sábado, 21 de agosto de 2021

Ouve Isso Aqui: Discos de Guitarristas


 

Por André Kaminski

Tema escolhido por Daniel Benedetti

Com Davi Pascale, Fernando Bueno e Mairon Machado

Eu não poderia começar este texto de outra forma. Após, no início de 2021, ter passado quase 30 dias em coma, estou em um longo processo de recuperação da Covid 19. E a música tem sido um instrumento poderoso para que eu consiga estabelecer uma reconexão com minha própria vida.

Tendo sido o sorteado para escolher o tema deste “Ouve Isso Aqui”, resolvi colocar alguns dos discos que têm sido “meus companheiros” nesta jornada. Espero que meus amigos consultores também tenham curtido as escolhas. Boa leitura! (Daniel)


Rory Gallagher – Deuce [1971]

Daniel: Disco sensacional de um dos guitarristas mais talentosos do rock setentista – e dos menos exaltados. Tendo o Rock como base, Gallagher flerta com o Folk e com o Blues, prioritariamente. Faixas cativantes e criativas como “Maybe I Will”, “Whole Lot of People” e “Crest of a Wave” são ótimos exemplos da forma agressiva e ‘elétrica’ com que Gallagher construiu as canções, tendo a guitarra como protagonista para realçar a beleza das mesmas.

André: Este é um dos grandes discos do irlandês fodão da guitarra. Muito blues, hard e como não podia deixar de faltar, uma pegada céltica típica da ilha principalmente nas partes mais acústicas. Particularmente gosto mais justamente destas músicas de levada mais folk como “I’m Not Awake Yet” e aquela delícia de canção western americana “Don’t Know Where I’m Going”. Rory nunca foi lá um grande vocalista, mas consegue se segurar razoavelmente nas vozes. Um ótimo disco que dá de todos apreciarem sem qualquer problema.

Davi: Grande guitarrista! Gosto bastante do trabalho dele. Dentro e fora do Taste. Deuce é seu segundo álbum solo e Rory queria que o disco capturasse a vibe de seus shows. Gallagher havia achado a sonoridade de seu primeiro álbum solo muito polida e queria corrigir isso. Sua jogada deu certo. A sonoridade do álbum é impactante. Musicalmente, os arranjos possuem influências variadas. “Out Of My Mind” traz influências de country na levada de violão. A gaita de “Don´t Know Where I´m Going” remete ao trabalho folk de Bob Dylan. “Shoud I´ve Learnt My Lesson” traz o músico caindo de cabeça no blues. Os momentos que mais gosto, contudo, são “In Your Town”, onde temos Rory Gallagher roubando a cena com sua slide guitar, e o rock sujo e honesto “Used To Be”, responsável por abrir o LP. Bom álbum!

Fernando: Essa foi uma das minha melhores descobertas recentes. Por algum motivo eu nunca tinha ouvido o Rory Gallagher e quando tomei conhecimento desse mesmo disco eu fiquei com aquele sentimento de recuperar o tempo perdido. Ouvi todos os discos de estúdio que ele gravou e também o Taste, sua banda anterior. Mas é claro que mesmo tendo ouvido tudo eu ainda não consegui captar todas as nuances de sua carreira solo. Deuce mesmo sendo o preferido de boa parte dos fãs não está no topo do pódio lá de casa. Acho o Tattoo (1973) melhor e mesmo seu disco de estreia roda mais lá em casa.

Mairon: Disco que dispensa apresentações. Outro mestre irlandês da guitarra fazendo misérias em um hard rock de primeira. Gosto muito das inspirações flamencas de “I’m Not Awake Yet”, até por que é raro ver e ouvir Rory ao violão, algo que ele faz também com um talento impecável em “Out Of My Mind” e na divertida “Don’t Know Where I’m Going”, quase dando uma de Bob Dylan com sotaque irlandês. Mas é o hardão de faixas emblemáticas do porte de “Used To Be”, “Maybe I Will” e “There’s A Light”, ou então solando ao slide em “In Your Time” e “Crest Of A Wave”, as mais Taste das canções de Deuce, e não por menos fortes candidatas a melhores do álbum, ou “Whole Lot Of People”, que fazem de Deuce um clássico atemporal, mostrando por que Rory é tão idolatrado ainda hoje. Ouça o blues “Should’ve Learnt My Lesson” e tente acreditar que é um irlandês quem está cantando/tocando. Baita disco de um artista que merece ser reconhecido muito mais do que alguns superestimados por aí.


Paul Kossoff – Back Street Crawler [1973]

Daniel: Eu adoro os álbuns do Free. Paul Kossoff, guitarrista da banda, morreu muito jovem e jamais saberemos em que nível poderia chegar. Sem as amarras que o baixista do seu antigo grupo, Andy Fraser, o que se ouve é o espírito livre de Kossoff e todo o sentimento que ele conseguia colocar em cada nota que tocava, especialmente nos solos. Basta sentir a ótima “Tuesday Morning”, uma espécie de Jam Session, na qual Kossoff exerce toda sua criatividade.

André: Esse faz uma falta danada ao rock. O brilhante guitarrista do Free felizmente deixou este belo disco, com grandes passagens de guitarra que faz qualquer um que ame blues rock molhar as calças de tesão. Todavia, minha preferida é justamente a faixa “Molten Gold” com Rodgers nos vocais e os caras do Free tocando, música que podemos até considerar como parte da banda. Kossoff é daqueles casos que a guitarra canta sozinha, demonstra sentimento em suas linhas e até parece que sinto o cara dando a alma ali naquelas gravações. Uma pena mesmo que o vício em drogas nos tirou muito cedo um grande músico.

Davi: Gosto muito do trabalho de guitarra que Paul Kossoff realizou ao lado do Free. E também lamento muito que tenha partido tão cedo. Gostaria de ter escutado mais álbuns solo dele, tenho certeza que teria realizado trabalhos brilhantes. Mesmo! “Tá, mas o que você pensa de Back Street Crawler”? Bem, esse é um trabalho que considero sua audição satisfatória, mas que possui poucos momentos que realmente me chamam a atenção. Para ser mais preciso, as faixas “I´m Ready” e “Molten Gold” são as duas que gosto realmente de escutar. Essa última, aliás, nada mais é do que um outtake do álbum Free At Last e está registrado ao lado de seu ex-grupo. Resumindo: disco, sem dúvidas, agradável, mas que esperava mais por ter sido realizado por um músico desse calibre.

Fernando: Óbvio que eu gosto do Free, mas nunca me passou pela cabeça ouvir um disco solo de seu guitarrista. No fim, porém, foi o disco que mais gostei de ter ouvido. Os outros da lista, exceto o do Gary Moore, eu já conhecia, então eu já sabia o que esperar, mas desse eu não tinha ideia o que viria. Aí no início da faixa de abertura eu fiquei ressabiado vendo que seriam 16 minutos e pensei que seria duro chegar até o fim. Mas não…eu estava enganado!!! Gostei do modo como ele variou tempos, estilos e abordagens ao longo da faixa. Também fiquei curioso quando vi que tinham músicas cantadas também, mas esperava que o próprio Kossof tivesse cantado, mas nesse caso me frustrei, apesar das faixas serem muito boas e cantadas por quem conhece do ofício. No geral é um belo disco!

