segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Podcast Grandes Nomes do Rock #8: Metallica

Por Mairon Machado (Publicado originalmente no blog Consultoria do Rock)

Nessa semana, o podcast Grandes Nomes do Rock irá homenagear outra importante banda do thrash metal mundial, o grupo norte-americano Metallica, apresentando em uma hora e meia de programa raridades ao vivo, clássicos instrumentais da carreira do grupo, versões originais para canções que o Metallica gravou como cover e um bloco com bandas relacionadas a membros que passaram pelo grupo no decorrer dos anos.



O começo do Metallica, por incrível que pareça, ocorre no ano de 1973. Nesta época, o jogador de tênis Lars Ulrich, morando em sua cidade Natal, Copenhagen (Dinamarca), assistia a uma apresentação do grupo Deep Purple, e se encantava com a potência sonora do grupo de Ritchie Blackmore e cia., decidindo então começar a aprender bateria e largar as raquetes. Porém, a pressão familiar em cima da carreira de Ulrich acabou levando o jovem tenista a mudar-se com a família para Los Angeles, nos Estados Unidos, no final da década de 70, onde iria aprimorar seus estudos do esporte.

Mas o que aconteceu foi um contato cada vez maior com o Heavy Metal, e Lars cada vez mais dedicado a aprender bateria. Em 1980, Lars fez um estágio como músico de estúdio, e então, através de um anúncio no jornal The Recycler, conheceu o guitarrista e vocalista James Hetfield. Logo depois, um amigo de Lars convidou o baterista para fazer parte de uma revista especializada em heavy metal, cujo título seria Metallica. A revista não deu certo, mas o nome foi adotado por Lars para batizar a sua banda.


Metallica em 1982: James, Ron, Lars e Dave
Quase no final de 1981, quando o Metallica começava a preparar sua primeira demo apenas com Hetfield e Lars, o telefone de Lars toca. Era mais um amigo, no caso Brian Slagel, que estava fundando um novo selo chamado Metal Blade Records. Brian estava interessado em fazer uma coletânea com algumas bandas de Los Angeles, e assim, Lars, Hetfield e o guitarrista convidado Lloyd Grant gravaram a canção "Hit the Lights", que acabou entrando na primeira edição da coletânea Metal Massacre, com o nome Metallica sendo grafado com dois t's.


Apesar da gravação crua, o Metallica chamou a atenção dos fãs locais. Através de um novo anúncio no jornal The Recycler, surge o guitarrista Dave Mustaine. Para fechar o time, um amigo de Hetfield, Ron McGovney foi recrutado para o baixo, e assim surgia a primeira formação oficial do Metallica., que você poderá conferir na faixa de abertura desse podcast.


Cliff Burton
O Metallica passou a fazer shows pelo estado da Califórnia no início de 1982, e em julho do mesmo ano, registram a demo-tape No Life 'Til Leather, apresentando sete canções. No mesmo mês, Hetfield e Lars assistiram a uma apresentação da banda Trauma, e ficaram impressionados com o baixista do grupo, Cliff Burton, principalmente pelo estilo de tocar baixo, tirando sons iguais aos de uma guitarra e usando pedais de distorção, além de um pedal wah-wah.


As negociações entre Metallica e Burton duraram algumas semanas, e no fim Burton entrou para o Metallica com a condição de que o grupo se mudasse para São Francisco, o que ocorreu em fevereiro de 1983. Com Burton, Mustaine, Hetfield e Lars, o Metallica fazia alvoroço pela costa oeste dos Estados Unidos, com fãs surgindo em diversas cidades, o que os leva para uma turnê em março de 1983. Porém, Mustaine começa a ter problemas com o álcool, e acaba sendo internado para fazer tratamento contra o vício, ao mesmo tempo que era despedido do grupo.




Metallica em 1983: James, Lars, Cliff e Dave


Para o seu lugar, o guitarrista do Exodus, Kirk Hammet, assume a guitarra solo, e em julho de 1983 era lançado Kill 'Em All, com diversas canções ainda da fase com Mustaine, que formava o grupo Megadeth. Canções como "Jump in the Fire", "Hit the Lights", "Anesthesia (Pulling Teeth)", onde Burton demonstrava toda sua habilidade no baixo, e principalmente "Seek & Destroy", viraram clássicos eternos na carreira do grupo, que ganhava cada vez mais fama.


O grupo partiu para uma turnê pela Europa, e em 27 de julho de 1984 era lançado o segundo álbum da banda, Ride the Lightning. Outro grande petardo, que apresenta mais clássicos como "Fade to Black", a instrumental "The Call of Ktulu", "Ride the Lightning" e "For Whom the Bell Tolls", além da pesadíssima "Creeping Death". As palhetadas de Hetfield, os solos de Kirk, a precisão de Lars e as invenções de Burton tornavam o Metallica uma das bandas mais atraentes a serem vistas ao vivo, mas o grupo ainda precisava conquistar a indústria fonográfica através da venda de discos.


Metallica em 1984: James, Kirk, Lars e Cliff
Isso aconteceu em 1986, com o lançamento de Master of Puppets, considerado por muitos o melhor disco de thrash metal da história. Com ritmos únicos, Master of Puppets deixou para a história canções como a faixa-título, "Battery", "Welcome Home (Sanitarium)" e outra bela instrumental, a faixa "Orion", consolidando o Metallica como um grupo que construía excelentes canções tanto em se tratando de letras quanto da parte instrumental.


O Metallica foi convidado para abrir a turnê de Ozzy Osbourne, e tudo pareciam ser flores para o grupo no ano de 1986. Porém, Hetfield quebrou seu pulso enquanto andava de skateboarding descendo uma colina de neve. Ele continuou a turnê apenas cantando, enquanto a guitarra base foi assumida por John Marshall. O Metallica foi um quinteto durante toda a parte americana, e também em 12 shows pela Europa, onde a turnê começou na cidade de Cardiff.


Metallica com John Marshall (tocando violão)
Quando o grupo chegou em Estocolmo, uma nuvem negra atacou o Metallica de frente. Primeiramente, Marshall, que possuía diabetes, estava cada vez mais debilitado por causa das constantes viagens e também por aplicações mal-feitas de insulina, o que levou o guitarrista a pedir demissão da banda no início de novembro.


Mas antes, um fato lamentável mudou a vida do grupo. Após a apresentação em Estocolmo, todos partiram para o próximo local onde o grupo iria fazer seu show dentro do ônibus alugado pela banda. Próximo a cidade de Dörarp, por volta das seis da manhã, o motorista do ônibus perdeu o controle do veículo, que acabou capotando por diversas vezes na estrada. Lars, Kirk e Hetfield saíram do ônibus sem lesões mais graves, mas porém, quando Kirk avistou o ônibus pelo lado de fora, logo percebeu a tragédia. O ônibus havia caído em cima do corpo de Burton.


No dia 27 de setembro de 1986, o mundo perdia um dos maiores baixistas da história do rock. Com apenas 24 anos, Burton deixou um legado de riffs e solos que somente ele conseguia fazer, além de uma legião de fãs que o idolatra até os dias de hoje. Os três remanescentes saíram de órbita por alguns meses, e acabaram decidindo manter a vontade de Burton, que sempre pediu para que, se algo acontecesse com ele, o grupo não poderia acabar.


Para o lugar de Burton, Jason Newsted (ex-Flotsam and Jetsam) foi o escolhido. A estreia do novo baixista foi realizada no EP Garage Days Re-Revisited, lançado em julho de 1987. No mesmo ano, saía a coletânea de vídeos Cliff 'Em All, apresentando imagens inéditas do Metallica tendo Burton no baixo, além de vídeos caseiros e também fotos do baixista. 


