quinta-feira, 9 de julho de 2015

Van der Graaf Generator - Live at Metropolis Studios, London [2011]



No dia 18 de dezembro de 2010, 120 sortudos presenciaram um momento único na história do rock progressivo, que foi um ensaio nos estúdios Metropolis em Londres feito por Peter Hammill (teclados, voz, guitarras), Hugh Banton (teclados) e Guy Evans (bateria), mais conhecidos como Van der Graaf Generator, com o objetivo de estarem prontos para a turnê de divulgação do álbum A Grounding in Numbers.

Até então, o álbum não havia sido lançado, e algumas faixas dele foram exploradas, assim como outros dos álbuns lançados pelo grupo após o seu retorno nos anos 2000, no caso Present (2005) e Trisector (2008).

Visão geral do Metropolis Studios, completamente lotado

Para quem ficou apaixonado pelo grupo com os clássicos discos lançados nos anos 70, com destaque para a sequência H to He, Who Am the Only One (1970), Pawn Hearts (1971), Godbluff (1975) e Still Life (1976), Live at Metropolis Studios é uma boa oportunidade para jogar o ranço de fora e conferir os bons materiais que a banda fez recentemente, e ainda, ficar espantado como o trio conseguiu apagar as lembranças de um de seus principais instrumentistas, o saxofonista David Jackson, que gravou os discos citados nos anos 70 e participou do retorno em 2005, gravando Present e o ao vivo Real Time (2007), saindo da banda pouco antes da gravação de Trisector, por problemas de relacionamento entre Jackson e os demais.

Então, colocando o CD 1 no som, o show começa com o intrincado riff de piano de "Interference Patterns" (Trisector), com Hammill soltando a voz de sua garganta como se tivesse nos anos 70, seguida pela agonizante e bela "Nutter Alert" (Present), com outra grande interpretação de Hammill.

Duas visões do palco, com Hammil nos teclados (acima) e na guitarra (abaixo)

O ritmo diminui na suave "Your Time Starts Now" (A Grounding in Numbers), mas não tarda para a loucura voltar às caixas de som com a psicopata e esquizofrênica "Lemmings" (Pawn Hearts), o primeiro grande clássico da carreira do grupo a brilhar para os ouvidos dos fãs, completinha e com vários detalhes a mais, em uma interpretação sensacional, destacando o ritmo alucinante de Evans e principalmente, Hammill assumindo a guitarra. Aqui o show começa realmente para quem curte música, por que a barulheira que o trio faz apenas com guitarra, teclados e bateria, é descomunal. A violência dos gritos de Hammill, as pancadas nas viradas de Evans e todas as diabruras que Banton inventa nos seus teclados, assim como as notas de guitarra que parece soarem desencontradas, dando mais tensão para "Lemmings", são uma amostra grátis de por que o Van der Graaf Generator ainda hoje surpreende os que admiram o rock progressivo.

"Lifetime" (Trisector) soa como um trem passando sua vida, em um clima bastante depressivo extraído da guitarra e dos teclados, além da dramática voz de Hammill, e mais uma novidade vem para os fãs, "Bunsho" (A Grounding in Numbers), bastante intrincada como convém para a sonoridade esperada nas canções do grupo. O primeiro CD encerra-se com o segundo clássico, "Childlike Faith in Childhood's End", uma das obras-primas do grupo registrado no renegado Still Life (1976), daquelas interpretações arrepiantes de Hammill, e com uma assombrosa e emocionante execução de Banton e Evans através de seus mais de . Os mais xiitas vão dizer que o saxofone de David Jackson faz falta, mas honestamente, o que o trio nos apresenta nessa versão é tão belo quanto o que está registrado em Still Life. Dá para sentir a tensão e o apavoramento dos presentes com o que estão vendo no final da apresentação de "Childlike Faith in Childhood's End", com aplausos fortes e incansáveis para o trio.

Guy Evans e seus ritmos impensáveis

O segundo CD surge com as linhas jazzísticas de "Mr. Sands", terceira de A Grounding in Numbers, seguida pela leve viagem dos mais de doze minutos de "Over the Hill" (Trisector), com suas várias sessões intrincadas, em duelos elaborados por bateria e teclados, além de outra performance vocal arrepiante por Hammill. O riffzão enigmático de "(We Are) Not Here" (Trisector) traz uma das melhores canções registrada pelos britânicos nos últimos anos, e o show conclui-se com outro grande clássico, a linda "Man-Erg" (Pawn Hearts), mais uma obra-prima que o Van der Graaf Generator deixou ao mundo nos anos 70. O que impressiona é como a voz de Hammill permanece intacta, e novamente, mesmo os xiitas reclamando da ausência do saxofone de Jackson, não dá para não ficar de queixo caído com a poderosa interpretação do trio, principalmente no grandioso trecho central no qual os instrumentos travam uma batalha musical alucinante, e mais uma vez, o encerramento é arrepiante, com todo mundo urrando muito.

Depois de ficar em êxtase com o orgasmático show de pouco menos de uma hora e meia, é hora das reflexões sobre o mesmo. Durante toda a audição dos CDs, percebemos que o trio está mandando ver, mas aos que não conhecem a carreira do Van der Graaf Generator, fica difícil saber quem destacar entre os instrumentos. Claro que a interpretação vocal de Hammill é incrível, mas será que a dupla de teclados que está fazendo a sonzeira?

Hugh Banton se virando em dedos e pernas

Para solucionar essa dúvida é que temos o DVD, e nele, o excepcional Banton mostra por que é um dos maiores (e na minha opinião o maior) tecladista da história do rock progressivo.

Com uma agilidade exclusiva, o baixinho monta nos seus teclados, fazendo misérias com os pés através das grandes teclas situadas em frente ao seu banco, enquanto desliza freneticamente seus dedos nos dois teclados que estão ao seu redor. Logo na primeira canção, ele já mostra do que é capaz, conduzindo seus teclados concentradíssimo, sendo maravilhoso ver sua agilidade utilizando os quatro membro de seu corpo perfeitamente. Ver o que ele faz na introdução de "Lemmings", ou durante toda essa mesma faixa, em uma barulheira infernal criada apenas por ele, com uma capacidade incrível de tocar dois teclados ao mesmo tempo com uma única mão, Outra que impressiona é "Childlike Faith in Childhood's End", já que ele é praticamente quem conduz toda a canção, apenas com Evans fazendo a base e Hammill cantando absurdamente, com as veias saltando de sua garganta em imagens fantásticas. Resumindo, Banton não é desse planeta!

