terça-feira, 23 de novembro de 2021

Consultoria Recomenda: Discos Desconhecidos do AOR

Cutting Crew - Broadcast [1986]






Editado por André Kaminski 

Tema escolhido por Fernando Bueno
Com Daniel Benedetti, Davi Pascale e Mairon Machado

Se formos resumir a definição de AOR encontradas em alguns sites especializados podemos citar a produção sofisticada, a presença de melodia marcantes e o estilo vocal em altas tonalidades. É basicamente isso mesmo que representa o AOR musicalmente, mas não conseguimos dissociar o estilo da cultura dos anos 80 principalmemte dos filmes e comerciais de televisão. Também foi chamado de soft rock em alguns momentos na sua época de ouro e hoje as gravadoras preferem o termo melodic rock. Quando sugeri o tema a ideia foi tentar trazer bandas fora daquele eixo de bandas comumente associadas ao AOR como o Journey, REO Speedwagon, Foreigner, Survivor e outras. Algumas ainda são adicionadas à essas listas por conta de alguns sucessos específicos sendo que seus trabalhos não são completamente orientado por esse tipo de música, como é o caso do Boston e do Kansas, só para citar alguns. Também não podemos deixar de lembrar das diversas bandas com sonoridades distintas que fizeram suas contribuições ao estilo como Styx, Chicago, UK e até Led Zeppelin. Vamos ver quais foram as recomendações dos nossos consultores dessa vez. (Fernando)


Cutting Crew - Broadcast [1986]

Por Fernando Bueno

Não sei qual o conhecimento de vocês em relação ao Cutting Crew. Eu nunca havia ouvido algo deles e nem lido seu nome em algum lugar. Descobri a banda ao acaso por uma indicação do Youtube. Seu quase sucesso “(I Just) Died In Your Arms” me chamou atenção e fui ouvir o restante do álbum. Esse foi o grande single do álbum, que deve ter feito seu sucesso localizado, mas não explodiu como certamente era o esperado. Tinha tudo o que toda música que fez sucesso em algum filme da época precisava, até mesmo um daqueles video clips meio contrangedores. “Any Colour” certamente foi também um candidato à sucesso. É uma música muito melhor que a que virou single e, para quem ouvir com calma vai identificar alguma coisa de Genesis oitentista nela. Também me parece um pouco o John Wetton a voz em “I’ve Been In Love Before”.E a relação à essas bandas mais clássicas que foram para essa vertente nos anos 80 não pára por aí. Em “Life In A Dangerous Time” aquela aura mais etérea do Yes vem à tona. Ahh... e se o Toto rompeu fronteiras com “Africa”, por que não uma música chamada “Sahara”? Ou seja, Broadcast rechea suas ótimas músicas com muitas influencias de grandes bandas, é um excelente disco que vai fazer você deixar de ter que recorrer toda vez ao Escape (1981) para tocar naquele churrascão à beira da piscina com família e amigos.

André: Uma boa banda da linha mais leve do estilo, com guitarras ali muito mais no overdrive e uma produção bem limpa. Só ouvi um disco deles (Compus Mentus de 1992) e nada que tenha me chamado muito a atenção. Mas este aqui é um disco bacana no qual destaco a balada "I've Been in Love Before" o rock tipicamente oitentista (com saxofone) de "Don't Look Back" e aquele pop rock ao estilo Roxette de "Sahara". E claro, tem o hit "(I Just) Died in Your Arms" que aparece muito em programas de rádio de rock dos anos 80. Chamo a atenção para os vocais de Nick Van Eede. O cara tem uma voz muito bonita. Poderia facilmente assumir os vocais de qualquer banda maior do estilo caso alguma delas precisasse de um novo cantor.

Daniel: Este eu não posso falar muito, pois a experiência foi terrível. Aliás, o que eu consegui ouvir, já que a balada “I've Been In Love Before” me fez desistir do resto do disco para nunca mais voltar.

