terça-feira, 30 de junho de 2026

Cinco Discos Para Conhecer: Brasileiros em Montreux



Inspirado pelas excelentes postagens do meu amigo Marcello Zapelini na Consultoria do Rock, trago hoje uma indicação de Cinco Discos (e mais três bonus tracks) Para Conhecer envolvendo artistas brasileiros que se apresentaram no tradicional festival Suíço. O Brasil teve sua primeira participação no evento de Claude Nobs em 1974, com Milton Nascimento e Flora Purim, e de lá para cá, garantiu diversas "Brazilian Nights", levando a brasilidade para os europeus se deleitarem. Muitos discos foram lançados com registros destas apresentações, e trago aqui aqueles que não necessariamente são os melhores, mas os que de alguma forma são os que particularmente mais me agradam.

Gilberto Gil - Ao Vivo [1978]

A noite de 14 de julho de 1978 entrou para a história do festival de Montreux, muito por conta da apresentação de Gilberto Gil, e que felizmente foi registrada neste belíssimo disco (e também está disponível em vídeo em sites como os YouTubes da vida). Naquele que, até então, foi o maior público do festival, com 3700 pessoas, Gil e uma super banda (ver abaixo) entreteram a plateia da 12a edição do evento de um jeito que somente ele conseguia fazer. Falando tranquilamente em francês, o baiano eleva sua apresentação rapidamente, transformando o cassino de Montreux em uma festa brasileira. O repertório traz canções dos Doces Bárbaros ("Chuck Berry Fields Forever", com letra cantada em inglês,  ainda para uma plateia em marcha lenta, e "São João, Xangô Menino", já levantando o pessoal), homenagem à Luiz Gonzaga (a acelerada "Respeita Januário", que começa a colocar a casa abaixo) e duas faixas da carreira solo de Gil, "Chororô" e "Ela". Porém, são os delirantes improvisos de "Bat Macumba", com citação à "Exaltação À Mangueira" e Gil convocando a plateia para cantar o nome da canção entre muita percussão e palmas, e principalmente, "Procissão", mesclando ainda "Atrás do Trio Elétrico", de Caetano, e fazendo os suíços entoarem "Mamãe Eu Quero" a plenos pulmões, os auges com mais de 11 minutos de duração, de um show eu teve nada mais nada menos que cinco Bis, graças a um público ensandecido que não parava de aplaudir Gil. Em um desses bis, Patrick Moraz e A Cor do Som subiram ao palco para acompanhar o baiano em uma jam session, registrada sob o título "Triole (Jam Session)". As canções em sua maioria são longas, exploratórias musicalmente, mostrando um Gil totalmente solto para desfilar seu talento e carisma. Era o Brasil finalmente fincando seus pés no mercado europeu, e para uma imprensa mundial que ficou excitadíssima com um de nossos maiores representantes musicais. 

Gil (violão, vocais), Rubão (baixo), Pepeu Gomes (guitarra, vocais), Mú Carvalho (teclados, vocais), Jorginho Gomes (bateria) e Djalma Corrêa (percussão)

Participação

A Cor do Som, Ivinho, Patrick Moraz, Mazola e Guti (faixa 8)

1. Chuck Berry Fields Forever

2. Chororô

3. São João, Xangô Menino

4. Respeita Januário

5. Ela

6. Bat Macumba / Exaltação À Mangueira

7. Procissão / Atrás Do Trio Elétrico / Mamãe Eu Quero

8. Triole (Jam Session)

A Cor Do Som - Ao Vivo no Montreux Internacional Jazz Festival [1978]

Na mesma data que Gil enlouqueceu os europeus, pouco antes A Cor do Som também já tinha causado um grande alvoroço. Com uma apresentação de pouco mais de meia hora, para uma plateia formada quase que exclusivamente por jovens, a trupe de Armandinho, Dadi, Mu, Ary e Gustavo (acompanhados ainda por Aroldo Macedo, irmão de Armandinho), fez a primeira apresentação de um grupo brasileiro no festival, e foi tão ovacionada que levou Nobs a encaixá-los em mais uma apresentação à noite. Porém, o público noturno era mais "conservador", e acabou não dando a mesma receptividade aos brasileiros. Resultado: um disco que mostra o fervor da tarde e as vaias da noite sem medo de ser feliz, mas acima de tudo, como este grupo tinha uma capacidade instrumental muito acima dos padrões (vale lembrar que apesar de serem músicos experientes, este é apenas o segundo disco dos caras, e ainda totalmente instrumental). A guitarra e o moog são as atrações de "Dança Saci", ótima faixa para apresentar os dotes musicais do jovem Mú (com apenas 21 anos) aos europeus, o qual comanda o ritmo animado de "Brejeiro" (Ernesto Nazareth) ao piano elétrico. Em "Chegando Da Terra", a perfeição do duelo entre Armandinho e Mú, com uma velocidade impressionante nas notas, é de deixar qualquer um extasiado. Os dois inegavelmente são os músicos centrais, mas também, com a poderosa percussão de Gustavo e Ary, além das bases de Dadi, não tem como a coisa não funcionar (Aroldo participa de algumas das canções apenas). "Cochabamba" e "Festa Na Rua" são faixas virtuosísticas, mas que mostram a vaia comendo solta, enquanto  "Espírito Infantil" e a inesperada "Eleanor Rigby", voltada para o frevo,  apresentam a criatividade na (re)criação de peças com sonoridade puramente brasileira, e com uma complexidade absurda.  Nesta linha, é na sensacional versão de mais de dez minutos de "Arpoador" que os membros d'A Cor Do Som mostram todas as suas capacidades musicais, nesta que é um dos clássicos da banda, onde cada um recebe um pequeno momento solo - difícil saber qual o melhor - sobre uma base avassaladora criada pela genial mente brilhante de Dadi ao baixo, e extrapolando virtuosismo. Uma pequena constelação de estrelas gigantes, e que infelizmente, mudaram seu som radicalmente nos anos 80, sem nunca mais conseguir ter o brilho e a inovação musical de seus dois primeiros e essenciais álbuns. 

Armandinho (guitarra, guitarra baiana), Dadi (baixo), Mú Carvalho (teclados, sintetizadores), Gustavo Schroeter (bateria), Ary Dias (percussão)

Com

Aroldo Macedo (guitarras em 4, 5, 6, 7 e 8)

1. Dança Saci

2. Chegando da Terra

3. Arpoador

4. Cochabamba

5. Brejeiro

6. Espírito Infantil

7. Festa na Rua

8. Eleanor Rigby

Hermeto Pascoal - Ao Vivo Montreux Jazz [1979]

Depois do sucesso de Gil, no ano seguinte foi a vez de outros dois gigantes brilharem na Suíça (e virem parar aqui neste Cinco Discos), naquela que foi conhecida como a primeira Brazilian Night do festival. O primeiro deles é o mago albino Hermeto Pascoal, o qual vinha de gravações com Miles Davis e era idolatrado entre os jazzistas europeus, que o chamavam de "O Bruxo Dos Sons". Nobs o apresenta como "O grupo que irá vir em poucos minutos desenvolveu um incrível sentido de tons, ritmos, harmonias, composição e improviso, absolutamente único. A mistura é simplesmente incrível". Logo na apresentação da banda os urros vindos da plateia já são ensurdecedores, e quando o nome de Hermeto é chamado, bom, aí a casa vem abaixo. A intrincação de "Pintando o Sete", "Maturi" e "Quebrando Tudo", essa alucinante, com vocalizações - endiabradas - duelando com o teclado, assim como nas experimentações vocais e instrumentais de Hermeto em "Remelexo", o saxofone, sobre as palmas da plateia, em "Sax E Aplausos", com mais de 17 minutos de um desfile de improvisos em inúmeros instrumentos, onde Hermeto brilha no saxofone e na melódica, enquanto sua banda destroça nas percussões e nos metais, são de fazer qualquer admirador de música ficar embasbacado. Hermeto está fervendo, no alto dos seus 43 anos, e tudo, mas tudo o que ele faz, é um show a parte. Outro show que por si só vale o vinil são os músicos que acompanham o mago, seja no naipe de metais, que além de brilharem em "Sax e Aplausos", também soltam os pulmões em "Nilza" e "Forró em Santo André", onde o solo de Cacau no saxofone barítono deve ter feito John Coltrane soltar um largo sorriso de faceiro. Apenas desfrute de uma hora e 10 minutos de improvisos, loucuras e muita insanidade no palco, em um show visceral, onde Hermeto dá uma aula nos mais diversos instrumentos, com músicas extremamente complexas, atonais, mas como o próprio Nobs definiu, únicas. Hermeto foi aplaudido por mais de 15 minutos, abalando as estruturas do Cassino de Montreux, voltando quatro vezes para o Bis (e brindando a plateia com mais alguns números de tirar o fôlego, especialmente, a linda "Montreux", música "muito lenta para curtir com a mente, e que foi fabricada no hotel", nas palavras de Hermeto), mas principalmente, abalando o nosso próximo disco. 

