O Ano de 1980 começou diferente para o Rush. Meses antes, em apenas quatro semanas (entre setembro e outubro de 1979) o grupo havia encerrado as gravações de seu sétimo álbum, Permanent Waves, nos estúdios Le Studio, entre as montanhas de Morin Heights em Quebec, no Canadá. O lugar idílico e contemplativo, com paredes de vidro onde se viam apenas neve, nuvens, montanhas, árvores e um lago, inspirou o trio Alex Lifeson (guitarras, guitarra de doze cordas, violões, violão de 12 cordas, violão clássico, bass pedal sinthesizer), Geddy Lee (baixo, violão de doze cordas, mini-moog, bass pedal synthesizer, vocais) e Neil Peart (bateria, sinos, tímpano, tubular bells, Wind Chimes, triângulo, Bell Tree, Vibraslap) a buscar novas sonoridades para a nova década que estava entrando em suas casas. Dentro destas sonoridades, o grupo The Police foi uma grande força motora para o Rush ampliar seus sons progressivos, e começarem a criar canções mais acessíveis, não tão grandiosas quanto suas Maravilhas "2112" e "Cygnus X-1 Book Two: Hemispheres", mas capazes ainda de trazerem novidades para os fãs.
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| O Rush no Le Studio, em outubro de 1979 |
O processo de composição começou em meados de julho de 1979, seis semanas após a última apresentação do trio durante a turnê de Hemispheres, a qual ocorreu em 4 de junho, no Pink Pop Festival de Galeen, na Holanda. Depois de merecidas férias, Lee, Lifeson e Peart não sabiam bem o que queriam, mas sabiam bem O QUE NÃO QUERIAM. Como explicou Lee para o jornalista Jon Sutherland, em uma entrevista para a revista Record Review em 1980: "Chega um ponto em que você se pega caindo num certo padrão, e aí é hora de sacudir a cabeça, se soltar e fazer algo diferente. No que diz respeito a álbuns conceituais, a gente já fez isso. Levamos isso até o limite lógico, e agora é hora de fazer outra coisa."
Era uma clara ideia de sair das longas e conceituais faixas de seus discos anteriores, e com essa mentalidade, a banda migrou para a fazenda Lakewood em julho de 79, há duas horas da cidade Natal dos rapazes, Toronto, onde começaram a criar e compor novas canções, mergulhando em improvisações que logo na primeira noite viraram a primeira composição, batizada "Uncle Tounouse". Partes dela iriam ser usadas para criar outras canções logo adiante. Após duas semanas trancafiados, com Peart tendo seu próprio espaço para pensar as letras, e Lee e Lifeson desenvolverem seus lados musicais, quatro faixas estavam prontas: "The Spirit of Radio", "Freewill", "Entre Nous" e nossa Maravilha de hoje, "Jacob's Ladder".
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| Alex Lifeson, Neil Peart e Geddy Lee. O Rush em pleno trabalho de criação, outubro de 1979 |
De lá, partem para o Sound Kitchen, um estúdio em Toronto, para registrarem as demos dessas quatro faixas, e logo em seguida, em setembro de 79, já estavam novamente com o pé na estrada para apresentar duas delas ao seu público, no caso "The Spirit of Radio" e "Freewill". "Entre Nous" e "Jacob's Ladder" continuaram a ser aperfeiçoadas durante as passagens de som, e então, como dito no início do texto, ainda em setembro isolam-se em Morin Heights para encerrar as gravações. Apenas a menção de Le Studio para os fãs do Rush já traz uma visão romântica sobre aquele período, no que o jornalista Ray Wawrzyniak considera como "o casamento perfeito".
Vamos às palavras de Peart sobre o local: "Le Studio é um local maravilhoso, aninhado no vale das montanhas Laurentian, cerca de 60 milhas (100 kms) ao norte de Montreal. Está situado em 250 acres de terreno acidentado e arborizado, ao redor de um lago particular. Em uma extremidade do lago fica o estúdio, e na outra, a cerca de uma milha (pouco mais de 1,5 km), está a casa de hóspedes luxuosa e confortável. Nós nos deslocávamos de bicicleta, barco a remo, a pé, ou, por preguiça ou mau tempo, de carro. Chegamos no auge da glória plena do outono, e ficamos lá durante um autêntico Verão de São Martinho (Indian Summer em inglês), e saudamos a chegada da neve e do inverno, tudo isso nas nossas quatro semanas de estadia.".
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| Neil Peart |
Peart continua, agora comentando sobre o estúdio em si: "O local de gravação é, obviamente, nada menos que excelente em todos os sentidos. A própria sala tem uma parede inteira de vidro, com vista para um cenário espetacular do lago e das montanhas. Isso está em contraste direto com a maioria dos estúdios, que são mais como cofres isolados e atemporais, o que, nesse aspecto, claro, não é necessariamente ruim. Nós trabalhamos sob a luz do sol, e dava pra observar a mudança das estações nos momentos de descanso, em vez de ter uma visão pouco iluminada e esfumaçada de equipamentos musicais e eletrônicos".
