quarta-feira, 22 de abril de 2015

The Clash - Clash on Broadway [1991]



Quem hoje em dia se deleita com boxes recheados de mimos, dos quais a maioria sobrevive e faz boas vendas graças a camisetas, fotos inéditas, adesivos, chaveiros, patchs ou outros materiais não audíveis, pouco sabe que quando os boxes surgiram no final da década de 80, a coisa era bem diferente.

Os lançamentos da época concentravam-se na maioria das vezes eram concebidos para portarem-se como coletâneas dos artistas homenageados, trazendo aqui e a li uma ou outra canção inédita, que fazia o fã gastar alguns Obamas (Clintons ou Bushes na época) apenas para ter uma "rara" versão ao vivo de determinada faixa (lembrando que youtube ou torrent era algo impensável na época).

Uma das poucas caixas que se diferenciaram naquele início da década de 90 foi Clash on Broadway. Lançada em 1991, essa caixinha saiu no formato tradicional das caixas, aquelas retangulares com uma tampa abrindo por cima, e faz um amplo apanhado das principais faixas de uma das principais bandas do punk rock britânico entre 1977 e 1982, anos dourados do quarteto.

No total, são 64 canções divididas em três CDs, sendo cinco delas totalmente inéditas (até 1991), as quais duas são versões demo, no caso "One Emotion", retirada das sessões de gravação de Give 'Em Enough Rope, de 1978, e a balada cover de "Every Little Bit Hurts", original de Ed Cobb e retirada das sessões de gravação de Sandinista! (1980), e três canções ao vivo, as quais são "English Civil War", registrada em uma apresentação do grupo no Lyceum Ballroom de Londres, em janeiro de 1979, "Lightning Strikes (Not Once But Twice)", retirada do show no Bonds International Casino, Nova Iorque, em 1981, e "Midnight to Steven's", do show no People's Hall em Londres, 1981.

Joe Strummer, Paul Simonon, Topper Headon e Mick Jones, a formação clássica

Outro ponto positivo vai para a inclusão de doze dos vinte e cinco singles lançados pelo grupo no Reino Unido durante o período coberto pela caixa, sendo que destes vinte e cinco, cinco foram lançados com duas versões diferentes.

Um dos singles que ficaram de fora não ficou tão de fora assim, já que é a versão inédita de "English Civil War" citada acima, e seu lado B, "Pressure Drop", está incluída no box (o single de "English Civil War" / "Pressure Drop" foi lançado em 23/2/1979). Os demais excluídos são: "Capital Radio One" / "Interview" (4/77), "Remote Control" / "London's Burning" (31/5/1977), "Hitsville UK" / "Radio One" (16/1/1981) e "Know Your Rights" / "First Night Back in London" 23/4/1982).

Os doze singles são clássicos do mais alto calibre na discografia do The Clash, obrigatórios para todos aqueles que vão se aventurar nas pegadas linhas de guitarra de Jones, ou na levada de baixo de Simonon, ou sacudir a cabeleira com os vocais de Strummers, que fazem uma boa apresentação para quem não conhece o grupo. São eles:

  • "White Riot" / "1977" (18/3/1977);
  • "Complete Control" / "City of the Dead" (23/9/1977);
  • "Clash City Rockers"/ "Jail Guitar Doors" (17/2/1978);
  • "(White Man) In Hammersmith Palais" / "The Prisoner" (16/6/1978);
  • "Tommy Gun" / "1-2 Crush on You" (24/11/1978);
  • "London Calling" / "Armagideon Time" (7/12/1979);
  • "Rudie Can't Fail" / "Bankrobber" (6/1980);
  • "Train in Vain" / "Bankrobber" (6/1980);
  • "The Call Up" / "Stop the World" (28/11/1980);
  • "Should I Stay or Should I Go" / "Straight to Hell" (17/9/1982)
e os lados A "The Magnificent Seven" (10/4/1981) e "Rock the Casbah" (11/6/1982), além de "Groovy Times" / "Gates of the West" (26/7/1979*), single lançado apenas nos Estados Unidos.

Algumas letras

Aliás, no mercado americano, o The Clash lançou nove singles, sendo três deles com "Should I Stay Or Should I Go" no lado A, em formatos diferentes do britânico e somente contemplado na caixa o lado B "Cool Confusion" (24/6/1982), bem como o single com * acima.

Só aqui temos quase metade das canções da caixa em clássicos incontestáveis, que já valem a aquisição das bolachinhas. Mas e as demais? As demais são pérolas também essenciais, que mesclam-se com perfeição aos singles em uma distribuição cronológica muito bem feita.

No CD 1, além dos singles lançados de "White Riot" até "The Prisoner" na lista acima, temos "Capitol Radio", retirada do raro flexidisc de abril de 1977, e as versões ao vivo de "I Fought the Law" e "English Civil War" também citadas anteriormente. Ao longo das vinte e cinco faixas do CD, uma aula da simplicidade contagiante do Punk Rock. Canções em sua maioria entre dois e três minutos, linhas envolventes, refrões grudentos e uma banda que, apesar de ainda estar dando seus primeiros passos, mostrava-se com capacidade para alcançar grandes voos em sua carreira.

Assim, apesar de não haver nada de totalmente inédito, deliciamo-nos com raridades como as versões retiradas da primeira DEMO do The Clash, no caso "Janie Jones" e "Carrer Oportunities" (essa parecendo sair de algum álbum dos Ramones), e uma grande gama de canções de The Clash, primeiro álbum do grupo, lançado em 08 de abril de 1977 no Reino Unido, e somente em 26 de julho de 1979 nos Estados Unidos, com outro track list. Da versão britânica foram extraídas o pseudo-pop-reggae "Police and Thieves", as calmas, mas agressivas, "Garageland" e "Hate and War", e as quebra-salas "White Riot", "I'm So Bored With the U. S. A.", "What's My Name", "Deny", "London's Burning", "Protex Blue", "48 Hours" e "Cheat".

"Deny", "Protex Blue", "Cheat" e "48 Hours" não apareceram na versão americana de The Clash, mas as canções que as substituíram também ganharam lugar no track list do CD 1 de Clash On Broadway, no caso "Complete Control", "Clash City Rockers", "Jail Guitar Doors", bem como as pérolas lançadas apenas como lado B, "1977", "City of the Dead", "The Prisoner","Pressure Drop" e "1-2 Crush on You". Complementa o primeiro CD uma única canção de "Give 'Em Enough Rope, "(White Man) In Hammersmith Palais", porém na versão original do single de 1978, e uma versão raríssima de "I Fought the Law", retirada da trilha sonora do documentário Rude Boy (1980), narrando a história de Ray Gange, um fã de The Clash que larga seu emprego em um sex shop para tornar-se roadie da banda.