Hermeto Pascoal (saxofone soprano, saxofone tenor, flauta, vocais, clavinete, piano, melódica)

Com

Itiberê Zwarg (baixo), Jovino Santos Neto (piano), Cacau (clarinete, saxofone barítono, saxofone tenor, flauta), Nivaldo Ornelas (flauta, saxofone tenor, saxofone soprano), Nenê (bateria, percussão, clavinete) Pernambuco (percussão) e Zabelê (percussão) 

1. Pintando O Sete

2. Forro Em Santo André

3. Remelexo

4. Bem Vinda

5. Sax E Aplausos

6. Lagoa Da Canoa

7. Fátima

8. Terra Verde

9. Maturi

10. Quebrando Tudo

11. Nilza

12. Forró Brasil

13. Montreux

14. Voltando Ao Palco

15. E Adeus

Elis Regina - 13th Montreux Jazz Festival [1982]

Na mesma data que Hermeto chocava Montreux, Elis fazia uma de suas maiores apresentações da carreira (e também, aquela que ela considerou uma de suas piores apresentações). A fúria de Elis com sua participação em Montreux se deve à diversos fatos, mas três deles se destacam: 1 - o repertório incluía mais bossas do que canções políticas, devido às exigências contratuais, para agradar o circuito europeu, e isto já fazia Elis torcer o nariz; 2 - ela teve que fazer um show extra como matiné - superlotada - durante a tarde, somente para os mais jovens, devido ao fato de os ingressos terem esgotado rapidamente só para ver o show dela à noite (e quem estava lá naquela tarde afirma até hoje que foi a melhor versão de Elis em todos os tempos); e - a voz desgastada pela apresentação da tarde, e a presença de um grande número de senhores na noite, acabou fazendo ela tremer de ódio, o que, segundo ela, foi crucial para sua performance. Acompanhada pelo marido Cesar Camargo Mariano (um show à parte no piano elétrico) e um supertime, a performance da Pimentinha, honestamente, é arrebatadora. O LP apresenta cinco faixas do show da tarde: "Cai Dentro", peça sensacional de Baden Powell, com uma Elis aplaudidíssima, os clássicos da sua carreira "Madalena", "Na Baixa Do Sapateiro", esta com uma introdução arrepiante e Elis rasgando a voz em uma versão inigualável, e "Upa Neguinho", com uma Elis totalmente solta, falando em francês, dando risada e fazendo muitas improvisações vocais, além das faixas de Milton Nascimento, "Ponta De Areia" e "Fé Cega, Faca Amolada/Maria Maria", nas quais Elis entrega-se de corpo e alma, como sempre fez em seus shows, mas também destacando os viajantes teclados de César, a percussão Muiriana de Chico Batera e o baixo pulsante de Luizão Maia. Do show da noite, a complexa "Cobra Criada", de João Bosco, e o registro de um fundamental terceiro fato: depois de Elis tocar pela tarde, e sair ovacionada, Hermeto Pascoal subiu no palco de Montreux e fez o que fez no disco citado acima. Com a pressão de tentar superar duas performances incríveis, exausta, Elis ainda teve a - sorte/ventura - de que Claude Nobs, empolgadíssimo com os dois shows dos brasileiros, chama-se Hermeto para dividir o palco em um Bis improvisado com a gaúcha. Furiosa, destruída corporalmente, e totalmente surpresa, Elis retornou ao palco para registrar um dos momentos mais emblemáticos já ocorridos em Montreux (e quiçá, na história da música mundial). Literalmente, ela e Hermeto travam um duelo de voz e piano, em um desafio no qual o bruno albino impõe toda sua virtuosidade em "Corcovado", "Garota de Ipanema" - que Elis detestava - e "Asa Branca", tornando-as genialmente irreconhecíveis para os fãs brasileiros, mas que Elis enfrenta de frente, sem baixar a guarda, e sem saber onde o piano de Hermeto estava a levando. Elis superou-se, Hermeto superou-se, e só ouvindo e vendo para tentar se ter noção de 10% do que aconteceu no palco naquele dia. Os dois show acabaram saindo completos anos depois, no álbum duplo Um Dia (2012). O essencial, que é o dueto de Hermeto, felizmente já havia chegado neste que foi o primeiro lançado pós-falecimento dela, mesmo contra a vontade da cantora. Um disco simplesmente histórico!

Elis Regina (vocais), Cesar Camargo Mariano (piano elétrico, teclados), Hélio Delmiro (guitarra), Luizão Maia (baixo), Paulinho Braga (bateria), Chico Batera (percussão)

1. Cobra Criada

2. Cai Dentro

3. Madalena

4. Ponta De Areia

5. Fé Cega Faca Amolada / Maria Maria

6. Na Baixa Do Sapateiro

7. Upa Neguinho

8. Corcovado

9. Garota De Ipanema

10. Asa Branca

Com 

Hermeto Pascoal (piano em 8, 9 e 10)

Os Paralamas do Sucesso - D [1987]

Fiquei muito em dúvida de qual seria o quinto disco aqui presente, e acabei escolhendo o que mais gosto dentre os que ficaram de fora. D é com certeza um álbum energético e vibrante, mostrando a melhor fase d'Os Paralamas do Sucesso, isso em 4 de julho de 1987. No auge de sua carreira, desfrutando do sucesso de Selvagem?, Os Paralamas mandam ver em um repertório para cima e muito animado. Apesar de começar com o freio de mão puxado, trazendo a inédita "Será Que Vai Chover?", que ganharia uma versão de estúdio somente um ano depois, basta começar "Alagados" que a energia visceral que o Brasil já havia sentido durante o Rock in Rio chega até a Suíça. A partir de então, com o jogo ganho, o trio Herbert, Bi e Barone (adicionados de João Fera nos teclados) coloca o Cassino de Montreux abaixo. É petardo atrás de petardo, e com um grupo em excelente fase, desfilar sucessos do porte de "Ska", "A Novidade", "Selvagem" e "Meu Erro". O ápice da noite vai para a espetacular versão de "Óculos", com um longo trecho de improvisos, e também a incrível revisão para "Charles Anjo 45", de Jorge Ben, que conclui um dos melhores discos ao vivo das bandas do chamado BRock. A banda só cresceria mundialmente a partir daqui, conquistando mercados tanto na América do Norte como no Japão, e tendo a certeza que naquele julho de 1987, a Europa já havia começado a se entregar para o som e energia d'Os Paralamas. 

Herbert Vianna (guitarra, vocais), Bi Ribeiro (baixo), João Barone (bateria)

Com

João Fera (teclados)

George Israel (saxofone em 3)

1. Será Que Vai Chover?

2. Alagados

3. Ska

4. Óculos

5. O Homem

6. Selvagem

7. Charles Anjo 45

8. A Novidade

9. Meu Erro

bonus tracks

Para as bônus, pensei em trazer os álbuns de Baby Consuelo, Pepeu Gomes ou João Gilberto registrados por lá, mas escolhi três álbuns que ampliam a quantidade de artistas que tocaram em Montreux, sendo ambos compilações de apresentações brasileiras ocorridas no início dos anos 80. 

Elba Ramalho, Toquinho e Moraes Moreira - Brasil Night - Ao Vivo em Montreux [1981]

Registrada em 4 de julho de 1981, esta compilação resgata a Brasil (com S) Night que levou Elba Ramalho, Toquinho e Moraes Moreira para a Suíça. Musicalmente, a compilação é realmente para admiradores da MPB, já que Moraes Moreira vivia uma fase no mínimo ruim em sua carreira, dando o ar da graça novo baiano apenas em "Davilicença", mas sem a energia de outros registros desta mesma canção, enquanto Elba estava surgindo no Brasil, e até que faz uma apresentação segura, ensinando a plateia a dançar o xote de "Bate Coração" e o baião de "Baião", mas sem conseguir ter a força de uma Elis Regina, em especial na chorosa "Tudo Azul". Toquinho acaba sendo o craque do jogo, trazendo o lindo dedilhado do violão em "Berimbau", com o instrumento que dá nome à canção também se destacando nas mãos de Djalma Corrêa (chocando os europeus, principalmente pela vibração escutada através das caixas de som), revisitando "Asa Branca" de uma forma totalmente desconstruída e comandando a clássica "Samba de Orly", obra prima composta junto de Chico Buarque e Vinícius de Moraes (quem diria que Toquinho iria se tornar um direitoso anos depois). Para poucos, mas estes poucos sabem o que irão apreciar. 

Alceu Valença, Milton Nascimento e Wagner Tiso - Brazil Night Ao Vivo em Montreux [1983]

Na edição de 1982, a Brazil Night teve como nomes Alceu Valença, Milton Nascimento e Wagner Tiso. Dos três shows, a Ariola Discos lançou esta boa compilação, com quatro canções de Alceu Valença, enquanto Milton aparece com três faixas, e Wagner com duas. O pernambucano surge com a animada "No Balanço da Canoa", faz os europeus baterem palma e cantarem durante "Pelas Ruas Que Andei", mas tem como ponto alto a tocante "Talismã" e a endiabrada "Casinha de Buinha", levadas apenas por voz e violão. Já Milton Nascimento manda ver numa veloz "Fé Cega, Faca Amolada", emociona com "Ponta de Areia" e encerra o LP com a entusiasmada "Maria Maria", curiosamente três canções eternizadas por Elis três anos antes. Porém, é o virtuosismo de Wagner Tiso, com um super grupo (Nivaldo Ornelas no saxofone, Helio Delmiro na guitarra, Paulinho carvalho no baixo e Robertinho Silva na bateria, além da percussão de Frank Colón), o qual também acompanhou Milton, que mais chama a atenção. Comandando o piano com uma técnica invejável, Tiso brilha na paulada "Banda da Capital", levantando o Cassino de Montreux, e "Balão", conplexa e intrincada peça instrumental no qual o virtuosismo do mineiro é colocada à prova, junto da percussão de Colón, misturando elementos da música afro-brasileira com o Jazz de vanguarda, para deixar qualquer fã de boa música com um sorriso aberto. 