Metallica em 1990: Lars, Jason, Kirk e James
Em seguida, o Metallica faz uma rápida turnê, e em agosto de 88, era lançado ... And Justice for All. Mais trabalhado, com longas faixas e bastante experimental, esse álbum acabou desagradando os fãs iniciais da banda, mas começou a abrir espaço para novos fãs que se encantaram com canções como "One", "... And Justice for All", "Blackened" e a homenagem para Burton, chamada "To Live Is To Die". 


Mais uma gigantesca turnê seguiu-se, passando inclusive pela primeira vez no Brasil, e em 1991 era lançado Metallica. Também conhecido como Black Album, esse disco provou que o Metallica realmente havia diminuído o ritmo da trilogia com Burton, mas sem deixar de lado os clássicos. Os fãs que surgiram em ... And Justice for All, agora brotavam por todos os lados através de novos clássicos como "Unforgiven", "Nothing Else Matters", "Sad But True" e "Enter Sandman", essa última se tornando a canção mais conhecida da história da banda.


A caixa Live Shit: Binge & Purge
Outra turnê foi iniciada, agora ao lado do Guns N' Roses e tendo o Faith No More como abertura. Juntavam-se então no mesmo palco aquelas que eram consideradas as duas bandas mais importantes do início dos anos 90, culminando com o lançamento, por parte do Metallica, da caixa Live Shit: Binge & Purge (1993), contendo na sua versão original 3 fitas-VHS (posteriormente 2 DVDs) com apresentações da banda nas turnês de Metallica ... And Justice for All, 3 CDs, um livro de fotos e diversos mimos para os fãs.


Em 96, era lançado Load, seguido pelo álbum ReLoad (1997), que apesar de manter a linha de Metallica, conquistando novos fãs, desagradava cada vez mais aos admiradores de Master of Puppets e Ride the Lightning. Seguiu-se ainda o álbum de covers Garage Inc. (1998) e o ambicioso projeto S & M (1999), com o Metallica tocando seus clássicos ao lado de uma orquestra, seguido por mais uma turnê mundial.


Em 2000 o Metallica se envolveu em um processo contra o website Napster, responsável por downloads, alegando ser prejudicado na questão do uso do nome Metallica e também na divulgação de suas canções, já que financeiramente o grupo não estava recebendo um centavo pelo download disponibilizado gratuitamente pelo website. Apesar de ganhar a causa, o grupo manchou ainda mais sua imagem, que já estava desgastada com os álbuns pós-Metallica.


Metallica participando do programa Os Simpsons
Em janeiro de 2001, Newsted pediu demissão alegando problemas pessoais. Na verdade, ele queria seguir uma carreira solo e ao lado do projeto Echobrain, o que não era bem aceito pelos demais membros do grupo. O Metallica ficou ensaiando durante alguns meses para o novo álbum, o que pode ser conferido no documentário Some Kind of Monster (2004). Para o lugar de Newsted, o ex-Ozzy Osbourne e ex-Suicidal Tendencies Robert Trujillo foi o convidado, e assim, em 2003, foi lançado o álbum St. Anger


Com uma mixagem muito crua, onde o som da bateria parece com o de latas, além de uma ausência de solos de guitarra, St. Anger se tornou unanimamente o pior disco da carreira da banda. Mesmo assim, o Metallica continuou as excursões, sempre com um bom público, ao mesmo tempo que o próximo álbum era produzido.


Metallica em 2005: Lars, Kirk, Robert e James
Em 2008 saía Death Magnetic, que se não voltava aos tempos de Burton, resgatava a fase de ... And Justice for All Metallica, com canções como "That Was Just Your Life", "The Day That Never Comes" e "Unforgiven III" resgatando a paixão dos fãs mais antigos da banda. 


Uma extensa turnê mundial foi realizada, assim como o lançamento de diversos DVDs, com destaque para Orgulho, Paixão e Glória: Três Dias na Cidade do México (2009). Em 2010, o grupo excursionou ao lado de Slayer, Megadeth e Anthrax na turnê The Big Four, e está previsto para maio desse ano, o retorno aos estúdios para a gravação do novo álbum, que deve ser lançado no início de 2012.
Coleção com LPs oficiais do Metallica e alguns EPs
Track List do Podcast # 07 - Slayer

Abertura: "Black Magic" [do álbum Show No Mercy - 1983]
"Metal Storm / Face the Slayer" [do álbum Show No Mercy - 1983]
"Mandatory Suicide" [do álbum South of Heaven - 1988]
"Mind Control" [do bootleg Slaytanic Comeback in Brazil - 1994]
"Seasons in the Abyss" [do bootleg The Noblest Blood : B-Sides & Rarites - 2008]
"Perversion of Pain" [do álbum Diabolus in Musica - 1998]


Abertura: "Raining Blood" [do álbum Reign In Blood - 1986]
"In-A-Gadda-da-Vida" [da trilha de Lass Than Zero - 1987]
"Born to be Wild" [da trilha de Nascar: Crank It Up - 2002]
"Hand of Doom" [do álbum Nativity In Black - 1994]
"Disorder" [da trilha de Judgement Night - 1993 (com Ice-T)]
"Memories of Tomorrow" [do álbum Undisputed Attitude / versão japonesa - 1996]


Abertura: "Dissident Aggressor" [do álbum South of Heaven - 1988]
"Antichrist" [do álbum Storm of the Light's Bane - 1995 (Dissection)]
"Piece by Piece" [do álbum The Best of - 2003 (Malevolent Creation)]
"Captor of Sin" [do álbum Slaughter of the Soul / bonus track - 2002 (At the Gates)]
"Raining Blood" [do álbum Strange Little Girls - 2001 (Tori Amos)]


Abertura: "Scarstruck" [do álbum God Hates Us All / collector's edition - 2001]
"Spit on Your Grave" [do álbum Power and Pain - 1986 (Whiplash)]
"D. N. R. (Do Not Resuscitate)" [do álbum The Gathering - 1999 (Testament)]
"Silent Stranger" [do álbum Nemesis - 1997 (Grip Inc.)]
"Deathamphetamine" [do álbum Shovel Headed Kill Machine - 2005 (Exodus)]
"Goddamn Electric" [do álbum Reinventing the Steel - 2000 (Pantera)]


Encerramento: "Agressive Perfector" [do álbum Metal Massacre III - 1983]

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Arnaldo Baptista: uma análise da letra de "Sunshine"


 


Por Mairon Machado (Publicado originalmente no blog Consultoria do Rock)

Inspirado no texto do Micael sobre a letra de "In the Presence of the Enemies", do Dream Theater, resolvi resgatar uma antiga conversa que eu e Micael tivemos há uns 5 anos. Eu e meu irmão sempre discutimos sobre muita coisa, principalmente música, e quase nunca chegamos a uma conclusão por termos gostos musicais e visões bem diferentes na maioria das coisas. 

Em uma determinada época de nossas vidas, quando eu estava no auge da minha paixão por Arnaldo Baptista (que ainda continua até os dias de hoje, porém não preciso ouvi-lo todos os dias), eu tentava convencer o Micael de que Arnaldo Baptista era um gênio não somente como músico, mas como letrista. O Micael riu, dizendo que frases como "o meu refrigerador não funciona" e "antes do outro comercial" realmente eram frases geniais, já que não tinham sentido nenhum.