Davi: Não tinha muito conhecimento desse grupo. A única faixa que conhecia é "(I Just) Died In Your Arms" que havia escutado em algum programa de flashback por aí. Quando usam o termo AOR, não é esse o som que vem em minha cabeça, costumo pensar mais naquelas bandas meio Journey, Toto, Foreigner e afins. Aqui já vai para um lado mais Mr. Mister. Pouca guitarra, teclado em evidência, som bem clean, linhas vocais bem melódicas, arranjos mais pop. De todo modo, o trabalho é muito bem feito. É um bom disco, dentro daquilo que os músicos se propõe a fazer. As minhas canções preferidas ficam por conta de “Any Colour”, “One Of The Mocking Bird”, “It Shouldn´t Take Too Long”, além da já citada “(I Just) Died In Your Arms”. Interessante...

Mairon: Não conhecia o som do Cutting Crew, e cara, me lembrou muito o Simple Minds. Fui atrás de informações, e não me surpreendi ao saber que os caras são de Londres. Ainda, descobri que esse álbum fez 36 anos ontem, 22 de novembro. É um som bem típico daquela região à época, com uma batida quadradinha, presença de sintetizadores, vocais mezzo sussurrados e uma guitarra distorcida que surge vez que outra, como atestam "Any Colour", "Life In A Dangerous Time" e "The Broadcast". O destaque em geral vai para "I've Been in Love Before", que foi um grande sucesso. Me lembrei dela na hora que ouvi, mas não saberia dizer que pertencia a esta banda. Me atraíram bastante as experimentações de "Sahara" (tem até um fretless ali), a vibe agitada de "One for the Mockingbird" e principalmente "(I Just) Died in Your Arms", que se colocasse para rodar, eu só não chutaria que é Asia por que conheço bem a turminha do Geoff Downess. Achei mais fraquinhas "Fear of Falling" e "It Shouldn't Take Too Long". É bem interessante conhecer algo nessa linha, e ver como os anos 80 também pariram um número diversos de grupos com características muito parecidas, mas que ficaram relegados a ser um one hit wonder, no caso "I've Been in Love Before", e olhe lá.


Jefferson Starship - Freedom at Point Zero [1979]

Por Mairon Machado

A história desse disco é tão complexa quanto as várias fases do Jefferson Starship. Depois de saírem das entranhas do Jefferson Ariplane, e começarem como uma expansão musical dos métodos hippies do casal Paul Kantner e Grace Slicke, junto também dos ex-Airplane Marty Balin e Papa John Roach, isso na primeira metade dos anos 70, a coisa começou a degringolar. Grace passou a beber álcool quase 24 horas por dia, chegando ao ponto de ofender aos alemães em plena Alemanha, gritando aos microfones "quem ganhou a guerra"? Ela foi afastada da banda, assim como qualquer ligação aos anos 60, e para seu lugar, entrou o vocalista Mickey Thomas, bem como Aynsley Dunbar foi chamado para socorrer na bateria, deixando apenas para David Freiberg e Paul Kantner tentar manter uma raiz flowe power. Pois essa mistura gerou um AOR de primeira qualidade no final dos anos 70, através desse álbum, que evoluiu nos anos 80 até chegar na sensacional Starship. Faixas como a faixa-título, o mega sucesso "Jane", a espetacular "Just The Same", são canções fortes, onde o potente vocal de Thomas, junto as melodias e harmonias exclusivas de Kantner, quebram qualquer paradigma musical até então já ouvido advindo de bandas do ensolarado leste americano. Até baladinha os caras fizeram, e bem lindinha por sinal, chamada "Fading Lady Light". Por outro lado, "Lightning Rose" ainda traz um certo de ar adolescente de Airplane, mas com toda a maturidade de um Starship, vide a presença certeira do saxofone de Steven Schuster, ou então os sintetizadores das pancadas 'Girl With The Hungry Eyes" e  "Things To Come". A longa "Awakening" é o atestado máximo da excelência de Freedom at Point Zero, com uma participação mais que fenomenal de Craig Chaquico nas guitarras, além de Dumbar destruindo na bateria. A produção de Ron Nevison colabora e muito para esse clima espetacular. Alguns aqui vão dizer que isso não é AOR, mas daí deixo para eles só o que há letra de "Rock Music" diz, e nada mais. Na essência de todas as grandes bandas do AOR, o que o Jefferson Starship fez em Freedom at Point Zero é a mais legítima representação desse pilar central que é o estilo. Disco divisor de águas na carreira do grupo, e forte candidato a melhor dos mesmos.