Caetano Veloso, Ney Matogrosso e João Bosco - Brazil Night Montreux 83 [1983]

O dia 8 de julho de 1983 foi considerado pelo próprio Claude Nobs como a "noite mais emocionante, a mais vibrante e a mais explosiva dos 17 anos de Festival de Música de Montreux", e seu registro em vinil é fundamental estar aqui. Caetano ocupa quase todo o lado A, trazendo três canções somente com voz e violão, no caso a empolgante versão de "Maria Bethânia", as belas revisões para "Eu Sei Que Vou Te Amar/Dindi" e a lindíssima "Terra", apresentada na íntegra e com a plateia acompanhando os vocais do refrão. Com A Outra Banda Da Terra, manda ver em versões mais que perfeitas e energéticas para "Eclipe Oculto" e "Odara", as quais agitam o Cassino de Montreux. Ney faz uma apresentação ainda mais para cima, levando sua androginia e sua super banda (com Pedrão Baldanza, Pisca, Serginho e muito outros nomes importantes da música nacional) para ocupar quase todo o lado B, desfilando sensualidade na baladaça "Deixar Você", fazendo os europeus vibrarem com "Andar Com Fé", "Napoleão" e o forró de "Folia No Matagal", esta trazendo a participação de Caetano como convidado, e fazendo até Nobs sambar. E na simplicidade de João Bosco ("Ruan basco", segundo a apresentação de Nobs), e seu complexo dedilhado de violão, que surge a maior atração do vinil. Totalmente solto, e apenas com o violão de acompanhamento à sua voz, ele vai "cantar um samba" para a galera. O que ele faz em "Linha de Passe", um ritmo descomunal, mas principalmente, no pout-porri com "Nação", "Aquarela do Brasil" - com o Cassino vindo abaixo - e "O Mestre Sala dos Mares", é para desafiar qualquer novato que se acha músico. Discaço, que honestamente, considero uma das melhores compilações nacionais em todos os tempos, e com certeza, talvez o maior representante da diversidade presente na Música Popular Brasileira.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Minhas 10 Favoritas do Jefferson Airplane


Uma de minhas bandas favorita de todos os tempos, a Jefferson Airplane é daquelas que muita gente conhece duas músicas ("Somebody To Love" e "White Rabbit"), mas poucos são os que se aprofundaram em sua carreira. Com apenas oito álbuns de estúdio ao longo de uma carreira que durou, inicialmente, sete anos, e teve suas idas e vindas nos anos 80/90, e diversos álbuns ao vivo, há inúmeras canções espetaculares para serem descobertas, e mostrar por que a Jefferson Airplane foi a maior banda da geração flower-power. Selecionar apenas 10 canções foi tarefa complicadíssima para mim, mas vamos lá.

Jefferson Airplane em 1967. Da esquerda para a direita:
Marty Balin, John Casady, Grace Slick, Jorma Kaukonen
Paul Kantner (à frente), Spencer Dryden (ao fundo)

10. "Chauffeur Blues" [Takes Off, 1966]

Lançada no primeiro - e obscuro - álbum do grupo, ainda com Signe Anderson nos vocais, e o maluquete Skip Spencer na bateria, esta faixa é a única canção oficial da Airplane a trazer a voz de Anderson como destaque, e é um blues sutil, comandado pela percussão de Spence, mas que tem um charminho muito gostoso. Há várias canções similares nessa primeira fase dos californianos, mas "Chauffeur Blues" me dá um certo tesão de ouvir, seja pela voz afiadíssima de Anderson, seja pela simplicidade gostosa, com ares de diversas ervas e pastilhas alucinógenas que as guitarras de Kantner e Kaukonen criam, além do baixão vigoroso de Casady saculejando as caixas de som. 10° lugar para alguns pode até ser um exagero, mas cara, adoro ouvir Anderson soltando a voz aqui. 

9. "How Suite It Is" [After Bathing At Baxter's, 1967]

Um dos discos mais audaciosos da história da música, After Bathing At Baxter's foi lançado após o mega-sucesso de Surrealistic Pillow, e apresenta uma obra complexa e bastante contestada entre os fãs, sendo o verdadeiro Ame ou Odeie da banda. São cinco mini-suítes ao longo de mais de 43 minutos, algo que ninguém tinha feito até então, entre elas, essa obra sensacional chamada "How Suite It Is". A canção mais longa da carreira da banda - em estúdio - , com mais de 12 minutos de duração, é dividida em duas partes. A primeira, "Watch Her Ride", é uma legítima canção Airplaneana, com arranjos vocais bem encaixados sobre uma base instrumental sólida e direta, em pouco mais de três minutos. Já a instrumental "Spare Chaynge" é puro experimentalismo ao longo de mais de 9 minutos (e que no registro original, infelizmente nunca lançado, durou mais de 24 minutos), começando com um longo solo de baixo de Casady, no qual ele abusa de dedilhados cheios de técnica e complexidade. A canção vai ganhando dramaticidade a partir da entrada da percussão de Dryden e principalmente da guitarra, onde Kaukonen utiliza efeitos diversos. Para quem conhece o Jefferson Airplane de "Somebody To Love" e "White Rabbit", com certeza irá se assustar com as experimentações jazzísticas e alucinógenas que o grupo traz aqui, com o fuzz da guitarra de Kaukonen brilhando em toda a segunda metade da canção. Não há nada comparável em toda a discografia dos caras, e praticamente, é o início de uma divisão fundamental que iria levar a banda ao seu fim anos depois. 

8. "Milk Train Honey" [Long John Silver, 1972]

Violino, baixo, guitarra e bateria soltando uma força musical descomunal para Slick cantar a plenos pulmões. Isto é "Milk Train Honey". Impossível não começar a balançar a cabeça como um bom headbanger nesse quase Heavy Metal Flower Power, onde a presença do violino sim, um violino, transforma a faixa para algo ainda mais pesado, com solos e intervenções fatais. A música é pegada, para cima, pedindo para sair derrubando tudo o que tem pela frente, e é impossível tentar cantar o que Slick está cantando, já que ela debulha palavras com aquela agressividade gostosa que qualquer fã do Airplane adora amar. Musicaço!

7. "War Movie" [Bark, 1971]

Um disco que foi lançado entre inúmeras brigas, com a saída do líder Marty Balin e tendo Joey Covington na bateria, além de diversos convidados, Bark apresenta diversas gemas especiais, dentre elas "War Movie", uma canção arrebatadora, surgindo com o arrepiante alerta de bombas e o violão pesadíssimo de Kaukonen, para Slick, Kantner e o convidado Bill Laudner entoarem uma letra poderosíssima, que vai ganhando força com a entrada dos teclados e percussão. Avassaladora, "War Movie" vai derrubando todas as estruturas que aparecem, com sua forte letra criticando a guerra no Vietnã e o governo estadunidense que insistia em mandar jovens para lá, explodindo definitivamente com a bateria demolindo durante o trecho instrumenta arrepiante, onde teclados e guitarra fazem peripécias espetaculares entre as assustadoras vocalizações de Slick e os agonizantes vocais de Kantner. Que pancadaria vem então meu amigo, indicando os caminhos que a banda iria seguir no ano seguinte, em seu derradeiro - e maravilhoso - álbum. 

6. "White Rabbit" [Surrealistic Pillow, 1967]

A canção mais conhecida do Jefferson Airplane na verdade tem origem na antiga banda de Grace Slick, a The Great Society. Temos aqui uma interpretação simplesmente fodástica de Slick. Os que não se ajoelham perante a potência chocante de “White Rabbit” é por que são surdos ou mal da cabeça. O crescendo da canção com seu ritmo marcial, falando sobre as iniciações ao vício do LSD que levam ao mergulho no mundo de Alice no País das Maravilhas, é tão sobrenatural quanto a letra de Slick. Não tem como não ficar louco com esses dois minutos e trinta e dois segundos de um grandioso clássico.

Jefferson Airplane na TV

5. "Wooden Ships" [The Woodstock Experience, 2009]

Se a versão de estúdio já é linda, reproduzir ao vivo um dos arranjos vocais mais lindos da geração flower power, de forma perfeita, só pode trazer essa faixa aqui. O que Grace Slick, Paul Kantner e Marty Balin fizeram no início da manhã do dia 17 de agosto de 1969, lá na fazenda de Woodstock, foi tão histórico - mas não tão reconhecido - quanto a apresentação de Jimi Hendrix no mesmo festival, tendo como um dos ápices essa versão arrebatadora para a canção de David Crosby. Os vocais encaixados perfeitamente são completados pela guitarra endiabrada de Kaukonen, que geme junto com a dolorida voz de Slick. Um crescendo musical estupendo, as harmonias vocais arrepiando, o final apoteótico, com os solos dilacerantes de Kaukonen, que levam a faixa para mais de 21 minutos de duração. Olha, quinto lugar para essa versão talvez seja pouco. Mas é que tem muita música boa por vir. 