Capa do livreto de histórias

O CD 2 é aquele que mais vai animar os ouvidos do pessoal. Afinal, nele estão faixas dos principais discos do The Clash, Give 'Em Enough Rope (lançado em 10 de novembro de 1978) e London Calling (lançado em 14 de dezembro de 1979), além do EP Cost of Living (11/5/1979). "Safe European Home" e o single de "Tommy Gun" são os responsáveis por abrirem o CD, que compreende os singles listados acima até "Bankrobber". Um período impecável de composições marcantes que colocaram o The Clash como um dos maiores nomes do Punk Rock britânico, ao mesmo tempo que consagraram as letras-manifesto de Strummer e Jones.

O principal são as canções retiradas de London Calling, álbum de melhor reputação dos britânicos, lançado no formato duplo e vendendo mais de cinco milhões de discos em todo o mundo. Então, aproveite para ouvir onze das dezenove faixas desse incrível e fértil álbum, as quais são "London Calling", "Brand New Candillac", "Rudie Can't Fail", "Spanish Bombs", "The Card Cheat" "Lost in the Supermarket", "Train in Vain", "The Right Profile", "Clampdown", "Death or Glory" e "The Guns of Brixton", a primeira composição do grupo a realmente mostrar a influência do reggae, algo que tornou-se uma constante depois de London Calling, e também uma das raras criações de Paul Simonon, e única a contar com ele no vocal principal.

Nessas canções, podemos conferir o experimentalismo que a banda sofria naquele momento, incluindo metais, piano, sintetizadores e letras bastante críticas, que fazem ainda hoje de London Calling uma referência musical no rock 'n' roll. Ainda ligada à este álbum, "Armagideon Time", o lado B do single da faixa-título, e primeira incursão dos britânicos pelos terrenos jamaicanos do Reggae, assim como a citada "Bankrobber". Afinal, até a própria "London Calling", mesmo com todo o peso envolvido na canção, possui boas pitadas de reggae principalmente na guitarra de Jones.

Páginas do livreto de histórias

O EP Cost of Living foi lançado originalmente com cinco canções, e dele, entraram no CD 2 "Groovy Times" e "Gates fo the West", ficando infelizmente de fora a versão original de "I Fought the Law", "Capitol Radio" (que entrou no CD 1), e a rara "The Cost of Living Advert", que saiu apenas nas versões inglesas de Cost of Living. Da parte de inéditas, está apenas "One Emotion", gravada originalmente para Give 'Em Enough Rope, álbum que para o CD 2 também forneceu as citadas "Safe European Home" e "Tommy Gun", além de "Julie's Been Working for the Drug Squad" e "Stay Free".

No CD três, estão os singles a partir de "The Call Up" na lista de cima, com exceção de "Bankrobber". Musicalmente, temos a grande mudança de sonoridade do grupo. Abrangendo os álbuns Sandinista! (1980) e Combat Rock (1982), temos a saída do punk rock marcante feito pelo quarteto em "Police on My Back" e "Somebody Got Murdered", para inspirações no reggae de "The Magnificent Seven", "Cool Confusion" e "Broadway", além do pop dançante e eletrônico de "This is Radio Clash", o clima caribenho de "Washington Bullets", a New Age "The Call Up, o rockabilly de "The Leader" e as viagens musicais de "Stop the World", bem como versões editadas de "Red Angel Dragnet" e "Ghetto Defendant", reggaes confusos e que servem apenas para diminuir um pouco a qualidade do CD.

Também no CD, estão três das cinco faixas inéditas: "Lightning Strikes (Not Once But Twice)" em uma matadora versão ao vivo gravada no Bonds International Casino de Nova Iorque em 09/06/1981, "Every Little Bit Hurts", uma balada sessentista inimaginável na coleção de canções e variedades do The Clash, retirada das sessões de gravação de Sandinista!, e "Midnight to Stevens", outra balada muito diferente do pensado para uma canção do grupo, gravada em 17/09/1981 no Ear Studios, em Londres, além de uma faixa escondida, "The Street Parade", gravada originalmente em Sandinista!, uma boa canção para uma festa oitentista, e os clássicos "Rock the Casbah", "Should I Stay Or Should I Go" - que virou "Chopis Céntis" pelos Mamonas Assassinas em 1995 - e "Straight to Hell", todas essenciais para quem que conhecer a banda.

O livreto com as letras
O grande diferencial do box, mesmo com essa quantidade de sons, são os livretos que o acompanha. Um traz as letras de quase todas as canções, exceto "Police & Thieves", "Presssure Drop", "I Fought the Law", "One Emotion", "Armagideon Time", "Brand New Cadillac", "Police on My Back", "Every Little Bit Hurts"

O outro é um belíssimo booklet de 66 páginas, na qual são apresentados depoimentos de Lenny Kaye, guitarrista do grupo de Patti Smith, e o famoso jornalista americano Lester Bangs, bem como a história do The Clash desde sua fundação em 1976 até o fim do grupo com Combat Rock, narrada através de entrevistas com Mick, Paul, Terry, Joe, Topper e outros nomes ligados ao The Clash, todas compiladas e editadas por Kosmo Vinyl, empresário do grupo

Livreto com a história do The Clash entre 1976 e 1982

Dentre os principais momentos da história, é interessante quando são citados fatos no mínimo curiosos para os fãs do The Clash relacionados com às origens do grupo, como:


  • Paul Simonon não sabia tocar baixo quando entrou no grupo (e hoje ser considerado um dos maiores baixistas de todos os tempos);
  • A amizade do grupo com os membros do Sex Pistols;
  • A reverência que todos tinham perante a pessoa de Joe Strummer, vocalista do 101ers até então, e último membro a entrar no grupo, após um ultimato de 48 horas dado pelo empresário do The Clash, Bernard Rhodes, com a promessa de que a banda que Joe entraria se tornaria a maior rival do Sex Pistols;
  • O breve período que o The Clash foi um quinteto, contando com Keith Levene nas guitarras;
  • A saída de Terry Chimes e a árdua busca por um novo baterista, gerando mais de duzentas audições;
  • Diversos detalhes das gravações dos três primeiros álbuns, quando ainda eram um grupo jovem tocando nos estúdios Rehearsal Rehearsals,
  • A difícil aceitação de Topper por ter que tocar algo tão simples, sendo ele um grande fã de jazz.

