terça-feira, 13 de março de 2012

Os Sete Pecados do Rock Nacional - Parte IV: A COBIÇA (Engenheiros do Hawaii - O Papa é Pop [1990])



Em 1990, o grupo gaúcho Engenheiros do Hawaii já tinha conquistado seu espaço entre os grandes grupos de rock brasileiros da década de 80. Ao lado do Legião Urbana, Titãs e Paralamas do Sucesso, seus três primeiros álbuns (Longe Demais das Capitais, de 1986; A Revolta dos Dândis, de 1987; e Ouça o Que Eu Digo, Não Ouça Ninguém, de 1988), venderam tanto que o grupo conseguiu ser uma das primeiras bandas nacionais a gravar um LP ao vivo, influenciados também pelo enorme sucesso do LP Rádio Pirata ao Vivo, do grupo R. P. M., lançado em 1986, o bom Alívio Imediato, de 1989. 

Além disso, em outubro de 1989, fizeram uma excursão sem muito sucesso pela antiga União Soviética, a primeira de uma banda brasileira pela terra do presidente Mikhail Gorbachev, quando o país ainda era conhecido pela sigla comunista U. R. S. S., tocando cinco noites em Moscou e cinco noites em Leningrado, e que chamou bastante a atenção no Brasil por ser algo pioneiro e inovador para a época, levando-os a ser uma das principais atrações brasileiras na terceira edição do Festival Hollywood Rock, em 1990, ao lado de gigantes como Bob Dylan, Marillion e Bon Jovi. O Engenheiros estava no topo! 

Folder de divulgação da apresentação do grupo na URSS (acima);
O trio em frente ao Kremlin (abaixo)

Mas, como sucesso pouco é bobagem, Humberto Gessinger (baixo, vocais, teclados, Midi-pedalboard), Carlos Maltz (bateria) e Augusto Licks (guitarras, violões, sintetizadores, Midi-pedalboard) queriam mais, e sabiam que podiam fazer mais. Afinal, o trio tinha influências suficiente para ser não uma das maiores, mas sim, a maior banda do país. Licks possuía formação jornalística, mas com inspirações em música clássica que o convocaram a ser guitarrista de um dos maiores símbolos da MPB gaúcha, Nei Lisboa, antes de chamar a atenção de Gessinger em 1987, levando-o para o Engenheiros do Hawaii. Já Gessinger nunca negou ser um fã do rock progressivo, e principalmente de Rush, e enxergava-se no palco como sendo o Geddy Lee dos pampas, tocando baixo, teclado e cantando ao mesmo tempo. Apenas Maltz era o mais roqueiro do trio, curtindo o básico dos básicos, suficiente para acompanhar os outros dois talentos do grupo. 

Foi então que, aproveitando a onda revigorante que assombrava o rock nacional após o lançamento de Psicoacústica, o trio GLM (como assim ficaram conhecidos intimamente) decidiram mostrar que eram os melhores, e com todo o pecado da COBIÇA, resolveram gravar o mais ambicioso projeto do grupo, o álbum O Papa é Pop

Foto de divulgação de O Papa é Pop

Nele, o trio (e principalmente Gessinger) resolveu que ou eles conquistavam o Brasil finalmente, ou então iriam naufragar em um fracasso descomunal. A idéia era lançar um álbum dividido em duas partes: uma, mais acessível aos fãs e ao público em geral, seria uma sequência natural de Ouça o Que Eu Digo, Não Ouça Ninguém; a outra, trazendo um conteúdo inédito e revolucionário, misturando as tendências do rock para os anos 90 com pitadas da quadradice oitentista rechaçada pelo Ira! e, por mais esquisito que pareça, aglomerando o heavy metal e o progressivo em um mesmo álbum? 

