sexta-feira, 19 de maio de 2023

Pete Townshend - A Autobiografia [2012]



Lançado em 2012, A Autobiografia de Pete Townshend é uma das grandes obras referentes ao músico do The Who, um dos mais brilhantes e geniais de seu tempo, e que está completando 78 anos nesse 19 de maio. Temos uma aula de como contar sua vida sem remorsos ou escondendo algo. Ao longo de três atos, compostos no total de 32 capítulos, Pete nos conta sobre diversas curiosidades, novidades, e não foge das polêmicas, e principalmente, mostra sem ressentimentos qual a sua postura e posição sobre o The Who, afirmando que ele era a alma criativa da banda, mas quem mandava mesmo era Roger Daltrey.

No primeiro ato, chamado Música de Guerra, Pete conta as memórias de sua infância, como aprendeu a tocar, a formação do The Detours, mundo para The Who, até chegar na explosão de Tommy (1969), reconhecidamente o álbum mais importante dos ingleses. Do ponto de vista pessoal, ele narra sobre o difícil relacionamento entre seus pais (o pai músico, a mãe uma bêbada inverterada), os complicados dias ao lado da avó materna, uma pessoa com problemas diversos, as primeiras experiências com música, inicialmente tocando gaita, até chegar a guitarra e montar sua primeira banda aos 12 anos, conhecendo John Entwistle pouco tempo depois. Pete revela que detestava Elvis, mas amava Pink Floyd, conta com detalhes sua entrada no The Detours, ganhando a vaga por saber tocar "Man of Mistery" do The Shadows, e claro, suas primeiras relações sexuais também são narradas, já entrando para a Escola de arte, um momento importante na formação de Pete. O The Who vem em 1964, e na dificuldade de encontrar um baterista (até Mitch Mitchell fez teste para a banda), eis que surge Keith Moon. A admiração de Pete pelo estilo de tocar de Entwistle aparece ao mesmo tempo que surgem as primeiras composições emblemáticas da banda, no caso "I Can't Explain", "My Generation", "Substitute" e "I'm a Boy". É o Who fazendo sucesso na Europa, apresentando-se pela Escandinávia, e chegando aos Estados Unidos. 

Vem então a apresentação do Monterey de 1967, com o famoso duelo entre ele e Hendrix, com ele confessando que sempre se achou abaixo de Hendrix, o famoso incidente no Holliday Inn, onde Keith Moon jogou uma limousine na piscina do hotel durante o seu aniversário de 21 anos, o momento em que se torna um seguidor de Meher Baba, e claro, muitos detalhes da criação de Tommy, chegando então ao show de Woodstock, que Pete acha não ser tão sido tão bom quanto se fala, e as gravações que levaram a Live at Leeds, com Pete lamentando ter pedido a queima de diversas gravações feitas naquela turnê simplesmente por não ter gostado das mesmas, algo que no livro ele reconhece como sendo uma atitude infantil e egoísta.

Este ato 1 do livro é muito interessante, e o mais longo dos atos, com 160 páginas. Ele nos mostra como a formação pessoal de uma criança e um adolescente acaba refletindo e muito na sua vida. Pete não era uma criança das mais felizes e em uma família estável, e sofreu alguns problemas com outros meninos de sua idade, principalmente na escola, mas nada disso se comparara a dramática vida do pequeno Pete ao ir morar com a avó Denny aos seis anos, principalmente por sofrer assédio moral e sexual, o que impactou no seu tardio relacionamento com meninas, e que é o único momento em que Pete trata com bastante cuidado, sem se aprofundar em detalhes. Outro fato que me chamou muita atenção é como o pessoal do Who, Stones, Kinks, Hendrix e Yardbirds eram próximos e amigos, e como a relação com os Beatles era bastante distante.

O ato 2, intitulado "Um Homem Muito Desesperado", cobre o período dos anos 70 e 80. Ele traz o artista envolvido em drogas, bebidas, casos amorosos, problemas em casa e muito afim de largar o The Who, além das criações de obras atemporais como Who's Next e Quadrophenia (ele passou um dia na beira do mar gravando os sons que estão no álbum), bem como o fracasso de Lifehouse (projeto que acabou abortado pela banda). Dos shows, Pete traz detalhes de sua prisão nos Estados Unidos, por ter agredido um policial durante um show no Fillmore East, compartilha as dificuldades que Keith Moon passou a ter em tocar nas apresentações, e também nos estúdios, como ficou surdo do ouvido esquerdo durante uma apresentação em Nova Iorque em 1976, e narra com emoção a apresentação de Tommy no Berkeley Community de 1969. A ajuda para Clapton livrar-se das drogas também é narrada sem deixar nada escondido, assim como os complexos momentos junto a um doente Ronnie Lane, com quem gravou o álbum Rough Mix (1976). 

Pessoalmente, Pete conta sua longa batalha contra o álcool, e mostra um grande arrependimento por demorar muito tempo a parar com a bebida, e como isso influenciou muito no seu relacionamento com a esposa e filhas e conta que para ele a perda de Moon não foi tão impactante, mas isso abalou Daltrey de uma forma que o Who não conseguiria mais seguir, mesmo com Kenney Jones na bateria. As brigas só aumentaram, levando então a Pete desistir de seguir com a banda, já em 1982. Por fim, Pete encontra-se como editor da Faber, um papel que foi muito importante inclusive para a conclusão da obra aqui apresentada. É um ato bem mais pessoal, que revela ao fã como fama e sucesso não são conquistados sem muitas coisas que são perdidas. 

No terceiro e último ato, Tocando Para os Deuses, ele já abre narrando um acidente de bicicleta que quase o impediu de tocar guitarra, já nos anos 90, e começa a investir bastante em sua carreira solo, principalmente na obra Iron Man e no projeto Psychoderelict, discos solo que são comparados a grandes discos do The Who. A separação da esposa Karen, e seu novo casamento com a musicista Rachel Fuller estão apresentados, deixando como curiosidade que Karen não está citada no final do texto. O momento tenso de "quase" prisão por pornografia infantil também é contado mostrando uma riqueza de detalhes, e sem se deixar intimidar por algo tão difícil e polêmico como este assunto. A perda de Entwistle choca a Pete, e também certamente é mais um momento de grande emoção para o leitor, e por fim, o retorno com o The Who ao lado de Daltrey só mostra o quanto essa dupla é fundamental para a história da música.

O livro ainda traz como apêndice uma carta enviada por uma fã para Pete em 1967, e que ele nunca havia aberto, Coda, Agradecimentos, Posfácio, Fotos e Índice Remissivo. Apesar das 488 páginas, o livro é de uma fácil leitura, com capítulos curtos, e bastante envolvente. Pete parece um vovô sentado na poltrona contando sua história para os netos e amiguinhos, e o leitor certamente sente-se muito confortável ao passar pelo livro. Claro, isso também é méritos de um artista que também é escritor em sua carreira, e que despede-se dizendo "não quero romantizar a mim mesmo ou minha vida, quero fazer exatamente o contrário ... Espero que vocês tenham gostado deste livro". Sim Pete, gostei muito. Recomendadíssimo, e mais, obrigatória a leitura desta Autobiografia para todos os fãs do The Who ou de música em geral. 

quarta-feira, 10 de maio de 2023

Unboxing: Frank Zappa - Halloween '81 (2020)

 


Fazando o Unboxing do lindo material Halloween '81, lançado pela família Zappa em 2020. Nela, além de 6 CDs cobrindo os shows realizados pelo bigodudo durante o Halloween de 1981, algumas surpresas como uma másca com o rosto do músico, e também uma capa de vampiro. Confira!!



terça-feira, 9 de maio de 2023

Rita Lee (31/12/1947 - 08/05/2023)


"Rita Lee foi passear

75 anos, descansar talvez

Em um dia azul, e infeliz

Suas mãos estão frias, nossas vidas mais vazias

Tanto amor foi dado

Que fez e faz muita gente feliz

Nos fez sonhar".

