quinta-feira, 30 de julho de 2026

Consultoria Recomenda: Discos em que o vocalista também é o baixista



 Editado por André Kaminski

Tema escolhido por Marcello Zappellini

Com Anderson Godinho, Davi Pascale, Mairon Machado e Marcelo Freire

Quando chegou a minha vez de propor um tema, pensei um pouco e decidi homenagear o instrumento musical que normalmente mais me chama atenção no rock e seus múltiplos subgêneros: o baixo. Mas, simplesmente falar de baixistas não seria muito interessante, então pensei na ideia de trazer recomendações de discos em que o baixista seja o vocalista principal. Uma regra foi aplicada: não poderia haver outro vocalista principal na banda, o que levou a deixar de lado Beatles e Kiss, por exemplo. Embora não tenha ficado explícito, também não caberia indicação de baixista/vocalista em carreira solo. O resultado foi uma lista bem variada, como se pode ver. (Marcello Zappellini)


The Police - Regatta de Blanc [1979]

Por Marcello Zappellini

O segundo disco do The Police não é muito lembrado na carreira da banda, pois não teve a novidade do primeiro nem o impacto de Sinchronicity, mas sempre esteve entre meus favoritos da banda. Diferentemente do primeiro LP, Sting não domina as composições (embora as duas músicas mais conhecidas sejam dele, “Message in a Bottle” e “Walking on the Moon”), pois duas são creditadas aos três, uma a Sting e Stewart Copeland e três foram escritas por Copeland. O riff intrincado de Andy Summers em “Message in a Bottle” abre (muito bem) o disco, seguido pela faixa-título quase instrumental, e por “It’s Alright for You”, que não faria feio no primeiro disco; nessa, o baixo é creditado a Stewart Copeland. “Bring on the Night” traz um baixo mais trabalhado e, como tanto Andy e Stewart estão meio discretos na música, Sting se torna o destaque. “Deathwish” é uma canção injustamente pouco lembrada, em que o nosso baixista/vocalista de novo carrega a melodia. Já “Walking on the Moon” é um primor de simplicidade - ninguém precisa ser Chris Squire ou John Entwistle para fazer o baixo ser o instrumento que mais chama sua atenção. “On Any Other Day” é bem diferente e tem um estilo meio 50s/60s que o Police nunca mais explorou; “The Bed’s Too Big Without You” retoma o reggae com outro riff marcante de baixo, e "Contact” é bem new wave, e traz um interessante baixo em staccato, mas não escapa de ser a mais fraca do disco. Copeland é o responsável por “Does Everyone Stare”, em que toca piano. A enérgica “No Time This Time” encerra o disco, com outra bela linha de baixo em uma música que também podia estar no disco anterior. Nos vocais, Sting desempenha melhor aqui do que no primeiro LP, embora ele ainda fosse melhorar com o tempo; a impressão que tenho é que, para se dissociar do movimento punk, o grupo investiu em uma sonoridade mais sofisticada, o que passa pela voz do baixista. E o reggae é um estilo que favorece o baixo, que confere a necessária pulsação à música, tornando Regatta de Blanc um álbum digno desta lista.

Anderson: Um dos clássicos do The Police, sem sombra de dúvidas. Message in a Bottle e Walking on the Moon não me deixam mentir, mas poderia destacar "Deathwish" ou "The Bed's Too Big Without You" que em minha concepção representam muito a sonoridade da banda naquele momento. Acredito que algumas faixas poderiam ter sido deixadas de lado, mas como o material não é tão extenso é aceitável que permaneçam. Por fim, acho que a sonoridade apresentada pelo The Police aqui representa bem um dos caminhos que o rock estava desbravando no final dos anos 1970, o que torna o material ainda mais relevante.

André: Demorei um tempão, mas o som do The Police me fisgou depois dos 30 anos. É curioso como eles tentam fazer aqui uma espécie de reggae-punk-pop-rock. Como a guitarra de Andy Summers tem pouquissimo overdrive, o baixo de Sting acaba tomando conta da maioria das canções e, como vocalista, o Picada sempre se destacou. Para este tema, um ótimo disco e bem representativo como era de se esperar.

Davi: O The Police foi um grupo pop de primeiríssima linha, que contava com três grandes músicos e uma sonoridade bem definida e bem refinada misturando elementos de vertentes distintas como o punk e o reggae. Sua trajetória foi curta, mas deixou uma discografia impecável repleta de grandes hits e verdadeiras pérolas escondidas. Nesse segundo CD, os hits ficam por conta das inesquecíveis “Message In a Bottle” e “Walking On The Moon”, enquanto meus lados B favoritos ficam por conta de “It´s Alright For You” e “Bring On The Night”. Discão!

Mairon: Nunca fui muito com a cara do The Police, e sempre me perguntava o por que disso. Ouvi os discos da banda há muitos anos atrás, e desisti. Me culpava por um certo lado, pois alguns amigos que conheço consideram a banda revolucionária. Então, fui de coração aberto, quase 20 anos depois, para ouvir esse segundo disco deles, e pqp, logo de cara, em "Message in the Bottle", me dei conta de quão insuportável (e vexatório) é o Sting, que como baixista acho limitadíssimo, tentar cantar como o Bob Marley, e quão é terrível essa ideia de três britânicos quadradões tentarem fazer reggae de branco. O Clash ao menos foi honesto e fez letras que representavam um pouco o que é o reggae, mas isso aqui?? Que coisa tinhosa, que coisa detestável, que coisa triste saber que Andy Summers e Stewart Copeland, estes sim muito talentosos, fizeram parte de algo tão chato. Me surpreende um pouco de saber que o Rush gostou disso aqui, e se inspirou neles para fazerem "The Spirit of Radio", por que olha, musicalmente é vomitativo o que esses caras fizeram. Não tenho mais palavras para mostrar meu ranço com o The Police, mas se alguém quiser vir defender esses otários, que vá ouvir a imundíce chatíssima dos "io io ios" e "ie ie ies" da faixa-título ou de "Walking on the Moon". Me perdoa Marcelo (certeza que foi tu quem recomendou), mas que baita bost@. Preciso ouvir Zappa para limpar meus ouvidos.

Marcelo: Gosto bastante do The Police, embora entenda perfeitamente quem tenha dificuldade com a banda, sobretudo quando a mistura de reggae, punk, pop e rock parece mais calculada do que espontânea. Em Regatta de Blanc, porém, acho que esse equilíbrio funciona muito bem. Sting ainda não é o compositor absoluto que se tornaria depois, mas sua presença como baixista e vocalista já organiza boa parte da identidade do grupo. “Message in a Bottle” e “Walking on the Moon” são as pérolas evidentes e tocadas à exaustão nas boas rádios brasileiras do início da década de 80, mas “Bring on the Night” e “The Bed’s Too Big Without You” são as aulas de Sting sobre como baixistas podem, além de acompanhar os demais instrumentos, também conduzir o clima da música.


Robin Trower - Robin Trower Live [1976]

Por Marcelo Freire

 Minha indicação foi este Robin Trower Live, muito mais por James Dewar do que pelo próprio Trower, por mais absurdo que isso pareça diante de um guitarrista desse tamanho e do tanto que eu o amo, vide o que já escrevi sobre ele aqui na casa. Dewar era aquele tipo de músico que, sem parecer disputar espaço, sustentava tudo: baixo firme, pesado, cheio de presença, e uma voz soul/blues absolutamente fantástica, meu Deus, como cantava fácil esse homem... Em “Too Rolling Stoned”, “Daydream”, “I Can’t Wait Much Longer” e “Little Bit of Sympathy”, ele mostra por que foi o parceiro ideal de Trower. O disco tem todos os méritos de um grande registro ao vivo setentista, mas, dentro deste tema, o que mais me interessa é perceber como Dewar consegue ser base e frente ao mesmo tempo, sem transformar isso em exibicionismo.

Anderson: Definitivamente não gosto de álbuns ao vivo e esse me lembrou o motivo. Uma coisa é ir no show e viver aqueles momentos com todo o contexto emocionante que contam histórias únicas e pessoais. Agora, os álbuns ao vivo não expressam tudo isso, entendo sua importância em vários sentidos, como para registrar os distintos momentos pelos quais uma banda passa, bem como disponibilizar um material para um público que, possivelmente, nunca teria como ver in loco. Dito isso, o material apresenta todos os excessos que em um show caem bem, mas que se tornam maçantes em uma audição cuidadosa em casa. A banda, por sua vez, está impecável, reza a lenda que não sabiam que o material se tornaria um disco. Musicalmente, Trower mostra os motivos de ser considerado um dos grandes. Particularmente, as baladas me pegaram: Daydream e I Can't Wait Much Longer são muito boas e a execução é muito boa. Enfim, um ótimo material para quem curte Live.

André: Ótimo disco ao vivo de Trower, um destaque na guitarra blues rock. Em conjunto com o vocalista e baixista James Dewar, que também canta e toca pacas, temos um lindíssimo disco do melhor do que o blues rock setentista pode oferecer. Curioso como o comparam ao Hendrix. Mas a bem da verdade, realmente é o sujeito que eu mais vejo ter chegado próximo em termos de guitarra neste estilo.