Patrulha do Espaço em 1978: Arnaldo, Oswaldo, John e Rolando
Fiquei p... da vida com aquilo, e me prestei a fazer um tratamento linha por linha do que "Sunshine", onde a frase "antes do outro comercial" está inserida, e que foi registrada em 1977, mas foi lançada apenas no álbum Elo Perdido (1988), significava.

Antes de começar a destrinchar a letra, é preciso se colocar na situação que Arnaldo se encontrava no ano de 1977. Para aqueles que estão perdidos na história, Arnaldo era tecladista, baixista, vocalista e líder do grupo Os Mutantes, ao lado de Rita Lee e seu irmão, Serginho Dias, e depois fundou outro grande nome do rock brasileiro, o Patrulha do Espaço. Com a saída dos Mutantes, Arnaldo lançou o excelente Lóki! (1974), que foi imensamente elogiado pela crítica, mas que não foi compreendido pela massa admiradora de música, e afundou nas prateleiras das lojas, deixando Arnaldo com o apelido de Lóki, alcunha pela qual ele nunca gostou de ser chamado.
Arnaldo e Rita: Amor, Estranho Amor
Sem dinheiro, sem uma gravadora e vendo Rita Lee (o grande amor mal resolvido da vida de Arnaldo) fazer sucesso ao lado do seu novo marido, Roberto de Carvalho, bem como Sérgio comandando os Mutantes com braços fortes e lotando casas de shows Brasil afora, Arnaldo fundou a Patrulha do Espaço ao lado do baterista Rolando Castelo Jr. e também de Oswaldo Gennari (baixo) e John Flavin (guitarras), em meados de 1977.

Com o grupo, Arnaldo fez diversas gravações que demorariam anos para serem lançadas, algumas das quais já haviam sido registradas com Arnaldo interpretando as mesmas sozinho (no famoso álbum Singin' Alone). Porém, o contato com o novo grupo fez Arnaldo botar todo seu sentimento para fora na canção que batizou de "Sunshine".
Patrulha em 1977: Rolando, Oswaldo, John e Arnaldo.
O que segue é a descrição que enviei para o Micael, e que pode não ser a correta e tampouco significa o que o Arnaldo tinha em mente quando a construiu, mas que, de qualquer forma, acabou convencendo o Micael que a frase "antes de outro comercial" tinha uma importância enorme dentro da discografia desse monstro do rock mundial, e que espero poder dividir e discutir com vocês, apreciadores desse grande gênio brasileiro.

A canção começa com as frases:

"I wanna see the raise of sunshine
Antes doutro comercial" 
Bom, aqui o Arnaldo já explica a letra. É muito mais importante VER um nascer do sol do que um PROGRAMA DE TELEVISÃO, ou seja, tens que dar valor as coisas da natureza, aproveitar a vida, e não te prender a uma mesmice, uma rotina, como ver TV (claro, conhecendo o Arnaldo, sabemos que o que ele quer dizer aí na verdade refere-se as inovações musicais da época). Portanto, viva o que realmente é belo.
"E baseado num céu genuíno
Estrear no carnaval."
O que é um céu genuíno? Bom, você pode dizer que é um CÉU AZUL. Mas na verdade, um céu genuíno é um céu cheio de estrelas. Então, aqui o Arnaldo diz que mesmo com um monte de ESTRELAS na música (e baseando-se no que elas fazem/fizeram), ele vai estrear no "carnaval", que eu interpreto como a carreira solo dele, já que ele não considera o Lóki! como um disco dele. Isso foi dito em várias entrevistas dadas pelo Arnaldo a rádios na época de lançamento de Lóki!. Uma delas, para a Rádio Bandeirantes, é facilmente encontrada para download em diversos sites. Portanto, ele ja está dizendo que  vai se influenciar pelos outros pra começar a carreira, mas sempre vendo as coisas boas q foram feitas (Sunshine), e não perdendo tempo com as coisas ruins (o programa de TV).

Serginho e Arnaldo fazendo as pazes em 1986
"Não sei se a guerra é na próxima sexta
Ou se é lá noutro canal"
Mais uma comparação do Arnaldo com a TV. Qual guerra? Lógico, olha a época, 1977, a guerra que se tinha era a dele com o seu irmão Serginho, justamente na fase que ele ia pros shows dos Mutantes fazer participações especiais. Portanto, na realidade o que ele quer dizer é que ele na realidade está envolvido no meio de uma guerra, mas não sabe se é uma guerra de verdade, como por exemplo as das emissoras de TV, que na época - e ainda hoje - brigam por qualquer ponto de audiência. Afinal, por que essa briga por audiência? (ou do ponto de vista do Arnaldo, por que ele brigou com o Serginho?). A Sexta certamente refere-se a isso (próxima sexta = próxima data do show). Claro, ao ver o Serginho como o centro das atenções, e ele como um palhaço vestido de cowboy fazendo uma participação especial sem ninguém saber quem ele era, surgia na cabeça de Arnaldo uma GUERRA DE EGOS, tal como a das TV. 

"Enquanto isso sinto a fome do rico
Nesse trânsito infernal"
Qual é a fome do rico? Dinheiro, muito dinheiro! O que torna mais claro o parágrafo acima. A guerra do Arnaldo com Sérgio Dias tirou a grana dele. Com isso, ele ficou sendo MAIS UM, e não O ARNALDO (por isso trânsito infernal) no meio de um monte de músicos que tentam sucesso, lembrando que Arnaldo ficou anos atrás de uma gravadora, mais um músico atrás de dinheiro no trânsito infernal de bandas e cantores buscando gravadoras.
"Quero cantar no meio da chuva
Lá no fundo do quintal"
Simples né, ele quer fazer algo que todo mundo gostaria de fazer, mas não admite, o que é uma coisa simples demais (cantar no meio da chuva, escondido  no fundo do quintal, quem nunca pensou em fazer isso?). Portanto, ele quer só tocar, nada mais, quer levar a vida numa boa. É isso!
"I wanna see the raise of sunshine
No eterno azul do mar"
Sem cometários adicionais, apenas mais uma afirmação do primeiro parágrafo.

Arnaldo Alone
"Sunshine, sunshine
Eu sei q o mundo está super populado
Mas não há niguém no meu quintal"
Essa é fácil. Com bilhões de pessoas no mundo, Arnaldo se encontrava sozinho, tanto do ponto de vista amoroso quando musicalmente falando, sendo que, como citado, foi exatamente nessa época que ele gravou o álbum Singin' Alone completamente sozinho, tocando todos os instrumentos.
"Não sei se tenho o rei na barriga
Mas um frango não faz mal"

Quem tem o rei na barriga? Aquele que come demais? Não, pro Arnaldo, o rei na barriga refere-se a você experimentar as coisas que tem a disposição, de você sentir o que cada pequena nota, cada pequeno acorde pode mudar um sentido em um som. Por isso um frango não faz mal, pois o que o que ele quer dizer é que você fazer algo que seja comum (comer um frango), mas que seja proveitoso, não custa nada e faz bem. Daí o fato de ele não saber se tem o rei na barriga (já que ele conhecia de tudo um pouco), mas de um frango não fazer mal (só tocar o mesmo rock 'n' roll, mas bem tocado, não faz mal a ninguém, não precisa virtuosísmos como o do Serginho, trabalhos elaborados como o da Rita...)

