quarta-feira, 8 de julho de 2026

45 Anos de Paradise Theater


As efemérides relacionadas ao Styx são bem interessantes no quesito número 6. Dois de seus principais discos completam 50 e 45 anos, respectivamente, em 2026 (e um deles ainda envolve 1996, um ano crucial na história dos estadunidenses de Chicago). Estou falando de Crystal Ball e Paradise Theatre. Hoje, trago a história do segundo, o qual já completou sua efeméride em janeiro, como veremos adiante, deixando para daqui alguns meses a importância dos 50 anos de Crystal Ball.

Styx em 1981. Da esquerda para direita:
Dennis De Young, James “JY” Young, Tommy Shaw, John Panozzo e Chuck Panozzo

O Styx havia lançado Cornerstone em 1979, quarto álbum (nono na carreira dos caras) de uma sequência impecável que consolidou aquela que é considerada a formação clássica, com Dennis DeYoung (vocais, teclados, piano), James "JY" Young (vocais, guitarras), Tommy Shaw (vocais, guitarras, vocoder), e os irmãos gêmeos Chuck Panozzo (baixo, pedal bass) e John Panozzo (bateria, percussão). O álbum trouxe o mega-hit "Babe", responsável por colocar o Styx na segunda posição em vendas nos charts da Billboard, onde permaneceu por 60 semanas.

Porém, o sucesso de "Babe" fez com que o ego de DeYoung, compositor e cantor da canção, inflasse, pressionando por uma direção mais comercial para o som do grupo, enquanto Shaw e Young queriam manter o som mais ligado ao hard/prog de álbuns como Crystal Ball e The Grand Illusion. Durante a turnê de promoção de Cornerstone, a guerra sobre a direção musical só aumentou, até que no início de 1980, o mundo foi surpreendido pela demissão de DeYoung, após uma discussão acirrada entre ele e Shaw sobre qual deveria ser o segundo single de Cornerstone, no caso a balada "First Time" (defendida por DeYoung) ou o rock "Why Me" (defendida por Shaw, que ameaçou sair se "First Time" fosse lançada). A gravadora do quinteto, a A&M, preferiu não perder Shaw, e com isso, DeYoung foi demitido (ou pediu demissão, uma história até hoje controversa). No entanto, em pouco tempo o restante do Styx voltou atrás, e chamou novamente DeYoung para fazer parte do quinteto. Com isso, e com DeYoung cada vez mais líder absoluto do Styx, o grupo vinha dividido para o seu quinto álbum com esta formação (e o décimo na discografia). 

O Teatro que deu nome e inspiração ao álbum de 1981

Ao mesmo tempo, os Estados Unidos estavam passando por uma grande depressão econômica, e ainda o período eleitoral que elegeu Ronald Reagan como seu 40° presidente. Isto tudo abalava DeYoung, que sempre foi um apaixonado por seu país. Eis que um belo dia, caminhando por uma galeria de artes, DeYoung se deparou com a serigrafia de Robert Addison, a qual retratava o Paradise, um teatro de Chicago, localizado na 231 N. Pulaski Road, 60624, inaugurado em 1928 com muita opulência e festividade, tido como um dos maiores teatros do mundo. Mas, durante os anos 30, com a chegada do cinema falado e posteriormente da TV, começou sua decadência, já que o teatro não havia sido projetado para ter uma acústica grandiosa como a das telas do cinema. O Teatro ainda sobreviveu por mais alguns anos, abrigando todos os tipos de mal encarados, mendigos, prostitutas e negócios ilícitos, até ser fechado em 1956 (olha a efeméride) por abandono, e totalmente demolido em 7 de julho de 1958 (há exatos 68 anos).