Outros momentos importantes são o primeiro contato do grupo com o produtor jamaicano Lee "Scratch" Perry, um dos responsáveis pela guinada reggae que a banda teve a partir de 1980, a prisão de Paul Simonon e Joe Strummer, momentos importantes da gravação de London Calling, as mudanças de sonoridade do grupo no triplo Sandinista! e os últimos momentos com Combat Rock. Além das histórias, o booklet apresenta diversas imagens (todas em preto e branco) que eram inéditas até então, e passaram a ser reproduzidas por diversas revistas (e posteriormente sites) no mundo inteiro, bem como uma discografia detalhada dos singles e LPs lançados no Reino Unido e nos Estados Unidos.

Clash On Broadway pode parecer hoje uma caixa ultrapassada, até por que a maior parte do pouco material inédito que ela apresenta já foi relançado em outras coletâneas ou edições especiais, mas seu pioneirismo em revelar a história de uma das maiores bandas punk da história, bem como o fato da nostálgica versão dos boxes nos anos 90, que realmente eram uma caixa, fazem sua aquisição valer e muito a pena.

E se você quer saber por que do nome Clash on Broadway, sinto muito, deixo a dica apenas que o booklet irá sanar vossa dúvida.

Todo o material de Clash on Broadway

Track list

CD 1

1. Janie Jones
2. Career Opportunities
3. White Riot
4. 1977"
5. I'm So Bored with the USA
6. Hate and War
7. What's My Name
8. Deny
9. London's Burning
10. Protex Blue
11. Police and Thieves
12. 48 Hours
13. Cheat
14. Garageland
15. Capital Radio One
16. Complete Control
17. Clash City Rockers
18. City of the Dead
19. Jail Guitar Doors
20. The Prisoner
21. (White Man) In Hammersmith Palais
22. Pressure Drop
23. 1-2 Crush on You
24. English Civil War
25. I Fought the Law

CD 2

1. Safe European Home
2. Tommy Gun
3. Julie's Been Working for the Drug Squad
4. Stay Free
5. One Emotion
6. Groovy Times
7. Gates of the West
8. Armagideon Time
9. London Calling
10. Brand New Cadillac
11. Rudie Can't Fail
12. The Guns of Brixton
13. Spanish Bombs
14. Lost in the Supermarket
15. The Right Profile
16. The Card Cheat
17. Death or Glory
18. Clampdown
19. Train in Vain
20. Bankrobber

CD 3

1. Police on My Back
2. The Magnificent Seven
3. The Leader
4. The Call Up
5. Somebody Got Murdered
6. Washington Bullets
7. Broadway
8. Lightning Strikes (Not Once But Twice)
9. Every Little Bit Hurts
10. Stop the World
11. Midnight to Stevens
12. This Is Radio Clash
13. Cool Confusion
14. Red Angel Dragnet
15. Ghetto Defendant
16. Rock the Casbah
17. Should I Stay or Should I Go
18. Straight to Hell
19. The Street Parade

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Discos Que Parece Que Só Eu Gosto: Alice Cooper - The Last Tempation [1994]



A discografia de Alice Cooper é recheada de altos e baixos. Depois de uma estreia tímida com Pretties for You, Alice e sua banda marcaram o início da década de 70 com álbuns essenciais na discoteca metálica de um admirador do estilo, com destaque para Killers (1971), Billion Dollar Babies (1972) e School's Out (1972). O último disco como banda Alice Cooper, Muscle of Love (1974), mostrava que o grupo já não caminhava por caminhos sólidos, e assim, tia Alice partiu para sua carreira solo.

Logo na estreia, dois petardos certeiros: Welcome to My Nightmare (1975) e Alice Cooper Goes to Hell (1976), que consagraram o artista como o principal nome do rock de horror, com suas histórias repletas de contos capazes de assustar até Stephen King. Porém, o final da década de 70 foi marcado pelos excessos de drogas e bebidas, até que depois de From the Inside (1978), Alice mergulhou no mar da obscuridade, compartilhando com diversos colegas lançamentos de gosto duvidoso por boa parte dos anos 80.

Alice Cooper comemora o retorno à boa fase
Foi com Raise Your Fist and Yell (1987) que Alice conseguiu voltar ao mercado da música, graças a um álbum bastante pesado, que teve sequência com o aclamado Trash (1989), álbum de incrível sucesso, puxado pelo hit "Poison". Dois anos depois, Hey Stoopid contou com a participação de gigantes do metal, como Slash, Mick Mars, Steve Vai, Vinnie Moore e Joe Satriani nas guitarras, e ainda Ozzy Osbourne nos vocais, e o disco vendeu muito, mas um lado da crítica especializada, e principalmente dos fãs, faziam sempre que possível a citação de que Alice conseguiu o sucesso fugindo daquilo que o consagrou, o rock de horror.

Pois foi com essa crítica enfadonha em mente que Alice concebeu seu álbum mais ousado na década de 90, praticamente esquecido em sua discografia, e que considero um dos melhores trabalhos feito pelo artista americano em sua carreira solo. The Last Temptation chegou às lojas em 1994, trazendo junto com o vinil uma história em quadrinhos, escrito por Neil Gaiman e com ilustrações de Michael Zulli, em artes advindas da produtora Marvel Comics. Tudo isso para elucidar uma história de suspense envolvendo Steven, um jovem garoto cercado de problemas e questionamentos pessoais, que já havia sido o personagem principal de Welcome to My Nightmare,  e também tema de uma canção de Hey Stoopid!, no caso "Wind-Up Toy", e um diretor de teatro que, através de jogos psicológicos, tenta levar Steven para o mundo sobrenatural.

Os três volumes da história em quadrinhos
A história foi lançada em história em quadrinhos em três volumes, e vamos tratar da história em quadrinhos antes das canções do LP. Apenas o primeiro volume acompanhava a versão original do LP, com os demais sendo possíveis de ser adquiridos pouco depois do lançamento do álbum. Tudo começa com Steven e um grupo de amigos andando pelas ruas de uma determinada cidade na véspera do Halloween, parando diante de um Teatro que é novo na cidade, o The Theater of the Real - The Grandest Guignol (Teatro do Real - O Grandioso Guignol), sendo o Guignol um teatro que realmente existiu nos anos 20, na França. Um recepcionista - o próprio Alice Cooper - faz as honras da casa e convida um dos cavalheiros para entrar. Por pressão dos amigos, o escolhido é Steven. Descobrimos então que o recepcionista é o diretor do teatro, e também o apresentador.

No teatro, Steven é apresentado à uma moça chamada Mercy, que recebe seu ingresso ao mesmo tempo que o diretor diz que tudo no teatro é livre. Mercy desaparece diante dos olhos de Steven, que penetra no teatro para assistir o que o diretor disse ser uma peça inesquecível.