Davi: Clássico álbum do grande guitarrista Robin Trower. Lembro que um tempo atrás, indiquei o Bridge of Sighs, em uma outra edição do Consultoria Recomenda. Bacana ver mais um disco dele por aqui. Não tem muito o que falar de novidade. Robin é um guitarrista brilhante, James Dewar é um vocalista de mão cheia (embora o trabalho vocal dele aqui tenha sido refeito em estúdio), e o set é fantástico. Claro... Como o LP da época era simples (atualmente existe uma edição de luxo mais completa), faltavam alguns sons como a fantástica “Day of The Eagle”, mas não tem como criticar um disco que traz sons como “Little Bit of Sympathy”, “Lady Love” e “Rock Me Baby”. Audição obrigatória!

Mairon: Robin Trower, James Dewar e Bill Lordan formaram um dos grandes power trios da história. Assim como Taste e a Stevie Ray Vaughan Band, a Robin Trower Trio era escorada na genialidade de seus guitarristas (para quem não sabe, o Taste era liderado por Rory Gallagher). Robin Trower sempre foi um filhotão de Jimi Hendrix, e suas qualidades são inquestionáveis, mas como o Recomenda se trata de baixista e vocalista, me concentro então a analisar o trabalho de Dewar. Seus vocais britânicos são nítidos e brilhantes, me lembrando muito os de Bobby Martin (que acompanhou Zappa nos anos 80) em faixas como a dançante "Too Rolling Stoned", o rockaço "Lady Love" e a doloridíssima "Daydream", uma das mais lindas canções da carreira de Trower, assim como a bela " I Can't Wait Much Longer", na qual Trower demole na guitarra. Além disso, o groove do seu baixo é a sólida base para "Little Bit Of Sympathy", "Rock Me Baby" e principalmente "Alethea", faixa pegadíssima, com um ótimo solo de Lordan, que remete diretamente ao Jimi Hendrix Experience e ao Cream. Apesar de achar que a mixagem do baixo está baixa ao longo de todo o álbum, é um disco que acerta em cheio no coração de quem ama rock, e principalmente, um bom e vigoroso power trio..

Marcello: O quarto disco-solo do ex-guitarrista do Procol Harum é um absurdo de bom, e faz parte dessa lista por causa da presença do gigantesco James Dewar, ex-Stone The Crows e não somente um baixista excelente, como um vocalista dono de uma voz simplesmente fenomenal, cheia de soul. Falei mais desse álbum na matéria sobre o rock ao vivo  em 1976, e para não me repetir, vou me concentrar no desempenho de Dewar. O músico já brilha na introdução de “Too Rolling Stoned”, antes de Trower entrar com sua guitarra com wah-wah, e quando Dewar começa a cantar você percebe que está diante de algo especial. “Daydream”, mais suave e romântica, permite a nosso herói explorar sua bela voz, ao passo que “Rock Me Baby” prova que ele podia cantar blues muito bem. “Lady Love”, que encerra o antigo lado 1, não permite muito destaque a Dewar, mas na sequência tem-se a monumental “I Can’t Wait Much Longer”, em que Robin estraçalha na guitarra – mas James consegue nos fazer esquecer dele em alguns momentos. “Alethea” se assemelha um pouco em termos de desempenho vocal a “Too Rolling Stoned”, e o disco se encerra com “Little Bit of Sympathy”, em que Trower arrasa novamente e Bill Lordan tem direito a um curto solo de bateria. Preciso chamar atenção para o timbre pesado de James no baixo, que soa em alguns momentos como se ele usasse distorção, mas, até onde sei, isso não ocorre. Robin trabalharia com bons baixistas (Jack Bruce, por exemplo), mas James Dewar (infelizmente falecido ainda jovem) foi seu parceiro ideal, e Live! está aí para provar.


Som Nosso de Cada Dia - Som Nosso [1977]

Por Mairon Machado

Minha recomendação é mais uma forma de homenagear um dos maiores baixistas/vocalistas do Brasil, além de ser um cara muito simpático e querido, que tive a honra de entrevistar pouco antes de seu falecimento. Pedrão Baldanza tocou com praticamente todos os grandes nomes que o nosso país revelou, e foi na Som Nosso de Cada Dia que teve sua criatividade progressiva revelada, através do excelente Sneges (1974). Depois de uma reformulação no line-up da banda, em 1977 veio o segundo álbum da banda, com uma sonoridade totalmente moderna e diferente de seu trabalho antecessor.  famoso Lado Sábado é para realmente se divertir com uma noitada de fim de semana. Nele, os vocais rasgados e trêmulos de Pedrão de sobressaem em faixas como , "Levante a Cabeça", "Pra Swingar" e seu baixo swingado aparece em faixas como "François", além de comandar o riffzão no groove de "Estação da Luz", "Pra Segurar", praticamente arrebentando as cordas, e "Vida de Artista". Já o lado Domingo é para aquele dia que você apenas relaxar com um som bastante progressivo, na linha Snegs, com os vocais característicos de Pedrão comandando "Bem No fim", e uma baita linha de baixo, e a tocante "Neblina", carregada nos viajantes teclados e nas delirantes vocalizações de Pedrão, além do baixão de "Água Limpa" e "Rara Confluência", pauladas prog com muito moog e guitarra. Destaque total neste lado para "Montanhas", com um show a parte do baixo de Pedrão (e da bateria de Pedrinho), e certamente a faixa mais Snegs de um disco incompreendido, sendo fundamental e necessário de ser apresentado para as novas gerações.

Anderson: Não conhecia a banda, mas sua audição gerou momentos agradáveis. Sendo bem direto, há uma distinção interessante entre músicas mais animadas que podem ser inseridas no contexto da disco music e do funk, músicas que soam muito acessíveis, e por outro lado algo voltado para o rock progressivo. As músicas Bem no Fim e Montanhas representam bem esse segundo momento do álbum. Em minha opinião essa segunda parte é muito mais interessante do que o início, apesar de o disco como um todo ser muito agradável. Vale a pena ouvir na íntegra.

André: Gosto muito deste disco e Pedrão é o cara! Seu baixo pulsa com vida em praticamente todo o disco. Prog, funk, soul e jazz se misturam aqui facilmente, com a banda conseguindo a façanha de fazer essa salada sonora soar muito boa. Para um disco dos anos 70 com essa qualidade de som, tem que se tirar todos os chapéus possíveis.

Davi: Em Som Nosso, o grupo do saudoso Pedro Baldanza atacava em 2 frentes. O lado A trazia uma sonoridade com uma pegada funk/soul e um pezinho na MPB. OS arranjos são bem resolvidos e os músicos são excelentes. Quem curte aquela sonoridade setentista do Tim Maia deve curtir, principalmente a faixa “Levante a Cabeça”. Contudo, me identifico mais com a segunda metade do LP, onde os músicos apostam em uma sonoridade jazz/rock com forte influência do rock progressivo. Nessa segunda metade, o grande destaque vai para a bela faixa “Montanhas”. Foi um disco legal de reescutar, mas ainda prefiro o Snegs.

Marcelo: Por que temos tantas coisas muito boas de se ouvir e, subitamente, nos lembramos de um disco que deveríamos ouvir mais?! Esse é um daqueles discos que sempre me fizeram defender como o rock brasileiro dos anos 70 ainda guarda surpresas imensas. Pedrão Baldanza é o tipo de figura que justifica plenamente a presença nesta postagem: baixo pulsante, voz característica e uma capacidade muito natural de atravessar prog, funk, soul, jazz-rock e música brasileira sem parecer que está apenas colando referências. Gosto especialmente quando o disco assume o balanço do lado “Sábado”, mas o lado “Domingo” também tem momentos progressivos muito bonitos. Talvez seja irregular justamente por tentar muita coisa, mas é uma irregularidade cheia de vida.

Marcello: O representante do rock brasileiro na lista é um grupo de quem só conhecia um disco (que ouvi em fita, aliás!) e nem imaginava que tinha um baixista/vocalista (Pedrão). O disco tinha dois lados bem distintos: o lado A (“Sábado”) começa com “Para Swingar”, que faz jus ao nome com seu balanço funk, os metais e a voz canalhinha de Pedrão. “Levante a Cabeça” já dá mais destaque para o baixo numa música que dura pouco e deixa gostinho de “quero mais”, e “François” tem forte influência de disco music. “Para Segurar” põe os teclados em relevo e outro ótimo arranjo de metais. “Estação da Luz” e “Vida de Artista” foram compostas por Tony Osanah, figura conhecida no cenário da época, a segunda com um ritmo intrincado que destaca novamente os teclados e traz na letra a linha mortal: “para subir na vida é melhor ser ascensorista”. O lado B (“Domingo”) remete ao clássico álbum de estreia do grupo, Snegs (1974), com menor influência de black music. “Bem no Fim” tem outra linha de baixo fantástica e ótimos teclados, e “Montanhas” começa com aquele som “viajante” de meados da década de 70, trazendo uma bateria sensacional de Pedrinho Batera numa música meio jazz-rock, e quando você pensa que a música será toda instrumental, os vocais entram para concluir. “Neblina” não me chamou muito a atenção, mas “Água Limpa” traz um interlúdio instrumental com um piano sensacional. O álbum se encerra com “Rara Confluência”, com uma introdução de sintetizador que lembrou os bons tempos de Rick Wakeman e outra bateria fantástica. Apesar da habilidade impressionante dos músicos envolvidos, confesso que preferi o lado A. Som Nosso é um daqueles discos que se tivessem sido gravados nos EUA ou Inglaterra, poderia ter feito sucesso, especialmente se investisse no som do lado A. Infelizmente, nem aqui vendeu bem, e a banda acabou pouco depois.