André: O Jefferson Airplane e seus filhotes possuem uma história tão complicada que é melhor nem perder meu tempo de contextualizar aqui. Mas após mudarem sua sonoridade, eles resolveram se adequar aos "novos tempos" e partir para uma sonoridade sem o psicodelismo pelo qual o Airplane era conhecido. Este disco não é tão "AOR" quanto outros da lista (seria meio que um proto-aor), mais se encaixando no estilo "soft rock", mas ainda assim é um bom representante do início do que o estilo iria se tornar nos anos 80. Particularmente não sou muito fã de "Jane", o single principal do disco, mas acho "Things to Come" simplesmente fantástica em seus arranjos, ritmo e encaixe das vozes. "Fading Lady Light" e sua pegada acústica para depois vir um acompanhada de um show de órgão Hammond é outra que é brilhante. Infelizmente não acho que as outras faixas estejam no nível dessas duas que citei. Contudo, é um bom disco e vale uma checada se você curte este tipo de música.

Daniel: Este é disparado o melhor disco da lista, muito melhor até que minha própria indicação. É bem notável que o grupo bebeu nas fontes originais do estilo (Boston, Foreigner) e acrescentou sua própria identidade nas composições. Ótimas faixas como “Jane”, “Things to Come” e principalmente “Awakening” merecem uma conferida.

Davi: Freedom At Point Zero marca um ponto de virada na carreira do Jefferson Starship. A lendária Grace Slick pulou fora do barco e trouxeram para o seu lugar, o cantor do Elvin Bishop Group, Mickey Thomas. A sonoridade também mudou. Começaram a fazer um rock mais direto, mais radiofônico, que dividiu a opinião de crítica e público. O (bom) single "Jane" já deixa explícita a vontade de serem mais pops e acredito que seja a faixa que tem maior relação com o tema do post, já que ela tem uma pegada bem Foreigner. Além dela, gosto bastante da balada "Fading Lady Light" e dos rocks "Things to Come" e "Rock Music". Embora não seja um álbum impecável, o disco é, de fato, bem interessante. O único senão é que não considero esse trabalho tão obscuro assim.

Fernando: Banda “das antigas”. O Jefferson Airplane, ícone, da psicodelia californiana do clássico “White Rabbit” dá uma folga para Grace Slick, faz um upgrade em seu nome e ataca uma sonoridade que estava começando a se estabelecer. Eu não consegui decidir se a voz de Slick fez falta no disco. Acredito que ele soaria menos hard com ela nos vocais e a banda pode, ou se permitiu, variar um pouco mais. Como em várias bandas de AOR que vieram dos anos 70 a sonoridade mais progressiva era uma das características e isso aparece em “Awakening”, uma bela faixa.


Quarterflash - Quarterflash [1981]

Por Daniel Benedetti

Sendo um tema no qual não sou grande conhecedor, o único disco que consegui pensar para indicação foi este e, confesso, nem sei se cabe perfeitamente no tema. O que mais me atrai neste álbum é a voz da vocalista Rindy Ross e o saxofone safado que permeia as músicas, também tocado por ela. Na verdade, depois de tantos anos sem o ouvir, nem o achei grande coisa. Uma curiosidade: o percussionista brasileiro Paulinho da Costa participou das gravações do trabalho.

