domingo, 8 de novembro de 2009

Deep Purple - Mark III



E os anos se passaram. Ritchie Blackmore finalmente tinha um vocalista gritando no palco tal qual Robert Plant fazia no Led Zeppelin (o que comprova a importância do Led até para as principais bandas do ramo). Porém, o mar de rosas começou a sugar o barco purpleano durante as gravações de Who Do You Think We Are?. Blackmore e Ian Gillan começavam a se desentender cada vez mais, tanto que Gillan chegou a compor uma música do disco especialmente para o guitarrista: "Smooth Dancer".

No primeiro semestre de 1973 o clima de stress entre os dois chega ao auge. Gillan passa a beber demais, o que o levava a discussões coléricas e chiliquentas nos mais variados lugares (hotéis, camarins, restaurantes, aviões, ...), anunciando aos empresários que, após a excursão ao Japão, em junho daquele ano, pularia fora do barco.

29 de junho de 1973 se tornaria uma das datas mais importantes para o rock mundial. Ali, um grande grupo, com seguidores por todo o mundo, contando com uma formação brilhante e que lançara álbuns incrivelmente fantásticos, lotando casas de shows e mostrando uma competência no palco impecável, caía às ruínas. Durante o show de Osaka, Ian Gillan anunciava ao mundo que aquele era o último show do Deep Purple com ele, inclusive negando-se a cantar um dos principais versos de "Smoke on the Water", o que fala exatamente sobre que "não importa o que possamos tirar disso".

A saída de Ian Gillan chocou a todos, menos Blackmore, que ainda sugeriu a Roger Glover para que o mesmo saísse da banda. E foi o que ele fez, se dedicando a produção de novos talentos (entre eles, Nazareth e Judas Priest) na gravadora do Purple - Purple Records -, além de produzir seu próprio álbum, The Butterfly Ball, enquanto Gillan foi trabalhar no ramo da hotelaria e também desenvolvendo competição de motos.

As especulações em torno do novo vocalista surgiam com nomes como Paul Rodgers e Phyl Lynott. Na verdade, o trio Lord/Blakmore/Paice já estava de olho em um jovem talento que surgia no power trio Trapeze. Assim, partem para acompanhar a turnê americana do grupo, onde em Nova York oferecem a proposta para Glenn Hughes ser o novo baixista do Deep Purple. Hughes aceitou a proposta com uma condição: metade das músicas deveriam conter vocalizações suas.

Próximo passo: encontrar um vocalista fixo. Para isso, um novo anúncio foi colocado nos jornais, de onde surgem milhares de candidatos, entre eles um dos líderes da The Fabulosa Brothers, David Coverdale. O contato de Coverdale com o Purple ocorreu através de um management muito salafrário chamado Roger Baker, que conseguiu o telefone de contato da Purple Records e informou que naquela semana enviaria uma fita da The Fabulosa Brothers para ser conferida.

Três semanas após a audição da tal fita, que contava com uma foto de Coverdale ainda escoteiro, o cantor foi chamado para uma audição, com a confirmação do mesmo como novo vocalista do Deep Purple ocorrendo em setembro, ao mesmo tempo que Hughes se despedia do Trapeze. No mesmo mês começam a compor para o novo álbum.

A nova formação sobe ao palco pela primeira vez novamente na Dinamarca, desta vez em Copenhagem, no dia 09 de dezembro de 1973, onde também gravaram uma faixa instrumental, "Coronarias Redig", que virou lado B de "Might Jut Take Your Life" e pode ser conferida na coletânea Anthology de 1985. Até 17 de dezembro ainda passam por Suécia, Bélgica, Áustria e Alemanha.

No ano seguinte dão sequência à turnê com shows na França e Alemanha no mês de janeiro, mostrando que, apesar de Burn ter sido considerado um álbum leve, no palco o bicho pegava pra valer, com muitos solos e, principalmente, apresentações insanas e ferozes de Paice, Blackmore, Hughes e Lord, notabilizando que a entrada de Coverdale e Hughes tinha dado um gás novo para o quinteto, assim como a parada para a reestruturação do Purple aumentou o contato de Blackmore com a guitarra, permitindo aumentar sua técnica e variar entre momentos rápidos e trechos celestiais.

Burn marca a estreia em LP da Mark III


Burn chegou às lojas inglesas em fevereiro de 1974, e na América no mês seguinte. Um álbum fantástico, que mesmo com o início elétrico trazia uma sonoridade muito diferente da Mark II. Como citado, o LP começa com um dos principais riffs do rock mundial introduzindo a faixa-título. O potente vocal de David Coverdale surge para o mundo, com Glenn Hughes auxiliando em diferentes estrofes. Blackmore faz um de seus solos mais vibrantes, seguido pelo solo de Lord. O pique de "Burn" é incompreensível, com Hughes e Paice mantendo a cadência durante exatos 6 minutos de muito agito e quebração de pescoço.

A seguir o clima muda com "Might Just Take Your Life", uma prova de democracia purpleana. Mais um riff inesquecível no Hammond de Jon Lord introduz a voz de Coverdale na primeira parte da letra, aliás uma das melhores do Purple, seguido do refrão. A sequência de alternância de vocais é fantástica, com Hughes dando um balanço e malemolência simplesmente fenomenais. A faixa encerra com um solo de Lord sob os vocais de Hughes e Coverdale. Perfeição pura!!!

A pancadaria retorna em "Lay Down Stay Down", em um pique parecido com o de "Burn". Aqui os destaques são o piano de Lord e as viradas de Paice, bem como o riff executado por Blackmore e Hughes. Coverdale canta a primeira parte da letra e Hughes a segunda, com o mesmo ocorrendo no refrão, outra prova da incrível harmonia vocal construída pelos dois.

O lado A encerra com "Sail Away", uma canção dançante, onde novamente a divisão de vocais funciona, e bem. Para os fãs da Mark II talvez essa faixa não seja das melhores, mas para um apreciador de música em geral o ritmo dançante e as melodias de Blackmore e Lord são muito boas.

O lado B inicia como o lado A. Muito pique e vibração fazem parte de "You Fool No One" (a primeira música do Purple que ouvi em minha vida). Pouco a pouco os instrumentos vão sendo acrescidos à canção. Ian Paice apresenta seu braço esquerdo, quase quebrando o prato, seguido de Blackmore, Hughes e finalmente Lord, que constróem um riff matador, com Coverdale e Hughes cantando juntos. Novamente Blackmore brilha em dois grandes solos, fazendo desta mais uma obra-prima.

A alternância de sonoridades já havia ficado marcada no álbum, e a faixa seguinte é a dançante "What's Goin' on Here", talvez a mais parecida com as músicas do Trapeze. Cheia de overdubs, a introdução na guitarra de Blackmore dá espaço para as harmonias vocais funcionarem. Coverdale e Hughes cantam cada um uma frase da letra, com ambos dividindo os vocais no refrão. O solo de Blackmore é simples e direto, com Lord delirando ao piano, o que é muito legal, principalmente por fugir do habitual uso de Hammond.

A seguir uma das baladas mais lindas da história do rock, "Mistreated". Composta ainda nos tempos em que o grupo estava procurando por um vocalista para substituir Ian Gillan, quando pronta se tornou uma pérola, iniciando com o magistral riff de Blackmore acompanhado pelo bumbo de Paice. Hughes e Lord precisam de apenas duas notas para desconstruir a música, e assim, Coverdale rasgar a garganta com o "I've been mistreated ...", acompanhado pelo blues arrastado e sôfrego que deixou muito cabeludo chorando pelos cantos.

Finalmente Blackmore conseguia um vocalista para soar igual a Robert Plant, e Coverdale esbanja "baby, baby" e "oh, woman" para tudo que é lado, mas de forma totalmente emocionante, principalmente pelo arranjo feito por Blackmore. Única canção do disco que é cantada somente por Coverdale, tem em seu encerramento o momento derradeiro, com Hughes e Coverdale dividindo as vocalizações no crescendo final, enquanto Blackmore sola como se fosse o último momento de sua vida. Coverdale encerra a canção sozinho e dizendo apenas que "I've been losing my mind". Divino!!