Mairon: A guitarra do Free seguindo carreira solo. O álbum por si só é uma prova de luta de Kossoff, que parece ter gravado o mesmo batalhando contra seu vício em drogas. O lado A é dedicado para a jam “Tuesday Morning”, com uma performance sensacional de Alan White na bateria, e claro, Kossoff rasgando a guitarra em bends épicos, duelando com o órgão de John “Rabbit” Bundrick, além de muito feeling, e por que não, algumas engasgadas que não fazem parte do que acostumamos a ouvir dele no Free, mas que aqui caem bem dentro da questão que estamos curtindo um improviso viajandão. Apesar do improviso de “Back Street Crawler (Don’t Need You No More)”, o lado B é mais “pop”, tendo ainda a dançante “I’m Ready”, e a cria de Free “Molten Gold”, onde Paul Rodgers solta seu vozeirão, Andy Fraser aparece no baixo e Simon Kirke comanda a bateria. Ou seja, é o Free enrustido na carreira solo de Kossoff, fazendo uma baladaça. A melhor faixa do LP para mim também está no lado B, a delirante “Time Away”, onde Kossoff faz a guitarra gemer como Jeff Beck faria, esbanjando feeling. Bom disco de um dos grandes nomes do hard setentista, e que fazia um bom tempo que não ouvia.


Steve Hackett – Voyage of the Acolyte [1975]

Daniel: O extraordinário guitarrista do Genesis, com seu estilo elegante, em uma obra que é uma verdadeira ode ao rock progressivo. Com muita criatividade, Hackett impõe sua própria personalidade neste excelente disco, demonstrando sua categoria em faixas como “Star of Sirius” e a épica “Shadow of the Hierophant”. Um álbum excelente e uma ótima porta de entrada para quem conhecer todo o requinte do rock progressivo.

André: Dentre os discos de guitarristas, este foi o que eu mais gostei. Acho que é porque ando numa fase bem progueira nos últimos meses. Basicamente, este aqui é o Genesis sem o Tony Banks. E pelo que disseram, estas músicas foram descartadas pela banda e do qual Steve resolveu gravar em seu primeiro solo. Collins e Rutherford participaram também e Collins fez alguns vocais pouco antes de os assumir no Genesis logo depois. Disco bem sinfônico, muitas quebras e solos, com os de guitarra obviamente se sobressaindo. Gostei de todas as faixas. O disco passou voando e tudo foi muito agradável. Hackett nunca me decepciona.

Davi: Esse é o primeiro álbum solo do ex-guitarrista do Genesis. Trabalho que, inclusive, foi lançado quando esse ainda fazia parte da cultuada banda. Trata-se de um álbum majoritariamente instrumental, muito bem tocado, como era de se esperar, mas que por algum motivo, não me cativou. A pegada progressiva se faz presente, não achei os arranjos exagerados (algo que me agrada), mas sei lá, as canções não me emocionaram. Para não dizer que não gostei de nada, gostei de algumas passagens de “Shadow Of The Hierophant” e achei a faixa cantada “Star Of Sirius” muito bonita. Essa, inclusive, tem a participação especialíssima de Phil Collins nos vocais. Trabalho muito bem feito, sem dúvidas, mas sei lá, não me pegou. Talvez precise ouvir mais.

Fernando: Esse é um clássico! Obrigatório ouvir esse disco, principalmente para quem está entrando na estrada no início da viagem pela longa estrada do rock progressivo. Praticamente um disco de sobras do Genesis que ele resolveu gravar como álbum solo. E pelas sobras dá de ter a noção do quanto a banda estava produzindo em alta qualidade naquela época. Até acredito que o sucesso desse disco solo tenha sido a chave de virada para a sua saída da banda. Não fique com medo de ouvir um disco completamente instrumental. Para quem já ouve o Genesis com suas longas passagens instrumentais em várias de suas músicas não vai nem sentir isso.

Mairon: Essa belezinha está na minha coleção há algum tempo. Um Hackett inspiradíssimo, e muito bem acompanhado (inclusive dos colegas Mike Rutherford e Phil Collins, mas destacando o irmão John Hackett nos teclados, assim como John Acock no mellotron e piano), cria um álbum magistral de rock progressivo. “Ace of Wands”, faixa que abre Voyage of the Acolyte, é uma obra-prima digna de ser chamada de Maravilha Prog, com diversas variações. O álbum é um espetáculo diverso, trazendo por exemplo a sutileza do violão, mellotron e flauta nas lindas duas partes de “Hands of the Priestess”, as claras referências de Genesis em “Star of Sirius”, com a participação de Phil Collins nos vocais, e aqueles dedilhados encantadores do violão de Hackett, a intrincada  “A Tower Struck Down”, e a beleza de “Shadow of the Hierophant”, com os sopranos vocais de Sally Oldfield.  “The Hermit” é a oportunidade de ouvirmos Hackett aos vocais, em uma linda canção ao violão, e claro, ele também nos brinda com mais uma linda composição ao violão clássico na fantástica “The Lovers”. Outro álbum em que a guitarra não é o centro das atenções, mas que a criatividade do guitarrista é fantástica.


Gary Moore – After Hours [1992]

Daniel: Eu sou fã da obra do Gary Moore, especialmente de seus discos voltados para o Blues. After Hours é o meu favorito. São 11 faixas, sendo 7 composições próprias, em um trabalho em que é possível perceber todo o sentimento que o guitarrista colocava em seus solos (como em “Story of the Blues”). A parceria com o mestre BB King, em “Since I Met You Baby” é um dos pontos altos do disco, bem como “The Blues Is Alright”, a qual conta com o também monstruoso Albert Collins. Para não dizer que tudo são flores, eu não curto muito a balada “Separate Ways”.

André: Apesar de, no geral, eu curtir mais a fase aorzenta oitentista do Moore, cara, esse disco me conquistou com o bom humor do norte irlandês, um repertório excelente e uma performance excepcional. Aqui ele conseguiu uma bela contribuição do gênio B.B.King em “Since I Met You Baby” mas a canção que mais gostei foi a lindíssima balada final “Nothing’s the Same”, com uma voz açucarada de Moore levada principalmente no teclado e com solos belíssimos de poucas notas à la David Gilmour pelos quais amo demais. Segundo melhor da lista.

Davi: Sem dúvidas, esse é meu trabalho favorito da lista. Sempre fui muito fã do Gary Moore e adoro essa fase. After Hours, nada mais é do que uma continuação de seu antecessor, o clássico Still Got The Blues. A sonoridade segue a mesma lógica. A mescla de rock e blues continua presente, o diferencial acredito que seja o uso dos metais, que já aparecia no anterior em canções como “Oh Pretty Woman”, mas que aqui aparecem mais encorpados. O tracklist não possui nenhuma canção que tenha tocado tanto quando “Still Got The Blues”, mas traz bastante momentos marcantes como “Cold Day In Hell”, “Story Of The Blues” e “Jumpin´ At The Shadows”. Isso sem contar nas participações especialíssimas de B.B. King em “Since I Met You Baby” e Albert Collins em “The Blues Is Alright”. Discaço!

Fernando: Nunca tinha ouvido a carreira solo do Gary Moore. Esse disco é indicado para quem gosta desse blues rock mais eletrificado e cheio de distorção que aparece em alguns momentos da carreira do Eric Clapton. É música para levantar o clima de qualquer lugar. “Story of the Blues” é excelente! A participação de B. B. King em “Since I Met You Baby” nos leva de volta lá para as raízes do rock and roll. “Separate Ways” é daquelas músicas que um professor deve colocar para seus alunos quando for ter uma aula de blues.

Mairon: Depois dos anos 80 bastante recheados de altos e baixos, Gary Moore entrou nos anos 90 contudo, e nesse álbum, traz o blues como base para criação de faixas espetaculares ao lado de ícones como B. B. King (“Since I Met You Baby”, animadíssima) e Albert King (“The Blues Is Alright”, uma aula de solo dos músicos), ou sozinho em “Cold Day In Hell”. Desprezando as chatinhas “The Hurt Inside” e “Separate Ways”, que nada acrescentam ao disco, o resto é de alto nível. Por vezes, parece que estamos ouvindo o também saudoso Stevie Ray Vaughan comandando as guitarras. Melhores faixas para a dolorida “Jumpin’ At Shadows”, para cortar os pulsos com tanto drama, a baladaça bluesy “Story of the Blues”, linda demais, e com Gary Moore fazendo a guitarra gemer sem sentir dor, em um dos melhores solos de sua carreira, bem como a paulada “Only Fool In Town”, pesada mas bluesy como só Moore conseguia criar. Ainda temos a animada “Don’t You Lie To Me (I Get Evil)”, comandada pela presença dos metais, e a arrepiante “Nothing’s The Same”, que apesar de não ser uma faixa de blues, fecha o álbum em alto nível, com uma letra que me emociona muito. É uma surpresa ter After Hours como indicação para um Ouve Isso Aqui no quesito Gary Moore, já que há outros grandes discos do guitarrista em sua carreira. Mas isso não significa que After Hours não seja um belo disco de guitarras.