Reverend Bizarre - II: Crush the Insects [2005]

Por André Kaminski

Embora o doom metal mais tradicional seja a base (nas quatro últimas faixas), fica claro que a banda se inspira no Sabbath setentista (nas três primeiras). Diferente das temáticas obscuras e melancólicas, o baixista e vocalista Albert Witchfinder volta e meia usa o humor em suas letras na criação de canções que não parecem se levar a sério. Por pouco não indiquei Goddess of Doom, mas pena que era apenas um single homenageando a deusa do terror Vandinha Addams, ou Christina Ricci, que até aceitou ser a capa do disco! É um doom metal divertido (isso existe?) e diferenciado, de uma banda que durou pouco mas que muitos a tem como seu "achado de estimação da qual não contarei a ninguém".

Anderson: Outra banda que não conhecia e que me surpreendeu bastante. O disco é uma loucura, começa mais cru e seco, soa como um stoner rock mais simples e clássico. Colocaria as três primeiras nessa lista, destaque para Doom Over the World, a mais interessante. Eis que a partir da quarta música, um épico de 13 minutos, a sonoridade muda vertiginosamente para um Doom Metal daqueles bem cadenciados. Até o final teremos músicas longas e arrastadas que criam uma atmosfera completamente melancólica. Em minha perspectiva, a última música Fucking Wizard é o maior destaque dessa “fase 2” do material, faz menção ao Black Sabbath, mas ao seu jeito. Acredito que o nome da banda justifica bem o material. Com certeza não é para qualquer um, ainda não sei me surpreendi positiva ou negativamente.

Davi: Segundo álbum da banda de doom metal da Finlândia. Confesso que não conhecia o grupo e que fiquei impressionado em ver como esse álbum é cultuado entre os críticos de metal. Sério... Não consegui enxergar toda essa qualidade que os caras mencionaram. Achei as composições chatas, a audição extremamente cansativa, o som da bateria extremamente sem graça e o trabalho vocal fraquíssimo. Definitivamente, não é pra mim.

Mairon: Nunca tinha ouvido falar desta banda, então, quando olhei a capa do álbum, pensei que viria algo de contexto histórico. O som é um doom metal sem muita energia, e onde o vocal e o baixo de Albert Witchfinder se destacam realmente. Apesar de ser um disco muito longo (1 hora e 13 minutos), e não ser o estilo de música que aprecio hoje em dia, reconheço qualidades no disco, principalmente em "The Devil Rides On" e claro, o épico "Slave of Satan", com uma longa introdução de baixo e que fiz questão de ouvir as duas versões (a versão single, completa, possui 21 minutos!) . Me lembrou algo do Misfits, sei lá, mas mais arrastado, em especial "By This Axe I Rule!" e "Fucking Wizard", cujos trechos velozes são sensacionais, mas o longo trecho arrastado em cada uma delas é bem cansativo. Se essas canções fossem uns 30% mais curtas, seria um ótimo disco. De qualquer forma, irei ouvir os outros dois álbuns do trio finlandês para ver se é assim mesmo. Recomendação interessante.

Marcelo: Aqui eu confesso que apanhei um pouco. O Reverend Bizarre tem aquele culto em torno de si que sempre me deixa curioso, mas é só curiosidade mesmo. mas II: Crush the Insects exige uma disposição que nem sempre tenho para o doom mais arrastado. Albert Witchfinder se encaixa perfeitamente no tema, porque o baixo e a voz são parte central da identidade soturna da banda, e há momentos em que essa combinação funciona muito bem, especialmente quando o disco encurta um pouco o caminho. O problema, para mim, é que algumas faixas longas passam do ponto e começam a transformar peso em repetição. Foi muito bom conhecer, mas não sei se voltarei a ele com frequência, mas que voltarei, voltarei, sobretudo por faixas como a de abertura, “Doom Over The World”. Ah, e a capa é ótima.

Marcello: Quando recebi a lista, minha reação foi “quem???”. Quando vi a capa, minha reação foi “oh, não!”, e fui ouvir o disco sem muita expectativa. Quatro das oito músicas ultrapassam os 10 minutos de duração, e o baixista Albert Witchfinder se mostra um vocalista de bons recursos, além de mostrar segurança nas 4 cordas. “Doom over the World” me lembrou bastante do Black Sabbath: teria sido interessante ouvi-la com Tony Iommi e Tony Martin! Mas dispenso o papo furado no final, que não contribuiu em nada com a música. “The Devil Rides Out” mantém o clima sombrio e um solo curiosamente melodioso. Na sequência, a menor música do disco (só 5’22”!): “Cromwell” fala do Lord Protector, mas, como não fui atrás da letra, não sei o que ele veio fazer aqui no meio do disco – diferentemente das duas primeiras, as influências sabbathianas passam longe dessa música. Foi uma quebra interessante no meio do disco, para falar a verdade. O baixo introduz “Slave of Satan” - da faixa mais curta à mais longa – e os vocais de Witchifinder, embora ocupem pouco espaço na música, são o principal destaque. A música, em si, é um pouco monótona e não caiu no meu gosto. “Council of Ten” mantém o ritmo arrastado da anterior, e de novo o vocal me chamou a atenção, mas a mudança de ritmo n terço final ficou bem legal. “By This Axe I Rule” mantém o clima soturno e o mesmo ritmo das duas anteriores – parece que o baterista se cansou, hehehe. O baixo ganha algumas distorções, tornando-o o instrumento mais proeminente, e puxa uma acelerada na música que mais uma vez me lembrou o Sabbath. “Eternal Forest” não muda muito em relação às músicas anteriores – mesmo problema de “Fucking Wizard”, essa uma “Black Sabbath” (a música, não a banda) sem os mesmos atrativos. No fim das contas, algumas músicas sofreram por ter uma duração muito longa e se tornaram bastante monótonas e repetitivas, mas II: Crush the Insects funcionou bem nas músicas mais curtas – as longas mereciam algumas tesouradas ou pelo menos introduzir outros instrumentos nos arranjos. Foi bom para conhecer, mas não acho que voltarei ao Reverend Bizarre.


Sacred Reich - The American Way [1990]

Por Anderson Godinho

Esse álbum, na discografia da banda, significa uma mudança para um som mais pesado e menos veloz em relação aos anteriores. Phil Rind comanda as mudanças com algumas passagens mais grooveadas, mas é Greg Hall quem se destaca mais com seus arranjos para a bateria (inclusive em 1991, Hall deixa a banda). As letras também são destaque no sentido de apresentarem um tom mais politizado. Alguns clássicos da banda como Love...Hate e a faixa título The American Way até os dias atuais são lembradas nos shows. Algumas elucubrações e invencionices também são lembradas, mas não necessariamente por serem boas, 31 Flavors é um pavor. De modo geral é um bom disco de Thrash Metal, longe de se destacar em meio à multidão, mas tem bons momentos e é um material lembrado na discografia da clássica banda do Arizona.

André: Já ouvi alguns discos dessa banda, incluive este The American Way. Tem aquela mistura de thrash e groove tal como o contemporâneo Pantera, mas sem a qualidade dos riffs de Dimebag Darrel. É um disco bom, na parte de baixo e vocais, o responsável Phil Rind consegue um desempenho satisfatório embora ele não seja nem um grande baixista e nem um grande cantor. A música que mais gostei foi "Crimes Agains the Humanity", incluisive com a intro fazendo uso em destaque do baixo com os vocais.

Davi: The American Way é o segundo álbum do Sacred Reich. O disco aposta em um thrash metal bem cadenciado, bem trabalhado, com um ‘q’ de groove metal. Gosto bastante tanto de thrash, gosto de groove metal, mas não gostei do disco. O trabalho de guitarra de Wiley Arnett é o muito bom, mas o trabalho vocal de Phil Rind é muito fraco. Sua interpretação não me convence e as linhas vocais não me empolgam. No fim do disco há uma faixa chamada “31 Flavors”, onde a banda soa muito como o Red Hot Chili Peppers na época do Freaky Styley. Algo que destoa totalmente do restante do álbum e, mais uma vez, não convence. A melhor música do disco é “Who´s to Blame”, ainda assim longe do que considero uma grande canção.

Mairon: O Sacred Reich é daquelas bandas que mereciam mais reconhecimento dentro do thrash, e que legal ver os estadunidenses aqui. Este segundo disco é uma mudança sonora radical no som dos caras, lembrando um pouco o Anthrax, graças ao genial líder, baixista, vocalista e faz tudo Phil Rind. Com letras bastante críticas, o álbum é muito coeso, e em termos da performance de Rind, o cara tem uma voz interessante, a qual destaca-se principalmente na pesada "Who's to Blame". Mas admito que curto mais ele como baixista. Afinal, ele cria excelentes riffs, vide "I don't Know" e  "The Way It Is", duelando com as guitarras de Wiley Arnett e Jason Rainey . Gosto bastante da pancada "The American Way", e das longas "Crimes Against Humanity", com o baixo estourando as caixas de som, e "State of Emergency", pesadíssima, e com o baixo também marcando presença. Fechando o disco, como não curtir a audácia de "31 Flavors"?. Um funkzão recheado de slaps no baixo, com Rind emulando Mike Patton, e um ótimo naipe de metais que provoca o ouvinte a "sair da caixinha" e ouvir algo totalmente inovador dentro do Thrash, e com uma letra sensacional. Disco clássico que me surpreendeu de ver por aqui, e me fez abrir um sorriso de orelha a orelha. Parabéns ao consultor que o indicou!