Mas é difícil que Rita venha a descansar no paraíso. Ao encontrar Elis Regina, certamente irá abrir um grande sorriso chamando a Doce Pimenta para fazer coreografias desajeitadas, e gargalhar muito, diando aquela gostosa gengiva saliente da gauchinha. Com Gal, sentará num banquinho, puxará uma viola e cantará uma modinha comentando sobre as travessuras e delícias de estar no ato Roberto de Carvalho. Com Rogério Duprat, irá abrir um vinho para relembrar dos tempos de Tropicalimos, de luta contra a ditadura, e por que não, de se vestir de noiva grávida em um festival. E quando encontrar quem manda na porra toda, certamente irá dizer: "É cara, sempre soube que você não era uma careta de barbas brancas". É, Rita não vai descansar no paraíso, pelo contrário, irá fazer lá o que fez aqui, agitar e, com certeza, provocar uma revolução.

Desnecessário aqui fazer uma retrospectiva sobre a carreira de Rita Lee Jones. Mutantes, Cilibrinas do Éden, Tutti Frutti, a parceria com Roberto de Carvalho, a turnê Em Bossa Em Roll (primeira show acústico antes mesmo do acústico MTV existir), todo o pioneirismo em vários pontos, a luta contra o alcoolismo e depois, o câncer. Isso faz parte de uma Rita que o Brasil (e por que não o mundo) admira e venerará eternamente. Mas Rita foi mais. Foi uma revolucionária, anos à frente do seu tempo, que colocou o feminismo em voga sem jamais ter sido taxada de "feminazi". Falou sobre sexo como nenhuma mulher tinha feito antes, trazendo aquela "sacanagenzinha sem ser putaria" como ela mesma dizia, que provocou a ditadura militar e fez muitas mulheres poderem se libertar da opressão machista de aceitar apenas ser um objeto de seu marido, mas ter o direito de sentir prazer.

Ela cantou incrivelmente a la Janis Joplin como poucas mulheres ousaram cantar. Trouxe ao Brasil o uso do theremim, instrumento tão exótico quanto exótica eram suas transformações camaleônicas. Criou baladas românticas que marcaram época, embalaram (e embalam) romances e separações todos os dias. Mostrou ao mundo que uma mulher é artista com o mesmo talento que um homem, "sem ter culhões", como dizia, e encarando isso com uma soberania inatingivel. Não à toa, virou musa e referência para o surgimento de nomes como Marisa Monte, Adriana Calcanhoto, Marina Lima, e tantas outras artistas mulheres que saíram das prisões que o rock exclusivamente masculino acabava fincando como uma pedra incapaz de ser mexida.

Rita não foi uma pessoa perfeita, teve vários problemas pessoais e com outros artistas, principalmente na sua relaçaõ com os ex-Mutantes Arnaldo e Sergio, ou com o ex-Tutti Frutti Luis Carlini, com a grande desafata, a ex-empresária Mônica Lisboa, travou batalhas enormes contras as drogas, legais e ilegais, mas isso não é nada perto da grandiosidade e revolucionaridade que Rita fez para a música nacional. Foi uma das primeiras a defender a natureza, a fazer obras dedicadas exclusivamte para crianças, fazia trabalhos sociais fantásticos sem querer midia. Embalou gerações com inúmeros sucessos que participaram de divers novelas globais (inclusive foi atriz em algumas delas), fazendo um país inteiro cantar e se unir em torno dessas canções. 

E fez parcerias com muita gente, mas muita gente mesmo. Falaríamos horas aqui sobre como ela gravou com as citadas Elis e Gal, com Gilberto Gil, Erasmo Carlos, Titãs, Raimundos, Lulu Santos, e tantos outros. Reverenciada por Caetano Veloso na incrível "Sampa", venerada por Ney Matogrosso na mais perfeita interpretação de "Balada do Louco", aclamada por Cássa Eller na versão fenomenal de "Luz del Fuego", Rita teve a incrível capacidade de inclusive ser convidada para dividir os vocais com nada mais nada menos que João Gilberto, um dos artistas mas ímpares e incapazes de dividir seu espaço com alguém, em um especial que o cantor fez para a Rede Globo em 1984. Além disso, as letras de Rita são atemporais, e estimulam cada vez mais jovens mulheres a serem independentes e além do caretismo de ser apenas uma "mulherzinha dona de casa que embalava filhos e espera o marido vir do trabalho com a janta pronta", como declarou certa vez.

Tive a honra de assistir a Rita em Porto Alegre no ano de 2005, em um show com Zélia Duncan e Wanderléa. Rita já tinha se tornado minha ídola haviam uns dez anos, quando na casa de um amigo do meu irmão, Micael Machado, encontrei uma fita com o dizer Mutantes. Aquela fita tinha as músicas da famosa banda da Rita Lee, a qual conhecia desde a decada de 80 (afinal,  quem nunca ouviu "Bwana Bwana" ou "Livre Outra Vez" naquela época?). Peguei a fita, levei para a casa, e ao escutar "Meu refrigerador Não Funciona", para mim a melhor interpretação vocal da carreira de Rita, começou uma paixão ardente pela banda (e crushiana por Rita), a qual desenvolveu-se ao longo dos anos. Não é à toa que a sigla MUT está em meu e-mail pessoal. 

Lembro daquele show no pequeno Salão de Atos da PUC como se fosse hoje. Quando fui comprar o ingresso, o assento que havia restado era justamente atrás da mesa de som. No dia do show, perguntei a uma assistente se não poderia sentar mais a frente, e sim, haviam espaços reservados para as pessoas que não conseguiam ver o espetáculo na 13 fila (eu estava na 28). Eu ia ver a Rita mais de perto. Na terceira música, fui para a frente do palco, de onde assisti quase todo o resto do show sentado no chão, mas com a Rita na minha frente.

Eis que o show acaba, e, como todo grande show, há um bis. Rita começou a tocar "Bwana Bwana", enquanto o público avançou em direção ao palco. Neste instante, Rita passou e cumprimentou-me, apertando a mão. Porém, ao fazer isso, puxei ela e disse que admirava-a muito, no que ela me retribuiu com um beijo no rosto. Após o término de "Bwana", Rita pergunta: "O que vocês querem ouvir?". Eu e um amigo que havia conhecido no dia que comprei o ingresso gritamos: "Barata Tonta".

E não é que a eterna Mutante vem em nossa direção, se agachou em nossa frente e deu o microfone para ambos cantarem!!! Pois é, eu  estava ali, cantando alucinadamente "o que que há, é só o amor" e todo o resto da canação, junto com o amigo, com a Rita e com Roberto de Carvalho tentando relembrar os acordes. Foi incrível. Rita entregou a camisa do Sport Club Internacional, que usava naquele momento, ao amigo que nunca mais vi, mas que lembro sair em êxtase como se fosse um troféu aquela camisa, e me puxou para perto do palco, agradecendo pelo momento e me dando um selinho como os que deu em Hebe Camargo. Caraca, me arrepio de lembrar que ela deu o selinho e na sequência, o Roberto de Carvalho apareceu, dizendo "você realmente é fã da Rita" me entregando a palheta dele em mãos.

