segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Rick Wakeman: Journey to the Centre of the Earth e Arthur on Ice Tours



A turnê de Tales From Topographic Oceans corria a solta, e o choque de egos entre os membros da banda aflorava. Na verdade, o Yes nunca foi a megalomania que todos falavam, já que Chris Squire e Alan White sempre foram modestos em relação a suas habilidades. Os que se achavam realmente os maiorais eram Steve Howe, Jon Anderson e Rick Wakeman (com o passar dos anos, Anderson caiu na real, mas vendo os vídeos de Howe e Wakeman nos dias de hoje constata-se cada vez mais que, para falar com eles, você precisa de uma autorização de São Pedro).

Como Tales havia sido concebido pelas cabeças de Anderson e Howe, Wakeman se sentia muito afastado (para não dizer p... da cara) com toda a mídia cozinhando o arroz da linha de frente do Yes, e, assim, dava declarações polêmicas sobre o álbum, dizendo que não curtia o som e que aquilo tudo não passava de uma viagem sem inspiração da banda, que levaria ao fim do grupo.

Na verdade, Wakeman não estava nada contente em não ser mais o centro das atenções, lembrando que, ao entrar no Yes, ele foi um dos principais responsáveis pela mudança sonora que a banda sofreu, incluindo vários instrumentos, como o moog e o mellotron, que o tecladista anterior, Tony Kaye, não tocava. Obviamente, a mídia creditava grande parte da evolução do Yes pela entrada de Wakeman, que como bom megalomaníaco adorava ver seu ego massageado. Com o lançamento de
The Six Wives of Henry VIII (1973), Wakeman ganhou glórias e mais glórias da mídia britânica, mas isto não ocorria mais na época de Tales From Topographic Oceans, e o tecladista estava decidido a mostrar ao mundo que ele, Rick Wakeman, era maior do que o Yes.



Assim, enquanto Anderson e Howe se preocupavam em encaixar cada peça das suítes de Tales, Wakeman resolveu investir em sua carreira solo, construindo um ambicioso projeto, que era uma peça teatral em homenagem a uma das obras de Julio Verne. Em menos de um mês, Wakeman apresentava para a gravadora A&M inglesa o seu novo trabalho: Journey to the Centre of the Earth. Os rascunhos indicavam um disco duplo, com apenas uma música (se Anderson e Howe fizeram uma música de 80 minutos juntos, porque Wakeman não poderia fazer isso sozinho?), narrando todo o livro do autor francês.

Além disso, o recheio da obra estava escondido sob um coral, orquestrações e um livro recheado de ilustrações e as letras do projeto. Obviamente, a gravadora britânica vetou a ideia, pois o custo era altíssimo. Mesmo com algumas bandas já tendo contratado orquestras para gravações (Moody Blues, Pink Floyd, Deep Purple), a A&M não estava disposta a bancar seu dinheiro para investir em um projeto que, da forma que estava, tinha tudo para dar errado.

A solução encontrada por Wakeman foi viajar até os Estados Unidos, e lá convencer os produtores americanos da A&M a realizarem a obra. No final, tanto a A&M americana quanto inglesa resolveram apoiar o projeto, desde que ele fosse encurtado para um disco simples, sem o tal álbum de ilustrações, e que fosse gravado ao vivo, o que diminuiria bastante em termos de horas em estúdio, ainda mais se o ingresso fosse cobrado.



Assim, no dia 18 de janeiro de 1974 (em uma pausa da turnê de Tales From Topographic Oceans), o show foi realizado e gravado no Royal Festival Hall de Londres, contando com a participação da Orquestra Sinfônica de Londres e o Coral de Câmara Inglês (os quais foram regidos por David Measham), uma banda formada por Gary Pickford-Hopkins e Ashley Holt (vocais), Mike Egan (guitarras), Roger Newell (baixo) e Barney James (bateria), além de um narrador, David Hemmings. Os arranjos ficaram a cargo de Danny Beckerman e Wil Malone, com o próprio Wakeman dando seus pitacos.

O show foi de extremo sucesso, tanto de crítica quanto de público. Quem participou recebeu um livro que, além do programa, contava as principais partes do que iria ocorrer, histórias sobre os membros da banda e, ainda, que o projeto estava sendo gravado e pronto para ser lançado em abril daquele ano. Na oportunidade foram executadas as seguintes músicas: "Sinfonia No 1 in D Minor - Opus 13, de Rachmaninov"; "Catherine Parr"; "Improviso 1"; "Catherine Howard"; "Anne Boleyn"; "Improviso 2" e a peça central, "Journey to the Centre of the Earth".

