sábado, 18 de julho de 2026

Ronnie Von - Ronnie Von [1972]


De um fracasso retumbante no final dos anos 60 a um sucesso cult extraordinário anos depois, Ronnie Von foi obrigado a modificar sua carreira musical diversas vezes. E em uma delas, ele foi tão audacioso quanto sua Trilogia Psicodélica. Com produção de Arnaldo Saccomani, Ronnie Von é - mais um - disco revolucionário na carreira de Ronnie. 

Ronnie em 1972. Tentando voltar ao sucesso?

Muito se fala da famosa Trilogia de Ronnie, a qual, no final dos anos 60, chocou os (e principalmente as) fãs do Pequeno Príncipe. Os discos Ronnie Von (1969),  A Misteriosa Luta do Reino de Parassempre contra o Império de Nuncamais (1969) e A Máquina Voadora (1970) tornaram-se célebres álbuns cult dentro da discografia do niteroiense Ronaldo Lindenberg Von Schilgen Cintra Nogueira, o nosso querido aniversariante (completou ontem, 17 de julho, 82 anos) Ronnie Von, por mudar uma sonoridade ligada ao rock juvenil e ingênuo de seus três primeiros discos, e mostrar uma lisergia, rancor e raivas até então nunca antes ouvida em discos de grandes artistas nacionais. 

Não mesmo. Ronnie ainda desafiou os fãs com uma obra incrível e anti-católica

A Trilogia Psicodélica levou Ronnie do sucesso ao ostracismo em apenas dois anos, vendendo quase nada e tornando os discos originais de época verdadeiras relíquias nas mãos de colecionadores com o passar dos anos, além de virar material de consulta para fãs e admiradores do rock nacional. As capas alucinógenas ajudaram ainda mais a afastar os conservadores seguidores de Ronnie, e hoje, felizmente, os três álbuns passaram a serem reconhecidos como alguns dos melhores lançamentos de rock nacional na história. 

Mas, no início da década de 70, a pressão da gravadora Polydor para que ele voltasse a fabricar um disco que vendesse era enorme. Eis que em 1970, Ronnie teve um contato mais próximo com o espetacular músico Tony Osanah. O ex-líder dos Beat Boys, famoso por acompanhar Caetano Veloso no álbum de estreia solo do baiano (1967), estava envolvido com a cultura afro-brasileira, principalmente do ponto de vista religioso e a umbanda. Nela, ele conheceu a história de um orixá que cuidava das matas e do verde, Oxóssi, e que segundo o próprio Osanah, o inspirou para criar uma "canção que surgiu inesperadamente, ao dedilhar o violão e ter ela pronta em cinco minutos". 

“Minha Gente Amiga” (acima) e “Hei Amigo” (abaixo),
compactos de Ronnie em 1971, indicando a sonoridade que iria vir em 1972

Ao longo de 1971, Ronnie pensava em como retomar a carreira, e para isso, lançou os compactos "Minha Gente Amiga"/"Segundo Motivo" (a mesma "Minha Gente Amiga" que foi regravada pelo Ira! em 1999) e "Hei Amigo"/"É Preciso Aprender", as quatro canções compostas ao lado de Antonio Pedro, apelidado San Martin. Musicalmente, o som traz um Ronnie mais ligado à musica latina, que irá ser ampliado no trabalho de 1972. Estas canções trazem a presença marcante de percussões na linha de grupos como Santana, com apenas "Segundo Motivo" sendo uma balada lindíssima, que lembra os primeiros trabalhos do cantor. Destacam-se aqui os vocais rasgados de Ronnie, algo bem diferente do estilo que ele cantava em seus trabalhos anteriores, além da presença de guitarras lisérgicas/californianas e um hammond endiabrado nas quatro canções. 

Cartaz de divulgação do filme (acima); Ronnie e Marlene França (abaixo),
em cena de Janaína, A Virgem Proibida

Ao mesmo tempo que lançava os dois compactos, Ronnie investiu no cinema. Assim, no final do ano, e início do ano seguinte, participa como ator do filme A Virgem Proibida, de Olivier Perroy. Lançado em 1972, nele Ronnie faz o papel de um artista de sucesso, Ricky Ricardo, o qual decide abandonar a carreira, atormentado pela vida desenfreada dos grandes centros e do convívio com os fãs. Assim, ele foge para as paradisíacas praias de Salvador. Lá, ele acaba se apaixonando por Janaína (Marlene França), uma linda mulher que no fundo é Yemanjá. O filme traz inspirações na cultura afro-brasileira, e uma das canções presentes na trilha do mesmo é "Cavaleiro de Aruanda", a célebre canção de Tony Osanah.

Tony Osanah, o gênio por trás de “Cavaleiro de Aruanda”

A canção surgiu em fevereiro de 1972, quando Osanah teve um inesperado encontro na calçada em frente ao antigo prédio do Mappin, na Praça Ramos de Azevedo, centro de São Paulo. Naquele dia, ele esbarrou em um desconhecido, que "... olhou pra mim e falou que eu precisava de ajuda. Ele parecia um velho índio. Pediu para eu acompanhá-lo e disse que eu nem imaginaria o que ia acontecer na minha vida nos próximos meses". O homem era um pai-de-santo, e levou Osanah para um terreiro. Lá, ele teve uma experiência que até hoje não consegue descrever, mas que quando o músico argentino voltou para casa, "recebeu" a letra e a melodia de "Cavaleiro de Aruanda", sendo que ele afirma que "ela foi psicografada para mim"

Enquanto Osanah tinha seus encontros espirituais, o produtor Arnaldo Saccomani sugeriu a Ronnie buscar auxílio em nomes como o de Tony, e no encontro dos dois, perguntando para Tony se ele poderia colaborar no próximo trabalho, a primeira música a ser apresentada foi "Cavaleiro de Aruanda", que sai na trilha do filme, e também é lançada no raro compacto com . Começava ali a criação de outro disco fantástico na carreira do Pequeno Princípe.

Single de “Cavaleiro de Aruanda”

Ronnie Von chegou às lojas na segunda metade de 1972, e abre com "Cavaleiro de Aruanda". O ritmo percussivo avassalador e a guitarra lisérgica de Osanah nos remetem fácil ao Santana de início de carreira. A bateria e as percussões comandam o ritmo, e Ronnie gasta sua voz, acompanhado por um excelente backing vocal feminino, enaltecendo o cavaleiro do mundo espiritual da umbanda. Quem esperava que Ronnie voltaria calmo, com canções românticas para reconquistar seus fãs, logo de cara vê mais um grande desafio e provocação para seu público com as religiões africanas, e ainda, fazendo uma crítica à Igreja Católica e seus preconceitos.

"Hare Krishna" é mais uma canção com temática religiosa, dessa vez, composta por Ronnie e San Martin. Ronnie estava influenciado por George Harrison, bem como as decepções do beatle com Maharishi, e obcecado lendo Baghavad Gita e O Livro dos Vedas. A letra também afronta o catolicismo "salve o mundo de muitos deuses", e a canção traz os vocais femininos exageradamente gritados, baseada em apenas dois acordes, com um ritmo latino das percussões retomando "Minha Gente Amiga" e "Hei Amigo", onde a guitarra de Osanah é o que brilha. As percussões também estão presentes em "Camping", um rockaço no qual Ronnie está cantando com sua voz bastante rouca e rasgada, em um ritmo que lembra algo do Captain Beyond de Sufficiently Breathless

Compacto angolano de “Aquela mesma Canção”

A dupla Ronnie e San Martin faz a baladinha "Aquela Mesma Canção", essa fácil fácil a mais comercial do disco, que poderia estar nos primeiros discos de Ronnie, assim como "Tereza Cristina", faixa de amor criada por Arnaldo Saccomani para sua namorada, recheada pelo arranjo orquestral de Briamonte. 