Santa Rita de Sampa não deixará saudades, por que ela deixou um legado de canções, momentos, entrevistas e histórias marcantes. O dia é triste por que o corpo de Rita finalmente descansou depois de uma doença terrível, que ela corajosamente (como sempre foi em sua vida) lutou e não se abdicou de contar ao mundo o que sofreu, sem ser piegas ou querendo compaixão, mas para mostrar à todos que é necessário lutar pelo que se quer. Hoje, Ovelha Negra, é um dia mais que perfeito para não fazer nada, só para deitar, rolar e ouvir você.



terça-feira, 25 de abril de 2023

Capas Legais: Pink Floyd - Ummagumma [1969]

 


O episódio de Capas Legais de hoje resgata a famosa capa de Ummagumma, quarto álbum do Pink Floyd, e que apresenta aos fãs o Efeito Droste, ou seja, uma imagem que se repete de forma infinita. O álbum duplo conta um álbum de estúdio, apresentando apenas canções individuais de cada membro da banda, e o outro álbum é ao vivo, que se tornou o único registro oficial ao vivo do Pink Floyd com Roger Waters. Confira, curta, compartilhe e aproveite também para inscrever-se em nosso canal.



segunda-feira, 3 de abril de 2023

King Crimson - Live in Newcastle December 8, 1972 [2019]


Uma das raras oortunidades de ouvirmos a Mark V em ação e em um show com Robert Fripp (guitarra, mellotron), Bill Bruford (bateria, percussão), Jamie Muir (percussão e efeitos), David Cross (violino, flauta e mellotron) e John Wetton (baixo, vocais), número de série Club48 (ou seja, o quadragésimo oitavo volume da série de lançamentos The King Crimson Collectors' Club, com shows e mixagens alternativas que Robert Fripp vem resgatando ao longo dos últimos anos.

Descoberta por Chris Kettle, um membro da banda que esteve na Discipline Global Mobile (DGM, a empresa de Robert Fripp responsável pelos lançamentos do King Crimson) no ano de 2017, essa apresentação, apesar de ser em mono, é um registro com audição muito boa de um período fértil e especial na história dos britânicos.

Jamie Muir, Bill Bruford, Robert Fripp, David Cross e John Wetton

O show começa com "Lark's Tongues In Aspic Part One", em sua totalidade, numa versão muito fiel a que foi registrada no mês seguinte nos estúdios, e que culminou com o lançamento do álbum Lark's Tongues in Aspic. Nessa versão, o grande destaque vai para a endiabrada participaçãon de Muir, fazendo suas estripulias e cacofonias sonoras que marcaram a Mark V do Crimson. Outro fato interessante é a pequena mudança no solo de Fripp, mas só crackudos dos ingleses irão perceber essas mudanças. Já na virada do solo de Fripp para a entrada do baixo, aí sim, temos um trecho adicional inexistente na versão de estúdio, que mostra todas as qualidades improvisionais de Fripp. Passamos pelo anúncio de Fripp, "My, my what a ice crowd of people they have in Newcastle. The piece was entitled Lark's Tongues in Aspic Part I. Lark's Tongues in Aspic Part II finishes the evening's music. But now, we will proceed to attack culture yet again with a song entitled Daily Games and this, in turn, is preceded by a small demonstration of melloton tuning" e vamos então a "Book of Saturday".

Bill Bruford (acima) e Robert Fripp (abaixo)

Nessa época, essa linda canção ainda era chamada "Daily Games", com apenas algumas mudanças na letra, e a participação de uma tímida percussão, segue bastante fiel a versão de estúdio. Entramos então no primeiro improviso do CD, intitulado "Improv I", uma magnífica palheta sonora de quinze minutos que começa suave, com baixo e guitarra solando acompanhados pela leveza percussiva. A jam vai crescendo a partir da entrada do violino, e vamos conhecendo cada vez mais a gama de instrumentos e aparatos que Muir utilizava para criar música. O solo de Wetton tem participação direta de Bruford para comandar o ritmo, e então, o improviso vai ganhando tons mais sinistros, chegando ao solo de Fripp, carregado de sustain e muita percussão ao fundo. Cross passa a solar, empregando wah-wah no violino, e de-lhe efeitos percussivos por Muir, enquanto Bruford e Wetton tentam manter alguma sanidade. O clímax é alcançado com Fripp, Muir e Cross travando uma batalha onde um quer engolir o outro, com muita velocidade nas notas e batidas, enquanto Bruford e Wetton certamente estão em um mundo à parte do que o trio está tocando. Aja concentração para entender o que acontece no palco.

John Wetton

O encerramento do improviso leva para a linda "Exiles", uma das mais belas canções da carreira do King Crimson, e aqui, também muito fiel a versão de estúdio, trazendo o vioolino e o mellotron de Cross, a delicadeza vocal de Wetton e toda emotiva interpretação feita pelo grupo. "Easy Money" aqui é ampliada em relação ao estúdio por um longo improviso, onde Fripp é o centro das atenções junto com as maluquices percussivas de Muir e a base endiabrada da cozinha Bruford /Wetton, enquanto Cross viaja em únicos dois acordes ao mellotron. 

Na sequência, começa o segundo improviso da noite, dezessete minutos de muita insanidade e experimentação, iniciando com Muir e Bruford abusando das percussões e o que está por perto. e que se alonga com as presenças assustadoras e arrepiantes dos mellotrons, e com um duelo enlouquecedor entre violino e mellotron, enquanto a pancadaria come ao fundo. Entre gritos e muita experimentação, temos é delírio total, e muuuuuuuuito longe de podermos imaginar que o que está saindo das caixas de som é algo próximo a King Crimson. Obviamente, essa exploração percussiva só pode levar para "The Talking Drum", que mantém bastante o padrão de Lark's Tongues in Aspic, com o crescendo percussivo e do volume enquanto Cross delira ao violino e Fripp abusa de sua guitarra. A versão aqui é um pouco mais curta que a que se tornou mundialmente conhecida, mas é de uma pancadaria considerável. 

David Cross (acima) e Jamie Muir (abaixo)

Essa pancadaria explode em "Lark's Tongues in Aspic part Two", um dos grandes clássicos dos ingleses, e que infelizmente está em apenas três minutos de duração, já que foi cortada abruptamente. mas os suficientes para comprovar por que muitos defendem a tese de que o King Crimson foi também um dos precurssores do Heavy Metal. 

Ainda temos um belo texto de Sid Smith, que esteve lá na noite que este registro foi feito. O mais interessante de tudo, como diz o próprio Smith no texto, é que ainda haviam três meses para que Lark's Tongues in Aspic fosse lançado, e eles nem haviam entrado em estúdio para gravar o mesmo. Ou seja, todos os que ouviram e viram o King Crimson naquele dia 8 de dezembro de 1972 ouviram algo totalmente inédito, inovador e por que não, atemporal, já que passaram-se quase 50 anos para que os fãs pudessem ouvir o que foi registrado naquela noite, sendo a audição mesmo por alguém que nasceu 10 anos depois disso, totalmente inédita aos meus ouvidos ainda hoje.