Encarte do LP, mostrando a entrada de Steven no teatro,
em sequência de imagens que também aparece na história em quadrinhos

O personagem principal da peça é, por incrível que pareça, o próprio Steven, que passa a dialogar com zumbis e outros seres assustadores. Porém, o garoto não percebe que tudo é uma história armada para conquistar a confiança dele com o administrador do Teatro, que tem outras intenções junto à pessoa de Steven. No final do primeiro livro, ele acaba saindo do teatro sendo zombado pelos amigos, mas carregando na face uma imagem sinistra de que algo mudou em sua vida.

O início do segundo livro traz Steven correndo, voltando para casa, e encontrando sua mãe. Após levar uma breve "regada" do pai e da mãe, Steven vai para o quarto, e assustado, percebe mudanças na voz e na personalidade da mãe, que remetem ao diretor do teatro. Assustado, Steven acaba adormecendo, tendo um estranho pesadelo no qual necessita salvar Mercy das garras do diretor.

Encerramento do livro I

No outro dia, Steven acorda para ir a escola, buscando mais informações sobre o teatro, que não existe. Ninguém conhece o teatro, os amigos que "pareciam" estar com ele na frente do teatro dizem que não estavam lá, e Steven fica mais perturbado do que quando saiu do mesmo.

Na escola, ele enxerga o diretor Alice Cooper em vários personagens - a professora, o técnico do time de beisebol, a merendeira, dois colegas, o zelador, e por fim, encontra o próprio Alice diante do espelho. É véspera de Halloween, e nesse momento acaba o livro II, com Steven fazendo a clássica maquiagem de Tia Alice para ir "assustar" as pessoas no tradicional "Gostosuras ou travessuras".

Encerramento do livro II

O livro III começa já no Halloween, com Steven e amigos fantasiados saindo pela escola. Steven foge da turma, e vai buscar informações sobre o teatro em uma biblioteca. Lá ele pesquisa em diversas fontes, e acaba frustrando-se. Saindo da biblioteca, Steven encontra  na rua zumbis parecidos com o que viu no teatro, e retorna ao mesmo em um passe de mágica. No Teatro, ele é confrontado com o diretor, e finalmente, Steven descobre tudo o que aconteceu.

O diretor havia mostrado para o garoto os problemas e dramas da fase adulta, tentando levar Steven para um pensamento de que a vida adulta é feita somente de coisas ruins, que a fase adolescente pela qual ele passava era a vida ideal e a melhor etapa que tinha que ele passava. 

Encerramento do livro III

Dessa forma, o Diretor faz uma oferta estranha para Steven: ele nunca mais iria envelhecer, e para isso, bastava entrar para o teatro. O garoto pensa sério sobre o assunto, mas então, ao ver Mercy novamente, agora como uma zumbi, acaba refutando da ideia. Depois de muita discussão e ameças do diretor, em uma batalha psicológica muito forte, Steven consegue sair do teatro, salvando Mercy,  a qual ele acaba descobrindo ser uma fantasma. 

A história encerra-se com o Diretor ainda presente na mente de Steven, mesmo com toda a discussão e briga, sugerindo que, apesar de ter se livrado da questão "dúvidas adolescentes", o medo ainda continuará diante dele.


Encarte de The Last Tempation

Acompanharam Alice na gravação de The Last Tempation Stef Burns (guitarra, vocais), Greg Smith (baixo, vocais), Derek Sherinian (teclados, vocais) e David Uosikkinen (bateria), além dos vocais de apoio Lou Merlino, Mark Hudson, Craig Copeland e Brett Hudson.

O que muitos reclamam é que o acabamento final de The Last Tempation não representa um álbum fiel ao som de Alice Cooper. Realmente, ouvindo o disco na sua integridade, encontramos elementos de diversas bandas em voga naquela época, como The Cult, Guns N' Roses, Soundgarden e Mötley Crüe, por exemplo, o que por outro lado, é o que torna o álbum mais atraente.

Alice Cooper e Derek Sherinian
The Last Temptation surge com o violão puxando o riff da oitentista "Sideshow", com seu andamento característico de canções da década de 80, na linha de Mötley Crüe e Poison por exemplo, cuja a letra apresenta-nos Steven, um garoto frustrado que procura por coisas legais e aterrorizantes para fazer. Apesar de o nome Steven não ser citado, sabemos que ele é o personagem por conta da história em quadrinhos, já que o volume 1 acompanhava a versão original do LP. Musicalmente, destaca-se o trecho do solo final, com a participação de metais que lembram bastante algumas viagens musicais feitas pelos Rolling Stones na década de 70.

Barulhos de circo e a voz de Cooper fazendo o personagem do diretor do teatro levam-nos para "Nothing's Free", a qual surge com um forte andamento percussivo, em uma canção que parece ter saído dos álbuns do The Cult. A voz de Cooper modifica-se, para encarar o personagem do diretor, que nesta canção, surge para conversar com Steven, com destaque para o belo solo de Burns.

Single de "Lost in America"
Na sequência, uma das canções mais hards da carreira de Cooper, "Lost in America", contando com a participação de Don Wexler nas guitarras, coloca Steven dentro do Teatro, com os problemas da fase adulta/adolescente sendo apresentados para ele (sem mulher, sem carro, sem emprego, problemas familiares) e com uma hilária citação para "Estou tentando tocar guitarra, aprendendo 'Stairway to Heaven' ...), e cujo refrão, assim como toda a canção, resgata faces do Guns N' Roses dos álbuns Use Your Illusion, além de novamente apresentar uma tímida participação dos metais, e encerrar com uma breve citação a "Star Spangled Banner", mais conhecido como o hino nacional americano.

"Bad Place Alone" mostra a face raivosa de Steven, uma criatura das ruas dura como a pedra, sobre um andamento arrastado e pesado. A presença de Steven no Teatro conclui-se com "You're My Temptation", canção que já entra rasgando com o riff de wah-wah estourando as caixas de som, mantendo o clima arrastado de "Bad Place Alone", e é o momento em que Steven cai em tentação por Mercy. John Purdell participa nos teclados de "You're My Temptation", que safadamente, o diretor do teatro canta sussurra uma canção, e com uma risada sádica, conclui o Lado A de The Last Temptation.


Alice Cooper e Chris Cornell

A balada "Stolen Prayer" abre o lado B com Steven voltando para a casa e refletindo sobre o que viu no Teatro, Chris Cornell participa co-assinando essa faixa e fazendo vocais de apoio, e ele é o único responsável pela composição da próxima faixa, "Unholy War", com um ritmo agressivo, um show de guitarras e Steven cada vez mais perturbado em seu mundo.