De Ronnie e San Martin temos também a jazzística "Eu Era Humano E Não Sabia", outra com a orquestra sendo uma atração a parte, assim como a linha de baixo e o piano. Ronnie novamente está cantando muito, e a guitarra de Osanah brilha fazendo os acordes bases. "Roke Pros Meus Nervos (Nada Neste Mundo)" é uma faixa que me lembra muito o que O Peso faria anos depois no álbum Em Busca Do Tempo Perdido, com aquela pegada Stones no instrumental, e os vocais rasgados e roucos de Ronnie. 

De Eduardo Araújo e Marcos Durães, Ronnie grava "Veja Com Olhos De Ver", um rock com um riff pesado - sim, Eduardo Araújo também teve sua fase roqueira - onde a guitarra de Osanah e o baixo (seria de Willy Verdaguer?), fazem as bases para Ronnie soltar a voz. Essa faixa é carregada de emoção, seja pelos vocais arrebatadores de Ronnie, seja pelos vocais femininos, seja pelo refrão poderoso, pesadíssimo, ou seja pelo quarteto baixo, bateria, piano e guitarra. As alternâncias de andamento são fenomenais. Preste atenção no que Ronnie faz com sua voz na segunda parte, indo de graves à falsetes. E cara, que refrão massa. Uma das melhores canções registradas pelo cantor, cujo final me lembra muito o que o Deep Purple faria depois em "Mistreated". Pena não saber quem é o baterista aqui, pois o cara demole!

Single de “Tempo de Acordar”

Outra que Ronnie está cantando pra caramba é na dolorida balada "E Essa Gente Passa Cantando", uma fabulosa canção, com um arranjo orquestral fenomenal, um arrepiante vocal de apoio, e Ronnie cantando a la Joe Cocker, rasgando sua voz, em gritos dilacerantes. Que música! 

Retomando o lado comercial, Ronnie traz uma boa versão para "I'll Cry My Heart Out For You", batizada de "Tempo de Acordar". A faixa, original de Neil Lancaster e Cliff Corbertt, destaca o piano e uma bela interpretação de Ronnie, além do fantástico arranjo orquestral de José Briamonte. Por fim, aprecie o lado zeppeliano dos violões e da flauta na lindíssima "Céu Vermelho", e ainda, para fechar o álbum, tem mais um rockaço, "Ninguém Vai Me Segurar", embaladão, com um ótimo ritmo de baixo e bateria, e o piano saltando nas caixas de som, lembrando algo de Chicago, porém sem naipe de metais. 

Single português de "Aquela mesma Canção"

Além de "Cavaleiro de Aruanda", tendo "Tereza Cristina" no lado B e que saiu também em Portugal e no Uruguai, foram lançados os compactos de "Tempo de Acordar" (com "Aquela Mesma Sensação" no lado B), somente no Brasil, e em Portugal e Angola, o compacto "Aquela Mesma Canção", com "Ninguém Vai Me Segurar" no lado B. 

Ronnie Von foi um dos discos mais vendidos no Brasil em 1972 (estima-se que em torno de 100 mil cópias, algo que na época, era considerado um excelente número), puxado pelo sucesso de "Cavaleiro de Aruanda", mas acabou caindo no esquecimento com o passar do tempo. O álbum originalmente teria uma capa gatefold, mas acabou saindo em capa simples, com a imagem da gatefold original vindo em um pôster que acompanha o vinil (raríssimo hoje em dia). 

Ronnie em capa de revista de 1971 (acima) e
O gênio Tony Osanah (abaixo)

Após Ronnie Von, a vida de Osanah sofreu uma reviravolta. Ele relata: "Eu vivia sempre tentando alguma coisa nas gravadoras. Era muito jovem, já casado e despreocupado". Logo depois ele fez parte da banda de apoio dos Secos & Molhados, e então, fama e dinheiro entraram na vida do rapaz. Já Ronnie ainda lançaria mais um disco conturbado - e fantástico -, Ronnie Von (1973), antes de entrar de vez no mercado comercial de canções românticas e populares, indo então a naufragar sua carreira musical nos anos 80. 

Apesar do próprio Ronnie considerar um disco abaixo da trilogia psicodélica, eu discordo bastante. Ronnie Von tornou-se obscurecido pela grandiosidade e a busca pelo fenômeno cult de seus três antecessores, mas merece sim no mínimo (se não mais) o mesmo status que eles. Se você não conhece a obra de Ronnie Von entre 1969 e 1973, corra atrás para descobrir algo incrível e único lançado no país. Agora, se você nunca ouviu Ronnie Von, seja por preconceito, seja por puro desprezo, você não sabe o que está perdendo.

Pôster, com a imagem projetada para ser a capa gatefold (acima)
 e a Contra-capa do vinil (abaixo)

Track list

1. Cavaleiro De Aruanda

2. Tempo De Acordar (I'll Cry My Heart Out For You)

3. Veja Com Olhos De Ver

4. Eu Era Humano E Não Sabia

5. Camping

6. Aquela Mesma Canção

7. E Essa Gente Passa Cantando

8. Hare Krishna

9. Tereza Christina

10. Rock Pros Meus Nervos (Nada Neste Mundo)

11. Céu Vermelho

12. Ninguém Vai Me Segurar

quarta-feira, 8 de julho de 2026

45 Anos de Paradise Theater


As efemérides relacionadas ao Styx são bem interessantes no quesito número 6. Dois de seus principais discos completam 50 e 45 anos, respectivamente, em 2026 (e um deles ainda envolve 1996, um ano crucial na história dos estadunidenses de Chicago). Estou falando de Crystal Ball e Paradise Theatre. Hoje, trago a história do segundo, o qual já completou sua efeméride em janeiro, como veremos adiante, deixando para daqui alguns meses a importância dos 50 anos de Crystal Ball.

Styx em 1981. Da esquerda para direita:
Dennis De Young, James “JY” Young, Tommy Shaw, John Panozzo e Chuck Panozzo

O Styx havia lançado Cornerstone em 1979, quarto álbum (nono na carreira dos caras) de uma sequência impecável que consolidou aquela que é considerada a formação clássica, com Dennis DeYoung (vocais, teclados, piano), James "JY" Young (vocais, guitarras), Tommy Shaw (vocais, guitarras, vocoder), e os irmãos gêmeos Chuck Panozzo (baixo, pedal bass) e John Panozzo (bateria, percussão). O álbum trouxe o mega-hit "Babe", responsável por colocar o Styx na segunda posição em vendas nos charts da Billboard, onde permaneceu por 60 semanas.