Contra-capa do CD aqui apresentado

Track list

1. Larks' Tongues In Aspic Part One

2. RF Announcement

3. Book Of Saturday (Daily Games)

4. Improv I

5. Exiles

6. Easy Money

7. Improv II

8. The Talking Drum

9. Larks' Tongues In Aspic Part Two

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

Carniça - A New Medium Ages [2022]


Depois de dois anos e meio de trabalho, os gaúchos do Carniça lançaram seu quinto disco, A New Medium Ages. O  álbum do grupo de Thrash/Death Metal foi produzido pela própria banda, constituída por Mauriano Lustosa (vocal), Parahmim Neto (guitarra), e Marlo Lustosa (bateria), junto do baixista Kaue Müller, ex-Soul Torment, Férvoa, Névoa e Psycophobia, entre outros. Oriundos de Novo Hamburgo, são um dos grandes nomes da cena atual metálica no Rio Grande do Sul, apesar de já estar na estrada a mais de 30 anos, tendo lançado os álbuns Rotten Flesh (1999), Temple’s Fall… Time to Reborn (2011), Nations of Few (2013) e Carniça (2017), e faz aqui talvez seu melhor disco.

O álbum abre com “Intro the Dark”, um tema soturno, com corvos e muito peso, que já indica o que virá a partir de então, através de “Dogs of War”, uma paulada agressiva, com destaque para os velozes riffs da guitarra e a brutalidade na bateria de Marlo. Seguimos com “País Sem Salvação”, um forte desabafo contra o atual sistema social do Brasil. Ambas as canções já haviam saído como singles e vídeos antes do lançamento de A New Medium Ages, então, os fãs certamente sabiam o que esperar: muita pancadaria e rifferamas.


“Command” surge lembrando bandas do metal melódico, mas logo se torna uma faixa pesada, com o baixão retumbante e os agressivos vocais de Mauriano. Destaque também para o belo solo de Parahmim. A faixa título é mais uma pancada pesada no estômago, com uma rifferama à la Slayer, e forte candidata a melhor do álbum. O wah-wah come solto na intro e no solo de “You Are Dead”, outra faixa com bons riffs, e que me remete diretamente ao Exodus anos 2000.

A reta final do disco começa com a fantástica introdução de “Sexual Perverted”, mantendo o nível das anteriores, com muita pancadaria na bateria, mas aqui alternando as velocidades dos riffs, e destacando principalmente os vocais. “World Demise” diminui a velocidade, mas coloca ainda mais peso nas caixas de som, em uma faixa arrastada que prepara o terreno para o gran finale de A New Medium Ages. Nada mais nada menos que uma versão muito fiel instrumentalmente à “Powerslave” (Iron Maiden), porém com os vocais guturais de Mauriano se sobressaindo por esta que é uma das melhores criações de Mr. Steve Harris, e que certamente irá ser admirada pelos fãs da Donzela.

A New Medium Ages chegou no formato físico pela parceria entre os selos Heavy Metal Rock, Brutaller Records, Extreme Sound Records e Thrash Or Death Records, com distribuição nacional e internacional. O formato físico de A New Medium Ages traz edição de luxo em box acrílico, acabamento em slipcase fechado e encarte interno com letras. Destaque também para a capa, a cargo de Alcides Burn, nome que já trabalhou com nomes como Slayer, Nervosa, Krisiun, Headhunter D.C., entre outros. E claro, o álbum é extremamente indicado para admiradores dessas bandas.

Track list

1. Intro the Dark

2. Dogs of War

3. País Sem Salvação

4. Command

5. A New Medium Ages

6. You Are Dead

7. Sexual Perverted

8. World Demise

9. Powerlslave

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

Ouve Isso Aqui: Hard Rock Brasileiro



Com Anderson Godinho, AmdreKaminski, Daniel Benedetti, Davi Pascale, Líbia Brígido, Mairon Machado e Marcello Zappellini

Assim que o André me disse que havia sido o escolhido, tive a ideia do tema. Sempre gostei muito de hard rock e, no Brasil, ainda que várias bandas gringas arrastem multidões (vide Guns n Roses, Kiss, Whitesnake, entre outros), nunca tivemos uma cena realmente forte no estilo. Quando digo que não tivemos uma cena forte, não me refiro à qualidade dos grupos que se arriscaram (senão, essa matéria não existiria), me refiro que nunca tiveram um investimento à altura por parte das gravadoras, ficando sempre naquele esquema de banda de nicho, sendo que muitos tinham qualidade para terem ido muito mais além. Hoje, trago 5 exemplos, mas existem outros nomes que poderiam estar aqui facilmente.  (Davi)


Golpe de Estado – Nem Polícia, Nem Bandido [1989]

Davi: Um dos primeiros nomes que me veio à mente foi o do Golpe de Estado. O time era perfeito. Helcio Aguirra era um guitarrista de mão cheia. Catalau tinha umas letras bem sacadas, além de ter um carisma fora do comum. Paulo Zinner é um verdadeiro monstro. Para mim, um dos melhores bateristas de rock do Brasil, uma espécie de Ian Paice brasileiro. A fase clássica durou 5 discos. Esse é o terceiro e o meu preferido. O repertório desse disco é, simplesmente, perfeito. Faixas como “Velha Mistura”, “Paixão”, “Não é Hora”, “Filho de Deus” e “Nem Polícia, Nem Bandido” são considerados clássicos do grupo. Certamente, um dos grandes álbuns do rock brasileiro.

Anderson: Musicalmente acho o mais fraco da lista, mas talvez seja um dos mais carismáticos. É bom de ouvir, passa fácil o tempo. Traz muito do Rock Brasil dos anos 80 com sua simplicidade, rima fácil, riffs no geral nada complexos e um pouquinho de crítica aqui e ali. Bons momentos em ‘Velha Mistura’, os solos em ‘Paixão’ e ‘Ignoro’, e, ainda, na clássica faixa título mas não vai muito mais além.

André: Logo que começou a tocar o disco, fui conferir a ficha técnica para ver se o Cazuza não havia gravado este disco. Mas não, é o vocalista Catalau. Já havia ouvido alguma coisa mais nova com o segundo vocalista Kiko e o Golpe de Estado sempre esteve numa fila para minhas audições que nunca chegou. Mas estou ouvindo agora e elogio muito a parte instrumental – que não deve em nada para as americanas e europeias – em compensação as vozes soam um pouco estranhas devido a elas serem gravadas naquele estilo mais leve do nosso tradicional BR Rock, soando muito mais como um Barão Vermelho do que como um Skid Row ou um Magnum. Um ótimo disco, que demora um pouco a acostumar, mas que empolga e me agrada bastante. Descanse em paz Hélcio Aguirra.

Daniel: Este não é pra mim.

Líbia: Há muito tempo não ouvia esse álbum, e constatei que está na hora de apreciar essa obra com mais frequência. Nem Polícia, Nem Bandido [1989] é aquele disco que flui muito bem e cresce a cada faixa, as letras falam da sociedade e cotidiano. Além do Hard Rock de respeito, há uma pitada de Heavy Metal. Uma das mais favoritas é a “Não é Hora” que começa com um riff de arrepiar os ouvidos, depois a cozinha incrível somado a vocais carismáticos e teclados ao estilo Jon Lord. É uma banda única e incomparável de uma linda safra do Rock que seguiu a sua carreira fazendo o que acreditava. Foi julgada como “Não acessível ao público” pelas gravadoras, e hoje, mesmo sem a grande predominância delas, acredito que certo boicote aconteça de forma sorrateira, não só ao GOLPE DE ESTADO, mas a muitas outras ótimas bandas do rock brasileiro.

