terça-feira, 28 de julho de 2026

Wapassou

Quando se fala no rock progressivo europeu, é claro que o Reino Unido é a principal fonte de matéria-prima do gênero. Com os cinco gigantes (Pink Floyd, Yes, King Crimson, Emerson Lake & Palmer e Genesis), e mais os igualmente grandiosos Van Der Graaf Generator, Renaissance, Curved Air, Gentle Giant entre outros, a ilha da Rainha (agora Rei) é com certeza o maior celeiro de bandas que imortalizaram o estilo. 

Porém, atravessando o canal da mancha, a França também disponha de bons nomes do rock progressivo, principalmente nos anos 70 e 80. É o caso de Ange, Art Zoyd, Catharsis, Malicorne e também, o Wapassou. O grupo de Estrasburgo surgiu em 1972, com uma sonoridade bastante influenciada pela psicodelia londrina, e não pelo progressivo. Porém, logo na sequência, o Wapassou criou algumas das melhores obras progressivas da França, tornando-se um dos maiores nomes do rock daquele país ao longo dos anos 70, fazendo uma mistura única e exclusiva de guitarras, violinos, teclados, vozes femininas e muitos elementos clássicos fundidos, em uma banda que não contava nem com baixista e tão pouco com um baterista. Como afirma o texto da contra-capa do primeiro disco da banda, o Wapassou não é um grupo de músicos, é o refúgio da música.

Wapassou ao vivo: Brua, Nickerl e Lichti

Venho aqui então contar a história desta bandaça, praticamente desconhecida por terras brasilis. O grupo era formado pelo trio Freddy Brua (teclados, piano, sintetizadores), Karin Nickerl (guitarras, vocais) e Jacques Lichti (violino), além de contarem com a colaboração do engenheiro de som Fernand Landmann nos equipamentos acústicos. 

O álbum de estreia

Lançado em 1973 pelo pequeno selo Prodisc Strasbourg, somente na França, Wapassou é um disco bastante exploratório dos teclados de Brua. Logo de cara, já somos surpreendidos pelas camadas de teclas e efeitos na belezura de "Mélopée", uma linda faixa instrumental, com um belíssimo arranjo de cordas, além da participação da flautista Geneviève Moerlen. Outra participação vem em "Musillusion" (Wapassou)", desta vez com o clarinete de  Jean-Jacques Bacquet, em uma faixa onde os vocais sobrepostos de Karin se destacam junto do violino. Bacquet e Moerlen estão juntos em "Châtiment", que também traz o percussionista  Jean-Michel Biger, em uma canção mais acessível dentro dos padrões musicais comuns na indústria musical, e cujos vocais sussurrados de Karin são arrepiantes, além das gigantescas camadas de teclados, do lindo tema de violino e claro, o belo solo de Moerlen.

São nas duas faixas longas do disco que podemos ver mais a fundo o que é o som do Wapassou. "Rien" é uma hipnotizante canção carregada de variações entre o órgão, piano, piano elétrico e sintetizadores, com o delicado vocal de Karin tomando conta da primeira parte da canção, e o longo e viajante solo de violino faz na segunda metade, fazendo estripulias. Já "Trip", contando com a participação de Biger e do baixo de Jean-Pierre Schaal, é uma maluquice sensacional onde os teclados e a percussão são contagiantes em toda a primeira parte, e na segunda parte, é a vez da guitarra de Karin brilhar sobre as camadas de teclados. A faixa conta ainda com a tímida participação, ao final, de Christian Laurent (Sitar) e de Benoît Moerlen (tumba), dando um ar oriental para uma grandiosa faixa. 

Compacto de "FemmesFleurs",
com "Borgia" no lado B

Wapassou foi relançado na França e no Japão em 1987, tendo recebido edições em CD na França e Coréia do Sul (1997) e no Japão (2009), assim como um lançamento em CD e LP nos Estados Unidos (2015). Após os lançamento discreto do 1º álbum,  o trio gravou e lançou o raríssimo single "Femmes-Fleurs" / "Borgia", sendo ambas as faixas instrumentais, com a primeira  dedicada para os teclados criarem uma atmosfera delirante que libera a guitarra de Nickerl para solar tímida mas envolventemente, e a segunda uma ótima faixa, na linha dos instrumentais do Deep Purple, mas com solos alternados de violino e teclados. Em ambas as faixas há a participação de um baterista, o qual não é creditado no single.

Começam 1975 com uma série de shows locais. A abertura dos shows na região Leste era feita pelo poeta-recitador alsaciano Guy Friedrichs, também empresário do grupo na região Leste, acompanhado pela banda. Em 7 de março de 1975, ele abriu o show na igreja do Christ-Ressuscité em Estrasburgo, onde o Wapassou inovou, com um verdadeiro espetáculo, tendo projeções de imagens que não havia sido visto antes na França. Destaque para o mosaico da rosácea da Catedral de Estrasburgo, cuja imagem era multiplicada ao infinito por um prisma, e projetada por toda a sala onde o trio se apresentava, obra de Gisele Landmann. 

Na mesma época, o grupo apresentou em primeira mão sua nova e ambiciosa composição "La Messe en Ré Mineur". O sonho de Freddy Brua de tocar uma obra com quase uma hora de duração, em uma igreja, se concretizava. Elaborada e trabalhada durante o verão de 1974, essa composição se estrutura em 4 movimentos (descoberta, missa em ré, nona, grande final). O grupo havia se tornado puramente instrumental.

Brua e Nickerl em estúdio

A música do Wapassou era então comparada ao krautrock alemão. Mas se por um lado ela se aproxima na forma, com sua proposta intelectual, sua repetitividade e a difusão de atmosferas, no conteúdo ela se afasta completamente por causa da ausência de facilidades nos temas, pela diversidade e beleza deles, pela evolução constante, pela escrita estruturada da música e pelo apelo ao sonho, à evasão, pelos sentimentos de plenitude, mas também de angústia e tensão que ela gera. O Wapassou desenvolve uma música original, impressionista, sugestiva, fascinante por sua beleza melódica. 

Em 14 de março, o grupo repetiu o feito na igreja de Wiesberg em Forbach, na Mosela. O repertório da banda começava então com "Musillusion", extraída do primeiro álbum, seguido pela íntegra da "Messe En Ré Mineur". O Wapassou oferecia assim uma hora e meia de espetáculo, sem encenação, apenas o show de luzes conferindo um acompanhamento e um perfeito complemento visual à apresentação. Na verdade, as projeções de imagens, cores, movimentos e vibrações sobre uma tela e sobre os próprios músicos, contribuíam para a magia e para o impacto da música. Os músicos, as imagens e as cores se fundiam em uma simbiose total.

O mestre Jaques Lichti

A formação inusitada, em trio (órgão, violino usado tanto na base rítmica quanto como solista, guitarra elétrica com função de base ou de guitarra solo, guitarra acústica e baixo), sem bateria, sem baixo, desnorteia no início, mas depois demonstra sua eficácia e convence o público pela riqueza, pela coesão e pela perfeição. Em março de 75, o grupo, que até então só tinha recebido críticas em jornais regionais, graças aos seus shows, chamou a atenção dos jornalistas franceses. A revista Best dedicou-lhe um artigo elogioso de uma página, onde o jornalista destacou essa mistura de classicismo, referências a Bach e Wagner, mas também a Riley, e o caráter romântico, místico, onírico, impressionista e sinfônico de sua música original.

Durante o verão de 1975, o Wapassou fez uma turnê pelo Sudeste da França, região do seu empresário Dominique Kihm, que, embora morasse a mais de 1000 km do grupo, se ocupava com eficiência de conseguir shows, turnês e apresentações na TV para o trio. Durante essa turnê de verão, conhecem Paul Putti, um jornalista da Rock'n'Stock e criador do selo independente Pôle, dedicado à música francesa e que tinha sua própria rede paralela de distribuição. Philippe Constantin, ex-jornalista da Rock'n'Roll, que trabalhava então para a Pathé-Marconi, também conheceu o Wapassou e se mostrou interessado pela música deles. O grupo gravou às suas próprias custas uma fita em um estúdio em Estrasburgo, na esperança de ser contratado por essa gravadora.

A talentosíssima Karin Nickerl

A Pôle propôs produzir o próximo disco, e em setembro, começam as gravações do novo álbum. Porém,  após 3 dias, problemas técnicos e financeiros levaram ao encerramento definitivo do projeto com a Pôle. Em outubro de 1975, Freddy Brua foi preso por insubmissão militar e o grupo pensou em se dissolver. No entanto, após 3 meses, Freddy, depois de ter ficado internado várias semanas em um hospital militar, foi considerado com problemas mentais e liberado de seus afazeres no exército. O grupo retomou aos poucos o caminho dos shows, mas nem tudo era festa, já que no mesmo período, descobrem que as fitas gravadas no estúdio de Estrasburgo haviam sido deterioradas, e portanto não puderam ser apresentadas à Pathé.

No entanto, mesmo com a perspectiva de ser contratado pela Pathé desaparecendo, Freddy Brua, que em 1972, aos 15 anos, havia organizado um festival em Estrasburgo com o Ange, e que havia sido apresentado no palco por Jean-Claude Pognant, do selo Arcane, fez amizade com Pognant. Eles se encontraram várias vezes em Belfort, e no fim de 1975, apresentou a Pognant uma fita do Wapassou contendo trechos da "Messe en Ré". Após ouvir, Pognant se mostrou interessado pela música deles, que, com o sucesso na França de bandas como Tangerine Dream e Popol Vuh, podia conquistar o público. Assim, desejando incluir em seu casting um grupo desse estilo de música agradável e onírica ao mesmo tempo, resolve contratá-los para o seu selo. Em dezembro de 75, o grupo se apresentou em Luxemburgo e em Frankfurt.