Peter Hammill utiliza um pedestal para ler as letras

Apesar de algumas canções Hammill utilizar de um pedestal com as letras, isso não estraga também suas grandes performances vocais, ainda mais sabendo que a maioria dos velhos artistas hoje em dia adotam tele-prompters em suas apresentações com muita naturalidade. Por fim, Evans é um animal no seu kit. Um dos bateristas mais injustiçados, a idade mostra que pegou somente no seu corpo, bem mais gordinho do que o menino franzino que está no fantástico DVD Godbluff Live, só que no resto, o cara solta o braço e as pernas, sempre com aquele olhar preocupado mas sereno que tanto marcou sua carreira.

Nos extras do DVD, temos uma série de entrevistas individuais com o trio, falando sobre o retorno do grupo em 2005, a decisão de seguir somente como um trio após a saída de David Jackson, comentários sobre A Grounding in Numbers, o futuro da banda e uma boa - e merecida - babada de ovo de cada integrante para os demais, já que afinal, como bem dito nas entrevistas (em inglês e sem legendas), Hammill é um gênio, Banton é um monstro dos teclados e Evans é o único capaz de criar ritmos impensáveis para acompanhar as letras e a música de Hammill.

Peter Hammill nas entrevistas dos extras

Ainda acompanha o pacote um encarte com diversas fotos (todas em preto e branco) e um breve resumo da história da banda.

Se existe algum pecado nesse álbum, é que Hammill tocando guitarra está um pouco fora de forma, já que este também nunca foi seu instrumento principal, mas é um detalhe ínfimo perto da majestosa apresentação do grupo.

A disposição dos CDs e DVD em Metropolis

Track List

CD 1
1. Interference Patterns
2. Nutter Alert
3. Your Time Starts Now
4. Lemmings
5. Lifetime
6. Bunsho
7. Childlike Faith in Childhood's End

CD 2
1. Mr. Sands
2. Ovetr the Hill
3. We Are Not Here
4. Man-Erg

DVD

Todas as canções do CD 1 e do CD 2, na mesma ordem

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Direto do Forno: Seu Juvenal - Rock Errado [2015]



Formado na mineira Uberaba, no longínquo 1997, sob o nome Os Donátilas Rosários, e radicados na cidade de Ouro Preto, o grupo Seu Juvenal lançou em janeiro desse ano seu terceiro álbum, Rock Errado, que mostra através de suas dez canções uma mistura do punk oitentista misturado com heavy metal e até um pouco de indie. Os dois primeiros, Guitarra de Pau Seco (2004) e Caixa Preta (2008) tiveram uma repercussão um tanto quanto tímida, mas dessa vez, o grupo fez uma divulgação muito boa, junto a gravadora Som do Darma.

A formação atual conta com  Bruno Bastos no vocal, Edson Zacca na guitarra e violão, Alexandre Tito Juvenal no baixo e Renato Zaca na bateria, que reuniram-se durante quatro dias na cidade de Passagem de Mariana, região de montanhas do estado de Minas Gerais, sob produção de Ronaldo Gino, guitarrista da banda Virna Lisi.

Edson Zacca, Renato Zaca, Alexandre Tito Juvenal, Bruno Bastos Filho

A banda passeia pelo blues rock de "Homem Analógico", baixa o peso em "Free Ordinária" e na instrumental "Louva-A-Deus", e senta o pau nas agressivas "Antropofagia Disfarçada", com uma introdução na linha de gigantes como Inocentes, Garotos Podres e Replicantes, remetendo-nos aos Titãs de Cabeça Dinossauro durante a faixa-título, e detonando na furiosa "Um Dia de Fúria", com seu riffzão stoner e a participação de Guilherme Demente na Guitar Noise, Guilherme que também participa com esse instrumento em "Moleque Dissonante", outra com uma introdução punk bem oitentista.

Apesar das boas composições, senti falta de uma melhor produção, já que o som do baixo e bateria (principalmente) são muito crus. Por outro lado, essa crueza dá uma sensação de som independente característico de alguns álbuns dos anos 80, o que não é de todo ruim, já que bate aquela sensação sempre nostálgica dos tempos em que o rock pesado e o punk engatinharam no Brasil.

Destaca-se a voz rouca de Bruno e a ótima técnica de Edson Zacca, para mim o grande nome do grupo.

Encarte de Rock Errado

O melhor momento de Rock Errado vai para a viajante "Asfalto", trazendo a participação de Maxsuel Sancho no baixo acústico, e a sequência final do álbum, com a bonita "A Chuva Não Cai", tendo a participação  fundamental de Pamelli Marafon no piano e teclado, que deu uma cara toda especial para a canção, além de Euler Alves (percussão) e Guite Congo Powers (guitarra) e "Burca", trazendo o piano de Pitágoras Silveira na introdução, em duas canções bem trabalhadas e destoantes da agressividade que rola nas demais, lembrando um pouco de U2 aqui, um certo Los Hermanos ali ou até um Blur acolá.

Segundo Renato, o grupo faz o rock do jeito errado para os padrões do politicamente correto, e no geral, é exatamente isso, com uma produção muito crua, canções boas e um grupo que é difícil definir qual é o som, mas com um caminho interessante pela frente, valendo a aquisição pelo menos para deixar nos ouvidos algo curioso e novo no repetitivo mercado musical nacional da atualidade.

Contra-capa de Rock Errado

Track list

1. Homem Analógico
2. Free Ordinária
3. Antropofagia Disfarçada
4. Asfalto
5. Louva-A-Deus
6. Um Dia De Fúria
7. Rock Errado
8. Moleque Dissonante
9. A Chuva Não Cai
10. Burca

domingo, 10 de maio de 2015

Elis Regina - Parte VI



Encerrando nossa série que passeou pela carreira da mais brilhante voz feminina de nosso país, trago hoje os principais discos póstumos lançados sob o nome Elis Regina, bem como um apanhado geral das principais coletâneas pelas quais o ouvinte poderá começar sua iniciação nessa brilhante discografia.