André: Gosto muito do Quarterflash. Acho a voz de Rindy Ross muito lindinha. Parece um anjinho. Curiosamente, já ouvi outros três discos da banda mas nunca ouvi o primeiro e principal lançamento deles. Assim como o Jefferson Starship, não fui muito com "Harden my Heart", seu principal hit, mas gostei muito mais do que as outras músicas têm a oferecer que, por sinal, foram as duas últimas do Lado B.  "Love Should Be so Kind" é um amorzinho na voz doce voz de Rindy e "Williams Avenue" tem mais um tema sacolejante do saxofone da cantora junto a um baixo incrível de Rich Gooch dando um jeitão funkeado a música que mais gostei do disco. Também não diria que é um AOR aorzento como todo AOR deveria ser, mas que é um ótimo registro musical para quem curte uns rocks mais leves como do Rick Springfield ou da carreira solo do Eagle Don Henley.

Davi: Não conhecia essa banda. Ouvi o disco de cabo à rabo, mas infelizmente não gostei do resultado. Particularmente, não gosto da voz de Rindy Ross e seu trabalho de saxofone também não me emocionou. Pelo contrário, aliás. O trabalho de sax em "Harden My Heart", que é a principal faixa do grupo, me lembrou o mala sem alça do Kenny G. O instrumento não aparece em excesso, está bem dosado, mas acho um diferencial meio chatinho. Do mais, achei o som polido em demasia. Bateria sem peso, trabalho vocal bem regular e as composições bem fracas. A melhorzinha acho que foi "Right Kind of Love", ainda assim longe do que considero uma grande canção.

Fernando: Claro que logo de cara reconhecemos “Harden My Heart”, o difícil foi lembrar de onde que essa música era reconhecível. Aí lembrei do filme Rock of Ages, procurei pela sua trilha sonora e bingo! Apesar de agradável, a voz da moça carece de um pouquinho mais e força, achei contida demais, mas fiquei com dúvidas se não foi a mixagem que jogou sua participação mais no fundo da gravação. O guitarrista Jack Charles canta em “Critical Times” em uma música bem característica do que as rádios comerciais da época procuravam, ou seja, um soft rock inofensivo. Aqui lembrei do Asia que mesmo fazendo um som que muita gente torce o nariz botava uma guitarras na cara das pessoas, bem diferente do que se ouve nesse disco do Quarterflash. Achei fraquinho no todo.

Mairon: O Quarterflash teve muito sucesso no início dos anos 80, baseado nos vocais e no saxofone de Rindy Ross, e em uma linha musical que me lembra muito o Fleetwood Mac de Rumours. Este álbum de estreia da banda traz o mega-hit "Harden My Heart", um daqueles momentos de eternização de um riff, no caso, o do saxofone. Há outros bons momentos, como a lindinha "Right Kind of Love" (saxofone manjadíssimo, mas ótimo para se brincar de air-sax), a magnífica voz de Rindy na ótima "Love Should Be So Kind", o baixão destacado de "Valerie" e a melhor do disco, "Find Another Fool", com um final sensacional. Todas elas apresentam a essência do Quarterflash, centrada em um refrão grudento, uma batida que te envolve e aquela sensação de relaxamento durante a audição. Faixas mais datadas como "Find Another Fool", "Try to Make It True" e a longa "Williams Avenue" também são de qualidade no mínimo nota 7, e sempre com a participação crucial do saxofone. Não consegui gostar das faixas com o guitarrista Jack Charles nos vocais, as quais são a chatérrima "Critical Times" e "Cruisin' With the Deuce", essa última até com poucos momentos de destaque nos vocais de apoio e nos solos de piano e guitarra, mas no geral, ambas não agregam nenhum valor ao disco. No geral, as letras são bem bobinhas, o som é bem simplesinho, mas é bem gosto de ouvir sem pretensões. Isso é O AOR!


The Ladder - Sacred [2007]

Por André Kaminski

O The Ladder parte para o lado mais pesado e "hard rocker" do AOR, com guitarras mais baixas e de mais distorção, uma sonoridade que também me agrada quando ouço o estilo. Steve Overland é um vocalista que gosto bastante e sabendo que o tema encaixa com este projeto paralelo (que rendeu apenas dois discos, com Steve depois retornando o seu foco ao FM), achei que era uma boa colocar algo aqui mais moderno para o pessoal ouvir. Aqui a receita do gênero é seguida à risca.

