sábado, 16 de novembro de 2013

Quaterna Réquiem



Fundado em 1987, o Quaterna Réquiem é um dos nomes mais importantes do rock progressivo nacional pós-geração anos 70. Em seus três discos solos, todos instrumentais, prevalecem composições dignas de estarem no topo mais alto das melhores do estilo. Tanto que o grupo foi eleito um dos melhores grupos do rock progressivo na década de 90 por diversas revistas mundo afora.

Liderados pela tecladista Elisa Wiermann e pelo violino de Kleber Vogel, o quinteto carioca mistura barroco, rock pesado, passagens extremamente complicadas em canções/suítes geniais.

O grupo foi criado pelos irmãos Elisa Wiermann (teclados, arranjos e composições) e Cláudio Dantas (bateria). Ambos eram apaixonados pela música de câmara e pelo rock progressivo, e queriam fundir ambos os estilos em um único som. Assim, reuniram músicos dispostos a fazer um trabalho sério e elaborado, a base de muita dedicação e disciplina, e principalmente, não desprezar o resultado final por conta do mercado popular.

Kleber Vogel, Elisa Wiermann, Roberto Crivano
Claudio Dantas e Jorge Mathias

O início do grupo foi com diversas formações. O nome Quaterna Réquiem (Repouso dos Quatro) foi sugerido por Cláudio para uma antiga formação do grupo.Somente no final de 89, conseguem se firmar, tendo na formação Elisa, Claudio, Kleber Vogel (violinos), Jones Junior (guitarras) e Marco Lauria (baixo). 

Uma série de apresentações durante o verão de 1990, todas no Rio de Janeiro, fez com que o grupo conseguisse seu primeiro contrato com o pequeno selo Faunus,  pelo qual, em julho do mesmo ano, lançam seu primeiro LP, Velha Gravura.

O Maravilhoso álbum de estreia do grupo


Um dos melhores álbuns da Discografia Nacional, Velha Gravura abre com o violão clássico de "Ramoniana", tendo um belíssimo solo de flauta duelando singelamente com o violino, é a única em que os teclados de Elisa não aparecem com destaque, até por ser a única canção do álbum que não é sua. Nas demais cinco composições (todas de Elisa), o melhor do progressivo está presente, desde as peças marcadas dos instrumentos em "Aquartha", com guitarra e teclados unidos em solos intrincados, a delicadeza no órgão de igreja e nos timbres sutis da guitarra na faixa-título, com mais de doze minutos delirantes, repleto de variações.

No lado B, a majestosa "Tempestade" traz um belíssimo solo de violino e diversas variações de andamento, seguida por "Madrugada"  que, apenas com piano e violino, retrata em seus dez minutos de duração com perfeição uma madrugada onde praticamente nada acontece, somente o segundos passam enquanto os seres dormem, em um arranjo emocionante. Por fim, a rápida "Tocatta", com os teclados imitando o som de um cravo, e a quebração comendo solta, possui o acompanhamento preciso de Dantas, sendo este um dos momentos centrais na música do Quaterna Réquiem, além da perfeita técnica de Elisa, uma das maiores tecladistas do planeta.

Quaterna Requiem, anos 2000

Destaque para a mensagem deixada pela banda na contra-capa do vinil, que diz assim:

"Este trabalho em suas mão é o resultado de ideias e pesquisas; uma reflexão sobre as experiências de cinco pessoas. Certamente não faltaram luta e empenho de muitos que direta ou indiretamente contribuíram para que este disco se concretizasse. Somos gratos a estes e a todos que buscam com responsabilidade a dignidade do artista, sem elitismos inúteis nem comercialismos estéreis. Não nos cabe a crítica, mas sim estimular o questionamento a tudo que nos leva em direção contrária à da criatividade e da justiça social e cultural. Este disco também é dedicado a você."

Em 1992, Velha Gravura ganhou uma versão em CD, trazendo duas canções inéditas: "Cárceres" e "Elegia", tornando-se ainda mais agraciado do que sua versão original. O grupo fez uma série de apresentações pelo país, mas o investimento e retorno não foram altos.

Uma reformulação na formação ocorre, com Kleber, Marco e Jones sendo substituídos por José Roberto Crivano (guitarras, violões) e Fábio Fernandez (baixo, alaúde). Somente depois de mais dois anos veio o segundo álbum do grupo.