Gravado em 1979, neste que é um dos maiores festivais de Jazz do mundo, Montreux Jazz Festival foi o primeiro álbum lançado pós-morte de Elis, e é um registro singular nesta discografia. O grupo, formado por César (piano, teclados), Hélio Delmiro (guitarra), Luizão Maia (baixo), Paulinho Braga (bateria) e Chico Batera (percussão) encarnou o espírito jazzístico e fez duas apresentações no mesmo dia (uma de tarde e outra de noite) em sessões musicais de primeira qualidade, com destaque total para a magistral performance de César, condutor de uma brasileiríssima Elis, que transpira os ritmos de nosso país com uma técnica impecável, e que acabaria culminando na criação do espetáculo Saudade do Brasil. 

Clássicos como "Madalena" e "Upa Neguinho" ganharam um charme especial, inclusive com Elis apresentando o grupo em francês, mas Elis também deu ênfase para a psicodelia-prog do espetáculo Transversal do Tempo na longa homenagem à Milton Nascimento, com a tríade "Ponta de Areia" / "Fé Cega, Faca Amolada" e "Maria, Maria", um dos grandes momentos do álbum, destacando os viajantes teclados de César, a percussão Muiriana de Chico Batera e o baixo pulsante de Luizão Maia. 


Elis na apresentação da noite

A agitada "Cai Dentro, repleta de vocalizações, contrasta com o clima intimista do lindo e arrepiante blues "Na Baixa do Sapateiro" (que música, QUE música), inexplicavelmente difícil de saber de onde Elis tira tanta potência vocal, e a emocionante "Rebento". A longa introdução ao piano de "Cobra Criada" deve ter causado arrepios àqueles que estiveram presentes no famoso cassino enaltecido em "Smoke on the Water" (Deep Purple) no dia 20 de julho de 1979. Porém, o grandioso momento de Montreux Jazz Festival vai para uma peculiaridade que o destino colocou na vida de Elis, já que rolou um um clima tenso entre ela e Hermeto Pascoal. 

Elis era a principal estrela daquela data do festival, dedicado à música brasileira, sendo que o local estava lotado e com ingressos esgotados há algum tempo, até por isso que Claude Nobs pediu que Elis fizesse uma sessão extra de tarde, a qual é dita pelos presentes como sendo a melhor apresentação de Elis naquele dia, já que na sequência entrou o bruxo albino, que vinha de gravações recentes com Miles Davis, e era idolatrado pelos aficcionados do jazz. 


Hermeto e Elis

O cabeludo, acompanhado de seus músicos, abriu a noite brasileira de espetáculos e colocou a casa abaixo, sendo insanamente aplaudido de pé por mais de quinze minutos. Aquilo arrasou com Elis, que entrou novamente no palco bastante nervosa, e fez um show muito tenso. 

Inesperadamente, após o encerramento do show de Elis, Claude Nobs convidou Hermeto para voltar ao palco, e totalmente de surpresa, incitou o público para que Elis também subisse. Assim, no improviso, a dupla travou um dos mais belos duelos musicais que meus ouvidos já ouviram, e que não digo nada mais além do que essa magnífica obra de Deus do que o nome das peças que encerram o álbum: "Corcovado", "Garota de Ipanema" e "Asa Branca". Procure, ouça, chore e se arrepie, por que essas três valem o investimento no LP. A versão em CD ganhou mais sete bônus: "Amor Até o Fim", "Mancada", "Samba Dobrado", "Rebento", "Águas de Março", "Onze Fitas" e "Agora Tá".



O espetáculo Trem Azul foi desenvolvido para promover o álbum Elis (1980), e foi o primeiro da cantora sem a parceria de César Camargo Mariano. A ideia do espetáculo era mostrar Elis como uma estrela, sendo o mesmo dividido em duas partes: a primeira com canções de Elis, a segunda dedicada à sucessos de Novelas da TV e a terceira com sucessos de sua carreira. O show de outubro de 1981 no Anhembi foi registrado em uma fita mono, e lançado em 1982 pela Som Livre, tendo como banda acompanhante Nathan Marques (guitarra), Luizão Maia (baixo), Téo "Picolé" Lima (bateria), Sérgio Henriques (teclados), Paulo Esteves (teclados), Nilton Rodrigues (trompete) e Otávio "Bangla" Lopez (saxofone), e ao que consta, com Elis vivendo o auge do consumo de cocaína. 

Apesar da qualidade da gravação não ser das melhores, é possível conferir o espetáculo na sua íntegra, desde o bonito poema de "Abertura", com a famosa frase "... agora eu sou uma estrela", passando por diversos clássicos, como o embalo de "Vivendo e Aprendendo a Jogar", "Maria, Maria" e "Me Deixas Louca", deixando o registro das inéditas "Flora", delicioso samba-jazz criado por Gilberto Gil, o sambão "Aqui é o País do Futebol", a suave "Valsa de Eurídice", dedicada exclusivamente ao ex-marido César Mariano, apenas com Elis e o violão de Nathan, que leva para "Unencounter (Canção da América)", arrepiando com a plateia inteira cantando junto. 

O momento dedicado para a televisão foi registrado no lado C, com os temas do Fantástico, Trapalhões e Jornal Nacional intercalados entre passagens de "Baila Comigo", "Amante à Moda Antiga", "Começar de Novo", "Menino do Rio", "Lança Perfume" e "Nove Luas", essa já no lado D. Algumas faixas passam pelo ouvinte sem deixar muitas lembranças, como as duas versões de "Trem Azul" e "Caxangá", e deixam para mim uma sensação que esse talvez não seja o melhor registro do espetáculo. 

Inclusive, não sei se por conta da qualidade da gravação (que parece um piratão), mas em algumas faixas, Elis não está com a potência vocal que conhecemos, principalmente em "Alô, Alô Marciano", "Sai Dessa",  e chegando a visivelmente falhar sua voz em "O Medo de Amar É O Medo de Ser Livre". Por outro lado, o que ela faz na agitada "O Que Foi Feito Deverá" e no bluesão "Se Eu Quiser Falar Com Deus", com Nathan Marques auxiliando na dramaticidade, é digno dos grandes momentos de sua carreira. Vale pelo registro do último espetáculo de Elis, mas acredito que devam existir escondidos outros registros desse mesmo espetáculo escondidos por aí.