Marcelo: O Sacred Reich era uma banda que eu havia deixado meio esquecida nos anos 90, pois enquanto todo mundo ouvia o Rust in Peace do Megadeth, que é do mesmo ano, eu ouvia esse do Sacred Reich... E voltar a The American Way depois de décadas foi uma grata surpresa. Phil Rind talvez não é nem o vocalista mais impressionante e nem o baixista mais virtuoso da lista, mas tem uma presença muito eficiente, especialmente porque o disco combina bem aquela pegada thrash com momentos mais cadenciados e letras de forte teor crítico. “Love…Hate”, “The American Way” e “Crimes Against Humanity” sustentam muito bem o álbum, mas a faixa que mais me divertiu relembrar foi “31 Flavors”, justamente por quebrar a expectativa e flertar com um funk metal inesperado. 46 anos depois, ainda tem personalidade.

Marcello: Uma banda que ouvi algumas vezes nos anos 90 e estava completamente esquecida para mim. E outra que também não sabia que tinha um baixista (Phil Rind) como vocalista principal. Este segundo LP da banda começa com “Love/Hate”, que te dá uma paulada na cabeça; a faixa-título é um pouco mais cadenciada e lembra um pouco o ritmo que o Metallica seguiu nos anos 90 (gostei bastante do riff de guitarra de Jason Rainey). “The Way It Is” pareceria à primeira vista ser uma música meio conformista, mas repetir “this is reality” ao longo dela mostra que a cabeça de Phil Rind está em outro lugar. “Crimes Against Humanity” traz um bom solo de Wiley Arnett, que infelizmente dura pouco tempo, mas, sobretudo, um desempenho fantástico do baterista Greg Hall. “State of Emergency” mantém o clima da anterior, e gosto bastante do baixo palhetado de Rind nessa música. Daí até o final são três músicas mais curtas (pouco mais de 10 minutos), com a introdução suave de “Who’s to Blame” quebrando o peso do disco – mas não deixe a impressão inicial te enganar, porque depois a música acelera, diminuindo o ritmo novamente para o solo de Wiley. “I Don’t Know”, pelo contrário, não dá moleza para o ouvinte, sendo quase punk. A grande curiosidade é “31 Flavors”, com um ritmo funk que se amplifica com os metais e vocais que parecem rap. Parece um cruzamento do Sacred Reich com o Red Hot Chili Peppers, mas ficou muito legal. Não conheço muito da carreira do Sacred Reich, mas The American Way é um bom disco, ainda que meio curtinho, e vou procurar mais coisas deles para ouvir.


Winger - Pull [1993]

Por Davi Pascale

Esse é e sempre foi o meu álbum favorito do Winger. Não é o mais famoso deles (alcunha que fica com In The Heart of The Young), mas foi o disco que me tornou fã dos rapazes. Os músicos envolvidos são todos de primeiro calibre e Kip Winger é um cantor de mão cheia (algo que já fica claro na música de abertura “Blind Revolution Mad”). O disco é muito bem feito e mescla hard rocks um pouco mais pesados do que o grupo costumava fazer (caso de canções como “Junkyard Dog” e “In My veins”), com baladas de extremo bom gosto (como “Who´s The One”, “Spell I´m Under” e “The Lucky One”), além da divertidíssima “Down Incognito”. A banda entregava aqui um trabalho maduro, com interpretações de primeira, mas o lançamento acabou ofuscado pela mudança de mercado que ocorria na época. Disco altamente recomendado para os fãs de hard rock.

Anderson: Mesmo tendo dado uma “estudada” na carreira do Winger para o Bangers Open Air desse ano, não tinha ouvido esse material na íntegra. É muito bom! Fazia um bom tempo que não ouvia um Hard Rock tão bem feito. Devia ter dado mais atenção ao show de Kip Winger e Cia no festival. Elementos de Skid Row são evidentes, aquele peso característico, mas sem perder a melodia em nenhum momento. Dedilhados, solos, backvocals muito bem pensados chamam a atenção, também. É impressionante como, mesmo tendo perdido o tecladista, tornando-se um trio, a banda soa mais cheia e pesada do que materiais anteriores. Geralmente gosto de apontar ao menos três músicas que me chamaram mais atenção, porém aqui fico com o conjunto da obra, 47 minutos muito bem utilizados. Dessa lista, o que mais gostei de conhecer.

André: Há anos não ouvia este álbum. Embora eu ainda prefira o anterior, este trabalho me soou também muito bom e bem consistente para um hard rock farofa. Já era uma época de vacas magras para o estilo (1993, que excetuando o Guns e mais umas poucas, não havia mais espaço para o gênero), todavia o disco soa pesado e bacana. Porém, para o tema, o disco soou fraco em termos de baixo, com Kip Winger apenas cozinhando sem nenhum solo ou toque diferenciado, exceto em algumas pequenas partes acústicas.

Mairon: Fazia muito tempo que não ouvia o Winger, e foi legal voltar neste terceiro disco dos caras. Acho que é um dos mais pesados da carreira deles, mesmo com as mesclas de momentos acústicos com elementos mais pesados, e muito pelo baixão do Kip Winger, que aliás é um dos grandes vocalistas de sua geração. Reb Beach é um monstro nas seis cordas (não à toa Coverdale o levou para o Whitesnake anos depois), mas concentrando-se na performance de Kip, o cara está soltando a garganta como manda o bom figurino do Heavy Metal da época, e eu destaco aqui seus vocais em "Blind Revolution Mad" e "No Man's Land'. Já no baixo, o trabalho de faixas como "Junkyard Dog (Tears On Stone)" e "Like A Ritual" chamam a atenção pelo peso. E claro, Winger sem baladinha nao é Winger, e ela aparece através da lindinha "The Lucky One", que deve fazer muito casalzinho ainda se ronronear romanticamente, e nao tão empolgante assim "Who's The One", que eu acho a mais fraquinha de Pull. No mais, destaque total para "Spell I'm Under", musicaço com ótimos arranjos vocais, e uma audição de uma banda que sempre é legal redescobrir, apesar de não fazer parte do meu ambiente musical.

Marcelo: Nunca fui exatamente fã do Winger, mas Pull me pareceu um disco melhor do que a reputação da banda poderia sugerir para quem ficou preso apenas à imagem mais farofa dos rapazes nos anos 80. Kip Winger canta muito bem, isso é inegável, e o álbum soa mais pesado, mais maduro e menos glam do que eu esperava. “Blind Revolution Mad” abre muito bem o trabalho, “Down Incognito” tem um refrão daqueles que grudam sem pedir licença, e “The Lucky One” mostra que a banda sabia trabalhar melodias com competência. Ainda não me converte em fã, mas me fez ouvir o Winger com menos preconceito, o que, para uma recomendação, já é bastante coisa.

Marcello: O grupo que leva o nome de Kip Winger era outro que estava esquecido do meu lado, e pensava ter ouvido o disco nos anos 90; no final das contas, acho que só tinha escutado os dois primeiros álbuns deles, pois não reconheci nenhuma música ao colocar Pull pela primeira vez. A banda estava reduzida a um trio, trazendo Reb Beach nas guitarras e Rod Morgenstern na bateria, e no álbum explora um som mais hard e menos glam do que nos discos anteriores. “Blind Revolution Mad” abre (bem) o álbum com uma música bem trabalhada e com boa variação de ritmos. Uma harmônica (inesperada) inicia “Down Incognito” com seu refrão feito para ser berrado ao vivo; uma das melhores músicas do disco, em minha opinião. “Spell I’m Under” é mais leve e mais baladeira, com belo desempenho vocal do chefe da banda; não compromete, mas também não chega a se destacar, apesar do belo solo de Beach. “In My Veins” reintroduz o peso no disco, e apresenta outro bom solo do guitarrista. “Junkyard Dog” remete à abertura, por ter trechos mais suaves, com violões no arranjo. “The Lucky One” é outra das melhores, para mim, uma quase balada muito bem trabalhada, mais uma vez com arranjo incluindo violões, ao passo que “In for the Kill” traz um órgão proeminente na introdução que, infelizmente acaba ficando muito baixo em boa parte da música. “No Man’s Land” não me chamou a atenção em nenhuma das audições, soando como a banda em piloto automático, enquanto “Like a Ritual” (com outro bom desempenho vocal de Kip e um solo de bateria para encerramento) e “Who’s the One” (mais uma música lentinha levada no violão) encerram o disco em nível elevado. Pull é um bom disco, que me agradou mais do que os dois primeiros, mas não me converte em fã do Winger.

 

sábado, 18 de julho de 2026

Ronnie Von - Ronnie Von [1972]


De um fracasso retumbante no final dos anos 60 a um sucesso cult extraordinário anos depois, Ronnie Von foi obrigado a modificar sua carreira musical diversas vezes. E em uma delas, ele foi tão audacioso quanto sua Trilogia Psicodélica. Com produção de Arnaldo Saccomani, Ronnie Von é - mais um - disco revolucionário na carreira de Ronnie. 

Ronnie em 1972. Tentando voltar ao sucesso?