O audacioso Quasímodo

Com a mesma qualidade que seu antecessor, Quasímodo chegou às lojas somente em CD, durante o ano de 1994, e é um projeto extremamente audacioso. Desde a imponente abertura de "Fanfarra" (uma homenagem as tradicionais "Fanfare" da música clássica), percebemos que a trupê de Elisa veio com gana para outro álbum espetacular. Apesar da saída de Kleber, a identidade do Quaterna é mantida, e dificilmente você irá sentir falta do violino nas cinco composições de Elisa, que caprichou na implementação de elementos clássicos, bem como o fiel acompanhamento de Claudio está presente. 

Sergio Dias (não o dos Mutantes) participa no álbum, tocando flauta doce. "Aquintha" virou uma das preferidas dos fãs, recheada de sintetizadores e efeitos que lembram muito a fase progressiva do Rush, mas o que predomina são canções longas, muito mais trabalhadas. "Os Reis Malditos" certamente saiu do fundo das criptas de uma Igreja Medieval, tamanha sua profundidade e principalmente pelo seu andamento, além de um solo arrebatador de Crivano na slide guitar, enquanto "Irmãos Grimm" mistura com perfeição a modernidade do baixo e da guitarra com a crueza do cravo e da percussão. 

Quaterna Réquiem ao vivo

E o que dizer dos trinta e nove minutos da faixa-título? Inspirada no romance "Nossa Senhora de Paris" (Victor Hugo), ela é dividida em sete partes, com direito inclusive a cantos gregorianos, que nos remetem à grandiosas bandas do progressivo mundial, como Yes, Camel, PFM entre outros. Uma obra genial, que assim como seu antecessor, está no hall dos melhores lançamentos do prog nacional.

Os dois álbuns acabam saindo no exterior, conquistando fãs na América do Sul (Argentina e Chile), Europa (Itália, Holanda, Espanha, França, Polônia, Rússia), América do Norte (Canadá e Estados Unidos) e até na Ásia (Coréia do Sul e Japão), fazendo do Quaterna Réquiem o principal representante do rock progressivo brasileiro na década de 90, o que proporcionou uma concorrida série de apresentações pelo país.

Essencial Livre, gravado ao vivo no Rio de Janeiro

O show no clássico Teatro Scala, no Rio de Janeiro, foi registrado no essencial Livre (1999), tendo Fred Fontes no baixo, além de Kleber em uma participação especial durante "Quasímodo", e depois, o grupo deu uma longa pausa.

Nesse período, Elisa e Kleber voltaram a registrar um álbum, o ótimo A Mão Livre (2003), com a participação de Crivano, Dantas e do baixista Marco Lauria (participante do Quaterna Réquiem na primeira formação), além de outros músicos convidados. 

Em 2004, um show no Rio de Janeiro foi registrado no DVD Live (2006), comemorando os quinze anos do grupo, e no início de 2012, foi anunciado o novo lançamento do Quaterna Réquiem, com Elisa, Kleber, Cláudio, Roberto e Jorge Mathias (baixo).

O melhor álbum de 2012


O Arquiteto para mim é o melhor disco do ano de 2012. Elisa e Kleber voltam a fazer uma dupla afiada, e superam-se em um álbum que certamente, em poucos anos, aparecerá nas listas de melhores de todos os tempos dentro do rock progressivo nacional encabeçando a primeira posição. Nele, temos a entrada de Jorge Mathias no lugar de Fábio Fernandez, única mudança na formação. São apenas quatro canções, sendo uma única com menos de dez minutos (no caso, a singela e bela "Mosaicos", apenas com sintetizadores, piano e violão). 


As demais, suítes longas e enlouquecedoramente fantásticas, sendo elas a pesadíssima e intrincada "Preludium", com guitarra , violino e sintetizadores duelando para ver quem é o centro principal de atenção do ouvinte, "Fantasia Urbana", na qual o órgão de igreja de Elisa está imponente, enquanto Crivano e Vogel travam batalhas medievais com seus instrumentos, na qual Crivano faz a guitarra chorar, e possuidora de um tema que nos remete a "Ave Maria" (Bach). 

Kleber Vogel, Roberto Crivano, Elisa Wiermann, Claudio Dantas e Jorge Mathias

O encerramento é soberano: com quase cincoenta minutos de duração, a faixa-título é uma homenagem para diversos arquitetos do mundo. Dividida em cinco partes, cada uma das partes representa uma época e um autor dessa época, saindo desde a Itália Renascentista ("Bramante") até o Modernismo/Contemporâneo do brasileiro Oscar Niemeyer. Uma suíte incrível, elaborada por uma das maiores gênias da música mundial, Elisa Wiermann, que acompanhada de Cláudio Dantas, Kleber Vogel, Roberto Crivano e Fábio Fernandez, mantém a chama do rock progressivo acesa.

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