Com esse ambiente em sua volta, a amizade entre os três membros da banda tornou-se ainda mais forte, ensaiando e gravando durante o dia, e jogando vôlei durante a noite, tornando-se um lugar definido por Lee como "especial em nossos corações". Definitivamente, não havia local melhor para Permanent Waves ser concebido.
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| Encarte de Permanent Waves, com a dedicatória em “The Spirit of Radio” |
Lançado em 14 de janeiro de 1980, o álbum abre com "The Spirit of Radio", justamente trazendo a ideia da importância do rádio para a música, sendo esta uma das canções mais comerciais - e não à toa, de maior sucesso - da história do trio canadense misturando elementos do rock principalmente com o reggae. Como lembra Lifeson: "estávamos sempre tocando reggae no estúdio, e costumávamos fazer a introdução de 'Working Man' nesse estilo durante os shows, e foi então que isto logo tornou-se 'The Spirit of Radio'. Pensamos que fazer um reggae iria nos fazer sorrir e ter um pouco de diversão". O Rush passou a tocar nas rádios frequentemente pós-"The Spirit of Radio", que talvez só seja batida em termos de popularidade por "Tom Sawyer".
Vale lembrar que no encarte do álbum, há uma inscrição que diz: "inspirado pelo 'espírito do rádio' de Toronto, vivo e bem (até agora)", em uma homenagem à David Marsden, o cara responsável por lançar o Rush nas rádios, anos antes, quando era funcionário da CHUM-FM, de Toronto, tocando canções do primeiro disco do grupo. O nome da canção é uma homenagem ao slogan criado por David para a rádio e o programa que ele estava em 1979, a CFNY-FM, de Toronto.
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| Parte frontal do encarte |
O álbum segue com "Freewill", outra faixa que traz esse sentido de novos ares para o Rush, principalmente na letra, e então, fechando o lado A, nossa maravilha. Na Bíblia, a Escada de Jacó é uma escada que leva ao Céu, sendo retratada em um sonho que o Patriarca Jacó teve durante a fuga de seu irmão Esaú, no Livro do Gênesis (capítulo 28:10-19). Trago aqui o trecho da citação bíblica:
"E Jacó saiu de Beer-Sabá e foi em direção a Harã... ele pegou uma das pedras do lugar, colocou-a sob a cabeça e deitou-se ali para dormir. E ele sonhou, e eis uma escada erguida na terra, e o topo dela alcançava o céu; e contemplem os anjos de Deus ascendendo e descendo sobre ela ... A terra onde jazes, a ti a darei e à tua descendência. E a tua semente será como o pó da terra, e espalharás para o oeste, para o oriente, para o norte e para o sul. E em ti e em tua descendência todas as famílias da terra serão abençoadas..."
O significado do sonho tem sido debatido e causado diversas interpretações, mas a maioria delas concorda que Jacó é colocado diante de suas obrigações e da herança do povo escolhido por Deus. Os anjos subindo e descendo da escada podem significar a própria vinda e ascensão dos homens à Terra. De qualquer forma, a inspiração do sonho, e da construção da escada, influenciou os meteorologistas a batizar o fenômeno meteorológico onde a luz do Sol rompe nuvens durante uma tempestade, ou até em dias fechados, exatamente de Escada de Jacó.
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| Geddy Lee |
E este fenômeno esteve no Le Studio, e com a visão das luzes do Sol nas paredes de vidro do estúdio, Peart teve a inspiração para criar esta obra-prima. Conforme seu relato: "A maioria das ideias que lidamos dessa vez eram menores e, em alguns casos, como em 'Jacob's Ladder', vistas como uma ideia cinematográfica." Ele segue: "Criamos toda a música primeiro para evocar uma imagem – o efeito da Escada de Jacó – e pintar o quadro, com as letras adicionadas só como um pequeno detalhe, depois, para torná-la mais descritiva." Era o início do Rush começando a criar pequenas peças cinemáticas, que seriam muito bem exploradas em Moving Pictures.
Fechando a concepção de nossa Maravilha, Neil nos conta que "na letra, eu retiro muitas referências da Bíblia, pois ela é uma fonte muito colorida de imagens. Eu não cresci em um meio religioso, mas cercado por religião, indo à escola dominical e tendo lições de educação religiosa na escola. Então, todas estas coisas sugerem elas mesmas como metáforas. 'Escada de Jacó' é uma frase adorável, aquelas duas palavras por si só. E de fato nós iniciamos com isto. Antes de qualquer letra ser escrita, falamos sobre a imagem de uma 'Escada de Jacó', de um céu nublado se aproximando, e de repente, todos estes feixes de luz que todo mundo viu. Isto foi muito inspirador para mim, mas nós tivemos a mesma experiência em comum. Então, nós criamos a música a partir daquela visão, ou imagem, e escrevemos o som inteiro. Depois, escrevi alguns versos para fazer a imagem mais acurada, e também para trazer os vocais como mais um instrumento sonoro".