Arnaldo em 1977
"Como vai você? Tudo bem?? Assistiu ao futebol?"
Isso é uma pergunta para o ouvinte. Afinal, ele esta colocando algo que a maioria das pessoas fazem (assistir ao futebol), e daí finge que está tudo bem, tudo na boa. Mas realmente, como vai você? Tudo bem?
"Podes crer, tudo bem, tudo, tudo isso
É melhor e não faz mal"
Ou seja, o parágrafo inicial. Vale a pena você aproveitar a vida com coisas simples, como um nascer do sol, um frango, do que ficar perdendo tempo vendo TV, tentando tocar funk, jazz, progressivo, escalas absurdas...
"Bap-tchu-bah, Tchu-wap-bap-tchu-bah ieeeeeeeeee"

E Arnaldo encerra cantando as boas e simples frases do rock 'n' roll, fazendo exatamente o que ele quer fazer de uma maneira simples, e principalmente, se divertindo com isto. Resumindo, "Sunshine" é uma amostra de quanto o Arnaldo estava fulo da vida por não darem valor pro trabalho dele, onde ele tenta justificar o que ele realmente esta fazendo, que é tocar o que gosta, sem ser virtuosístico ou algo do estilo, mas sendo apenas ele mesmo.
Um bonito "Sunshine" em Porto Alegre


E quero agradecer ao Micael por esse papo que tivemos, onde repito, posso não estar certo em nada dessa avaliação, mas baseado na vida de Arnaldo a época da gravação de "Sunshine", realmente dá a entender.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Por Mairon Machado Em 2006 tive a minha primeira experiência aérea. Já viajava com música desde pequeno, mas nunca tinha colocado meus pés em um avião. Graças a minha área de trabalho (Física difrativa de partículas altamente energéticas), fui convidado a participar de um evento no Rio de Janeiro, e assim, conheci uma das cidades mais bonitas do mundo, na primeira de muitas viagens que acabei realizando por causa da minha pesquisa, e que eu espero possa continuar por muitos anos. Foto no encarte de Juno Exatamente nessa viagem, através de uma grande amiga com a qual infelizmente acabei perdendo o contato (ELÔ, CADÊ VOCÊ???), conheci diversas lojas de discos no centro do Rio de Janeiro. Em uma delas, acabei fazendo amizade com o dono do local, Márcio Rocha, responsável ao lado de Bruno pela Tropicália Discos, uma loja especializada em vinis de todos os gêneros. Com as diversas idas para o Rio, passei a frequentar a Tropicália como minha segunda casa, principalmente pelos papos de música entre eu e o Márcio. Foi justamente durante um papo sobre Ravi Shankar que Márcio me surpreendeu com a notícia de que havia gravado um CD. Dei altas gargalhadas, pois achei que ele estava brincando, e foi então que ele me deu o CD, e falou para ouvir quando voltasse para Porto Alegre. Quando vi o CD nas minhas mãos, logo percebi que ele falava sério, e fiquei uma semana no Rio de Janeiro até poder voltar para Porto Alegre e ouvir o que estava contido ali dentro. Formado em música no Instituto Villa-Lobos, Márcio teve sua carreira apresentada ao público ao entrar, em 1995, no magnífico projeto Luz da Ásia, que possuía uma influência dos sons orientais bem diferente do que já havia sido visto no Brasil, e infelizmente ficou perdido no subúrbio da decadência musical que viveu o nosso país no final dos anos noventa, envolto em barbaridades como É O Tchan, Araketu e tantas outras porcarias da época. No Luz da Ásia, Márcio se encantou com o talento dos demais músicos da banda e com instrumentos como craviola, cítara e swaramandal. Com o grupo, registrou o álbum Amistad (1999), e então Márcio dedicou seu talento e carinho no lento e dedicado trabalho de gravação de seu álbum solo. Áutografo no encarte pertencente ao bolha que vos escreve Por fim, em 2000 Márcio lançou, através da Odisséia Records e com a ajuda de Alex Frias, o CD Juno, que foi exatamente o CD que ele me passou, e onde empregou todos os elementos que o Luz da Ásia tinha e mais as pitadas de clássico que havia aprendido no Instituto Villa-Lobos, fazendo uma espetacular mistura entre harmonia e sonoridade em um disco praticamente instrumental. Com uma curta vinheta "Samadhi", o CD abre espaço para conquistar os ouvidos dos amantes de rock progressivo com uma maravilha que será difícil ser encontrada em qualquer outro projeto do rock progressivo nacional. "Desolation of Fools" conta com a participação de músicos de bandas como Cláudio Cepeda (baixo, Anima Dominum), Alexandre Fonseca (tablas, Cheiro de Vida e Pepeu Gomes) além de Alexandre Costa (bateria), Daniel Andrade (violino), Michel Mujalli (cítara) e Alessandra Balocchi (castanholas), e é uma mescla perfeita de sons orientais com música erudita e principalmente, do bom e velho rock progressivo dos anos 70. Linda e complicadíssima, essa canção começa com os violões de Márcio acompanhado por bateria e baixo, fazendo a base para o solo de violino de Daniel Andrade. Márcio Rocha A melodia da canção é belíssima, principalmente pela levada cadenciada de toda a primeira parte da canção. Violino e guitarra solam juntos em um tema sensacional, seguidos pelo andamento do baixo e da bateria, e o timbre da guitarra de Márcio lembra muito Robert Fripp. Então, de repente, sintetizadores tornam a canção ainda mais King Crimson, onde Márcio utiliza um violão para solar em uma escala flamenca, com um andamento de bateria/baixo/violino muito quebrado. Doideira pura! As escalas de Márcio são praticamente impossíveis de serem memorizadas, tamanho grau de dificuldade das mesmas, e a sequência de repetições nos faz parecer que a viagem não irá parar. Mas, após a doideira, o clima da canção muda totalmente com a entrada dos instrumentos orientais. Tabla e cítara fazem suas partes acompanhados pelo dedilhado do violão de Márcio, e então, castanholas mudam a canção mais uma vez, agora para uma sessão flamenca do violão acompanhando uma linda participação da cítara. Por fim, a quebradeira volta novamente, em uma sessão onde a craviola introduz uma sequência de riffs ainda mais complicados do que os executados anteriormente, retomando então o belo tema inicial ao violino e com a guitarra solando junto, encerrando a faixa com o barulho de portas se fechando, mas abrindo um gigantesco leque para o resto de Juno, que ainda trás canções Maravilhosas como "Concertino", "Juno" e "Odisséia", mas nenhuma delas com tamanha intrincação e passagens fantásticas como "Desolation of Fools".


 

Em 2006 tive a minha primeira experiência aérea. Já viajava com música desde pequeno, mas nunca tinha colocado meus pés em um avião. Graças a minha área de trabalho (Física difrativa de partículas altamente energéticas), fui convidado a participar de um evento no Rio de Janeiro, e assim, conheci uma das cidades mais bonitas do mundo, na primeira de muitas viagens que acabei realizando por causa da minha pesquisa, e que eu espero possa continuar por muitos anos.

Foto no encarte de Juno
Exatamente nessa viagem, através de uma grande amiga com a qual infelizmente acabei perdendo o contato (ELÔ, CADÊ VOCÊ???), conheci diversas lojas de discos no centro do Rio de Janeiro. Em uma delas, acabei fazendo amizade com o dono do local, Márcio Rocha, responsável ao lado de Bruno pela Tropicália Discos, uma loja especializada em vinis de todos os gêneros. Com as diversas idas para o Rio, passei a frequentar a Tropicália como minha segunda casa, principalmente pelos papos de música entre eu e o Márcio.