Porém, o sucesso de "Babe" fez com que o ego de DeYoung, compositor e cantor da canção, inflasse, pressionando por uma direção mais comercial para o som do grupo, enquanto Shaw e Young queriam manter o som mais ligado ao hard/prog de álbuns como Crystal Ball e The Grand Illusion. Durante a turnê de promoção de Cornerstone, a guerra sobre a direção musical só aumentou, até que no início de 1980, o mundo foi surpreendido pela demissão de DeYoung, após uma discussão acirrada entre ele e Shaw sobre qual deveria ser o segundo single de Cornerstone, no caso a balada "First Time" (defendida por DeYoung) ou o rock "Why Me" (defendida por Shaw, que ameaçou sair se "First Time" fosse lançada). A gravadora do quinteto, a A&M, preferiu não perder Shaw, e com isso, DeYoung foi demitido (ou pediu demissão, uma história até hoje controversa). No entanto, em pouco tempo o restante do Styx voltou atrás, e chamou novamente DeYoung para fazer parte do quinteto. Com isso, e com DeYoung cada vez mais líder absoluto do Styx, o grupo vinha dividido para o seu quinto álbum com esta formação (e o décimo na discografia). 

O Teatro que deu nome e inspiração ao álbum de 1981

Ao mesmo tempo, os Estados Unidos estavam passando por uma grande depressão econômica, e ainda o período eleitoral que elegeu Ronald Reagan como seu 40° presidente. Isto tudo abalava DeYoung, que sempre foi um apaixonado por seu país. Eis que um belo dia, caminhando por uma galeria de artes, DeYoung se deparou com a serigrafia de Robert Addison, a qual retratava o Paradise, um teatro de Chicago, localizado na 231 N. Pulaski Road, 60624, inaugurado em 1928 com muita opulência e festividade, tido como um dos maiores teatros do mundo. Mas, durante os anos 30, com a chegada do cinema falado e posteriormente da TV, começou sua decadência, já que o teatro não havia sido projetado para ter uma acústica grandiosa como a das telas do cinema. O Teatro ainda sobreviveu por mais alguns anos, abrigando todos os tipos de mal encarados, mendigos, prostitutas e negócios ilícitos, até ser fechado em 1956 (olha a efeméride) por abandono, e totalmente demolido em 7 de julho de 1958 (há exatos 68 anos).

Ao ver a arte do teatro em ruínas, com a frase estampada “Closed Indefinitely”, DeYoung imaginou que aquilo seria a metáfora perfeita para os Estados Unidos de 1980, e sentiu-se livre para criar uma obra conceitual e ao mesmo crítica. Em suas palavras: “o álbum traz um conceito de esperança e renovação no espírito do povo americano para compreender os problemas que o mundo e este país enfrentam, e encontrar soluções para esses problemas por si mesmos. Não dependa de heróis para fazer o que você deve fazer por si mesmo. Se você odeia seu trabalho, mas tem um sonho, então corra atrás dele. Só não fique sentado reclamando.” Ele segue, com a frase que usou em todos os shows da turnê de Paradise Theater: “a origem deste disco foi em 1975, quando todo mundo, TV, rádios, jornais, um ano antes de acontecer (n. r. 4 de julho de 1976) estavam estampando com orgulho o bicentenário de nossa independência. Ali surgiu algo em minha mente, que coloquei em palavras em ‘Suite Madame Blue’, do Equinox“. A história tem um paralelo, portanto, entre o que ocorreu com o Teatro e o que ocorreu com o povo estadunidense, com cada música fazendo alusão direta ao Teatro, mas implicitamente, contando a história do período pós-Segunda Guerra no país até 1980 (um período exato de 30 anos).

A arte que inspirou a criação de Paradise Theater

Contextualizando, depois da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos viveram um auge econômico que durou toda a década de 50 e boa parte dos anos 60. Porém, escândalos como os do governo Nixon, o assassinato de John Kennedy, a guerra do Vietnã, entre outros, levaram o país a uma decadência terrível. Em 1980, a inflação estadunidense era de 13,5% ao ano, levando à chamada Crise do Petróleo, com muitos postos ficando sem o combustível. Além disso, somente em 1980, o desemprego saltou de 7,5% para 10,8%, isso em pouco mais de seis meses, com cidades gigantes como Chicago, Detroit, Cleveland e até mesmo Seattle a fechar fábricas e perder população. Por fim, a eleição de 1980 (citada no início do texto) foi entre o democrata Jimmy Carter, então presidente dos Estados Unidos, e o ator republicano Ronald Reagan, o que causava uma sensação de desesperança ainda maior entre o povo estadunidense (o que no Brasil alguns diriam ser “uma escolha difícil”), com Reagan tomando posse em 20 de janeiro de 1981.

Um dia antes, em 19 de janeiro de 1981, chegava às lojas Paradise Theater, a sensacional obra metafórica de Dennis DeYoung e Styx para criticar seu próprio país.  Para criar tal obra, DeYoung trouxe músicos extras, empregando um naipe de metais chamado de Hangalator Horn Section, composto por Steve Eisen (saxofone), Bill Simpson (saxofones), Mike Halpin (trombone), John Haynor (trombone),  Dan Barber (trompete), Mark Ohlsen (trompete, flugelhorn), além dos arranjos de Ed Tossing, que criaram canções únicas e memoráveis. 

Single de “Rockin’ the Paradise”

"A.D. 1928" abre os trabalhos, apenas com o piano fazendo a imortal melodia da canção, e DeYoung exaltando a inauguração do Paradise: "Tonight's the night we'll make history / as sure as dogs can fly / And I'll take any risk to tie back the hands of time / And stay with you here all night". É o início do teatro, e a canção exalta a coragem e determinação, e uma certa arrogância da grandiosidade que irá se esperar do teatro. A letra segue "So take your seats and don't be late, we need your spirits high / To turn on these theatre lights and brighten the darkest skies / here in the Paradise". Com este convite para a inauguração, simbolizando a grandiosidade e o otimismo de uma estreia, a chegada de algo novo, começa então "Rockin' the Paradise". 

Animada, com um riff pegado e um ritmo puro rock 'n' roll, a canção mostra o auge do teatro, com uma energia absurda, que mistura peso, rock anos 50 e o ritmo quadrado dos anos 80. A primeira parte faz referência às críticas aos jovens que são considerados preguiçosos, mas que estão esperançosos de uma vida melhor, enquanto a segunda estrofe solta a raiva destes jovens que "não precisam de lucros rápidos ... somente algum filho da puta que trabalhe duro". 

A canção segue no mesmo ritmo, enaltecendo ainda mais estes jovens que "não precisam lutar, e sim desafiar os controladores" em busca de orgulho e de uma nova vida, agitando no Paradise. Para DeYoung: "Um dos maiores crimes nos Estados Unidos é as pessoas não se sentirem úteis. As pessoas precisam se sentir como uma parte útil da sociedade, porque elas são. Precisamos fazer com que as pessoas acreditem em si mesmas — que elas são importantes."

No contexto paralelo com os Estados Unidos, é a força do povo estadunidense se reerguendo após a Segunda Guerra. Chamo atenção para o uso do piano aqui, relembrando musicalmente a sonoridade dos anos 30, algo antigo. O solo da guitarra, com o piano ao fundo, é para dançar animadamente, e a performance de John é muito boa, Disparada a faixa mais alegre do disco, reflete portanto o surgimento de algo novo, o Paradise, e na metáfora, a chegada de uma nova geração de pessoas. 

Compacto de “Too Much Time On My Hands”

A sequência vem com os sintetizadores trazendo uma modernidade para o Paradise, o início do cinema falado, o qual está em "Too Much Time on My Hands", cantada e composta por Shaw. O Teatro está modificado, tentando se adaptar aos novos tempos, mas por alguma razão, não há mais o mesmo sucesso do seu início. A letra destaca alguém que acaba desempregado, e que se sente um "criminoso que não foi preso". 