Mas após o evento o Yes voltava à tona com a parte americana da turnê de Tales From Topograhic Oceans. Com a agenda já cheia (e Tales subindo sem parar nas vendas), Wakeman e a A&M engavetaram o projeto por um tempo. Na verdade, Wakeman voltou a surtar, exigindo que o álbum fosse lançado de forma quadrifônica e requerendo novamente a presença do livro de ilustrações, e a A&M britânica não estava nada satisfeita com tudo aquilo. Além disso, o tecladista estava bastante empolgado com a receptividade do público para os efeitos que vinham sendo apresentado na turnê do Yes, e demonstrava um claro interesse em excursionar com o projeto de Journey em uma forma bem diferente dos demais projetos que a gravadora já havia feito.

Com o término da turnê de Tales From Topographic Oceans (e com os bolsos recheados de dinheiro), Wakeman pediu as contas do Yes e decidiu voltar suas atenções para o projeto de Journey to the Centre of the Earth. Ao saber da negativa da A&M britânica, novamente Wakeman recorreu aos EUA. Como o nome de Wakeman havia subido bastante por lá, os americanos resolveram bancar a loucura do tecladista e, assim, investiram no lançamento do álbum e também na turnê de promoção do mesmo.



Em maio de 1974 chegava às lojas o álbum Journey to the Centre of the Earth, com a gravação realizada em janeiro daquele ano. O disco vinha em duas versões, uma com o formato de gravação normal e outra com gravação quadrifônica (surround sound) com o sistema CD-4, sendo o primeiro da gravadora a ser feito desta forma. A versão quadrifônica é raríssima, mas para quem tem fica clara a diferença, mesmo quando o LP é ouvido em um sistema de dois canais.

Não se detendo em detalhes, a obra contida nos sulcos de Journey é uma mistura dos planos iniciais de Wakeman, e, para quem conhece o livro, nota-se a ausência de algumas partes, enquanto outras estão fora de ordem (principalmente em termos das letras). Dividido em quatro partes ("The Journey", "Recollection", "The Battle" e "The Forest"), o álbum trazia grandes sequências instrumentais (com Wakeman sendo o principal protagonista, logicamente) intercaladas por diversas narrações e partes cantadas, ora pelo coral, ora pelos vocalistas. Particularmente, acho o disco musicalmente fraco perto de The Six Wives of Henry VIII e The Myths and Legends of King Arthur and The Knights of the Round Table (gravado em outubro de 74 e lançado em maio de 1975), mas gostos são gostos, e não há de se negar que ouvir "The Forest" é sempre uma boa experiência. Além disso, o livro contém belas ilustrações, e assim como o livro de King Arthur, é uma das peças obrigatórias nas coleções de rock progressivo.

O disco foi um sucesso, e até hoje já vendeu mais de 14 milhões de cópias em todo o mundo, sendo que alcançou em pouco mais de uma semana o topo de vendas nos charts ingleses. Com o sucesso do álbum, Wakeman partiu para a segunda parte de seu projeto, que era a ambiciosa turnê de promoção do mesmo.

Com o dinheiro da A&M americana, Wakeman investiu em trazer os temas não para o palco, mas para a plateia. Assim, a Journey Tour começou pela América do Norte, passando por Europa, Japão e Austrália.



O set list variava bastante, até por que durante a turnê Wako construía The Myths and Legends of King Arthur and the Knights of the Round Table e também começava a elaborar o que viria a ser a trilha de Lisztomania. No início a tour contava com canções de The Six Wives of Henry VIII - "Catherine Parr", "Catherine Howard" e "Anne Boleyn" -, para só então serem apresentadas as quatro peças de Journey to the Centre of the Earth.

E era justamente nessa parte que o bicho pegava. Wakeman contratava um narrador da língua local de cada país para tornar mais fácil a "degustação da obra". Além disso, a ideia inicial era ser acompanhado sempre pela mesma orquestra, mas os altos custos de se hospedar e levar em viagem mais de 300 pessoas acabaram fazendo com que em cada país uma orquestra e um coral fossem contratados, aumentando um pouco as despesas. Fora isso, um material carregando "surpresas" para o público era levado em todos os shows, e tratado com especial atenção por todos os participantes do evento.

A apresentação de Journey to the Centre of the Earth começava com uma pequena narração, explicando onde o fato da história havia ocorrido em 1863 (Vulcão Sneffels, na Islândia), seguido dos acordes da orquestra e a letra na íntegra de "The Journey", tendo como pano de fundo uma gigantesca pintura do vulcão. As narrações seguem, com o narrador sempre em uma posição de destaque, bem na frente do palco, inclusive quase em frente a Wakeman, sentando em uma luxuosa cadeira da coleção de Wako e levando para a segunda parte, "Recollection".