Foi justamente durante um papo sobre Ravi Shankar que Márcio me surpreendeu com a notícia de que havia gravado um CD. Dei altas gargalhadas, pois achei que ele estava brincando, e foi então que ele me deu o CD, e falou para ouvir quando voltasse para Porto Alegre. Quando vi o CD nas minhas mãos, logo percebi que ele falava sério, e fiquei uma semana no Rio de Janeiro até poder voltar  para Porto Alegre e ouvir o que estava contido ali dentro.

Formado em música no Instituto Villa-Lobos, Márcio teve sua carreira apresentada ao público ao entrar, em 1995, no magnífico projeto Luz da Ásia, que possuía uma influência dos sons orientais bem diferente do que já havia sido visto no Brasil, e infelizmente ficou perdido no subúrbio da decadência musical que viveu o nosso país no final dos anos noventa, envolto em barbaridades como É O Tchan, Araketu e tantas outras porcarias da época. No  Luz da Ásia, Márcio se encantou com o talento dos demais músicos da banda e com instrumentos como craviola, cítara e swaramandal. Com o grupo, registrou o álbum Amistad (1999), e então Márcio dedicou seu talento e carinho no lento e dedicado trabalho de gravação de seu álbum solo.

Áutografo no encarte pertencente ao bolha que vos escreve
Por fim, em 2000 Márcio lançou, através da Odisséia Records e com a ajuda de Alex Frias, o CD Juno, que foi exatamente o CD que ele me passou, e onde empregou todos os elementos que o Luz da Ásia tinha e mais as pitadas de clássico que havia aprendido no Instituto Villa-Lobos, fazendo uma espetacular mistura entre harmonia e sonoridade em um disco praticamente instrumental. Com uma curta vinheta "Samadhi", o CD abre espaço para conquistar os ouvidos dos amantes de rock progressivo com uma maravilha que será difícil ser encontrada em qualquer outro projeto do rock progressivo nacional.
"Desolation of Fools"  conta com a participação de músicos de bandas como Cláudio Cepeda (baixo, Anima Dominum), Alexandre Fonseca (tablas, Cheiro de Vida e Pepeu Gomes)  além de Alexandre Costa (bateria), Daniel Andrade (violino), Michel Mujalli (cítara) e Alessandra Balocchi (castanholas), e é uma mescla perfeita de sons orientais com música erudita e  principalmente, do bom e velho rock progressivo dos anos 70. Linda e complicadíssima, essa canção começa com os violões de Márcio acompanhado por bateria e baixo, fazendo a base para o solo de violino de Daniel Andrade. 

Márcio Rocha
A melodia da canção é belíssima, principalmente pela levada cadenciada  de toda a primeira parte da canção. Violino e guitarra solam juntos em um tema sensacional, seguidos pelo andamento do baixo e da bateria, e o timbre da guitarra de Márcio lembra muito Robert Fripp. Então, de repente, sintetizadores  tornam a canção ainda mais King Crimson, onde Márcio utiliza um violão para solar em uma escala flamenca, com um andamento de bateria/baixo/violino muito quebrado. Doideira pura! As escalas de Márcio são praticamente impossíveis de serem memorizadas, tamanho grau de dificuldade das mesmas, e a sequência de repetições nos faz parecer que a viagem não irá parar. 

Mas, após a doideira, o clima da canção muda totalmente com a entrada dos instrumentos orientais. Tabla e cítara fazem suas partes acompanhados pelo dedilhado do violão de Márcio, e então, castanholas mudam a canção mais uma vez, agora para uma sessão flamenca do violão acompanhando uma linda   participação da cítara. Por fim, a quebradeira volta novamente, em uma sessão onde a craviola introduz uma sequência de riffs ainda mais complicados do que os executados anteriormente, retomando então o belo tema inicial ao violino e com a guitarra solando junto, encerrando a faixa com o barulho de portas se fechando, mas abrindo um gigantesco leque para o resto de Juno, que ainda trás canções Maravilhosas como "Concertino", "Juno" e "Odisséia", mas nenhuma delas com tamanha intrincação e passagens fantásticas como "Desolation of Fools".

Vãn Züllatt


O grupo pelotense Vãn Züllatt (pronúncia correta, Vãn Zíla) tem suas origens no início dos anos 90, quando Cleber Vaz (teclados, guitarras) é convidado a fazer parte do grupo Conflito Social, onde encontrava-se o baterista Marcelo Silva. O Conflito Social estava parado havia alguns meses, e a ideia de trazer Cléber para o grupo acabou naufragando junto com diversas outras ótimas bandas de Pelotas (caso da Transpassos, Santos e principalmente do excelente guitarrista Celso Krause), que apesar do imenso número de fãs na região, nunca conseguiram passar do Rio Camaquã para alcançar o status que tanto mereciam.
Vãn Züllatt em apresentação (2007)
Mesmo com o término do Conflito Social, Cleber e Marcelo mantiveram a amizade, e continuaram ensaiando composições próprias apenas com guitarra, bateria e voz. Depois de muito tempo, Gabriel Mattos (baixo) e Jonatã Müller (guitarras) se juntaram a dupla, e então, o quarteto passou a fazer um trabalho experimental mesclando sonoridades desde Focus até Frank Zappa.


A excelente estreia do grupo
Durante os anos de 2002 e 2007, com diversas pausas interferindo direto na produção do grupo, chegaram no número de 11 canções, que assim, de forma independente, gravaram e lançaram no excelente CD de estreia O Casulo, em março de 2008. A iniciativa do grupo de divulgar o material pela internet chamou a atenção de muitos caçadores de obscuridades, e a audição do álbum agradou unanimemente aos apreciadores do rock progressivo.

Quem ouve o CD pela primeira vez já se depara com uma situação inusitada: a mixagem do mesmo é feita em formato de suítes, com as músicas emendadas uma na outra, e o mais legal, a impressão que temos é de estarmos ouvindo duas longas faixas que compões uma espécie de Lado A e Lado B, o que atiça ainda mais o coração dos bolhas.

Mas vamos entrar no Casulo e descobrir o que está sendo feito dentro desse mundo. O CD abre com uma pérola, que foi a primeira faixa que ouvi e que me levou a comprar o CD na hora, a sensacional "Produto Misto". Barulhos de vozes e trânsito apresentam o moog de Cleber, seguido pela bateria e pelo rápido tema do baixo de Gabriel. Então, Cleber apresenta o tema da canção no piano em um ritmo sensacional da bateria de Marcelo. Um pandeiro surge fazendo intervenções enquanto Cleber delira no piano em um jazz-rock sensacional que empolga de cara. Então a canção muda o ritmo, voltando para o festival de Woodstock e resgatando Santana, com a guitarra de Jonatã solando sobre o arranjo de acordes dos teclados, além da percussão santaniana que faz lembrar ainda mais a grande banda do genial guitarrista mexicano. Depois dessa sessão, temos mais um solo de teclado, agora mais pesado e setentista, inclusive com a participação de um moog, e voltamos para o trecho santaniano, encerrando a faixa com um duelo de baixo, piano e bateria que leva a "Sertão Digital".
 

A entrada já lembra realmente as canções do sertão nordestino, porém mais pesadas, e então, vozes aleatórias são ouvidas ao fundo do viajante solo de Jonatã, com destaque novamente para o andamento de bateria e baixo, bem como as delirantes viagens dos sintetizadores. A criatividade do grupo aflora, e após um tema nordestino, um curto solo de flauta leva ao solo de moog. Setentista pacas, e mesmo assim diferente e excelente, encerrando com uma espécie de Ária operística muito viajante.