É o início da decadência do Teatro, e consequentemente, um retrato do aumento do desemprego no país no início dos anos 70. Uma das canções de maior sucesso do Styx (ao lado de “Lady”), com suas palmas no refrão que qualquer fã da banda adora fazer, e claro, mais um belo solo das guitarras, acompanhadas pelos sintetizadores. O andamento quadradão, a simplicidade dos acordes de guitarra, o refrão extremamente grudento (quem nunca se pegou cantando o refrão ou fazendo os " t-t-t-t-ts" do refrão, dando aquela dançadinha marota a lá Bowie??) e as citadas palmas entre as palavras que formam o nome da canção, animaram muitas festas adolescentes durante os anos 80. 

Compacto japonês de
“Nothing Ever Goes As Planned”

"Nothing Ever Goes as Planned" muda novamente a sonoridade, ainda mais moderna, começando com a bela introdução e o solo da guitarra de Shaw, apresentando citações ao reggae, e cantada por DeYoung, e a primeira a trazer o naipe de metais. Destaque para o solo carregado de wah-wah, além de mais um refrão grudento ("nothing ever goes as planned/It's a hell of a notion/Even Pharaohs turn to sand/Like a drop in the ocean"). 

Liricamente, é o retrato da visão de fracasso que chega ao Teatro (e dos Estados Unidos). Tudo o que havia sido comemorado começa a naufragar, dar errado, igual aos grandes faraós que não resistiram ao tempo. Isto gera uma forte frustração ao Paradise, e ao encerramento do Lado A com a nostálgica "The Best of Times". 


Compacto de “The Best of Times” (leia o texto)

Outro grande sucesso de Paradise Theater,  ela retoma a melodia de “A.D. 1928", mas com a melancolia tomando conta da letra, no lugar da alegria da faixa de abertura: "I know you feel these are the worst of times / I do believe it's true / When people lock their doors and hide inside / Rumor has it it's the end of Paradise". Os melhores tempos do Paradise estão apenas na memória, e em um mundo de ponta cabeça, o narrador lembra-se desse passado ainda esperançoso, apesar de ver as ruínas do Teatro.

Em sua vida vida pessoal, com tudo que está destruindo-o profissionalmente, tem-se de bom as lembranças e a companhia da pessoa amada. O Teatro fecha suas portas, e a canção conclui que "The best of times are when I'm alone with you", como canta DeYoung em outro refrão enormemente conhecido, tendo aquela harmonia vocal que somente o Styx conseguia fazer (OK, o Queen também fazia algo similar no início de carreira) em uma das baladas mais famosas da história do grupo. 

Nas palavras de DeYoung sobre a canção, "Ela veio pra mim porque eu estava tentando entender o que é que me permite enfrentar as mudanças no mundo e no nosso país. E eu decidi: 'Bom, o amor é uma coisa boa'. Se você tem alguém em quem confia pra te apoiar e você apoia essa pessoa, isso é fundamentalmente algo bom". O personagem da música encontra consolo se fechando, trancando a porta, abaixando as persianas e ficando no abraço de alguém em quem confia e ama". O Paradise está ruindo, os Estados Unidos vivem do saudosismo, e então, entramos no complexo e pesado lado B de Paradise Theater

Capa gatefold interna de Paradise Theater

Abrindo os trabalhos, temos "Lonely People", com o barulho da chuva, trovões, gritos e um saxofone que sola endiabrado. O tempo passou, e agora,  o Teatro está vazio, sozinho, apenas com os mendigos dormindo em seu interior. O arranjo de metais e o peso das guitarras apresentam o refrão marcante, trazendo a voz de DeYoung, que narra as últimas apresentações de cinema no Teatro vazio. O narrador assiste um filme de James Cagney (galã do cinema estadunidense nos anos 30 e 40), e percebe que são os últimos dias do local que lhe deu tanta alegria. A analogia vai com os Estados Unidos isolado durante a guerra fria. A melodia e o arranjo da canção retratam fielmente os pesados momentos de vazio do Teatro através das guitarras, com destaque para os solos de Tommy e JY. Chama a atenção o estranho solo dos sintetizadores, e o ótimo solo de JY, além do peso da canção, muito diferente do que ouvimos no lado A. 

Com a voz delicada de Shaw, "She Cares" retrata o momento onde o Teatro se vê às moscas, mas tem esperanças de que ainda há alguém que se importa com ele, fazendo referência aos soldados estadunidenses que foram para a guerra do Vietnã, com as namoradas/esposas que independente do que acontecer na guerra, estarão esperando por eles. A canção tem um certo ar de ballad-rock dos anos 50, bastante melancólica, e os "wow-wow-wow" tipicamente cinquentistas, destacando o solo de Eisen no saxofone, carregando para o dramático fim do Paradise. 

A linda versão em vinil, gravada a laser

Isso começa em "Snowblind", que entrega a autodestruição do Teatro, que passa a ser usado por traficantes. O dedilhado nervoso do piano traz a assombrosa voz de JY, com o Teatro "olhando-se no espelho", no seu momento de declínio, chocado com o que está vendo, e leva aos vocais de Shaw, no seu momento totalmente "cego pela neve" (gíria para "chapado de cocaína") que toma conta do Teatro. São os altos (Shaw) e baixos (JY) do vício em cocaína que tomou conta de uma geração estadunidense na década de 70, estampados através dos vocais. É uma crítica forte ao consumo das drogas, direta, sem firulas. Que baita solo de JY aqui, com muitos bends e notas velozes, e que música sensacional. O andamento levemente blueseiro dá um charme especial para esta canção, que gerou polêmica após grupos religiosos e a comunidade do Parents Music Resource Center (PMRC) alegarem supostas mensagens satânicas escondidas na mesma, quando ouvida ao contrário. 

Segundo eles, a afirmação era de que a frase "I try so hard to make it so" ("eu tento tanto fazer dar certo") surgia como "Satan moves through our voices" ("Satã se movimenta através de nossas vozes"). DeYoung debochou da história, alegando que: "Quem toca nossos discos ao contrário é o Anticristo. A gente já tem dificuldade suficiente pra fazer esses discos soarem certo tocando do jeito certo. As pessoas não têm nada melhor pra fazer? É o Styx. Vocês conseguem imaginar atacar os caras que fizeram 'Babe'? Ah, pelo amor de Deus". JY foi o mais veemente em rebater esta afirmação, chegando a dizer que "Se fôssemos colocar alguma mensagem em nossas músicas, teríamos colocado de forma que estivesse na música normalmente. Não de um jeito que você precisasse comprar um gravador de fita de US$ 400 para ouvir". Posteriormente, o Styx realmente incluiu mensagens de trás para frente no álbum seguinte, Kilroy Was Here, outro disco conceitual falando sobre a censura ao rock (as mensagens foram colocadas propositalmente, para zoar mesmo os grupos religiosos e o PMRC).

Dennis DeYoung, o mestre de cerimônias e criador da obra aqui apresentada

Finalmente, o Teatro é tomado por traficantes, mendigos, divorciados e falidos que pedem trocados na sua porta, já fechado. É "Half-Penny, Two-Penny", uma das melhores canções da carreira do Styx, e que também faz uma auto-referência, com um ritmo que lembra muito o sucesso "Miss America", lançado pela banda em The Grand Illusion (1978). O ritmo disco, com as guitarras pesadas de JY e Shaw, nos remete facilmente ao fim dos anos 70. O sonho americano virou esmola, mas é o jeito americano de ser "Justice for money what can you say / Yes, Mrs. Cleaver your son's home to stay / We all know it's the American Way", com Mrs. Cleaver sendo a personagem June Cleaver, da série "Leave It to Beaver" (no Brasil, Aquele Beijo), que foi ao ar nos anos 50, e tinha na senhora Cleaver o exemplo de Dona de Casa perfeita, com um padrão de perfeição pomposo, de vestido, pérolas, maquiada e salto alto, mesmo só pra lavar louça ou cuidar do jardim. Uma crítica ao exibicionismo das elites estadunidenses que não importam-se com os "inferiores". 