Então, utilizando-se de influências diversas, e tão inusitadas quanto a proposta, agregando a isto o uso de guitarras sintetizadas, o praticamente recém criado Midi-pedalboard (uma espécie de sintetizador tocado com os pés) e bateria eletrônica, o trio passou a compor as novas canções para o LP. Com o passar dos dias, dava para se perceber que o material elaborado era bem consistente, e promissor. O caldeirão de ideias ferveu como nunca, gerando um disco diferente do esperado, surpreendo até mesmo o próprio trio e os empresários da gravadora BMG, responsável pelo lançamento de O Papa é Pop.

Para isso, decidiram que ninguém era melhor do que eles mesmos para produzir e mixar o material, fazendo de O Papa é Pop o primeiro dos três LPs autoproduzidos pelo trio GLM. 

Depois de concluir as canções, as pitorescas criações de Gessinger começaram a ganhar forma também fora das canções. Primeiro, com o título do LP. O Papa é Pop era ao mesmo tempo uma afronta e uma bênção. Aproveitando-se da primeira passagem do papa ao Rio Grande do Sul, em 1980, onde o Papa João Paulo II autoproclamou-se gaúcho, Gessinger viu ai uma chance de entrar na mídia, consolidando o Papa como um ser popular (pop na gíria adolescente da época), assim como sua banda. 

O compacto de Os Incríveis que inspirou a capa de O Papa é Pop
Dando mais citações ao populismo, a capa do LP é constituída apenas de três cores: vermelho, preto e branco, não por acaso, as cores do time de futebol mais popular do país, o Flamengo, lembrando que o futebol é uma das paixões de Gessinger, um gremista doente, além de que o próprio Papa vestiu a camisa do Flamengo quando sua passagem pelo Rio de Janeiro. Ainda na capa, temos a indecente chupação da capa do compacto “Hino Nacional”, “Hino da Independência”, do grupo Os Incríveis, lançado em 1971, inclusive com a mesma arte e formatação para a fonte usada no nome do grupo e do álbum, trazendo para os jovens do final da década de 80 todo o respeito a uma das mais populares bandas do rock nacional na década de 60. 

Foto do Papa bebendo chimarrão
Por fim, Gessinger colocou na capa, ao lado da foto do trio junto de um luxuoso sofá vermelho, uma foto muito popular no Rio Grande do Sul do Papa vestido com a indumentária gaúcha, ou seja, chapéu, lenço, camisa e bombacha, além de estar bebendo chimarrão, foto essa retirada por Carlos Contursi, e que pertencia à outro personagem muito popular no Rio Grande do Sul, o ex-governador Leonel Brizola. Por fim, a própria capa era uma alusão ao popular. 

Pronto! Estavam concluídas todas as etapas possíveis para o lançamento do audacioso projeto, que chegou às lojas na primavera de 1990. Dividido no lado Papa (lado A) e lado Pop (lado B), o álbum conquista os ouvidos na primeira audição, sendo inteligente, direto e principalmente, um disco para ser estudado, tamanho o conflito de influências que o trio conseguiu juntar nos sulcos do LP. 

O Papa é Pop abre com “Exército de Um Homem Só I”, onde o violão sintetizado de Licks, tendo o acompanhamento de Maltz e do Midi-pedalboard, traz Gessinger fazendo a marcação no baixo, remetendo de alguma forma a introdução de “Xanadu” (Rush). Gessinger passa a cantar, sendo acompanhado pelo dedilhado da guitarra em um estilo bem anos 80. Depois de duas estrofes, chegamos ao refrão, onde os sintetizadores marcam presença ao lado do suposto pesado riff de Licks, e com um acompanhamento extremamente anos 80 de Maltz. A introdução volta às caixas de som, para Gessinger continuar a letra em mais uma estrofe com os dedilhados, voltando então para o refrão e na sequência, mais uma repetição do tema da introdução, enquanto Gessinger conclui a letra acompanhado por um ritmo marcial de bateria, para então, depois de baixo e guitarra fazerem o tema de “Canção ao Expedicionário”, o hino do exército brasileiro na Segunda Guerra Mundial , o refrão encerrar a letra da canção, que encerra-se com um virtuoso solo de Licks. Claro que a obra construída por Gessinger é uma homenagem ao livro do escritor conterrâneo Moacyr Scliar, batizado com o mesmo nome da canção, assim como por partes, Gessinger introduz citações ao livro As portas da Percepção, de Aldous Huxley, o que gerava uma forte coceira na mídia especializada, que adorava malhar as letras de Humberto. 