Kiko Loureiro – Universo Inverso [2006]

Daniel: Para aqueles que apenas conhecem a faceta “metaleira” de Kiko Loureiro, este disco é surpreendente. Foi o meu caso. Eu não acompanhava sua carreira solo e, quando ouvi este álbum pela primeira vez, fiquei positivamente surpreso. E isto foi há muito pouco tempo. As influências brasileiras estão presentes por aqui, mas o que pega, pelo menos para mim, é a fusão do Jazz com a Música Latina, e esta mistura é muito saborosa aos meus ouvidos. Um trabalho que eu curti bastante e do qual estou cada vez mais fã.

André: Muita gente reclamaria de “como um músico de metal espadinha vai se atrever a gravar um álbum de fusion”? Nunca tive esse preconceito, muito pelo contrário, admiro ainda mais quando músicos saem da segurança do estilo de sua banda principal e buscam outros gêneros e inspirações para o seus discos solo. Universo Inverso se destaca mais ainda no repertório de Kiko justamente por fugir do prog/power do Angra. Uma pena que eu sou minoria. Adorei a delicadeza e simplicidade de “Recuerdo”. Esqueçam o passado do músico em questão e admire a obra pelo que ela realmente apresenta.

Davi: Kiko Loureiro sempre foi um dos meus ídolos e tive o prazer de receber esse CD das mãos do mesmo, quando estive presente na sede da revista Rock Brigade para realizar uma entrevista com o famoso guitarrista no ano de 2006. Sucedendo o (bom) No Gravity, seu segundo trabalho solo mantinha elementos do rock e do fusion, e se distanciava de tudo que já havia feito antes por adicionar doses cavalares de jazz, música brasileira e música cubana. Os músicos são excelentes e fiquei muito feliz pela participação de outro músico que admiro muito, o baterista Cuca Teixeira. Musicalmente, esse é o álbum que menos gosto de Kiko, ainda que tenha alguns momentos brilhantes como “Feijão de Corda”, “Camino a Casa” e “Havana”. De todo modo, estou curioso para ver os comentários dos colegas sobre o disco.

Fernando: Quando vi que o tema seria álbuns de guitarristas eu imaginei que teríamos uma série de discos gravados por músicos virtuosos tocando para outros músicos. Até aqui isso não tinha acontecido e acredito que o Daniel quis brincar com isso quando escolheu o tema e os discos que entrariam. Mas esse é o representante de disco de guitarrista para guitarristas da lista. Gosto muito do Kiko Loureiro, as coisas que ele fez com o Angra fazem parte da minha vida como fã de metal, adorei o Distopia com o Megadeth, mas ultimamente eu tenho preguiça de ouvir esses discos. Só que Kiko é um guitarrista fantástico e mesmo que você não goste dos estilos que ele aborda em algumas músicas a audição te prende pela curiosidade de saber o que vem depois na música. Quem conhece a carreira dele e e já viu pelo menos uma entrevista sabe que ele tem todo esse background de música brasileira e latina. Apesar de tocar metal ele sempre foi interessado nisso e o próprio Angra foi criado para que esses estilos fossem de alguma forma agregados no tipo de som que o André e o Rafael estavam querendo fazer. Por isso Kiko foi o cara perfeito para aquela hora da banda.

Mairon: Kiko Loureiro vem usando de inspirações latinas pra criar um álbum bem interessante. De cara, “Feijão de Corda” já mostra traços nordestinos no estilo de tocar do rapaz, em uma ótima faixa que equilibra solos melodiosos com um acompanhamento jazzy muito bom, principalmente por conta do piano de Yanel Matos, para mim o principal nome do CD, ao lado dos membros da Point of View (Cuca Teixeira na bateria e Carlinhos Noronha no baixo). O Brasil é a principal fonte de inspiração de Kiko, com o samba jazz de “Samba da Elisa”, com um piano maravilhoso, a leve “Realidade Paralela”, o samba “Espera Aí”, com Kiko ao cavaquinho, “Anastácia”, uma das mais fracas do disco, e na dupla “Arcos da Lapa” / “Monday Mourning”, sendo que a última certamente poderia ter sido concebida pela mente de Tom Jobim, enquanto admirava a baía de Guanabara durante uma segunda pela manhã.  “Ojos Verdes” advém do tango, e novamente, é a Point of View quem dá seu show, assim como a belíssima e dolorida “Recuerdos”, na qual o casamento do piano com o violão é simplesmente perfeito. Já “Camino a Casa” é o momento onde Carlinhos brilha no baixo, e as inspirações advém de uma milonga uruguaia com elementos brasileiros, principalmente pela presença da cuíca. “Havana” vem com inspirações da terra do charuto, e é uma das faixas onde Kiko mais se solta. Um álbum que me surpreendeu positivamente, e essa banda que acompanha Kiko aí, bah, seria perfeita para assistir em um boteco enfumaçado e com um bom uísque. Disco muito bom, onde apesar da guitarra ser o instrumento central, é exatamente quando ela se ausenta onde o álbum cresce mais.

domingo, 15 de agosto de 2021

Capas Legais: Led Zeppelin - In Through The Out Dor [1979]



O Capas Legais de hoje traz a divertida capa de In Through The Out Door, último disco do Led Zeppelin, e que possui 3 versões diferentes, todas sobre uma mesma imagem. Aproveite para inscrever-se em nosso canal.



sábado, 7 de agosto de 2021

Styx - Crash of the Crown [2021]



O último mês de junho viu nascer o décimo sétimo disco da carreira do Styx. Trata-se de Crash of the Crown, o qual já está na lista de melhores lançamentos de 2021 em disparado. O grupo atualmente conta com a dupla consagrada de guitarras e vocais, formada por James "JY" Young e Tommy Shaw, Lawrence Gowan (teclados e vocais), Todd Sucherman (bateria) e Ricky Phillips (baixo), acompanhados de Will Evankovich (violões, guitarras, mandolin, sintetizadores, vocais de apoio), mas está na ativa desde o início dos anos 70. E o que impressiona em Crash of the Crown é como o grupo envelheceu muito bem. Não parece que estão na estrada há 50 anos (sim, o tempo passa), mantendo um nível tão alto tanto em criatividade quanto na qualidade musical, renovando-se sem perder a essência que o tornou um dos maiores nomes do hard rock americano em toda a história da música. 

O álbum abre com os teclados futurísticos de "The Fight Of Our Lives", que parecem saídos de alguma faixa perdida do Vangelis, e aos poucos, os demais instrumentos vão surgindo, explodindo nos vocais repletos de harmonia que consagraram o grupo. A curta faixa cantada por Shaw traz aquelas referências de Queen que apareceram em outras obras da banda, e empolga de cara, estabelecendo uma espécie de prelúdio para a sequência do disco. "A Monster" possui um ritmo dançante que parece saído dos grandes salões de uma Europa Medieval. Pesada, a canção vai entrando em nossa cabeça como uma broca repleta de chicletes, grudando bastante, e com diversas variações, mostra as diversas qualidades do Styx, com destaque especial claro para as lindas harmonias vocais, os trechos de mandolin e também a alternância dos sintetizadores, ora hammond, ora mellotron, ora moog. Muito bom e progressivo. 