Ao ver a arte do teatro em ruínas, com a frase estampada “Closed Indefinitely”, DeYoung imaginou que aquilo seria a metáfora perfeita para os Estados Unidos de 1980, e sentiu-se livre para criar uma obra conceitual e ao mesmo crítica. Em suas palavras: “o álbum traz um conceito de esperança e renovação no espírito do povo americano para compreender os problemas que o mundo e este país enfrentam, e encontrar soluções para esses problemas por si mesmos. Não dependa de heróis para fazer o que você deve fazer por si mesmo. Se você odeia seu trabalho, mas tem um sonho, então corra atrás dele. Só não fique sentado reclamando.” Ele segue, com a frase que usou em todos os shows da turnê de Paradise Theater: “a origem deste disco foi em 1975, quando todo mundo, TV, rádios, jornais, um ano antes de acontecer (n. r. 4 de julho de 1976) estavam estampando com orgulho o bicentenário de nossa independência. Ali surgiu algo em minha mente, que coloquei em palavras em ‘Suite Madame Blue’, do Equinox“. A história tem um paralelo, portanto, entre o que ocorreu com o Teatro e o que ocorreu com o povo estadunidense, com cada música fazendo alusão direta ao Teatro, mas implicitamente, contando a história do período pós-Segunda Guerra no país até 1980 (um período exato de 30 anos).

A arte que inspirou a criação de Paradise Theater

Contextualizando, depois da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos viveram um auge econômico que durou toda a década de 50 e boa parte dos anos 60. Porém, escândalos como os do governo Nixon, o assassinato de John Kennedy, a guerra do Vietnã, entre outros, levaram o país a uma decadência terrível. Em 1980, a inflação estadunidense era de 13,5% ao ano, levando à chamada Crise do Petróleo, com muitos postos ficando sem o combustível. Além disso, somente em 1980, o desemprego saltou de 7,5% para 10,8%, isso em pouco mais de seis meses, com cidades gigantes como Chicago, Detroit, Cleveland e até mesmo Seattle a fechar fábricas e perder população. Por fim, a eleição de 1980 (citada no início do texto) foi entre o democrata Jimmy Carter, então presidente dos Estados Unidos, e o ator republicano Ronald Reagan, o que causava uma sensação de desesperança ainda maior entre o povo estadunidense (o que no Brasil alguns diriam ser “uma escolha difícil”), com Reagan tomando posse em 20 de janeiro de 1981.

Um dia antes, em 19 de janeiro de 1981, chegava às lojas Paradise Theater, a sensacional obra metafórica de Dennis DeYoung e Styx para criticar seu próprio país.  Para criar tal obra, DeYoung trouxe músicos extras, empregando um naipe de metais chamado de Hangalator Horn Section, composto por Steve Eisen (saxofone), Bill Simpson (saxofones), Mike Halpin (trombone), John Haynor (trombone),  Dan Barber (trompete), Mark Ohlsen (trompete, flugelhorn), além dos arranjos de Ed Tossing, que criaram canções únicas e memoráveis. 

Single de “Rockin’ the Paradise”

"A.D. 1928" abre os trabalhos, apenas com o piano fazendo a imortal melodia da canção, e DeYoung exaltando a inauguração do Paradise: "Tonight's the night we'll make history / as sure as dogs can fly / And I'll take any risk to tie back the hands of time / And stay with you here all night". É o início do teatro, e a canção exalta a coragem e determinação, e uma certa arrogância da grandiosidade que irá se esperar do teatro. A letra segue "So take your seats and don't be late, we need your spirits high / To turn on these theatre lights and brighten the darkest skies / here in the Paradise". Com este convite para a inauguração, simbolizando a grandiosidade e o otimismo de uma estreia, a chegada de algo novo, começa então "Rockin' the Paradise". 

Animada, com um riff pegado e um ritmo puro rock 'n' roll, a canção mostra o auge do teatro, com uma energia absurda, que mistura peso, rock anos 50 e o ritmo quadrado dos anos 80. A primeira parte faz referência às críticas aos jovens que são considerados preguiçosos, mas que estão esperançosos de uma vida melhor, enquanto a segunda estrofe solta a raiva destes jovens que "não precisam de lucros rápidos ... somente algum filho da puta que trabalhe duro". 

A canção segue no mesmo ritmo, enaltecendo ainda mais estes jovens que "não precisam lutar, e sim desafiar os controladores" em busca de orgulho e de uma nova vida, agitando no Paradise. Para DeYoung: "Um dos maiores crimes nos Estados Unidos é as pessoas não se sentirem úteis. As pessoas precisam se sentir como uma parte útil da sociedade, porque elas são. Precisamos fazer com que as pessoas acreditem em si mesmas — que elas são importantes."

