, e Norum fazendo dois solos bem virtuosos, com boa velocidade nos dedos. Se o jogo estava ganho em "The Final Countdown", aqui o Europe já está controlando totalmente o campo, e com apenas 15 minutos de audição, decreta a goleada sonora deste disco com a baladaça "Carrie".

Single de "Carrie"

Como ela era uma canção apenas para piano e voz, para The Final Countdown ela recebeu o time completo. O piano elétrico de Michaeli surge com outro riff inesquecível e mágico, para acompanhar a voz dolorida de Tempest, comentando sobre o fim de um relacionamento, lembrando que Carrie, a menina, nunca existiu de verdade - ao menos com este nome - segundo o vocalista. A entrada do Europe vai crescendo a canção, que explode no refrão entoando o nome de "Carrie", e pronto, estamos já fãs de Europe. Três canções que são a melhor representação do que foram os anos 80 musicalmente, com teclados e sintetizadores dominando as camadas sonoras, bases quadradas e simples de baixo e bateria, guitarristas fillers e repletos de virtuose, e um vocalista exageradamente gritante, e que para muitos, é exatamente o que torna os anos 80 terrível, mas para mim, é o espetáculo musical extremamente excelente. Ouçam o solo de Norum em "Carrie" e deleitem-se com algo simples, mas belíssimo, e a faixa encerra-se com uma bonita partipação dos teclados.

Voltamos aos hards mais tradicionais em "Danger on the Track", com um riff combinado de teclados, guitarras e baixo, sem ser no ritmo pulsante, e um ótimo trabalho vocal. Para quem ainda não pegou, o trabalho de construção do Europe mostra-se novamente simples mas grudento, com estrofe refrão-estrofe-solo construídos perfeitamente para o fã cantar. Admirem o solo de Michaeli aqui, lembrando bastante Jon Lord nos anos 70, já que ele utiliza um hammond para o tal, e também o bom solo de Norum, com muitos bends e velocidade. O lado A fecha com "Ninja", faixa mais veloz, cujo riff rapidamente me remete à "Lights Out" (UFO), em uma canção bastante animada, que também poderia figurar como trilha de Animes como Demon Slayer ou Naruto. Segunda faixa mais antiga do disco, eu curto bastante o solo de Norum aqui, utilizando notas mais agudas e vibratos. Podem me chamar de louco, mas tenho muita certeza que há forte inspiração em Michael Schenker para esta canção. 

Pôster que acompanha a versão original sueca
Single de "Cherokee"

O lado B surge com as batidas e o refrão grudento de baixo, guitarra e teclados para "Cherokee", faixa inspirada nos nativos americanos (mais um indicativo de quem eles queriam conquistar), sendo um hardão tipicamente oitentista, com os exageros vocais de Tempest tomando conta das caixas de som, e destacando o baixo marcante de Levén, além do forte refrão e dos belos solos de Norum e Michaeli, este último me remetendo facilmente ao solo de Eddie Van Halen em "Jump". Esta foi a última canção criada para o álbum, ficando pronta uma semana antes das gravações na Suíça, e acabou se tornando o quarto single a ser lançado daqui. Seguimos com os teclados e as vocalizações que abrem "Time Has Come", uma bonita balada inicialmente, que ganha bastante dramaticidade com a entrada do violão, mas, com a entrada da guitarra, baixo e bateria, torna-se outro potente hard oitentista, onde o solo de Norum aqui não é recheado de fillers, mas sim mais pegado e com belos bends e vibratos, como uma boa balada farofa exige.

O single de “On the Loose”,
ainda como trilha do filme

"Heart of Stone" mantém o padrão oitentista de refrão forte e muito teclado, mas aqui, com Norum fazendo mais estripulias em seu ótimo solo, até com uma pegada mais bluesy no início, mas detonando notas rápidas na sequência. A veloz "On the Loose" nos leva para a reta final do álbum, e também ao já citado filme, com outro magnifico solo de Norum, exalando virtuosismo em notas muito velozes e o nome da canção grudado na nossa mente, fechando com "Love Chaser", iniciando com os teclados que nos remetem a "The Final Countdown", mas logo após, a entrada da guitarra e do baixo cavalgante modificam essa ideia, sendo uma faixa mais simples, onde os teclados e as vocalizações se sobressaem junto de mais um refrão marcante. 