Mairon: Clássico disco de uma das bandas mais emblemáticas do hard nacional, comandados pelo excelente guitarrista Hélcio Aguirra, que com certeza é o destaque do disco com uma performance muito inspirada nos guitarristas dos anos 80. O cara manda ver em riffzões grudentos como o da faixa-título e também de “Filho de Deus”, e faz belos solos em todas as faixas, sendo que a minha preferida  é “As Aparências Enganam”, mesmo não sendo uma versão para a linda canção de Tunai. Mas há algo no som da banda que me causa estranheza, que é o vocal de Catalau, que me lembra o Cazuza, e não parece casar com a parte instrumental. A faixa que ficou boa a união vocal/ instrumental com certeza é a baladaça “Ignoro”! É um bom disco e de grande importância para o cenário nacional.

Marcello: Este disco me trouxe boas memórias do meu tempo de estudante, e também serviu para relembrar o grande guitarrista Hélcio Aguirra (ex-integrante do Harppia, uma das bandas pioneiras do hard/heavy brasileiro, e cujo EP de estreia ouvi muito na adolescência), um mestre que nos deixou cedo demais. O terceiro disco do Golpe de Estado é o único dessa banda que ouvi, e, embora não o tivesse, sempre rolava nas casas de amigos. O disco como um todo é muito bom, com músicas bem escritas e letras divertidas. Nada de revolucionário, nada que mude a vida de ninguém, e sim um hard rock bem feito que, com letras em inglês, uma produção mais caprichada e a devida promoção, poderia ter emplacado no exterior. “Filho de Deus” e “Paixão” são as minhas músicas favoritas no disco, embora “Janis” traga o melhor solo de guitarra do LP e os riffs de “Nem Polícia, Nem Bandido” e “Não é Hora” sejam bem marcantes. Os vocais de Catalau são outro destaque, ligeiramente debochados e perfeitamente adequados ao clima do disco, que só cai um pouco de nível com a baladinha “Ignoro” – mas logo depois termina muito bem com “As Aparências Enganam”. O Golpe continuou por um bom tempo, mas nunca alcançou o sucesso que outras bandas revisitadas nesta seção obtiveram – uma injustiça, claro, mas o que se há de fazer?


Taffo – Rosa Branca [1991]

Davi: Para se fazer hard rock de qualidade é essencial que você tenha um grande cantor e um grande guitarrista. E o Taffo tinha isso de sobra. Andria Busic já se demonstrava um cantor fora da curva, quando lançaram esse álbum. Wander Taffo, sem palavras. Um dos melhores guitarristas que esse país já teve (sem exageros). A jogada aqui era fazer um hard rock oitentista, com acento comercial, e letras em português. Foi através daqui que tomei conhecimento do trabalho dos irmãos Busic. Comprei o LP, na época, depois de ouvir “Me Dê Suas Mãos” nas rádios. Faixas como “Olhos de Neon”, “Sonhos e Rock n Roll”, “Sweet Love” e “Vento Sul” também rodaram bastante nos meus toca discos. Essa é uma banda que mereceria ter gravado mais e mereceria ter um maior reconhecimento.

Anderson: Em vários momentos a referência que veio na minha mente foi… Roupa Nova! Banda essa que não gosto, tenho pavor! Algumas coisas aqui e ali são interessantes como a instrumental, mas curta,  ‘Intro’ e ‘Alquimista’, no mais tem cara de abertura da sessão da tarde dos anos 1990. Forçando bem a barra é possível pegar um Van Halen perdido em algumas passagens, mas muito incipiente. O que aparece mais são coros um tanto quanto toscos (como em Chaplin e Olhos de Neon) ou mesmo aquele eco estranho misturado com um teclado que faz uma ambientação de casamento (ou de RPM cover). Outras coisas, talvez datadas demais, como as melodias de “Vento Sul” e “Sem Tempo pra Sofrer”. Definitivamente um som datado, não orna mais. Tem sua história, deixa ela lá.

André: Gosto muito desse disco, mas o que lamento muito é que a produção ficou, na minha opinião, horrenda para o som que se propuseram a tocar. Taffo (outro falecido, descanse em paz mestre), é o grande destaque do trabalho, mas como hard rock o disco peca muito devido a essa mixagem instrumental que deixou tudo muito asséptico. Acho que se fosse para ter essa qualidade de gravação, era melhor seguir a linha do BR rock normal, deixar o baixo lá em cima e a guitarra de Taffo ficar fazendo lickzinhos menores (mas aí não seria o Taffo também… seria outra banda). Uns teclados que dão um pouco daquele estilo AOR e com composições excelentes, este disco tinha potencial para ser muito maior do que é. Um trabalho que eu tinha tudo para desgostar, mas que acabo adorando muito mais pelas ideias de composições do que pela execução.

Daniel: É um bom disco. Hard bem tocado, melodias interessantes, mas o excesso de baladas me desconcentrou algumas vezes. Destaco “Vento Sul”, “Sweet Love” e “Me Dê a Sua Mão”. É um álbum que eu cogito retornar para uma segunda impressão.

Líbia: Uma surpresa e tanto, mais uma do “antes tarde do que nunca”. De primeira já senti uma familiaridade com o som, então fui pesquisar a história, já vi diversos destaques do cenário envolvidos. Li sobre a trajetória do Wadder Taffo, que teve um bom reconhecimento na grande mídia nos anos 90. Quanto ao Rosa Branca [1991], de primeira já gostei da introdução seguida da “Olhos de Neon”, no geral é um álbum bem radiofônico, sinto que já ouvi por aí em algum lugar do passado. Eu curti os vocais cristalinos e agudos, mas talvez possa soar cansativo com o tempo. Por enquanto minha favorita tem sido “Sonhos e Rock ‘n’ Roll”, vou procurar conhecer mais. Dá pra ouvir no churrasco tranquilamente!

Mairon: Wander Taffo é sinônimo de qualidade na guitarra. O cara que começou em um dos melhores álbuns da música nacional (Secos & Molhados, 1978) fez carreira solo com grande destaque por conta de sua virtuosidade nas seis cordas, e unindo aos irmãos Busic, isso poderia dar ainda mais virtuose à Rosa Branca, como na vinheta “Intuição”. Mas não é o que temos. Acho que para o calibre dos músicos, o álbum é um tanto quanto leve, com músicas onde há pouca sofisticação, tipo “Me Dê Sua Mão”, “Sonhos e Rock ‘n’ Roll” ou “Vento Sul”. Ok, Taffo sola como poucos, mas as músicas estão aquém do que esse trio podia apresentar (e apresentou antes e depois da Taffo). A banda podia ter colocado mais peso, ou ao menos seguir uma linha mais próxima do que fizeram por exemplo em “Chaplin”, que apesar de ser uma faixa acessível, é uma faixa boa. No geral, ficam parecendo um Yahoo com um ótimo guitarrista. “Olhos de Neón” se tornou um grande sucesso, naquela linha do fim dos anos 80 onde os teclados fazem suas camadas para a guitarra “Van Haleana” brilhar! “Sweet Love” é uma canção em inglês onde, se não fossem os teclados, seria bem mais agradável. Aliás, esses sintetizadores dos anos 80 são dose de aguentar. Gosto dos violões da faixa-título, que me remetem ao citado disco do Secos & Molhados, e de “Um Pouco De Você”, o que dá um diferencial no som do disco, que é representativo da época musical no Brasil, mas abaixo do talento dos músicos envolvidos.