A versão brazuca do clássico italiano “C'era un Ragazzo Che Come me Amava i Beatles e i Rolling Stones”, de Franco Migliacci e Mauro Lusini, aparece na forma de “Era Um garoto Que Como Eu Amava Os Beatles e os Rolling Stones”. Aqui, aproveitando-se da versão feita pelo grupo Os Incríveis em 1967, a canção surge com o seu dedilhado marcante, o qual muitos jovens aprenderam a tirar no início de seus estudos em violão, além do baixo em um volume de destaque, trazendo a voz de Gessinger, criando mais um clássico da história dos Engenheiros. O andamento simples levado pelo Midi-pedalboard, com uma letra ainda mais simples, fez dessa canção um estouro em todo o país, e os “Ra-tá-tá” da parte central foram entoados em muitos lugares Brasil afora. 

Porém, o principal momento vai para o solo de Licks. Depois de uma pequena citação à canções do Stones e do Beatles (“Under My Thumb” e “Here Comes the Sun” respectivamente), e mais uma levada de “Ra-tá-tá”, Licks inventa uma nova versão para o hino da independência, com a melodia do “ou lutar a pátria livre, ou morrer pelo Brasil” concluindo seu belo solo, e mostrando principalmente para aqueles que o criticavam, seu talento no instrumento. Esse clássico conclui-se com mais uma sequência de “Ra-tá-tá”, destacando a presença do sintetizador ao fundo do acompanhamento cavalgante de baixo, guitarra e bateria. Simples, mas clássico. 

As letras do Lado A no encarte de O Papa é Pop

“Exército de Um Homem Só II” surge com uma marcha de exército, e uma pequena modificação na letra da parte um da canção, somente com o ritmo do refrão da mesma, levando para “Nunca + Poder”, onde um dedilhado de guitarra com alguns efeitos apresenta Gessinger, em mais uma canção bem oitentista, principalmente no rock gaúcho daquela época, destacando uma interessante letra de Gessinger. A quadradice da canção talvez seja uma semelhança à quadradice que a letra sugere (“todo mundo é moderno todo mundo é eterno como um relógio antigo”), e comparada a complexidade das canções anteriores (nem tão complexas perto do que irá aparecer no lado Pop), ela acaba passando despercebida. Precisa ser chamado atenção para o curto tema final feito por baixo e guitarra, cujas notas são exatamente as mesmas utilizadas na introdução da próxima canção, a clássica “Pra Ser Sincero”. 

O tema introdutório do piano elétrico Rhodes (o tal tema feito por Licks no final de “Nunca + Poder”, e que também muito marmanjo adorava se exibir quando aprendia a fazer no violão) traz a emocionante interpretação de Gessinger, em uma daquelas canções que retrata um momento pelo qual muitos adolescentes (e até adultos) já passaram, que é a separação de um amor impossível. Os teclados e o piano levam a primeira parte dessa bonita balada, com efeitos de suspiros, respiros profundos e acender de fósforos. O refrão ganha muitos efeitos sintetizados na bateria e no Midi-pedalboard de Licks, tornando a canção mais tensa, que é a despedida dos agora amigos, sendo o maior destaque da canção, que encerra-se com o assovio de Gessinger imitando o tema introdutório. 

O piano elétrico também abre “Olhos Iguais aos Seus”, que por momentos lembra canções do Supertramp na fase Roger Hodgson (parece que a qualquer momento vamos ouvir a voz fina do vocalista ao fundo), principalmente no refrão, onde os sintetizadores ganham destaque. Essa é a responsável por encerrar o lado A, ou melhor, o lado Papa do disco, com um curto e interessante solo de Licks, em uma boa canção, grudando as frases “o que fazem as pessoas parecerem tão iguais, o que faz as pessoas para serem tão iguais” no cérebro. 