Foto divulgação do álbum

Os violões de "Reveries" mantém esse climão medieval, quebrado no explosivo refrão, perfeito para arenas entoarem em uníssono. Aqui destaca-se também os solos de JY e Shaw. Seguimos pela linda "Hold Back The Darkness", uma obra fantástica comandada pelos teclados de Gowan e o violão de Shaw. Ambos alternam-se nos vocais, e a canção desenvolve-se com um cheirão de Pink Floyd que certamente irá fazer muita gente coçar a cabeça. Linda faixa, lindo refrão, bastante diferente do que poderíamos pensar em termos de Styx. O clima prog é quebrado pelo piano de "Save Us From Ourselves", com referências ao famoso depoimento de Winston Churchill, e muito próxima pelo Styx clássico do final dos anos 70, principalmente pelos vocais de Shaw e os solos de guitarra. 

A faixa-título é aquele momento que todo fã do Styx adora adorar, quando JY assume os vocais. Sabemos que dificilmente JY canta uma música ruim, e "Crash of the Crown" é muito boa realmente. Não parece que essa canção possui apenas 4 minutos, tamanha a quantidade de mudanças. Ela começa com sua levada agitada e os vocais graves do músico, e então ua virada no mínimo curiosa durante o refrão, com a entrada dos vocais de Gowan e Shaw. Quem está mandando muito bem também é Gowan, que faz diversas estripulias nos teclados. Mais uma mudança surpreendente, trazendo de novo as referências ao Queen, encerrando outra bela faixa. "Our Wonderful Lives" e seus violões nos colocam direto em algum local entre The Grand Illusion e Pieces of Eight, ainda mais com a entrada dos vocais e do moog. Essa canção tipicamente Styx conta com a presença mais que ilustre do baixista Chuck Panozzo, que fez parte da banda em diversas formações, e também de Steve Patrick no belo solo de trompete. 

Linda versão transparente

A faixa mais longa de Crash of the Crown, "Common Ground", surge com o moog seguido por violões na melhor linha Styx progressivo, e dê-lhe harmonias vocais. Mas vejam, a mais longa dura apenas 4 minutos, onde Sucherman dá seu espetáculo em particular. Os toques acústicos se mantém em "Sound the Alarm", mais uma linda balada cantada por Shaw, e com o órgão de igreja muito presente, junto de diversas camadas de teclados. O ritmo frenético de "Long Live the King" choca pela mudança abrupta no que estávamos ouvindo anteriormente, mas continua com Crash of the Crown em alto nível. Refrão forte, boa presença dos teclados e mais uma canção bem diferente no que esperamos de Styx. Passamos pela vinheta "Lost at the Sea", cantada por Gowan acompanhado pelos teclados e uma base formada por baixo (novamente Panozzo), guitarra e bateria, e somos levados a tabla de Michael Bahan em "Coming Out The Other Side", uma canção mais amena, que nos prepara para a reta final do disco, celebrando um refrão para se cantar abraçado aos amigos, lembrando um pouco o Yes dos anos 90, ainda mais com o solo de slide (feche os olhos e imagine que é Steve Howe ali).

Chuck Panozzo, Ricky Phillips, Todd Schurmann, Tommy Shaw, James Young e Lawrence Gowan

Voltamos aos teclados e aos vocais em harmonia do início do álbum em "To Those", funcionando como o epílogo de Crash of the Crown, e se aqui o álbum encerra-se, seria redondinho, em um clima mais que perfeito. Mas há ainda uma breve vinheta, "Another Farewell", que leva para o dedilhado brilhante de "Stream", outra que nos remete a Pink Floyd, mas agora ao de Animals, com um belo solo de slide, e que conclui o álbum de forma surpreendente, ainda mais para cima, e que sugere uma espécie de continuidade ao que foi desenvolvido no disco. Fantástico!

O ponto negativo de Crash of the Crown é de que justamente quando estamos curtindo a canção, ela acaba. Mas por outro lado, ouvir o álbum na totalidade parece que na verdade ouvimos uma única suíte de 43 minutos. Temos então um disco que traz um conceito interessante para o pós-pandemia, mesclando os dias de luta, isolamento, repressão com a celebração da vida,  através da esperança de que teremos dias melhores em breve, mas principalmente, que o Styx ainda tem muita lenha para queimar.

Contra-capa do CD

1 The Fight Of Our Lives

2 A Monster

3 Reveries

4 Hold Back The Darkness

5 Save Us From Ourselves

6 Crash Of The Crown

7 Our Wonderful Lives

8 Common Ground

9 Sound The Alarm

10 Long Live The King

11 Lost At Sea

12 Coming Out The Other Side

13 To Those 3:01

14 Another Farewell 0:26

15 Stream 2:56

sexta-feira, 30 de julho de 2021

Capas Legais: The Who - Tommy [1969]



O episódio de hoje apresenta a precursora versão triple gatefold de Tommy, lançado originalmente pelo The Who em 1969, e que traz uma arte inspirada na obra do guru Meher Baba. Complementando essa revolucionária capa, ainda acompanha um inédito livreto com imagens e letras, algo raro para o ano de 1969. Confira! 



sábado, 10 de julho de 2021

Gilberto Franco - Cosmoludium [2021]

O músico gaúcho Gilberto Franco lançou Cosmoludium (Ludo Cósmico), seu sétimo trabalho. O álbum, com distribuição digital selo Tratore, e em edição limitada no formato físico, foi gravado entre maio e novembro de 2020, já durante a pandemia, com um processo de 4 meses na qual Gilberto escreveu e gravou a maior parte dos temas, além de tocar sintetizadores, baixo, percussão, kalimba e guitarra, e contou com a participação de artistas do mundo inteiro, mostrando como o nome de Gilberto ganhou relevância e destaque internacional na última década.

Gilberto Franco

O álbum abre com "Terceira Janela de Barbara", uma linda peça na qual Gilberto brilha nos teclados, seja ao piano elétrico ou sintetizador, com um andamento singelo e muito bacana, e destacando o solo de violino de Irina Markevich (Ucrânia), seguida de "Pulo do Gato", uma faixa mais na linha New Age, novamente com os teclados se sobressaindo, e levando o ouvinte para os anos 80, destacando as interessantes mudanças de andamento da mesma e o bonito solo de guitarra, com aplicação perfeita de escalas de jazz. "Regresso Ao Amor" apresenta vocalizações por parte de Gilberto, e é uma canção romântica, novamente com a presença do violino, além do alemão Minor2Go na voz e violões, enquanto "Nas Nuvens" tem uma levada bastante legal, com moog e guitarra sendo o centro das atenções, além de vocalizações indígenas a cargo de Aymara Ruas (Bolívia) e o charango do peruano Carlos Carty.

Os participantes do Ludo Cósmico de Gilberto Franco

"Musa" retorna ao estilo de "Terceira Janela de Barbara", mas agora, ao invés do violino, é a flauta quena de Carlos Carty o instrumento central. Se me dissessem que era Recordando O Vale das Maçãs, eu acreditaria. Já "Flipper" é uma maluca peça que parece uma trilha de jogo de video-game, ou saída de algum arquivo escondido de Robert Fripp nos tempos de King Crimson dos anos 80. Muito bom. Gostei também dos violões, vocalizações e piano de "Ritual", faixa bastante interessante por conta de sua construção, trazendo a participação de Krisna Setiawan (Indonésia) no piano e de Amine Jmili (Marrocos-França) arrasando no alaúde, e da linha Santana na guitarra solo de "Chasque", a cargo de Franco Quadroni (Itália), além das alternâncias de instrumento (violino, piano elétrico) com os solos, e as participações novamente de Carlos Carty e Irina Markevich. Esta é fácil a melhor canção de Cosmoludium, cuja faixa-título é a seguinte, trazendo um bonito solo de trompete a cargo do ex-King Crimson Mark Charig.