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| Alex Lifeson |
Um fenômeno lindo só poderia gerar uma música linda. O baixo surge marcando o tempo junto de um longo acorde de sintetizador, trazendo o dedilhado da guitarra e as batidas marciais de Peart, em uma introdução enigmática, até que a guitarra passa a fazer os mesmos acordes do baixo. A voz de Lee surge sobre camadas de sintetizadores, trazendo a letra:
"The clouds prepare for battle
In the dark and brooding silence
Bruised and sullen stormclouds
Have the light of day obscured
Looming low and ominous
In twilight premature
Thunderheads are rumbling
In a distant overture"
"As nuvens se preparam para a batalha
No silêncio escuro e sombrio
Nuvens de tempestade roxas e carrancudas
Ocultaram a luz do dia
Aproximando-se baixas e ameaçadoras
Num crepúsculo prematuro
As nuvens de trovoada ribombam
Numa abertura distante"
A medida que Lee vai cantando, a canção vai tornando-se cada vez mais tensa, até explodir com as batidas de Peart. Lifeson e Lee soltam notas longas que fazem a base para o lindo solo de Lifeson, carregado de eco e muitos, mas muitos bends e notas agudas. Um dos solos mais lindos de sua carreira, sem exagerar nas notas rápidas, apenas sentimento puro, solando simples enquanto baixo, teclados e bateria conduzem-no para romper o céu. Eis que então "Jacob's Ladder" ganha mais tensão, com baixo, guitarra e bateria fazendo o ritmo igualmente, como nuvens chocando-se para criar trovões, utilizando-se de variações sobre seis acordes menores, enquanto o sintetizador apenas faz a camada que interliga tudo para o grande clímax da canção.
De forma etérea, entre os sons de sintetizadores que surgem nas caixas de som, novamente enigmáticos, trazendo ao ouvinte a sensação das nuvens no espaço, soltas, e um céu fechado a ser colorido conforme se queira pelas luzes do Sol. A voz robótica de Lee surge, na mesma melodia do sintetizador Oberheim:
"All at once,
The clouds are parted
Light streams down
In bright unbroken beams"
"De repente,
As nuvens se abrem
A luz jorra lá de cima
Em raios brilhantes e contínuos"
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| Uma escada de Jacó, flagrada no Japão |
Então, a 'Escada de Jacó' começa a ser pintada pelo Rush em seu céu imaginário, após as batidas dos sinos tubulares, começando com a guitarra de Lifeson fazendo seu dedilhado, e com pequenas batidas que lembram pinceladas suaves, cada raiar de luz jorrar das nuvens, as quais vão se tornando mais agressivas na medida que Peart impõem ritmo "à pintura", como mais raios de luz rasgando o céu. Lee também faz marcações com seu baixo, enquanto o sintetizador passeia seu pincel junto com a guitarra e a bateria para criar a mais perfeita ilustração deste céu iluminando-se. Tudo encerra-se com guitarra e baixo solando juntos, enquanto Peart dá um show à parte, concluindo uma obra prima, seja no céu imaginário, seja na audição real, com batidas fortes de guitarra, baixo e bateria, trazendo então a voz de Lee:
"Follow men’s eyes
As they look to the skies
The shifting shafts of shining
Weave the fabric of their dreams…"
"Siga o olhar dos homens
Enquanto fitam os céus
Os raios mutáveis e brilhantes
Tecem o tecido de seus sonhos"
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| Um pouco mais do Rush no Le Studio |
Assim, de forma avassaladora, a letra é concluída, mostrando como os homens estão fascinados com o que veem no céu, ao mesmo tempo que estamos todos fascinados com o que ouvimos nas caixas de som, deixando apenas o ritmo marcial do baixo e os longos acordes de teclados ressoando pela sala para podermos refletir sobre a tempestade musical que passou. Fantástico.
O lado B segue com mais uma faixa bem comercial, "Entre Nous", seguida por "Different Strings", com seu complexo andamento que exigiu de Peart o uso de um metrônomo para concluí-la, e outra Maravilha Prog, "Natural Science". Mas esta é papo para outra postagem.
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| Contra-capa de Permanent Waves |
Permanent Waves atingiu a quarta posição nas paradas dos Estados Unidos, onde recebeu ouro (500 mil cópias vendidas) apenas três meses após seu lançamento - e posteriormente, em 1987, tornou-se platina, com um milhão de cópias vendidas - e número três no Reino Unido e Canadá. O single de "The Spirit of Radio" foi o primeiro dos canadenses a superar o Top 30 nas paradas estadunidenses.
O grupo partiu para mais uma longa turnê, retornando ao Le Studio para gravar aquele que é considerado sua obra-prima, Moving Pictures. Porém, encerro por aqui - por enquanto - as Maravilhas Progs do Rush, lembrando que em janeiro, o Rush novamente estará entre nous - e eu estarei lá novamente para vê-los.