Wapassou e colaboradores: Michel Lacour (luzes), Jaques Lichti (violino),
Karin Nickerl (violões), Fernand Landmann (som),
Freddy Brua (teclados) e Dominique Kihm (empresário)

Em janeiro de 1976, Pognant contratou oficialmente o Wapassou para o seu selo. Em 6 de fevereiro de 1976, fazem novo concerto em outra igreja de Estrasburgo. "A Missa" havia evoluído: o grupo abandonou as longas performances individuais, condensou sua obra e reforçou assim a potência, o impacto e a grandiloquência de sua composição. Em março de 1976, as dificuldades financeiras diminuíram, a perspectiva de separação desapareceu e o grupo adquiriu um novo sistema de sonorização totalmente estereofônico, dando à sua apresentação ao vivo a qualidade sonora de um disco.

Projetada especialmente para os instrumentos, a mesa de mixagem, nas mãos de Fernand Landmann dava ao som do grupo potência, energia e amplitude, dando a sensação de que o Wapassou era composto por mais do que 3 músicos. Brua, com seu simples órgão de 3 teclados e um tecladinho minúsculo, colocado como um mini-guia de canto sobre a mesa do seu órgão, surpreendia pela multiplicidade e originalidade dos timbres produzidos, como o cravo e o órgão de igreja. Entre 10 e 20 de julho, fazem a gravação do segundo álbum, sob a direção do técnico de som Bernard Belan, e com uma mesa de 16 pistas. A mixagem foi realizada por Fernand Landmann e Frédéric Fizelson, técnicos de som do Wapassou. Já a capa foi concebida por Michael Lancour, responsável pelo show de luzes. 

O início de uma trilogia essencial

Messe En Ré Mineur chegou às lojas em novembro de 1976. Este disco é daqueles para se parar o que se está fazendo e apenas admirar a obra exalando dos sulcos do vinil. O trio aqui cria uma canção única, com um ar étereo e singular de quase 40 minutos (39'57"), somente com teclados, violão/guitarra e violino, além dos doces e belos vocais da convidada e soprano Eurydice, de apenas 17 anos, e que entrou para o grupo em abril de 1976. As mudanças nos andamentos musicais, ora com o órgão sendo destaque, ora com o violino mandando ver, ora com o violão sendo o centro das atenções, ora com os agudos arrepiantes de Eurydice, é o que faz ser a chave-mestra do som do Wapassou. 

Destaca-se o uso de efeitos no violino, com um belo solo exclusivo do instrumento ocupando um bom trecho do lado B do vinil, os intrincados arranjos das escalas na guitarra e no violão, os diversos instrumentos de teclas (órgão hammond, farfisa, mellotron, piano, sintetizadores, ...), a incansável alternância de ritmos, enfim, uma vasta imensidão de sonoridades para ser admirada e explorada por ouvidos apaixonados pelo rock progressivo, em um dos melhores discos do grupo, que certamente irá agradar fãs de Mike Oldfield. 

O lindo logo da Crypto

Lançado somente na França no formato LP, depois teve relançamentos em CD na França (1994) e Japão (1995 e 2009). Com "La Messe En Ré Mineur", o Wapassou desenvolve uma música atmosférica, ora angustiante, torturada, atormentada, ora pacífica e serena. A enormidade do som do órgão esmaga pela sua potência, acentuando o clima às vezes pesado e sombrio da composição, sublinhado pelos lamentos do violino. O órgão desenvolve uma trama rítmica hipnótica, repetitiva, encantadora, que ele quebra às vezes para introduzir uma sequência, um novo movimento até o final, momento grandioso do espetáculo, representando o apocalipse da felicidade.

Pognant, nesse meio tempo, havia rebatizado seu selo, pois o nome não havia sido registrado e um selo inglês com o mesmo nome o obrigou a mudar de nome. Ele optou por Crypto, palavra encontrada no dicionário, que significa "o sentido das palavras ocultas" e tem o mesmo número de letras que Arcane. Ele manteve seu logo gráfico com a guitarra e as pinças de escorpião, e trocou de distribuidora. Assim, o álbum foi distribuído pela RCA e recebeu uma recepção entusiasmada da imprensa e do público, que considerou esse disco como o primeiro álbum deles - Wapassou, o verdadeiro primeiro, sem distribuição oficial e já esgotado, era desconhecido dos críticos de rock. 

O gênio Freddy Brua

Freddy Brua explica que "La Messe en Ré Mineur" não passa de uma sequência de temas que foram elaborados tanto em tempos de angústia quanto em tempos de felicidade. Para ele, a sonoridade do título agradou ao grupo, mas a composição não guarda nenhum valor ou referência religiosa. "La Messe" é dominada pelo órgão, que expressa a dor, à qual se somam os lamentos da voz de Eurydice: esta obra representa a expressão da vida cheia de forças opostas: angústias e loucas felicidades ao mesmo tempo. A missa simboliza um equilíbrio de sentimentos e de estados de alma, a luta entre o bem e o mal. Para o disco, o Wapassou apresentou uma versão propositalmente mais leve, mais curta, colorida e mais aprimorada.

O público aclamou o álbum, que atingiu em poucos meses 1000 cópias vendidas, uma façanha para um grupo tão pequeno. Jean-Claude Pognant não esperava vendas como essas para um o disco, que continuou a ser vendido permanentemente até alcançar 6000 cópias em 1981. Com esse álbum, o Wapassou impôs sua música original, onírica e bela, sensível e angustiante ao mesmo tempo, de um sinfonismo precioso e envolvente, com grande riqueza harmônica e melódica, grandiosa até mesmo em suas passagens atormentadas. Um disco que iria impor esse trio como um dos grupos franceses mais promissores e mais inovadores da segunda metade dos anos 70.

Lichti, Brua, Landmann e Nickerl

Voltando no tempo, em março de 1976, o Wapassou fez uma turnê pelo Sudoeste da França, e em abril pela região parisiense. O grupo incluiu como prelúdio de "La Messe En Ré Mineur" uma nova composição, "Salammbô", inspirada no livro de Gustave Flaubert. Ao longo de 75, Freddy Brua escreveu essa peça que representa a continuação da "Missa", que celebrava a vida, enquanto "Salammbô" descreve os horrores da guerra e da morte. Já com Eurydice, sua voz clara e frágil, de grande pureza, modulava os sons e alcançava notas muito agudas, reforçando o clima solene e enfeitiçante da música do Wapassou. Em maio e junho fazem uma turnê pela Costa Azul, com shows e La Seyne, Marseille, Draguignan, Toulon, Hyères (abrindo para o Potemkine), Perpignan, Marignane, e St-Tropez (abrindo para o Caravan). 

O grupo trabalhou bastante, compondo e gravando a música de um filme ecológico sobre a sobrevivência da Camargue, destinado a escolas de ensino médio, e também o jingle do festival de Sarralbe, na Moselle, onde apresentam-se nos dias 26 e 27 de junho, e do qual participou Scorpions, Atoll e Carpe Diem. 

A dupla Nickerl e Lichti

Em julho de 1976, antes de gravarem o segundo álbum, participam do festival Le Rock d'lei, organizados pela Crypto, que incluiu outros grupos do selo: Guidon, Edmond & Clafoutis, Mona Lisa, Carpe Diem, Little Bob Story e Ange. Estava previsto que a Crypto gravasse e lançasse um álbum duplo ao vivo como lembrança dessa turnê, mas embora os shows tenham sido gravados — com exceção dos do Wapassou — por razões financeiras e técnicas o resultado não foi considerado satisfatório para um lançamento em disco. A sonorização dos shows estava a cargo de uma agência inglesa que ajustava o som para a apresentação do Ange e negligenciava completamente os outros grupos. Essa turnê, no entanto, terminou para o Wapassou no dia 9 de julho. O show previsto para St. Tropez foi proibido pela prefeitura de última hora e Dominique Kihm conseguiu em cima da hora transferi-lo para sua vila em Six-Fours Plage. A turnê da Crypto não obteve o sucesso esperado: o Magma substituiu o Ange em 2 shows. O público ainda não estava pronto para sair de casa para um festival só com grupos franceses.

Logo após o fim das sessões de gravação, o Wapassou retomou sua maratona de shows, mas Eurydice encerrou ali sua colaboração, sentindo-se nova demais para levar a vida de musicista profissional com todas as dificuldades que isso envolve. O Wapassou voltou à formação em trio e, no dia 28 de julho, tocou em Nice, e depois continuou em turnê por toda a França no outono. O show deles incluía agora "Salammbô" e "La Messe En Ré" e durava quase duas horas, mas atraindo um público muito pequeno.