O audacioso Luz das Estrelas

Em 1984, foi lançado Luz das EstrelasEsse foi um projeto bastante audacioso para a época. Os registros da voz de Elis ocorreram em 1976, em um especial para a TV na Rede Bandeirantes, e que ficaram engavetados até Rogério Costa (irmão de Elis) procurar a gravadora Som Livre e idealizar Luz das Estrelas. A gravadora então rearranjou as canções daquele programa, trazendo uma linguagem aproximada para os anos 80. O trabalho para extrair apenas a voz de Elis daquelas fitas originais, e inserir um novo instrumental, foi considerado revolucionário, e até hoje, o álbum é tido como um pioneiro na questão de edição de som. 


Capa do relançamento de Luz das Estrelas

Composto a maioria de músicas inéditas, os principais atrativos ficam por conta das baladas "No Dia Em Que Eu Vim Embora", "Bodas de Prata" e "Velho Arvoredo", a revisão jazzística da arrepiante "Doente, Morena" e a sensacional interpretação de Elis para "Corsário", que merecia um arranjo um pouco melhor - sinceramente, o arranjo dado para a canção e o saxofone oitentista prejudicou bastante - além de "Pra Lennon e McCartney", uma singela homenagem aos ex-beatles. Mas também existem alguns deslizes, como o desnecessário arranjo de sintetizadores em "Mestre Sala dos Mares", a orquestração de novela global em "Triste" ou os sambas nada empolgante de "A Banca do Distinto" e "Gol Anulado". Um álbum que se fosse lançado como sua versão original, teria mais atrativo musical, mas por outro lado, tem sua importância pela questão de evolução no processo de mixagem de canções no Brasil, que também foi lançado com uma capa diferente.



Elis Ao Vivo foi lançado em comemoração aos 50 anos da gaúcha, e apresenta Elis, grávida de 7 meses, no dia 25 de julho de 1977, no Palácio Anhembi, durante o show Fino da Música, promovido pela Rádio Jovem Pan. Calibradíssima e com uma banda que transpirava inspiração, formada por César, Hélio Delmiro (gutiarra), Crispia del Cistia (guitarras), Toninho Pinheiro (percussão), Dudu Portes (bateria), Luizão Maia (baixo), o álbum faz a divulgação de Elis, que estava prestes a ser lançado, contendo seis das dez canções daquele álbum. Ele arranca de cara os ouvidos do fã com "Como Nossos Pais" estufando as membranas das caixas de som, além de resgatar a versão bluesy de "Vida de Bailarina", do grande esquecido, mas vitorioso (segundo Elis) Chocolate (Dorival Silva), o embalo sensual do bolero "Dois Pra Lá, Dois Pra Cá" e também traz uma gostosa versão para "Madalena" e com a participação de Ivan Lins, que toca piano na bela "Qualquer Dia", uma das novidades para a época, ao lado do samba "Morro Velho", o rock-viagem de "Colagem", com o pedal de volume funcionando direto, a o estonteante moog de "A Dama Do Apocalipse", a forte "Transversal do Tempo" e a primeira apresentação oficial de "Romaria" para o público, já que o álbum ainda não havia sido lançado na época, além da impressionante "Cartomante", que encerra o álbum deixando a sensação da certeza no carisma e na capacidade vocal de Elis, e com a participação de João Bosco, Ivan Lins e Claudio Lucci na voz. Agora, impressionante mesmo é ver toda a potência vocal de Elis, trazendo dos sulcos do vinil para o palco a grandeza de "Travessia", o embalo de "O Mestre Sala dos Mares", com participação de João Bosco, a emoção do inédito bolero "Cadeira Vazia", o embalo da bossa "Triste". Depois de Transversal do Tempo (1978), para mim é o melhor dos registros ao vivo de Elis.



Registrado em setembro de 1979 no Palácio Anhembi em São Paulo, Elis Vive marca o início da turnê de Elis, Essa Mulher, já que seis das dez canções de Elis, Essa Mulher estão aqui, com Elis acompanhada por César, Don Chacal (percussão), Robertinho Silveira (guitarra), Crispin del Cistia (guitarra, teclados), Luiz Moreno (bateria) e Nenê Benvenuti (baixo), destacando o ritmo samba-choro de "Basta de Clamares Inocência", diferente da versão registrada no vinil, o clássico "O Bêbado e a Equilibrista", aplaudidíssima pelos presentes, a dupla intimista "Essa Mulher" e "As Aparências Enganam", com arranjos peculiares, tendo a última somente a voz de Elis e os teclados de César, e a aula de samba com a dupla "Eu, Hein Rosa" e "Cai Dentro", transmitindo uma energia contagiante. O show mostrou como novidades a bonita "Lembre-se", que só foi lançada aqui nesse disco, uma breve apresentação de canções que fariam parte do espetáculo Saudade do Brasil, no caso "Mundo Novo, Vida Nova", "Agora Tá", "Menino" e "Onze Fitas", e a ignorância sonora de "Corsário", que chegou aos fãs no citado Luz das Estrelas (1984) e aqui, para mim a melhor interpretação de Elis nesse show, com uma força impressionante em sua voz, ao lado do sempre bem-vindo baixo de Luizão Maia, um dos baixistas mais menosprezados de nossa música, lembrando-me com "Um Por Todos" que João Bosco e Aldir Blanc, autores das canções citadas, precisam passar pela minha vitrola urgentemente, tamanha a beleza dessas criações. Outros grandes momentos ficam por conta da revisão para a bela "Comadre", bem como a perfeita e angustiante versão de "Conversando no Bar", na qual os teclados e o baixo são sobressalientes junto da bela voz de Elis. Complementam a apresentação o Medley com canções de Milton Nascimento ("Ponta de Areia", "Fé Cega, Faca Amolada" e "Maria, Maria"). Belo disco, que ainda conta com a faixa-bônus "Moda de Sangue", bem diferente do registro de Saudade do Brasil.