"Cores" vêm na sequência dos delírios finais de "Sertão Digital", com um tempero mais brasileiro para o rock progressivo que a banda fez nas duas primeiras faixas, com Cleber solando na flauta, seguido por um belo solo de violão que leva ao solo de piano, levando para um bonito tema na flauta onde o andamento é modificado, com uma marcação mais nos pratos. O piano repete o tema da flauta, e então flauta e piano passam a repetir o mesmo tema, chegando ao trecho final, onde flauta e violão solam em cima de um mesmo tema, lembrando bastante canções do grupo Recordando O Vale das Maçãs, com a faixa encerrando com a pegada do solo de guitarra, onde Jonatã sola distintamente nas caixas de som, o que deu um ganho interessante para o final da canção.



A sequência é destinada para "De Sol A Sol", com uma introdução ao piano que já mostra o ritmo do que virá pela frente, um excelente jazz rock comandado pelos pratos de Marcelo e pelo baixo de Gabriel, onde o solo inicial é feito pela flauta, em uma linha similar a de Thijs Van Leer (Focus), com Jonatã comandando o segundo solo em um estilo único, com notas e escalas simples. Destaque principal para o solo de piano elétrico, que nos faz voltar aos bons tempos onde Herbie Hancock era o dono do instrumento.


A flauta encerra essa canção, e abre "Utacaram", uma bela e complicada faixa, onde o andamento da bateria e do baixo é muito estranho, mas as sequências de intervenções de flauta e teclado acabam definindo o rumo da mesma, com uma pegada rápida que leva aos solos alternados de teclado e guitarra, com um pique fantástico, daqueles de fazer a perna não parar de balançar. As viradas do teclado e da bateria levam a uma sequência de curtos solos de baixo e bateria, e a faixa segue com um delirante solo de moog, encerrando com o rápido tema da flauta e o barulho de uma porta se fechando.


Então, surge a doideira "Tarantula", comandada pelo solo de guitarra e moog. O andamento cavalgante do baixo e o insistente prato latejando ao fundo tornam a canção ainda mais atraente. O único ponto negativo vai para o volume da guitarra, que acabou ficando muito baixo em comparação ao volume do prato, mas da para se perceber claramente os temas clássicos que Jonatã executa durante seu solo. A canção muda completamente para o solo de flauta, o que já se torna uma constante no álbum, a gostosa mudança de sonoridade na mesma faixa, mesmo que ela não seja uma faixa longa, e por fim, mais um solo de piano elétrico encerra o que seria o Lado A do álbum.
Apresentação no Maracatu
O "Lado B" abre com os pássaros de "A Montanha", e então, novamente o Vãn Züllatt apresenta um som totalmente diferente, onde agora o violão puxa os acordes para fortes batidas nos pratos apresentarem  o tema do moog. Então, uma deliciosa balada comandada por acordes de violão dá lugar para o solo de guitarra penetrar no recinto, novamente pecando no volume ,que está muito baixo. Então, Jonatã faz um lindo solo no violão, enquanto mais barulhos de pássaros aparecem nas caixas de som. A flauta passa a solar junto com o violão, enquanto bateria e baixo fazem um leve andamento para a canção, permitindo a Cleber explorar algumas lindas notas com a flauta em cima do tema executado pelo violão. Essa é outra que lembra bastante alguns momentos do Recordando O Vale das Maçãs.

A canção vai ganhando ritmo em cima do tema do violão e das batidas de Marcelo, e então começa "Do Pé da Seringueira", mais um belíssimo jazz rock levado pelo piano de Cleber e pelas escalas de Jonatã. Essa é uma das minhas faixas preferidas no CD, principalmente pelo toque jazzístico de Cleber, Gabriel e mais ainda de Marcelo, um grande baterista sem sombra de dúvidas. A primeira parte apenas é jazzística, já que como a tradição Vãn Züllattiana, a canção muda totalmente na sua segunda parte, ganhando mais ritmo enquanto Jonatã faz seu solo, e infelizmente de novo a mixagem da guitarra peca, com o volume ficando muito baixo para o som da guitarra.


Seguindo a linha jazzística, temos a interessante faixa "Jazzpion", que apesar do nome satírico, é outra excelente jazz rock agora com destaque maior para as escalas de Cleber e para a complicada  e viajante sequência onde sons de guitarra e moog são jogados aleatoriamente entre intrincadas escalas de baixo e sintetizador, levando a um tema circense que resgata a linha jazzística inicial.



A pesada "Tropicando", com escalas feitas juntas por baixo e guitarra entre intrincadas batidas de bateria, altera novamente o andamento do CD, dessa vez com o som da guitarra no volume ideal. Cleber passa a solar com o piano elétrico, jogando acordes e escalas entre o complicado tema do baixo e guitarra, e então, novamente a canção muda, ganhando peso para o solo rasgado de guitarra. 


Então, os violões passam a fazer o tema da guitarra, apresentando "Samba Jacaré", que apesar do nome, não é um samba, e sim uma fantástica viagem muito bem trabalhada, alternando entre os solos de guitarra e dos sintetizadores, lembrando bastante o Santana do final dos anos 70, chegando a uma parte onde a levada suingada do wah-wah comanda o excelente solo de guitarra, e a canção encerra-se por alguns segundos. Um imenso silêncio é ouvido, até que uma voz dizendo "tem que abrir os poros" apresenta um viajante jazz comandado por um tema no saxofone, em um andamento sensacional de Marcelo e Gabriel, e com um magistral solo de guitarra feito por Jonatã, que encerra o CD em um nível altíssimo de prazer para o ouvinte.


Atualmente o grupo continua seu trabalho de experimentação, composição e gravação além de apresentações em Pelotas e região, com o novo álbum estando em fase de finalização, e com lançamento previsto para Março/Abril de 2011, onde eu espero que o grupo consiga manter o mesmo nível do que foi feito em seu CD de estreia.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Novidades do Vale das Maçãs

Recebi ontem a maravilhosa notícia de que ainda esse trimestre sairá o novo cd de Domingos Mariotti e Fernando Motta. Um atraso ocorreu com a produção do mesmo, mas nesse mês de fevereiro, o material irá para prensagem.
Domingos acabou divulgando na internet a linda e emocionante faixa "TianaKalamina", com a participação de Fernando Pacheco nas guitarras. Portanto, é uma reunião do trio fundador do Recordando O Vale das Maçãs em mais uma bela faixa que Pacheco participa em sua vida.

O clipe, com cenas do cotidiano dos membros participantes da canção, filmadas de forma caseira, podem ser conferidas no vídeo abaixo.

 

Estou sedento para que este CD saía de uma vez. Se mantiver a linha de "Tiana" tem tudo para ser o melhor lançamento do ano.

Mariotti (à frente) e Motta

Discos que Parece que Só Eu Gosto: Queen - Hot Space [1982]



Por Mairon Machado (Publicado originalmente no blog Consultoria do Rock)
Discos que parece que só eu gosto existem vários. Creio que devido ao gosto musical bastante variado, indo do jazz ao thrash metal, passando por música clássica, blues, hard, progressivo e muito som dos anos 70 para trás, sempre vai haver material que de alguma forma agradará a mim, mas não a grande maioria das pessoas. Principalmente naqueles grupos progressivos mais obscuros, ou então nas grandes bandas de free jazz, a sonoridade viajante e cheia de barulhos por vezes me leva a crer que apenas eu gosto do que estou ouvindo.

Mas tem casos que eu não consigo entender. Um deles é o álbum Hot Space, do Queen. Para mim, um dos cinco melhores discos já lançados na história do rock, e que é massacrado pelos fãs do Queen, os não fãs do Queen e até pelo próprio Queen. Por que?