Já em "The Battle" um gigantesco lagarto inflável (que mais parecia um dinossauro) aparecia no canto esquerdo do palco, seguindo a linha da história de Verne. Era a grande surpresa do espetáculo. O lagarto ficava balançando durante toda a canção, enquanto do lado direito algo parecido como a cauda do lagarto (nunca consegui definir bem o que é aquilo), também inflável, surgia sobre a cabeça dos membros da orquestra.

Olhando hoje, é engraçado ver aquele estranho boneco balançando sobre a orquestra, mas na época era uma das maiores novidades que uma plateia já havia visto.

Finalmente, o narrador apresentava a última narração, para começar "The Forest", enquanto o lagarto era recolhido para sua toca.



Journey to the Centre of the Earth era apresentado na íntegra, sem nenhuma interrupção, e o final apoteótico de "The Forest" levantava a plateia com a perfeita dinâmica dos teclados de Wakeman e os instrumentos da orquestra.

Nos EUA, o show encerrava com a apresentação de Journey to the Centre of the Earth, porém no Japão e na Austrália o show prosseguia, com apresentações de "Guinevere", "Merlin" e "Sir Galahad / The Last Battle", todas de King Arthur, e ainda um solo clássico do violonista Jeffrey Crampton, mas sem nenhuma ordem de preferência ou até mesmo de apresentação das mesmas (em vários locais, algumas canções de King Arthur eram tocadas antes da apresentação de Journey).

Na América do Norte, os shows passaram por Canadá (Toronto, Montreal e Ottawa), além dos Estados Unidos (New Haven, New York, Philadelphia, Cleveland, Pittsburgh, Baltimore, Memphis, Detroit, Chicago, St Louis, Kansas, Dallas, Denver, Houston, San Francisco e Hollywood), acompanhadso pela National Philarmonic Orchestra e o Choir of America, e tendo como banda de apoio Garry Hopkins (violões e vocais), Ashley Rolt (vocais), John Hodgson (percussão), Roger Newell (baixo), Jeffrey Crampton (guitarras) e Barney James (bateria) .

Na Austrália a formação foi a mesma, contando com a Melbourne Philarmonic Orchestra e a Melbourne Chamber Choir, e na turnê japonesa Barney James foi substituído por Barry Flather, com o coral sendo feito pela Chambre Symphoniette

Os custos foram altíssimos. Em todas as cidades Wakeman contava com sua aparelhagem completa, a qual consisitia de 1 double mellotron, 2 single mellotrons, 4 moogs, 1 piano RMI, 1 piano clavinet Hohner, 1 piano Fender Rhodes 88, 2 pianos Steinway, 2 pickups Helpinstill, 1 mixador de 18 canais, 3 gabinetes de monitores JBL e 1 órgão Hammond C3.

Além disso, os programas oficias dados para a plateia também trouxeram prejuízos. Nos EUA e Canadá, o livreto contava com 16 páginas, enquanto que para um festival no Crystal Palace em 27 de julho de 1974, que contou ainda com a participação do Procol Harum como uma das bandas de abertura, o programa continha mais de 20 páginas. Já no Japão, onde Wako queria arrecadar seus maiores lucros, o livro atingiu 30 páginas, contando os principais fatos da carreira de Wakeman e escrito em japonês por um local especialmente contratado para fazer as traduções. Para a Austrália, o livro ficou em 24 páginas .



Ao término da turnê, Wakeman arrecadou fundos com a gravadora para a luxuosa tour de The Myths and Legends of King Arthur and the Knights of the Round Table. Nela, novamente a mesma banda, uma orquestra e um coral estariam presentes, e além dos bonecos apresentados na turnê de Journey to the Centre of the Earth, havia um balé no gelo onde patinadores, carregando uma gigantesca serpente, entravam em cena durante a apresentação de Journey to the Centre of the Earth, além de encenar em outras canções. 
Os shows da turnê de King Arthur foram de extremo sucesso, porém, os prejuízos alcançados foram maiores que os da turnê de Journey, devido ao fato do enorme número de pessoas (bailarinos, coreógrafos, músicos, roadies, ...) que viajavam com o projeto para todos os cantos do mundo, e também para se criar a pista de gelo que ficava ao redor do palco. Por isso, após algumas apresentações, a A&M já estava começando a falir, pois o dinheiro ganho com as vendas dos dois álbuns estava indo embora para cobrir as despesas de Arthur on Ice, e o término da turnê de divulgação de King Arthur foi feito com outro nome (Arthur Tour) e sem todo o aparato de gelo dos shows iniciais.