Existe uma número infinito de coletâneas póstumas que o ouvinte pode iniciar-se na obra da pimentinha. A principal delas é a gloriosa caixa de 4 LPs Elis Regina Carvalho Costa, lançada em 1982, acompanhada de um livreto muito interessante. Em 1984 saiu Elis Vive (não confundir com o álbum ao vivo de mesmo nome), que apresenta material entre 1966 e 1980, concentrando-se essencialmente em grandes sucessos, e Elis Por Ela (1992). Outras coletâneas que trazem muitos clássicos são O Prestígio de Elis Regina (1983), Personalidade (1987), Elis - O Mito (1993). 20 Anos de Saudade (2002) é bom para quem quer conhecer canções raras, lançadas principalmente em compactos ou nos álbuns especiais de Festivais, assim como Pérolas Raras (2006), a qual concentra-se essencialmente em unir os compactos mais importantes lançados na carreira de Elis.

Para os completistas, vale a pena buscar o álbum Adoniran Barbosa - Documento Inédito (1984), o qual traz registros de Elis feitos com o famoso sambista paulista, que são "Prefixo Fino da Bosa" "Saudosa Maloca" e "Bom Dia, Tristeza", e também a coletânea especial Nada Será Como Antes - Elis Interpreta Milton Nascimento (1984).

Espero ter trazido para o fã e o ouvinte que quer conhecer a carreira de Elis toda a importância de sua obra, e, caso alguém tenha sugestões, por favor, os comentários estão aqui para isso. O importante é o Brasil (e por que não o mundo) não esquecer que uma das maiores vozes do mundo saiu de nosso país, e que o preconceito muitas vezes nos leva a desconhecer aquilo que é exatamente o que ideologicamente consideramos a perfeição.

domingo, 26 de abril de 2015

Elis Regina - Parte V



O casal Elis Regina e César Camargo Mariano desfrutaram do sucesso de Falso Brilhante, mas não baixaram a guarda. Enquanto excursionavam com o espetáculo, aclamado em todo o Brasil, preparam material para um novo álbum, e também um novo espetáculo, gerando mais dois álbuns essenciais. Após o lançamento de ambos, uma polêmica envolvendo o casal e a Philips colocou a imagem principalmente de Elis no ventilador, porém, uma série de três lançamentos soberanos colocaram novamente a gaúcha no topo das estrelas.

A clássica "Romaria" está registrada no álbum homônimo de 1977
O primeiro álbum pós-Falso Brilhante retomou os títulos homônimos. Lançado em 1977, Elis foi desenvolvido durante o espetáculo Falso Brilhante, e mantém o mesmo nível rocker de seu antecessor. Acompanhada por César (piano, grande piano, Hammond, orquestrações e arranjos), Nathan Marques (guitarras, violão, viola, voz), Crispin Dell Cistia (guitarra, violão, viola, teclados), Wilson Gomes (baixo) e Dudu Portes (bateria, percussã0), Elis brinca com vários estilos, e deixa registrado nos anais da Música Popular Brasileira a clássica e definitiva versão de "Romaria", uma de suas interpretações mais célebres, ao lado de "Arrastão", "Como Nossos Pais", "Águas de Março", "Fascinação" e "O Bêbado E A Equilibrista", tendo o acompanhamento do Grupo Água, formado por Renato Teixeira (autor da canção) no violão e voz, Carlão na viola e voz, Sérgio Mineiro na flauta e voz e Márcio Werneck na flauta. 

O instrumental do LP passeia por inspirações progressivas, como a visível influência de Genesis em "A Dama do Apocalipse", na qual o moog e a utilização do mesmo timbre da guitarra de Steve Hackett por parte de Nathan fazem o ouvido fácil fácil achar que estamos ouvindo algo de Wind and Wuthering ou A Trick of the Tail, e a cantora lembra Secos & Molhados na primeira parte de "Colagem", que possui para mim o grande momento do LP, com as viagens progressivas tipicamente Yes onde Nathan abusa do pedal de volume na melhor linha Steve Howe no trecho "Soon" de "The Gates of Dellirium", entre longas camadas de teclados que sufocam a angustiante voz de Elis. 


Elis, sorrindo com o sucesso

Ouvir Elis na verdade causa uma sensação de delírio e confusão pelas primeiras vezes, por que em nada temos de parecido em álbuns consagrados, já que o LP vive de momentos intensos como outros muito amenos, apresentados na balada "Sentimental Eu Fico", com uma ótima participação de César ao piano, na flamenca "Vecchio Novo", destacando o baixo de Wilson, e a forte faixa-título, pequena amostra do que apenas duas pessoas são capazes de fazer com seu cérebro, quando acompanhados por um time de excelência. O que Elis canta nessa faixa já vale o álbum, e as intervenções do moog e piano de César são uma lisergia à parte. 

O LP também contém várias participações especiais, que vão de Ivan Lins no piano e vozes da dolorida "Qualquer Dia", e na alegre "Cartomante", essa com Thomas Roth, Lucinha Lins e Zé Luiz fazendo vocalizações, e Nathan novamente delirando com o pedal de volume, e Milton Nascimento fazendo vocalizações e tocando violão na bela versão de "Caxangá", bem como também ao violão na emocionante revisão para "Morro Velho", essa com a majestosa contribuição de Antonio Carlos Dell Claro no violoncelo. Um destaque interessante nesse LP, relançado em CD em 1993, vai para a citação às marcas dos instrumentos usados pelos músicos, com o uso das guitarras Les Paul e Fender, bem como o exclusivo uso do baixo Rickenbacker, o que só enaltece ainda mais a forte ligação do casal Elis e César com o rock setentista.

Pedro Mariano, Maria Rita e Elis Regina, em 1978


Em 09 de setembro de 1977 nasce o terceiro filho de Elis Regina, e o segundo do casal, no caso Maria Rita, hoje famosa cantora de nosso país.  O nascimento de Maria Rita não atrapalhou a divulgação daquele que considero o maior espetáculo realizado por Elis e César, o qual estreiou em 17 de novembro de 1977 no Teatro Leopoldina, em Porto Alegre, e gerou aquele que é o melhor álbum ao vivo nacional da década de 70, Transversal do Tempo.