O refrão traz esperanças com um possível fim do Paradise, a possibilidade de algo novo surgir daquela imundice. Uma paulada, com o ótimo riff das guitarras e um excelente andamento de John e Chuck. A marcação do baixo é grudenta e dançante, além do riff, que cantarolamos sem querer junto à voz de James. A mudança no emotivo refrão, os barulhos de britadeiras e máquinas que levam à demolição do Paradise Theater, inclusive por pessoas que frequentaram o lugar quando eram crianças e jovens, entre acordes de piano, o badalar de um sino torturante, e o sempre marcante baixo de Chuck, são os pontos principais dessa excelente e incrível faixa  (impossível ouvir e não lembrar de "Run Like Hell", do Pink Floyd). Ao mesmo tempo, as conversas entre a demolição são pauladas críticas ao governo estadunidense ("What the hell you doin’? / We’re tearing this old building down here / Oh you’re kiddin’ me, remember when we were kids / And we used to come here every Saturday afternoon to see a cartoon? / Yeah, I remember / Well what’s she lost to? / Who knows politicians, taxes it’s a disgrace / I’m not surprised, they make me sick"). Pancada na cabeça dos políticos, e a faixa encerra-se com os excelentes solos de JY, Tommy e, após uma mudança sonora, o lindo solo de sax de Eisen. 

DeYoung volta com o piano que começou o álbum em "A.D. 1958", mas agora com um tom melancólico. A mesma melodia de “A.D. 1928” e da introdução de “The Best of Times” reaparece, mas com diferença na letra, que agora cita a existência do Teatro apenas na memória daqueles que o acompanharam. "And so, my friends, we'll say goodnight / for time has claimed his prize / but tonight can always last / as long as we keep alive / the memories of Paradise". O Teatro é demolido, fechando o ciclo e abrindo uma nova era de esperanças, construções e pessoas, que acabarão passando por todas as etapas de ascensão e queda novamente, e novamente, e novamente ...  Por fim, "State Street Sadie" é uma "faixa escondida" homenageando uma famosa rua de Chicago, a State Street, com "Sadie" representando a decadência. É apenas uma vinheta ao piano, em ritmo blues, mas com um certo ar de alegria nostálgica, fechando sublimemente este espetáculo de disco.

Notícia sobre a demolição do Paradise Theater, ocorrida há 68 anos

Um ótimo álbum, que identificou com precisão as rachaduras crescentes nas fundações da sociedade atual (mesmo sendo em 1981), e previu tudo o que encontramos hoje sobre a polarização política, o ufanismo barato dos 15 minutos de fama na internet, e o fracasso subsequente que demole por completo famílias e lares não só nos Estados Unidos, mas pelo mundo. 

Paradise Theater atingiu a primeira posição nos Estados Unidos, onde permaneceu por três semanas consecutivas, entre abril e maio de 1981. O disco vendeu muito, com mais de 3 milhões de cópias nos Estados Unidos (platina tripla) até os dias de hoje, tornando-se o maior sucesso comercial do Styx, e foi também o quarto álbum consecutivo da banda a receber a certificação de platina tripla pela RIAA. Para se ter uma ideia, além de primeiro nos EUA, o disco vendeu demais ao redor do mundo, sendo que, por exemplo, ficou em segundo na Argentina (80 mil cópias), terceiro no Canadá (platina, com 100 mil cópias), quinto na Noruega, sexto na Suécia, sétimo na Suíça (ouro, com 25 mil cópias), oitavo no Reino Unido (prata, com 60 mil cópias, maior colocação da banda por lá) e ainda nos 30 mais na Austrália, Alemanha, Holanda e Nova Zelândia.

O compacto gravado a laser, primeiro na história

Quatro singles do álbum entraram nas paradas musicais, com duas músicas alcançando o Top 10. O primeiro single, "The Best of Times " chegou ao 3º lugar na Billboard, por onde permaneceu por quatro semanas, décimo no Canadá e 42° no Reino Unido. Vale lembrar que este foi o primeiro single do mundo a ser lançado com vinil gravado a laser, como estampa o sticker do mesmo. Na sequência, veio "Too Much Time on My Hands ", que foi ao 9º lugar na Billboard - único hit de Shaw no Top 10 com o Styx - e quarto no Canadá. "Nothing Ever Goes as Planned " alcançou somente o 54º lugar, e "Rockin' the Paradise " foi 8º lugar na parada Top Rock Tracks, sendo que seu vídeo clipe foi o décimo a rolar na história da MTV (sempre lembrando que o primeiro clipe foi "Video Killed the Radio Star, do Buggles), na madrugada do dia 1 de agosto de 1981.

Uma versão limitada do vinil apresenta uma imagem da decoração do Teatro gravada em laser dentro dos sulcos do LP (algumas cópias, o design era em cera), tornando-se mais um atrativo junto da qualidade sonora de Paradise Theater. Um fato curioso da capa, pintada pelo artista Chris Hopkins, é que nela, o nome do álbum está Paradise Theatre, enquanto na contracapa e no selo, o título do disco está escrito Paradise Theater,  e na lombada, somente "Paradise". A ideia justamente era causar confusão e uma espécie de ciclo, assim como o conceito geral do álbum. Em seu interior, uma manchete de época retrata o fim da demolição do teatro, em 7 de julho de 1958, e comenta que era um dos maiores teatros já construídos, mas que com a chegada da televisão, acabou sendo abandonado.

James “JY” Young e Tommy Shaw na turnê de Paradise Theater

Uma ambiciosa turnê mundial teve início em 1981, sendo a turnê de maior bilheteria do quinteto (e a época, uma das maiores da história). Inspirada na Broadway e no cinema, o show trazia uma abertura dramática, com um personagem varrendo o teatro sozinho, ao lado de um piano, de onde surgia DeYoung para interpretar "A. D. 1928", emendada com "Rockin' The Paradise", sendo que oito das onze canções de Paradise Theater compunham o set list do show (apenas "Nothing Has Gone Planned", "Lonely People" e "She Cares" ficaram de fora). Encerrando o  show, a mesma sequência final do álbum, com "Half Penny, Two Penny" (tendo todos os barulhos de demolição do teatro) e "A. D. 1958".

O palco remontava a fachada do Paradise, através de luzes brilhantes de neon, como mostra a capa do single com estas duas canções. As luzes alternavam seu brilho, frequências de oscilação, entre outros, lembrando o famoso arco-íris do Rainbow. Cada músico vinha trajado como um "personagem" ligado ao cinema, com JY e Shaw sendo os limpadores, Chuck o garçom, John o garoto que ia assistir aos filmes e DeYoung o Mestre de Cerimônias. Ao final, o telão exibia os créditos do show, trazendo manchetes de jornal apresentando cada um dos integrantes, e o nome de cada colaborador do show, como um filme tradicional. 