No contexto paralelo com os Estados Unidos, é a força do povo estadunidense se reerguendo após a Segunda Guerra. Chamo atenção para o uso do piano aqui, relembrando musicalmente a sonoridade dos anos 30, algo antigo. O solo da guitarra, com o piano ao fundo, é para dançar animadamente, e a performance de John é muito boa, Disparada a faixa mais alegre do disco, reflete portanto o surgimento de algo novo, o Paradise, e na metáfora, a chegada de uma nova geração de pessoas. 

Compacto de “Too Much Time On My Hands”

A sequência vem com os sintetizadores trazendo uma modernidade para o Paradise, o início do cinema falado, o qual está em "Too Much Time on My Hands", cantada e composta por Shaw. O Teatro está modificado, tentando se adaptar aos novos tempos, mas por alguma razão, não há mais o mesmo sucesso do seu início. A letra destaca alguém que acaba desempregado, e que se sente um "criminoso que não foi preso". 

É o início da decadência do Teatro, e consequentemente, um retrato do aumento do desemprego no país no início dos anos 70. Uma das canções de maior sucesso do Styx (ao lado de “Lady”), com suas palmas no refrão que qualquer fã da banda adora fazer, e claro, mais um belo solo das guitarras, acompanhadas pelos sintetizadores. O andamento quadradão, a simplicidade dos acordes de guitarra, o refrão extremamente grudento (quem nunca se pegou cantando o refrão ou fazendo os " t-t-t-t-ts" do refrão, dando aquela dançadinha marota a lá Bowie??) e as citadas palmas entre as palavras que formam o nome da canção, animaram muitas festas adolescentes durante os anos 80. 

Compacto japonês de
“Nothing Ever Goes As Planned”

"Nothing Ever Goes as Planned" muda novamente a sonoridade, ainda mais moderna, começando com a bela introdução e o solo da guitarra de Shaw, apresentando citações ao reggae, e cantada por DeYoung, e a primeira a trazer o naipe de metais. Destaque para o solo carregado de wah-wah, além de mais um refrão grudento ("nothing ever goes as planned/It's a hell of a notion/Even Pharaohs turn to sand/Like a drop in the ocean"). 

Liricamente, é o retrato da visão de fracasso que chega ao Teatro (e dos Estados Unidos). Tudo o que havia sido comemorado começa a naufragar, dar errado, igual aos grandes faraós que não resistiram ao tempo. Isto gera uma forte frustração ao Paradise, e ao encerramento do Lado A com a nostálgica "The Best of Times". 


Compacto de “The Best of Times” (leia o texto)

Outro grande sucesso de Paradise Theater,  ela retoma a melodia de “A.D. 1928", mas com a melancolia tomando conta da letra, no lugar da alegria da faixa de abertura: "I know you feel these are the worst of times / I do believe it's true / When people lock their doors and hide inside / Rumor has it it's the end of Paradise". Os melhores tempos do Paradise estão apenas na memória, e em um mundo de ponta cabeça, o narrador lembra-se desse passado ainda esperançoso, apesar de ver as ruínas do Teatro.

Em sua vida vida pessoal, com tudo que está destruindo-o profissionalmente, tem-se de bom as lembranças e a companhia da pessoa amada. O Teatro fecha suas portas, e a canção conclui que "The best of times are when I'm alone with you", como canta DeYoung em outro refrão enormemente conhecido, tendo aquela harmonia vocal que somente o Styx conseguia fazer (OK, o Queen também fazia algo similar no início de carreira) em uma das baladas mais famosas da história do grupo. 

Nas palavras de DeYoung sobre a canção, "Ela veio pra mim porque eu estava tentando entender o que é que me permite enfrentar as mudanças no mundo e no nosso país. E eu decidi: 'Bom, o amor é uma coisa boa'. Se você tem alguém em quem confia pra te apoiar e você apoia essa pessoa, isso é fundamentalmente algo bom". O personagem da música encontra consolo se fechando, trancando a porta, abaixando as persianas e ficando no abraço de alguém em quem confia e ama". O Paradise está ruindo, os Estados Unidos vivem do saudosismo, e então, entramos no complexo e pesado lado B de Paradise Theater