Excepcional álbum ao vivo, o melhor de um artista brasileiro na década de 70

Para a falar a verdade, eu gostaria mesmo de colocar esse disco aqui e deixar o ouvinte ouvi-lo, por que palavras não irão descrever o que Transversal do Tempo me causa. Gravado ao vivo no Teatro Ginástico do Rio de Janeiro, entre 6 e 9 de abril de 1978, em uma temporada que durou três meses com a companhia de Nathan, Crispin, Dudu e Fernando Sizão (baixo), temos um disco complexo, em uma lisergia e potência que não há em nenhum outro álbum de Elis. Basta ouvir o que o grupo faz na magistral e intrincada versão para a épica "Deus Lhe Pague" (Chico Buarque), com um peso absurdo, a raivosa voz de Elis e as marcações que fariam Frank Zappa aplaudir o arranjo em pé, ou então a assustadora e esquizofrênica versão para "Construção", escondida perfeitamente após a alegre revisão para "O Rancho da Goiabada", e que deve ter feito Chico Buarque cair do sofá com os gritos e percussões que encaixariam-se perfeitamente na trilha sonora de um filme de terror, entre a esplêndida e fulminante voz de Elis, as notas ácidas de Nathan e os viajantes acordes de hammond, em uma faixa que a palavra "viagem" a define muito bem. Nathan aliás dá seu espetáculo à parte fazendo o dedilhado do violão da linda "Meio Termo", a interpretação mais cativante de Elis no álbum, já que somente com o violão ao fundo, a pimentinha dá um show de dramaticidade e emoção, complementadas por uma viajante sessão de encerramento com percussão e  um acorde longo de hammond, que conduzem-nos para a incrível "Corpos", na qual os efeitos de teclados e da guitarra, além do peso da cozinha baixo/bateria, auxiliam Elis a alcançar notas altíssimas, variando da intensidade progressiva para o melhor do jazz rock. 

Logo no início do álbum, o moog e o mellotron de César mostram que o objetivo é colocar o normal para baixo, desconstruindo a clássica "Fascinação", com Elis rasgando a garganta. Mas se você quer mesmo ver o que é desconstruir um clássico, ouça a tecladeira hipnotizante de "Boto" (Tom Jobim), ou Elis Regina chorando ao microfone na psicodélica versão do tradicional samba paulista "Saudosa Maloca". Put@ que o P@riu!, como é que é possível alguém conseguir fazer algo tão sinistro e condizente com a letra depois de ficar praticamente marcado à ferro no nossos ouvidos a alegre versão do Demônios da Garoa? Que grandiosa versão, para mim, definitiva, e que só por ela já vale o LP. 


Espetáculo "Transversal do Tempo", talvez o melhor da carreira de Elis

O casal mostra uma intimidade arrepiante na complicada "Sinal Fechado", apenas com Elis soltando os pulmões entre as variações de intensidade do piano de César, na ótima "Cartomante", trazendo as mesmas características de sua versão do álbum de 1977, ou então, acalma os ânimos na intimista "Cão Sem Dono", além de divertir com o samba da complicadíssima letra de "Querelas do Brasil". Para resumir esse discaço, relançado em CD em 1989, fico com as palavras de Aldir Blanc: " ... muitos entenderam e gostaram, muitos entenderam e não gostaram, outros gostaram e não entenderam, e alguns não entenderam e não gostaram. Então, o show deve ser bom". Na verdade, o show é digno do nome ESPETÁCULO, com letras garrafais.

O espetáculo Transversal do Tempo percorreu o mundo, sendo apresentado no Rio Grande do Sul, Paraná, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco e Ceará, além de Itália, França e Espanha, sendo a apresentação no Teatro Lírico de Milão considerada o zênite dessa temporada europeia. Por outro lado, a gravadora Philips pretendia lançar  um segundo volume de Transversal do Tempo, já que no espetáculo eram apresentadas normalmente vinte e cinco canções, e no próprio registro oficial, ficamos com a sensação de que algumas canções foram podadas, mas Elis acabou se desligando da gravadora por desentendimentos com seu antigo parceiro e agora produtor Roberto Menescal, com o projeto sendo infelizmente cancelado. 


Disco lançado contra a vontade da Pimentinha,
trazendo sobras de Elis (1972) e Elis (1973)
Elis assinou com a WEA, mas em revelia, a Philips acabou resgatando material inédito no álbum Especial. Este disco contém onze faixas que não foram lançadas nos álbuns Elis (1972), Elis (1973) e Elis & Tom (174), , e traz de tudo um pouco. Temos o samba alegre "Noves Fora", o samba-jazz "Entrudo", com um ótimo arranjo de cordas, a intimista "Violeta de Belfort Roxo", e as perfeitas revisões para "Credo" (Milton Nascimento) e a linda "Joanna Francesa" (Chico Buarque), que seria originalmente lançada na trilha do filme homônimo de Cacá Diegues (filme aliás, fracasso comercial, mas que ainda está para ser descoberto pelos amantes da cinematografia brasileira). A novidade sonora fica para a onda disco de "Ou Bola Ou Búlica", uma das letras mais complicadas de João Bosco e Aldir Blanc, com Elis mostrando uma agilidade fantástica, e a magistral balada "Deixa O Mundo E O Sol Entrar". 

Acho perfeita a versão de "Bodas de Prata" (também de João e Aldir) e o crescendo da belíssima "Valsa Rancho", canções que por si só já valem a aquisição desse álbum na discografia da Elis. A quebrada "Dinorah, Dinorah" e a versão em inglês da bossa "Bonita" (Tom Jobim) complementam Especial, que não é um grande disco se comparado aos outros álbuns lançados durante o período ao lado de César, mas ao mesmo tempo, seria uma lástima se os fãs acabassem desconhecendo versões tão relevantes como "Valsa Rancho", "Ou Bola Ou Búlica", "Deixa O Mundo E O Sol Entrar", "Credo" e "Joanna Francesa". Relançado em CD em 1994.


Elis e os cabelos black-power de 1974

Elis ficou put@ da vida com esse lançamento, mas a gravadora argumentou que pelo contrato feito com a cantora, ela ainda devia dezesseis canções para a gravadora. 

Onze saíram em Especial, e as restantes foram acordadas com a seguinte distribuição: "O Que Foi Feito de Vera", "Sabiá" e "Yesterday", canções registradas para os álbuns Elis (1977), Elis & Tom (1974) e um compacto simples, respectivamente, nunca foram lançadas oficialmente, mas estão em poder da Philips. Já "No Dia Em Que Eu Vim Me Embora" e "Para Lennon e McCartney" foram posteriormente lançadas no álbum póstumo Luz das Estrelas, lançado pela Som Livre, como veremos na última edição desta Discografia.