O excepcional Salammbô

Com muitos problemas financeiros, "Salammbô" só foi ganhar vida em setembro de 1977. Este é o disco que me apresentou ao som do Wapassou, e é um álbum muito soturno. Baseado na obra de Gustave Flaubert, lançado originalmente em 1862, e que trata sobre a queda de Cartago, na Tunísia, segundo o próprio Flaubert, lhe causou "angústia que me sacudia como um oceano de imundície". O texto no encarte mostra que a história é pesada, com "forças obscuras que se apoderam do homem, levando-o a infligir sofrimento, sofrer, amar e morrer, a amar e matar. Confrontos de forças, carnificina, ossuário e apodrecimento". A faixa de 37 minutos traz logo de cara o piano, as vocalizações de Monique Fizelson e as falas nazistas mostram que o tema da morte irá permear o que sairá das caixas de som. Musicalmente, a peça é concentrada inicialmente nos teclados de Brua, com pouca ou mínima participação do violino e do violão, principalmente em comparação a Messe en Ré Mineur

Em uma segunda etapa, o órgão e o violino são os instrumentos que criam as atmosferas dramáticas e sombrias da suíte, onde sintetizadores e efeitos também brilham. A terceira etapa finalmente traz o violão, com camadas de teclados, órgão e uma leveza singular. O trecho onde a guitarra e o violino são os instrumentos principais é dramático, encantador, e de arrancar lágrimas até de seu animal de estimação. A canção vai se desenvolvendo criando uma trilha sonora perfeita para o livro, acompanhando os movimentos do romance em sua marcha incessante rumo à destruição de Cartago, com cada instrumento ganhando seu espaço, sempre acompanhado por longas e sinistras camadas de teclados, culminando com o fulminante solo de teclado sobre um ritmo espetacular do violão e do violino - imagino uma percussão aqui, ficaria mais que perfeito. A faixa encerra-se com barulhos que parecem de um coração de um feto, dando a ideia de que a vida será continuada, apesar da destruição, ou, como consta no encarte (em latim, francês, japonês e em inglês): "isto faz claro que a força não resolve nada, que isto não é um fim, mas somente um meio execrável". 

A linda arte da capa, obra de Gustave Dore, dá um caráter ainda mais especial para um disco impactante, que prefiro a definição de Claude Roynette, na contra-capa do álbum: "Uma contemplação mórbida da morte para impressionar a burguesia? Um sonho de paz, por que não?".

Lichti, Gisele Landmann (luz), Brua, Nickerl e Fernand Landmann (som)

O lançamento de Salammbô foi seguido por uma turnê promocional de 8 dias pelo sudeste francês, que começou no dia 24 de janeiro de 1978 em Avignon, e terminou em Béziers no dia 31 de janeiro. O Wapassou interpretava "Salammbô", mas também trechos do 3º ato do seu tríptico, intitulado "Ludwig II", composto durante o ano de 77. Freddy Brua tinha escolhido essa figura histórica, um rei louco e protetor das artes, para ilustrar o 3º tema e a 3ª pintura filosófico-musical da sua trilogia. Para Brua, "esta obra representa uma homenagem à arte em geral e uma visão da eternidade através da arte. Como representar a eternidade de maneira mais bela do que pela arte? Mesmo após o fim do mundo, o que restará do homem é a sua arte. As civilizações hoje desaparecidas subsistem essencialmente pela sua arte". Para Brua, o maior protetor da arte se revelava ser Ludwig II..

Sobre esse personagem enigmático e controverso, Freddy Brua declara: "Para mim, Ludwig não era louco. Ele era um visionário e um profeta. Ele foi a origem de toda a nova cultura contemporânea. Era também um grande romântico. Eu afirmo que Ludwig II era um grande rei pacífico porque sempre preferiu a arte à guerra. Para nós, Ludwig se identifica com os heróis da Idade Média. Sua maior realização é a sua morte, e os heróis não morrem de velhice. Sua morte permanecerá para a eternidade como um mistério. É por isso que, em vez de lhe dedicar um hino fúnebre, escrevemos um hino cheio de vida". Agora, durante as apresentações, contando com a colaboração novamente de Gisele Landmann, o show de luzes exibe, além de slides de imagens de catedrais, gravuras de Gustave Doré e imagens do castelo de Neuschwanstein, o castelo de Ludwig II.

Gisele, Freddy, Karin, Jacques e Fernand

Em maio de 1978, o Wapassou participou de um novo festival organizado pela Crypto, desta vez em Paris. Intitulado Espace Rock, o festival aconteceu no Espace Cardin e Jean-Claude Pognant apresentou toda a sua equipe, agora bem diversificada. Na sexta-feira, dia 26, o Wapassou encerrou a semana com Michel Moulinié na abertura. Apesar dessa escolha estratégica pela capital, o festival foi um meio-fracasso, devido à quase ausência de cartazes anunciando o evento. O grupo continuou sua jornada, cruzando a França de ponta a ponta, graças aos shows conseguidos por Dominique Kihm.

Voltam para Estrasburgo, e no estúdio Omega de Francis Adam, durante um período de 10 dias em novembro de 1978, fazem a gravação do quarto álbum. O próprio Francis Adam fez a captação de som. Freddy Brua se mostrou muito satisfeito com o trabalho de estúdio, considerando a gravação sem aproximações e sem defeitos. No álbum, Véronique, irmã de Karin, participa nos vocais, assim como Marc Dolisi, irmão de um amigo jornalista da FR3 Alsace, que tocou sintetizador em "L'adieu Au Roi". 

O encerramento da trilogia essencial do Wapassou

Com a presença de Gisele Landmann e Fernand Landmann na contra-capa, Ludwig (Un Roi Pour L'Eternite)  encerra a trilogia em alto nível. Lançado em julho de 1979, aqui Brua, Nickerl e Lichti criam uma peça de 34 minutos que consegue extrair exatamente o que o álbum propõe, a eternidade. A primeira parte da canção é destacada pela presença dos diversos teclados de Brua (órgão, sinclavier, piano elétrico, sintetizadores), com uma sutil participação do violino e do violão na base, inicialmente de forma leve, quase como uma valsa, e depois mais pesado, onde a guitarra também sola entre as inúmeras camadas de teclados. A mudança com a entrada do violino e dos sintetizadores dá um ânimo diferente para a canção, ainda mais pesada, com um riff marcante, e Brua usando e abusando dos teclados (moog, cravo, sintetizadores, hammond ...). 

A sequência da suíte, ao longo do lado B, dá mais espaço para a guitarra - com um interessante uso do wah-wah - e o violino, com um ritmo que lembra as grandes danças das cortes francesas, mas ao mesmo tempo, novamente chama a atenção a abundância de teclados que brotam na suíte. Tem-se ainda uma revisão de "Lac de Starnberg - 1886" (Richard Wagner), com somente o violino fazendo o tema da canção sob barulhos de água, e a curtinha "L'adieu Au Roi", tendo os belos vocais de Véronique Nickerl e os sintetizadores de Marc Dolisi. Aqui vale lembrar a parte histórica da relação - homossexual? - entre o rei Louis e Richard Wagner, sendo que o rei foi o responsável por salvar a vida financeira de Wagner, levando-o a morar justamente no lago de Starnberg, local onde o próprio rei veio a falecer afogado anos depois. 

Fernand e Gisele (abaixo), presentes na contra-capa de Ludwig
Brua, Karin e Lichti (acima)

O disco apresenta uma música cheia de beleza serena e grandiosa, com pureza cristalina, com contrastes bem-sucedidos entre os timbres — órgão, cravo — e uma perfeita sintonia musical entre os instrumentos, cada um contribuindo para construir esta obra. No final do lado A, uma voz canta em alemão que Ludwig é o rei do mundo, mas não um deus. No lado B, a música conta a morte de Ludwig e explode em beleza. Um esplêndido solo de violino em "Le Lac de Starnberg" — que empresta três compassos do 'Parsifal' de Wagner — se eleva e a noite cai sobre o lago quando o rei morre. Uma criança caminha e ouvem-se os respingos da água. A criança anuncia ao mundo a morte de Luís II da Baviera, mas o fim e a despedida do rei não são tristes. A eternidade começa com a voz, e depois cada instrument. Freddy declara sobre Ludwig que este é o disco onde "o grupo colocou mais amor e paixão". O disco é apresentado como uma obra-prima do novo romantismo ou da música clássica do ano 2000, e a versão em CD, lançada somente em 1994, ainda traz "Hymne Au Nouveau Romantisme"

Freddy Brua, na época do lançamento de Ludwig, informou que o grupo iria se dedicar agora a uma nova obra cujo tema, a intolerância, seria ilustrado por Torquemada, monge espanhol da inquisição, que enviou mais de 10000 pessoas para a fogueira. Através dessa obra, Brua pretendia combater "todas as formas estúpidas de estupidez, da religião. Além disso, ele anunciou a realização de um álbum solo intitulado F Comme Fidélit.

No dia 2 de dezembro, o Wapassou se apresentou como atração principal na Taverne de l'Olympia, no subsolo desse famoso local. Em 1979, o grupo continuou em turnê, apesar do declínio do rock progressivo e do surgimento da new wave e do rock simplista francês no estilo do Telephone. Em maio de 79, o Wapassou apresentou seu álbum no programa noturno de Gonzague St-Bris na Europe 1, dedicado a ouvir os ouvintes carentes de confissões. Se definindo ele mesmo como um novo romântico e apreciando a música deles, ele pediu ao grupo que compusesse uma vinheta para seu programa. O grupo gravou a citada "Hymne Au Nouveau Romantisme" no estúdio de Francis Adam e a propôs a Gonzague. Ele se entusiasmou com a faixa, mas exigiu que fosse creditado como seu autor. Freddy Brua recusou e a faixa ficou inédita até a chegada em CD, e é uma faixa de excelente qualidade, trazendo a participação de uma bateria, indicando o novo som que a banda iria fazer na sequência.