Gilberto Franco

O álbum encerra-se com "Patagônia", linda faixa ao violão e moog, com muito som ambiente de pássaros, cachorro e outros animais, também forte candidata a melhor do disco, e "Wonderland", trazendo uma letra sussurada em inglês por Amy Gedgaudas (EUA), que também possui um climão New Age e que alterna solos de diferentes instrumentos,  como o trompete de Mihai Sorohan (Romênia).

O resultado de Cosmoludium é o que o próprio autor define como um World Fusion Prog, e como podemos perceber pelos convidados, e com a necessidade de gravar a distância em meio a pandemia fez com que o músico tivesse a companhia de artistas de 9 países diferentes para auxiliar na criação da obra, em um verdadeiro jogo universal onde o idioma falado são os acordes musicais. Um bom álbum do gaúcho, principalmente para quem quer curtir um som bem diferente neste inverno.

Contra-capa de Cosmoludium


Track list

01. Terceira Janela de Barbara

02. Pulo do Gato

03. Regresso Ao Amor

04. Nas Nuvens

05. Musa

06. Flipper

07. Ritual

08. Chasque

terça-feira, 6 de julho de 2021

Consultoria Recomenda: Rock Progressivo dos anos 2010


 Por André Kaminski

Tema escolhido por André Kaminski

Com Daniel Benedetti, Davi Pascale, Fernando Bueno, Mairon Machado e Ronaldo Rodrigues

Após seis meses de pausa, retornamos com o Consultoria Recomenda e com o Ouve Isso Aqui alternando de maneira bimestral em nosso site. Esses seis meses de pausa foram por um motivo difícil para todos nós do site e principalmente nosso querido consultor Daniel Benedetti, que correu risco sério de morte devido a COVID-19 que ele contraiu na metade de janeiro. Após dois meses lutando contra a doença, ele felizmente saiu dessa e retornou a colaborar conosco agora a partir de junho, mas ainda se recuperando dos efeitos nefastos do vírus. Entre o final de janeiro e março foram momentos de apreensão entre nós e, por razões óbvias, suspendi o Recomenda e o Ouve Isso Aqui enquanto ele não se recuperasse. Sem ele, não rola as seções.

Mas ele está aqui e com uma felicidade imensa, retornamos com elas. Como eu fui sorteado de novo, quis escolher um tema fácil e tranquilo para todos indicarem seus discos para novamente pegarmos no tranco. Sem muita enrolação, sugeri como tema discos do rock progressivo da década anterior. E aí estão nossas recomendações. Comente nossos discos e faça também as suas lá na caixa de comentários!


Wobbler - Rites at Dawn [2011]

Por Ronaldo Rodrigues

Penso que se trata de um clássico extemporâneo do estilo (ele não é único; há outros contemporâneos dignos de elogio similar). As composições são  memoráveis, não há nada que se possa adicionar ao instrumental da banda, e os vocais são expressivos. A sonoridade remete de imediato aos anos 70 e a forma da banda compor é totalmente influenciada por essa escola. As músicas são por demais marcantes, com muitas variações e uma riqueza instrumental que faz jus a tradição do estilo como um todo. Rites at Dawn vai de A a Z em termos de rock progressivo.

André: Já escutei os primeiros discos do Wobbler e os considero bons trabalhos. O ponto positivo da banda é que os caras usam mesmo muito instrumentos diferentes mas mesmo assim, não soam exagerados ou extremamente pomposos. Conseguem manter uma linha mais "direta" mesmo com tanta coisa tocando ao mesmo tempo. O único ponto negativo da banda é que esses vocais "agudos/quase falsetos" são fraquinhos. Nem Andreas e nem Lars me agradam em suas incursões vocais, me parecendo muito querendo imitar o estilo de canto do Jon Anderson. Mas como a parte vocal sempre foi a que menos me interessa na imensa maioria dos discos que ouço (ainda mais os progs), consigo ouvir sem muitos problemas. Destaco a veloz "In Orbit" como a melhor do disco e a beleza de "This Past Presence" também de alta qualidade não muito atrás. Com vocalistas melhores, a banda subiria ainda mais no meu conceito.

Daniel: Desconhecia por completo este disco – e a banda – de modo que foi uma audição inédita para mim. A influência dos clássicos setentistas do rock progressivo é gritante e, aos meus ouvidos, especialmente do Yes, inclusive na forma com que o vocalista Andreas Stromman Prestmo emula o grande Jon Anderson (especialmente na ótima “La Bealtaine”). Também gostei bastante de “In Orbit”. Um bom disco, sem dúvidas, embora me pareça mais uma reverência ao progressivo do passado que propriamente uma inovação – e não que isto seja um problema para mim.

Davi: Confesso que não conhecia essa banda. Pelo que andei lendo, parece que essa banda é norueguesa e esse é o terceiro disco deles. Gostei. Não é uma banda que considero criativa. Muito do que é apresentado aqui já havia escutado nos álbuns setentistas do Yes. Principalmente, no que diz respeito às linhas vocais e linhas de baixo. Porém, os rapazes são bem competentes no que se propõe a fazer. “Lá Bealtaine”, “In Orbit” e “The River” são os pontos altos do disco. Não me impressionou, mas a audição foi interessante.

Fernando: Tenho que dar mais atenção ao Wobbler. Já tinha ouvido algumas coisas, mas sempre foram músicas soltas e sem prestar atenção em álbuns específicos. Mas tem alguma coisa no som da banda que não me retém. Eu tenho que ficar me forçando a não me perder em outros pensamentos além de prestar atenção no que está sendo tocado. Talvez não tenha dado sorte nos momentos que coloco a banda para ouvir. O maior destaque vai para as linhas de teclados, como em “In Orbit” em que a voz está sobre um teclado alucinado e as coisas casam perfeitamente.

Mairon: Esta fantástica banda da Noruega se tornou uma figurinha carimbada em minhas audições por conta principalmente de quando descobri este álbum. Lembro até hoje quando ouvi o mesmo em minha sala de pesquisa, e como "Lucid" me fez pensar que estava diante de um novo disco de Mike Oldfield, mas bastou os primeiros acordes de "Lá Bealtaine" para eu ficar desnorteado com tamanha quantidade de informações, e principalmente, o choque de estar ouvindo uma banda "recente", mas com um cheiro de anos 70 tão forte, onde o som da bateria, a presença do mellotron, os vocais em harmonia uníssona, e o timbre da guitarra, soam tão velhos. Sério, coloque "This Past Presence" e diga que e uma banda atual. Duvido! Violãozinho, piano, vocalizações, mellotron, instrumentos de sopro ... Que maravilha! Os caras apresentam diversas influências do grande progressivo britânico, sem nenhum pudor, mas com um jeitão novo que vira exclusivo do grupo, vide a longa "In Orbit", onde o baixão pulsa como o bom e velho Rickenbacker de nomes do porte de Chris Squire ou Jon Tout, mas os dedilhados da guitarra e a flauta nos colocam junto ao Genesis da fase Nursery Crimes. Porém, os vocais são tão suaves quanto os de Ian Anderson no Yes, e a complexidade musical dessa mini-suíte parece brotar do suor de um Gentle Giant, além das letras serem tão fortes quanto as de Peter Hammilll. O mesmo se repete na linda "The River", faixa para sair cantando pela casa, e que nem percebemos seus mais de dez minutos de duração. É nessa sopa progressiva que o Mairon se deleita bastante com este que só não é a melhor indicação desse Recomenda por que eu considero a minha ainda melhor. Mas ambas certamente estão no mesmo nível.