Daniel: Se você já ouviu a maior parte das bandas de AOR deste milênio, você já ouviu o The Ladder. Totalmente comum e genérico, o ouvinte não encontrará nada de novo por aqui. Não necessariamente ruim, mas indico só para fanáticos pelo estilo.

Davi: Esse é um projeto paralelo do Steve Overland, vocalista do FM. Steve sempre foi um grande cantor, portanto não preciso dizer que seu trabalho vocal é acima da média. No entanto, por conta de seu passado, esperava um projeto mais raiz. Esse álbum do The Ladder tinha uma preocupação em soar um pouco moderno. Há várias programações por trás dos arranjos (sutis, ok, mas estão ali), guitarras com afinação mais baixa e coisas do tipo. O repertório mistura faixas bem bacanas como “Body and Soul”, “Here I Am” e “Abandon Me” com outras bem sem sal como “Something To Belive In” e “Mean Streets”. Resumindo: bom disco, mas por ter um músico desse calibre, esperava mais.

Fernando: Trazendo de volta músicos do FM, Ultravox, Asia e Wildlife o The Ladder conseguiu reunir a sonoridade que todas essas bandas tinham para uma sonoridade mais alinhada com a época que foi lançada. Ótimo disco e com o clima do que eu pensei para o tema dessa edição, apesar de achar que os anos 80 iriam dominar as indicações. (Nota: o que vai me marcar em relação ao The Ladder foi que no momento em que eu cliquei para ouvir a primeira música do disco eu recebi a informação que minha cachorrinha querida tinha morrido na clínica veterinária e só fui voltar ao disco dias depois. Triste!)

Mairon: Mais uma banda que não conhecia, e surpreendente que esses caras sejam dos anos 2000. Sonoridade puramente AOR, como manda o figurino, encaixando vocais muito bem, camas de tecladinhos e aqueles solos de guitarra recheados de bends e arpejos. Ainda há inclusão de alguns eletrônicos, vide "All My Life", "Believe in Me" e "Here I Am", que as vezes parece que as band boys como N' Sync resolveram colocar uma distorção em seus sons, o que prejudica bastante o resultado final.  Claro, há baladinhas melosas como sempre, e no caso, "Run To You" e "Something To Believe In" cumprem seu papel com propriedade, apesar de não curtir muito. O violãozinho e os eletrônicos de "Make A Wish" são constrangedores, e o mesmo se repete em "Abandoned", com uma letra que certamente o pessoal do sertanejo universitário iria adorar regravar. A faixa inicial, "Body And Soul", é a melhor em disparado, o que gerou uma expectativa maior para a audição. Ouvir "Mean Streets", "Sea of Love" e a faixa-título foram um tanto quanto momentos de chatice, desculpem. Não consegui curtir, creio que muito por conta de que "Body And Soul" é muito acima das demais!


Perfect Plan - Time for a Miracle [2020]

Por Davi Pascale

Quando foi lançado o tema, fiquei pensando por dias qual álbum deveria indicar. E eis que, aos 45 do segundo tempo, me recordei desse álbum do Perfect Plan. Um dos discos que mais me chamaram a atenção no ano passado. O Fernando havia explicado que queria indicações de discos de AOR, mas queria que a galera saísse dos nomes óbvios, que focassem em trabalhos mais obscuros. O Perfect Plan é uma banda nova desse segmento. Na verdade, esse é o segundo disco deles. E como eles não tiveram nenhum hit (afinal, esse som hoje está fora das rádios), achei que tinha a ver. Além do tracklist extremamente bem consistente, o que mais me chamou a atenção foi justamente o trabalho vocal Kent Hilli. Para mim, uma das melhores vozes da nova geração, ao lado do Dino Jelusick (Animal Drive). Curioso para ver os comentários da galera.