O grupo enfrentava muitas dificuldades para viver de sua música, apesar dos numerosos shows por toda a França. As despesas com deslocamento, o público escasso, o cachê pequeno, o reembolso dos equipamentos e instrumentos comprados, pesavam no orçamento e afetavam seu moral. Eles queriam se fortalecer, incluindo em definitivo um baterista e um flautista, mas a situação não permitia. Mesmo que o grupo obtivesse um certo sucesso, sua música continuava restrita a um público mais entendido. Por isso, em julho de 1979, decidiu modernizar e renovar o som da banda ao acrescentar um baterista, dando à sua música uma base rítmica mais convencional e mais energética. Freddy Brua explicou essa mudança pelo fato de que não conseguia convencer os amantes de música clássica a ouvir a música deles por causa dos preconceitos ligados à apresentação física, com seus cabelos longos e suas calças jeans. Da mesma forma, tinha sido impossível conciliar e atrair os dois públicos, muito sectários.

Ele recrutou o baterista Guy Heller e, decidiu batizar essa nova formação de Wapassou 2. O grupo retomou suas turnês apresentando sua música, agora batizada de neo-romântica ou de rock-pop sinfônico, interpretando novas faixas como "Torquemada" e "Hymne au Nouveau Romantisme". O espetáculo visual ainda se baseava na combinação e fusão de jogos de luzes e cores e na exibição de naves imensas de catedrais, de rostos medievais, de imagens de demônios de vitrais, e também de fotos do castelo de Ludwig II.

Em janeiro de 1980, Guy Heller deixou o grupo e entrou para o Tangerine. Ele foi substituído por um baterista apelidado de Tchouk, mas este, muito envolvido com drogas, foi preso e o Wapassou o substituiu pelo sarrebourguense Francis Gentel. Em março de 80, quando o grupo comemorava seus sete anos de existência, Freddy Brua abandona os projetos grandiosos, as suítes intermináveis, muito longas e complexas demais para tocar no rádio, e oferece ao público uma música mais rítmica, mais fácil e composta por faixas curtas e comerciais. Surgem faixas mais dançantes, até mesmo disco, buscando emplacar um hit. 

Do projeto planejado, dedicado a Torquemada, esse monge da Inquisição, que deveria ser o personagem e o conceito do novo álbum, restou apenas uma faixa dedicada a ele. O grupo procurou uma cantora, e após um breve período com Christine Maillard, Joëlle Kopf foi a escolhida. Com 20 anos, recrutada por um anúncio dizendo que um grupo pop procurava com urgência uma cantora para a gravação de um disco, ela entrou para o Wapassou em junho de 1980. Ela aprendeu a colocar sua voz rouca e velada, às vezes cristalina, e ensaiou intensamente as novas músicas do grupo, que traziam letras em francês e inglês. Ela teve pouco tempo para se adaptar e assimilar o novo repertório, pois o Wapassou já havia reservado para julho o estúdio alemão Möhrensound, perto de Nuremberg. O álbum foi auto-produzido, e a gravação foi feita em 24 pistas. Marc Dolisi fez os arranjos dos temas. Claude Laurent foi o autor dos textos em inglês, enquanto Freddy ficou responsável pelos em francês. O pianista e tecladista Marc Dolisi participou como convidado, assim como Charly Kolb no trompete em uma faixa.

Genuine, uma nova sonoridade para o Wapassou

Gravado nos estúdios Möhrensound, em Möhrendorf, Alemanha, Genuine acabou sendo distribuído somente na França, e o sonho de conquistar novos mercados acabou naufragando. O som é totalmente diferente do que foi ouvido nos discos anteriores. A única faixa instrumental é a épica "Torquemada", com seus mais de 11 minutos, com certeza a melhor canção do álbum, com os teclados brilhando, além de um belo destaque para a guitarra de Karin aqui, que comanda o ritmo de um solo bastante rock. Mas nas variações da canção, o seu andamento arrastado é o que sobressai, permitindo que violino e teclados solem com uma lindeza tipicamente Wapassou, o que ganhou muito com a presença do baixo e da bateria. As vocalizações sutis de Christine, duelando com o violino, são arrepiantes, e a presença dos fantasmagóricos sintetizadores e moog de Brua mostram que o Wapassou ainda tinha muito para criar no progressivo, ainda mais com a presença da bateria. Uma música fantástica! 

Porém, ao longo de Genuine, o que temos é uma banda muito diferente do que se podia imaginar. Logo de cara, "L'Etranges" apresenta os vocais de Christine e a bateria de Francis, com um som que lembra uma espécie de Blondie francês, bastante voltado para a New Age, onde o violino é um dos poucos momentos que lembram o velho Wapassou. As experimentações eletrônicas, numa mistura de New Wave com Synth Pop e disco music, seguem na faixa-título e "Phenyx Ode", essa em especial com um bom ritmo percussivo e uma maior presença dos teclados e do violino, mas confesso que os vocais exagerados de Christine, parecendo uma mistura de Nina Hagen com Cindy Lauper, só que francesa, não me agradam. Por outro lado, há bonitas canções através de "Late Revenge" e "Quien Sabe", essa com a presença do trompete de Charly Kolb, nas quais os vocais franceses de Christine trazem um bom e gostoso charme na audição. Por fim, "Concertino", uma bonita canção onde Christine faz vocalizações acompanhando os solos de teclados e violino, chamando a atenção a participação de Karin no baixo, algo que também ocorrer nas demais canções. No geral, é impressionante como o grupo mudou totalmente sua sonoridade, e virou algo realmente estranho para quem conhecia os discos anteriores, com exceção de "Torquemada", uma das grandes faixas da banda sem sombra de dúvidas. 

Single de "L'etranger"

O segundo single do Wapassou sai daqui, "L'Etranger" / "Phenyx Ode". Christine Maillard deixou o grupo e foi substituída por Bettina. Em fevereiro de 1981, Freddy Brua foi ao Midem para tentar vender Genuine, mas lá, dedicado unicamente às músicas da moda e comerciais, Freddy não encontrou nenhuma gravadora interessada em comprar seu disco para o exterior. Ele voltou para Estrasburgo, desiludido, enojado com o show business e com a atitude da mídia, indiferente à sua música, considerada pouco comercial. Ele declarou que "preferia morrer em beleza com sua música a ceder as chantagens de personagens que se acham influentes". Anunciou então que o próximo álbum se chamaria Pax (Paz), como aquela que faz viver "meu coração e meu espírito hoje". 

O grupo seguiu em turnê pela França e alguns países da Europa, anunciando o fim em 1983. Freddy Brua montou um estúdio em Estrasburgo em 1983 com o nome de RBO (Rock Belles Oreilles). Nickerl ficou a cargo da produção. Mas, depois de anos de silêncio, o Wapassou se "reformou" em torno do núcleo inicial, com Dominique Metz na bateria e dois convidados nos vocais. Essa nova formação gravou no estúdio de Brua um disco sob o nome de Wapassou 2001. Assim como Genuine, tratava-se de mais uma tentativa de se impor junto ao grande público.

O canto dos cisnes do Wapassou

Orchestra 2001 - Le Lac D'argent tem na formação Lichti, Brua e Karin, agora efetivada somente ao baixo, e mais Dominique Metz (bateria), Rémy Weiss (guitarras) e a dupla vocal Patrick Alès e Silvia B, a qual faz lindas vocalizações durante a bonita "Ode Au Matin" e também na belíssima "Introduction Pour Un Reve", aqui dando um belo show vocal, lembrando muito Annie Haslam em seus agudos. A única canção com letras tem Silvia nos vocais, e é a leve "Lac D'argent", que novamente, lembra um pouco Renaissance do fim dos anos 70, início dos 80, sendo forte candidata a melhor do disco, ainda mais com o solo de guitarra muito legal na segunda metade da canção, que é a única também a ultrapassar seis minutos. No mais, as canções apresentam vocalizações bem encaixadas harmonicamente com o instrumental, e no geral, são curtas, mal chegando a cinco minutos de duração.

O álbum representa bem a sonoridade dos anos 80, como mostram "Kingston Opera", a mais fraquinha do disco, e a boa "Jericho", onde os sintetizadores modernosos e o baixão de Karin são as principais atrações. Na mesma linha, estão "Printemps De Paix" e "Orchestra 2001", ambas com sintetizadores em voga, tendo andamentos mais suaves, um interessante arranjo vocal na primeira, na qual conferimos melhor quem é Patrick Alès, e bons solos de guitarra na segunda. Destaque também para a bela "Ballade Pour Gwendoline", uma linda canção com o brilho do violino elétrico. Um álbum bem melhor que Genuine, e que encerra com dignidade a carreira do Wapassou.

sábado, 18 de julho de 2026

Ronnie Von - Ronnie Von [1972]


De um fracasso retumbante no final dos anos 60 a um sucesso cult extraordinário anos depois, Ronnie Von foi obrigado a modificar sua carreira musical diversas vezes. E em uma delas, ele foi tão audacioso quanto sua Trilogia Psicodélica. Com produção de Arnaldo Saccomani, Ronnie Von é - mais um - disco revolucionário na carreira de Ronnie. 

Ronnie em 1972. Tentando voltar ao sucesso?