Muito se fala da famosa Trilogia de Ronnie, a qual, no final dos anos 60, chocou os (e principalmente as) fãs do Pequeno Príncipe. Os discos Ronnie Von (1969),  A Misteriosa Luta do Reino de Parassempre contra o Império de Nuncamais (1969) e A Máquina Voadora (1970) tornaram-se célebres álbuns cult dentro da discografia do niteroiense Ronaldo Lindenberg Von Schilgen Cintra Nogueira, o nosso querido aniversariante (completou ontem, 17 de julho, 82 anos) Ronnie Von, por mudar uma sonoridade ligada ao rock juvenil e ingênuo de seus três primeiros discos, e mostrar uma lisergia, rancor e raivas até então nunca antes ouvida em discos de grandes artistas nacionais. 

Não mesmo. Ronnie ainda desafiou os fãs com uma obra incrível e anti-católica

A Trilogia Psicodélica levou Ronnie do sucesso ao ostracismo em apenas dois anos, vendendo quase nada e tornando os discos originais de época verdadeiras relíquias nas mãos de colecionadores com o passar dos anos, além de virar material de consulta para fãs e admiradores do rock nacional. As capas alucinógenas ajudaram ainda mais a afastar os conservadores seguidores de Ronnie, e hoje, felizmente, os três álbuns passaram a serem reconhecidos como alguns dos melhores lançamentos de rock nacional na história. 

Mas, no início da década de 70, a pressão da gravadora Polydor para que ele voltasse a fabricar um disco que vendesse era enorme. Eis que em 1970, Ronnie teve um contato mais próximo com o espetacular músico Tony Osanah. O ex-líder dos Beat Boys, famoso por acompanhar Caetano Veloso no álbum de estreia solo do baiano (1967), estava envolvido com a cultura afro-brasileira, principalmente do ponto de vista religioso e a umbanda. Nela, ele conheceu a história de um orixá que cuidava das matas e do verde, Oxóssi, e que segundo o próprio Osanah, o inspirou para criar uma "canção que surgiu inesperadamente, ao dedilhar o violão e ter ela pronta em cinco minutos". 

“Minha Gente Amiga” (acima) e “Hei Amigo” (abaixo),
compactos de Ronnie em 1971, indicando a sonoridade que iria vir em 1972

Ao longo de 1971, Ronnie pensava em como retomar a carreira, e para isso, lançou os compactos "Minha Gente Amiga"/"Segundo Motivo" (a mesma "Minha Gente Amiga" que foi regravada pelo Ira! em 1999) e "Hei Amigo"/"É Preciso Aprender", as quatro canções compostas ao lado de Antonio Pedro, apelidado San Martin. Musicalmente, o som traz um Ronnie mais ligado à musica latina, que irá ser ampliado no trabalho de 1972. Estas canções trazem a presença marcante de percussões na linha de grupos como Santana, com apenas "Segundo Motivo" sendo uma balada lindíssima, que lembra os primeiros trabalhos do cantor. Destacam-se aqui os vocais rasgados de Ronnie, algo bem diferente do estilo que ele cantava em seus trabalhos anteriores, além da presença de guitarras lisérgicas/californianas e um hammond endiabrado nas quatro canções. 

Cartaz de divulgação do filme (acima); Ronnie e Marlene França (abaixo),
em cena de Janaína, A Virgem Proibida

Ao mesmo tempo que lançava os dois compactos, Ronnie investiu no cinema. Assim, no final do ano, e início do ano seguinte, participa como ator do filme A Virgem Proibida, de Olivier Perroy. Lançado em 1972, nele Ronnie faz o papel de um artista de sucesso, Ricky Ricardo, o qual decide abandonar a carreira, atormentado pela vida desenfreada dos grandes centros e do convívio com os fãs. Assim, ele foge para as paradisíacas praias de Salvador. Lá, ele acaba se apaixonando por Janaína (Marlene França), uma linda mulher que no fundo é Yemanjá. O filme traz inspirações na cultura afro-brasileira, e uma das canções presentes na trilha do mesmo é "Cavaleiro de Aruanda", a célebre canção de Tony Osanah.

Tony Osanah, o gênio por trás de “Cavaleiro de Aruanda”

A canção surgiu em fevereiro de 1972, quando Osanah teve um inesperado encontro na calçada em frente ao antigo prédio do Mappin, na Praça Ramos de Azevedo, centro de São Paulo. Naquele dia, ele esbarrou em um desconhecido, que "... olhou pra mim e falou que eu precisava de ajuda. Ele parecia um velho índio. Pediu para eu acompanhá-lo e disse que eu nem imaginaria o que ia acontecer na minha vida nos próximos meses". O homem era um pai-de-santo, e levou Osanah para um terreiro. Lá, ele teve uma experiência que até hoje não consegue descrever, mas que quando o músico argentino voltou para casa, "recebeu" a letra e a melodia de "Cavaleiro de Aruanda", sendo que ele afirma que "ela foi psicografada para mim"

Enquanto Osanah tinha seus encontros espirituais, o produtor Arnaldo Saccomani sugeriu a Ronnie buscar auxílio em nomes como o de Tony, e no encontro dos dois, perguntando para Tony se ele poderia colaborar no próximo trabalho, a primeira música a ser apresentada foi "Cavaleiro de Aruanda", que sai na trilha do filme, e também é lançada no raro compacto com . Começava ali a criação de outro disco fantástico na carreira do Pequeno Princípe.

Single de “Cavaleiro de Aruanda”

Ronnie Von chegou às lojas na segunda metade de 1972, e abre com "Cavaleiro de Aruanda". O ritmo percussivo avassalador e a guitarra lisérgica de Osanah nos remetem fácil ao Santana de início de carreira. A bateria e as percussões comandam o ritmo, e Ronnie gasta sua voz, acompanhado por um excelente backing vocal feminino, enaltecendo o cavaleiro do mundo espiritual da umbanda. Quem esperava que Ronnie voltaria calmo, com canções românticas para reconquistar seus fãs, logo de cara vê mais um grande desafio e provocação para seu público com as religiões africanas, e ainda, fazendo uma crítica à Igreja Católica e seus preconceitos.

"Hare Krishna" é mais uma canção com temática religiosa, dessa vez, composta por Ronnie e San Martin. Ronnie estava influenciado por George Harrison, bem como as decepções do beatle com Maharishi, e obcecado lendo Baghavad Gita e O Livro dos Vedas. A letra também afronta o catolicismo "salve o mundo de muitos deuses", e a canção traz os vocais femininos exageradamente gritados, baseada em apenas dois acordes, com um ritmo latino das percussões retomando "Minha Gente Amiga" e "Hei Amigo", onde a guitarra de Osanah é o que brilha. As percussões também estão presentes em "Camping", um rockaço no qual Ronnie está cantando com sua voz bastante rouca e rasgada, em um ritmo que lembra algo do Captain Beyond de Sufficiently Breathless

Compacto angolano de “Aquela mesma Canção”

A dupla Ronnie e San Martin faz a baladinha "Aquela Mesma Canção", essa fácil fácil a mais comercial do disco, que poderia estar nos primeiros discos de Ronnie, assim como "Tereza Cristina", faixa de amor criada por Arnaldo Saccomani para sua namorada, recheada pelo arranjo orquestral de Briamonte. 

De Ronnie e San Martin temos também a jazzística "Eu Era Humano E Não Sabia", outra com a orquestra sendo uma atração a parte, assim como a linha de baixo e o piano. Ronnie novamente está cantando muito, e a guitarra de Osanah brilha fazendo os acordes bases. "Roke Pros Meus Nervos (Nada Neste Mundo)" é uma faixa que me lembra muito o que O Peso faria anos depois no álbum Em Busca Do Tempo Perdido, com aquela pegada Stones no instrumental, e os vocais rasgados e roucos de Ronnie. 

De Eduardo Araújo e Marcos Durães, Ronnie grava "Veja Com Olhos De Ver", um rock com um riff pesado - sim, Eduardo Araújo também teve sua fase roqueira - onde a guitarra de Osanah e o baixo (seria de Willy Verdaguer?), fazem as bases para Ronnie soltar a voz. Essa faixa é carregada de emoção, seja pelos vocais arrebatadores de Ronnie, seja pelos vocais femininos, seja pelo refrão poderoso, pesadíssimo, ou seja pelo quarteto baixo, bateria, piano e guitarra. As alternâncias de andamento são fenomenais. Preste atenção no que Ronnie faz com sua voz na segunda parte, indo de graves à falsetes. E cara, que refrão massa. Uma das melhores canções registradas pelo cantor, cujo final me lembra muito o que o Deep Purple faria depois em "Mistreated". Pena não saber quem é o baterista aqui, pois o cara demole!

Single de “Tempo de Acordar”

Outra que Ronnie está cantando pra caramba é na dolorida balada "E Essa Gente Passa Cantando", uma fabulosa canção, com um arranjo orquestral fenomenal, um arrepiante vocal de apoio, e Ronnie cantando a la Joe Cocker, rasgando sua voz, em gritos dilacerantes. Que música! 

Retomando o lado comercial, Ronnie traz uma boa versão para "I'll Cry My Heart Out For You", batizada de "Tempo de Acordar". A faixa, original de Neil Lancaster e Cliff Corbertt, destaca o piano e uma bela interpretação de Ronnie, além do fantástico arranjo orquestral de José Briamonte. Por fim, aprecie o lado zeppeliano dos violões e da flauta na lindíssima "Céu Vermelho", e ainda, para fechar o álbum, tem mais um rockaço, "Ninguém Vai Me Segurar", embaladão, com um ótimo ritmo de baixo e bateria, e o piano saltando nas caixas de som, lembrando algo de Chicago, porém sem naipe de metais. 