Single de "It's Me"
"Lullaby" surge com vozes que sugerem o desespero vivencial de Steven, e deixa mais claro os medos do menino, que confronta seus medos, principalmente dos monstros que vivem sob a cama de Steven ou preso no armário do mesmo. Musicalmente, as guitarras de Burns são o principal destaque de uma ótima faixa, onde Steven revela seu desejo de não querer ser uma criança assustada, e assim, o diretor entra novamente em ação, agora na leve "It's Me", com o diretor falando para Steven das coisas que ele viveu no Teatro, como viagens para Paris, Espanha, Rio de Janeiro e Londres, mas que independente disso, ele sempre viverá com medo, e esse medo é o próprio diretor que o persegue. O grande destaque para essa balada vai para a presença do mandolin, um instrumento que marcou a música que acabou tornando-se o principal sucesso do álbum, atingindo a trigésima quarta posição nos charts britânicos. Em ambas as canções está a participação de John Purdell nos teclados.

O melhor do disco fica para o encerramento. "Cleansed By Fire" é uma faixa pesada, na qual Steven e o Diretor duelam com rispidez, trocando farpas entre riffs pesados e um dos refrões mais grudentos da carreira de Tia Alice. No fim das contas, o Teatro é queimado, ficando a sensação de que Steven conseguiu livrar-se de seus medos, mas ao final da faixa, sons induzem o ouvinte ao fato de que a história ainda não foi encerrada.


Contra-capa de The Last Tempation

Entendo que a torcida de nariz para o álbum seja por conta do som ser muito diferente do que Alice Cooper já havia gravado, e a história não ser das mais fortes, mas acredito que esse preconceito dos ouvidos é culpa de quem apenas vê cara e não vê coração. Por outro lado, o desprezo e rejeição foi tamanha que Alice demorou seis anos para voltar ao batente, com o ótimo e barulhento Brutal Planet (2000).

Como não sou um xiita, afirmo com convicção que ouvir The Last Temptation sem conhecer ou lembrar do passado de Alice com certeza irá mudar o pensamento de muitos sobre ele, e quem sabe, venham me acompanhar e desmentir que esse seja um Disco que Parece que Só Eu Gosto.


O LP e as revistas com a história de Steven

Track list

1. Sideshow
2. Nothing's Free
3. Lost in America
4. Bad Place Alone
5. You're My Temptation
6. Stolen Prayer
7. Unholy War
8. Lullaby
9. It's Me
10. Cleansed By Fire

domingo, 12 de abril de 2015

Elis Regina - Parte IV


Sem condições emocionais, o casamento de Elis com Bôscoli ruiu, e em junho de 1972, ambos estavam separados. Três meses antes, Elis estreiou o espetáculo É Elis, com direção de Miéle e Bôscoli. Dentre os membros da banda que acompanhava Elis Regina, o talentosíssimo pianista e arranjador César Camargo Mariano era o principal integrante, e em breve, o novo marido e parceiro musical de Elis, transformando sua carreira através de uma incursão maravilhosa e inesquecível pelo jazz e pelo rock, registrados naqueles que defendo sem sombra de dúvidas serem os melhores discos da carreira de Elis, com pelo menos três deles um dos melhores discos lançados em nosso país em toda sua história.

Dois deles abrem e encerram a edição de hoje, que apresenta os primeiros cinco discos dos onze lançados pelo casal Elis e César Camargo Mariano, deixando em aberto, quem sabe para um futuro próximo, a discografia solo deste que considero um dos maiores músicos de nosso país, e que inseri na minha lista pessoal de Melhores Tecladistas de Todos divulgada aqui neste site.

Obra-prima da dupla César e Elis

A dupla estreou com um novo espetáculo em outubro de 1972, e a partir dali, a vida de Elis Regina Carvalho Costa seria outra. A nova fase veio acompanhada da banda de César, com músicos extremamente talentosos, (o próprio César Camargo Mariano no piano, Luizão Maia no contrabaixo, Luís Cláudio na guitarra e Paulinho Braga na bateria), e acaba gerando um dos principais discos da música popular brasileira, Elis, que traz de tudo um pouco para os "jovens do Brasil ditatorial da década de 70", fazendo com que os antigos admiradores dos sambas e MPB que Elis cantava nos anos 60 crucificassem a cantora, mas por outro lado, criando uma nova geração de fãs, apaixonados e abalados por estilos diversos e chocantes para a até então Rainha da MPB. César impregnou a música de Elis com guitarras, pianos e muita eletricidade, e logo de cara, "20 Anos Blue" já mostra que Elis é diferente de tudo o que ouvimos antes, em um blues fantástico, com uma letra poderosa, inimaginável na discografia de qualquer nome ligado a MPB. 

O talento como arranjador de César abrilhanta-se em outro blues, "Vida De Bailarina", clássico de Américo Seixas e Dorival Silva que Elis cantava ainda quando menina, e que aqui ganha uma versão despojada e leve, a qual, acompanhada por um bom uísque, irá deixa um sorriso de prazer em seus lábios. Milton Nascimento é abençoado com uma versão progressiva para "Nada Será Como Antes", com um belíssimo arranjo de cordas e uma velocidade impressionante, ou arrancando a pele do ouvinte por conta da tristeza na descomunal "Cais", novamente com outro incrível trabalho de cordas, um andamento macabro, sinistro e conturbado, e mais uma interpretação arrebatadora de Elis. 

Agora, tristeza mesmo é o que ouvimos em "Boa Noite Amor", de José Maria De Abreu e Francisco Matoso, apenas com o piano acompanhando a doce e fraca voz de Elis, "Mucuripe", trazendo ao Brasil os nomes dos desconhecidos cearenses Fagner e Belchior, na qual podemos sentir Elis debulhando-se em lágrimas, ou na dramática "Atrás Da Porta", de Chico Buarque e Francis Hime, em uma das letras mais "corta-pulsos" que já ouvi, sendo impossível não sentir as lágrimas de Elis rolando pela face, e que para mim, é um daqueles momentos onde Deus baixa na Terra e diz: "É para isso que criei vocês!!". 


Capa interna de Elis (1972)

Cada vez que ouço ela cantando "pra mostrar que ainda sou tua, até provar que ainda sou tua", com uma respiração que puxa a última molécula de ar que está em sua volta, um arrepio sobe por minha espinha, e o encerramento com cordas, violão e piano sempre me traz lágrimas aos olhos. Por outro lado, o casal encanta nas alegres "Me Deixa Em Paz", de Ivan Lins e Ronaldo Monteiro De Souza, e em "Bala Com Bala", revelando ao mundo os nomes de João Bosco e Aldir Blanc, ou faz o povão cantar na clássica "Casa no Campo", de Tavito e Zé Rodrix, mais dois novatos que tornaram-se monstros sagrados no Brasil inteiro graças à Elis, com o último também comparecendo em "Olhos Abertos", em parceria com Gutemberg Guarabira, que mantém a linha bucólica de "Casa no Campo". Por fim, a fenomenal versão para "Águas De Março", de Tom Jobim, não ainda em sua versão definitiva, mas já mostrando o poder de uma das principais peças de nosso ACJ. 