Muito se fala da famosa Trilogia de Ronnie, a qual, no final dos anos 60, chocou os (e principalmente as) fãs do Pequeno Príncipe. Os discos Ronnie Von (1969),  A Misteriosa Luta do Reino de Parassempre contra o Império de Nuncamais (1969) e A Máquina Voadora (1970) tornaram-se célebres álbuns cult dentro da discografia do niteroiense Ronaldo Lindenberg Von Schilgen Cintra Nogueira, o nosso querido aniversariante (completou ontem, 17 de julho, 82 anos) Ronnie Von, por mudar uma sonoridade ligada ao rock juvenil e ingênuo de seus três primeiros discos, e mostrar uma lisergia, rancor e raivas até então nunca antes ouvida em discos de grandes artistas nacionais. 

Não mesmo. Ronnie ainda desafiou os fãs com uma obra incrível e anti-católica

A Trilogia Psicodélica levou Ronnie do sucesso ao ostracismo em apenas dois anos, vendendo quase nada e tornando os discos originais de época verdadeiras relíquias nas mãos de colecionadores com o passar dos anos, além de virar material de consulta para fãs e admiradores do rock nacional. As capas alucinógenas ajudaram ainda mais a afastar os conservadores seguidores de Ronnie, e hoje, felizmente, os três álbuns passaram a serem reconhecidos como alguns dos melhores lançamentos de rock nacional na história. 

Mas, no início da década de 70, a pressão da gravadora Polydor para que ele voltasse a fabricar um disco que vendesse era enorme. Eis que em 1970, Ronnie teve um contato mais próximo com o espetacular músico Tony Osanah. O ex-líder dos Beat Boys, famoso por acompanhar Caetano Veloso no álbum de estreia solo do baiano (1967), estava envolvido com a cultura afro-brasileira, principalmente do ponto de vista religioso e a umbanda. Nela, ele conheceu a história de um orixá que cuidava das matas e do verde, Oxóssi, e que segundo o próprio Osanah, o inspirou para criar uma "canção que surgiu inesperadamente, ao dedilhar o violão e ter ela pronta em cinco minutos". 

“Minha Gente Amiga” (acima) e “Hei Amigo” (abaixo),
compactos de Ronnie em 1971, indicando a sonoridade que iria vir em 1972

Ao longo de 1971, Ronnie pensava em como retomar a carreira, e para isso, lançou os compactos "Minha Gente Amiga"/"Segundo Motivo" (a mesma "Minha Gente Amiga" que foi regravada pelo Ira! em 1999) e "Hei Amigo"/"É Preciso Aprender", as quatro canções compostas ao lado de Antonio Pedro, apelidado San Martin. Musicalmente, o som traz um Ronnie mais ligado à musica latina, que irá ser ampliado no trabalho de 1972. Estas canções trazem a presença marcante de percussões na linha de grupos como Santana, com apenas "Segundo Motivo" sendo uma balada lindíssima, que lembra os primeiros trabalhos do cantor. Destacam-se aqui os vocais rasgados de Ronnie, algo bem diferente do estilo que ele cantava em seus trabalhos anteriores, além da presença de guitarras lisérgicas/californianas e um hammond endiabrado nas quatro canções. 

Cartaz de divulgação do filme (acima); Ronnie e Marlene França (abaixo),
em cena de Janaína, A Virgem Proibida

Ao mesmo tempo que lançava os dois compactos, Ronnie investiu no cinema. Assim, no final do ano, e início do ano seguinte, participa como ator do filme A Virgem Proibida, de Olivier Perroy. Lançado em 1972, nele Ronnie faz o papel de um artista de sucesso, Ricky Ricardo, o qual decide abandonar a carreira, atormentado pela vida desenfreada dos grandes centros e do convívio com os fãs. Assim, ele foge para as paradisíacas praias de Salvador. Lá, ele acaba se apaixonando por Janaína (Marlene França), uma linda mulher que no fundo é Yemanjá. O filme traz inspirações na cultura afro-brasileira, e uma das canções presentes na trilha do mesmo é "Cavaleiro de Aruanda", a célebre canção de Tony Osanah.

Tony Osanah, o gênio por trás de “Cavaleiro de Aruanda”

A canção surgiu em fevereiro de 1972, quando Osanah teve um inesperado encontro na calçada em frente ao antigo prédio do Mappin, na Praça Ramos de Azevedo, centro de São Paulo. Naquele dia, ele esbarrou em um desconhecido, que "... olhou pra mim e falou que eu precisava de ajuda. Ele parecia um velho índio. Pediu para eu acompanhá-lo e disse que eu nem imaginaria o que ia acontecer na minha vida nos próximos meses". O homem era um pai-de-santo, e levou Osanah para um terreiro. Lá, ele teve uma experiência que até hoje não consegue descrever, mas que quando o músico argentino voltou para casa, "recebeu" a letra e a melodia de "Cavaleiro de Aruanda", sendo que ele afirma que "ela foi psicografada para mim"

Enquanto Osanah tinha seus encontros espirituais, o produtor Arnaldo Saccomani sugeriu a Ronnie buscar auxílio em nomes como o de Tony, e no encontro dos dois, perguntando para Tony se ele poderia colaborar no próximo trabalho, a primeira música a ser apresentada foi "Cavaleiro de Aruanda", que sai na trilha do filme, e também é lançada no raro compacto com . Começava ali a criação de outro disco fantástico na carreira do Pequeno Princípe.

Single de “Cavaleiro de Aruanda”

Ronnie Von chegou às lojas na segunda metade de 1972, e abre com "Cavaleiro de Aruanda". O ritmo percussivo avassalador e a guitarra lisérgica de Osanah nos remetem fácil ao Santana de início de carreira. A bateria e as percussões comandam o ritmo, e Ronnie gasta sua voz, acompanhado por um excelente backing vocal feminino, enaltecendo o cavaleiro do mundo espiritual da umbanda. Quem esperava que Ronnie voltaria calmo, com canções românticas para reconquistar seus fãs, logo de cara vê mais um grande desafio e provocação para seu público com as religiões africanas, e ainda, fazendo uma crítica à Igreja Católica e seus preconceitos.

"Hare Krishna" é mais uma canção com temática religiosa, dessa vez, composta por Ronnie e San Martin. Ronnie estava influenciado por George Harrison, bem como as decepções do beatle com Maharishi, e obcecado lendo Baghavad Gita e O Livro dos Vedas. A letra também afronta o catolicismo "salve o mundo de muitos deuses", e a canção traz os vocais femininos exageradamente gritados, baseada em apenas dois acordes, com um ritmo latino das percussões retomando "Minha Gente Amiga" e "Hei Amigo", onde a guitarra de Osanah é o que brilha. As percussões também estão presentes em "Camping", um rockaço no qual Ronnie está cantando com sua voz bastante rouca e rasgada, em um ritmo que lembra algo do Captain Beyond de Sufficiently Breathless

Compacto angolano de “Aquela mesma Canção”

A dupla Ronnie e San Martin faz a baladinha "Aquela Mesma Canção", essa fácil fácil a mais comercial do disco, que poderia estar nos primeiros discos de Ronnie, assim como "Tereza Cristina", faixa de amor criada por Arnaldo Saccomani para sua namorada, recheada pelo arranjo orquestral de Briamonte. 

De Ronnie e San Martin temos também a jazzística "Eu Era Humano E Não Sabia", outra com a orquestra sendo uma atração a parte, assim como a linha de baixo e o piano. Ronnie novamente está cantando muito, e a guitarra de Osanah brilha fazendo os acordes bases. "Roke Pros Meus Nervos (Nada Neste Mundo)" é uma faixa que me lembra muito o que O Peso faria anos depois no álbum Em Busca Do Tempo Perdido, com aquela pegada Stones no instrumental, e os vocais rasgados e roucos de Ronnie. 

De Eduardo Araújo e Marcos Durães, Ronnie grava "Veja Com Olhos De Ver", um rock com um riff pesado - sim, Eduardo Araújo também teve sua fase roqueira - onde a guitarra de Osanah e o baixo (seria de Willy Verdaguer?), fazem as bases para Ronnie soltar a voz. Essa faixa é carregada de emoção, seja pelos vocais arrebatadores de Ronnie, seja pelos vocais femininos, seja pelo refrão poderoso, pesadíssimo, ou seja pelo quarteto baixo, bateria, piano e guitarra. As alternâncias de andamento são fenomenais. Preste atenção no que Ronnie faz com sua voz na segunda parte, indo de graves à falsetes. E cara, que refrão massa. Uma das melhores canções registradas pelo cantor, cujo final me lembra muito o que o Deep Purple faria depois em "Mistreated". Pena não saber quem é o baterista aqui, pois o cara demole!

Single de “Tempo de Acordar”

Outra que Ronnie está cantando pra caramba é na dolorida balada "E Essa Gente Passa Cantando", uma fabulosa canção, com um arranjo orquestral fenomenal, um arrepiante vocal de apoio, e Ronnie cantando a la Joe Cocker, rasgando sua voz, em gritos dilacerantes. Que música! 

Retomando o lado comercial, Ronnie traz uma boa versão para "I'll Cry My Heart Out For You", batizada de "Tempo de Acordar". A faixa, original de Neil Lancaster e Cliff Corbertt, destaca o piano e uma bela interpretação de Ronnie, além do fantástico arranjo orquestral de José Briamonte. Por fim, aprecie o lado zeppeliano dos violões e da flauta na lindíssima "Céu Vermelho", e ainda, para fechar o álbum, tem mais um rockaço, "Ninguém Vai Me Segurar", embaladão, com um ótimo ritmo de baixo e bateria, e o piano saltando nas caixas de som, lembrando algo de Chicago, porém sem naipe de metais. 