Single português de "Aquela mesma Canção"

Além de "Cavaleiro de Aruanda", tendo "Tereza Cristina" no lado B e que saiu também em Portugal e no Uruguai, foram lançados os compactos de "Tempo de Acordar" (com "Aquela Mesma Sensação" no lado B), somente no Brasil, e em Portugal e Angola, o compacto "Aquela Mesma Canção", com "Ninguém Vai Me Segurar" no lado B. 

Ronnie Von foi um dos discos mais vendidos no Brasil em 1972 (estima-se que em torno de 100 mil cópias, algo que na época, era considerado um excelente número), puxado pelo sucesso de "Cavaleiro de Aruanda", mas acabou caindo no esquecimento com o passar do tempo. O álbum originalmente teria uma capa gatefold, mas acabou saindo em capa simples, com a imagem da gatefold original vindo em um pôster que acompanha o vinil (raríssimo hoje em dia). 

Ronnie em capa de revista de 1971 (acima) e
O gênio Tony Osanah (abaixo)

Após Ronnie Von, a vida de Osanah sofreu uma reviravolta. Ele relata: "Eu vivia sempre tentando alguma coisa nas gravadoras. Era muito jovem, já casado e despreocupado". Logo depois ele fez parte da banda de apoio dos Secos & Molhados, e então, fama e dinheiro entraram na vida do rapaz. Já Ronnie ainda lançaria mais um disco conturbado - e fantástico -, Ronnie Von (1973), antes de entrar de vez no mercado comercial de canções românticas e populares, indo então a naufragar sua carreira musical nos anos 80. 

Apesar do próprio Ronnie considerar um disco abaixo da trilogia psicodélica, eu discordo bastante. Ronnie Von tornou-se obscurecido pela grandiosidade e a busca pelo fenômeno cult de seus três antecessores, mas merece sim no mínimo (se não mais) o mesmo status que eles. Se você não conhece a obra de Ronnie Von entre 1969 e 1973, corra atrás para descobrir algo incrível e único lançado no país. Agora, se você nunca ouviu Ronnie Von, seja por preconceito, seja por puro desprezo, você não sabe o que está perdendo.

Pôster, com a imagem projetada para ser a capa gatefold (acima)
 e a Contra-capa do vinil (abaixo)

Track list

1. Cavaleiro De Aruanda

2. Tempo De Acordar (I'll Cry My Heart Out For You)

3. Veja Com Olhos De Ver

4. Eu Era Humano E Não Sabia

5. Camping

6. Aquela Mesma Canção

7. E Essa Gente Passa Cantando

8. Hare Krishna

9. Tereza Christina

10. Rock Pros Meus Nervos (Nada Neste Mundo)

11. Céu Vermelho

12. Ninguém Vai Me Segurar

quarta-feira, 8 de julho de 2026

45 Anos de Paradise Theater


As efemérides relacionadas ao Styx são bem interessantes no quesito número 6. Dois de seus principais discos completam 50 e 45 anos, respectivamente, em 2026 (e um deles ainda envolve 1996, um ano crucial na história dos estadunidenses de Chicago). Estou falando de Crystal Ball e Paradise Theatre. Hoje, trago a história do segundo, o qual já completou sua efeméride em janeiro, como veremos adiante, deixando para daqui alguns meses a importância dos 50 anos de Crystal Ball.

Styx em 1981. Da esquerda para direita:
Dennis De Young, James “JY” Young, Tommy Shaw, John Panozzo e Chuck Panozzo

O Styx havia lançado Cornerstone em 1979, quarto álbum (nono na carreira dos caras) de uma sequência impecável que consolidou aquela que é considerada a formação clássica, com Dennis DeYoung (vocais, teclados, piano), James "JY" Young (vocais, guitarras), Tommy Shaw (vocais, guitarras, vocoder), e os irmãos gêmeos Chuck Panozzo (baixo, pedal bass) e John Panozzo (bateria, percussão). O álbum trouxe o mega-hit "Babe", responsável por colocar o Styx na segunda posição em vendas nos charts da Billboard, onde permaneceu por 60 semanas.

Porém, o sucesso de "Babe" fez com que o ego de DeYoung, compositor e cantor da canção, inflasse, pressionando por uma direção mais comercial para o som do grupo, enquanto Shaw e Young queriam manter o som mais ligado ao hard/prog de álbuns como Crystal Ball e The Grand Illusion. Durante a turnê de promoção de Cornerstone, a guerra sobre a direção musical só aumentou, até que no início de 1980, o mundo foi surpreendido pela demissão de DeYoung, após uma discussão acirrada entre ele e Shaw sobre qual deveria ser o segundo single de Cornerstone, no caso a balada "First Time" (defendida por DeYoung) ou o rock "Why Me" (defendida por Shaw, que ameaçou sair se "First Time" fosse lançada). A gravadora do quinteto, a A&M, preferiu não perder Shaw, e com isso, DeYoung foi demitido (ou pediu demissão, uma história até hoje controversa). No entanto, em pouco tempo o restante do Styx voltou atrás, e chamou novamente DeYoung para fazer parte do quinteto. Com isso, e com DeYoung cada vez mais líder absoluto do Styx, o grupo vinha dividido para o seu quinto álbum com esta formação (e o décimo na discografia). 

O Teatro que deu nome e inspiração ao álbum de 1981

Ao mesmo tempo, os Estados Unidos estavam passando por uma grande depressão econômica, e ainda o período eleitoral que elegeu Ronald Reagan como seu 40° presidente. Isto tudo abalava DeYoung, que sempre foi um apaixonado por seu país. Eis que um belo dia, caminhando por uma galeria de artes, DeYoung se deparou com a serigrafia de Robert Addison, a qual retratava o Paradise, um teatro de Chicago, localizado na 231 N. Pulaski Road, 60624, inaugurado em 1928 com muita opulência e festividade, tido como um dos maiores teatros do mundo. Mas, durante os anos 30, com a chegada do cinema falado e posteriormente da TV, começou sua decadência, já que o teatro não havia sido projetado para ter uma acústica grandiosa como a das telas do cinema. O Teatro ainda sobreviveu por mais alguns anos, abrigando todos os tipos de mal encarados, mendigos, prostitutas e negócios ilícitos, até ser fechado em 1956 (olha a efeméride) por abandono, e totalmente demolido em 7 de julho de 1958 (há exatos 68 anos).

Ao ver a arte do teatro em ruínas, com a frase estampada “Closed Indefinitely”, DeYoung imaginou que aquilo seria a metáfora perfeita para os Estados Unidos de 1980, e sentiu-se livre para criar uma obra conceitual e ao mesmo crítica. Em suas palavras: “o álbum traz um conceito de esperança e renovação no espírito do povo americano para compreender os problemas que o mundo e este país enfrentam, e encontrar soluções para esses problemas por si mesmos. Não dependa de heróis para fazer o que você deve fazer por si mesmo. Se você odeia seu trabalho, mas tem um sonho, então corra atrás dele. Só não fique sentado reclamando.” Ele segue, com a frase que usou em todos os shows da turnê de Paradise Theater: “a origem deste disco foi em 1975, quando todo mundo, TV, rádios, jornais, um ano antes de acontecer (n. r. 4 de julho de 1976) estavam estampando com orgulho o bicentenário de nossa independência. Ali surgiu algo em minha mente, que coloquei em palavras em ‘Suite Madame Blue’, do Equinox“. A história tem um paralelo, portanto, entre o que ocorreu com o Teatro e o que ocorreu com o povo estadunidense, com cada música fazendo alusão direta ao Teatro, mas implicitamente, contando a história do período pós-Segunda Guerra no país até 1980 (um período exato de 30 anos).

A arte que inspirou a criação de Paradise Theater

Contextualizando, depois da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos viveram um auge econômico que durou toda a década de 50 e boa parte dos anos 60. Porém, escândalos como os do governo Nixon, o assassinato de John Kennedy, a guerra do Vietnã, entre outros, levaram o país a uma decadência terrível. Em 1980, a inflação estadunidense era de 13,5% ao ano, levando à chamada Crise do Petróleo, com muitos postos ficando sem o combustível. Além disso, somente em 1980, o desemprego saltou de 7,5% para 10,8%, isso em pouco mais de seis meses, com cidades gigantes como Chicago, Detroit, Cleveland e até mesmo Seattle a fechar fábricas e perder população. Por fim, a eleição de 1980 (citada no início do texto) foi entre o democrata Jimmy Carter, então presidente dos Estados Unidos, e o ator republicano Ronald Reagan, o que causava uma sensação de desesperança ainda maior entre o povo estadunidense (o que no Brasil alguns diriam ser “uma escolha difícil”), com Reagan tomando posse em 20 de janeiro de 1981.

Um dia antes, em 19 de janeiro de 1981, chegava às lojas Paradise Theater, a sensacional obra metafórica de Dennis DeYoung e Styx para criticar seu próprio país.  Para criar tal obra, DeYoung trouxe músicos extras, empregando um naipe de metais chamado de Hangalator Horn Section, composto por Steve Eisen (saxofone), Bill Simpson (saxofones), Mike Halpin (trombone), John Haynor (trombone),  Dan Barber (trompete), Mark Ohlsen (trompete, flugelhorn), além dos arranjos de Ed Tossing, que criaram canções únicas e memoráveis. 