Capa gatefold interna de Paradise Theater

Abrindo os trabalhos, temos "Lonely People", com o barulho da chuva, trovões, gritos e um saxofone que sola endiabrado. O tempo passou, e agora,  o Teatro está vazio, sozinho, apenas com os mendigos dormindo em seu interior. O arranjo de metais e o peso das guitarras apresentam o refrão marcante, trazendo a voz de DeYoung, que narra as últimas apresentações de cinema no Teatro vazio. O narrador assiste um filme de James Cagney (galã do cinema estadunidense nos anos 30 e 40), e percebe que são os últimos dias do local que lhe deu tanta alegria. A analogia vai com os Estados Unidos isolado durante a guerra fria. A melodia e o arranjo da canção retratam fielmente os pesados momentos de vazio do Teatro através das guitarras, com destaque para os solos de Tommy e JY. Chama a atenção o estranho solo dos sintetizadores, e o ótimo solo de JY, além do peso da canção, muito diferente do que ouvimos no lado A. 

Com a voz delicada de Shaw, "She Cares" retrata o momento onde o Teatro se vê às moscas, mas tem esperanças de que ainda há alguém que se importa com ele, fazendo referência aos soldados estadunidenses que foram para a guerra do Vietnã, com as namoradas/esposas que independente do que acontecer na guerra, estarão esperando por eles. A canção tem um certo ar de ballad-rock dos anos 50, bastante melancólica, e os "wow-wow-wow" tipicamente cinquentistas, destacando o solo de Eisen no saxofone, carregando para o dramático fim do Paradise. 

A linda versão em vinil, gravada a laser

Isso começa em "Snowblind", que entrega a autodestruição do Teatro, que passa a ser usado por traficantes. O dedilhado nervoso do piano traz a assombrosa voz de JY, com o Teatro "olhando-se no espelho", no seu momento de declínio, chocado com o que está vendo, e leva aos vocais de Shaw, no seu momento totalmente "cego pela neve" (gíria para "chapado de cocaína") que toma conta do Teatro. São os altos (Shaw) e baixos (JY) do vício em cocaína que tomou conta de uma geração estadunidense na década de 70, estampados através dos vocais. É uma crítica forte ao consumo das drogas, direta, sem firulas. Que baita solo de JY aqui, com muitos bends e notas velozes, e que música sensacional. O andamento levemente blueseiro dá um charme especial para esta canção, que gerou polêmica após grupos religiosos e a comunidade do Parents Music Resource Center (PMRC) alegarem supostas mensagens satânicas escondidas na mesma, quando ouvida ao contrário. 

Segundo eles, a afirmação era de que a frase "I try so hard to make it so" ("eu tento tanto fazer dar certo") surgia como "Satan moves through our voices" ("Satã se movimenta através de nossas vozes"). DeYoung debochou da história, alegando que: "Quem toca nossos discos ao contrário é o Anticristo. A gente já tem dificuldade suficiente pra fazer esses discos soarem certo tocando do jeito certo. As pessoas não têm nada melhor pra fazer? É o Styx. Vocês conseguem imaginar atacar os caras que fizeram 'Babe'? Ah, pelo amor de Deus". JY foi o mais veemente em rebater esta afirmação, chegando a dizer que "Se fôssemos colocar alguma mensagem em nossas músicas, teríamos colocado de forma que estivesse na música normalmente. Não de um jeito que você precisasse comprar um gravador de fita de US$ 400 para ouvir". Posteriormente, o Styx realmente incluiu mensagens de trás para frente no álbum seguinte, Kilroy Was Here, outro disco conceitual falando sobre a censura ao rock (as mensagens foram colocadas propositalmente, para zoar mesmo os grupos religiosos e o PMRC).

Dennis DeYoung, o mestre de cerimônias e criador da obra aqui apresentada

Finalmente, o Teatro é tomado por traficantes, mendigos, divorciados e falidos que pedem trocados na sua porta, já fechado. É "Half-Penny, Two-Penny", uma das melhores canções da carreira do Styx, e que também faz uma auto-referência, com um ritmo que lembra muito o sucesso "Miss America", lançado pela banda em The Grand Illusion (1978). O ritmo disco, com as guitarras pesadas de JY e Shaw, nos remete facilmente ao fim dos anos 70. O sonho americano virou esmola, mas é o jeito americano de ser "Justice for money what can you say / Yes, Mrs. Cleaver your son's home to stay / We all know it's the American Way", com Mrs. Cleaver sendo a personagem June Cleaver, da série "Leave It to Beaver" (no Brasil, Aquele Beijo), que foi ao ar nos anos 50, e tinha na senhora Cleaver o exemplo de Dona de Casa perfeita, com um padrão de perfeição pomposo, de vestido, pérolas, maquiada e salto alto, mesmo só pra lavar louça ou cuidar do jardim. Uma crítica ao exibicionismo das elites estadunidenses que não importam-se com os "inferiores". 