4. "We Can Be Together" [Volunteers, 1969]

Sob às luzes das bombas de Napalm que os EUA jogavam no Vietnã, o Jefferson Airplane resolveu enfrentar o governo Nixon e mandou um álbum atemporal. Volunteers, quinto disco de estúdio deles, é um álbum com obras incríveis, que contestam o por quê da guerra, e pregam definitivamente a paz entre os povos, com "We Can Be Together", faixa que abre este disco, sendo a perfeita alusão ao estilo Paz & Amor que marcou a geração flower power. Uma letra poderosa e um instrumental envolvente, complementado pelo piano saltitante do gigante Nicky Hopkins, além da guitarra alucinógena de Kaukonen. Impossível não cantar junto com Slick, Kantner e Balin, seja nos "la la las", nos trechos que citam o nome da canção e principalmente, na emblemática frase "Up against the wall, motherfucker, turn down the wall"! Pesada, contagiante, um tapa na cara da sociedade conservadora estadunidense (e ainda hoje, com um medíocre de presidente), e que não entra no pódio por detalhe. 

3. "Twilight Double Leader" [Long John Silver, 1972]

Essa canção é uma paulada descomunal, como só o Jefferson Airplane sabia fazer. O grupo estava dividido em três aqui, e essas três partes se autodevoram ao longo de quase 5 minutos. Se não vejamos: os vocais gritados do casal Grace Slick/Paul Kantner (o primeiro grupo) se sobrepõem após o riff pesadíssimo do baixo de Jack Casady e da guitarra de Jorma Kaukonen (o segundo grupo, que saíram da Airplane para criarem a Hot Tuna), enquanto a bateria de Joey Covington solta o braço como nunca antes na história do flower-power. O fio condutor dessa batalha sonora é o violino de John Papa Creach (o terceiro grupo, o dos isentos, junto de Covington e dois outros dois bateristas que concluíram o disco em meio a uma crise gigantesca que terminou com a banda), que apesar de sutil, faz as intervenções necessárias para que a faixa não exploda de tanta adrenalina. Que música fantástica, que pegada, e que solo fodido de Kaunonen. Terceiro lugar para ela!

2. "Eat Startch Mom" [Long John Silver, 1972]

Outra música de Long John Silver no Top 3? É meu caro, me desculpe, mas esse disco tem faixas descomunais, e "Eat Startch Mom" é a melhor delas. Última música do último disco da primeira fase do Airplane, ela é comandada pelo riff avassalador de Kaukonen, e uma Slick endiabrada cantando furiosamente. O refrão, de sair gritando pela sala, e o baixo/bigorna de Casady, provocam um terremoto sonoro, e não tem como não se pensar que o Heavy Metal puxou bastante inspiração para ser tão pesado por aqui também. Os solos de Kaukonen, demolindo o wah-wah, com as guitarras sobrepostas e a pancadaria comendo solta ao fundo, abrindo espaço para o violino brilhar, são pontos extras para esta paulada quase desconhecida dos estadunidenses. Só não é a melhor música da banda por que Kaukonen já tinha feito sua obra-prima três anos antes. 

1. "Hey Frederick" [Volunteers, 1969]

Segunda mais longa das canções de estúdio do Jefferson Airplane (atrás apenas da citada "Spare Chaynge"), "Hey Frederick" para mim está no mesmo panteão dos melhores solos de guitarra da história do rock, no qual encontram-se por exemplo "Comfortably Numb", "Stairway To Heaven", "Free Bird" e "Hotel California", porém raramente citada junto destas. Com seus quase 9 minutos, comandados inicialmente pelo piano de Nicky Hopkins e a delicada voz de Slick, a partir de seus 3 minutos ela transforma-se em um épico de solos de guitarras sobrepostas nos quais Kaukonen só não faz chover. Tudo é casado para engrandecer a guitarra de Kaukonen, e o que resta para o ouvinte, a partir do momento que Slick solta seu "how many machine men will you see before you stop your believing", é aumentar as caixas de som e apreciar um solo vibrante e ácido como nunca antes, e nunca depois, se ouviu na história do flower power. Me emociono e arrepio em cada nota que Kaukonen manda sair de sua guitarra, com apenas baixo, bateria e piano acompanhando em um ritmo tão alucinante quanto as guitarras que explodem nas caixas de som. Perfeitamente a mais perfeita canção do Jefferson Airplane, e quiçá, de todas as bandas desta geração 

sábado, 6 de junho de 2026

Maravilhas do Mundo Prog: Rush - Jacob's Ladder [1980]


O Ano de 1980 começou diferente para o Rush. Meses antes, em apenas quatro semanas (entre setembro e outubro de 1979) o grupo havia encerrado as gravações de seu sétimo álbum, Permanent Waves, nos estúdios Le Studio, entre as montanhas de Morin Heights em Quebec, no Canadá. O lugar idílico e contemplativo, com paredes de vidro onde se viam apenas neve, nuvens, montanhas, árvores e um lago, inspirou o trio Alex Lifeson (guitarras, guitarra de doze cordas, violões, violão de 12 cordas, violão clássico, bass pedal sinthesizer), Geddy Lee (baixo, violão de doze cordas, mini-moog, bass pedal synthesizer, vocais) e Neil Peart (bateria, sinos, tímpano, tubular bells, Wind Chimes, triângulo, Bell Tree, Vibraslap) a buscar novas sonoridades para a nova década que estava entrando em suas casas. Dentro destas sonoridades, o grupo The Police foi uma grande força motora para o Rush ampliar seus sons progressivos, e começarem a criar canções mais acessíveis, não tão grandiosas quanto suas Maravilhas "2112" e "Cygnus X-1 Book Two: Hemispheres", mas capazes ainda de trazerem novidades para os fãs.

O Rush no Le Studio, em outubro de 1979

O processo de composição começou em meados de julho de 1979, seis semanas após a última apresentação do trio durante a turnê de Hemispheres, a qual ocorreu em 4 de junho, no Pink Pop Festival de Galeen, na Holanda. Depois de merecidas férias, Lee, Lifeson e Peart não sabiam bem o que queriam, mas sabiam bem O QUE NÃO QUERIAM. Como explicou Lee para o jornalista Jon Sutherland, em uma entrevista para a revista Record Review em 1980: "Chega um ponto em que você se pega caindo num certo padrão, e aí é hora de sacudir a cabeça, se soltar e fazer algo diferente. No que diz respeito a álbuns conceituais, a gente já fez isso. Levamos isso até o limite lógico, e agora é hora de fazer outra coisa."

Era uma clara ideia de sair das longas e conceituais faixas de seus discos anteriores, e com essa mentalidade, a banda migrou para a fazenda Lakewood em julho de 79, há duas horas da cidade Natal dos rapazes, Toronto, onde começaram a criar e compor novas canções, mergulhando em improvisações que logo na primeira noite viraram a primeira composição, batizada "Uncle Tounouse". Partes dela iriam ser usadas para criar outras canções logo adiante. Após duas semanas trancafiados, com Peart tendo seu próprio espaço para pensar as letras, e Lee e Lifeson desenvolverem seus lados musicais, quatro faixas estavam prontas: "The Spirit of Radio", "Freewill", "Entre Nous" e nossa Maravilha de hoje, "Jacob's Ladder".

Alex Lifeson, Neil Peart e Geddy Lee.
O Rush em pleno trabalho de criação, outubro de 1979

De lá, partem para o Sound Kitchen, um estúdio em Toronto, para registrarem as demos dessas quatro faixas, e logo em seguida, em setembro de 79, já estavam novamente com o pé na estrada para apresentar duas delas ao seu público, no caso "The Spirit of Radio" e "Freewill". "Entre Nous" e "Jacob's Ladder" continuaram a ser aperfeiçoadas durante as passagens de som, e então, como dito no início do texto, ainda em setembro isolam-se em Morin Heights para encerrar as gravações. Apenas a menção de Le Studio para os fãs do Rush já traz uma visão romântica sobre aquele período, no que o jornalista Ray Wawrzyniak considera como "o casamento perfeito". 

Vamos às palavras de Peart sobre o local: "Le Studio é um local maravilhoso, aninhado no vale das montanhas Laurentian, cerca de 60 milhas (100 kms) ao norte de Montreal. Está situado em 250 acres de terreno acidentado e arborizado, ao redor de um lago particular. Em uma extremidade do lago fica o estúdio, e na outra, a cerca de uma milha (pouco mais de 1,5 km), está a casa de hóspedes luxuosa e confortável. Nós nos deslocávamos de bicicleta, barco a remo, a pé, ou, por preguiça ou mau tempo, de carro. Chegamos no auge da glória plena do outono, e ficamos lá durante um autêntico Verão de São Martinho (Indian Summer em inglês), e saudamos a chegada da neve e do inverno, tudo isso nas nossas quatro semanas de estadia.". 