Single português de "Aquela mesma Canção"

Além de "Cavaleiro de Aruanda", tendo "Tereza Cristina" no lado B e que saiu também em Portugal e no Uruguai, foram lançados os compactos de "Tempo de Acordar" (com "Aquela Mesma Sensação" no lado B), somente no Brasil, e em Portugal e Angola, o compacto "Aquela Mesma Canção", com "Ninguém Vai Me Segurar" no lado B. 

Ronnie Von foi um dos discos mais vendidos no Brasil em 1972 (estima-se que em torno de 100 mil cópias, algo que na época, era considerado um excelente número), puxado pelo sucesso de "Cavaleiro de Aruanda", mas acabou caindo no esquecimento com o passar do tempo. O álbum originalmente teria uma capa gatefold, mas acabou saindo em capa simples, com a imagem da gatefold original vindo em um pôster que acompanha o vinil (raríssimo hoje em dia). 

Ronnie em capa de revista de 1971 (acima) e
O gênio Tony Osanah (abaixo)

Após Ronnie Von, a vida de Osanah sofreu uma reviravolta. Ele relata: "Eu vivia sempre tentando alguma coisa nas gravadoras. Era muito jovem, já casado e despreocupado". Logo depois ele fez parte da banda de apoio dos Secos & Molhados, e então, fama e dinheiro entraram na vida do rapaz. Já Ronnie ainda lançaria mais um disco conturbado - e fantástico -, Ronnie Von (1973), antes de entrar de vez no mercado comercial de canções românticas e populares, indo então a naufragar sua carreira musical nos anos 80. 

Apesar do próprio Ronnie considerar um disco abaixo da trilogia psicodélica, eu discordo bastante. Ronnie Von tornou-se obscurecido pela grandiosidade e a busca pelo fenômeno cult de seus três antecessores, mas merece sim no mínimo (se não mais) o mesmo status que eles. Se você não conhece a obra de Ronnie Von entre 1969 e 1973, corra atrás para descobrir algo incrível e único lançado no país. Agora, se você nunca ouviu Ronnie Von, seja por preconceito, seja por puro desprezo, você não sabe o que está perdendo.

Pôster, com a imagem projetada para ser a capa gatefold (acima)
 e a Contra-capa do vinil (abaixo)

Track list

1. Cavaleiro De Aruanda

2. Tempo De Acordar (I'll Cry My Heart Out For You)

3. Veja Com Olhos De Ver

4. Eu Era Humano E Não Sabia

5. Camping

6. Aquela Mesma Canção

7. E Essa Gente Passa Cantando

8. Hare Krishna

9. Tereza Christina

10. Rock Pros Meus Nervos (Nada Neste Mundo)

11. Céu Vermelho

12. Ninguém Vai Me Segurar

quarta-feira, 8 de julho de 2026

45 Anos de Paradise Theater


As efemérides relacionadas ao Styx são bem interessantes no quesito número 6. Dois de seus principais discos completam 50 e 45 anos, respectivamente, em 2026 (e um deles ainda envolve 1996, um ano crucial na história dos estadunidenses de Chicago). Estou falando de Crystal Ball e Paradise Theatre. Hoje, trago a história do segundo, o qual já completou sua efeméride em janeiro, como veremos adiante, deixando para daqui alguns meses a importância dos 50 anos de Crystal Ball.

Styx em 1981. Da esquerda para direita:
Dennis De Young, James “JY” Young, Tommy Shaw, John Panozzo e Chuck Panozzo

O Styx havia lançado Cornerstone em 1979, quarto álbum (nono na carreira dos caras) de uma sequência impecável que consolidou aquela que é considerada a formação clássica, com Dennis DeYoung (vocais, teclados, piano), James "JY" Young (vocais, guitarras), Tommy Shaw (vocais, guitarras, vocoder), e os irmãos gêmeos Chuck Panozzo (baixo, pedal bass) e John Panozzo (bateria, percussão). O álbum trouxe o mega-hit "Babe", responsável por colocar o Styx na segunda posição em vendas nos charts da Billboard, onde permaneceu por 60 semanas.

Porém, o sucesso de "Babe" fez com que o ego de DeYoung, compositor e cantor da canção, inflasse, pressionando por uma direção mais comercial para o som do grupo, enquanto Shaw e Young queriam manter o som mais ligado ao hard/prog de álbuns como Crystal Ball e The Grand Illusion. Durante a turnê de promoção de Cornerstone, a guerra sobre a direção musical só aumentou, até que no início de 1980, o mundo foi surpreendido pela demissão de DeYoung, após uma discussão acirrada entre ele e Shaw sobre qual deveria ser o segundo single de Cornerstone, no caso a balada "First Time" (defendida por DeYoung) ou o rock "Why Me" (defendida por Shaw, que ameaçou sair se "First Time" fosse lançada). A gravadora do quinteto, a A&M, preferiu não perder Shaw, e com isso, DeYoung foi demitido (ou pediu demissão, uma história até hoje controversa). No entanto, em pouco tempo o restante do Styx voltou atrás, e chamou novamente DeYoung para fazer parte do quinteto. Com isso, e com DeYoung cada vez mais líder absoluto do Styx, o grupo vinha dividido para o seu quinto álbum com esta formação (e o décimo na discografia). 

O Teatro que deu nome e inspiração ao álbum de 1981

Ao mesmo tempo, os Estados Unidos estavam passando por uma grande depressão econômica, e ainda o período eleitoral que elegeu Ronald Reagan como seu 40° presidente. Isto tudo abalava DeYoung, que sempre foi um apaixonado por seu país. Eis que um belo dia, caminhando por uma galeria de artes, DeYoung se deparou com a serigrafia de Robert Addison, a qual retratava o Paradise, um teatro de Chicago, localizado na 231 N. Pulaski Road, 60624, inaugurado em 1928 com muita opulência e festividade, tido como um dos maiores teatros do mundo. Mas, durante os anos 30, com a chegada do cinema falado e posteriormente da TV, começou sua decadência, já que o teatro não havia sido projetado para ter uma acústica grandiosa como a das telas do cinema. O Teatro ainda sobreviveu por mais alguns anos, abrigando todos os tipos de mal encarados, mendigos, prostitutas e negócios ilícitos, até ser fechado em 1956 (olha a efeméride) por abandono, e totalmente demolido em 7 de julho de 1958 (há exatos 68 anos).

Ao ver a arte do teatro em ruínas, com a frase estampada “Closed Indefinitely”, DeYoung imaginou que aquilo seria a metáfora perfeita para os Estados Unidos de 1980, e sentiu-se livre para criar uma obra conceitual e ao mesmo crítica. Em suas palavras: “o álbum traz um conceito de esperança e renovação no espírito do povo americano para compreender os problemas que o mundo e este país enfrentam, e encontrar soluções para esses problemas por si mesmos. Não dependa de heróis para fazer o que você deve fazer por si mesmo. Se você odeia seu trabalho, mas tem um sonho, então corra atrás dele. Só não fique sentado reclamando.” Ele segue, com a frase que usou em todos os shows da turnê de Paradise Theater: “a origem deste disco foi em 1975, quando todo mundo, TV, rádios, jornais, um ano antes de acontecer (n. r. 4 de julho de 1976) estavam estampando com orgulho o bicentenário de nossa independência. Ali surgiu algo em minha mente, que coloquei em palavras em ‘Suite Madame Blue’, do Equinox“. A história tem um paralelo, portanto, entre o que ocorreu com o Teatro e o que ocorreu com o povo estadunidense, com cada música fazendo alusão direta ao Teatro, mas implicitamente, contando a história do período pós-Segunda Guerra no país até 1980 (um período exato de 30 anos).

A arte que inspirou a criação de Paradise Theater

Contextualizando, depois da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos viveram um auge econômico que durou toda a década de 50 e boa parte dos anos 60. Porém, escândalos como os do governo Nixon, o assassinato de John Kennedy, a guerra do Vietnã, entre outros, levaram o país a uma decadência terrível. Em 1980, a inflação estadunidense era de 13,5% ao ano, levando à chamada Crise do Petróleo, com muitos postos ficando sem o combustível. Além disso, somente em 1980, o desemprego saltou de 7,5% para 10,8%, isso em pouco mais de seis meses, com cidades gigantes como Chicago, Detroit, Cleveland e até mesmo Seattle a fechar fábricas e perder população. Por fim, a eleição de 1980 (citada no início do texto) foi entre o democrata Jimmy Carter, então presidente dos Estados Unidos, e o ator republicano Ronald Reagan, o que causava uma sensação de desesperança ainda maior entre o povo estadunidense (o que no Brasil alguns diriam ser “uma escolha difícil”), com Reagan tomando posse em 20 de janeiro de 1981.

Um dia antes, em 19 de janeiro de 1981, chegava às lojas Paradise Theater, a sensacional obra metafórica de Dennis DeYoung e Styx para criticar seu próprio país.  Para criar tal obra, DeYoung trouxe músicos extras, empregando um naipe de metais chamado de Hangalator Horn Section, composto por Steve Eisen (saxofone), Bill Simpson (saxofones), Mike Halpin (trombone), John Haynor (trombone),  Dan Barber (trompete), Mark Ohlsen (trompete, flugelhorn), além dos arranjos de Ed Tossing, que criaram canções únicas e memoráveis. 