Durante muito tempo considerei esse o melhor disco de Elis Regina, inclusive trouxe ele para as páginas do blog aqui, mas quatro anos depois, veio outro álbum que superou a perfeição de Elis. Mesmo assim, o disco homônimo de 1972, relançado em CD em 1998, foi fundamental para que a gaúcha encontrasse novos caminhos, e ainda, ampliasse seus horizontes musicais, decolando em uma viagem sem volta para os novos sons que vinham da Europa e dos Estados Unidos, e afastando-se definitivamente da marca de apenas uma excelente intérprete de sambas e MPB nos festivais brasileiros, ou da esposa obediente dos tempos de Ronaldo Bôscoli.

Sequência magnífica do trabalho do agora casal Elis e César

Cada vez mais afiados, a dupla Elis e César Camargo finca seus quatro pés no rock setentista, e para mostrar que o estilo estava realmente em voga na pauta das gravações, César passa a tocar órgão Hammond e piano elétrico, além do piano. Elis é um álbum bastante experimental, com uma capa forte, escondendo a face de Elis em tons de preto e branco, mostrando toda a obscuridade empregada em seus sulcos, e investe principalmente em canções de Gilberto Gil e da dupla João Bosco / Aldir Blanc. O que impressiona são arranjos magníficos em todo álbum, que para as canções de João e Aldir, por exemplo, desconstroem "O Caçador de Esmeraldas" (da dupla com Cláudio Tolomei), com suas linhas jazzísticas que poderiam estar nos primeiros álbuns do Yes, trazem o tango portenho na emocionante "Cabaré", com participação de Ubirajara Silva no bandoneón, empregam ritmos estranhíssimos para "Comadre", contendo a participação de Maurílio da Silva Santos no trompete, ou fazem de "Agnus Sei" uma sinistra peça percussiva na qual sua complicada letra é entoada à plenos pulmões por uma Elis extraterrestre, já que não tem ser humano que consiga fazer algo se quer similar ao registrado por aqui. Gil, por outro lado, ganha uma psicodelia londrina assombrosamente Maravilhosa em "Oriente", ou então, descansa relaxadamente no jazz de "Doente, Morena", além de brincar nos ótimos samba-jazz "Ladeira da Preguiça" e "Meio de Campo". 


Elis Regina no programa Ensaio TV Cultura, em 1973

O time que acompanha Elis, com os remanescentes Cesar, Luizão e Paulinho, além de Chico Batera (Percussão), Toninho Horta e Ari (guitarras), também manda ver, com marcações, viradas e intervalos milimetricamente perfeitos, enaltecendo ainda mais o trabalho da parceria montada pela dupla. Ainda temos a bela participação de Roberto Menescal no violão da versão bossa de "Folhas Secas", simplesmente de chorar, e o retorno aos botequins em "É Com Esse Que Eu Vou". Elis, relançado em CD em 1993, marcou o início de uma briga de Elis com a imprensa, que acusava a cantora de exagerar na técnica e largar a emoção, o que praticamente discordo, já que é com essa série de discos que ela conseguiu fazer o casamento perfeito de uma técnica incrível, salientada por César Camargo, mas carregando toda a emoção que a consagrou nos anos 60.

Nesse ano Elis participou de um programa na TV Cultura, posteriormente eternizado no essencial DVD Ensaio TV Cultura (2004). Também foi um dos destaques do festival Phono 73, deixando registrado no segundo volume da trilogia referente ao festival as canções "Ladeira da Preguiça", ao lado de Gilberto Gil, e "É Com Esse Que Eu Vou".

O estrondoso sucesso de Elis & Tom

Como presente de aniversário pelos dez anos de Philips, Elis ganhou um encontro com Antônio Carlos Jobim, e assim, partiu com César Mariano, Luizão, Paulinho, Chico Batera, Oscar Castro Neves (violão) e Helio Delmiro (violão, guitarras) para os Estados Unidos, mais precisamente a Califórnia, onde entre 22 de fevereiro e 09 de março de 1974, fez uma série de gravações ao lado de Tom, culminando no aclamadíssimo álbum Elis & Tom. Para muitos, esse é o melhor disco da carreira de Elis, apesar de colocá-lo em um patamar um pouco abaixo do que Elis (1972) e outros dois álbuns que aparecerão por aqui (Falso Brilhante e Transversal do Tempo), mas com certeza, está fácil em um Top 5 dos melhores discos da pimentinha, e por que não, no posto máximo de melhores discos da bossa nova, bossa nova aliás que, com os arranjos elétricos e inovadores de César Camargo, possibilitou à Elis esbanjar delicadeza em "Só Tinha Que Ser Com Você" e "Triste". 

O pequeno João Marcelo assiste a um encontro exclusivo de três monstros da música:
Elis Regina, Tom Jobim e César Camargo Mariano
Apesar do nome Elis & Tom, o carioca aparece fazendo as vozes apenas em quatro das quatorze canções, as quais são a clássica "Corcovado", de forma tímida, no final da mesma, "Soneto de Separação", surgindo com sua voz grave entre aas cordas, a espetacular "Inútil Paisagem", e "Águas de Março", essa em sua versão definitiva, com os dois começando de forma tímida e, em um entrosamento exemplar, terminam essa obra-prima totalmente descontraídos, com risadas e muita alegria. Portanto, temos dez canções lideradas pela voz de Elis, como o samba alegre de "Brigas, Nunca Mais", enaltecendo o ótimo groove do baixo de Luizão, a valsa "Chovendo Na Roseira", a singela "Pois É", o samba-jazz "Fotografia" e as doloridas "Modinha", "Retrato Em Branco E Preto", "O Que Tinha de Ser" e "Por Toda A Minha Vida", as duas últimas acompanhada de Tom ao piano. Os arranjos do álbum ficaram a cargo de César e Tom, com regência de Bill Hitchcock e uma produção impecável. Um disco para relaxar, descansar, e admirar não dois, mas três dos maiores artistas que o Brasil já pariu, já que o trabalho de César Camargo ao piano é tão exuberante e essencial quanto à interpretação de Elis ou as criações de Tom. 

Vale lembrar que em 2004, o álbum recebeu uma versão especial para seus 30 anos, e ao mesmo tempo, foi eleito pela Revista Rolling Stone como o 11° melhor disco da música brasileira (2007).