Neil Peart

Peart continua, agora comentando sobre o estúdio em si: "O local de gravação é, obviamente, nada menos que excelente em todos os sentidos. A própria sala tem uma parede inteira de vidro, com vista para um cenário espetacular do lago e das montanhas. Isso está em contraste direto com a maioria dos estúdios, que são mais como cofres isolados e atemporais, o que, nesse aspecto, claro, não é necessariamente ruim. Nós trabalhamos sob a luz do sol, e dava pra observar a mudança das estações nos momentos de descanso, em vez de ter uma visão pouco iluminada e esfumaçada de equipamentos musicais e eletrônicos". 

Com esse ambiente em sua volta, a amizade entre os três membros da banda tornou-se ainda mais forte, ensaiando e gravando durante o dia, e jogando vôlei durante a noite, tornando-se um lugar definido por Lee como "especial em nossos corações". Definitivamente, não havia local melhor para Permanent Waves ser concebido. 

Encarte de Permanent Waves, com a dedicatória em “The Spirit of Radio”

Lançado em 14 de janeiro de 1980, o álbum abre com "The Spirit of Radio", justamente trazendo a ideia da importância do rádio para a música, sendo esta uma das canções mais comerciais - e não à toa, de maior sucesso - da história do trio canadense misturando elementos do rock principalmente com o reggae. Como lembra Lifeson: "estávamos sempre tocando reggae no estúdio, e costumávamos fazer a introdução de 'Working Man' nesse estilo durante os shows, e foi então que isto logo tornou-se 'The Spirit of Radio'. Pensamos que fazer um reggae iria nos fazer sorrir e ter um pouco de diversão". O Rush passou a tocar nas rádios frequentemente pós-"The Spirit of Radio", que talvez só seja batida em termos de popularidade por "Tom Sawyer". 

Vale lembrar que no encarte do álbum, há uma inscrição que diz: "inspirado pelo 'espírito do rádio' de Toronto, vivo e bem (até agora)", em uma homenagem à David Marsden, o cara responsável por lançar o Rush nas rádios, anos antes, quando era funcionário da CHUM-FM, de Toronto, tocando canções do primeiro disco do grupo. O nome da canção é uma homenagem ao slogan criado por David para a rádio e o programa que ele estava em 1979, a CFNY-FM, de Toronto.

Parte frontal do encarte

O álbum segue com "Freewill", outra faixa que traz esse sentido de novos ares para o Rush, principalmente na letra, e então, fechando o lado A, nossa maravilha. Na Bíblia, a Escada de Jacó é uma escada que leva ao Céu, sendo retratada em um sonho que o Patriarca Jacó teve durante a fuga de seu irmão Esaú, no Livro do Gênesis (capítulo 28:10-19). Trago aqui o trecho da citação bíblica:

"E Jacó saiu de Beer-Sabá e foi em direção a Harã... ele pegou uma das pedras do lugar, colocou-a sob a cabeça e deitou-se ali para dormir. E ele sonhou, e eis uma escada erguida na terra, e o topo dela alcançava o céu; e contemplem os anjos de Deus ascendendo e descendo sobre ela ... A terra onde jazes, a ti a darei e à tua descendência. E a tua semente será como o pó da terra, e espalharás para o oeste, para o oriente, para o norte e para o sul. E em ti e em tua descendência todas as famílias da terra serão abençoadas..."

O significado do sonho tem sido debatido e causado diversas interpretações, mas a maioria delas concorda que Jacó é colocado diante de suas obrigações e da herança do povo escolhido por Deus. Os anjos subindo e descendo da escada podem significar a própria vinda e ascensão dos homens à Terra. De qualquer forma, a inspiração do sonho, e da construção da escada, influenciou os meteorologistas a batizar o fenômeno meteorológico onde a luz do Sol rompe nuvens durante uma tempestade, ou até em dias fechados, exatamente de Escada de Jacó. 

Geddy Lee

E este fenômeno esteve no Le Studio, e com a visão das luzes do Sol nas paredes de vidro do estúdio, Peart teve a inspiração para criar esta obra-prima. Conforme seu relato: "A maioria das ideias que lidamos dessa vez eram menores e, em alguns casos, como em 'Jacob's Ladder', vistas como uma ideia cinematográfica." Ele segue: "Criamos toda a música primeiro para evocar uma imagem – o efeito da Escada de Jacó – e pintar o quadro, com as letras adicionadas só como um pequeno detalhe, depois, para torná-la mais descritiva." Era o início do Rush começando a criar pequenas peças cinemáticas, que seriam muito bem exploradas em Moving Pictures

Fechando a concepção de nossa Maravilha, Neil nos conta que "na letra, eu retiro muitas referências da Bíblia, pois ela é uma fonte muito colorida de imagens. Eu não cresci em um meio religioso, mas cercado por religião, indo à escola dominical e tendo lições de educação religiosa na escola. Então, todas estas coisas sugerem elas mesmas como metáforas. 'Escada de Jacó' é uma frase adorável, aquelas duas palavras por si só. E de fato nós iniciamos com isto. Antes de qualquer letra ser escrita, falamos sobre a imagem de uma 'Escada de Jacó', de um céu nublado se aproximando, e de repente, todos estes feixes de luz que todo mundo viu. Isto foi muito inspirador para mim, mas nós tivemos a mesma experiência em comum. Então, nós criamos a música a partir daquela visão, ou imagem, e escrevemos o som inteiro. Depois, escrevi alguns versos para fazer a imagem mais acurada, e também para trazer os vocais como mais um instrumento sonoro".

Alex Lifeson

Um fenômeno lindo só poderia gerar uma música linda. O baixo surge marcando o tempo junto de um longo acorde de sintetizador, trazendo o dedilhado da guitarra e as batidas marciais de Peart, em uma introdução enigmática, até que a guitarra passa a fazer os mesmos acordes do baixo. A voz de Lee surge sobre camadas de sintetizadores, trazendo a letra:

"The clouds prepare for battle

In the dark and brooding silence

Bruised and sullen stormclouds

Have the light of day obscured

Looming low and ominous

In twilight premature

Thunderheads are rumbling

In a distant overture"

"As nuvens se preparam para a batalha

No silêncio escuro e sombrio

Nuvens de tempestade roxas e carrancudas

Ocultaram a luz do dia  

Aproximando-se baixas e ameaçadoras

Num crepúsculo prematuro

As nuvens de trovoada ribombam

Numa abertura distante"

A medida que Lee vai cantando, a canção vai tornando-se cada vez mais tensa, até explodir com as batidas de Peart. Lifeson e Lee soltam notas longas que fazem a base para o lindo solo de Lifeson, carregado de eco e muitos, mas muitos bends e notas agudas. Um dos solos mais lindos de sua carreira, sem exagerar nas notas rápidas, apenas sentimento puro, solando simples enquanto baixo, teclados e bateria conduzem-no para romper o céu. Eis que então "Jacob's Ladder" ganha mais tensão, com baixo, guitarra e bateria fazendo o ritmo  igualmente, como nuvens chocando-se para criar trovões, utilizando-se de variações sobre seis acordes menores, enquanto o sintetizador apenas faz a camada que interliga tudo para o grande clímax da canção. 

De forma etérea, entre os sons de sintetizadores que surgem nas caixas de som, novamente enigmáticos, trazendo ao ouvinte a sensação das nuvens no espaço, soltas, e um céu fechado a ser colorido conforme se queira pelas luzes do Sol. A voz robótica de Lee surge, na mesma melodia do sintetizador Oberheim:

"All at once,

The clouds are parted

Light streams down

In bright unbroken beams"

"De repente,

As nuvens se abrem

A luz jorra lá de cima

Em raios brilhantes e contínuos"

Uma escada de Jacó, flagrada no Japão

Então, a 'Escada de Jacó' começa a ser pintada pelo Rush em seu céu imaginário, após as batidas dos sinos tubulares, começando com a guitarra de Lifeson fazendo seu dedilhado, e com pequenas batidas que lembram pinceladas suaves, cada raiar de luz jorrar das nuvens, as quais vão se tornando mais agressivas na medida que Peart impõem ritmo "à pintura", como mais raios de luz rasgando o céu. Lee também faz marcações com seu baixo, enquanto o sintetizador passeia seu pincel junto com a guitarra e a bateria para criar a mais perfeita ilustração deste céu iluminando-se. Tudo encerra-se com guitarra e baixo solando juntos, enquanto Peart dá um show à parte, concluindo uma obra prima, seja no céu imaginário, seja na audição real, com batidas fortes de guitarra, baixo e bateria, trazendo então a voz de Lee:

"Follow men’s eyes

As they look to the skies

The shifting shafts of shining

Weave the fabric of their dreams…"

"Siga o olhar dos homens

Enquanto fitam os céus

Os raios mutáveis e brilhantes

Tecem o tecido de seus sonhos"

Um pouco mais do Rush no Le Studio

Assim, de forma avassaladora, a letra é concluída, mostrando como os homens estão fascinados com o que veem no céu, ao mesmo tempo que estamos todos fascinados com o que ouvimos nas caixas de som, deixando apenas o ritmo marcial do baixo e os longos acordes de teclados ressoando pela sala para podermos refletir sobre a tempestade musical que passou. Fantástico. 