André: Para falar bem a verdade, gostei mais deste disco do que o meu próprio que indiquei. É daqueles AORs clichezentos que eu gosto bastante. Um teclado bem tinhoso, vocais melosos, umas baladas açucaradas e aqueles refrãos feitos para cantar com a força dos pulmões. Muito bom, pode botar no seu carro conversível e sair pelas estradas do deserto brasileiro até a costa oeste.

Daniel: Nunca havia ouvido falar nesta banda, mas, com um minuto e meio de audição, percebi que se tratava de mais um produto da fábrica inesgotável de bandas AOR da Frontiers Records. Apesar de “genérico do genérico", não é o pior da lista, afinal consegui o ouvir todo. Ah, as baladas são verdadeiramente constrangedoras.

Fernando: A Frontiers faz um excelente trabalho nessa seara do AOR ou melodic rock. Porém é difícil não dissociar o caráter meio caça níqueis dos trabalhos que eles lançam. São muitas bandas com as mais diversas formações que duram pouco tempo, o que faz o fã desanimar ao tentar acompanhar. Gostei muito das músicas do Perfect Plan por um motivo: todas elas são candidatas à hit do álbum, pois são muito regulares e podemos dizer que não há fillers. Por outro lado nenhuma chamou mais a tenção para ser citada individualmente. Acho que isso acaba atrapalhando o álbum. Vou ouvir mais!!!

Mairon: á havia ouvido falar da Perfect Plan, mas nunca tinha parado para ouvir. Sempre foram comentários bem vindos do pessoal do AOR, e cara, realmente, para o estilo os suecos não ficam atrás em nada. Lembram um pouco o auge do Journey, ao meu ver, principalmente pelos arranjos bem encaixados de teclados e guitarras, e claro, o vozeirão rouco e choroso de sempre. Se colocassem "Every Time We Cry" certamente iria chutar que era Boston, enquanto "Give A Little Lovin'" me lembrou muito o Van Halen de Sammy hagar. Aliás, o vocalista se puxa bastante em tentar imitar o Red Rocker né?. Fiquei surpreso com a introdução bluesy de "Nobody's Fool", pena que não seguiu nessa linha, mas é uma ótima faixa, assim como a faixa-titulo, bem pesada e diferente das demais. Faixas como "Better Walk Alone", "Living on the Run", "What About Love" agradam quem curte o melhor do AOR, principalmente pelos refrãos grudento, camadas de teclados e os solos de guitarra cheios de bends e vibratos. Em tempo, "Fighting To Win" e "Don't Leave Me Here Alone" são baladaças, sem tirar pontos, enquanto "Don't Blame It on Love Again", "Just One Wish e ""Heart To Stone" são totalmente desnecessárias, ou eu que não tive saco para a melosidade das letras. Interessante que o álbum tenha saído aqui no Brasil, e que o Perfect Plan consegue passear por diversos estilos ao longo de composições puramente AOR. Bom disco.

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

Capas Legais: Milton Nascimento - Milagre dos Peixes [1973]



O episódio de hoje do Capas Legais resgata a linda capa de Milagre dos Peixes, o controverso álbum anti-ditadura lançado por Milton Nascimento em 1973, e que se abre em um formato oval bastante distinto. O mesmo ainda conta com encartes especiais. Confira!



terça-feira, 9 de novembro de 2021

Led Zeppelin - Untitled [1971]

O ano é 1989. Gaspar Kundera, um surfista quarentão, pai de cinco filhos, passa por uma série de conflitos com o irmão mais novo, Alex, em uma trama que envolvia ainda Duda, uma jovem e atraente modelo, numa trama que acabou sendo um gatilho para a criação de programas voltados exclusivamente para a geração adolescente, o que se conheceu como Malhação. Para quem não sabe do que estou falando, trata-se da novela Top Model, a qual contava com Nuno Leal Maia (o Gaspar), Cecil Thiré (o Alex) e Malu Mader (Duda), a qual foi ao ar na TV Globo no horário das 19:00. 

