segunda-feira, 22 de junho de 2026

Minhas 10 Favoritas do Jefferson Airplane


Uma de minhas bandas favorita de todos os tempos, a Jefferson Airplane é daquelas que muita gente conhece duas músicas ("Somebody To Love" e "White Rabbit"), mas poucos são os que se aprofundaram em sua carreira. Com apenas oito álbuns de estúdio ao longo de uma carreira que durou, inicialmente, sete anos, e teve suas idas e vindas nos anos 80/90, e diversos álbuns ao vivo, há inúmeras canções espetaculares para serem descobertas, e mostrar por que a Jefferson Airplane foi a maior banda da geração flower-power. Selecionar apenas 10 canções foi tarefa complicadíssima para mim, mas vamos lá.

Jefferson Airplane em 1967. Da esquerda para a direita:
Marty Balin, John Casady, Grace Slick, Jorma Kaukonen
Paul Kantner (à frente), Spencer Dryden (ao fundo)

10. "Chauffeur Blues" [Takes Off, 1966]

Lançada no primeiro - e obscuro - álbum do grupo, ainda com Signe Anderson nos vocais, e o maluquete Skip Spencer na bateria, esta faixa é a única canção oficial da Airplane a trazer a voz de Anderson como destaque, e é um blues sutil, comandado pela percussão de Spence, mas que tem um charminho muito gostoso. Há várias canções similares nessa primeira fase dos californianos, mas "Chauffeur Blues" me dá um certo tesão de ouvir, seja pela voz afiadíssima de Anderson, seja pela simplicidade gostosa, com ares de diversas ervas e pastilhas alucinógenas que as guitarras de Kantner e Kaukonen criam, além do baixão vigoroso de Casady saculejando as caixas de som. 10° lugar para alguns pode até ser um exagero, mas cara, adoro ouvir Anderson soltando a voz aqui. 

9. "How Suite It Is" [After Bathing At Baxter's, 1967]

Um dos discos mais audaciosos da história da música, After Bathing At Baxter's foi lançado após o mega-sucesso de Surrealistic Pillow, e apresenta uma obra complexa e bastante contestada entre os fãs, sendo o verdadeiro Ame ou Odeie da banda. São cinco mini-suítes ao longo de mais de 43 minutos, algo que ninguém tinha feito até então, entre elas, essa obra sensacional chamada "How Suite It Is". A canção mais longa da carreira da banda - em estúdio - , com mais de 12 minutos de duração, é dividida em duas partes. A primeira, "Watch Her Ride", é uma legítima canção Airplaneana, com arranjos vocais bem encaixados sobre uma base instrumental sólida e direta, em pouco mais de três minutos. Já a instrumental "Spare Chaynge" é puro experimentalismo ao longo de mais de 9 minutos (e que no registro original, infelizmente nunca lançado, durou mais de 24 minutos), começando com um longo solo de baixo de Casady, no qual ele abusa de dedilhados cheios de técnica e complexidade. A canção vai ganhando dramaticidade a partir da entrada da percussão de Dryden e principalmente da guitarra, onde Kaukonen utiliza efeitos diversos. Para quem conhece o Jefferson Airplane de "Somebody To Love" e "White Rabbit", com certeza irá se assustar com as experimentações jazzísticas e alucinógenas que o grupo traz aqui, com o fuzz da guitarra de Kaukonen brilhando em toda a segunda metade da canção. Não há nada comparável em toda a discografia dos caras, e praticamente, é o início de uma divisão fundamental que iria levar a banda ao seu fim anos depois. 

8. "Milk Train Honey" [Long John Silver, 1972]

Violino, baixo, guitarra e bateria soltando uma força musical descomunal para Slick cantar a plenos pulmões. Isto é "Milk Train Honey". Impossível não começar a balançar a cabeça como um bom headbanger nesse quase Heavy Metal Flower Power, onde a presença do violino sim, um violino, transforma a faixa para algo ainda mais pesado, com solos e intervenções fatais. A música é pegada, para cima, pedindo para sair derrubando tudo o que tem pela frente, e é impossível tentar cantar o que Slick está cantando, já que ela debulha palavras com aquela agressividade gostosa que qualquer fã do Airplane adora amar. Musicaço!

7. "War Movie" [Bark, 1971]

Um disco que foi lançado entre inúmeras brigas, com a saída do líder Marty Balin e tendo Joey Covington na bateria, além de diversos convidados, Bark apresenta diversas gemas especiais, dentre elas "War Movie", uma canção arrebatadora, surgindo com o arrepiante alerta de bombas e o violão pesadíssimo de Kaukonen, para Slick, Kantner e o convidado Bill Laudner entoarem uma letra poderosíssima, que vai ganhando força com a entrada dos teclados e percussão. Avassaladora, "War Movie" vai derrubando todas as estruturas que aparecem, com sua forte letra criticando a guerra no Vietnã e o governo estadunidense que insistia em mandar jovens para lá, explodindo definitivamente com a bateria demolindo durante o trecho instrumenta arrepiante, onde teclados e guitarra fazem peripécias espetaculares entre as assustadoras vocalizações de Slick e os agonizantes vocais de Kantner. Que pancadaria vem então meu amigo, indicando os caminhos que a banda iria seguir no ano seguinte, em seu derradeiro - e maravilhoso - álbum. 

6. "White Rabbit" [Surrealistic Pillow, 1967]

A canção mais conhecida do Jefferson Airplane na verdade tem origem na antiga banda de Grace Slick, a The Great Society. Temos aqui uma interpretação simplesmente fodástica de Slick. Os que não se ajoelham perante a potência chocante de “White Rabbit” é por que são surdos ou mal da cabeça. O crescendo da canção com seu ritmo marcial, falando sobre as iniciações ao vício do LSD que levam ao mergulho no mundo de Alice no País das Maravilhas, é tão sobrenatural quanto a letra de Slick. Não tem como não ficar louco com esses dois minutos e trinta e dois segundos de um grandioso clássico.