O melancólico álbum homônimo de 1974

Depois da façanha histórica de Elis & Tom, a dupla retorna para os estúdios para registrar mais um álbum homônimo, o mais melancólico e intimista de sua carreira. Acompanhando a dupla, estão Chico Batera (percussão), Luizão Maia (baixo) e os estreantes Toninho  Pinheiro (bateria) e Natan Marques (guitarra, viola). O LP homônimo de 1974 traz uma forte dose de emoção exalada pelo piano elétrico de César em comunhão com fulminantes interpretações de Elis. A dupla João Bosco / Aldir Blanc permanece em alta com o casal, recebendo versões para o samba "O Mestre Sala dos Mares", com o piano elétrico fazendo toda a diferença, assim como o cravo da viajante "Caça à Raposa", alternando impressionantemente diversos ritmos em pouco mais de três minutos de duração, e o bolero romântico "Dois Pra Lá, Dois Pra Cá", inserindo um trecho de "La Puerta" (Lucho Gatica), e trazendo a participação do coral Classic VIII, Helio Delmiro na guitarra e Paulinho Braga no bongo. 

Outra dupla, Milton Nascimento / Fernando Brant, recebe arranjos inéditos também para três joias: a arrepiante "Travessia", destacando o maravilhoso crescendo desse pequeno épico de quase seis minutos; a psicodélica "Ponta de Areia", levada pela marcação hipnotizante da percussão e o suave wah-wah do talentosíssimo Natan Marques; e a destruidora "Conversando no Bar", com uma extrema nostalgia fluindo da boca de Elis. Como nos antecessores, os arranjos de César Camargo (erroneamente grifado como Cézar) desconstroem composições conhecidas do grande público, seja no samba "Na Batucada da Vida" (Ary Barroso / Luiz Peixoto), que virou uma melancólica peça jazzística, no choro "Maria Rosa", transformado em uma dolorida balada, ou "Amor Até O Fim", de Gilberto Gil, transformada em um samba de chacoalhar o esqueleto, mas com a guitarra e o baixo dando um groove totalmente inovador. 

O álbum de 1974, com a capa vazada
Gil também arregala os olhos com a brilhante "O Compositor Me Disse", arrepiante peça musical somente com Elis acompanhada pelo piano de César, para levar facilmente o ouvinte às lágrimas com tamanha beleza, que encerra outro grande disco. Uma dúvida que tenho é se a versão original possui ou não a capa vazada no pingo do i. No mercado, encontra-se facilmente a capa vazada, mas como a edição que tenho, que é de 1974, apresenta a capa inteira, coloquei primeiro a mesma para ilustrar o álbum aqui. Se alguém puder informar, os comentários estão aqui para isso.

Elis foi relançado em CD em 1993 e após ele, nasceu a empresa Trama, fundada em 1975 pelo casal ao lado de Rogério Carvalho Costa (irmão de Elis), responsável por organizar shows e também lançar discos de forma independente. No mesmo ano, nasce o primeiro filho do casal (segundo de Elis), Pedro Mariano, e depois de o menino adquirir sua "independência" maternal, César e Elis criam um dos maiores espetáculos da carreira da pimentinha, registrado no melhor álbum da dupla, lançado em 1976 com o nome do espetáculo: Falso Brilhante.

O melhor álbum brasileiro lançado na década de 70

O melhor disco da década de 70 lançado no Brasil, sem falsa modéstia. O trabalho realizado em Falso Brilhante é impecável, e não à toa, o espetáculo que lhe deu nome ficou quatorze meses em cartaz, totalizando 257 apresentações vistas por mais de 280 mil pessoas em todo o Brasil, um recorde até então jamais visto no show business brasileiro. No vinil, Elis entrega-se ao rock ‘n’ roll com uma naturalidade jovial, e dessa vez, Belchior é o centro das atenções, arregaçando os ouvidos com dois clássicos soberanos, o blues-rock “Velha Roupa Colorida”, tendo como destaque a maravilhosa cozinha de Nenê e Wilson  Gomes, além do embalo animado do piano de César Mariano, e a emocionante pegada hard de “Como Nossos Pais”, um hino para toda uma geração, levado pela guitarra furiosa de Natan Marques e fácil fácil uma das maiores interpretações vocais na história da música mundial, enaltecida por uma Elis Regina encarnada na crítica exercida pela poderosa letra do cearense. Mas os méritos de Falso Brilhante vão além do fato de ser um excelente disco de rock. A gaúcha volta para seus pagos, entoando os ritmos do pampa gaúcho, cantando em espanhol as milongas “Los Hermanos” (Atahualpa Yupanqui), levada pelo violão de Crispim del Cistia, e a linda “Gracias a La Vida”, de Violeta Parra, onde Elis está possuída pela poderosa voz de Mercedez Sosa, e que acabou gerando problemas da cantora com a Argentina, com o país vizinho proibindo o lançamento do álbum por lá. 

O folk psicodélico de “Quero” apresenta um belíssimo arranjo de cordas e vozes, e Elis cantando como se estivesse sobrevoando uma linda paisagem, além da estridente e maravilhosa guitarra de Natan, enquanto “Tatuagem” é uma dolorida declaração de amor, através de um jazz formidável guiado por baixo e piano elétrico, e claro, com Elis soltando a voz como todo o drama da letra pede. A eterna admiração pela dupla João Bosco  / Aldir Blanc surge em três faixas progressivas: “Um Por Todos”, destacando as viajantes notas do piano elétrico de César Mariano; a experimental “Jardins de Infância”, carregada de efeitos no baixo, na guitarra e nos teclados; e na épica “O Cavaleiro E Os Moinhos”, na qual a percussão marcial e o crescendo assustador da mesma lembra “Mars” (King Crimson). 

Imagens do espetáculo Falso Brilhante

Além de “Como Nossos Pais”, Falso Brilhante ficou marcado pela emocionante versão de “Fascinação”, canção eterna que tornou-se tão conhecida quanto o “Parabéns à Você” nas casas dos brasileiros, com Elis magistralmente conduzida como uma debutante para seu baile de quinze anos pelo piano sútil e belo de César Mariano, sendo a música que melhor define a parceria do casal mais brilhante e talentoso de nossa música nacional. Particularmente, a produção final do álbum é excelente, sendo que o som da bateria, do baixo, do piano e da guitarra é o que considero o som mais perfeito para uma gravação de instrumentos, causando aos meus ouvidos as melhores sensações. 

Um discaço fundamental em qualquer casa do Brasil e do mundo, que falei um pouco mais dele aqui, quando foi eleito um dos dez melhores discos do Brasil na década de 70. A performance inesquecível de Elis Regina é sem dúvidas o maior destaque, mas mesmo César ficando abafado pelo assombroso time formado por Natan, Wilson e Nenê, foi fundamental para a criação, arranjos e direção de uma das maiores obras artísticas da história, relançada em CD em 1988.