O álbum com o Hino da Anistia: "O Bêbado e a Equilibrista"
O disco de estreia do casal pela WEA foi Elis, Essa Mulher, em 1979, que tem a banda de apoio formada por Luizão Maia (baixo), Hélio Delmiro (violão, guitarra), Paulinho Braga (bateria), Cidinho (percussão), além de arranjo de metais com os músicos Maurílio e Márcio Montarroyos (trompete), Edmundo Maciel (trombone), Zé Bodega (saxofone), Celso, Mauro, Jorginho, Jayme e Altamiro (flautas), bem como a orquestra de cordas da WEA, e trouxe mais um grande clássico para a já imensa coletânea de sucessos da pimentinha, no caso a eterna versão de "O Bêbado E A Equilibrista", de João Bosco e Aldir Blanc. Essa canção, com uma letra enorme e complicada, mas com uma melodia encantadora, tornou-se o hino da anistia, e colocou Elis como uma das referências artísticas contra a ditadura, algo que ela havia lutado e muito durante os anos 70, mas deixando um pouco a pulga atrás da orelha para os fãs se ela era uma aliada ou contrária ao regime militar. 

Além do clássico, Elis, Essa Mulher é um álbum muito maduro e romântico, com temas bastante voltados para a intimidade feminina, concentrando-se principalmente nas relações amorosas, tendo a única exceção "O Bêbado E A Equilibrista", por que no mais, temos a fantástica revisão para "Basta de Clamares Inocência", samba tradicional de Cartola transformada em um jazz de cortar os pulsos, levada pelo groove de Luizão Maia, as baladas "Altos e Baixo" e "As Aparências Enganam", essa com uma excepcional performance de César ao piano, os boleros "Beguine Dodói" e "Bolero de Satã", com participação especial de Cauby Peixoto, e a dolorida "Essa Mulher", com a participação de Joyce no violão. 


Elis em 1979, mais madura e mais mulher

Por outro lado, depois de algum tempo Elis resolveu voltar aos grandes sambas, com uma empolgante versão para "Eu Hein Rosa" e a agitada "Cai Dentro", ambas tendo a participação de Jorge Luiz, Carlinhos e Ronaldo da Mocidade no agogô, repique e pandeiro, respectivamente, além do naipe de metais citado, e o samba-choro "Pé Sem Cabeça". O álbum, relançado em 1987 na versão digital, levou Elis novamente para a Europa, tendo destaque shows na Bélgica (ao lado de Toots Thielemans) e no 13° Festival de Jazz de Montreux, na Suíça, onde realizou uma inesquecível jam session ao lado de Hermeto Pascoal, além de uma rápida passagem pelo Japão.
Registro duplo com o aclamado espetáculo Saudade do Brasil

Depois da bem sucedida turnê pela Europa, e da mini-turnê nipônica, o casal trouxe Elis, Essa Mulher para o Brasil, e começou a montar o espetáculo Saudade do Brasil, com o objetivo de tornar o Brasil ainda mais brasileiro, redescobrindo uma brasilidade que, segundo a própria, foi perdida durante a ditadura militar. Com uma super banda formada por Nathan Marques (guitarras, violão), Kzam (baixo, violão), Sagixa (bateria), Bocato (trombone), Sérgio Henriques (teclados), Nonô Camargo (trompete), Cláudio Faria (trompete), Octavio Bangla (saxofone e clarinete), Lino Simão (saxofone), Paulo Garfunkel (flauta, clarinete, saxofone), Chiquinho Brandão (flauta) e Chacal (percussão), além de um grupo de 11 bailarinos, o mesmo estreou em janeiro de 1980 em São Paulo, e logo foi extremamente aclamado por público e mídia. A WEA oferecu a oportunidade de o casal registrar o espetáculo em um disco ao vivo, mas Elis preferiu gravar tudo em estúdio, e assim, nasceu seu primeiro e único álbum duplo, Saudade do Brasil. Em pouco mais de uma hora de duração, o álbum é dividido em momentos intensos e outros de profunda intimidade. 

O lado A é de tirar o fôlego, começando com a longa instrumental "Abertura", com um andamento veloz e um ótimo arranjo de César, que intercalou canções conhecidas da pimentinha como "Arrastão" e "Lapinha" entre um maravilhoso naipe de metais, e seguida pela vinheta "Terra de Ninguém", leva para a magistral sequência "Maria, Maria", "Agora Tá" e "Alô, Alô Marciano", essa última repleta de brincadeiras no estilo de cantar de Elis, debochando da "high society" citada na canção. 


Encartes do Box Saudade do Brasil

O lado B é mais suave, com a latina "Canção da América", onde a voz de Elis é tão suave quanto uma pluma, a dolorida "As Aparências Enganam", muito mais sofrida do que a registrada em Elis, Essa Mulher, graças ao arranjo orquestral criado por César, a tocante "Moda de Sangue", em outra sensacional interpretação da gaúcha. O samba "Marambaia" e a infantil "O Primeiro Jornal" destoam do clima ameno deste lado, e particularmente, considero a última uma das canções mais fracas registradas pela cantora. 

O lado C resgata o clima apreensivo e progressivo da turnê de Transversal do Tempo, e desprezando-se a vinheta "Presidente Bossa Nova", temos a ótima releitura para "Conversando No Bar", totalmente diferente da versão de Elis (1974), a arrepiante "Onze Fitas", na qual os efeitos dos teclados de César são simplesmente insanos, uma entrega total de Elis para "Menino" e a triste e comovente, mas com a melhor interpretação de Elis no álbum, "Aos Nossos Filhos", uma das letras mais belas de Ivan Lins. 