Marcello: Outra banda capitaneada por um excelente guitarrista que nos deixou cedo demais, Wander Taffo, um veterano que teve seu primeiro gosto do estrelato com o Rádio Táxi, uma das primeiras bandas do rock brasileiro dos anos 80 a alcançar o sucesso comercial na esteira do fenômeno Blitz. O Taffo também chegou a emplacar no mainstream, colocando músicas em novelas da Globo (cujos LPs das trilhas sonoras eram a porta de entrada dos fãs para muitas bandas da época) e tendo seus clips exibidos na MTV, um feito e tanto para uma banda da cena hard brasileira. A banda incluía os incansáveis irmãos Busic (que eu conhecia do Platina – outro grupo cujo disco ouvia com os amigos quando começava a me aventurar pelo hard e heavy nos anos 80, e que vão reaparecer em outro disco deste Ouve Isso Aqui). O som neste disco é mais leve do que o do Golpe de Estado, às vezes beirando o AOR, com o charme da excelente guitarra de Wander Taffo – “Sonhos e Rock’n’Roll” e “Sweet Love”, por exemplo, são músicas que, sem ela, não teriam grandes atrativos. Os teclados de Marcelo Souss têm grande destaque nos arranjos, e os vocais são muito bem cuidados. “Rosa Branca” é um disco bastante agradável de se ouvir; não é muito a minha praia, mas tem vários destaques: “Chaplin”, por exemplo, grudou nos meus ouvidos de tal modo que fiquei dias cantarolando, a faixa-título é muito boa e “Olhos de Neon” tem um ótimo trabalho vocal.


Rosa Tattooada – Rosa Tattooada [1992]

Davi: O Rosa Tattooada é muito lembrado por ter sido o numero de abertura do Guns n Roses, quando esses estiveram no Brasil lançando o álbum Use Your Illusion. E era exatamente esse disco que estavam lançando, na ocasião. Eles já haviam lançado um LP independente antes (que tenho na minha coleção, inclusive), mas foi esse álbum que me marcou. Perdi as contas de quantas vezes ouvi esse disco. Até comentei isso com o cantor Jacques Maciel, quando topei com ele na saída do show do Ace Frehley. Por ironia do destino, a música que virou carro chefe desse trabalho (a balada “O Inferno Vai Ter Que Esperar”) nunca fez minha cabeça. Faixas como “Perdedor”, “Na Estrada”, “Voando Baixo”, “Onde Moram os Anjos” e “Tardes de Outono”, por outro lado, sabia as letras de cor e salteado. Certamente, um trabalho que não poderia ficar de fora da minha lista.

Anderson: Dentre os escolhidos para essa publicação, esse foi o material que gostei mais. Um Hard despojado muito bem executado principalmente nas melodias. Algumas letras, como é praxe no Hard Rock em geral, soam um tanto bobas e o clima de fim de feira pro Hard Rock oitentista do começo dos anos 1990 ajuda a dar esse tom quando colocamos em contexto. Entretanto é um baita disco! ‘Brilho da Noite’, ‘Cabelos Negros’, ‘Voltando pra Casa’ apresentam um disco rápido e empolgante! Das baladas ‘Tarde de Outono’ apresenta uma música muito bonita, seguida por ‘Noites e Dias’ que proporciona um dos solos mais legais do disco. Um clássico do Sul pro Brasil.

André: Com uma banda como essa, o Rosa poderia facilmente atingir o mercado mundial caso cantassem em inglês. Nunca deveram em nada às gringas. Esse é o meu disco preferido dos cinco. O peso de “Voando Baixo” poderia tranquilamente rivalizar com as bandas oitentistas. A malícia de “Onde Morrem os Anjos” poderia estar em qualquer clássico do Kiss. Falo sério, banda total e completamente underrated e que deveria ter muito mais valor do que tem hoje.

Daniel: Nunca havia ouvido. Gostei, tem a pegada oitentista que tanto me agrada. Não conheço nada sobre a banda, mas o Guns deve ser uma referência óbvia. Este vou retornar em nova oportunidade para ouvir uma segunda vez. Destaco “Perdedor”, “Voltando pra Casa” e a ‘motleycruana’ “Na Estrada”.

Líbia: Conhecendo essa beleza agora, e sinto que agora deixo de cometer um crime em não ouvir. Já que eu tive esse sentimento de culpa, posso dizer com toda certeza que se trata de mais um grande nome do Hard Rock, não só brasileiro como no mundo. Eu conhecia o nome, inclusive por coincidência ou energia, ganhei de presente uma camiseta do “Tardes de Outono” a poucos dias, mas agora, de fato, que estou conhecendo a banda. Agora falando do Rosa Tattooada [1992], ouço uma banda com os dois pés no rock ‘n’ roll. “Voltando pra casa” tem aquela rifferama gostosa de ouvir, vocais venenosos e toda aquela atmosfera da cena hard da época. Fiquei feliz em saber que a banda ainda está na ativa, sinal que verei novidades e quem sabe assistir alguma apresentação. Baita banda gaúcha, com uma excelente trajetória e ótimas referências.

Mairon: Essa eu ouvi bastante. O álbum de estreia é um clássico do hard rock gaúcho, que levou o Rosa ao Brasil graças ao sucesso da baladaça “O Inferno Vai Ter Que Esperar”, faixa que era obrigatória em qualquer encontro com um violão e um bom vinho de quinta categoria no inverno gaúcho. Daí em 1992 veio esta edição, que reaproveitou algumas faixas do primeiro. Das canções novas, estão o peso de “Perdedor” e “Voando Baixo”, essa que surgiu com força nas rádios do centro do país (lembro deles tocando ela no programa do Serginho Groissman no SBT), a bela “Virando Noites e Dias”, com um bom solo de encerramento, e a pegada “Onde Morrem os Anjos”, outra que fez relativo sucesso, e que mantém o padrão do que o grupo havia apresentado anteriormente. Das faixas reaproveitadas, temos a citada “O Inferno Vai Ter Que Esperar”, certamente a canção mais conhecida dos caras, o outro grande sucesso do Rosa, “Tardes de Outono”, também obrigatória nos encontros de amigos, e os rockaços falando sobre viagens (“Na Estrada” e “Voltando pra Casa”), paixões (“Cabelos Negros”) e festas (“Friday Night”), como manda o bom e velho estilo do hard. Uma lástima que a banda acabou passando por diversos atritos ao longo da carreira (pude presenciar uma das brigas durante a abertura para o show do Guns em 2010). O Jaques é gente boa pacas, atendia numa loja de discos em Porto Alegre, depois que a banda terminou, sempre com uma simpatia ímpar, e uma humildade que contrastava com o sucesso que a banda obteve por aqui. Legal ouvir de novo!