O refrão traz esperanças com um possível fim do Paradise, a possibilidade de algo novo surgir daquela imundice. Uma paulada, com o ótimo riff das guitarras e um excelente andamento de John e Chuck. A marcação do baixo é grudenta e dançante, além do riff, que cantarolamos sem querer junto à voz de James. A mudança no emotivo refrão, os barulhos de britadeiras e máquinas que levam à demolição do Paradise Theater, inclusive por pessoas que frequentaram o lugar quando eram crianças e jovens, entre acordes de piano, o badalar de um sino torturante, e o sempre marcante baixo de Chuck, são os pontos principais dessa excelente e incrível faixa  (impossível ouvir e não lembrar de "Run Like Hell", do Pink Floyd). Ao mesmo tempo, as conversas entre a demolição são pauladas críticas ao governo estadunidense ("What the hell you doin’? / We’re tearing this old building down here / Oh you’re kiddin’ me, remember when we were kids / And we used to come here every Saturday afternoon to see a cartoon? / Yeah, I remember / Well what’s she lost to? / Who knows politicians, taxes it’s a disgrace / I’m not surprised, they make me sick"). Pancada na cabeça dos políticos, e a faixa encerra-se com os excelentes solos de JY, Tommy e, após uma mudança sonora, o lindo solo de sax de Eisen. 

DeYoung volta com o piano que começou o álbum em "A.D. 1958", mas agora com um tom melancólico. A mesma melodia de “A.D. 1928” e da introdução de “The Best of Times” reaparece, mas com diferença na letra, que agora cita a existência do Teatro apenas na memória daqueles que o acompanharam. "And so, my friends, we'll say goodnight / for time has claimed his prize / but tonight can always last / as long as we keep alive / the memories of Paradise". O Teatro é demolido, fechando o ciclo e abrindo uma nova era de esperanças, construções e pessoas, que acabarão passando por todas as etapas de ascensão e queda novamente, e novamente, e novamente ...  Por fim, "State Street Sadie" é uma "faixa escondida" homenageando uma famosa rua de Chicago, a State Street, com "Sadie" representando a decadência. É apenas uma vinheta ao piano, em ritmo blues, mas com um certo ar de alegria nostálgica, fechando sublimemente este espetáculo de disco.

Notícia sobre a demolição do Paradise Theater, ocorrida há 68 anos

Um ótimo álbum, que identificou com precisão as rachaduras crescentes nas fundações da sociedade atual (mesmo sendo em 1981), e previu tudo o que encontramos hoje sobre a polarização política, o ufanismo barato dos 15 minutos de fama na internet, e o fracasso subsequente que demole por completo famílias e lares não só nos Estados Unidos, mas pelo mundo. 

Paradise Theater atingiu a primeira posição nos Estados Unidos, onde permaneceu por três semanas consecutivas, entre abril e maio de 1981. O disco vendeu muito, com mais de 3 milhões de cópias nos Estados Unidos (platina tripla) até os dias de hoje, tornando-se o maior sucesso comercial do Styx, e foi também o quarto álbum consecutivo da banda a receber a certificação de platina tripla pela RIAA. Para se ter uma ideia, além de primeiro nos EUA, o disco vendeu demais ao redor do mundo, sendo que, por exemplo, ficou em segundo na Argentina (80 mil cópias), terceiro no Canadá (platina, com 100 mil cópias), quinto na Noruega, sexto na Suécia, sétimo na Suíça (ouro, com 25 mil cópias), oitavo no Reino Unido (prata, com 60 mil cópias, maior colocação da banda por lá) e ainda nos 30 mais na Austrália, Alemanha, Holanda e Nova Zelândia.