Eu nunca consegui encontrar a resposta para isso. Para começar, Hot Space foi lançado em 1982, logo após o álbum Flash Gordon (1981) e o hiper-idolatrado The Game (1980). A sonoridade é uma sequência do que estava sendo feito pela banda, já que desde The Game o grupo começou a utilizar sintetizadores (lembrando que o Queen adorava acrescentar nos encartes de seus álbuns a frase "no synths", e Jazz, de 1978, foi o último a ter os méritos para ostentar essa frase), que foram experimentados ao máximo na trilha de Flash Gordon, e que em Hot Space foram utilizados para dar uma sonoridade ainda mais leve ao pesado rock que o grupo fez no início da carreira, e que com o passar dos anos se transformaria em um pop fácil e pegajoso, estourando pelo planeta com o álbum The Works (1984), que foi lançado exatamente depois de Hot Space.

Queen com Maradona ao centro
E aí está o fato: The Game e The Works são álbuns pop de ótimo gosto, com canções que marcaram como "Another One Bites the Dust", "Play the Game", "Radio Ga Ga" e "I Want to Break Free" (isso só para citar algumas), e de novo eu pergunto, por que o preconceito com Hot Space se o pop dos anteriores também está presente neste?

Conhecendo um pouco a história, talvez possamos achar uma resposta. Em 1981, o Queen partiu para sua primeira turnê realmente mundial, promovendo o álbum Flash Gordon e passando por países como Japão, México e principalmente Argentina e Brasil. Os shows na América do Sul ficaram marcados por apresentações lotadas e muitos problemas. 

Queen, ainda com Maradona
Em março de 1981, o Queen desembarcou na Argentina para uma série de cinco shows, e logo na chegada, foram barrados pela polícia Argentina, pois as credenciais do grupo mostravam duas mulheres com os seios de fora, o que causou controvérsias entre o grupo e as leis antipornográficas da ditadura argentina. Para conseguir entrar no país, a equipe de produção do Queen necessitou passar uma caneta preta em cima de todos os seios das credenciais.

Já em frente ao estádio José Amalfitani, do Velez Sarsfield, onde os shows foram realizados, milhares e milhares de pessoas se amontoaram durante dias para poder presenciar os shows, causando mais tumultos e desconfortos entre a polícia local e a banda.

Para piorar a situação, o Queen esteve envolvido com diversos compromissos extra-palco, como uma sessão de fotos ao lado de Maradona e um jantar com o presidente, o General Roberto Eduardo Viola, que foi prontamente negado por Roger Taylor (bateria), alegando ser contra as políticas do general para com o povo argentino. O resto do grupo, a saber Freddie Mercury (vocais), Brian May (guitarras) e John Deacon (baixo), participou do jantar, o que gerou uma sequência de atritos entre os membros da banda que afetariam diretamente a gravação de Hot Space.


Queen no estádio Morumbi antes da mega-apresentação para 131 mil pessoas


Seguindo viagem para o Brasil, o Queen ficou 36 horas "hospedado" no aeroporto esperando a liberação do equipamento de som. Com apenas um dia para montar o palco e construir o set list da primeira apresentação da banda no estádio Morumbi, Mercury resolveu passear por São Paulo, deixando o resto do Queen p... da vida. Apesar de tudo, no palco o grupo fluía como água, e a apresentação para os 131 mil presentes no Morumbi é considerada por muitos uma das melhores da carreira da banda.

Com o término da turnê, o grupo lançou a canção-manifesto "Under Pressure" em um single que vendeu milhões de cópias. Com co-autoria de David Bowie, essa faixa bate de frente contra a política mundial do mundo naquela época, criticando principalmente a ditadura que envolvia os países da América do Sul. Não demorou para "Under Pressure" ser banida das rádios argentinas, e ao mesmo tempo que começava a Guerra das Malvinas entre Inglaterra e nossos hermanos, o Queen (assim como várias outras bandas britânicas) estavam proibidos de voltar a pisar em solo argentino durante todo o tempo que a guerra durasse.

Porém, no resto do planeta, "Under Pressure" estourou, e todos esperavam que o próximo álbum a ser lançado mantivesse a linha da sonoridade de "Under Pressure", que será discutida daqui a pouco. Seguiram-se ainda mais dois singles: "Body Language" e "Las Palabras de Amor", outra que os argentinos adoraram, principalmente pelas frases em espanhol, e que foi banida rapidamente de todas as lojas argentinas, com o single sendo despedaçado em praça pública, e finalmente chegava às lojas Hot Space.

Queen durante as gracações de Hot Space. Em cima: May e Deacon. Embaixo: Taylor e Mercury


Gravado entre muitas discussões, principalmente entre Mercury (no auge da sua descoberta sexual) e May, logo após ser lançado o Queen se separava por tempo indeterminado, já que ninguém aguentava mais os chiliques da dupla citada, e principalmente, com quase dez anos de imensas turnês, sem nenhum descanso, não tinha como ficarem mais tempo juntos. Taylor partiu para tirar férias na Escócia, onde um dia saiu tocando campainhas pela cidade e resolveu presentear a todos os que soubessem quem ele era, o que não foi feliz, pois ninguém o conhecia naquela região. Deacon juntou-se a família, enquanto May trabalhou ao lado de Eddie Van Halen no projeto Star Fleet. Já Mercury caiu na farra e na gandaia durante alguns meses, enquanto Hot Space afundava-se em números de vendas ridículos para um LP do Queen.

Então, vamos discutir um pouco sobre o que está presente em Hot Space. Claramente, o Queen escolheu um repertório especial para cada lado do vinil. O lado A preserva e destaca canções sensuais e dançantes, com um pop típico dos anos 80 e inovando no uso de sintetizadores. Já o lado B é mais típico do Queen, destacando a guitarra de May e com linhas melódicas que ficaram marcadas na carreira do grupo a partir do álbum A Night at the Opera (1975).


Compacto de Staying Power
O disco abre com o baixo de John Deacon mandando o riff de "Staying Power", onde sintetizadores imitando metais fazem intervenções para então Mercury começar a cantar sobre um andamento dançante e bem oitentista, com um ótimo solo dos sintetizadores imitando os metais e com um arranjo dos vocais duelando com os sintetizadores muito bom. Essa faixa já assusta quem está acostumado com o som tradicional do Queen ou o rock que a banda fazia no início de carreira, mas é uma excelente faixa pop, perfeita para a época em que bandas como Depeche Mode, Erasure, Pet Shop Boys, New Order, Tears For Fears entre outras estavam engatinhando ou nem existiam ainda,

A festa segue com "Dancer", com o baixão de John Deacon novamente na frente do ouvinte, e Mercury cantando em uma linha Michael Jackson que não tem como não dançar. O refrão é marcante, e o andamento é similar a "Another 
Compacto de Back Chat
One Bites The Dust", porém com mais guitarras, inclusive com May solando por diversas vezes (para quem diz que o álbum não tem solos de guitarra) e bem mais sensual, batendo a canção mais famosa, na minha opinião, logo no primeiro round da luta entre as duas.

"Back Chat" é outra fantástica canção pop, com um andamento sensacional de Taylor, que utilizando a bateria eletrônica, cria um espaço perfeito para o fantástico riff de May, com Mercury cantando sobre a melodia do riff. Oitentista pacas, chupada por diversas bandas como as citadas anteriormente, com mais um ótimo solo de May, é a trilha perfeita para uma noitada de sábado. Mercury canta muito aqui, mas ainda não é a melhor apresentação do álbum.