Marcello: A banda gaúcha é outra que teve seu momento de sucesso justamente graças a este álbum, mas me passou quase desapercebida na época – mais por culpa minha do que por falta de méritos do grupo. O disco tem um sabor de hard norte-americano, feito com muita competência e ótimo instrumental, com destaque para as guitarras de Jaques Maciel e Paulo Cássio; entretanto, os vocais do Jaques, para mim, são o ponto fraco do disco – não me agrada o timbre da voz nem seus maneirismos calcados no Axl Rose. Quanto às músicas, “Perdedor” abre muito bem o álbum, e “Virando Noites e Dias”, por outro lado, não começa tão bem assim, mas termina muito legal, com uma interessante coda instrumental. E o disco prossegue em alto nível, mesmo com as minhas reservas em relação ao vocal. “O Inferno Vai Ter que Esperar” é a famosa música que eu já conhecia e não sabia/não lembrava de quem era, e é um dos destaques do disco, seguida por “Tardes de Outono”, mais ou menos no mesmo estilo. “Friday Night” levanta o astral mais uma vez, e me lembrou um pouco “Saturday Night (Is Alright for Fighting)”, de Elton John – não, a música não é nenhuma cópia, mas o ritmo e a letra me trouxeram esse clássico à cabeça. Enfim, um disco que, se não fosse pelo problema do vocal, teria tocado bastante lá em casa se tivesse comprado naquela época – e certamente teria ido assistir aos shows da banda que rolaram na região de Floripa.


Dr. Sin – Dr. Sin [1993]

Davi: Descobri o Dr. Sin antes mesmo do primeiro álbum ser lançado. Já era fã dos irmãos Busic por conta do trabalho deles com o Taffo e acabei descobrindo o grupo depois que assisti uma gravação do show que realizaram no Hollywood Rock 93. Lembro que fiquei impressionado com a performance. A banda era ligeiramente mais pesada do que o Taffo, mas as influências de Van Halen, Whitesnake e afins continuavam presente.  O disco contava com uma (ótima) versão de “Have You Ever Seen The Rain” (Creedence Clearwater Revival), que passou a ser executada por muitas bandas de classic rock. Um momento que ficou na minha memória foi quando fiz aulas de bateria com o Ivan, anos mais tarde, e acabei puxando a intro desse s0m para brincar com ele. O Ivan sentou na bateria ao lado e acabamos tocando a música inteira juntos no dia hehehe (valeu, Ivan!!). Voltando ao disco, minhas faixas preferidas ficam por conta de “Howlin In The Shadows”, “Valley of Dreams”, “The Fire Burns Cold”, “Dr. Sin” e o clássico “Emotional Catastrophe”.

Anderson: Novamente os irmãos Busic, mas aqui em sua melhor versão. De fato o Dr. Sin é um clássico nacional. Esse álbum, o primeiro da banda, realmente possui um aspecto mais Hard que Heavy, o que mudaria depois mesmo que mantendo a essência Hard Rock. Eu fico com a primeira metade o álbum. De começo a ótima Emotional Catastrophe seguida pela boa Dirty Woman mostram um Ardanuy inspirado junto aos irmãos. Destaco ainda a Rock and Roll The Fire Burns Cold que destoa por ser mais direta e a melhor do disco Stone cold Dead. A decepção do material é Dr. Sin a música que leva o nome da banda precisava ser mais intensa. Não é o meu preferido deles, mas um bom disco.

André: Vou soar muito do contra se dizer que prefiro a discografia do Dr. Sin pós 2000 e que acho este auto-intitulado apenas mediano? Sempre achei Andria Busic  um vocalista esforçado, mas um pouco limitado (no Taffo anterior também), mas ele melhoraria e controlaria melhor sua voz muito mais na década seguinte. Mesmo que Edu Ardanuy sempre tenha sido considerado como “o cara” do Dr. Sin, não acho que suas melhores composições e performances estejam aqui. Se o Davi tivesse indicado o Original Sin [2009], eu estaria aqui rasgando elogios.

Daniel: Este é o único que eu já conhecia e gosto demais dele. A pegada das guitarras do Eduardo Ardanuy combina perfeitamente com o meu gosto, oscilando entre peso e melodias com perfeição. Grandes vocais, banda entrosada, “jogo” ganho.

Líbia: Mais um que não ouvia a bastante tempo, e trata-se de uma das primeiras grandes bandas nacionais que assisti em minha adolescência lá na minha longínqua cidade nortista, e assisti sem conhecer, e o show foi realmente histórico para quem já conhecia, eles já eram uma lenda do rock nacional. Essa doce lembrança foi despertada enquanto ouvia uma das melhores estreias de uma banda. Na época desse lançamento, em 1993, muitas rupturas já tinham acontecido com grandes bandas e outras estavam prestes a acontecer. Sempre tento imaginar o contexto que a banda vivia na época, e de primeira audição qualquer um pode notar grande inspiração ao ouvir “Emotional Catastrophe”, essa primeira faixa já nos apresenta a qualidade do Dr. Sin. Músicas como a  “Stone cold dead” ainda soam atuais. Minha favorita é a intensa “The fire burns cold”, os vocais são verdadeiramente excelentes, e contém solos de guitarra de muita personalidade que dá um passeio no folk. Um clássico.

Mairon: Aqui sim os irmãos Busic acertam a mão. Ao lado de Edu Ardanuy, outro monstro da guitarra virtuose do Brasil, os caras fazem um som muito inspirado no hard americano de nomes como Extreme e Skid Row, e o disco soa redondinho. Os três estão tocando muito, é muito bom ouvir as bases do Ivan, os solos e riffs do Ardanuy, e claro, a pegada de Andria. Era o que eu esperava no Taffo. Todas as canções são ótimas. Curto o peso de “Scream and Shout” e dou destaque especial para “Emotional Catastrophe” e “LonelyWorld”, que se colocassem e dissessem que era Skid Row eu acreditaria tranquilamente, ou a baladaça a la “More Than Words”, apenas com voz e violão, batizada “Through My Window”. E em termos de balada, “You Stole My Heart” também é muito legal, Outras ótimas são a pesada “Stone Cold Dead” e a bela revisão de “Have You Ever Seen The Rain”. Falando em covers, lembro do trio tocando no Hollywood Rock de 93, interpretando versões pauladas para “Whole Lotta Rosin'” (AC/DC) e “Rock and Roll” (Led), e altos solos, uma pegada fantástica, sonzeira boa!! Não sei se rolou na época uma Doctor Pheabesada, acho que não, mas que os caras mereceram estar no palco ao lado de Alice in Chains, Nirvana, Red Hot e L7, ah mereceram. Eram a melhor banda de hard/heavy do país, junto do Viper, e ainda hoje, essa estreia tem muitos novos fãs para conquistas. Discaço!!