Il Cerchio d'Oro - Dedalo e Icaro [2013]

Por André Kaminski

Conheci estes italianos há não muito tempo e seu som me ganhou logo de cara. O que gostei quando ouvi esse disco pela primeira vez foi que os caras fizeram algo que muito valorizo nos dias atuais: produção sem a merda da loudness war. Os sons que saem desse disco são mais vivos (mesmo que o baterista Gino Terribile não seja lá um exímio no instrumento), a guitarra de Roberto Giordana é muito presente, o órgão e os sintetizadores dão aquele ar "classudo" fundamental do prog italiano e as canções conseguem unir beleza, técnica e vibração. Depois da intro de "Labirinto" e começa aquele baixo pulsante e os solos da guitarra slide sinto até arrepios. Lindo álbum, queria ter conhecido antes.

Daniel: Também não conhecia este álbum, Dedalo e Icaro, e gostei bastante. É claro que a aura setentista do glorioso progressivo italiano está aqui e, em especial, as guitarras de Roberto Giordana, que são elementos altamente distintivos do trabalho. A temática mitológica é outro fator que remete à fase clássica desta vertente do rock. Minha faixa preferida foi a bela “La Promessa”.

Davi: Esse eu também nunca tinha escutado. Trata-se de uma banda italiana que teve sua primeira encarnação na década de 70, porém terminou sem deixar vestígios. O grupo só lançou seu primeiro álbum em 2008 e sei lá, não me encantou. O disco tem uma sonoridade calma, os músicos são bons, onde destaco o trabalho de teclado de Franco Piccolini e o trabalho de guitarra de Roberto Giordana. Infelizmente, não curti o trabalho vocal do grupo e nem as composições do álbum. De todas, a que me chamou mais atenção foi “Una Nuova Realtà”, mesmo assim quando o cara entra cantando, abaixa meu ânimo.

Fernando: O progressivo italiano é uma das coisas que mais gosto na música, mas confesso que praticamente parei lá nos anos 70. Os poucos discos mais recentes que ouvi dessa seara me fizeram pensar que eles também pararam lá nos anos 70, o que não é demérito algum, pois é aquilo que gostamos. Porém, é até óbvio, o som, a produção, a nitidez é muito maior graças aos avanços tecnológicos. Ao longo do álbum o que chamou atenção é a dobradinha guitarra/teclados. O lindo trecho instrumental de “Labirinto”, provavelmente a melhor do disco, é um exemplo do que amamos no RPI, assim como a adição de vários instrumentos além do básico guitarra/baixo/bateria/teclados. Não consegui me aprofundar na história da banda, mas me parece que o disco tem participação de alguns caras da velha guarda e a própria banda é da época de ouro, mas uma daquelas que não tinha conseguido gravar nada naquele período.

Mairon: Jamais iria imaginar que essa joinha italiana era da década passada. Se me colocassem para ouvir dizendo "Advinha", eu chutaria final dos anos 90, principalmente pela guitarra e teclados, bem datados, como aparecem principalmente em "L'arma Vincente" e "Oggi Volerò", faixas muito boas de se ouvir, mas que dá para sentir que o guitarrista faz um certo esforço para parecer virtuoso. O som é ótimo, curti muito a canção que abre a bolacha, "Il Mio Nome È Dedalo", a quebradeira de "Una Nuova Realtà", e fui surpreendido pelas passagens de "La Promessa", forte candidata a melhor do disco, junto de " Il Sogno Spezzato ". Porém, nenhuma bate a coisa mais linda de ouvir "Labirinto" hein? Faixa brilhante em um disco muito bom. Curti bastante a indicação, valeu para o consultor que assim o fez.

Ronaldo: Os italianos mantiveram se firmes na tradição do rock progressivo ao longo dos anos desde os anos 70, com mais ou menos as mesmas características - o canto preferencialmente na língua nativa, a preferência pela vertente sinfônica, o uso maciço de sintetizadores e uma certa dramaticidade. Uma outra  característica bem marcante é que as produções frequentemente ficam abaixo da média dos trabalhos produzidos em outros países (parece que as técnicas de gravação lá ainda estão na década de 90). Ainda que as composições sejam bonitas e atraentes, a banda peca um pouco pela bateria e pelos vocais, seja pela gravação quanto pela performance. Para os aficcionados do estilo, funciona bem, mas não dialoga muito a ponto de convencer um público mais amplo.


Beardfish - +4626-Comfortzone [2015]

Por Mairon Machado

Quando descobri a sueca Beardfish foi graças a uma indicação do Youtube, justamente com esse álbum que havia acabado de sair. Me apaixonei. Depois de ouvir essa fantástica obra conceitual, fui atrás dos demais discos da banda, e encontrei uma vasta riqueza de criação progressiva, que assim como o Wobbler, coloca em um caldeirão gigante influências de diferentes grandes nomes do prog britânico e cria sua própria sopa. A questão é que a Beardfish me parece menos "técnica" e mais "sentimental", primeiro por ser um quarteto sem multi-instrumentistas como os noruegueses, segundo por que os caras são mais "pesados" mas com um charme pop em suas interpretações, ao mesmo tempo que o som é mais cru, e tercerio, por que o que Rikard Sjöblom faz em suas interpretações vocais é de chorar. Ao longo do álbum temos em uma única faixa ("Hold On") uma mistura de Yes e Genesis com Queen e até Black Sabbath. Ouça o mellotron e a guitarra da introdução de "Comfort Zone" e imagine como soaria o King Crimson dos anos 70 nos anos 2000, nesta que é a mais bela e disparada melhor canção do CD. E dê-lhe mistura de sons na longa "If We Must Be Apart (A Love Story Continued)", que faz referências desde o folk até ao próprio Beardfish do início da carreira, e que também é forte candidata a melhor do disco. A sacada da Beardfish é essa, os caras não voltam ao som dos anos 70 e ficam lá. Eles retemperam a nata daquela época e criam algo tão saboroso quanto. Daí ao mesmo tempo que temos as pesadas "Daughter/Whore","King" e "Ode to the Rock 'n' Roller", somos amenizados pela suavidade pop de "Can You See Me Now?", e sempre com a presença de referências dos gigantes do prog britânico. Ainda tem as lindas vinhetas "The One Inside" para arrancar mais lágrimas de uma audição impactante, e nem vou entrar nos méritos do conceito do álbum, por que daí me derramo em lágrimas. Pena que a banda acabou, mas Rikard está aí com a Gungfly para dar sequências aos seus incríveis trabalhos. Discaço!

André: Como organizador da série, sou o único aqui que sabe quem indicou o quê. E sei bem o quanto o Mairon ama o Beardfish, votando frequentemente em seus discos nos Melhores de Todos os Tempos. E quando o nosso doutor indicou este trabalho, me lembrei da imensa qualidade dessa banda (da qual eu deveria ouvir mais) e que infelizmente encerrou suas atividades há alguns anos. O instrumental dos caras pfffff... excepcional. Rikard tem um vocal excelente, com uma pronúncia linda de cada palavra que canta em inglês. Não vou destacar uma música em particular. Destaco o trabalho inteiro. Vale um 10 fácil.

Daniel: Mais um ótimo disco. Aos meus ouvidos, as influências de Yes e Genesis são marcantes, mas apenas como isto mesmo, influências, a partir das quais o Beardfish desenvolve sua própria sonoridade. Fiquei bem impressionado com a qualidade e a beleza das melodias, especialmente na linda “If We Must Be Apart (A Love Story Continued)”. Mais uma ótima indicação.

Davi: Não sou um grande especialista em Beardifsh, o Mairon é o grande fã deles por aqui, mas já conhecia um álbum deles ao menos. Lembro que ouvi o Sleeping In Traffic Part Two para alguma seção daqui do site. Em relação ao Comfortzone, temos um álbum com arranjos bem variados, por vezes até esbarrando no metal (como ocorre nas faixas “King” e “Daughter/Whore”). “Can You See Me Now”, traz uns backings meio beatle, me remetendo à grupos como Spock´s Beard ou Bigelf, o que me agrada bastante, mas os grandes destaques ficam mesmo com “If We Must Be Apart” e a faixa-título “Comfort Zone”. Bom disco. Vou procurar ouvir mais alguma coisa deles.