Gessinger, Maltz e Licks:
a melhor formação do Engenheiros do Hawaii
O lado Pop abre com a faixa-título, outro clássico do Engenheiros do Hawaii, cheia de guitarras sintetizadas, e com o baixo de Gessinger ganhando muito destaque na canção. Essa canção foi concebida para ser sucesso. Tentar descrever as variações dessa canção é inútil. Uma espécie de Paralamas do Sucesso com Legião Urbana e Blitz, além das distorções de Licks e os vocais gospeis retirados do maior sucesso do ano anterior, “Like a Prayer” (de Madonna), representam uma mistura de ritmos em uma canção dançante, fácil e com um refrão que pegou nas rádios. “O Papa é Pop” era cantada desde as crianças de cinco anos até os idosos de 60, e então, o Engenheiros do Hawaii ganhava as capas das principais revistas de rock (e também de fofocas) no ano de 1990. Era o auge do sucesso do grupo, e não tem como negar que a composição da canção merece seus méritos, além do solo de Licks ser muito bom, apesar da simplicidade. 

Além disso, a crítica feita por Gessinger na letra auxiliava ainda mais a revolução do rock nacional contra a mídia do final dos anos 80. Afinal, se era vergonha tocar no Viva a Noite do Gugu, ou aparecer no programa do Chacrinha (isso só para citar alguns programas de TV que levavam os artistas brasileiros para fazer playback de suas canções), por outro lado, isso significava uma valorização do rock nacional, tornando os grupos populares na grande mídia. 

O baixo abre a bonita e épica “A Violência Travestida faz seu Trottoir”, a primeira das duas longas canções do LP, com destaque justamente para a performance de Gessinger com o baixo. Com a exceção do ritmo sempre quadrado de Maltz, o resto da canção é quase perfeita. Gessinger canta a letra da canção, levada sobre seu baixo cavalgante e pelo dedilhado hipnotizante de Licks, que vai colocando solos de guitarra entre as estrofes vocais, entoadas sempre sobre o mesmo ritmo. 

A canção transforma-se quando chega em três minutos e dez minutos, com uma série de variações instrumentais, levando ao maideniano solo de guitarra, feito em uma escala de terça menor, para então voltar ao refrão forte que entoa o nome da canção com força. Quer mais inspiração em Iron Maiden, ouça a parte de Gessinger acompanhado somente pelo baixo e pelas intervenções da aguda voz de , e duvido que você não lembre-se de “The Rime of the Ancient Mariner”, clássico de Powerslave, lançado pelo Iron Maiden em 1984. Inspiração? Plágio? O que você quiser dizer, mas enfim, é depois dessa parte que o baixo puxa um funkzão dançante, onde Gessinger e Patricia Marx (eterna ex-Trem da Alegria) alternam-se nos microfones, enquanto Licks delira na guitarra, além dos teclados fazendo presença ao fundo, voltando então para o momento do baixo e vocais, para Patrícia encerrar essa ótima (mas não a melhor) faixa entoando o nome da canção. 


As letras do Lado B no encarte de O Papa é Pop
Digo não a melhor faixa pois Gessinger, Licks e Maltz economizaram seus talentos para a excepcional “Anoiteceu em Porto Alegre”, um épico de mais de oito minutos que retrata os acontecimentos rotineiros em uma madrugada na capital gaúcha. A melhor canção da história do Engenheiros do Hawaii, e uma das melhores do rock gaúcho, narra a história de um andarilho que acompanha o anoitecer, a madrugada e o amanhecer em um determinado dia em Porto Alegre. 