Single de “Rockin’ the Paradise”

"A.D. 1928" abre os trabalhos, apenas com o piano fazendo a imortal melodia da canção, e DeYoung exaltando a inauguração do Paradise: "Tonight's the night we'll make history / as sure as dogs can fly / And I'll take any risk to tie back the hands of time / And stay with you here all night". É o início do teatro, e a canção exalta a coragem e determinação, e uma certa arrogância da grandiosidade que irá se esperar do teatro. A letra segue "So take your seats and don't be late, we need your spirits high / To turn on these theatre lights and brighten the darkest skies / here in the Paradise". Com este convite para a inauguração, simbolizando a grandiosidade e o otimismo de uma estreia, a chegada de algo novo, começa então "Rockin' the Paradise". 

Animada, com um riff pegado e um ritmo puro rock 'n' roll, a canção mostra o auge do teatro, com uma energia absurda, que mistura peso, rock anos 50 e o ritmo quadrado dos anos 80. A primeira parte faz referência às críticas aos jovens que são considerados preguiçosos, mas que estão esperançosos de uma vida melhor, enquanto a segunda estrofe solta a raiva destes jovens que "não precisam de lucros rápidos ... somente algum filho da puta que trabalhe duro". 

A canção segue no mesmo ritmo, enaltecendo ainda mais estes jovens que "não precisam lutar, e sim desafiar os controladores" em busca de orgulho e de uma nova vida, agitando no Paradise. Para DeYoung: "Um dos maiores crimes nos Estados Unidos é as pessoas não se sentirem úteis. As pessoas precisam se sentir como uma parte útil da sociedade, porque elas são. Precisamos fazer com que as pessoas acreditem em si mesmas — que elas são importantes."

No contexto paralelo com os Estados Unidos, é a força do povo estadunidense se reerguendo após a Segunda Guerra. Chamo atenção para o uso do piano aqui, relembrando musicalmente a sonoridade dos anos 30, algo antigo. O solo da guitarra, com o piano ao fundo, é para dançar animadamente, e a performance de John é muito boa, Disparada a faixa mais alegre do disco, reflete portanto o surgimento de algo novo, o Paradise, e na metáfora, a chegada de uma nova geração de pessoas. 

Compacto de “Too Much Time On My Hands”

A sequência vem com os sintetizadores trazendo uma modernidade para o Paradise, o início do cinema falado, o qual está em "Too Much Time on My Hands", cantada e composta por Shaw. O Teatro está modificado, tentando se adaptar aos novos tempos, mas por alguma razão, não há mais o mesmo sucesso do seu início. A letra destaca alguém que acaba desempregado, e que se sente um "criminoso que não foi preso". 

É o início da decadência do Teatro, e consequentemente, um retrato do aumento do desemprego no país no início dos anos 70. Uma das canções de maior sucesso do Styx (ao lado de “Lady”), com suas palmas no refrão que qualquer fã da banda adora fazer, e claro, mais um belo solo das guitarras, acompanhadas pelos sintetizadores. O andamento quadradão, a simplicidade dos acordes de guitarra, o refrão extremamente grudento (quem nunca se pegou cantando o refrão ou fazendo os " t-t-t-t-ts" do refrão, dando aquela dançadinha marota a lá Bowie??) e as citadas palmas entre as palavras que formam o nome da canção, animaram muitas festas adolescentes durante os anos 80. 

Compacto japonês de
“Nothing Ever Goes As Planned”

"Nothing Ever Goes as Planned" muda novamente a sonoridade, ainda mais moderna, começando com a bela introdução e o solo da guitarra de Shaw, apresentando citações ao reggae, e cantada por DeYoung, e a primeira a trazer o naipe de metais. Destaque para o solo carregado de wah-wah, além de mais um refrão grudento ("nothing ever goes as planned/It's a hell of a notion/Even Pharaohs turn to sand/Like a drop in the ocean"). 

Liricamente, é o retrato da visão de fracasso que chega ao Teatro (e dos Estados Unidos). Tudo o que havia sido comemorado começa a naufragar, dar errado, igual aos grandes faraós que não resistiram ao tempo. Isto gera uma forte frustração ao Paradise, e ao encerramento do Lado A com a nostálgica "The Best of Times". 


Compacto de “The Best of Times” (leia o texto)

Outro grande sucesso de Paradise Theater,  ela retoma a melodia de “A.D. 1928", mas com a melancolia tomando conta da letra, no lugar da alegria da faixa de abertura: "I know you feel these are the worst of times / I do believe it's true / When people lock their doors and hide inside / Rumor has it it's the end of Paradise". Os melhores tempos do Paradise estão apenas na memória, e em um mundo de ponta cabeça, o narrador lembra-se desse passado ainda esperançoso, apesar de ver as ruínas do Teatro.

Em sua vida vida pessoal, com tudo que está destruindo-o profissionalmente, tem-se de bom as lembranças e a companhia da pessoa amada. O Teatro fecha suas portas, e a canção conclui que "The best of times are when I'm alone with you", como canta DeYoung em outro refrão enormemente conhecido, tendo aquela harmonia vocal que somente o Styx conseguia fazer (OK, o Queen também fazia algo similar no início de carreira) em uma das baladas mais famosas da história do grupo. 

Nas palavras de DeYoung sobre a canção, "Ela veio pra mim porque eu estava tentando entender o que é que me permite enfrentar as mudanças no mundo e no nosso país. E eu decidi: 'Bom, o amor é uma coisa boa'. Se você tem alguém em quem confia pra te apoiar e você apoia essa pessoa, isso é fundamentalmente algo bom". O personagem da música encontra consolo se fechando, trancando a porta, abaixando as persianas e ficando no abraço de alguém em quem confia e ama". O Paradise está ruindo, os Estados Unidos vivem do saudosismo, e então, entramos no complexo e pesado lado B de Paradise Theater

Capa gatefold interna de Paradise Theater

Abrindo os trabalhos, temos "Lonely People", com o barulho da chuva, trovões, gritos e um saxofone que sola endiabrado. O tempo passou, e agora,  o Teatro está vazio, sozinho, apenas com os mendigos dormindo em seu interior. O arranjo de metais e o peso das guitarras apresentam o refrão marcante, trazendo a voz de DeYoung, que narra as últimas apresentações de cinema no Teatro vazio. O narrador assiste um filme de James Cagney (galã do cinema estadunidense nos anos 30 e 40), e percebe que são os últimos dias do local que lhe deu tanta alegria. A analogia vai com os Estados Unidos isolado durante a guerra fria. A melodia e o arranjo da canção retratam fielmente os pesados momentos de vazio do Teatro através das guitarras, com destaque para os solos de Tommy e JY. Chama a atenção o estranho solo dos sintetizadores, e o ótimo solo de JY, além do peso da canção, muito diferente do que ouvimos no lado A. 

Com a voz delicada de Shaw, "She Cares" retrata o momento onde o Teatro se vê às moscas, mas tem esperanças de que ainda há alguém que se importa com ele, fazendo referência aos soldados estadunidenses que foram para a guerra do Vietnã, com as namoradas/esposas que independente do que acontecer na guerra, estarão esperando por eles. A canção tem um certo ar de ballad-rock dos anos 50, bastante melancólica, e os "wow-wow-wow" tipicamente cinquentistas, destacando o solo de Eisen no saxofone, carregando para o dramático fim do Paradise. 

A linda versão em vinil, gravada a laser

Isso começa em "Snowblind", que entrega a autodestruição do Teatro, que passa a ser usado por traficantes. O dedilhado nervoso do piano traz a assombrosa voz de JY, com o Teatro "olhando-se no espelho", no seu momento de declínio, chocado com o que está vendo, e leva aos vocais de Shaw, no seu momento totalmente "cego pela neve" (gíria para "chapado de cocaína") que toma conta do Teatro. São os altos (Shaw) e baixos (JY) do vício em cocaína que tomou conta de uma geração estadunidense na década de 70, estampados através dos vocais. É uma crítica forte ao consumo das drogas, direta, sem firulas. Que baita solo de JY aqui, com muitos bends e notas velozes, e que música sensacional. O andamento levemente blueseiro dá um charme especial para esta canção, que gerou polêmica após grupos religiosos e a comunidade do Parents Music Resource Center (PMRC) alegarem supostas mensagens satânicas escondidas na mesma, quando ouvida ao contrário. 

Segundo eles, a afirmação era de que a frase "I try so hard to make it so" ("eu tento tanto fazer dar certo") surgia como "Satan moves through our voices" ("Satã se movimenta através de nossas vozes"). DeYoung debochou da história, alegando que: "Quem toca nossos discos ao contrário é o Anticristo. A gente já tem dificuldade suficiente pra fazer esses discos soarem certo tocando do jeito certo. As pessoas não têm nada melhor pra fazer? É o Styx. Vocês conseguem imaginar atacar os caras que fizeram 'Babe'? Ah, pelo amor de Deus". JY foi o mais veemente em rebater esta afirmação, chegando a dizer que "Se fôssemos colocar alguma mensagem em nossas músicas, teríamos colocado de forma que estivesse na música normalmente. Não de um jeito que você precisasse comprar um gravador de fita de US$ 400 para ouvir". Posteriormente, o Styx realmente incluiu mensagens de trás para frente no álbum seguinte, Kilroy Was Here, outro disco conceitual falando sobre a censura ao rock (as mensagens foram colocadas propositalmente, para zoar mesmo os grupos religiosos e o PMRC).