Fernando: O Beardfish foi umas das maiores surpresas nesses últimos anos para mim e Confortzone é um disco que toda vez dá gosto de colocar. “Hold On” é uma baita música. A faixa “Comfort Zone” é daquelas músicas que é tão agradável que mesmo nas primeiras audições parece que a ouvimos faz anos. Variações de tempo, melodias, boas vozes, tudo sem exageros na parte técnica, que é um dos pecados de várias bandas do prog atual. Tem até um “heavy metal” em “Daughter/Whore”. Outro ponto que me chamou a atenção é a mescla na medida certa da sonoridade clássica com o estilo mais moderno do progressivo.

Ronaldo: O norte da Europa é um dos principais pólos de rock progressivo nos anos mais recentes. Os suecos do Beardfish representam bem a safra mais recente do país, ainda que um de seus fundadores tenha fundado um novo e frutuoso projeto, o Gungfly. O som da banda é bastante voltado para as guitarras, mas com mínimos resquícios de heavy metal, o que por si só, já torna o som da banda bastante distinto. Também há muito espaço para os vocais, em um estilo que o instrumental predomina. Há trechos realmente geniais nas músicas, ainda que vezes me soe um bocado excessivo a quantia de ideias diferentes trabalhadas em uma única música. A sonoridade é bastante agradável, tanto para os fãs da escola clássica do estilo, quanto para os fãs mais  contemporâneos.


The Neal Morse Band - The Grand Experiment [2015]

Por Fernando Bueno

“Se vocês não gostam de músicas longas, estão no lugar errado”. É assim que Neal Morse se dirige ao público em um DVD do Transatlantic – banda na qual ele também tem Mike Portnoy como parceiro musical - meia hora após o início o show depois de tocar a primeira música. E essa característica é transferida para quase tudo o que ele faz. A impressão que dá é que ele amou Tales From Topographic Oceans quando garoto. Aqui a faixa longa é “Alive Again”, nome que me remete lá à uma faixa do Snow, o grande disco de sua carreira na minha opinião. Porém ninguém pode dizer que Morse não tem uma sensibilidade absurda de dar toque de pop para músicas longas e intrincadas. O seu senso melódico é absurdo mostrando que suas influencias vão muito além dos medalhões do progressivo setentista, mas também tem Styx, Kansas, Kayak, ELO e a lista vai embora. Faixas como “Agenda” e a faixa título vão ficar nos seus ouvidos por dias.

André: Quando penso em Neal Morse e suas inúmeras bandas e projetos do qual faz (ou fez) parte, sempre penso naquele prog exagerado, cheio de camadas e texturas de diferentes sons, muitas quebras (várias durando poucos segundos) e aquele lado mais espalhafatoso do prog como se ele fosse o Emerson, Lake & Palmer do século XXI. Vim esperando isso ao botar o disco para tocar. Entretanto, notei que aqui ele está bem menos exagerado em suas composições e muito mais focado em passar as suas mensagens cristãs. O que mais surpreende aqui é aquela pegada hard rock de "Agenda" por exemplo, coisa que nunca esperaria em meio a este trabalho. No geral, bom álbum, nada espetacular, mas que é suficiente para permanecer aqui pelos meus arquivos para uma futura nova audição.

Daniel: Trabalho interessante, embora eu perceba que lhe falte homogeneidade. Se a faixa de abertura e a de encerramento são realmente muito boas e com generosas doses de elementos que fãs de progressivo podem curtir bastante, as composições que estão entre elas são apenas genéricas e carecem de maiores atrativos, especialmente a insossa “Agenda”.

Davi: Tenho um amigo que sempre que comento de um novo trabalho envolvendo o Mike Portnoy, ele pergunta se o cara está tentando bater algum recorde. kkk E cá estamos... Mais um disco a contar com o talento de Portnoy. Neal Morse tem um estilo bem próprio de tocar e cantar. Gosto muito do trabalho que ele fez com o Spock´s Beard, mas ainda não tinha parado para ouvir o Neal Morse Band. Não achei tão distante. Instrumental bem prog com trabalhos vocais com um pé no comercial (no bom sentido da expressão, é claro). Mais um trabalho extremamente bem feito, repleto de ótimas canções e com uma execução impecável de todos os envolvidos. É o meu trabalho preferido da lista, sem dúvidas, mas que poderiam ter nos poupado de “Agenda” e do crime musical que cometeram em “MacArthur Park”, ah, isso poderiam... Faixas preferidas: “The Call”, “The Grand Experiment” e “Alive Again”.

Mairon: Assim como o Marillion, tudo o que envolve o nome Neal Morse eu tenho um pré-conceito gigante. O cara e seus projetos (principalmente Transatlantic e Spock's Beard) criam discos muito longos, cheios de empáfia, que até possuem boas canções, mas a megalomania é tamanha que acaba afetando muito minhas audições. Aqui estão cinco canções, sendo uma delas com mais de 25 minutos, "Alive Again", que durante a introdução instrumental até é interessante (lembrando muito Dream Theater), mas quando entra os vocais, começa o sono e acaba o tesão. E é impressão minha ou o riff que surge vez que outra é inspirado em "In Held 'Twas in I"?. Até há vários momentos legais presentes ao longo de "The Call", que realmente eu curti, só que esta é a faixa que abre o disco. Quando a faixa-título começou, a bateria me encheu o saco, e daí fui ver que era o que suspeitava, o Portnoy segurando as baquetas. Esse cara é o ser mais prepotente do mundo do rock, e então, The Grand Experiment para mim se tornou um disco do Dream Theater com um vocalista decente, mas com um guitarrista bem mais fraco que o Petrucci. A chatice de Portnoy toma conta de "Agenda", eita musiquinha sem graça. É justamente "Waterfall", linda canção levada por violões e vocalizações, e uma segunda parte com um lindo clarinete solando, portanto sem a participação de Portnoy, onde a coisa funcionou. Bela canção para um disco longo, mas representante fiel do progressivo insosso que Neal Morse faz há algum tempo. Em tempo, a versão para "MacArthur Park" ficou muito boa, e poderia ter entrado como uma das faixas do disco.

Ronaldo: Neal Morse é um dos músicos mais ativos do rock progressivo atual, envolvido em diversos projetos e com uma longa discografia. Sua banda conta com o renomado baterista Mike Portnoy, que felizmente trabalha 100% para o time (o que nem sempre acontecia em seus trabalhos pregressos). O estilo praticado por Morse é bastante melódico, com algo parecido com "refrões" em suas suítes, nos quais parece que o público é instado a "cantar junto"; em suma, como Morse é vocalista, as composições são orientadas para os vocais. Na engrenagem do disco, isso funciona muito bem, já que os vocais ajudam a nortear melhor a audição do que um disco puramente instrumental. A parte do instrumental é muito caprichada e agradável de se ouvir.


Marillion - FEAR [2016]

Por Davi Pascale

Essa banda sempre foi alvo de muitas críticas. Quando comecei a ter interesse no som dos caras, todo mundo que eu perguntava sobre dizia: "Conheço, mas é meio chato". Sei, lá, todos os álbuns que ouvi deles, curti. Também existe uma galera que diz que não os considera prog ou que só considera progressivo a fase Fish. Essa discussão deixo para os colegas daqui. Eu, particularmente, sempre os enxerguei como parte da cena. Esse disco em questão, comprei no ano de lançamento. É um disco meio melancólico, mas acho os arranjos super bonitos e bem resolvidos. Tudo na dose certa, sem exageros. As letras também são boas e refletia, em diversos momentos, a fase em que a Inglaterra estava atravessando. Vamos ver o que nossos colegas têm a dizer sobre o disco. Meus momentos preferidos ficam com as suites "El Dorado", "The New Kings" e com o single "Living In Fear".