Ela começa com o baixo de Gessinger fazendo o tema inicial, acompanhado por acordes de violão, para então, em um ritmo cavalgante, e com um suingue da guitarra, Maltz fazer o acompanhamento simples que acompanha a letra, com o nome da canção cantado, tendo ao fundo a guitarra destorcida de Licks. Repleta de variações e inserções de rádios, a canção alterna-se sobre o ritmo cavalgante do baixo de Gessinger, discutindo primeiramente o anoitecer em Porto Alegre. Isso é representado nas quatro estrofes iniciais, até que um rápido tema de guitarra e baixo levam para os acontecimentos da madrugada, através das frases “Aconteceu à meia-noite, aconteceu em Porto Alegre, aconteceu a noite inteira, aconteceu em Porto Alegre”. 

Aqui, a canção muda completamente. Baixo e guitarra fazem um novo tema, juntos, enquanto ao fundo ouvimos a inserção da voz do radialista Pedro Ernesto Denardin (da Rádio Gaúcha) enaltecendo a conquista da Taça Libertadores da América pelo Grêmio Foot-ball Porto Alegrense, em 1983. Com o ritmo mais dançante, intercalado pelos acordes de guitarra, Gessinger vai contando os fatos que acontecem de hora em hora na madrugada, até as cinco da manhã, e então, novamente a canção muda de ritmo. 

Depois de mais uma sequência marcada de baixo e guitarra, Maltz resolve brincar um pouco na bateria, fazendo variações e marcações sintetizadas, enquanto o personagem que passou a madrugada nas ruas de Porto Alegre decide retornar para casa, com um ritmo tenso ao fundo, trazendo com ele os estragos da noite, enquanto ouvimos mais inserções, agora de um pregador evangélico da Igreja Universal, religião que surgia com força no país no início da década de 90. Assim, a canção muda novamente, trazendo mais inserções de Pedro Ernesto Denardim enaltecendo agora o título do Grêmio na Taça Intercontinental de Futebol, também em 1983. Aos colorados, além da indignação de a canção destacar um título do Grêmio, a amarga citação a triste ardência nos fins de tarde na beira do rio, ou mais precisamente, no estádio Beira-Rio, do Sport Club Internacional, em uma derrota em um Gre x Nal, com a frase “arde em fim de tarde de luz vermelha, de dor vermelha, vermelho anil” (n . r. lembrando mais uma vez que Gessinger é um gremista doente) e então Gessinger canta as últimas frases da letra, para então, sobre o ritmo inicial, nos contar que “Amanheceu em Porto Alegre”, as seis horas e 15 minutos, dizendo os fatos da manhã, como o comprar o jornal Zero Hora vendendo manchetes quinze pras sete da manhã, em uma esquina da escola as pessoas comprando leite e pão, citações a “Time” (Pink Floyd) e “Here Comes the Sun” (The Beatles), canções marcantes no cenário dos bairros porto-alegrenses como Cidade Baixa e Bonfim nos anos 70 e 80, e com nada diferente, chegarmos finalmente, ao dia de amanhã. Perfeição (apesar do gremismo exarcebado de Gessinger)! 

O álbum encerra-se com mais uma oitentista canção, batizada de “Ilusão de Ótica”, cujo nome já é uma paródia e um aprendizado, pois a ilusão de ótica refere-se a uma ilusão auditiva (ótica sem p trata de algo relacionado aos ouvidos, enquanto óptica, com p,trata sobre assuntos oculares). Por ser curta, e também por vir depois de dois épicos como “A Violência Travestida faz seu Trottoir” e “Amanheceu em Porto Alegre”, quase passa despercebida, se não fosse pelo bluesístico solo de Licks, e pelas marcações pesadas do guitarrista, que em companhia de Gessinger, era responsável por transmitir aos fãs as idéias malucas que brotavam na cabeça do baixista e vocalista. Nela, o grupo escondeu algumas mensagens. Quando o vinil era rodado ao contrário, no trecho da letra onde ouvimos: "Por que você roda assim? Eu não gosto que rode assim", o ouvinte ouvia: "Por que é que cê tá ouvindo isto ao contrário? O que é que cê tá procurando? Hein?". Já em outra passagem, onde Gessinger entoa frases sem sentido, quando o disco é rodado ao contrário, é claro a audição das frases: "mal entendido, bem intencionado, mal informado, bem aventurado, Jesus salva, salve as baleias, leia livros, safe sex, relax, o papa é pop, o país é pobre, o PIB é pouco, poesia é um porre, o futebol brasileiro são várias camisetas com a mesma propaganda de refrigerantes, a juventude brasileira, sem bandeiras, sem fronteiras pra defender", sendo essa uma forma de protesto contra a revista Bizz, que era a principal detratora do trabalho do grupo. 