O álbum encerra com a instrumental "A-200", onde Lord brinca no sintetizador acompanhado pela marcha de Paice e Hughes. Blackmore mostra suas armas sobre o mesmo acompanhamento, mas o destaque maior vai realmente para Lord, que parece um garoto executando o tema principal e viajando em longas notas no Moog e no sintetizador. Detalhe importante: o nome da faixa se deu em homenagem a uma pomada americana usada para matar chatos (aquele piolho que gruda na virilha).

Com o lançamento de Burn nos EUA, ocorre também o retorno da banda à terra do Tio Sam, tocando em Detroit no dia 03 de março. Já em o6 de abril ocorre um dos fatos mais marcantes de toda a carreira do Purple. Assim como o incidente no hotel de Montreux que gerou "Smoke on the Water", a participação no California Jam é lembrada por muitos como o último grande momento de Blackmore à frente do grupo.

Ritchie Blackmore e seu amigo camera man


Aqui vale um aparte. A história do California Jam tem suas origens com o fracasso financeiro de Woodstock. Os promotores Sandy Feldman e Lenny Stogen viram na organização de um festival de rock ao ar livre uma forma de se ganhar dinheiro com a música. Assim, levaram a ideia para a rede de TV ABC, que se interessou na hora com o projeto, afim de levar a cabo um programa de TV chamado In Concert, e conseguindo um patrocínio da Goodyear para a realização do evento.

Com o contrato na mão saíram atrás de grandes nomes da música e que não tocavam nos EUA há algum tempo. Daí surgem Black Sabbath, Seals & Croft, The Eagles, Black Oak Arkansas, Rare Earth, Earth Wind & Fire, o próprio Purple e o Emerson Lake & Palmer, que encerraria o festival.

Dois palcos móveis foram montados na arena do Ontario Motor Speedway, em Ontario, California, tendo ao fundo um gigantesco arco-íris de madeira, que deu nome a outra grande banda ligada ao Purple. Duzentas mil pessoas apareceram no local, que contou com uma excelente infra-estrutura e um belo dia de sol (diferente do que ocorrera em Woodstock), com os lucros beirando os 2 milhões de dólares.

Uma das expectativas para o evento realmente era a apresentação da nova formação do Deep Purple, que já vinha sendo bastante comentada nos veículos musicais, principalmente pelo fato de Blackmore vir costumeiramente quebrando sua guitarra, com um dos agentes da emissora, Josh Wishe, exigindo que, quando fizesse tal atitude, Blackmore viesse a favorecer as imagens das câmeras.

Tudo corria tão bem que, às 18:30, os promotores perceberam que o evento iria acabar mais cedo. O sol raiava quando os bastidores começaram a pegar fogo. Sendo a atração principal, o Purple estava programado para entrar no palco às 19:30, já sem nenhuma luz natural, para finalmente o ELP encerrar o show por volta das 22:00. Porém, como as apresentações antes do Purple acabaram mais cedo, os promotores tentaram obrigar o grupo a se apresentar antes, ameaçando de diversas formas, inclusive de não pagar o fabuloso cachê de 75 mil dólares e mais parte de bilheteria, com o total sendo de 200 mil doletas.

Blackmore recusou na hora, alegando que iria tocar apenas às 19:30. Indignado, o promotor começou a contar até trinta, enquanto Blackmore calmamente afinava sua guitarra. Vendo que não adiantava nada, correu atrás dos demais integrantes, convencendo Lord a tentar falar com Blackmore. Segundo o próprio Blackmore, "Lord veio até a mim e disse para eu ir tocar pelo resto do grupo, e eu prontamente disse que não, e que estava pronto para sair da banda naquele momento".

No começo da noite outro empresário da ABC foi ao camarim de Blackmore e o convenceu a finalmente entrar no palco. Com quase meia hora de intervalo, os primeiros acordes de "Burn" soaram nos amps do California Jam, seguidos de "Might Just Take Your Life", "Lay Down Stay Down" e uma divina apresentação para "Mistreated". A partir de então, o que se viu no palco foi uma das mais eletrizantes apresentações da carreira da banda.

"Smoke on the Water" e "You Fool No One" rolaram com muita intensidade e solos individuais, com Hughes parecendo estar tocando no Purple desde pequeno, totalmente seguro e magistral, e Coverdale esbanjando simpatia e voz. Porém, foi em "Space Truckin'" que o mundo veio abaixo. Ali Blackmore, que ainda não havia esquecido o ocorrido minutos antes, pôde demonstrar a raiva que se acumulou contra a ABC durante o show, principalmente pelo fato de a emissora ter colocado um cinegrafista muito perto do guitarrista, que o deixava praticamente sem condições de se movimentar pelo palco, e também bloqueando a visão do público.

Então, durante o êxtase final de "Space Truckin'", com Blackmore solando tudo o que podia, o momento esperado pelos agentes e público começou a ocorrer. A Fender negra de Blackmore começou a voar pelo palco, até cair no chão e ser golpeada pelo guitarrista diversas vezes. Lembrando-se das palavras do produtor de "favorecer as câmeras", Blackmore retirou a guitarra do chão e levou-a direto à camera do tal cinegrafista que estava ao seu lado durante todo o evento, destruindo guitarra e equipamento.

Não satisfeito, Blackmore ainda aprontaria mais uma. Ele já havia planejado uma grande explosão para encerrar o show, e pediu para que alguns litros de gasolina fossem colocados em um amplificador de 450 watts que estava no fundo do palco. Porém, os roadies exageraram na dose e, com Hughes, Lord e Paice mandando ver na sonoridade de "Space Truckin'" e com os produtores da ABC de queixo caído vendo um equipamento completo ser destruído ao vivo e a cores, uma enorme explosão ocorreu, atingindo fortemente Paice e jogando Blackmore para a frente do palco, causando uma experiência visual chocante até os dias de hoje. Até mesmo Hughes, que estava do outro lado do palco, acabou sofrendo algumas lesões por causa da explosão. Novamente, Blackmore cita que "não queria ter feito nada daquilo, eu queria apenas matar o cidadão que ficou contando até 30 para mim. Se ele estivesse por perto, vocês não iriam ver apenas uma câmera quebrada, mas sim um cara morto".

O festival seguiu com a apresentação do ELP, mas os danos causados já tinham afetado os produtores da ABC, que receberam uma carta conciliatória dos empresários do Deep Purple, onde comprometiam-se a pagar todos os danos causados pela apresentação da banda, que no total foram de 8 mil dólares.

O tal In Concert foi ao ar, e toda essa fantástica apresentação do Purple pode ser conferida no CD e DVD California Jam, sendo que existem duas versões, uma com as imagens que saíram na edição do programa (sem "Lay Down Stay Down") e outra com a apresentação completa. A sequência da destruição da guitarra foi registrada em diversas fotos que aparecem na capa interna da coletânea Anthology, sendo a capa da mesma o exato momento onde ocorre a explosão do amplificador.

Após a passagem explosiva na América retornam para a Inglaterra no dia 18 de abril, indo até o final de maio. Após um mês de descanso, onde alguns projetos solos foram realizados e inclusive uma operação de apendicite por parte de Lord, bem como o processo de divórcio de Blackmore, voltam para os ensaios no Clearwell Castle, e a gravação do segundo álbum com a já consolidada Mark III começam em agosto, ao mesmo tempo que algumas apresentações ocorrem na América tendo a banda ELF (de Ronnie James Dio) como abertura.

Como Blackmore estava emocionalmente abalado com sua separação, Hughes e Coverdale tiveram a oportunidade de colocar as mangas de fora na produção das canções, tornando o som da banda ainda mais dançante.