Ingresso da Paradise Theater Tour

O Styx seguiu seus caminhos conturbados com mais um álbum conceitual, o já citado (e igualmente excelente) Kilroy Was Here, e uma longa turnê que culminou no primeiro ao vivo da banda, Caught in the Act Live (1984). Porém, o clima entre Shaw e DeYoung já não existia, e após o fim da turnê, a banda se dissolveu. O futuro reservou um retorno inesperado de DeYoung e Shaw tocando juntos nos anos 90, com o Styx apresentando Paradise Theater novamente nos palcos, registrado no excelente CD e DVD Return to Paradise, lançado em 1996 (olha aí, 30 anos atrás). 

Falando então nas efemérides, como citei no início, daqui alguns meses contarei a história de um dos melhores trabalhos da banda, e igualmente marcante para sua história: Crystal Ball (1976). Até lá, para quem não é fã, aproveitem para conhecer uma discografia praticamente impecável, e para quem já é fã, deliciem-se ouvindo, dançando, batendo palmas ou simplesmente apreciando um daqueles discos essenciais na história da música pop mundial. 

Contra-capa de Paradise Theater

Track list

1. AD 1928

2. Rockin' the Paradies

3. Too Much Time On My Hands

4. Nothing Has Gone Planned

5. The Best Of Times

6. Lonely People

7. She Cares

8. Snowblind

9. Half Penny, Two Penny

10. AD 1958

11. State Street Sadie 

terça-feira, 30 de junho de 2026

Cinco Discos Para Conhecer: Brasileiros em Montreux



Inspirado pelas excelentes postagens do meu amigo Marcello Zapelini na Consultoria do Rock, trago hoje uma indicação de Cinco Discos (e mais três bonus tracks) Para Conhecer envolvendo artistas brasileiros que se apresentaram no tradicional festival Suíço. O Brasil teve sua primeira participação no evento de Claude Nobs em 1974, com Milton Nascimento e Flora Purim, e de lá para cá, garantiu diversas "Brazilian Nights", levando a brasilidade para os europeus se deleitarem. Muitos discos foram lançados com registros destas apresentações, e trago aqui aqueles que não necessariamente são os melhores, mas os que de alguma forma são os que particularmente mais me agradam.

Gilberto Gil - Ao Vivo [1978]

A noite de 14 de julho de 1978 entrou para a história do festival de Montreux, muito por conta da apresentação de Gilberto Gil, e que felizmente foi registrada neste belíssimo disco (e também está disponível em vídeo em sites como os YouTubes da vida). Naquele que, até então, foi o maior público do festival, com 3700 pessoas, Gil e uma super banda (ver abaixo) entreteram a plateia da 12a edição do evento de um jeito que somente ele conseguia fazer. Falando tranquilamente em francês, o baiano eleva sua apresentação rapidamente, transformando o cassino de Montreux em uma festa brasileira. O repertório traz canções dos Doces Bárbaros ("Chuck Berry Fields Forever", com letra cantada em inglês,  ainda para uma plateia em marcha lenta, e "São João, Xangô Menino", já levantando o pessoal), homenagem à Luiz Gonzaga (a acelerada "Respeita Januário", que começa a colocar a casa abaixo) e duas faixas da carreira solo de Gil, "Chororô" e "Ela". Porém, são os delirantes improvisos de "Bat Macumba", com citação à "Exaltação À Mangueira" e Gil convocando a plateia para cantar o nome da canção entre muita percussão e palmas, e principalmente, "Procissão", mesclando ainda "Atrás do Trio Elétrico", de Caetano, e fazendo os suíços entoarem "Mamãe Eu Quero" a plenos pulmões, os auges com mais de 11 minutos de duração, de um show eu teve nada mais nada menos que cinco Bis, graças a um público ensandecido que não parava de aplaudir Gil. Em um desses bis, Patrick Moraz e A Cor do Som subiram ao palco para acompanhar o baiano em uma jam session, registrada sob o título "Triole (Jam Session)". As canções em sua maioria são longas, exploratórias musicalmente, mostrando um Gil totalmente solto para desfilar seu talento e carisma. Era o Brasil finalmente fincando seus pés no mercado europeu, e para uma imprensa mundial que ficou excitadíssima com um de nossos maiores representantes musicais. 

Gil (violão, vocais), Rubão (baixo), Pepeu Gomes (guitarra, vocais), Mú Carvalho (teclados, vocais), Jorginho Gomes (bateria) e Djalma Corrêa (percussão)

Participação

A Cor do Som, Ivinho, Patrick Moraz, Mazola e Guti (faixa 8)

1. Chuck Berry Fields Forever

2. Chororô

3. São João, Xangô Menino

4. Respeita Januário

5. Ela

6. Bat Macumba / Exaltação À Mangueira

7. Procissão / Atrás Do Trio Elétrico / Mamãe Eu Quero

8. Triole (Jam Session)

A Cor Do Som - Ao Vivo no Montreux Internacional Jazz Festival [1978]

Na mesma data que Gil enlouqueceu os europeus, pouco antes A Cor do Som também já tinha causado um grande alvoroço. Com uma apresentação de pouco mais de meia hora, para uma plateia formada quase que exclusivamente por jovens, a trupe de Armandinho, Dadi, Mu, Ary e Gustavo (acompanhados ainda por Aroldo Macedo, irmão de Armandinho), fez a primeira apresentação de um grupo brasileiro no festival, e foi tão ovacionada que levou Nobs a encaixá-los em mais uma apresentação à noite. Porém, o público noturno era mais "conservador", e acabou não dando a mesma receptividade aos brasileiros. Resultado: um disco que mostra o fervor da tarde e as vaias da noite sem medo de ser feliz, mas acima de tudo, como este grupo tinha uma capacidade instrumental muito acima dos padrões (vale lembrar que apesar de serem músicos experientes, este é apenas o segundo disco dos caras, e ainda totalmente instrumental). A guitarra e o moog são as atrações de "Dança Saci", ótima faixa para apresentar os dotes musicais do jovem Mú (com apenas 21 anos) aos europeus, o qual comanda o ritmo animado de "Brejeiro" (Ernesto Nazareth) ao piano elétrico. Em "Chegando Da Terra", a perfeição do duelo entre Armandinho e Mú, com uma velocidade impressionante nas notas, é de deixar qualquer um extasiado. Os dois inegavelmente são os músicos centrais, mas também, com a poderosa percussão de Gustavo e Ary, além das bases de Dadi, não tem como a coisa não funcionar (Aroldo participa de algumas das canções apenas). "Cochabamba" e "Festa Na Rua" são faixas virtuosísticas, mas que mostram a vaia comendo solta, enquanto  "Espírito Infantil" e a inesperada "Eleanor Rigby", voltada para o frevo,  apresentam a criatividade na (re)criação de peças com sonoridade puramente brasileira, e com uma complexidade absurda.  Nesta linha, é na sensacional versão de mais de dez minutos de "Arpoador" que os membros d'A Cor Do Som mostram todas as suas capacidades musicais, nesta que é um dos clássicos da banda, onde cada um recebe um pequeno momento solo - difícil saber qual o melhor - sobre uma base avassaladora criada pela genial mente brilhante de Dadi ao baixo, e extrapolando virtuosismo. Uma pequena constelação de estrelas gigantes, e que infelizmente, mudaram seu som radicalmente nos anos 80, sem nunca mais conseguir ter o brilho e a inovação musical de seus dois primeiros e essenciais álbuns. 