A versão em CD ainda conta com “Perfeita Simetria”, a qual utiliza-se da melodia de “O Papa é Pop” para contar uma historia bem diferente da faixa-título, e que honestamente, não fez falta na versão do LP. 

Engenheiros na capa da Bizz (acima) e da Veja (abaixo)
O Papa é Pop acabou tornando-se um marco na carreira do Engenheiros do Hawaii. O objetivo de se tornar a maior banda do país fora atingido. Não demorou para que as principais revistas do país estampassem a imagem de Licks, Gessinger e Maltz em suas capas,com destaque para a aparição surpreendente na Bizz, já que os leitores haviam eleito a banda a melhor do ano de 1990, e na versão gaúcha da revista Veja, onde uma matéria de cinco páginas tratava o grupo como deuses. 

O disco vendeu quase 500 mil cópias em menos de um ano, um grande marco para a época. Além disso, virou um divisor de águas na carreira do grupo. Se com os três álbuns anteriores o Engenheiros do Hawaii apenas tinha conquistado seu espaço, agora eles eram os maiores, e para manterem-se no topo, muito trabalho precisava ser feito. Os dois álbuns subseqüentes, Várias Variáveis (1991) e Gessinger, Licks & Maltz (1992), ampliaram o horizonte de experimentações de O Papa é Pop, onde finalmente Gessinger podia brincar de Geddy Lee, tocando baixo, teclado e cantando ao mesmo tempo, porém sem tanta criatividade. Além disso, as brigas internas fizeram com que Licks saísse do grupo em 1993, logo após a turnê de Gessinger, Licks & Maltz, que resultou no disco Filmes de Guerra, Canções de Amor (1993), imitando mais uma vez o Rush, ao lançar um álbum ao vivo para cada três de estúdio (os canadenses fizeram algo parecido, lançando um álbum ao vivo para cada quatro de estúdio). 

GLM, uma das últimas fotos do trio

Eu não sou fã do Engenheiros do Hawaii, só que para O Papa é Pop, o bicho pega. Um grande disco sem sombra de dúvidas, com Licks e Gessinger em ótima forma, e com as melhores canções da carreira dos gaúchos, que depois da saída de Licks, nunca mais foram os mesmos, perambulando pelo país mais pela vontade de Gessinger do que pelo desejo dos fãs, que sempre viram (e com razão) a fase GLM como a melhor do grupo, onde o pecado da COBIÇA, apesar de ter levado-os ao objetivo principal, acabou destruindo uma carreira sensacional.

Próximo pecado: A AVAREZA

5 comentários:

  1. Esbarrei nessa matéria por "acidente" e gostei muito, parabéns pelo blog!

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    1. Obrigado Marcelo. Bem vindo e fique a vontade

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  2. eu tb, mt bom, estou lendo toda a série

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  3. Ótima resenha, embora seja bom, discordo ser esse o melhor LP do Engenheiros, mas é notável seu amadurecimento musical. Infelizmente os egos e as guerras de vaidades implodiram a banda que estava em seu auge. Um adendo: na faixa Anoiteceu em Porto Alegre acho que a voz do locutor esportivo é de Armindo Antônio Ranzolin.

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  4. ÉBoa noite Janerson, obrigado pela correção. É o Ranzolin mesmo. Abraços

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