Cinco singles foram lançados de The Final Countdown: "The Final Countdown", "Love Chaser", "Rock the Night", "Carrie" e "Cherokee.". Tempest sugeriu a faixa título como primeiro single, apesar dos demais quererem 'Rock The Night", já que achavam que a canção, por ser diferente das demais do grupo, jamais se tornaria um hit. Porém, a gravadora concordou com Tempest, e então, o compacto da faixa-título atingiu o primeiro lugar em 25 países, incluindo os charts britânicos, onde permaneceu na primeira posição por duas semanas, França e Alemanha, chegando a oitava posição nos Estados Unidos. Já seu vídeo tem mais de 1,3 bilhões de visualizações no YouTube.

Single de “Love Chaser” na trilha
de World Grand Prix Pride One

O single de "Rock the Night" também saiu-se relativamente bem, conquistando segunda posição na Bélgica e Holanda, décima segunda no Reino Unido e vigésima segunda nos Estados Unidos, país onde o single de "Carrie" é o que atingiu a maior posição, chegando no terceiro lugar, e curiosamente atingindo como máximo apenas a décima posição na Irlanda e Suíça, fracassando nos demais países. "Cherokee" não conseguiu emplacar na Europa, e atingiu a modesta posição 72 nos Estados Unidos. Por fim, há também o raro single de "Love Chaser", lançado apenas no Japão, e que não emplacou por lá. Além disso, a canção está na trilha do filme World Grand Prix Pride One, em versões cantada e instrumental, assim como "Carrie" surge na trilha da mesma forma.

A banda começou a turnê de promoção de The Final Coundown no citado show de 29 de abril. O álbum era para ter saído um pouco antes disso, mas acabou atrasando devido a problemas com a capa. No dia do lançamento do disco, há 40 anos, o Europe encerrava a parte sueca da turnê com a segunda apresentação em dois dias (25 e 25) na cidade de Solna, no Solnahallnen, os quais foram filmados para uma transmissão televisiva que acabou culminando no clássico VHS/DVD The Final Countdown Tour ’86 (que originalmente, saiu somente - obviamente - no Japão).

Na sequência, foi a vez dos nipônicos receberem o Europe, onde eram tratados como deuses. O grupo aterrisou por lá em setembro de 1986, fazendo quatro show em Tóquio e ainda concertos em Nagoya e Osaka. Porém, apesar do sucesso, nem tudo era festa nos camarins do Europe. Norum sentia-se cada vez mais incomodado com as diferenças musicais que o Europe havia se tornado, bem como mostrava grande insatisfação com os caminhos que o empresário da banda, Thomas Erdtman, estava dando para os suecos. Em comum acordo, Norum decidiu ficar para a segunda parte da turnê sueca, a qual começou em Örebro no dia 26 de setembro de 1986, assim como a perna europeia, que incluiu apresentações em TVs locais e entrevistas. Porém, em 31 de outubro de 1986, após uma apresentação em Amsterdam, Holanda, Norum pulou da barca, alegando insatisfação com a quantidade de teclados no som do grupo, os quais, segundo ele, enterraram as guitarras.

VHS que cobriu a turnê do
quarentão The Final Countdown

Norum foi então substituído por Kee Marcello (ex-Easy Action), o qual estreia nos clipes de "Rock the Night", "Cherokee" e "Carrie", surgindo oficialmente ao público na apresentação de 12 de dezembro de 1986 na Alemanha, durante o Peters Popshow de Dortmund. Ainda na sequência da turnê, a apresentação no Hammersmith Odeon de 1987 acaba tornando-se o cobiçado VHS/Laser Disc The Final Countdown World Tour

Como curiosidade, anos depois, em 2007, oito das dez faixas do LP aparecem no filme Hot Rod. E para encerrar, The Final Countdown vendeu muito. Conquistou a primeira posição na Suécia (platina, com 100 mil cópias vendidas), Espanha (platina quádrupla, com 400 mil cópias vendidas), Finlândia (platina, com 70 mil cópias vendidas), e Suíça (platina, com 50 mil cópias vendidas), segunda na Itália, terceira na Austrália (platina dupla, com 140 mil cópias vendidas), Holanda (ouro, com 80 mil cópias vendidas) e Nova Zelândia, quarta na Noruega (platina, com 100 mil cópias vendidas), quinta na Áustria, sexta no Canadá (platina dupla, com 200 mil cópias vendidas) e Alemanha (ouro, com 250 mil cópias vendidas), oitava nos Estados Unidos (platina tripla, com 3 milhões de cópias vendidas) e nona no Reino Unido (ouro, com 100 mil cópias vendidas). O aniversariante já ultrapassa a marca de 12 milhões em vendas ao redor do mundo. 

Contra-capa do LP

Track list

1. The Final Countdown

2. Rock the Night

3. Carrie

4. Danger on the Track

5. Ninja

6. Cherokee

7. Time Has Come

8. Heart Of Stone

9. On The Loose

10. Love Chaser





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