O lado B segue com mais uma faixa bem comercial, "Entre Nous", seguida por "Different Strings", com seu complexo andamento que exigiu de Peart o uso de um metrônomo para concluí-la, e outra Maravilha Prog, "Natural Science". Mas esta é papo para outra postagem. 

Contra-capa de Permanent Waves

Permanent Waves atingiu a quarta posição nas paradas dos Estados Unidos, onde recebeu ouro (500 mil cópias vendidas) apenas três meses após seu lançamento - e posteriormente, em 1987, tornou-se platina, com um milhão de cópias vendidas - e número três no Reino Unido e Canadá. O single de "The Spirit of Radio" foi o primeiro dos canadenses a superar o Top 30 nas paradas estadunidenses. 

O grupo partiu para mais uma longa turnê, retornando ao Le Studio para gravar aquele que é considerado sua obra-prima, Moving Pictures. Porém, encerro por aqui - por enquanto - as Maravilhas Progs do Rush, lembrando que em janeiro, o Rush novamente estará entre nous - e eu estarei lá novamente para vê-los.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Zé Ramalho - Coletiva de Música Paraibana [2018]

Em 26 de maio de 1976, um dos momentos mais importantes, e menos conhecidos, da carreira de Zé Ramalho acontecia no palco do Teatro Santa Rosa, na Paraíba. Durante muitos anos se falou sobre o tal incidente no qual Zé supostamente "teria cortado os próprios cabelos em pleno palco durante um acesso de fúria e indignação", mas isso parecia mais uma lenda urbana, tal qual a associada ao álbum Paebirú, e seu misterioso desaparecimento das lojas por conta da enchente do rio Capibaribe em Pernambuco. 

Mas, eis que a gravadora Discobertas, através de uma verdadeira escavação nos arquivos pessoais do bardo paraibano, encontrou a tal apresentação, e em 2018, trouxe ao mundo no formato de vinil. Mas é a edição em CD, de 2021, que chama a atenção, por trazer o show praticamente na íntegra, e o tal momento lendário sendo conferido para ver como realmente foi o que aconteceu naquela noite quente em João Pessoa. 

Raro compacto do The Gentlemen

Até chegar o dia 26 de maio de 1976, é necessário contextualizar o momento pelo qual Zé passava na época. José Ramalho Neto torna-se Zé ramalho muito cedo. Tendo perdido o pai ainda criança, o menino da Paraíba foi criado pelo avô, que lhe passou ensinamentos sobre culturas e tradições do nordeste na quase provinciana João Pessoa dos anos 50 e 60. Quando adolescente, no final dos anos 60, Zé passa por alguns grupos, dentre eles Os Demônios - ainda estudante do colégio Pixo X -, Os Quatro Loucos, substituindo o guitarrista Vital Farias, com quem participou de festivais em João Pessoa, Eles e The Gentlemen, estas já no início dos anos 70, que levou Zé a sair do estado, tocando nas redondezas em cidades do Pernambuco e de Alagoas, inclusive gravando um compacto (Cristina) pelo selo Rozenblit, hoje, raríssimo, assim como seu único álbum, auto-intitulado, de 1972. 

Os anos passaram e Zé tenta buscar a sorte no Rio de Janeiro, onde participa da última edição do Festival Internacional da Canção, de 1974, e conhece Geraldo Azevedo, com quem iria fazer parcerias importantes tempos depois. Isolado em uma casa de praia, emprestada por uma tia, a qual batizou de Vila Do Sossego, Zé passa a criar canções que se tornariam sucesso em sua carreira, em um período que o próprio chama de Trimestre Das Revelações. Grava, ao lado de Lula Côrtes, o cultuado Paêbirú, com toda sua mitologia por trás da qual vou passar em branco aqui.

Zé na banda de Alceu Valença. Em ordem: Dircinho, Zé da Flauta,
Israel Semente, Paulo Rafael, Zé Ramalho,
Agricio Noya. Alceu Valença no centro

Em 1975, ano de lançamento de Paêbirú, Zé começa a chamar atenção do meio musical na cidade do Rio de Janeiro (RJ) como integrante da banda do cantor pernambucano Alceu Valença, destacando-se no Festival Abertura daquele ano, promovido pela Rede Globo. Foi nele que Marília Gabriela, apresentadora do mesmo, cunhou o nome Zé Ramalho da Paraíba. Participa como violonista do álbum Vivo!, lançado por Alceu Valença em 1976, mas um desentendimento com Alceu fez Ramalho deixar a banda e voltar para João Pessoa (PB). É lá que nosso herói decide investir em shows solo, cantando suas músicas. Em parceria com o poeta Pedro Osmar, organiza a Coletiva de Música Paraibana, e nela, Zé exorciza seus demônios de não ter vingado no Sul, preparando um roteiro que iria abalar à todos os que o conheciam, utilizando uma tesoura para tosquear seu passado em pleno palco, como protesto contra a mídia, e tendo uma surpresa extra nessa sua manifestação. 

Lançado em vinil originalmente no ano de 2018, e em CD em 2021, com duas bônus, o show conta apenas com Zé na voz e violões, e abre com "O Sobrevivente", no qual Zé entoa o poema de Carlos Drummond de Andrade, contando sobre as dificuldades de se ser um artista, mostrando já a animosidade e decepção que corria pelo sangue de Zé naquele tempo. Seguimos com "Jardim Das Acácias", levada apenas pelo violão de Zé, e muito fiel ao que viemos conhecer, algum tempo depois, no álbum A Peleja Do Diabo Com O Dono Do Céu (1979), mas com mais improvisos vocais, que fazem a canção atingir nove minutos, levando ao primeiro discurso de Zé na noite, "Discurso 1", que é o primeiro bônus do CD. 

Zé no polêmico show de 50 anos atrás

Zé começa falando que "é um dia muito bonito, importante para falar um monte de coisas para vocês ... " e assim ele começa a fazer seu discurso a favor dos artistas paraibanos, que sofrem o preconceito das mídias, taxados de marginais e maconheiros, repudiados, e que a coletiva paraibana surge para firmar o lugar do músico paraibano. As forças das palavras de Zé impactam, detonando os críticos de música e defendendo o artista paraibano, e na sequência, ele chama ao palco dois músicos que irão lhe acompanhar na próxima canção, Paulinho e Israel, e emenda, emocionado, que "essa música que nós vamos tocar é muito especial para mim, permita-me abusar disso, Mas é que há três dias atrás faleceu meu avô, talvez a única criatura honesta que eu tenha conhecido no mundo, foi ele quem me criou, saindo do sertão, do brejo. Eu nunca tive pai, então vovô fez o papel de avô, de pai, e antes de morrer, fez o papel de filho também, para mim. Avôhai é uma palavra mágica, significa avô e pai. Vovô, esteja em paz, e tenho certeza que está aqui, me olhando". Com mais de dez minutos de duração, "Avôhai" é uma dolorida declamação de amor ao avô-pai de Zé Ramalho, surgindo com um tema nordestino na viola e nas vocalizações, seguindo com os acordes atemporais de um dos maiores sucessos da carreira do paraibano, acompanhado aqui apenas pela percussão e violão. 

Chegamos então no ponto de êxtase do show, registrado como "Discurso 2", o segundo bônus do CD, e que é o momento no qual Zé, descrente de seu futuro como artista, começa seu sacrifício, e que chegou a hora da tesoura. Então, ele explica que "durante sete anos, esse cabelo de louco representou para essa cidade ... em cada fio de cabelo desse daqui, tem dez histórias para contar". Enquanto ele vai fazendo seu discurso, ele começa a cortar seu cabelo em pleno palco, um cabelo cuidado durante 7 anos. A plateia, embasbacada, reage de forma incomodada enquanto ouvimos o discurso agressivo de Zé, e os "tics" da tesoura cortando as "belas madeixas carregadas de piolho, lacraias, lama". Zé provoca a plateia, chegando a se irritar com um dos presentes que o provoca: "quer vir cortar meu irmão, queria que vocês encarassem isso com muito respeito, por que se você nunca teve peito de deixar um cabelo crescer assim, você fique na sua meu irmão", e segue exalando sua tristeza, sua decepção, sua raiva e frustração, cortando o cabelo, fazendo seu sacrifício. 

"Vocês passariam sete anos, criando um filho, para depois matá-lo?". Enquanto corta o cabelo, citando Sansão, surgem um momento que a plateia acaba não resistindo, caindo em risadas quando um dos presentes diz que "mas eu que queria cortar" e Zé responde "chegue amor, venha, vou lhe dar um beijo na sua boca ... vem mostrar que você é paraibano". Zé faz uma crítica ao fato de o chamarem de Zé Ramalho da Paraíba, e encerra seu ato quebrando uma TV em pleno palco (infelizmente não registrado no CD e tão pouco no LP), dedicando uma homenagem para o colega Alceu Valença, entoando então a bela "Espelho Cristalino", junto de "Adeus Segunda-Feira Cinzenta", canção de Alceu Valença unida a obra criada pelo próprio Zé em mais de nove minutos de lindas explorações musicais nos violões e na interpretação dolorida dos vocais do paraibano. 