Gaspar e seus cinco filhos

Mas o que que essa novela tem a ver com o Led Zeppelin? Simples, o tema que surgia para mostrar as cenas envolvendo Gaspar era nada mais nada menos que "Stairway To Heaven". Sim meus amigos, a Globo por algumas vezes colocou velhos bons sons nas trilhas de suas novelas, e não à toa, com o passar dos anos, essas trilhas se tornaram itens para colecionadores fanáticos do exterior que desejam ter tudo o que seus artistas preferidos tem com seus nomes no Discogs. Eu tinha 6, 7 anos quando essa novela passou na TV, e ficava lá, brincando ou até mesmo vendo a mesma, sem entender o que ela tratava, mas uma coisa me encantava na novela: o som que vinha de "Stairway to Heaven".

Jimmy Page, Robert Plant, John "Bonzo" Bonham e John Paul Jones "Jonesy"

É daquelas coisas que não tem explicação. Por que gostamos de uma música é algo que tem a ver com várias circunstâncias, como letra, melodia, um determinado momento em que você ouve a música e ela bate ..., mas amar uma música de cara, ainda mais quando se é criança, é um evento que eu realmente não sei explicar, e eu amei (e ainda amo) "Stairway To Heaven". É a música que me formou como admirador de rock, e que foi a responsável por me levar a comprar meu primeiro disco, ainda com meus 8, 9 anos, que foi The Song Remains The Same, não só por "Stairway To Heaven", mas também por conta da curiosidade de ouvir uma música de 26 minutos, chamada "Dazed and Confused". 

O Led em Headley Grange

Na época, não tinha ideia de que "Stairway to Heaven" fazia parte de um disco sem título, mas que ficou mundialmente conhecido como Led Zeppelin IV, o que acabei descobrindo anos depois, quando  mesmo foi parar lá em casa via um amigo de meu irmão e colaborador do site, Micael Machado. Lembro que naquela feita, chegaram "IV", Houses of the Holy e o VHS de The Song Remains The Same, e eu fiquei ainda mais fascinado não só por "Stairway to Heaven", mas por que ali no quarto álbum também estava "Rock and Roll" (que abre The Song Remains the Same, e eu curtia bastante) e por que a magia que era exalada dos sulcos do vinil ao passar por faixas que eu nem tinha noção de como pronunciar ("When the Levee Breaks", "Four Sticks", "The Battle of Evermore"!!!!) mas que batiam na minha cabeça e no meu coração como aquela pessoa que vai te conquistando por suas atitudes e pensamentos que se destacam irresistivelmente mais que as já encantadoras beleza e elegância.

Era impossível eu não virar um fã de Led Zeppelin, e eu tive muita sorte deste ter sido o primeiro disco de estúdio que ouvi de Robert Plant (vocais), Jimmy Page (guitarra, violões), John Paul Jones (baixo, teclados, mellotron, mandolin, violões) e John Bonham (bateria, percussão). A fórmula condensada com precisão em "Stairway to Heaven", unindo momentos acústicos suaves com pancadarias adimensionais da bateria, gritos dilacerantes e solo de guitarra para se brincar de air guitar sem nem lembrar que a guitarra tem 6 cordas, é diluída com uma precisão tamanha ao longo das oito faixas do álbum.

Bonzo e Page em Headley Grange

Mas antes de falar das oito faixas, vamos voltar no tempo e contar a história da gravação de "IV". A banda flertou (ou melhor, teve um relacionamento forte) com o seu lado acústico em Led Zeppelin III, como tratei aqui, e decidiu levar isso adiante de uma forma mais centrada. No outorno de 1970, Page e Plant voltaram para Bron-Yr-Au, um chalé na região ao norte de Machynlleth, Powys (parte central do País de Gales) para compor as novas canções, acompanhados apenas de dois roadie, muitas ovelhas e tranquilidade para trabalhar. Dali, partiram para Headley Grange, junto de Jonesy e Bonham, um pouco de maconha, bebidas e o pessoal de apoio nos registros. A ambientação de Headley Grange foi crucial para a conclusão das ideias originárias em Bron-Yr-Aur. O local úmido e idílico foi o clímax daquilo registrado no quarto disco da banda. Como disse o administrador de turnês Richard Cole, "eles estavam brincando de serem senhores de terra ... Tinha até um labrador preto correndo por aí". O labrador deu origem a um dos grandes clássicos de "IV", "Black Dog". Page vai além: "Foi uma sorte que ninguém tenha contraído bronquite ou pneumonia". 