Stormbringer traz uma das mais belas capas da carreira da banda


Em novembro de 1974 chegava às lojas aquele que para mim é o melhor trabalho do Deep Purple. Stormbringer trazia uma sonoridade totalmente diferente do que já havia sido feito na história do grupo. Hughes e Coverdale mostraram que, em pouco tempo à frente de uma grande banda, tinham caráter e potencial para serem grandes estrelas.

O disco abre com o petardo da faixa-título, "Stormbringer", e mais um riff fantástico, tendo Coverdale imitando as falas de Linda Blair, a garotinha do filme O Exorcista. Coverdale canta ferozmente, com o tradicional dueto de vozes no refrão. O solo de Blackmore é feito com uma distorção estranha na primeira parte, que deu um charme especial para a faixa, com a distorção normal sendo usada para a segunda e mais agitada parte do solo. Clássico dos clássicos na discografia do grupo.

A seguir temos a sensual "Love Don't Mean a Thing", uma precursora do Whitesnake, com os resmungos de Coverdale sobre o riff de Blackmore. Paice e Hughes criam uma swingada estrutura para Coverdale começar a cantar a letra, seguido pelos vocais de Hughes, assim como ocorrera no álbum anterior.

Outra grande letra do Purple surge em "Holy Man". Composta por Coverdale antes mesmo de entrar no grupo, aqui ela curiosamente é cantada por Hughes. Blackmore introduz com um lindo solo, levando aos vocais de Hughes sobre uma levada lenta e muito bonita. Os teclados de Lord se fazem presentes, e a canção se encerra de forma suave, eternizada na mente do ouvinte.

O lado A fecha com a mais que dançante "Hold On". O órgão introduz de forma jazzística, trazendo a cadência de Paice, que se mostrava cada vez melhor em criar batidas swingadas. Coverdale canta a primeira parte, dividindo os vocais do refrão com Hughes, detentor dos vocais da segunda parte. Blackmore executa um solo muito tímido, que talvez nem precisasse aparecer, já que o destaque maior vai para Lord no órgão, com um de seus melhores solos.

A rápida "Lady Double Dealer" abre o lado B com um riff muito parecido com o de "Lay Down Stay Down", e é cantada somente por Coverdale, contando com uma boa participação de Paice. "You Can't Do It Right (With the One You Love)" surge como uma das mais legais composições dessa fase. Mais um riff inesquecível de Blackmore intercalado por intervenções de Lord e Hughes sobre a dançante levada de Paice. O funkzão anos 70 feito pelo grupo é contagiante, tornando-se impossível não balançar pelo menos uma das pernas com o embalo criado aqui. Coverdale canta a primeira parte, seguido pelo refrão. Hughes surge com a segunda parte, seguido também pelo refrão e um maravilhoso solo de Lord, com a faixa encerrando com o embalo inicial.

"High Ball Shooter" resgata os tempos de Mark II, com uma forte pegada e apresentando mais uma vez um belo trabalho vocal, com Coverdale e Hughes cantando cada um uma frase da canção.

A linda "The Gypsy" vem com um longo tema instrumental executado por Lord, com acompanhamento de Blackmore, Hughes e Paice. Coverdale e Hughes cantam juntos, cada um a sua maneira, e é impossível segurar o arrepio causado pelas duas grandes vozes juntas. O solo de encerramento de Blackmore só não é mais lindo por que ele se supera com o encerramento do álbum.

Se "Mistreated" é uma das baladas mais lindas da história da rock, "Soldier of Fortune" é uma das mais lindas baladas da história da música. Blackmore ao violão traz o riff principal, que assim como o de "Stairway to Heaven" é um dos favoritos para os aprendizes do instrumento. Acompanhado pelo órgão de Lord, Coverdale assume os vocais sobre o lindo arranjo de Blackmore. Quem nunca chorou com essa canção que atire a primeira pedra. O encerramento é triste, onde Blackmore mostra como ninguém que não são precisas milhões de notas na guitarra para se fazer um solo de tirar o fôlego. Coverdale chora ao microfone e entrega-se a sua solidão, encerrando esse incrível e magistral álbum de forma no mínimo sublime.

Stormbringer conta ainda com uma das capas mais bonitas da carreira do Deep Purple, retratando um tornado ocorrido em 08 de julho de 1927 na cidade de Jasper (Minnesota), e que foi fotografado por Lucille Handberg. Claro que a fotografia recebeu alguns toques especiais, como o cavalo alado, o que deu mais beleza a imagem. A mesma fotografia pode ser conferida no álbum Tinderbox, do Siouxsie and the Banshees.

A edição especial comemorativa de Stormbringer


Em 2009 Stormbringer recebeu um relançamento especial em CD + DVD, totalmente remasterizado por Glenn Hughes e ainda contando com uma versão instrumental para "High Ball Shooter".

Após o lançamento do LP houve uma pausa para as comemorações de final de ano, onde Blackmore começou a se dedicar ao seu primeiro álbum solo. Em 25 de fevereiro de 1975 a banda deu sequência à turnê de promoção do disco, tocando no Sunbury Music Festival, na Austrália, com Blackmore dedicando boa parte do mês de março para finalizar seu álbum. O clima entre Blackmore e a banda andava cada vez pior, principalmente pelo fato de Hughes e Coverdale terem mudado o conceito musical do Purple, e também porque a imagem de Hughes perante Blackmore se tornava cada vez mais forte, tanto que Blackmore delimitou o espaço de apenas 1 m² de palco onde Hughes poderia se mexer.


O clássico álbum de estreia do Rainbow


As últimas datas da promoção de Stormbringer ocorrem em maio, com Blackmore finalmente lançando em junho seu álbum solo, intitulado Ritchie Blackmore's Rainbow, ao mesmo tempo que anunciava oficialmente sua saída do Deep Purple.

Sem seu principal guitarrista, um término do Deep Purple era o que provavelmente ocorreria. Porém, um jovem garoto loiro ainda deu um último suspiro para a banda, como veremos na próxima e última parte da história do Purple sem Mr Ian Gillan.

domingo, 1 de novembro de 2009

Deep Purple - Mark I




A santíssima trindade do rock nos anos setenta está fincada em três bandas britânicas. Se nos anos 60 tínhamos Beatles, Stones e Yardbirds; Animals, The Who e Cream; ou ainda os três J´s (Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jim Morrison), os 70 ficaram marcados por Led Zeppelin, Black Sabbath e Deep Purple.

O primeiro durou exatos 12 anos, com uma formação clássica e que acabou exatamente quando um deles veio a falecer. O segundo teve duas grandes fases, uma longa, durando aproximadamente dez anos com a mesma formação, e outra com o segundo vocalista, já no fim dos 70 início dos 80, e que durante os anos seguintes se viu em diversas alterações no line-up, sendo sempre comandados pelo mestre na nobre arte de forjar riffs, Tony Iommi.


Por fim, o Deep Purple veio a se consolidar com a sua segunda formação, com o vocalista Ian Gillan e o baixista Roger Glover, e mais Jon Lord (teclados), Ritchie Blackmore (guitarras) e Ian Paice (bateria), a famosa Mark II. Mas, ao contrário das outras duas, essa formação durou apenas cinco anos em sua primeira etapa (e mais oito nos anos 80/90), o que faz a carreira do Purple ainda mais estranha, pois antes e depois houveram outras formações que tiveram fundamental importância na história da banda.


Hoje e nas próximas duas edições do Baú do Mairon irei narrar um pouco sobre a história e os álbuns lançados pelos line-ups do Deep Purple sem o vocalista Ian Gillan, até porque tudo o que tinha para ser escrito sobre a relação Gillan/Blackmore já foi discutido em diversas revistas especializadas, bem como a nova fase com Steve Morse nas guitarras.



Começamos então com o ano de 1967. Ali, um baterista maluco chamado Chris Curtis teve uma estranha ideia: montar uma banda centrada em torno da bateria, onde os integrantes deveriam tocar ao redor da mesma tal qual um carrossel. O primeiro músico a surgir foi Jon Lord, amigo de Curtis desde os tempos do grupo The Flowerpot Men.