André: Não sei o porquê tanta gente chia com essa banda. Não é toda a sua longa discografia que é boa, mas tem vários discos legais. Talvez por ter tido a "responsabilidade" de tentar carregar o prog nos anos 80 esta acaba recebendo muito mais críticas do que eu acho que deveria. E eu não tinha ouvido esse e gostei também. Nada espetacular, mas um trabalho bom e sólido de uma banda já bastante veterana. Gostei bastante daquele sintetizador "fadinha" da faixa "The Leavers I: Wake up in Music" por exemplo. Ou daquela melodia de teclado oitentista de "El Dorado III: Demolished Lives". São coisas simples, mas que sempre vejo com bons olhos (e ouvidos) por usarem certos timbres mais incomuns ou que andam esquecidos. Enfim, eu curto.

Daniel: Este eu detestei. Fiquei desapontado com a falta de “punch”, de potência, das canções. Há uma dose cavalar de monotonia nas músicas e permaneci esperando que elas deslanchassem, mas em uma vã esperança. Excessivamente monocromático, este álbum FEAR realmente não é feito para meus ouvidos.

Fernando: Sou daqueles eternos fãs de Marillion com Fish. Talvez o Marillion seja uma das bandas que os fãs mais ressentem a saída do vocalista original, mesmo ele tendo saído há 3 décadas. Gostei do FEAR, mas acho ele inferior ao anterior, Sounds That Can’t Be Made [2012] e, claro à Brave e Marbles, a duas obras primas de Steve Hoghart na banda. Porém todos os discos com o Hoghart estão longe de serem perda de tempo de ouvir. São todos agradáveis, apesar de muitas músicas não serem tão marcantes.

Mairon: Confesso que tenho um grande pré-conceito com o Marillion, mas esse álbum até que me foi uma surpresa. De cara, a suíte "El Dorado" vem arrastada mas muito legal, com um bonito solo de Steve Rothery. Talvez fosse desnecessária a terceira parte, mas é uma boa canção no geral. "The Leavers", segunda suíte do disco, começa muito bem, mas acaba se perdendo na segunda parte, mas se recupera nas demmais, principalmente pelo trabalho de piano de Mark Kelly. A última suíte, "The New Kings", tem apenas um trecho que gostei, que é " Why Is Nothing Ever True?", por ser mais agitado, por que os demais trechos são muito arrastados e sonolentos. As faixas que não curti tanto são as que não são suítes, principalmente "Living in FEAR", muito chatinha. "White Paper" tem um bonito piano e arranjo, mas consegue superar a chatice de "Living in FEAR", e a curtinha "Tomorrow's New Country" é só um trecho com voz e piano que encerra o disco. Achei o disco um tanto quanto arrastado, e se tivessem me dito que era algo do Steve Wilson, eu acreditaria, mas ao menos não foi um sacrifício ouvir um disco do Marillion, como foi outrora, nos tempos que essa banda entrava nas listas de Melhores de Todos os Tempos e causava vergonha alheia.

Ronaldo: Boa parte do que se chama rock progressivo atualmente ou pende para o metal, ou pende para o pop/rock psicodélico. Adjetivar variados tipos de música como prog parece estar na moda. O Marillion é um legítimo representante da segunda vertente, e isso vem de longe. A meus ouvidos, particularmente, eles sempre foram mais pop do que prog, ainda que a sonoridade remeta ao prog, com aquele estilo climático e viajante, mas com uma pegada mais moderna, super-produzida. Não sei bem o que diferencia esse trabalho de outros dentro da discografia da banda, mas no geral, é algo agradável de se ouvir, bem produzido, mas que não deixa grandes impressões e pode passar despercebido.


Opeth - In Cauda Venenum [2019]

Por Daniel Benedetti

Eu já fiz um texto sobre este disco para a consultoria e quem se interessar pode vê-lo aqui. Talvez este álbum esteja um pouco deslocado do tema, afinal, há doses generosas de metal neste trabalho, mas, ainda assim, considero-o um dos melhores discos com pegada prog da última década e ele só se eleva no meu conceito a cada audição.

André: Sempre achei essa banda um tanto superestimada. Até que me agrada um pouco essa fase mais "prog" do que metal dos últimos álbuns, mas sei lá, me falta alguma coisa na sonoridade deles para me fisgarem. E olha que já ouvi essa banda muito mais do que eu supostamente deveria. Já me esforcei bastante para gostar mais do Opeth, mas para mim, sempre vai ficar no máximo ali pelo médio.

Davi: Não conheço a discografia completa do grupo para afirmar se esse é seu melhor disco, mas já vi muita gente dizendo isso por aí. Pelo que ouvi aqui, arrisco dizer que há um certo exagero nessa história. O trabalho é, de fato, muito bem feito, mas não consigo enxergá-lo como uma obra-prima. Achei um bom disco e é isso. Os músicos são muito bons, onde destaco o trabalho de bateria de Martin Axerot e as guitarras de Fredrik Akesson. A sonoridade é interessante, mantendo um clima meio melancólico por trás dos arranjos que são oras pesados, oras calmos, mas em alguns momentos me bateu um sentimento de alguma coisa faltando por aqui. Os momentos que mais gostei ficaram por conta de “Dignity”, “Next of Kin”, “Universal Truth” e “Continuum”.

Fernando: Fosse 12-15 anos antes, quem diria que o Opeth estaria em uma lista de bandas progs? Claro que eles sempre usaram o estilo como um tempero de seu som, mas a partir de Heritage (2011) eles abraçaram o estilo de vez e ninguém pode falar que não estão sendo muito felizes com esses 4 discos que lançaram desde então com In Cauda Venenum sendo, possivelmente, o ponto alto dessa jornada. Resta ao ouvindo escolher se ele fica com a versão em sueco (a “original” segundo Akerfeldt) ou com a em inglês. Ambas foram gravadas juntas e saíram em discos separados, apesar de haver uma edição que vem as duas em um mesmo pacote. Porém aí vem uma pequena crítica. Para quem quer ouvir as duas versões o disco em si é longo demais, mais de 65 minutos.

Mairon: Ouvi esse disco sem saber o que esperar, e o início, com "Garden of Earthly Delights" me surpreendeu pelos teclados, parecendo que eu tinha voltado aos anos 80. Com a entrada de "Dignity", o som me lembrou bastante Ghost, mas logo os violões modificaram essa impressão, e assim, o disco foi me surpreendendo com diversos momentos interessantes ("Heart in Hand" e "Charlatan") e outros nem tanto ("Continuum", "Lovelorn Crime" e "Universal Truth"). No geral, os teclados são o que mais me chamaram a atenção positivamente, e inacreditavelmente, "The Garroter" é uma faixa simplesmente brilhante. O violão do início, o piano hipnotizante, as passagens de guitarras com escalas de jazz, o solo (!!!!!!!) que música genial e incrível. EXCELENTE! Já conhecia esse Opeth progressivo de outras audições, e não me tornei fã da banda. O mesmo acontece aqui, é um bom disco, com ótimos momentos, mas não me pegou para comprar sua coleção, mas ressaltando que "The Garroter" está muito acima das demais faixas do CD.

Ronaldo: O Opeth, apesar de ser originalmente de heavy metal, é um dos maiores nomes do rock progressivo na contemporaneidade. Isso porque, apesar do peso nas guitarras, é uma banda que entende bem o mecanismo das composições clássicas do estilo e aplica essa fórmula com sucesso.  Obviamente, que o faz com uma assinatura própria, pontuada belos bons vocais de Mikael Akerfeldt e o ótimo baterista Martin Axenrot. Esse disco, apesar de manter a pira do rock progressivo acessa desde 2011 com o disco Heritage, é o mais pesado dos últimos anos. Diferentemente da maioria dos pares do prog-metal, o Opeth traz canções cheias de variações com um ótimo encadeamento de ideias e sem forçar a barra em um virtuosismo estéril.

 
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