Armandinho (guitarra, guitarra baiana), Dadi (baixo), Mú Carvalho (teclados, sintetizadores), Gustavo Schroeter (bateria), Ary Dias (percussão)

Com

Aroldo Macedo (guitarras em 4, 5, 6, 7 e 8)

1. Dança Saci

2. Chegando da Terra

3. Arpoador

4. Cochabamba

5. Brejeiro

6. Espírito Infantil

7. Festa na Rua

8. Eleanor Rigby

Hermeto Pascoal - Ao Vivo Montreux Jazz [1979]

Depois do sucesso de Gil, no ano seguinte foi a vez de outros dois gigantes brilharem na Suíça (e virem parar aqui neste Cinco Discos), naquela que foi conhecida como a primeira Brazilian Night do festival. O primeiro deles é o mago albino Hermeto Pascoal, o qual vinha de gravações com Miles Davis e era idolatrado entre os jazzistas europeus, que o chamavam de "O Bruxo Dos Sons". Nobs o apresenta como "O grupo que irá vir em poucos minutos desenvolveu um incrível sentido de tons, ritmos, harmonias, composição e improviso, absolutamente único. A mistura é simplesmente incrível". Logo na apresentação da banda os urros vindos da plateia já são ensurdecedores, e quando o nome de Hermeto é chamado, bom, aí a casa vem abaixo. A intrincação de "Pintando o Sete", "Maturi" e "Quebrando Tudo", essa alucinante, com vocalizações - endiabradas - duelando com o teclado, assim como nas experimentações vocais e instrumentais de Hermeto em "Remelexo", o saxofone, sobre as palmas da plateia, em "Sax E Aplausos", com mais de 17 minutos de um desfile de improvisos em inúmeros instrumentos, onde Hermeto brilha no saxofone e na melódica, enquanto sua banda destroça nas percussões e nos metais, são de fazer qualquer admirador de música ficar embasbacado. Hermeto está fervendo, no alto dos seus 43 anos, e tudo, mas tudo o que ele faz, é um show a parte. Outro show que por si só vale o vinil são os músicos que acompanham o mago, seja no naipe de metais, que além de brilharem em "Sax e Aplausos", também soltam os pulmões em "Nilza" e "Forró em Santo André", onde o solo de Cacau no saxofone barítono deve ter feito John Coltrane soltar um largo sorriso de faceiro. Apenas desfrute de uma hora e 10 minutos de improvisos, loucuras e muita insanidade no palco, em um show visceral, onde Hermeto dá uma aula nos mais diversos instrumentos, com músicas extremamente complexas, atonais, mas como o próprio Nobs definiu, únicas. Hermeto foi aplaudido por mais de 15 minutos, abalando as estruturas do Cassino de Montreux, voltando quatro vezes para o Bis (e brindando a plateia com mais alguns números de tirar o fôlego, especialmente, a linda "Montreux", música "muito lenta para curtir com a mente, e que foi fabricada no hotel", nas palavras de Hermeto), mas principalmente, abalando o nosso próximo disco. 

Hermeto Pascoal (saxofone soprano, saxofone tenor, flauta, vocais, clavinete, piano, melódica)

Com

Itiberê Zwarg (baixo), Jovino Santos Neto (piano), Cacau (clarinete, saxofone barítono, saxofone tenor, flauta), Nivaldo Ornelas (flauta, saxofone tenor, saxofone soprano), Nenê (bateria, percussão, clavinete) Pernambuco (percussão) e Zabelê (percussão) 

1. Pintando O Sete

2. Forro Em Santo André

3. Remelexo

4. Bem Vinda

5. Sax E Aplausos

6. Lagoa Da Canoa

7. Fátima

8. Terra Verde

9. Maturi

10. Quebrando Tudo

11. Nilza

12. Forró Brasil

13. Montreux

14. Voltando Ao Palco

15. E Adeus

Elis Regina - 13th Montreux Jazz Festival [1982]

Na mesma data que Hermeto chocava Montreux, Elis fazia uma de suas maiores apresentações da carreira (e também, aquela que ela considerou uma de suas piores apresentações). A fúria de Elis com sua participação em Montreux se deve à diversos fatos, mas três deles se destacam: 1 - o repertório incluía mais bossas do que canções políticas, devido às exigências contratuais, para agradar o circuito europeu, e isto já fazia Elis torcer o nariz; 2 - ela teve que fazer um show extra como matiné - superlotada - durante a tarde, somente para os mais jovens, devido ao fato de os ingressos terem esgotado rapidamente só para ver o show dela à noite (e quem estava lá naquela tarde afirma até hoje que foi a melhor versão de Elis em todos os tempos); e - a voz desgastada pela apresentação da tarde, e a presença de um grande número de senhores na noite, acabou fazendo ela tremer de ódio, o que, segundo ela, foi crucial para sua performance. Acompanhada pelo marido Cesar Camargo Mariano (um show à parte no piano elétrico) e um supertime, a performance da Pimentinha, honestamente, é arrebatadora. O LP apresenta cinco faixas do show da tarde: "Cai Dentro", peça sensacional de Baden Powell, com uma Elis aplaudidíssima, os clássicos da sua carreira "Madalena", "Na Baixa Do Sapateiro", esta com uma introdução arrepiante e Elis rasgando a voz em uma versão inigualável, e "Upa Neguinho", com uma Elis totalmente solta, falando em francês, dando risada e fazendo muitas improvisações vocais, além das faixas de Milton Nascimento, "Ponta De Areia" e "Fé Cega, Faca Amolada/Maria Maria", nas quais Elis entrega-se de corpo e alma, como sempre fez em seus shows, mas também destacando os viajantes teclados de César, a percussão Muiriana de Chico Batera e o baixo pulsante de Luizão Maia. Do show da noite, a complexa "Cobra Criada", de João Bosco, e o registro de um fundamental terceiro fato: depois de Elis tocar pela tarde, e sair ovacionada, Hermeto Pascoal subiu no palco de Montreux e fez o que fez no disco citado acima. Com a pressão de tentar superar duas performances incríveis, exausta, Elis ainda teve a - sorte/ventura - de que Claude Nobs, empolgadíssimo com os dois shows dos brasileiros, chama-se Hermeto para dividir o palco em um Bis improvisado com a gaúcha. Furiosa, destruída corporalmente, e totalmente surpresa, Elis retornou ao palco para registrar um dos momentos mais emblemáticos já ocorridos em Montreux (e quiçá, na história da música mundial). Literalmente, ela e Hermeto travam um duelo de voz e piano, em um desafio no qual o bruno albino impõe toda sua virtuosidade em "Corcovado", "Garota de Ipanema" - que Elis detestava - e "Asa Branca", tornando-as genialmente irreconhecíveis para os fãs brasileiros, mas que Elis enfrenta de frente, sem baixar a guarda, e sem saber onde o piano de Hermeto estava a levando. Elis superou-se, Hermeto superou-se, e só ouvindo e vendo para tentar se ter noção de 10% do que aconteceu no palco naquele dia. Os dois show acabaram saindo completos anos depois, no álbum duplo Um Dia (2012). O essencial, que é o dueto de Hermeto, felizmente já havia chegado neste que foi o primeiro lançado pós-falecimento dela, mesmo contra a vontade da cantora. Um disco simplesmente histórico!