O compacto gravado a laser, primeiro na história

Quatro singles do álbum entraram nas paradas musicais, com duas músicas alcançando o Top 10. O primeiro single, "The Best of Times " chegou ao 3º lugar na Billboard, por onde permaneceu por quatro semanas, décimo no Canadá e 42° no Reino Unido. Vale lembrar que este foi o primeiro single do mundo a ser lançado com vinil gravado a laser, como estampa o sticker do mesmo. Na sequência, veio "Too Much Time on My Hands ", que foi ao 9º lugar na Billboard - único hit de Shaw no Top 10 com o Styx - e quarto no Canadá. "Nothing Ever Goes as Planned " alcançou somente o 54º lugar, e "Rockin' the Paradise " foi 8º lugar na parada Top Rock Tracks, sendo que seu vídeo clipe foi o décimo a rolar na história da MTV (sempre lembrando que o primeiro clipe foi "Video Killed the Radio Star, do Buggles), na madrugada do dia 1 de agosto de 1981.

Uma versão limitada do vinil apresenta uma imagem da decoração do Teatro gravada em laser dentro dos sulcos do LP (algumas cópias, o design era em cera), tornando-se mais um atrativo junto da qualidade sonora de Paradise Theater. Um fato curioso da capa, pintada pelo artista Chris Hopkins, é que nela, o nome do álbum está Paradise Theatre, enquanto na contracapa e no selo, o título do disco está escrito Paradise Theater,  e na lombada, somente "Paradise". A ideia justamente era causar confusão e uma espécie de ciclo, assim como o conceito geral do álbum. Em seu interior, uma manchete de época retrata o fim da demolição do teatro, em 7 de julho de 1958, e comenta que era um dos maiores teatros já construídos, mas que com a chegada da televisão, acabou sendo abandonado.

James “JY” Young e Tommy Shaw na turnê de Paradise Theater

Uma ambiciosa turnê mundial teve início em 1981, sendo a turnê de maior bilheteria do quinteto (e a época, uma das maiores da história). Inspirada na Broadway e no cinema, o show trazia uma abertura dramática, com um personagem varrendo o teatro sozinho, ao lado de um piano, de onde surgia DeYoung para interpretar "A. D. 1928", emendada com "Rockin' The Paradise", sendo que oito das onze canções de Paradise Theater compunham o set list do show (apenas "Nothing Has Gone Planned", "Lonely People" e "She Cares" ficaram de fora). Encerrando o  show, a mesma sequência final do álbum, com "Half Penny, Two Penny" (tendo todos os barulhos de demolição do teatro) e "A. D. 1958".

O palco remontava a fachada do Paradise, através de luzes brilhantes de neon, como mostra a capa do single com estas duas canções. As luzes alternavam seu brilho, frequências de oscilação, entre outros, lembrando o famoso arco-íris do Rainbow. Cada músico vinha trajado como um "personagem" ligado ao cinema, com JY e Shaw sendo os limpadores, Chuck o garçom, John o garoto que ia assistir aos filmes e DeYoung o Mestre de Cerimônias. Ao final, o telão exibia os créditos do show, trazendo manchetes de jornal apresentando cada um dos integrantes, e o nome de cada colaborador do show, como um filme tradicional. 

Ingresso da Paradise Theater Tour

O Styx seguiu seus caminhos conturbados com mais um álbum conceitual, o já citado (e igualmente excelente) Kilroy Was Here, e uma longa turnê que culminou no primeiro ao vivo da banda, Caught in the Act Live (1984). Porém, o clima entre Shaw e DeYoung já não existia, e após o fim da turnê, a banda se dissolveu. O futuro reservou um retorno inesperado de DeYoung e Shaw tocando juntos nos anos 90, com o Styx apresentando Paradise Theater novamente nos palcos, registrado no excelente CD e DVD Return to Paradise, lançado em 1996 (olha aí, 30 anos atrás). 

Falando então nas efemérides, como citei no início, daqui alguns meses contarei a história de um dos melhores trabalhos da banda, e igualmente marcante para sua história: Crystal Ball (1976). Até lá, para quem não é fã, aproveitem para conhecer uma discografia praticamente impecável, e para quem já é fã, deliciem-se ouvindo, dançando, batendo palmas ou simplesmente apreciando um daqueles discos essenciais na história da música pop mundial. 

Contra-capa de Paradise Theater

Track list

1. AD 1928

2. Rockin' the Paradies

3. Too Much Time On My Hands

4. Nothing Has Gone Planned

5. The Best Of Times

6. Lonely People

7. She Cares

8. Snowblind

9. Half Penny, Two Penny

10. AD 1958

11. State Street Sadie 

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