O andamento do projeto seguiu com Curtis, Lord e um conhecido da dupla chamado Ritchie Blackmore, que tocava com o The Savages, banda de apoio de Lord Sutch e que teve uma rápida incursão pelo seu próprio grupo, o Mandrake Root. Sob o nome de Roundabout surgia o embrião do Deep Purple, e que nos ensaios iniciais contava com músicas dos Beatles e também composições de Blackmore. Mas os excessos com drogas por partes de Curtis, que inclusive não aceitava um baixista na banda, fez com que Blackmore abandonasse o projeto, seguido por Lord.

Os empresários do Roundabout, Tony Edwards e John Coletta, acreditavam no potencial de Lord e Blackmore e resolveram correr atrás de um vocalista, um baterista e um baixista para o grupo. Em 1968, após contactarem Lord e Blackmore, apresentaram os nomes de Nick Simper (baixo), Dave Curtis (vocal) e Bobby Woodman-Clarke (bateria). Os primeiros ensaios ocorrem na fazenda de St Albans, onde Dave foi prontamente demitido.

Um anúncio atrás de um vocalista foi colocado no Melody Maker, enquanto Simper tentava convencer seu amigo, Ian Gillan, a fazer parte do Roundabout. Porém, Gillan estava envolvido com o Episode Six e recusou o convite.

Os ensaios do Roundabout seguiram, assim como as audições com vocalistas. Ao mesmo tempo, percebia-se que Woodman-Clarke não conseguia evoluir na bateria. Um dos candidatos ao posto de vocalista, Mick Angus, acabou indicando o baterista do The Maze, Ian Paice. Ritchie Blackmore conhecia a The Maze e era fissurado no vocalista da banda, Rod Evans. E não é que Evans surge para testes no Roundabout através do anúncio na Melody Maker? Assim, uma semana depois de Evans entrar na banda, Paice estava sentado atrás do bumbo, e o Roundabout estava finalmente formado.

Como o contrato assinado com Edwards e Coletta indicava uma mudança no nome da banda sem a participaçao de Curtis, graças a Peter DeRose e o fanatismo da avó de Blackmore por uma das canções do pianista, o nome Deep Purple passou a ser adotado.

Com novo nome passam a ensaiar e compor, além de agendar algumas horas no Trident Studios, onde gravam uma demo contendo a canção "Hush", de Billy Joe Royal, e "One More Rainy Day". Essa demo chegou em diversas gravadoras, atraindo a atenção da Tetragammaton nos Estados Unidos e da EMI na Europa.

Em 20 de abril de 1968 acontece a estreia do Deep Purple nos palcos, na cidade de Tastrup (Dinamarca), seguido de mais 10 shows pelo país, contando basicamente com covers. Já em maio, em apenas 18 horas, gravam o primeiro LP, um dos melhores álbuns de estreia de todos os tempos.



As diversas capas de Shades of Deep Purple


Shades of Deep Purple foi lançado em julho de 1968 nos Estados Unidos e em setembro do mesmo ano na Europa, e abre com o teclado de Lord introduzindo "And the Address", uma pedrada instrumental, onde Blackmore e Simper dividem o riff principal. Com uma grande levada de Paice e os acompanhamentos de Lord, Blackmore brinca na guitarra, solando ferozmente e mostrando por que viria a se tornar um dos mais influentes guitarristas de todos os tempos, seguido por um magnífico solo de Lord no seu órgão.


A seguir a clássica "Hush", com os uivos de lobos trazendo o órgão de Lord, que comanda uma canção suingada e balançante. Os famosos "na-na-na-na" aparecem com Evans, e o groove da canção continua excelente. O refrão é fantástico (sempre imagino como seria ouvir essa faixa com a big band de Duke Ellington) e o solo de Lord é simplesmente matador. Destaque também para Simper e Paice, que mantém o pique durante toda essa canção, que se tornou o primeiro sucesso do Deep Purple.

"One More Rainy Day" mantém os trovões em sua introdução, com o órgão de Lord surgindo entre a bateria e o baixo. Uma canção bem sessentista, na linha dos Kinks, com destaque para a linha vocal do refrão.

O lado A encerra com dois temas em uma mesma canção, abrindo com a instrumental "Prelude: Happiness", que foi composta pelos cinco membros do Purple e que traz citações ao primeiro e segundo movimentos de "Scheherazade", de Rimsky-Korsakov. O início, com os teclados viajando e a entrada da banda, é primoroso, levando ao tema do órgão acompanhado somente pela marcação do baixo, guitarra e bateria. Lord sola um tema quase de cinema, para então Blackmore começar a duelar com o mesmo. A sequência de riffs é magistral, cheia de viradas e, principalmente, com muita precisão na execução de cada nota.

O baixo leva para a segunda parte, que é nada menos que "I'm So Glad", de Skip James, que ficou famosa com o vocais de Jack Bruce, no Cream. Aqui o Deep Purple deu uma nova cara à canção, principalmente com o vocal de Evans e o uso do órgão, contando ainda com a diferença entre os guitarristas, já que Blackmore sola em um estilo muito psicodélico, cheio de efeitos de sobreposições de guitarra, diferentemente de Eric Clapton. O tema de "Prelude" é retomado, seguindo então com a letra de "I'm So Glad" e um show de vocalizações.

O lado B vêm com "Mandrake Root", a qual foi composta por Blackmore em sua banda pré-Roundabout, e teve toques de Evans e Lord. O riff pesado e a levada hendrixiana da faixa contrastam com o psicodelismo floydiano elaborado na sessão instrumental, onde Lord viaja no órgão, acompanhado por Paice e Simper. Eram as origens do que o Deep Purple iria aprontar no futuro nos solos ao vivo de "Space Truckin'" e "You Fool No One", tanto que a sequência de encerramento dos solos de Lord e Blackmore, aliás arrepiante, foi repetida praticamente em todas as "viagens" que a banda veio a fazer nas formações seguintes.

Um dos melhores covers para uma canção dos Beatles surge em "Help". A viajante introdução nos teclados e órgão nem de longe lembra uma canção do Fab Four. O arranjo é fantástico. Blackmore dedilha a guitarra, trazendo os vocais de Evans com uma melodia muito diferente da original, e que para mim ficou muito mais interessante, sem ter aquele clima alegre, mostrando realmente um sentido de necessidade e transformando esse clássico em uma bela balada, onde Lord e Blackmore se destacam nos solos.

"Love Help Me" caiu como uma sequência para "Help". A entrada é similar ao que o grupo havia mostrado em "One More Rainy Day" e "Mandrake Root", mas na verdade é um som dançante bem anos 60, com um acompanhamento vocal bem legal. Essa faixa iria aparecer posteriormente em uma versão instrumental na coletânea Anthology, de 1985.

O álbum encerra com mais uma cover, agora "Hey Joe" de Billy Roberts, imortalizada por Jimi Hendrix. Sirenes e barulhos de trânsito trazem Lord executando o tema de Manuel de Falla na peça "The Three-Cornered Hat, The Miller's Dance (Suite No. 2, Part 2)", dividindo espaço com Blackmore e a levada marcial de Paice e Simper. O clima psicodélico do órgão de Lord é impressionante em se tratando de Deep Purple. Blackmore sola mais uma vez, com um crescendo do órgão levando aos vocais de Evans e à conhecida letra de mais um clássico, em uma levada arrastada e interessante. O tema inicial é repetido, agora com Blackmore solando na cadência da parte com os vocais, encerrando de forma magistral, com muito barulho e distorção.

Vale ressaltar que a capa original de Shades of Deep Purple trazia uma foto com os cinco integrantes do Deep Purple, ainda em um visual bem comportado, com os cabelos-peruca de Simper e Blackmore chamando, e muito, a atenção. No Brasil a capa mais conhecida é a da Fender azul saindo do mar sobre o sol vermelho e as montanhas de gelo.