Texto no encarte do CD

Fechando o show, "A Dança Das Borboletas", outra parceria de Zé com Alceu, com um clima bastante soturno em sua introdução, no qual novamente Zé usufrui de interessantes vocalizações, e a interpretação hipnotizante do violão torna os quase dez minutos da canção uma perfeita ode ao musicalismo do interior da Paraíba, além de fazer citações ao cangaço e também entoar trechos de "Vem Vem", de Geraldo Azevedo

São as presenças dos "Discursos" os pontos principais desta edição em CD, pois são registros históricos de um momento ímpar na carreira de Zé, e que haviam aparecido no CD Zé Ramalho Da Paraíba, de 2008, mas agora surgem exatamente do momento onde foram entoados. Na sequência, no segundo semestre de 1976, Zé, determinado a buscar um novo destino em sua vida, montou seu show de despedida de João Pessoa (PB), Um dia Antes da Vida (registrado no CD homônimo, também lançado pela gravadora Discobertas), que fecha o ciclo inicial da trajetória artística do cantor na sua terra natal. Dois dias depois deste show,  embarcou para o Rio, onde, através da indicação de Nelson Motta, assina contrato com a gravadora CBS (via selo Epic) para fazer, em 1977, o primeiro álbum solo, Zé Ramalho, lançado em 1978.

Dali em diante, Ramalho virou nome nacional na MPB e essa fase inicial em João Pessoa (PB) se tornou a pré-história da carreira do cantor, deixando uma história pouco conhecida fora da Paraíba, e que felizmente foi resgatada para o deleite dos fãs e dos admiradores da Música Nacional Brasileira. Busque este e outros lançamentos da Discobertas (em especial, Atlântida, Um Dia Antes da Vida e Cine Show Madureira 1979), e descubra uma das melhores fases de um artista nacional, principalmente por ser embrionária, crua, e simplesmente dilacerante. 

Contra-capa do CD

Track list

1. O Sobrevivente

2. Jardim Das Acácias

3. Discurso 1

4. Avôhai

5. Discurso 2

6. Medley: Espelho Cristalino / Adeus Segunda-Feira Cinzenta

7. A Dança Das Borboletas

terça-feira, 26 de maio de 2026

40 Anos de The Final Countdown

Há 40 anos, o mundo da música voltava seus olhos para a Suécia. Depois de 5 anos do fim do ABBA, o país escandinavo conseguia novamente colocar sua bandeira entre as maiores nações da música, batendo de frente com Estados Unidos e Inglaterra, através de um disco que marcou época: The Final Countdown. O terceiro disco do Europe foi lançado em 26 de maio de 1986, e alcançou nada mais nada menos que a oitava posição na parada da Billboard estadunidense, bem como primeira posição em diversos países europeus, além de várias posições altas em diversos outros charts mundo afora. 

O Europe era uma banda de relativo sucesso dentro do mercado sueco. Com dois discos lançados (Europe, de 1983, e Wings of Tomorrow, de 1984), em 85 ocorre uma grande mudança na formação do Europe. Sai o baterista Tony Reno e entra Ian Haughland, além do tecladista Mic Michaeli, tornando o quarteto Europe agora um quinteto. Ao mesmo tempo, o grupo já estava começando a preparar o novo álbum, que tinha como principal objetivo tentar conquistar o - complexo - mercado estadunidense. 

Cartaz de On the Loose,
destacando Joey Tempest

As primeiras canções escritas foram "Rock the Night" e "Ninja", as quais surgiram durante a turnê de divulgação de Wings of Tomorrow. Porém, ainda em 1985, algo acontece que muda totalmente a história do Europe. O diretor Staffan Hildebrand convida Joey Tempest, vocalista do grupo (vale aqui lembrar os outros músicos da banda, John Norum na bateria e John Levén no baixo, além de Haughland e Michaeli, sendo esta a chamada formação clássica dos suecos) para fazer a trilha sonora do filme On The Loose

Tempest entregou a faixa solo "Broken Dreams", que junto com "Rock the Night" e "On the Loose", saíram em um EP, em abril de 1985, que era vendido nos cinemas suecos antes da apresentação do filme, e hoje tornou-se uma raridade cobiçada pelos fãs, principalmente fora da Escandinávia. O grupo também aparece no filme, interpretando ao vivo "Rock the Night", que também saiu em um single exclusivo (com uma regravação de "Seven Doors Hotel", faixa do primeiro disco da banda, no lado B), e isto fez grande sucesso, levando o single de "Rock the Night" a alcançar número 4 nas paradas suecas. 

Devido ao enorme sucesso de On the Loose e "Rock the Night", o Europe saiu para uma grande turnê em sua terra natal durante todo 1985, apresentando três novas canções: "Danger on the Track", "Love Chaser" e a balada "Carrie", que inicialmente era apenas com teclados e vocais. Ao mesmo tempo, novas canções começavam a surgir. Eis que então, após a longa turnê, e com mais algumas canções na bagagem, o grupo entra nos estúdios para gravar seu terceiro e grandioso disco, em setembro de 1985, no Powerplay Studios de Zurich, Suíça, tendo como produtor o estadunidense Kevin Elson, o qual tinha no currículo o Journey, e sabia a receita de como "conquistar" o mercado dos EUA.

O Europe no encarte de The Final Countdown

Com mixagem no Fantasy Studios dos Estados Unidos, a cargo de Elson e Wally Buck, durante o março de 1986, além da masterização de Bob Ludwig na clássica Masterdisk, The Final Countdown chegou às lojas, como citado acima, exatamente em 26 de maio de 1986, e já abre com aquele que para mim é o maior clássico do grupo, a faixa-título "The Final Countdown". Tenho esta música como "Anna Julia" é para o Los Hermanos, ou "White Rabbit" é para o Jefferson Airplane, ou seja, uma canção atemporal de uma banda, mas que nada tem a ver com a banda em si, sendo basicamente totalmente diferente de tudo o que foi feito antes ou depois, mas que mesmo assim, é inegável sua importância, goste ou não. 

Single de "The Ginal Coutdown"

"The Final Countdown" começa com os barulhos de sintetizadores que levam para um dos mais conhecidos riffs de teclados de todos os tempos, em um crescendo mágico (na linha do que é a introdução de "Mr. Crowley", de Ozzy Osbourne), trazendo então o Europe no ritmo cavalgante, para a repetição do riff intodutório. Esse riff havia sido criado anos antes por Tempest, em uma brincadeira de estúdio provavelmente no final de 1981, início de 1982 que acabou evoluindo para algo que seria a faixa de abertura dos shows do Europe. Levén sugeriu que Tempest deveria escrever uma canção baseada naquele riff e assim, inspirado por "Space Oddity", de David Bowie, o vocalista criou  o maior clássico da história dos suecos. Os vocais de Tempest rememoram a história de Bowie, pegando exatamente da contagem final. É impossível não se contagiar pela canção, com backing vocals bem encaixados que facilmente nos fazem reproduzi-los, assim como a ampla citação ao nome da canção, que gruda literalmente na cabeça. 

Norum manda ver no seu solo, o qual considero ainda hoje o mais bonito de sua carreira, e voltamos para a intro, repetindo o refrão e concluindo uma das melhores músicas do hard oitentista com a voz de Tempest sendo repetida em sua mente, e o jogo já ganho a partir daqui. Uma nota adicional é que durante as gravações do álbum, Tempest teve uma reação alérgica a produtos com trigo, forçando o vocalista a mudar sua dieta para conseguir completar o álbum. Para se ter uma ideia, "The Final Countdown" teve os vocais gravados em Estocolmo, enquanto a banda permaneceu na Suíça, enquanto os vocais das demais canções foram regravadas, de última hora, na Califórnia. De qualquer forma, se tornou um baita sucesso! A canção tornou-se obrigatória desde então nas apresentações do grupo, tendo sido apresentada pela primeira vez no show que o grupo fez em Gävle, Suécia, em 29 de abril de 1986. Eu acho que ouvi essa música quando tinha três, no máximo quatro anos. Tenho uma vaga lembrança de sair - ou entrar - de um cinema na minha cidade, Pedro Osório, levado pelas mãos de minha mãe, e de ficar impressionado com aqueles teclados, e ainda hoje, passados 40 anos, me emociono sempre que ouço a canção, que automaticamente me traz uma saudosa memória de minha falecida mãe. Onde quer que ela esteja, além de minhas memórias, certamente ela foi uma das responsáveis por me tornar o colecionador de discos e aficcionado por música que me tornei.

Single de "Rock the Night"

Seguindo com o disco, Norum comanda o riff pesado e as alavancadas da intro de "Rock the Night", já presente no citado On The Loose. Para The Final Countdown, o Europe fez pequenas mudanças sonoras, tirando a parte mais crua do que foi gravado em 1985, e um pouco mais "limada". O baixo pulsa ao invés de cavalgar como em "The Final Countdown", e aqui, Tempest não está exagerando nos vocais, tornando a canção bem agradável do que está presente na bolachinha. Mais um refrão contagiante e grudento, e Norum fazendo dois solos bem virtuosos, com boa velocidade nos dedos. Se o jogo estava ganho em "The Final Countdown", aqui o Europe já está controlando totalmente o campo, e com apenas 15 minutos de audição, decreta a goleada sonora deste disco com a baladaça "Carrie".