Single de “Rockin’ the Paradise”

"A.D. 1928" abre os trabalhos, apenas com o piano fazendo a imortal melodia da canção, e DeYoung exaltando a inauguração do Paradise: "Tonight's the night we'll make history / as sure as dogs can fly / And I'll take any risk to tie back the hands of time / And stay with you here all night". É o início do teatro, e a canção exalta a coragem e determinação, e uma certa arrogância da grandiosidade que irá se esperar do teatro. A letra segue "So take your seats and don't be late, we need your spirits high / To turn on these theatre lights and brighten the darkest skies / here in the Paradise". Com este convite para a inauguração, simbolizando a grandiosidade e o otimismo de uma estreia, a chegada de algo novo, começa então "Rockin' the Paradise". 

Animada, com um riff pegado e um ritmo puro rock 'n' roll, a canção mostra o auge do teatro, com uma energia absurda, que mistura peso, rock anos 50 e o ritmo quadrado dos anos 80. A primeira parte faz referência às críticas aos jovens que são considerados preguiçosos, mas que estão esperançosos de uma vida melhor, enquanto a segunda estrofe solta a raiva destes jovens que "não precisam de lucros rápidos ... somente algum filho da puta que trabalhe duro". 

A canção segue no mesmo ritmo, enaltecendo ainda mais estes jovens que "não precisam lutar, e sim desafiar os controladores" em busca de orgulho e de uma nova vida, agitando no Paradise. Para DeYoung: "Um dos maiores crimes nos Estados Unidos é as pessoas não se sentirem úteis. As pessoas precisam se sentir como uma parte útil da sociedade, porque elas são. Precisamos fazer com que as pessoas acreditem em si mesmas — que elas são importantes."

No contexto paralelo com os Estados Unidos, é a força do povo estadunidense se reerguendo após a Segunda Guerra. Chamo atenção para o uso do piano aqui, relembrando musicalmente a sonoridade dos anos 30, algo antigo. O solo da guitarra, com o piano ao fundo, é para dançar animadamente, e a performance de John é muito boa, Disparada a faixa mais alegre do disco, reflete portanto o surgimento de algo novo, o Paradise, e na metáfora, a chegada de uma nova geração de pessoas. 

Compacto de “Too Much Time On My Hands”

A sequência vem com os sintetizadores trazendo uma modernidade para o Paradise, o início do cinema falado, o qual está em "Too Much Time on My Hands", cantada e composta por Shaw. O Teatro está modificado, tentando se adaptar aos novos tempos, mas por alguma razão, não há mais o mesmo sucesso do seu início. A letra destaca alguém que acaba desempregado, e que se sente um "criminoso que não foi preso". 

É o início da decadência do Teatro, e consequentemente, um retrato do aumento do desemprego no país no início dos anos 70. Uma das canções de maior sucesso do Styx (ao lado de “Lady”), com suas palmas no refrão que qualquer fã da banda adora fazer, e claro, mais um belo solo das guitarras, acompanhadas pelos sintetizadores. O andamento quadradão, a simplicidade dos acordes de guitarra, o refrão extremamente grudento (quem nunca se pegou cantando o refrão ou fazendo os " t-t-t-t-ts" do refrão, dando aquela dançadinha marota a lá Bowie??) e as citadas palmas entre as palavras que formam o nome da canção, animaram muitas festas adolescentes durante os anos 80. 

Compacto japonês de
“Nothing Ever Goes As Planned”

"Nothing Ever Goes as Planned" muda novamente a sonoridade, ainda mais moderna, começando com a bela introdução e o solo da guitarra de Shaw, apresentando citações ao reggae, e cantada por DeYoung, e a primeira a trazer o naipe de metais. Destaque para o solo carregado de wah-wah, além de mais um refrão grudento ("nothing ever goes as planned/It's a hell of a notion/Even Pharaohs turn to sand/Like a drop in the ocean"). 

Liricamente, é o retrato da visão de fracasso que chega ao Teatro (e dos Estados Unidos). Tudo o que havia sido comemorado começa a naufragar, dar errado, igual aos grandes faraós que não resistiram ao tempo. Isto gera uma forte frustração ao Paradise, e ao encerramento do Lado A com a nostálgica "The Best of Times". 


Compacto de “The Best of Times” (leia o texto)

Outro grande sucesso de Paradise Theater,  ela retoma a melodia de “A.D. 1928", mas com a melancolia tomando conta da letra, no lugar da alegria da faixa de abertura: "I know you feel these are the worst of times / I do believe it's true / When people lock their doors and hide inside / Rumor has it it's the end of Paradise". Os melhores tempos do Paradise estão apenas na memória, e em um mundo de ponta cabeça, o narrador lembra-se desse passado ainda esperançoso, apesar de ver as ruínas do Teatro.

Em sua vida vida pessoal, com tudo que está destruindo-o profissionalmente, tem-se de bom as lembranças e a companhia da pessoa amada. O Teatro fecha suas portas, e a canção conclui que "The best of times are when I'm alone with you", como canta DeYoung em outro refrão enormemente conhecido, tendo aquela harmonia vocal que somente o Styx conseguia fazer (OK, o Queen também fazia algo similar no início de carreira) em uma das baladas mais famosas da história do grupo. 

Nas palavras de DeYoung sobre a canção, "Ela veio pra mim porque eu estava tentando entender o que é que me permite enfrentar as mudanças no mundo e no nosso país. E eu decidi: 'Bom, o amor é uma coisa boa'. Se você tem alguém em quem confia pra te apoiar e você apoia essa pessoa, isso é fundamentalmente algo bom". O personagem da música encontra consolo se fechando, trancando a porta, abaixando as persianas e ficando no abraço de alguém em quem confia e ama". O Paradise está ruindo, os Estados Unidos vivem do saudosismo, e então, entramos no complexo e pesado lado B de Paradise Theater

Capa gatefold interna de Paradise Theater

Abrindo os trabalhos, temos "Lonely People", com o barulho da chuva, trovões, gritos e um saxofone que sola endiabrado. O tempo passou, e agora,  o Teatro está vazio, sozinho, apenas com os mendigos dormindo em seu interior. O arranjo de metais e o peso das guitarras apresentam o refrão marcante, trazendo a voz de DeYoung, que narra as últimas apresentações de cinema no Teatro vazio. O narrador assiste um filme de James Cagney (galã do cinema estadunidense nos anos 30 e 40), e percebe que são os últimos dias do local que lhe deu tanta alegria. A analogia vai com os Estados Unidos isolado durante a guerra fria. A melodia e o arranjo da canção retratam fielmente os pesados momentos de vazio do Teatro através das guitarras, com destaque para os solos de Tommy e JY. Chama a atenção o estranho solo dos sintetizadores, e o ótimo solo de JY, além do peso da canção, muito diferente do que ouvimos no lado A. 

Com a voz delicada de Shaw, "She Cares" retrata o momento onde o Teatro se vê às moscas, mas tem esperanças de que ainda há alguém que se importa com ele, fazendo referência aos soldados estadunidenses que foram para a guerra do Vietnã, com as namoradas/esposas que independente do que acontecer na guerra, estarão esperando por eles. A canção tem um certo ar de ballad-rock dos anos 50, bastante melancólica, e os "wow-wow-wow" tipicamente cinquentistas, destacando o solo de Eisen no saxofone, carregando para o dramático fim do Paradise. 

A linda versão em vinil, gravada a laser

Isso começa em "Snowblind", que entrega a autodestruição do Teatro, que passa a ser usado por traficantes. O dedilhado nervoso do piano traz a assombrosa voz de JY, com o Teatro "olhando-se no espelho", no seu momento de declínio, chocado com o que está vendo, e leva aos vocais de Shaw, no seu momento totalmente "cego pela neve" (gíria para "chapado de cocaína") que toma conta do Teatro. São os altos (Shaw) e baixos (JY) do vício em cocaína que tomou conta de uma geração estadunidense na década de 70, estampados através dos vocais. É uma crítica forte ao consumo das drogas, direta, sem firulas. Que baita solo de JY aqui, com muitos bends e notas velozes, e que música sensacional. O andamento levemente blueseiro dá um charme especial para esta canção, que gerou polêmica após grupos religiosos e a comunidade do Parents Music Resource Center (PMRC) alegarem supostas mensagens satânicas escondidas na mesma, quando ouvida ao contrário. 

Segundo eles, a afirmação era de que a frase "I try so hard to make it so" ("eu tento tanto fazer dar certo") surgia como "Satan moves through our voices" ("Satã se movimenta através de nossas vozes"). DeYoung debochou da história, alegando que: "Quem toca nossos discos ao contrário é o Anticristo. A gente já tem dificuldade suficiente pra fazer esses discos soarem certo tocando do jeito certo. As pessoas não têm nada melhor pra fazer? É o Styx. Vocês conseguem imaginar atacar os caras que fizeram 'Babe'? Ah, pelo amor de Deus". JY foi o mais veemente em rebater esta afirmação, chegando a dizer que "Se fôssemos colocar alguma mensagem em nossas músicas, teríamos colocado de forma que estivesse na música normalmente. Não de um jeito que você precisasse comprar um gravador de fita de US$ 400 para ouvir". Posteriormente, o Styx realmente incluiu mensagens de trás para frente no álbum seguinte, Kilroy Was Here, outro disco conceitual falando sobre a censura ao rock (as mensagens foram colocadas propositalmente, para zoar mesmo os grupos religiosos e o PMRC).