O sucesso de "Hush" nos EUA foi enorme, alcançando o quarto lugar do top#10 da Billboard, com o LP alcançando a 24a. posição em vendas. Porém, na Inglaterra nem o single e nem o álbum agradaram aos fãs e aos críticos especializados, que malharam bastante a estreia do grupo. Mesmo assim, passam a tocar em diversos locais do país, ao mesmo tempo que começam a cômpor para um segundo material.

O segundo disco, psicodélico já na capa


Em agosto de 1968 gravam The Book Of Taliesyn, o qual foi lançado no início de outubro nos EUA, ao mesmo tempo que começava a primeira excursão americana da banda, abrindo para o Cream. As peripécias do quinteto no palco fizeram com que os próprios managers do Cream organizassem para que o Purple virasse a atração principal, permitindo que o grupo seguisse como headliner até 31 de dezembro, com duas datas no Canadá.

O sucesso do Deep Purple na América levou-os a participar de diversos programas de rádio e TV pelo país, sendo o mais famoso deles o registrado em outubro de 1968 no Playboy After Dark, de Hugh Hefner, onde o grupo, com um visual todo colorido e com Ritchie Blackmore empunhando sua Gibson 335 vermelha (com a qual tocaria até o lançamento de In Rock, em 1971), enlouquece uma plateia formada basicamente por lindas playmates com "And the Address" e uma versão quente e empolgante para "Hush".

Voltando ao disco, o nome se deu em homenagem ao poeta Taliesin, e a obra da capa foi concebida por John Vernon Lord. O disco abre com os riffs de "Listen, Learn, Read On", onde Rod Evans apenas fala a letra, colocando melodia apenas no refrão, com o nome da canção e do álbum sendo citados. Essa faixa conta ainda com um pequeno solo de Nick Simper.

O blues instrumental de "Wring that Neck", chamada nos EUA de "Hard Road", manda ver em um riff de teclado e guitarra inspiradíssimo, seguido por uma sequência de solos de Lord e Blackmore. Nos solos individuais de ambos temas clássicos são relembrados, com o Purple mostrando suas novas virtudes. Essa é uma das poucas canções que permaneceu nos shows da fase Mark II, onde longas improvisações faziam a mesma alcançar quase 30 minutos, como pode ser conferido em diversos bootlegs e até mesmo no LP Deep Purple In Concert, lançado em 1980.

A cover de "Kentucky Woman", de Neil Diamond, vem a seguir, com um embalo bem anos sessenta, onde os vocais do refrão e o solo de Lord são o maior destaque, fugindo do clima southern criado pelo violão de Neil, mas mantendo a linha vocal.

O lado A encerra com mais dois temas em uma mesma canção, assim como em Shades of Deep Purple. O primeiro trata-se de "Exposition", uma releitura do grupo para a "Sétima Sinfonia" de Beethoven, especificamente o segundo movimento, e também com o "Overture" de "Romeo & Julieta", de Tchaikovsky. Jon Lord delira no órgão, com um climão psicodélico muito interesssante, levando então para o cover de "We Can Work It Out", dos Beatles, com Blackmore colocando todo seu tempero em perfeitas intervenções. Novamente a linha vocal está modificada em relação a original, e o resultado final é muito bom, principalmente com o dinâmico solo de Lord.

O lado B abre com a flower power "Shield", que lembra muito Iron Butterfly. Lord comanda o piano enquanto Evans arrasta sua voz sobre um arranjo nervoso da cozinha de Simper e Paice, com Blackmore fazendo apenas pequenas intervenções para depois solar em uma das músicas mais estranhas do Deep Purple.

"Anthem" mostra as vocações clássicas de Lord, começando com um pequeno tema acompanhado pelo violão de Blackmore e o belo vocal de Evans. Simper faz marcações, trazendo a bateria de Paice e toda a influência dos grupos de San Francisco, com muitas vocalizações. O lindo arranjo para o quarteto de cordas que duela com o órgão na segunda parte da canção foi construído por Lord, inclusive adicionando um tema para Blackmore solar junto à orquesta, revelando a ideia de voar mais alto na união orquestra/banda.

O álbum encerra com o viajante cover de "River Deep - Mountain High", de Jeff Barry, Ellie Greenwich e Phil Spector, e que ficou famosa na voz de Tina Turner. Ventos e percussão abrem espaço para o órgão de Lord resgatar a peça "Also Sprach Zarathustra", de Strauss, e aos poucos trazer o tema principal, acompanhado pela banda. Lord volta sozinho em um longo tema ao órgão, e trazendo a voz de Evans a lá Johnny Cash, caindo em um rockzão sessentista de balançar o esqueleto, com um refrão de primeira. Blackmore sola com o uso do pedal de oitavas, e também abusando dos bends, mantendo o pique da canção até o final, encerrando esse espetacular segundo e psicodélico disco.

O single "Emmaretta / The Bird Has Flow"

Em janeiro de 69 lançam o single "Emmaretta / The Bird Has Flow", voltando a excursionar pela Dinamarca e Inglaterra. Já em fevereiro é a vez de gravar o terceiro álbum, enquanto que a EMI recusava-se a lançar The Book of Taliesyn na Inglaterra, o que só foi ocorrer em julho de 1969.


Outros problemas começaram a ocorrer entre a EMI e o Purple, entre eles o fato de a banda receber um baixo cachê (300 dólares) para shows no seu país natal - enquanto na América girava em torno de 4 mil dólares por apresentação - e, principalmente, a falta de suporte e a constante pressão para o cancelamento do contrato caso a venda de Shades na Inglaterra não aumentasse.


Em março do mesmo ano encerra-se a gravação do terceiro disco, com a banda começando a segunda parte da turnê americana no dia primeiro de abril. Mas, ao chegar aos EUA, encontram a Tetragammaton na falência, impossibilitando o lançamento do novo álbum e causando diversos prejuízos para o grupo, com os managers tendo que tirar do próprio bolso contas de hotel e transporte, entre outras.

Deep Purple, o disco, o canto do cisne da Mark I



Deep Purple, o álbum, foi lançado somente em junho de 69 nos EUA, ainda pela Tetragammaton, com sua capa original apenas no formato simples, trazendo parte da ilustração de O Jardim das Delícias Terrenas, de Hieronymous Bosch, contando com pequenas modificações como a inclusão da foto dos membros da banda, e sem o mínimo de divulgação. A capa em formato duplo só iria sair no relançamento, já na década de 70. A pintura original é colorida, mas, devido a um erro de impressão, a capa do vinil ficou em preto e braco, o que agradou aos músicos do Purple e, assim, saiu desta forma.

O disco abre com as batidas de Paice introduzindo "Chasing Shadows", uma canção muito percussiva, com uma importante participação de Evans e, claro, de Blackmore e Lord em seus respectivos solos. "Blind" vem a seguir. Apesar de ter sido composta por Lord não mostra sinais de música clássica, sendo basicamente mais uma canção no auge da psicodelia, contando com um solo de órgão na linha dos Doors.

O Purple apresenta mais um cover com a linda releitura de "Lalena", de Donovan. O órgão de Lord traz o tema principal, seguido por Blackmore. Evans chora ao microfone, contando ainda com um belíssimo e triste solo de órgão.

"Fault Line", com Simper mandando ver em uma canção muito viajante, mantém a tradição de encerrar o lado A com dois temas em uma mesma faixa, onde Blackmore sola até o início de "The Painter", uma embalada faixa na linha bluesy, com Ritchie solando muito, assim como Lord e, claro, uma bela participação dos vocais de Evans. Grande faixa, que mostra mais uma vez as mudanças que estavam por ocorrer na sonoridade do Deep Purple, saindo do psicodelismo e virtuosismo para entrar em um ambiente mais rock'n'roll.

"Why Didn't Rosemary?" abre o lado B com o riffzão de Blackmore, em mais um bluesy embaladaço. A combinação dos vocais de Evans com a guitarra de Blackmore lembra os Yardbirds, menos na participação precisa de Lord, com um magnífico solo de órgão. Blackmore também sola, e assim, o Purple ganhava novos espaços e melodias.