César Camargo Mariano e Elis Regina, o casal mais brilhante e talentoso da música nacional

Entre 1971 e 1976, Elis fez alguns registros em paralelo, os quais foram as participações nos seguintes álbuns: Os Maiores Sambas-Enredos de Todos Os Tempos (1971), com "Tiradentes"; Os Maiores Sambas-Enredos de Todos Os Tempos (1972), com "Alô ... Alô ... Taí Carmem Miranda" e Música Popular do Sul disco 1 (1975), com "Boi Barroso", "Alto da Bronze" e "Os Homens de Preto", além de ter incluída na trilha da novela O Grito a canção "Um Por Todos". 

Em termos de compactos, saíram os compactos duplos "Osanah " - "Nada Será Como Antes" / "A Fia de Chico Brito" - "Casa No Campo" (1971), "Águas de Março" - "Atrás da Porta" / "Bala Com Bala" - "Vida de Bailarina" (1972), Lupiscinio Rodrigues Na Interpretação de Caetano Veloso, Elis Regina, Gal Costa e Gilberto Gil (1974), com "Cadeira Vazia", "O Mestre Sala dos Mares" - "Na Batucada da Vida" / "Dois Pra Lá, Dois Pra Cá" - "Amor Até O Fim" (1975), e "Como Nossos Pais" - "Um Por Todos" / "Fascinação" - "Velha Roupa Colorida" (1976), bem como os compactos simples "Águas de Março" / "Entrudo" (1972), "Águas de Março" / "Cais" (1972).

Em quinze dias, veremos os seis últimos discos lançados por Elis enquanto viva, que concluem seu período ao lado de César Camargo Mariano.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Livro: Freddie Mercury [2008]



Várias biografias são construídas para desmoralizar o artista que está sendo contado sua história. Nomes polêmicos são os principais alvos de escritores por vezes desconhecidos, e que através de informações dispersas, acabam trazendo ao leitor curiosidades nem sempre tão verdadeiras, e gerando desconfortos desnecessários, mas por outro lado, causando o sensacionalismo que acaba fazendo com que o escritor receba louvores e as luzes dos holofotes de uma mídia sedenta por intrigas.

Com o escritor Selim Rauer a coisa foge totalmente disso. Em seu ótimo Freddie Mercury, lançado aqui no Brasil pela Editora Planeta do Brasil em 2010, o francês destrincha detalhes que muitos fãs desconhecem, do ponto de vista de quem viveu um bom tempo com o eterno vocalista do Queen. Esse é o quarto livro do escritor, na época com apenas 30 anos, e que mostra uma ótima desenvoltura através das palavras, fazendo com que a leitura seja muito agradável e rápida.

Queen no Morumbi (à esquerda), em Viena (direita, acima) e
Mercury no seu 39° aniversário (direita, abaixo)

Em 320 páginas, divididas em 12 capítulos, Freddie Mercury constrói a vida do cantor desde sua conturbada infância em Zanzibar (atual Tanzânia), passando pela sua adolescência em um colégio interno na Índia, a chegada no Reino Unido - quando Frederick Bulsara adota a personalidade de Freddie Mercury, as influências que ele empregou no grupo Smile, que posteriormente o levaram a ser vocalista do grupo que veio a tornar-se o Queen, o auge da carreira da banda, as brigas que motivaram o lançamento de uma carreira solo, o histórico encontro com Montserrat Cabbalé, registrado no único Barcelona (1987), e os últimos dias de sua vida, quando veio a falecer em 21 de novembro de 1991.

Os doze capítulos formam três conjuntos distintos, que se unem cronologicamente, com o primeiro conjunto concentrando-se do nascimento a chegada de Mercury no Reino Unido, o auge da carreira do Queen e os arrependimentos do músico nos anos 80. 

Queen em Amsterdã (esquerda, acima), Mercury e Bowie no Live Aid (esquerda, abaixo),
e na turnê de A Kind of Magic (direita
)

O grande mérito de Rauer é não envolver-se nas polêmicas, e sim, trazer cronologicamente a história de Mercury. Através de depoimentos de amigos, familiares e músicos próximos ao cantor, o livro vai passando pelos seus olhos como a música de Mercury, revelando curiosidades do início da carreira de Mercury, como o fato do cantor ter passado fome enquanto estudava na escola de artes na Inglaterra, a sua forte personalidade como líder do grupo Ibex, destacando o "nascimento" do famoso semi-pedestal usado como guitarra, uma das marcas de Mercury, o difícil início do Queen, tendo a essencial participação de nomes como David Bowie e Paul McCartney na doação de horas de gravação - o grupo gravava de madrugada, das 3 às 7 da manhã, e diversas vezes, outros artistas "atrasavam-se" no horário das 8 para permitir que o grupo registrasse mais alguma canção - e a criação da obra prima A Night at the Opera (1975).

Nesse ponto do livro, Rauer passa a concentrar-se na vida amorosa de Mercury. Seu relacionamento com Mary Austin é detalhado de forma emocionante, e chega a ser curioso que ainda hoje não tenha sido lançado um filme sobre o casal, bem como a descoberta da homossexualidade. Sem entrar em detalhes polêmicos, Rauer apresenta pinceladas muito aprofundadas da vida privada do artista, que depois de Austin, teve vários relacionamentos - seja com homens, seja com mulheres - os quais nunca vingaram, mas que ajudaram a moldar o caráter fechado e introvertido de Mercury, um artista praticamente oposto à entrevistas.

Queen na The Works Tour (acima); Mercury em Wembley, 1986 (abaixo)

Os anos 80 trazem os dias de Mercury na Alemanha, os exageros pessoais em compras e frases, o alto uso de drogas, principalmente cocaína e álcool, sua infelicidade com o Queen, que o levaram ao registro de Mr. Bad Guy (1985), surgem como os problemas na decadência da fama do grupo, causando alguns fracassos como o criticado álbum Hot Space e muitas brigas internas. Até seu relacionamento conturbado com a atriz alemã Barbara Valentin é resgatado nessa parte do livro, que traz o grupo ao alto do patamar com a estupefante apresentação no Live Aid de 1985. Outro ponto que chama a atenção é quando Mercury encontra Jim Huton, o homem que finalmente colocou Mercury nos eixos, e que ficou com ele até o fim de seus dias.

Mercury em Wembley (acima) e em Tóquio (abaixo)

Complementa o livro a discografia completa do Queen, faixa-por-faixa e trazendo a classificação de cada álbum nos charts de diferentes países, e a de Mercury solo, somente com os charts. Também tem destaque para os singles lançados por Mercury e uma parca sequência de imagens, todas elas presentes nesse post.

O essencial, que é o texto, já vale a aquisição.

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