Single de "Carrie"

Como ela era uma canção apenas para piano e voz, para The Final Countdown ela recebeu o time completo. O piano elétrico de Michaeli surge com outro riff inesquecível e mágico, para acompanhar a voz dolorida de Tempest, comentando sobre o fim de um relacionamento, lembrando que Carrie, a menina, nunca existiu de verdade - ao menos com este nome - segundo o vocalista. A entrada do Europe vai crescendo a canção, que explode no refrão entoando o nome de "Carrie", e pronto, estamos já fãs de Europe. Três canções que são a melhor representação do que foram os anos 80 musicalmente, com teclados e sintetizadores dominando as camadas sonoras, bases quadradas e simples de baixo e bateria, guitarristas fillers e repletos de virtuose, e um vocalista exageradamente gritante, e que para muitos, é exatamente o que torna os anos 80 terrível, mas para mim, é o espetáculo musical extremamente excelente. Ouçam o solo de Norum em "Carrie" e deleitem-se com algo simples, mas belíssimo, e a faixa encerra-se com uma bonita partipação dos teclados.

Voltamos aos hards mais tradicionais em "Danger on the Track", com um riff combinado de teclados, guitarras e baixo, sem ser no ritmo pulsante, e um ótimo trabalho vocal. Para quem ainda não pegou, o trabalho de construção do Europe mostra-se novamente simples mas grudento, com estrofe refrão-estrofe-solo construídos perfeitamente para o fã cantar. Admirem o solo de Michaeli aqui, lembrando bastante Jon Lord nos anos 70, já que ele utiliza um hammond para o tal, e também o bom solo de Norum, com muitos bends e velocidade. O lado A fecha com "Ninja", faixa mais veloz, cujo riff rapidamente me remete à "Lights Out" (UFO), em uma canção bastante animada, que também poderia figurar como trilha de Animes como Demon Slayer ou Naruto. Segunda faixa mais antiga do disco, eu curto bastante o solo de Norum aqui, utilizando notas mais agudas e vibratos. Podem me chamar de louco, mas tenho muita certeza que há forte inspiração em Michael Schenker para esta canção. 

Pôster que acompanha a versão original sueca
Single de "Cherokee"

O lado B surge com as batidas e o refrão grudento de baixo, guitarra e teclados para "Cherokee", faixa inspirada nos nativos americanos (mais um indicativo de quem eles queriam conquistar), sendo um hardão tipicamente oitentista, com os exageros vocais de Tempest tomando conta das caixas de som, e destacando o baixo marcante de Levén, além do forte refrão e dos belos solos de Norum e Michaeli, este último me remetendo facilmente ao solo de Eddie Van Halen em "Jump". Esta foi a última canção criada para o álbum, ficando pronta uma semana antes das gravações na Suíça, e acabou se tornando o quarto single a ser lançado daqui. Seguimos com os teclados e as vocalizações que abrem "Time Has Come", uma bonita balada inicialmente, que ganha bastante dramaticidade com a entrada do violão, mas, com a entrada da guitarra, baixo e bateria, torna-se outro potente hard oitentista, onde o solo de Norum aqui não é recheado de fillers, mas sim mais pegado e com belos bends e vibratos, como uma boa balada farofa exige.

O single de “On the Loose”,
ainda como trilha do filme

"Heart of Stone" mantém o padrão oitentista de refrão forte e muito teclado, mas aqui, com Norum fazendo mais estripulias em seu ótimo solo, até com uma pegada mais bluesy no início, mas detonando notas rápidas na sequência. A veloz "On the Loose" nos leva para a reta final do álbum, e também ao já citado filme, com outro magnifico solo de Norum, exalando virtuosismo em notas muito velozes e o nome da canção grudado na nossa mente, fechando com "Love Chaser", iniciando com os teclados que nos remetem a "The Final Countdown", mas logo após, a entrada da guitarra e do baixo cavalgante modificam essa ideia, sendo uma faixa mais simples, onde os teclados e as vocalizações se sobressaem junto de mais um refrão marcante. 

Cinco singles foram lançados de The Final Countdown: "The Final Countdown", "Love Chaser", "Rock the Night", "Carrie" e "Cherokee.". Tempest sugeriu a faixa título como primeiro single, apesar dos demais quererem 'Rock The Night", já que achavam que a canção, por ser diferente das demais do grupo, jamais se tornaria um hit. Porém, a gravadora concordou com Tempest, e então, o compacto da faixa-título atingiu o primeiro lugar em 25 países, incluindo os charts britânicos, onde permaneceu na primeira posição por duas semanas, França e Alemanha, chegando a oitava posição nos Estados Unidos. Já seu vídeo tem mais de 1,3 bilhões de visualizações no YouTube.

Single de “Love Chaser” na trilha
de World Grand Prix Pride One

O single de "Rock the Night" também saiu-se relativamente bem, conquistando segunda posição na Bélgica e Holanda, décima segunda no Reino Unido e vigésima segunda nos Estados Unidos, país onde o single de "Carrie" é o que atingiu a maior posição, chegando no terceiro lugar, e curiosamente atingindo como máximo apenas a décima posição na Irlanda e Suíça, fracassando nos demais países. "Cherokee" não conseguiu emplacar na Europa, e atingiu a modesta posição 72 nos Estados Unidos. Por fim, há também o raro single de "Love Chaser", lançado apenas no Japão, e que não emplacou por lá. Além disso, a canção está na trilha do filme World Grand Prix Pride One, em versões cantada e instrumental, assim como "Carrie" surge na trilha da mesma forma.

A banda começou a turnê de promoção de The Final Coundown no citado show de 29 de abril. O álbum era para ter saído um pouco antes disso, mas acabou atrasando devido a problemas com a capa. No dia do lançamento do disco, há 40 anos, o Europe encerrava a parte sueca da turnê com a segunda apresentação em dois dias (25 e 25) na cidade de Solna, no Solnahallnen, os quais foram filmados para uma transmissão televisiva que acabou culminando no clássico VHS/DVD The Final Countdown Tour ’86 (que originalmente, saiu somente - obviamente - no Japão).

Na sequência, foi a vez dos nipônicos receberem o Europe, onde eram tratados como deuses. O grupo aterrisou por lá em setembro de 1986, fazendo quatro show em Tóquio e ainda concertos em Nagoya e Osaka. Porém, apesar do sucesso, nem tudo era festa nos camarins do Europe. Norum sentia-se cada vez mais incomodado com as diferenças musicais que o Europe havia se tornado, bem como mostrava grande insatisfação com os caminhos que o empresário da banda, Thomas Erdtman, estava dando para os suecos. Em comum acordo, Norum decidiu ficar para a segunda parte da turnê sueca, a qual começou em Örebro no dia 26 de setembro de 1986, assim como a perna europeia, que incluiu apresentações em TVs locais e entrevistas. Porém, em 31 de outubro de 1986, após uma apresentação em Amsterdam, Holanda, Norum pulou da barca, alegando insatisfação com a quantidade de teclados no som do grupo, os quais, segundo ele, enterraram as guitarras.

VHS que cobriu a turnê do
quarentão The Final Countdown

Norum foi então substituído por Kee Marcello (ex-Easy Action), o qual estreia nos clipes de "Rock the Night", "Cherokee" e "Carrie", surgindo oficialmente ao público na apresentação de 12 de dezembro de 1986 na Alemanha, durante o Peters Popshow de Dortmund. Ainda na sequência da turnê, a apresentação no Hammersmith Odeon de 1987 acaba tornando-se o cobiçado VHS/Laser Disc The Final Countdown World Tour

Como curiosidade, anos depois, em 2007, oito das dez faixas do LP aparecem no filme Hot Rod. E para encerrar, The Final Countdown vendeu muito. Conquistou a primeira posição na Suécia (platina, com 100 mil cópias vendidas), Espanha (platina quádrupla, com 400 mil cópias vendidas), Finlândia (platina, com 70 mil cópias vendidas), e Suíça (platina, com 50 mil cópias vendidas), segunda na Itália, terceira na Austrália (platina dupla, com 140 mil cópias vendidas), Holanda (ouro, com 80 mil cópias vendidas) e Nova Zelândia, quarta na Noruega (platina, com 100 mil cópias vendidas), quinta na Áustria, sexta no Canadá (platina dupla, com 200 mil cópias vendidas) e Alemanha (ouro, com 250 mil cópias vendidas), oitava nos Estados Unidos (platina tripla, com 3 milhões de cópias vendidas) e nona no Reino Unido (ouro, com 100 mil cópias vendidas). O aniversariante já ultrapassa a marca de 12 milhões em vendas ao redor do mundo. 

Contra-capa do LP

Track list

1. The Final Countdown

2. Rock the Night

3. Carrie

4. Danger on the Track

5. Ninja

6. Cherokee

7. Time Has Come

8. Heart Of Stone

9. On The Loose

10. Love Chaser





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