Dennis DeYoung, o mestre de cerimônias e criador da obra aqui apresentada

Finalmente, o Teatro é tomado por traficantes, mendigos, divorciados e falidos que pedem trocados na sua porta, já fechado. É "Half-Penny, Two-Penny", uma das melhores canções da carreira do Styx, e que também faz uma auto-referência, com um ritmo que lembra muito o sucesso "Miss America", lançado pela banda em The Grand Illusion (1978). O ritmo disco, com as guitarras pesadas de JY e Shaw, nos remete facilmente ao fim dos anos 70. O sonho americano virou esmola, mas é o jeito americano de ser "Justice for money what can you say / Yes, Mrs. Cleaver your son's home to stay / We all know it's the American Way", com Mrs. Cleaver sendo a personagem June Cleaver, da série "Leave It to Beaver" (no Brasil, Aquele Beijo), que foi ao ar nos anos 50, e tinha na senhora Cleaver o exemplo de Dona de Casa perfeita, com um padrão de perfeição pomposo, de vestido, pérolas, maquiada e salto alto, mesmo só pra lavar louça ou cuidar do jardim. Uma crítica ao exibicionismo das elites estadunidenses que não importam-se com os "inferiores". 

O refrão traz esperanças com um possível fim do Paradise, a possibilidade de algo novo surgir daquela imundice. Uma paulada, com o ótimo riff das guitarras e um excelente andamento de John e Chuck. A marcação do baixo é grudenta e dançante, além do riff, que cantarolamos sem querer junto à voz de James. A mudança no emotivo refrão, os barulhos de britadeiras e máquinas que levam à demolição do Paradise Theater, inclusive por pessoas que frequentaram o lugar quando eram crianças e jovens, entre acordes de piano, o badalar de um sino torturante, e o sempre marcante baixo de Chuck, são os pontos principais dessa excelente e incrível faixa  (impossível ouvir e não lembrar de "Run Like Hell", do Pink Floyd). Ao mesmo tempo, as conversas entre a demolição são pauladas críticas ao governo estadunidense ("What the hell you doin’? / We’re tearing this old building down here / Oh you’re kiddin’ me, remember when we were kids / And we used to come here every Saturday afternoon to see a cartoon? / Yeah, I remember / Well what’s she lost to? / Who knows politicians, taxes it’s a disgrace / I’m not surprised, they make me sick"). Pancada na cabeça dos políticos, e a faixa encerra-se com os excelentes solos de JY, Tommy e, após uma mudança sonora, o lindo solo de sax de Eisen. 

DeYoung volta com o piano que começou o álbum em "A.D. 1958", mas agora com um tom melancólico. A mesma melodia de “A.D. 1928” e da introdução de “The Best of Times” reaparece, mas com diferença na letra, que agora cita a existência do Teatro apenas na memória daqueles que o acompanharam. "And so, my friends, we'll say goodnight / for time has claimed his prize / but tonight can always last / as long as we keep alive / the memories of Paradise". O Teatro é demolido, fechando o ciclo e abrindo uma nova era de esperanças, construções e pessoas, que acabarão passando por todas as etapas de ascensão e queda novamente, e novamente, e novamente ...  Por fim, "State Street Sadie" é uma "faixa escondida" homenageando uma famosa rua de Chicago, a State Street, com "Sadie" representando a decadência. É apenas uma vinheta ao piano, em ritmo blues, mas com um certo ar de alegria nostálgica, fechando sublimemente este espetáculo de disco.

Notícia sobre a demolição do Paradise Theater, ocorrida há 68 anos

Um ótimo álbum, que identificou com precisão as rachaduras crescentes nas fundações da sociedade atual (mesmo sendo em 1981), e previu tudo o que encontramos hoje sobre a polarização política, o ufanismo barato dos 15 minutos de fama na internet, e o fracasso subsequente que demole por completo famílias e lares não só nos Estados Unidos, mas pelo mundo. 

Paradise Theater atingiu a primeira posição nos Estados Unidos, onde permaneceu por três semanas consecutivas, entre abril e maio de 1981. O disco vendeu muito, com mais de 3 milhões de cópias nos Estados Unidos (platina tripla) até os dias de hoje, tornando-se o maior sucesso comercial do Styx, e foi também o quarto álbum consecutivo da banda a receber a certificação de platina tripla pela RIAA. Para se ter uma ideia, além de primeiro nos EUA, o disco vendeu demais ao redor do mundo, sendo que, por exemplo, ficou em segundo na Argentina (80 mil cópias), terceiro no Canadá (platina, com 100 mil cópias), quinto na Noruega, sexto na Suécia, sétimo na Suíça (ouro, com 25 mil cópias), oitavo no Reino Unido (prata, com 60 mil cópias, maior colocação da banda por lá) e ainda nos 30 mais na Austrália, Alemanha, Holanda e Nova Zelândia.

O compacto gravado a laser, primeiro na história

Quatro singles do álbum entraram nas paradas musicais, com duas músicas alcançando o Top 10. O primeiro single, "The Best of Times " chegou ao 3º lugar na Billboard, por onde permaneceu por quatro semanas, décimo no Canadá e 42° no Reino Unido. Vale lembrar que este foi o primeiro single do mundo a ser lançado com vinil gravado a laser, como estampa o sticker do mesmo. Na sequência, veio "Too Much Time on My Hands ", que foi ao 9º lugar na Billboard - único hit de Shaw no Top 10 com o Styx - e quarto no Canadá. "Nothing Ever Goes as Planned " alcançou somente o 54º lugar, e "Rockin' the Paradise " foi 8º lugar na parada Top Rock Tracks, sendo que seu vídeo clipe foi o décimo a rolar na história da MTV (sempre lembrando que o primeiro clipe foi "Video Killed the Radio Star, do Buggles), na madrugada do dia 1 de agosto de 1981.

Uma versão limitada do vinil apresenta uma imagem da decoração do Teatro gravada em laser dentro dos sulcos do LP (algumas cópias, o design era em cera), tornando-se mais um atrativo junto da qualidade sonora de Paradise Theater. Um fato curioso da capa, pintada pelo artista Chris Hopkins, é que nela, o nome do álbum está Paradise Theatre, enquanto na contracapa e no selo, o título do disco está escrito Paradise Theater,  e na lombada, somente "Paradise". A ideia justamente era causar confusão e uma espécie de ciclo, assim como o conceito geral do álbum. Em seu interior, uma manchete de época retrata o fim da demolição do teatro, em 7 de julho de 1958, e comenta que era um dos maiores teatros já construídos, mas que com a chegada da televisão, acabou sendo abandonado.

James “JY” Young e Tommy Shaw na turnê de Paradise Theater

Uma ambiciosa turnê mundial teve início em 1981, sendo a turnê de maior bilheteria do quinteto (e a época, uma das maiores da história). Inspirada na Broadway e no cinema, o show trazia uma abertura dramática, com um personagem varrendo o teatro sozinho, ao lado de um piano, de onde surgia DeYoung para interpretar "A. D. 1928", emendada com "Rockin' The Paradise", sendo que oito das onze canções de Paradise Theater compunham o set list do show (apenas "Nothing Has Gone Planned", "Lonely People" e "She Cares" ficaram de fora). Encerrando o  show, a mesma sequência final do álbum, com "Half Penny, Two Penny" (tendo todos os barulhos de demolição do teatro) e "A. D. 1958".

O palco remontava a fachada do Paradise, através de luzes brilhantes de neon, como mostra a capa do single com estas duas canções. As luzes alternavam seu brilho, frequências de oscilação, entre outros, lembrando o famoso arco-íris do Rainbow. Cada músico vinha trajado como um "personagem" ligado ao cinema, com JY e Shaw sendo os limpadores, Chuck o garçom, John o garoto que ia assistir aos filmes e DeYoung o Mestre de Cerimônias. Ao final, o telão exibia os créditos do show, trazendo manchetes de jornal apresentando cada um dos integrantes, e o nome de cada colaborador do show, como um filme tradicional. 

Ingresso da Paradise Theater Tour

O Styx seguiu seus caminhos conturbados com mais um álbum conceitual, o já citado (e igualmente excelente) Kilroy Was Here, e uma longa turnê que culminou no primeiro ao vivo da banda, Caught in the Act Live (1984). Porém, o clima entre Shaw e DeYoung já não existia, e após o fim da turnê, a banda se dissolveu. O futuro reservou um retorno inesperado de DeYoung e Shaw tocando juntos nos anos 90, com o Styx apresentando Paradise Theater novamente nos palcos, registrado no excelente CD e DVD Return to Paradise, lançado em 1996 (olha aí, 30 anos atrás). 

Falando então nas efemérides, como citei no início, daqui alguns meses contarei a história de um dos melhores trabalhos da banda, e igualmente marcante para sua história: Crystal Ball (1976). Até lá, para quem não é fã, aproveitem para conhecer uma discografia praticamente impecável, e para quem já é fã, deliciem-se ouvindo, dançando, batendo palmas ou simplesmente apreciando um daqueles discos essenciais na história da música pop mundial. 

Contra-capa de Paradise Theater

Track list

1. AD 1928

2. Rockin' the Paradies

3. Too Much Time On My Hands

4. Nothing Has Gone Planned

5. The Best Of Times

6. Lonely People

7. She Cares

8. Snowblind

9. Half Penny, Two Penny

10. AD 1958

11. State Street Sadie 

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