Marcello: A mais bem-sucedida das bandas deste Ouve Isso Aqui, o Dr. Sin contou, desde o início, com o apoio de uma grande gravadora, o que se reflete na boa produção (de Stephan Galfas, que eu conhecia do disco “Destiny”, do Saxon) e na excelente sonoridade de seu álbum de estreia. Tive meu primeiro contato com o grupo assistindo o Hollywood Rock de 1993 – aquele que ficaria famoso pelo show absurdamente detonado do Nirvana. Contando com excelentes músicos – os já mencionados irmãos Busic e o guitarrista Eduardo Ardanuy – o Dr. Sin apresenta no seu disco de estreia um hard rock clássico, puxado pela faixa de abertura, “Emotional Catastrophe”, cujo clip rolou bastante na MTV (na época em que M ainda significava Música e não outra substância…) mas que, curiosamente, não está entre as músicas mais fortes do trabalho. O baixo de Andria Busic tem bastante destaque ao longo do disco, o que pode incomodar quem não curte o som mais grave, mas como não é o meu caso, é um dos detalhes que mais chamam a atenção. O disco tem um padrão uniformemente elevado de qualidade, com músicas bem construídas, com bons refrões e muita musicalidade transbordando, tropeçando apenas na desnecessária versão para “Have You Ever Seen the Rain”, do Creedence. As melhores, para mim, são “Stone Cold Dead”, que dá vontade de cantar junto, “The Doctor Sin” (melhor solo de guitarra do disco!!), “Valley of Dreams”, com sua breve introdução a capella, e “Through My Window”.


Cavalo Vapor – Greatest Little Hits [1997]

Davi: O Cavalo Vapor foi formado em 1982, mas foi somente em 1997 que eles gravaram seu primeiro (e único) álbum. O único conhecimento que tinha do grupo, até então, era a faixa “Sem Escalas”, que já tinha visto o clip na MTV. O clipe, inclusive, tinha um lineup diferente. Lembro que o  vocalista era o (excelente) Fernando Nova, que tinha feito parte da última formação do Taffo. No álbum, os vocais ficaram por conta do Nando Fernandes. Descobri o trabalho dele através desse álbum. Lembro que fiquei impressionado com a performance do rapaz e acabei virando fã. A faixa “Sem Escalas” está aqui e é a responsável por abrir o CD. Outros momentos de destaque ficam por conta de “Epicentro”, “O Rato e o Elefante Branco”, “Entre o Sim e o Não” e “Ainda Pode Ser”. Uma curiosidade legal, para quem está chegando agora, é que as gaitas de “Antes Só” foram gravadas por ninguém mais, ninguém menos do que Ian Gillan (sim, o próprio).

Anderson: Contando com Nando Fernandes e Luiz Sacoman não tinha como errar. Dois monstros nacionais apresentando um Hard Rock com muita influência dos anos 1970, muito de Deep Purple e Whitesnake por ali. É, como todos os discos dessa lista, um clássico nacional apesar de ser de 1997. Dentre as músicas em si ‘Sem Escalas’ é a entrada perfeita e talvez a melhor do álbum, mas outras ótimas são apresentadas: ‘Antes só’ cola no blues e é sucesso! Divertida, pesada, e ainda conta com o famoso solo de gaita do Ian Gillan. Ainda, a balada ‘Nômade’ com referências claras ao Skid Row (talvez involuntárias, mas muito evidentes). Por fim, destaco ainda a boa ‘Entre o Sim e o Não’, que fecha o álbum de modo pesado e deixando um futuro promissor em aberto, coisa que não aconteceu. Altamente recomendável o material.

André: Não conhecia esta banda. Novamente um bom instrumental, boas composições, atrapalhadas novamente por uma produção abafada e sem força. Oh céus, como o Brasil tinha problemas para mixar direito um disco de hard rock… Nando Fernandes já tem uma voz mais parecida com a dos vocalistas gringos, o que ganha alguns pontos na interpretação do disco. Destaco aqui “Ainda Pode Ser”, com um teclado aorzento daqueles que arrebata o meu coração. Outra obra e outra banda com potencial, mas que acabou prejudicada pela gravação ruim.

Daniel: Dos que eu não conhecia, este foi o que mais gostei. Pareceu-me mais diversificado, ora flertando com o AOR (como em “Sem Escalas”), em outras soando mais pesado, flertando com o Metal (“Epicentro”) e ainda há “Antes Só”, com um riff que me lembra bandas como o Alice in Chains. Muito bom.

Líbia: Nando Fernandes até hoje é um dos melhores e maiores vocalistas brasileiros, hoje está com um dos melhores lançamentos dos últimos tempos com a Sinistra que lançou um álbum e tanto em 2022. Essa qualidade sonora o acompanha desde há muito tempo, Cavalo Vapor já mostrava um grande diferencial em sua época, como podemos ouvir nesse lançamento. “Sem escalas” é um dos maiores sucessos, e sim, o tempo passa muito rápido, principalmente quando ouvimos uma sonoridade com tanta qualidade em todos os sentidos. Um dos pontos altos na minha opinião é a faixa “Epicentro”, os vocais de apoio dão um show ao lado do vocal principal! Álbum fundamental do hard rock brasileiro.

Mairon: Dos aqui apresentados, esse eu não conhecia, e fiquei curioso por saber que existia banda de hard heavy no Brasil em 1997, ano em que a cena rock no país estava bem diferente. O nome do disco certamente é o guitarrista Luiz Sacoman. O cara sola bastante, como manda o figurino do estilo, mas acho que falta potência ao som do Cavalo Vapor (perdão pelo trocadilho). Há músicas legais, como “O Rato E O Elefante Branco”, “Nômade” e “Ainda Pode Ser” mas o vocal acaba sendo irritante ao longo da audição. Daí fui ver e é o chatérrimo do Nando Fernandes quem tá ali (o cara do Hangar e do Souspell…).  Fiquei imaginando se Ian Gillan pudesse cantar uma única canção do disco, já que ele manda ver (surpreendentemente) na harmônica que introduz o blues “Antes Só”, que nem preciso dizer é a melhor de Greatest Little Hits. Faixas como “Sem Escalas” ou “Fera Sem Faro” soam deslocadas em época, e não me agradaram. Os teclados aqui ao menos já soam melhores do que o disco do Taffo por exemplo, e assim acabei achando o segundo mais fraco dessa lista, à frente apenas da decepcionante obra do Taffo.

Marcello: Essa banda eu só conhecia de nome, nunca tinha ouvido nenhuma música deles antes. Assim, coloquei o disco na playlist na base de “vamos ver o que vai sair daí”; felizmente, veio coisa boa! O Cavalo Vapor veio do bairro paulistano da Pompeia, que dera ao mundo o Made In Brazil, e trazia em sua formação os irmãos Luiz e Oscar Sacoman (respectivamente, guitarra e baixo), além de Delfin Rolan nos teclados (o trabalho dele no órgão me fez lembrar do grande Phil Lanzon!), Sandro Big Head na bateria e o ótimo vocalista Nando Fernandes – embora os créditos no Discogs o coloquem apenas em duas músicas (não encontrei muitas informações sobre o disco, para ser honesto!). Uma nota interessante: Ian Gillan (ele mesmo) toca harmônica na introdução de “Antes Só” – que não precisava dele para chamar minha atenção, um blues pesado com excelente instrumental e algumas pirotecnias vocais. Li que o Silver Voice não recebeu créditos por razões contratuais. É um dos destaques deste disco muito bom, pesado na medida, mais uma vez com destaque para a guitarra, e desta vez, com vocais de primeira qualidade. Os destaques são muitos, especialmente “O Rato e o Elefante Branco”, “Epicentro”, “Ainda Pode Ser”, “Não Tente Fazer Isso em Casa” e “Nômade”, músicas muito bem compostas e interpretadas. Enfim, um excelente disco de hard brasileiro, com letras bem mais interessantes do que os dos discos do Taffo e do Rosa Tattooada. Junto com o disco do Golpe de Estado, este “Greatest Little Hits” – ótimo título, aliás! – foi meu favorito dentre os que foram apontados para esta seção.

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