A guitarra hendrixiana de Blackmore traz Paice e Simper, com os vocais dividindo a melodia junto ao teclado de Lord, em "The Bird Has Flown", que retorna à psicodelia, principalmente no solo de Lord.

O LP encerra com uma grande peça, a viajante "April". Elaborada por Blackmore e Lord, eram os últimos suspiros de uma fase marcada pelo virtuosismo e a experimentação, e que alguns fãs chamam de "fase progressiva" do Deep Purple. Com seus mais de 12 minutos, a canção abre com o órgão de Lord, seguido pelo piano acompanhando o violão de Blackmore em um lindo tema. O órgão repete o tema junto ao violão, e a música avança, contando ainda com a participação de um coral. Lord incrementa suas composições colocando uma orquestra, mudando totalmente a canção com um belíssimo tema clássico, uma prerrogativa para o álbum seguinte do Purple e a consolidação dos trabalhos de Lord compondo para banda e orquestra.

Finalmente o grupo entra em ação, trazendo os vocais de Evans sobre a cadência que o Deep Purple vinha fazendo em algumas faixas anteriores, priorizando, e muito, a cozinha de Paice e Simper e, claro, os solos de Lord e Blackmore. Uma das melhores canções do grupo, e que poucos conhecem, principalmente pelo fato desse álbum não ter saído no Brasil na edição em vinil.

Após o registro do LP fazem alguns shows pela Inglaterra, mas Evans começava a dar sinais de desgaste. Novamente o nome de Ian Gillan é lembrado, e, assim, Lord e Blackmore correm atrás do Episode Six pela Inglaterra, agendando um teste com Gillan na primeira semana de junho. Nesse teste, que contaria apenas com Paice, Lord e Blackmore, Roger Glover, o baixista do Episode Six, foi levado para cobrir o buraco de Simper, que também não sabia da mudança na formação. A química rolou de cara, mas ainda faltavam alguns compromissos para serem feitos com Evans e Simper.


No dia 7 de junho gravam o single "Hallellujah (I Am the Preacher) / April (Part 1)", e no dia 10 voltam à estrada, ainda com Evans e Simper, que continuavam sem saber dos ensaios com Gillan e Glover. Em 4 de julho a banda realiza a última apresentação com Evans e Simper, tocando em Cardiff. Dias depois, Edwards e Coletta anunciam para a dupla que ambos estavam fora do Purple, causando uma forte turbulência na banda, com Simper processando a empresa HEC, responsável pelos interesses do grupo, o que foi resolvido após várias audiências.

Concerto ..., álbum de transição na carreira da banda


Deep Purple, o álbum, foi lançado em novembro de 1969 na Inglaterra, depois de Gillan e Glover terem sido oficializados como novos músicos, realizando o primeiro show já em 10 de julho no Speakeasy, em Londres, e também depois da banda ter registrado seu primeiro álbum com a nova formação, Concerto For Group and Orchestra, em 24 de setembro daquele ano, encerrando de vez as viagens progressivas de Jon Lord e partindo para um novo e glorioso caminho.


Os cultuados álbuns de estreia do Captain Beyond e do Warhorse



Evans foi embora para os EUA, onde se casou e formou uma das maiores e melhores bandas de hard dos anos 70, o Captain Beyond, aparecendo depois com o nome de Deep Purple no início dos anos 80, como veremos na última parte, enquanto Simper formou outro grande grupo de hard, o Warhorse, deixando um legado de uma fase onde o Deep Purple flertou, e muito, com o psicodelismo, arrebanhando muitos fãs nos EUA e, principalmente, tendo "Hush" e "Wring that Neck" como maiores hits, fase essa chamada de Mark I.

Dali em diante, a Mark II entrava em erupção lançando álbuns fantásticos e fundamentais na prateleira de qualquer colecionador, a saber: In Rock (1970), Fireball (1971), Machine Head (1972), Made in Japan (1972) e Who Do You Think We Are? (1973). Mas o sonho durou pouco, como veremos na próxima edição.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Los Hermanos

 
Quando participei da Collector´s Room, uma das perguntas que o Cadão me fez foi "Qual o material mais estranho da sua coleção?". Na hora respondi Los Hermanos, uma das poucas bandas nacionais dos anos 2000 que recebe um tratamento diferenciado na minha prateleira de CDs, e que muitos amigos chegam e me perguntam: "Mas como é que tu ouves isso?".


E não é a toa que curto o grupo. Poucos como eles alcançaram o sucesso de forma tão inexplicável, e conseguiram criar sua própria imagem sem se tornarem mercenários do merchandising de uma canção, criando obras belíssimas, com letras diretas e que refletem muito pelo que pasei em minha adolescência e também nos dias de hoje.

Surgido no final dos anos 90, mais precisamente em 1997, no meio de um turbilhão de músicas sem o mínimo conteúdo musical e totalmente apelativas, como É O Tchan, Arakêtu e Terra Samba, o grupo era formado pelos amigos da PUC carioca Marcelo Camelo (guitarras, vocais), que fazia Jornalismo, e Rodrigo Barba (bateria), que fazia Psicologia. A ideia era misturar peso e lirismo, cantando letras de amor calcadas em celebridades como Noel Rosa, em uma velocidade alucinante e pesada no melhor estilo hardcore.

Rapidamente, o tecladista Bruno Medina, estudante de Publicidade da PUC, agregou-se à dupla, que contava com a participação de um saxofonista de nome desconhecido. Os próximos a entrarem foram mais dois saxofonistas (Carlos e Victor) e o trompetista Márcio, que criaram uma sonoridade especial para o grupo, similar ao naipe dos Paralamas do Sucesso.

Mas foi com a entrada de Rodrigo Amarante (vocais, guitarras) e Patrick Laplan (baixo), junto com uma modificação no naipe de metais, que o Los Hermanos acabou se firmando na cena underground carioca, participando de festivais como
Superdemos (Rio de Janeiro) e, principalmente, o Abril Pro Rock de 1999, em Recife, o que levou o grupo a assinar um contrato com a gravadora Abril Music.

Desse contrato surge o primeiro single, o hiper-ultra-mega-hit "Anna Julia", e também diversas apresentações em canais de TV e rádio, culminando com o lançamento do primeiro álbum, o homônimo
Los Hermanos, em meados de 1999.





O disco é uma paulada, e não deve ser menosprezado pelas suas duas músicas mais conhecidas. Com letras totalmente voltadas para relações amorosas (fracassadas ou não), abre com o baixo de Laplan e um triste trombone introduzindo "Tenha Dó", um ska com um refrão muito pesado. A seguir é a vez de "Descoberta", mais um ska com um pequeno solo de Camelo, contando mais uma vez com um refrão pesadíssimo e um solo de trompete.

A terceira faixa é a já citada "Anna Julia". O investimento na canção foi enorme pela gravadora, com direito a um clipe todo conceitual, realizado em preto-e-branco, contando com a atriz Mariana Ximenes no papel de Anna Julia. O estrondoso sucesso do grupo acabou girando em cima dessa canção, que é uma balada/rock totalmente diferente das demais canções do álbum, a menos do outro single que citarei adiante, mas que para o Brasil deixava claro que o Los Hermanos era um grupo de apenas um sucesso, seguindo a linha de outras bandas/cantores da época, como P.O. Box, L.S. Jack, Vinny, Jorge Vercilo e outros.



Enfim, "Anna Julia" estourou inclusive no exterior, sendo regravada por nada mais nada menos que George Harrison, Ian Paice, Jim Capaldi e Paul Weller. Um detalhe interessante, e que comprova ainda mais a teoria de que "Anna Julia" não era o que o Los Hermanos pensava musicalmente, é que ela foi a última canção a entrar no CD, graças à insistência do produtor Rick Bonadio, responsável pelo lançamento de hits Brasil afora.