Elis Regina (vocais), Cesar Camargo Mariano (piano elétrico, teclados), Hélio Delmiro (guitarra), Luizão Maia (baixo), Paulinho Braga (bateria), Chico Batera (percussão)

1. Cobra Criada

2. Cai Dentro

3. Madalena

4. Ponta De Areia

5. Fé Cega Faca Amolada / Maria Maria

6. Na Baixa Do Sapateiro

7. Upa Neguinho

8. Corcovado

9. Garota De Ipanema

10. Asa Branca

Com 

Hermeto Pascoal (piano em 8, 9 e 10)

Os Paralamas do Sucesso - D [1987]

Fiquei muito em dúvida de qual seria o quinto disco aqui presente, e acabei escolhendo o que mais gosto dentre os que ficaram de fora. D é com certeza um álbum energético e vibrante, mostrando a melhor fase d'Os Paralamas do Sucesso, isso em 4 de julho de 1987. No auge de sua carreira, desfrutando do sucesso de Selvagem?, Os Paralamas mandam ver em um repertório para cima e muito animado. Apesar de começar com o freio de mão puxado, trazendo a inédita "Será Que Vai Chover?", que ganharia uma versão de estúdio somente um ano depois, basta começar "Alagados" que a energia visceral que o Brasil já havia sentido durante o Rock in Rio chega até a Suíça. A partir de então, com o jogo ganho, o trio Herbert, Bi e Barone (adicionados de João Fera nos teclados) coloca o Cassino de Montreux abaixo. É petardo atrás de petardo, e com um grupo em excelente fase, desfilar sucessos do porte de "Ska", "A Novidade", "Selvagem" e "Meu Erro". O ápice da noite vai para a espetacular versão de "Óculos", com um longo trecho de improvisos, e também a incrível revisão para "Charles Anjo 45", de Jorge Ben, que conclui um dos melhores discos ao vivo das bandas do chamado BRock. A banda só cresceria mundialmente a partir daqui, conquistando mercados tanto na América do Norte como no Japão, e tendo a certeza que naquele julho de 1987, a Europa já havia começado a se entregar para o som e energia d'Os Paralamas. 

Herbert Vianna (guitarra, vocais), Bi Ribeiro (baixo), João Barone (bateria)

Com

João Fera (teclados)

George Israel (saxofone em 3)

1. Será Que Vai Chover?

2. Alagados

3. Ska

4. Óculos

5. O Homem

6. Selvagem

7. Charles Anjo 45

8. A Novidade

9. Meu Erro

bonus tracks

Para as bônus, pensei em trazer os álbuns de Baby Consuelo, Pepeu Gomes ou João Gilberto registrados por lá, mas escolhi três álbuns que ampliam a quantidade de artistas que tocaram em Montreux, sendo ambos compilações de apresentações brasileiras ocorridas no início dos anos 80. 

Elba Ramalho, Toquinho e Moraes Moreira - Brasil Night - Ao Vivo em Montreux [1981]

Registrada em 4 de julho de 1981, esta compilação resgata a Brasil (com S) Night que levou Elba Ramalho, Toquinho e Moraes Moreira para a Suíça. Musicalmente, a compilação é realmente para admiradores da MPB, já que Moraes Moreira vivia uma fase no mínimo ruim em sua carreira, dando o ar da graça novo baiano apenas em "Davilicença", mas sem a energia de outros registros desta mesma canção, enquanto Elba estava surgindo no Brasil, e até que faz uma apresentação segura, ensinando a plateia a dançar o xote de "Bate Coração" e o baião de "Baião", mas sem conseguir ter a força de uma Elis Regina, em especial na chorosa "Tudo Azul". Toquinho acaba sendo o craque do jogo, trazendo o lindo dedilhado do violão em "Berimbau", com o instrumento que dá nome à canção também se destacando nas mãos de Djalma Corrêa (chocando os europeus, principalmente pela vibração escutada através das caixas de som), revisitando "Asa Branca" de uma forma totalmente desconstruída e comandando a clássica "Samba de Orly", obra prima composta junto de Chico Buarque e Vinícius de Moraes (quem diria que Toquinho iria se tornar um direitoso anos depois). Para poucos, mas estes poucos sabem o que irão apreciar. 

Alceu Valença, Milton Nascimento e Wagner Tiso - Brazil Night Ao Vivo em Montreux [1983]

Na edição de 1982, a Brazil Night teve como nomes Alceu Valença, Milton Nascimento e Wagner Tiso. Dos três shows, a Ariola Discos lançou esta boa compilação, com quatro canções de Alceu Valença, enquanto Milton aparece com três faixas, e Wagner com duas. O pernambucano surge com a animada "No Balanço da Canoa", faz os europeus baterem palma e cantarem durante "Pelas Ruas Que Andei", mas tem como ponto alto a tocante "Talismã" e a endiabrada "Casinha de Buinha", levadas apenas por voz e violão. Já Milton Nascimento manda ver numa veloz "Fé Cega, Faca Amolada", emociona com "Ponta de Areia" e encerra o LP com a entusiasmada "Maria Maria", curiosamente três canções eternizadas por Elis três anos antes. Porém, é o virtuosismo de Wagner Tiso, com um super grupo (Nivaldo Ornelas no saxofone, Helio Delmiro na guitarra, Paulinho carvalho no baixo e Robertinho Silva na bateria, além da percussão de Frank Colón), o qual também acompanhou Milton, que mais chama a atenção. Comandando o piano com uma técnica invejável, Tiso brilha na paulada "Banda da Capital", levantando o Cassino de Montreux, e "Balão", conplexa e intrincada peça instrumental no qual o virtuosismo do mineiro é colocada à prova, junto da percussão de Colón, misturando elementos da música afro-brasileira com o Jazz de vanguarda, para deixar qualquer fã de boa música com um sorriso aberto. 

Caetano Veloso, Ney Matogrosso e João Bosco - Brazil Night Montreux 83 [1983]

O dia 8 de julho de 1983 foi considerado pelo próprio Claude Nobs como a "noite mais emocionante, a mais vibrante e a mais explosiva dos 17 anos de Festival de Música de Montreux", e seu registro em vinil é fundamental estar aqui. Caetano ocupa quase todo o lado A, trazendo três canções somente com voz e violão, no caso a empolgante versão de "Maria Bethânia", as belas revisões para "Eu Sei Que Vou Te Amar/Dindi" e a lindíssima "Terra", apresentada na íntegra e com a plateia acompanhando os vocais do refrão. Com A Outra Banda Da Terra, manda ver em versões mais que perfeitas e energéticas para "Eclipe Oculto" e "Odara", as quais agitam o Cassino de Montreux. Ney faz uma apresentação ainda mais para cima, levando sua androginia e sua super banda (com Pedrão Baldanza, Pisca, Serginho e muito outros nomes importantes da música nacional) para ocupar quase todo o lado B, desfilando sensualidade na baladaça "Deixar Você", fazendo os europeus vibrarem com "Andar Com Fé", "Napoleão" e o forró de "Folia No Matagal", esta trazendo a participação de Caetano como convidado, e fazendo até Nobs sambar. E na simplicidade de João Bosco ("Ruan basco", segundo a apresentação de Nobs), e seu complexo dedilhado de violão, que surge a maior atração do vinil. Totalmente solto, e apenas com o violão de acompanhamento à sua voz, ele vai "cantar um samba" para a galera. O que ele faz em "Linha de Passe", um ritmo descomunal, mas principalmente, no pout-porri com "Nação", "Aquarela do Brasil" - com o Cassino vindo abaixo - e "O Mestre Sala dos Mares", é para desafiar qualquer novato que se acha músico. Discaço, que honestamente, considero uma das melhores compilações nacionais em todos os tempos, e com certeza, talvez o maior representante da diversidade presente na Música Popular Brasileira.

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