Jefferson Airplane na TV

5. "Wooden Ships" [The Woodstock Experience, 2009]

Se a versão de estúdio já é linda, reproduzir ao vivo um dos arranjos vocais mais lindos da geração flower power, de forma perfeita, só pode trazer essa faixa aqui. O que Grace Slick, Paul Kantner e Marty Balin fizeram no início da manhã do dia 17 de agosto de 1969, lá na fazenda de Woodstock, foi tão histórico - mas não tão reconhecido - quanto a apresentação de Jimi Hendrix no mesmo festival, tendo como um dos ápices essa versão arrebatadora para a canção de David Crosby. Os vocais encaixados perfeitamente são completados pela guitarra endiabrada de Kaukonen, que geme junto com a dolorida voz de Slick. Um crescendo musical estupendo, as harmonias vocais arrepiando, o final apoteótico, com os solos dilacerantes de Kaukonen, que levam a faixa para mais de 21 minutos de duração. Olha, quinto lugar para essa versão talvez seja pouco. Mas é que tem muita música boa por vir. 

4. "We Can Be Together" [Volunteers, 1969]

Sob às luzes das bombas de Napalm que os EUA jogavam no Vietnã, o Jefferson Airplane resolveu enfrentar o governo Nixon e mandou um álbum atemporal. Volunteers, quinto disco de estúdio deles, é um álbum com obras incríveis, que contestam o por quê da guerra, e pregam definitivamente a paz entre os povos, com "We Can Be Together", faixa que abre este disco, sendo a perfeita alusão ao estilo Paz & Amor que marcou a geração flower power. Uma letra poderosa e um instrumental envolvente, complementado pelo piano saltitante do gigante Nicky Hopkins, além da guitarra alucinógena de Kaukonen. Impossível não cantar junto com Slick, Kantner e Balin, seja nos "la la las", nos trechos que citam o nome da canção e principalmente, na emblemática frase "Up against the wall, motherfucker, turn down the wall"! Pesada, contagiante, um tapa na cara da sociedade conservadora estadunidense (e ainda hoje, com um medíocre de presidente), e que não entra no pódio por detalhe. 

3. "Twilight Double Leader" [Long John Silver, 1972]

Essa canção é uma paulada descomunal, como só o Jefferson Airplane sabia fazer. O grupo estava dividido em três aqui, e essas três partes se autodevoram ao longo de quase 5 minutos. Se não vejamos: os vocais gritados do casal Grace Slick/Paul Kantner (o primeiro grupo) se sobrepõem após o riff pesadíssimo do baixo de Jack Casady e da guitarra de Jorma Kaukonen (o segundo grupo, que saíram da Airplane para criarem a Hot Tuna), enquanto a bateria de Joey Covington solta o braço como nunca antes na história do flower-power. O fio condutor dessa batalha sonora é o violino de John Papa Creach (o terceiro grupo, o dos isentos, junto de Covington e dois outros dois bateristas que concluíram o disco em meio a uma crise gigantesca que terminou com a banda), que apesar de sutil, faz as intervenções necessárias para que a faixa não exploda de tanta adrenalina. Que música fantástica, que pegada, e que solo fodido de Kaunonen. Terceiro lugar para ela!

2. "Eat Startch Mom" [Long John Silver, 1972]

Outra música de Long John Silver no Top 3? É meu caro, me desculpe, mas esse disco tem faixas descomunais, e "Eat Startch Mom" é a melhor delas. Última música do último disco da primeira fase do Airplane, ela é comandada pelo riff avassalador de Kaukonen, e uma Slick endiabrada cantando furiosamente. O refrão, de sair gritando pela sala, e o baixo/bigorna de Casady, provocam um terremoto sonoro, e não tem como não se pensar que o Heavy Metal puxou bastante inspiração para ser tão pesado por aqui também. Os solos de Kaukonen, demolindo o wah-wah, com as guitarras sobrepostas e a pancadaria comendo solta ao fundo, abrindo espaço para o violino brilhar, são pontos extras para esta paulada quase desconhecida dos estadunidenses. Só não é a melhor música da banda por que Kaukonen já tinha feito sua obra-prima três anos antes. 

1. "Hey Frederick" [Volunteers, 1969]

Segunda mais longa das canções de estúdio do Jefferson Airplane (atrás apenas da citada "Spare Chaynge"), "Hey Frederick" para mim está no mesmo panteão dos melhores solos de guitarra da história do rock, no qual encontram-se por exemplo "Comfortably Numb", "Stairway To Heaven", "Free Bird" e "Hotel California", porém raramente citada junto destas. Com seus quase 9 minutos, comandados inicialmente pelo piano de Nicky Hopkins e a delicada voz de Slick, a partir de seus 3 minutos ela transforma-se em um épico de solos de guitarras sobrepostas nos quais Kaukonen só não faz chover. Tudo é casado para engrandecer a guitarra de Kaukonen, e o que resta para o ouvinte, a partir do momento que Slick solta seu "how many machine men will you see before you stop your believing", é aumentar as caixas de som e apreciar um solo vibrante e ácido como nunca antes, e nunca depois, se ouviu na história do flower power. Me emociono e arrepio em cada nota que Kaukonen manda sair de sua guitarra, com apenas baixo, bateria e piano acompanhando em um ritmo tão alucinante quanto as guitarras que explodem nas caixas de som. Perfeitamente a mais perfeita canção do Jefferson Airplane, e quiçá, de todas as bandas desta geração 

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