Enfim, passando "Anna Julia", Amarante assume os vocais pela vez primeira para cantar "Quem Sabe", retomando o peso regado com participações de metais, e caracterizando Amarante como um dos vocais mais dramáticos do cenário nacional. "Pierrot", com a entrada de marchinha de carnaval, conta a história do famoso personagem carnavalesco em um ritmo violento, de quebrar o pescoço de muito banger por aí. O 1 minuto e 30 segundos de "Azedume" é brutal, com Camelo cuspindo palavras complicadíssimas em uma velocidade assustadora. As intervenções de metais criam um clima totalmente diferente do que já foi ouvido na música brasileira, o que torna o CD ainda mais atraente.

"Lágrimas Sofridas" começa com um breve ska, acompanhado por várias intervenções mais pesadas, levando para o segundo single do disco, a famigerada "Primavera", uma balada forçada, que, apesar do solo de Camelo, não diz pra que veio, e que foi a aposta da gravadora para não deixar o Los Hermanos somente com o sucesso de "Anna Julia".

"Vai Embora" retorna ao peso, mas com uma interessantíssima sessão jazzística, onde Amarante demonstra seu talento na flauta. "Sem Ter Você" é outra que passa despercebida, sem ter muito o que contar, seguida por "Onze Dias", a segunda cantada por Amarante e com um clima anos 80 muito legal, principalmente pela participação de Laplan.

"Aline", escrita por Camelo em homenagem a sua primeira namorada, é uma declaração de amor em forma de punk rock, seguida pela linda "Outro Alguém", com um ritmo mezzo ska, mezzo punk muito legal, encerrando o primeiro álbum com "Bárbara", um pedido de trégua para uma mulher que não dá valor ao amor de um homem, e que conta com uma das principais participações de Medina nas canções do grupo.

Apesar de ser um álbum muito pesado, cercado de lindos arranjos de metais e com uma composição de letras românticas bem empregadas, o disco ficou marcado mesmo por "Anna Julia". Tudo que era programa de TV, evento de igreja, rodeio e até mesmo festa de criança tinha a bendita canção sendo cantada pelo Los Hermanos, que queriam mostrar que o grupo não era aquilo, mas ficavam relegados aos insanos fãs da canção.



O sucesso foi enorme. Em menos de seis meses o hit figurava na primeira posição das principais rádios do país, com o álbum vendendo 300 mil cópias e com o grupo lotando estádios pelo Brasil, mas agitando as 80 mil pessoas com um único hit. "Anna Julia" inclusive levou o grupo a indicação de melhor álbum no Grammy de 2000 e, na entrega do Prêmio Multishow de 2000 para o Los Hermanos, pagou seu mico, com Camelo afirmando que jamais poderia ter ganho aquele prêmio na mesma categoria que Chico Buarque estava concorrendo, mostrando todo o descontentamento do grupo com o sucesso da canção.

O desgaste começou a bater, e logo se viu que ou a banda mudava de atitude ou iria fechar as portas como outras. Laplan chuta o balde, alegando divergências musicais, e vai trabalhar com o ex-vocalista dos Raimundos, Rodolfo, no projeto Rodox, fundando posteriormente o Eskimo. Amarante assume o baixo (com Camelo também participando vez ou outra no instrumento) e então decidem se trancar em um sítio na cidade de Petrópolis, onde começam a conceber o segundo álbum. Para os shows, decidem que o baixista seria uma pessoa contratada, tal qual o naipe de metais, no caso, Kassin e Gabriel Bubu.






Alguns ensaios e a banda já aparece como uma das atrações nacionais principais do Rock in Rio III, em 2001. Algumas canções do novo trabalho aparecem no show, mostrando que o Los Hermanos havia mudado a postura, diminuindo o ritmo e investindo nas composições e arranjos. Após o festival chega às lojas o segundo álbum, Bloco do Eu Sozinho. A tiragem inicial trazia o encarte todo feito com papel reciclado, e hoje é catada a tapas e puxões de cabelo nos sebos.

O disco abre com "Todo Carnaval Tem Seu Fim", na linha do primeiro álbum, mas sem tanto peso, seguida por "A Flor", que ficou de fora do primeiro disco para dar lugar a "Anna Julia". Após a pauleira inicial surge "Retrato pra Iaiá". Cantada por Amarante, ela é um marco para a banda, pois finalmente o grupo achava um caminho independente, sem uma definição própria, carregando em pitadas de samba de raiz e também bossa nova, apenas tocando o que viesse a cabeça e vendo no que dava, mostrando o sentimento do quarteto naquele momento. "Retrato pra Iaiá" narra a decepção de se ficar com uma mulher maravilhosa por fora, mas sem nenhuma inteligência/cultura por dentro.

Uma sessão de três músicas cantadas por Camelo vem a seguir: "Assim Será", um samba/jazz com toques na linha do Blood Sweat & Tears; "Casa Pré-Fabricada", onde o destaque maior vai para Barba, executando uma intrincada sessão no refrão e mostrando que é um grande baterista, não só tocando, e bem, hardcore, mas fazendo outras variações; e a complicadíssima "Cadê Teu Suín?", um samba-choro onde as frases de Camelo vão se juntando para formar diferentes palavras.

Amarante assume os vocais na emocionante "Sentimental", onde o destaque vai para a participação de Medina, tornando o riff da canção um clássico do grupo, reconhecido até por um gambá bêbado, e no também complicado jazz de "Cher Antoine", com frases em francês, abrindo espaço para "Deixa Estar", uma canção pesada, cantada por Camelo, e que lembra algumas do primeiro álbum.



Los Hermanos como quarteto



"Mais uma Canção" é uma valsa à brasileira, seguida por "Fingi na Hora Rir", um dos clips mais legais da banda. Outra bela canção de amor surge com "Veja Bem Meu Bem", onde o pedido de desculpas leva a crer que ocorreu uma traição, mas não, é apenas uma despedida de um marido que acabou de ver sua esposa falecer.

"Tão Sozinho", que ficou de fora do primeiro álbum, é pesadíssima, seguida pela calma "Adeus Você", que encerra o álbum com um belo arranjo de metais construído por Camelo e com a importante contribuição de Amarante no baixo.

O disco não vendeu tanto quanto o primeiro, mas foi importante, pois acabou fazendo com que a banda ganhasse fãs reais e não fãs de uma canção, o que levou o grupo a tocar em locais menores, mas com muito mais retorno da plateia. Nesse momento os shows acabam virando a principal fonte da banda, investindo pesado nas canções, que eram cantadas do início ao fim pelos milhares que lotavam teatros, bares e salões de eventos.



Ainda em 2002 a banda lança o DVD Luau MTV com versões acústicas para algumas músicas dos dois primeiros discos.





A gravadora Abril entra em falência, e o Los Hermanos assina contrato com a BMG (hoje Sony & BMG), preparando então o terceiro álbum. O curioso é que, por motivos inexplicáveis, o disco estourou na internet antes mesmo do lançamento oficial, com o nome de Bonança. Assim, a banda fez algumas pequenas alterações nas músicas e na ordem das canções e lançou, em 2003, o magnífico Ventura, para mim o seu melhor disco.

Um álbum fantástico, onde as letras de Amarante e Camelo estão cada vez melhores, sem falar apenas de traições e romances, mas contando histórias comuns. De forma geral, o disco mostrava o crescimento de Medina musicalmente falando, e também das composições e arranjos de Amarante e Camelo.



O disco abre com "Samba a Dois", cantada por Camelo, seguida da clássica "O Vencedor", também cantada por Camelo e com mais uma sequência de riffs de metais que se tornaram clássicos. "Tá Bom" encerra a primeira sequência de Camelo nos vocais com uma grande letra, seguida por uma sequência de Amarante, com "Último Romance", narrando a história de dois idosos que se apaixonam, e "Do Sétimo Andar", uma intrigante peça com um ritmo muito estranho, do qual Amarante tornava-se cada vez mais especialista em criar.