Com os bolsos furados, a A&M encerrou os financiamentos megalomaníacos de Wakeman, que no meio da turnê sofreu um infarto pouco antes de entrar no palco, aos 25 anos. O infarto não trouxe consequências físicas para Wako, mas, musicalmente, o tecladista passou a investir mais em vendas de discos e abandonou as mega-turnês para sempre (apenas quando voltou para o Yes, em 1977, que Wakeman participaria de grandes shows novamente).



Um detalhe interessante é que o Brasil teve a oportunidade de ver a apresentação de Journey to The Centre of the Earth no final de 1975. Enquanto estava na turnê de King Arthur, o tecladista foi convidado pela Rede Globo para participar de uma série de shows do Projeto Aquarius, o qual tinha como principal meta difundir a música clássica pelo país. Com todo o financiamento feito pela própria emissora, Wakeman topou e trouxe sua banda junto, deixando a escolha da orquestra nas mãos dos produtores do evento.

O resultado foi totalmente satisfatório, com Wakeman tocando em Porto Alegre (Gigantinho), São Paulo (Ginásio da Portuguesa) e Rio de Janeiro (Maracanãzinho), tendo todos os ingressos esgotados. Durante a apresentação do álbum, a narração ficou a cargo de Paulo Autran (São Paulo e Porto Alegre) e Murilo Neri (Rio de Janeiro), e Wakeman mostrou o gigantesco lagarto e a já famosa serpente, mesmo que não sendo no gelo, mas através de patins normais, que circundava a plateia.



Os registros da turnê são poucos, mas de ótima qualidade. O LP contendo o álbum na íntegra é facilmente encontrado em sua segunda versão (não quadrifônica), e existe um registro em vídeo de uma apresentação na Austrália, já durante a turnê de King Arthur, que apresenta o disco na íntegra e com o lagarto e a serpente também em cena, além de outras canções dos álbuns The Six Wives of Henry VIII e King Arthur. É muito interessante ver essa apresentação, principalmente pela emocionante narração de Journey to the Centre of the Earth e também por todo o trabalho de Wakeman em tocar seus teclados nas mais possíveis - e impossíveis - combinações de braços.

Ainda pela turnê de King Arthur, temos o vídeo Live at the Empire Pool King Arthur on Ice (que ficou anos apenas com imagem de TV, e foi lançado oficialmente em uma coletânea de 6 DVDs de Wakeman somente com material inédito em 2007), que mostra belos detalhes do show realizado no Wembley Arena, e que ficou mundialmente conhecido como Arthur on Ice, onde o álbum era tocado na íntegra. No vídeo, é possível assistir o baixo de três braços de Newell e vislumbrar a linda Patricia Pauley patinando ao som de "Guinevere", além de belas dançarinas de cabaret com as pernas desnudas ao som de um dos improvisos de Wakeman, Lancelot e seu cavalo branco lutando contra o cavaleiro negro em "Sir Lancelot and the Black Knight" e guerreiros lutando com espadas em "The Last Battle", tudo sobre o piso de gelo que circundava o palco.



Em CD, temos o registro dessa turnê na série do King Biscuit Flower Hour, com uma bela gravação de um show realizado em São Francisco em 1975.

Os espetáculos de Arthur on Ice foram eleitos pela rede americana VH1 (uma concorrente da MTV) como um dos 100 shows mais chocantes da história do rock, com a posição 79, e com certeza foram mais grandiosos do que a turnê de Journey to the Centre of the Earth, mas se não fosse a primeira, Wako jamais teria conseguido elaborar a segunda. Portanto, ambas tem a mesma importância na história do rock progressivo.

Dos bootlegs, é altamente recomendado o CD Journey to the Crystal Palace, que traz a apresentação completa do show realizado no dia 27 de julho, e também o Brazilian Symphony Orchestra - Rio de Janeiro - Maracanazinho 12/75, com a apresentação completa do show de Wakeman no Rio de Janeiro, com as narrações em português, uma improvisação em cima de obras de Villa-Lobos feita por Crampton durante "Catherine Howard", uma versão de Wakeman para "Jingle Bells" e a participação forte do público cantando os temas de Journey to the Centre of the Earth e Myths and Legends of King Arthur.



Wakeman acabaria por mostrar ao mundo a obra completa de Journey to the Centre of the Earth com o lançamento de Return to the Centre of the Earth em 1999, onde as partes que foram retiradas na versão original acabaram surgindo em um álbum com mais de 60 minutos de duração.

As turnês de Journey to the Centre of the Earth e The Myths and Legends of King Arthur and the Knights of the Round Table foram os últimos petardos megalomaníacos de Wakeman, mas não do progressivo. Ainda haviam coelhos a serem tirados da cartola por outras bandas, como veremos na próxima semana.

2 comentários:

  1. Ótimo texto e fotos,Wakeman is the best.

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  2. Obrigado Kim. Um abraço e espero que curtas os demais textos do blog

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