O lado D é o que mais gosto, principalmente por que é o mais surpreendente, com a intimista "Sabiá", de Tom Jobim, apenas com Elis e o piano de César, a assustadora "Aquarela do Brasil", com um coro de vozes e percussão remetendo-nos às tribos indígenas, enquanto Elis manda ver na tradicional peça de Ary Barroso, duas canções de Gonzaguinha, sendo a linda  e clássica "Redescobrir", trazendo seu imortal coro de vozes cantando "como se fora a brincadeira de roda" e a estonteante montagem para "Mundo Novo, Vida Nova", e a fantástica "O Que Foi Feito Deverá", mais uma canção de Milton Nascimento, outro artista que um dia irei tomar coragem de trazer sua vasta discografia para essas páginas. Saudade do Brasil foi lançado originalmente em um box com livreto e encartes especiais, em tiragem limita de de 25 mil cópias, e posteriormente, foi relançado em dois volumes (Saudade do Brasil Vol. 1 e Saudade do Brasil Vol. 2), misturando a sequência de canções da versão original.


Arrepiante sequência de imagens de Elis debulhando-se em lágrimas em "Atrás da Porta"

É importante ressaltar que no meio das gravações do álbum, o casal teve seu relacionamento passando por turbulências, chegando a se separar por algumas semanas. Mas após uma linda homenagem realizada por Elis durante o especial da Rede Globo Elis Regina Carvalho Costa, na qual primeiro ela debulha-se em lágrimas durante "Atrás da Porta", naquele que é um dos momentos mais marcantes da TV brasileira, e depois, sentada ao lado de César no piano, faz misérias com "Rebento", o casal reconciliou-se, propiciando assim a criação da última obra oficial registrada pela gaúcha enquanto viva. 

Essa magistral apresentação pode ser conferida no DVD que leva o nome do especial, que inclusive, foi relançado em formato box em 2007.

A despedida para os fãs

Elis saiu da WEA, e assinou com a EMI-Odeon, que em dezembro de 1980 lançou Elis, álbum dedicado à Rita Lee e que traz alguns nomes que se consagrariam nos anos 80, como Beto Guedes, Guilherme Arantes e os irmãos Borges. A banda de apoio conta com Nathan Marques (guitarra, baixo, violão), Sergio della Monica (percussão), Picolé (bateria), Pisca (violão) e Pedro Baldanza (baixo), e temos nele a dançante "O Medo de Amar É O Medo de Ser Livre", de Beto Guedes, a balada "Só Deus É Quem Sabe" (Guilherme Arantes), os sambas "Sai Dessa" e "Calcanhar de Aquiles", que abrem e fecham o LP respectivamente, e o bolero "Nova Estação", com a participação de Kzan no baixo e Chico Batera nas marimbas. 

A perfeita versão de "O Trem Azul", de Lô Borges, conta com a participação de José Roberto no saxofone, Lô Borges esse que participa de "Vento de Maio" (Telô e Márcio Borges) cantando de forma incidental "Um Girassol da Cor de Seu Cabelo", enquanto "Vivendo e Aprendendo a Jogar" (Guilherme Arantes) é um funk dançante influenciado pela cena disco. Este álbum contém o último grande momento de Elis com César, a linda bluesy "Rebento", (Gilberto Gil), com Elis emocionada acompanhada pelo magistral piano de César, fazendo até surdo chorar. 


Todo o material do box Elis

Considerado um álbum fraco quando de seu lançamento, hoje ele é admirado e consagrado como uma das principais obras do casal, mas particularmente, não entra em um Top 5 do que foi feito pela dupla nesse período, apesar de "Rebento" ser incrível. Elis foi relançado em CD em 2002, trazendo como bônus "Tiro ao Álvaro", "Se Eu Quiser Falar com Deus", "O que Foi Feito Devera (de Vera)" e "Outro Cais", e em 2007, ganhou uma belíssima caixa especial da Odeon para homenagear o único lançamento da artista pelo selo, trazendo como bônus a última participação de Elis em um programa de TV, o especial Jogo da Verdade da TV Cultura, que foi ao ar nove dias antes de sua morte. A despedida de Elis é uma obra que marcou por ser também o fim do relacionamento do casal, que se separou oficialmente em 1981, deixando um legado de onze discos essenciais.

O casal César Camargo Mariano e Elis Regina
Depois de uma breve temporada por Chile, Estados Unidos (onde quase foi registrado um álbum com Wayne Shorter, o que não vingou por que a gaúcha teve mais um dos vários desentendimentos que levaram a criação de seu apelido por Vinícius de Moraes) e da estreia do festival Trem Azul, o primeiro sem César, a cantora saiu da WEA para assinar com a Som Livre, por onde não chegou a lançar nenhum álbum oficial. No dia 19 de janeiro de 1982, depois de uma overdose de cocaína e álcool, a cantora é encontrada morta no seu apartamento pelo então namorado Samuel Mac Dowell. Era o fim da vida de Elis, que entrou para a eternidade como a maior e mais talentosa voz do Brasil.

Nesse período, foram lançada as coletâneas O Melhor de Elis (1979) e Elis Regina e Seus Amigos em Encontros Históricos (1981), bem como os compactos "O Bêbado E A Equilibrista" / "As Aparências Enganam" (1979), o primeiro em cinco anos, "Alô, Alô, Marciano" / "No Céu da Vibração" (1980), "Se Eu Quiser Falar Com Deus" / "O Trem Azul" (1980) e "Me Deixas Louca / Baby Face" (1982). Elis também participou de alguns álbuns, cantando "O Que Foi Feito Devera" no álbum Clube da Esquina 2 (1978), "Outros Cais", no álbum Os Borges, do grupo formado pela família Borges - Lô, Yé, Márcio, Marilton e Telo - (1980), "Tiro ao Álvaro" no álbum Adoniran Barbosa e Convidados (1980), "O Pequeno Exilado" no álbum homônimo do gaúcho Raul Ellwanger (1980), "A Corujinha", do álbum A Arca de Noé (1980), além de ter inseridas em trilhas de novelas as canções "Fascinação" (O Casarão, 1976), "Altos e Baixos" (Água Viva, 1980), "Moda de Sangue" (Coração Alado, 1980) e "Me Deixas Louca" (Brilhante, 1981).

Em quinze dias, irei trazer os álbuns póstumos lançados em nome de Elis com material inédito, bem como um apanhado geral das coletâneas que podem introduzir o ouvinte ao maravilhoso mundo dessa bela discografia da pimentinha, encerrando então nossa homenagem para a ainda hoje Maior Voz do Brasil.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...