Camelo retorna aos vocais em "A Outra", um pedido de paz de uma esposa traída, e em mais um clássico, "Cara Estranho", narrando o retorno de Jesus à Terra.

"O Velho e O Moço" possui um clima muito leve e viajante, com excelentes intervenções do flugel-horn de Jessé Filho, seguida de mais um clássico cantado por Camelo, "Além do que Se Vê", onde o encerramento feito pelos metais levantava as platéias nos shows em um coro ensurdecedor.



Los Hermanos no Parque da Redenção - Porto Alegre


A pesada "O Pouco Que Sobrou" parece ter saída dos primeiros discos da Legião Urbana, com Medina executando um longo solo e com mais um grande arranjo de metais, seguida por "Conversa de Botas Batidas", onde a introdução ao piano fez desta mais um clássico, com um final apoteótico.

Camelo assume os vocais em "Deixa o Verão" e "Do Lado de Dentro", uma engraçada e genial discussão entre marido e mulher, com ritmos diferentes para cada uma das pessoas.

"Um Par" é uma canção embalada, com o pai contando os problemas de relacionamento com o filho para diferentes pessoas, até mesmo para o próprio filho, com o CD encerrando na belíssima "De Onde Vem a Calma", uma das mais lindas baladas da banda, e que ao vivo levava muitos fãs às lágrimas.

O fato de
Ventura ter saído antes na internet fez com que as músicas ficassem conhecidas antes de seu lançamento. Era surpresa para o grupo que, na maioria dos locais onde ocorriam shows, as faixas eram cantadas do início ao fim, mostrando uma legião de seguidores do Los Hermanos por todos os cantos do Brasil. Nessa época que surgem diversas comunidades e blogs dedicadas exclusivamente para o grupo. Ao mesmo tempo, Camelo consolida-se como compositor, tendo três músicas gravadas por Maria Rita em seu álbum homônimo: "Santa Chuva", "Cara Valente" e a citada "Veja Bem Meu Bem".

Em 2 de julho de 2004 uma polêmica envolvendo Marcelo Camelo e Chorão (vocalista do Charlie Brown Jr) acabou fazendo com que a banda se isolasse novamente do mundo. Camelo e Amarante deram declarações à revista
Oi! sobre a campanha publicitária da Coca-Cola naquele ano, onde o Charlie Brown Jr era o protagonista, questionando um rapaz que não estava de acordo com os itens oferecidos no comercial. A confusão começou dentro do avião que levava as bandas do Rio de Janeiro para Sergipe, com Chorão ameaçando os vocalistas do Los Hermanos. Na sala de embarque do aeroporto de Fortaleza, Chorão partiu para cima de Camelo e Amarante. Camelo foi agredido covardemente com uma cabeçada e um soco no rosto, tendo o nariz quebrado, enquanto Amarante reagiu e deu um soco em Chorão, que acabou sendo detido pela Polícia Federal. Chorão enviou uma nota pedindo desculpas pelo fato, mas teve que indenizar Camelo e a banda por danos morais e pelo cancelamento de alguns shows.





Ainda na turnê de Ventura, que contou inclusive por shows na Europa (Portugal e Espanha), foi registrado o DVD Ao Vivo no Cine Íris, lançado em 2005, onde pode se ver o fanatismo criado pela banda in the act - o que pude conferir pela primeira vez no dia 15 de abril de 2004, em um Teatro Guarani (Pelotas) lotadaço e fervendo a emoção - e contando ainda com o bônus de um filme registrando as gravações do álbum. Foi nela também que Gabriel Bubu, Valtecir Bubu, Mauro Zacharias e Marcelo Costa cravaram sua espada como membros do baixo e do naipe de metais respectivamente.





Ainda em 2005 sai o último álbum. Intitulado apenas 4, o disco mantém a homogeneidade de Ventura, alternando músicas mais trabalhadas com temas simples, porém com um elo muito forte à MPB.

O álbum abre com a magistral "Dois Barcos". As batidas de Barba no bumbo são arrepiantes, e quando Camelo assume os vocais, acompanhado pelos arranjos de metais e pelas intervenções de Medina, é impossível não se emocionar. "Primeiro Andar" mantém o clima calmo de "Dois Barcos", com os vocais de Amarante, seguida pela bossa de "Fez-se Mar", uma mistura de Elis Regina e Tom Jobim na melodia vocal de Camelo e nos acordes do violão.


A latina "Paquetá" traz Amarante nos vocais e conta com percussão de Stephane San Juan, destoando bastante do clima denso do álbum. Amarante também canta "Os Pássaros", uma faixa lenta e arrastada com uma magnífica participação de Medina, onde Amarante abusa dos efeitos de sua guitarra.

João Gilberto é revisitado por Camelo em "Morena", uma bossa nova muito interessante, com um refrão puxado para o samba, onde as intervenções de Amarante na guitarra criam um clima interessante.


Los Hermanos na turne de 4


Amarante é o responsável pelo clássico do álbum, "O Vento", que inclusive foi tema de abertura do programa Malhação da TV Globo.

"Horizonte Distante" é uma das mais intrincadas peças do grupo. Um tema espacial, falando sobre disco voador, onde Medina e suas camadas de teclados criam uma atmosfera muito sombria para os vocais de Camelo. Os arranjos de metais no refrão são arrepiantes, e o baixo de Amarante simplesmente mostra como fazer uma música apreensiva.


Amarante cria mais uma peça complicada em "Condicional", com uma excepcional barulheira feita pelas guitarras no encerramento. O xilofone, tocado por Jota Moraes, introduz a linda bossa de "Sapato Novo", cantada por Camelo. Este xilofone ao vivo era tocado por Amarante, mostrando todo o talento do músico carioca.

"Pois É" tornou-se uma das favoritas dos fãs, com um clima bem leve, encerrando com "É De Lágrima", mais uma linda canção, com uma melodia nordestina sobre acordes suaves da guitarra de Camelo. O encerramento apotéotico, característico nas faixas de
Ventura, aparece novamente, onde Medina sobrepõe diversos acordes de seu sintetizador enquanto as guitarras de Amarante e Camelo viajam para o mais distante lugar da imaginação de ambos.


O grupo saiu em uma longa turnê de divulgação de
4, onde novamente pude conferi-los em agosto de 2005 e dezembro de 2006, já em Porto Alegre, e, em abril de 2007, anunciou um recesso por tempo indeterminado nos trabalhos, alegando acúmulo de muitos projetos pessoais. Os dois últimos shows da banda foram realizados na Fundição Progresso, no centro da Lapa (Rio de Janeiro) em julho de 2007, shows esses que foram mixados e lançados em CD e DVD em fevereiro de 2008.




Álbuns de membros do Los Hermanos pós-banda
Também em 2008, Camelo lançou seu primeiro disco solo, Sou, enquanto Amarante formou a Little Joy ao lado de Fabrizio Moretti (baterista dos Strokes) e Binki Shapiro, lançando o primeiro álbum, Little Joy, em novembro de 2008. Medina desenvolveu seu lado publicitário, escrevendo para diferentes revistas e blogs do país, enquanto Barba entrou em turnê com a banda de hardcore Jason, a qual dividiu os palcos com o Los Hermanos em 1998. Barba também tem importante contribuição com os mineiros do Latuya e também com a banda Canastra.

Em 2009 o grupo se reuniu para fazer a abertura dos shows de Kraftwerk (Rio de Janeiro, 20 de março) e Radiohead (São Paulo, 22 de março), e atualmente pouco se sabe sobre o que vai acontecer com o futuro da banda. O que se sabe mesmo é que o grupo conseguiu habilmente escapar de se tornar uma banda de um único hit, fugindo de "Anna Julia" e criando uma imagem própria, com letras e composições incríveis, e que devem ser experimentadas por um bom apreciador de música sem nenhum pré-conceito. Afinal, é raro se encontrar material original e de qualidade nos dias de hoje, principalmente no nosso Brasil varonil.
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