Dennis DeYoung, o mestre de cerimônias e criador da obra aqui apresentada

Finalmente, o Teatro é tomado por traficantes, mendigos, divorciados e falidos que pedem trocados na sua porta, já fechado. É "Half-Penny, Two-Penny", uma das melhores canções da carreira do Styx, e que também faz uma auto-referência, com um ritmo que lembra muito o sucesso "Miss America", lançado pela banda em The Grand Illusion (1978). O ritmo disco, com as guitarras pesadas de JY e Shaw, nos remete facilmente ao fim dos anos 70. O sonho americano virou esmola, mas é o jeito americano de ser "Justice for money what can you say / Yes, Mrs. Cleaver your son's home to stay / We all know it's the American Way", com Mrs. Cleaver sendo a personagem June Cleaver, da série "Leave It to Beaver" (no Brasil, Aquele Beijo), que foi ao ar nos anos 50, e tinha na senhora Cleaver o exemplo de Dona de Casa perfeita, com um padrão de perfeição pomposo, de vestido, pérolas, maquiada e salto alto, mesmo só pra lavar louça ou cuidar do jardim. Uma crítica ao exibicionismo das elites estadunidenses que não importam-se com os "inferiores". 

O refrão traz esperanças com um possível fim do Paradise, a possibilidade de algo novo surgir daquela imundice. Uma paulada, com o ótimo riff das guitarras e um excelente andamento de John e Chuck. A marcação do baixo é grudenta e dançante, além do riff, que cantarolamos sem querer junto à voz de James. A mudança no emotivo refrão, os barulhos de britadeiras e máquinas que levam à demolição do Paradise Theater, inclusive por pessoas que frequentaram o lugar quando eram crianças e jovens, entre acordes de piano, o badalar de um sino torturante, e o sempre marcante baixo de Chuck, são os pontos principais dessa excelente e incrível faixa  (impossível ouvir e não lembrar de "Run Like Hell", do Pink Floyd). Ao mesmo tempo, as conversas entre a demolição são pauladas críticas ao governo estadunidense ("What the hell you doin’? / We’re tearing this old building down here / Oh you’re kiddin’ me, remember when we were kids / And we used to come here every Saturday afternoon to see a cartoon? / Yeah, I remember / Well what’s she lost to? / Who knows politicians, taxes it’s a disgrace / I’m not surprised, they make me sick"). Pancada na cabeça dos políticos, e a faixa encerra-se com os excelentes solos de JY, Tommy e, após uma mudança sonora, o lindo solo de sax de Eisen. 

DeYoung volta com o piano que começou o álbum em "A.D. 1958", mas agora com um tom melancólico. A mesma melodia de “A.D. 1928” e da introdução de “The Best of Times” reaparece, mas com diferença na letra, que agora cita a existência do Teatro apenas na memória daqueles que o acompanharam. "And so, my friends, we'll say goodnight / for time has claimed his prize / but tonight can always last / as long as we keep alive / the memories of Paradise". O Teatro é demolido, fechando o ciclo e abrindo uma nova era de esperanças, construções e pessoas, que acabarão passando por todas as etapas de ascensão e queda novamente, e novamente, e novamente ...  Por fim, "State Street Sadie" é uma "faixa escondida" homenageando uma famosa rua de Chicago, a State Street, com "Sadie" representando a decadência. É apenas uma vinheta ao piano, em ritmo blues, mas com um certo ar de alegria nostálgica, fechando sublimemente este espetáculo de disco.

Notícia sobre a demolição do Paradise Theater, ocorrida há 68 anos

Um ótimo álbum, que identificou com precisão as rachaduras crescentes nas fundações da sociedade atual (mesmo sendo em 1981), e previu tudo o que encontramos hoje sobre a polarização política, o ufanismo barato dos 15 minutos de fama na internet, e o fracasso subsequente que demole por completo famílias e lares não só nos Estados Unidos, mas pelo mundo. 

Paradise Theater atingiu a primeira posição nos Estados Unidos, onde permaneceu por três semanas consecutivas, entre abril e maio de 1981. O disco vendeu muito, com mais de 3 milhões de cópias nos Estados Unidos (platina tripla) até os dias de hoje, tornando-se o maior sucesso comercial do Styx, e foi também o quarto álbum consecutivo da banda a receber a certificação de platina tripla pela RIAA. Para se ter uma ideia, além de primeiro nos EUA, o disco vendeu demais ao redor do mundo, sendo que, por exemplo, ficou em segundo na Argentina (80 mil cópias), terceiro no Canadá (platina, com 100 mil cópias), quinto na Noruega, sexto na Suécia, sétimo na Suíça (ouro, com 25 mil cópias), oitavo no Reino Unido (prata, com 60 mil cópias, maior colocação da banda por lá) e ainda nos 30 mais na Austrália, Alemanha, Holanda e Nova Zelândia.

O compacto gravado a laser, primeiro na história

Quatro singles do álbum entraram nas paradas musicais, com duas músicas alcançando o Top 10. O primeiro single, "The Best of Times " chegou ao 3º lugar na Billboard, por onde permaneceu por quatro semanas, décimo no Canadá e 42° no Reino Unido. Vale lembrar que este foi o primeiro single do mundo a ser lançado com vinil gravado a laser, como estampa o sticker do mesmo. Na sequência, veio "Too Much Time on My Hands ", que foi ao 9º lugar na Billboard - único hit de Shaw no Top 10 com o Styx - e quarto no Canadá. "Nothing Ever Goes as Planned " alcançou somente o 54º lugar, e "Rockin' the Paradise " foi 8º lugar na parada Top Rock Tracks, sendo que seu vídeo clipe foi o décimo a rolar na história da MTV (sempre lembrando que o primeiro clipe foi "Video Killed the Radio Star, do Buggles), na madrugada do dia 1 de agosto de 1981.

Uma versão limitada do vinil apresenta uma imagem da decoração do Teatro gravada em laser dentro dos sulcos do LP (algumas cópias, o design era em cera), tornando-se mais um atrativo junto da qualidade sonora de Paradise Theater. Um fato curioso da capa, pintada pelo artista Chris Hopkins, é que nela, o nome do álbum está Paradise Theatre, enquanto na contracapa e no selo, o título do disco está escrito Paradise Theater,  e na lombada, somente "Paradise". A ideia justamente era causar confusão e uma espécie de ciclo, assim como o conceito geral do álbum. Em seu interior, uma manchete de época retrata o fim da demolição do teatro, em 7 de julho de 1958, e comenta que era um dos maiores teatros já construídos, mas que com a chegada da televisão, acabou sendo abandonado.

James “JY” Young e Tommy Shaw na turnê de Paradise Theater

Uma ambiciosa turnê mundial teve início em 1981, sendo a turnê de maior bilheteria do quinteto (e a época, uma das maiores da história). Inspirada na Broadway e no cinema, o show trazia uma abertura dramática, com um personagem varrendo o teatro sozinho, ao lado de um piano, de onde surgia DeYoung para interpretar "A. D. 1928", emendada com "Rockin' The Paradise", sendo que oito das onze canções de Paradise Theater compunham o set list do show (apenas "Nothing Has Gone Planned", "Lonely People" e "She Cares" ficaram de fora). Encerrando o  show, a mesma sequência final do álbum, com "Half Penny, Two Penny" (tendo todos os barulhos de demolição do teatro) e "A. D. 1958".

O palco remontava a fachada do Paradise, através de luzes brilhantes de neon, como mostra a capa do single com estas duas canções. As luzes alternavam seu brilho, frequências de oscilação, entre outros, lembrando o famoso arco-íris do Rainbow. Cada músico vinha trajado como um "personagem" ligado ao cinema, com JY e Shaw sendo os limpadores, Chuck o garçom, John o garoto que ia assistir aos filmes e DeYoung o Mestre de Cerimônias. Ao final, o telão exibia os créditos do show, trazendo manchetes de jornal apresentando cada um dos integrantes, e o nome de cada colaborador do show, como um filme tradicional. 

Ingresso da Paradise Theater Tour

O Styx seguiu seus caminhos conturbados com mais um álbum conceitual, o já citado (e igualmente excelente) Kilroy Was Here, e uma longa turnê que culminou no primeiro ao vivo da banda, Caught in the Act Live (1984). Porém, o clima entre Shaw e DeYoung já não existia, e após o fim da turnê, a banda se dissolveu. O futuro reservou um retorno inesperado de DeYoung e Shaw tocando juntos nos anos 90, com o Styx apresentando Paradise Theater novamente nos palcos, registrado no excelente CD e DVD Return to Paradise, lançado em 1996 (olha aí, 30 anos atrás). 

Falando então nas efemérides, como citei no início, daqui alguns meses contarei a história de um dos melhores trabalhos da banda, e igualmente marcante para sua história: Crystal Ball (1976). Até lá, para quem não é fã, aproveitem para conhecer uma discografia praticamente impecável, e para quem já é fã, deliciem-se ouvindo, dançando, batendo palmas ou simplesmente apreciando um daqueles discos essenciais na história da música pop mundial. 

Contra-capa de Paradise Theater

Track list

1. AD 1928

2. Rockin' the Paradies

3. Too Much Time On My Hands

4. Nothing Has Gone Planned

5. The Best Of Times

6. Lonely People

7. She Cares

8. Snowblind

9. Half Penny, Two Penny

10. AD 1958

11. State Street Sadie 

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