segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Caetano Veloso - Maria Bethânia [1971]


Talvez um dos pontos mais tristes na história do Brasil tenha sido a ditadura militar que governou o país entre as décadas de 60 e 80. Muitos artistas acabaram sofrendo nas mãos dos militares, sendo alguns exilados do país de forma quase que desumana. Entre eles, estava Caetano Veloso.


Desde que começara a carreira, por volta de 1966, Caetano demonstrava claramente uma posição política que contestava veemente a ditadura, culminando com várias de suas canções sendo censuradas pelo regime militar, inclusive com discos seus sendo destruídos em praça pública.

No dia 27 de dezembro de 1968, Caetano Veloso e Gilberto Gil foram presos acusados de desrespeito ao hino nacional e à bandeira brasileira, sendo então levados ao quartel do Exército de Marechal Deodoro no Rio de Janeiro, onde tiveram suas cabeças raspadas e permaneceram até 19 de fevereiro de 1969.

A dupla voltou para a Bahia, mas a perseguição dos militares era constante. Então, resolveram sair do brasil, exilando-se na Inglaterra com suas respectivas esposas, Dedé e Sandra Gadelha. A saída ocorreu logo após duas concorridas apresentações nos dias 20 e 21 de julho de 1969, realizadas no Teatro Castro Alves, devidamente registradas para a eternidade no bom disco Barra 69, lançado em 1972.
Caetano e Gil


A história dada pelos militares foi de que Caetano e Gil eram líderes de uma geração de protesto, lançarando sementes de conscientização que agitavam a opinião pública e a sociedade, sendo assim enquadrados na lei de segurança nacional e, dessa forma, expulsos do país através do famigerado AI-5.

Enfim, na Inglaterra Caetano e Gil libertaram suas mentes, e registraram cada um seu próprio álbum solo, apenas com seus nomes e lançados igualmente no ano de 1971. Ambos os LPs são fundamentais em qualquer prateleira, podendo gerar matérias específicas para eles, mas vou me deter apenas na faixa que encerra o lado A de Caetano Veloso, a linda e assustadora "Maria Bethânia".

Caetano decidiu gravar um disco composto somente em inglês por conveniência, trazendo como único cover a faixa "Asa Branca", sendo o resto tudo composições dele trazendo suas impressões sobre a Inglaterra e servindo de espelho para os pensamentos e memórias do Brasil, divagado através de pérolas como "A Little More Blue", "London London" e "In the Hot Sun of a Christmas Day", composta ao lado de Gil.
Poster em homenagem à Bethânia

Porém, são nos quase sete minutos de "Maria Bethânia" que está a maior revelação de revolta de Caetano contra a ditadura. Com apenas duas mudanças de acordes, sendo quase que completamente construída sobre um insistente e repetitivo E7, sem guitarras, teclados ou piano, a canção possui apenas um bumbo, um baixo e violão fazendo a base para Caetano esbravejar sua revolta com o afastamento de sua terra natal, deixando ali uma carta para sua irmã, a cantora Maria Bethânia.

A canção começa apenas com a batida de um bumbo imitando um coração, com o baixo surgindo para fazer o momento onde o coração bate mais forte, seguido pelo violão e por Caetano cantando "Everybody knows that our cities were built to be destroyed ...”, até chegarmos ao refrão, onde, emocionado, Caetano implora para a irmã: "Maria Bethânia, please send me a letter I wish to know things are getting better, better, better", e com muita criatividade transforma “better” em “Beta” e, finalmente, em “Bethânia”.

Neste momento, durante as frases do refrão, um belíssimo e tocante arranjo de cordas feito por Phil Ryan surge nos alto-falantes, mostrando toda a delicadeza e o sentimento que Caetano tenta passar para os ouvintes, e que será carregado para o resto da canção.

Caetano volta a descarregar seu coração com a segunda estrofe, onde canta "She has given her soul to the devil but the devil gave his soul to God ...", com as cordas fazendo passagens que lembram as canções do sertão baiano. Voltamos ao refrão e, por fim, ao encerramento da letra, onde finalmente Caetano extrapola sua raiva com a frase "Everybody knows that it's so hard to dig and get to the root ... ".

Após a repetição de mais um refrão insistindo para Bethânia entrar em contato, a canção vira um delírio musical, com Caetano fazendo vocalizações nordestinas que duelam com as cordas. Caetano insere a letra de "Baião" (Luiz Gonzaga) e viaja com vocalizações estranhas, enquanto o ritmo do bumbo faz o coração bater acelerado até começar a diminuir lentamente, e, como que morrendo de saudades, deixa de bater suavemente até chegar ao seu fim.

Caetano Veloso voltaria para o Brasil em 1972, e muito influenciando pelo progressivo e pela psicodelia britânica ampliaria as viagens lisérgicas de "Maria Bethânia" nos fenomenais Transa e Araçá Azul (ambos de 1972), que para mim são dois marcos da carreira de Caetano.

Depois, ele conheceria o sucesso com o disco Cinema Transcendental (1979), mas nada disso teria acontecido se não fosse o exílio na Inglaterra e a gravação de Caetano Veloso, com "Maria Bethânia" sendo o principal momento (apesar de não ser a mais conhecida) da frustração de Caetano registrada neste LP, e por isso um clássico da carreira do cantor e compositor baiano.

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