Compacto de Body Language
A próxima canção, a sensual "Body Language", é outra para ser confrontada com uma do álbum The Game, "Don't Try Suicide". Se na faixa de The Game Mercury canta sobre um andamento simples feito por baixo e batidas de palmas, com uma participação tímida de Taylor, tendo no refrão o ponto alto entoando o nome da faixa, e com uma curta sessão mais agitada com o solo de May, a faixa de Hot Space mantém uma linha similar, porém ainda melhor, começando com o hipnotizante riff de Deacon acompanhado pela bateria. Mercury começa a cantar enquanto palmas fazem pequenas intervenções para cada palavra. O refrão, cantado por todos, é recheado de efeitos que já haviam sido apresentados na trilha de Flash Gordon (1981). A faixa vai ganhando corpo, e o refrão novamente é repetido, chegando a uma sessão apenas com estalos de dedos, onde o nome da canção é repetido na frase "Look at me I gotta case of body language". Nada mais que o puro Queen de tantas outras canções.

Official Programme da Hot Space Tour
O lado A encerra-se com "Action This Day", que foge da característica das demais faixas do Lado A, com um riff mais pesado, apesar do andamento "quadrado", alternando entre vocais de Taylor e Mercury e com mais um bom refrão, além de uma curta sessão onde os sintetizadores comandam um belo tema que leva ao curto solo dos sintetizadores em uma sequência de algumas faixas de Flash Gordon.

O lado B é, na minha opinião, ainda melhor. A faixa que o abre, "Put Out the Fire", já é uma sonzera na linha de "Rock It" ou "Need Your Love Tonight" (ambas do The Game), porém com muito mais pegada, onde o grudentíssimo refrão hardiano destaca o peso da guitarra de May, em uma ótima faixa que, como citado no início do texto, não tem nada a ver com o lado A.

Compacto de Calling All Girls
Depois, Mercury assume o piano na linda balada em homenagem a John Lennon, "Life is Real (song
for Lennon)". Para quem gosta de "Save Me", "Play The Game" ou ainda "It's A Hard Life", essa canção está ainda um nível acima, pois a linha vocal de Mercury está emotivamente mais forte do que as citadas, o belo solo de May, mesclando guitarra e violão, o arranjo feito entre a guitarra e o piano, com o leve andamento de Taylor e Deacon, além de uma das letras mais bonitas escritas por Mercury (quem nunca pensou que "Life is cruel life is a bitch", joguem a primeira pedra), fazem dessa uma das minhas preferidas do LP.

Mas ainda tem mais. O rock de "Calling All Girls", com um andamento sensacional, na linha das bandas de surf rock, onde os riffs de May chamam a atenção, apresentam um dos refrões mais grudentos de uma letra simples, que entoa o poder do amor. A levada do baixo de Deacon é um dos principais destaque da faixa, bem como os efeitos da guitarra de May durante toda a execução da mesma.

Compacto de Las Palabras de Amor
"Las Palabras de Amor (The Words of Love)" mantém o clima leve em uma linda balada que possui um sentimento forte, a começar pela bela introdução com teclados, baixo, violão e bateria, trazendo a voz de Mercury em outra linda letra, com o refrão mesclando frases em espanhol e em inglês, assim como o próprio Queen já havia feito em "Teo Torriatle (Let Us Cling Together)", do álbum A Day at the Races (1976), porém mesclando japonês com inglês.

O Queen retoma a sensualidade naquela que para mim é a melhor faixa do álbum: "Cool Cat". O que? Esse cara tá louco? A melhor é Under Pressure. Calma! "Cool Cat" é diferente de tudo o que está no álbum. Carregada de sensualidade, essa faixa apresenta uma das melhores performances vocais de Mercury, cantando em um agudo muito alto, quase que em falsete, e arrepiando até a unha do pé. Baixo e bateria puxam o riff da guitarra, e então Mercury começa a cantar em um ótimo soul, e a canção vai se embalando por si mesma, com a adição de teclados levemente adicionados. Os quatro cantam o nome da canção enquanto Mercury esbanja agudos soberbos. O que Mercury faz com a voz nessa faixa eu não ouvi em nenhuma outra do Queen (e olha que eu, modéstia a parte, conheço a obra do Queen de trás para a frente, da esquerda para a direita), a não ser em alguns segundos de "Under Pressure", sem nenhum auxílio como os utilizados para as gravações de InnuendoMiracle e posteriormente Made in Heaven. É o melhor registro de Mercury no auge da carreira. E para os "tarados de plantão", sigam o conselho: rodem essa canção e, carinhosamente, peça para sua esposa/namorada fazer um strip-tease. A trilha vai encaixar perfeitamente para o objetivo a ser alcançado posteriormente.


Compacto de Under Pressure
Hot Space encerra com "Under Pressure". Só a participação de David Bowie já faz dessa faixa um clássico, mas ela tem seus méritos por si mesma. O riff de Deacon, as intervenções de piano, acompanhamento de estalos de dedos, apresentam os acordes dedilhados da guitarra seguido pelas vocalizações de Mercury. Bowie e Mercury passam a cantar juntos, e então alternam frases, levando a uma parte mais pesada, onde Bowie canta as duas primeiras frases e Mercury as duas últimas. O andamento dos estalos retorna, e Mercury solta os agudos que citei em "Cool Cat", fazendo então mais vocalizações. Bowie canta frases enquanto Mercury grava na história mais vocalizações, e o tema pesado retorna. Então, somente com os estalos e alguns teclados, Bowie e Mercury cantam juntos, e Mercury solta mais agudos, arrepiantes, enquanto Bowie canta "Love, Love", e o encerramento, pesado, é novamente arrepiante, com Mercury cantando muito, e a entrada de Bowie, entoando uma das estrofes mais lindas do mundo do rock "Pois o amor é uma palavra tão fora de moda E o amor te desafia a se importar com as pessoas no limite da noite E o amor desafia você a mudar nosso modo de nos preocupar com nós mesmos Esta é nossa última dança Esta é nossa última dança Isto somos nós mesmos", emociona até um surdo. Tudo encerra-se apenas com os estalos e o riff de Deacon, e não precisava mais nada, o estrago já foi feito.


David Bowie e Freddie Mercury discutindo quem é mais macho: "Você! Não, você!"
"Under Pressure" é considerada por muitos a única faixa boa de Hot Space, e esse é o fato, "Under Pressure" é diferente das demais faixas por ter sido concebida antes das complicadas gravações do álbum. Uma pessoa que ouve essa faixa realmente só pode esperar algo igual em todo o álbum, mas a ideia de "Under Pressure" ser uma canção de protesto não é o tema de Hot Space, que é um álbum extremamente sensual e dançante no lado A e rock'n'roll no lado B. Se "Under Pressure" fosse colocada em A Kind of Magic por exemplo, certamente as pessoas ouviriam Hot Space com outra atenção. 

Mas, na minha modesta opinião (que com certeza não é a verdadeira e nem tão pouco a certa ou errada), 99% das pessoas que criticam Hot Space vão na onda do que já ouviram falar do álbum ou de apenas uma audição procurando por algo na linha do clássico de Bowie e Mercury. Com certeza, se essas pessoas gostam de The Game e The Works, ao ouvirem com atenção Hot Space verão que as mesmas linhas melódicas, os mesmos sintetizadores e a mesma forma de criar as canções estão presentes em Hot Space, só que adaptadas para o momento que a banda passava, que acabou refletindo em um dos melhores e mais injustiçados álbuns da história do Queen.

Realmente, será que sou só eu que gosta desse disco? Ouçam de novo depois desse texto e deixem seus comentários.
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