Page e o "Black Dog" em Headley Grange

O grupo fez uma turnê de 12 shows em 17 dias pelo Reino Unido, na qual o quarteto  optou por divulgar as novas canções em locais com público menores, ao invés das gigantescas arenas por onde estavam se apresentando até então. Nela, "Stairway to Heaven" foi apresentada ao público pela primeira vez em 5 de março de 1971, no Ulster Hall de Belfast, junto ao mais novo brinquedinho de Page, a linda e hoje famosa guitarra Gibson SG de dois braços. O grupo excursionou pela Europa, onde houve  um grave incidente em uma apresentação em Milão (Itália) no dia 5 de julho, descrito por Plant da seguinte forma: "escapamos por um corredor de acesso e as tropas italianas atiravam bombas de gás na gente ... entramos em um camarim, fiz uma barricada na porta com um gabinete de remédios ... eles quebraram as janelas e jogaram mais algumas bombas da rua", o que levou a banda a nunca mais se apresentar na Itália. 

Plant, Jonesy, Bonzo e Page em Milão, 1971

Após mais uma (a sétima) turnê pelos Estados Unidos, uma passagem de cinco shows pelo Japão, e ainda um erro estupidamente técnico na mixagem do disco, por conta da incompatibilidade entre as gravadoras de fitas com as quais as músicas haviam sido gravadas e mixadas, e de uma looooooooonga discussão por conta da capa do disco (tratarei adiante), o quarto álbum da banda foi lançado exatamente em 8 de novembro do mesmo ano o disco. 

O single de "Rock and Roll"

Abrindo com "Black Dog" e seu riff forte, já somos socados na parede com as batidas de Bonzo e os vocais agudos de Plant, em uma canção cercada de mistérios sobre sua letra. "Rock and Roll" foi a faixa mais inesperada do disco. Enquanto a banda ensaiava "Four Sticks", Bonham tentou tocar a abertura de "Keep A-Knocking", de Little Richard. Dali saiu uma das introduções de bateria mais conhecidas da história, e um rock de altíssima qualidade, para sacolejar o corpo e destacando a participação do piano de Ian Stewart (não creditado no disco). A canção foi lançada como single em alguns países, inclusive no Brasil, tendo "Four Sticks" no lado B (algumas edições americanas trazem as versões estéreo e mono em cada lado da bolachinha). Como diz Mike Wall, "'Rock And Roll' é um número retrô-mas-futurista que olha para trás enquanto avança para frente impetuosamente". 

Bonham, Plant, Sandy Denny e Jimmy Page
A runa de Sandy Denny

"The Battle Of Evermore" vem na sequência. Deixamos Page explicar como a canção surgiu: "Eu e Plant descemos uma noite, e o bandolim de Jonesy estava lá. Eu nunca tinha tocado bandolim, peguei o instrumento, comecei a mexer, e então ela saiu". A letra é baseada em trechos do Senhor dos Anéis (livro que Plant estava devorando à época) e também em um livro sobre a guerra de independência da Escócia, que perambulava na cabeceira de Plant. É a única canção do grupo a contar com uma voz além da de Plant. A escolhida foi Sandy Denny, então vocalista do Fairport Convention, que com sua voz cristalina, fez o contraponto harmônico perfeito para as vocalizações de Plant. Uma linda faixa acústica, onde o mandolin é a base para os contrapontos vocais, em uma ampliação magnífica daquilo que já havia sido explorado em "That's The Way", em Led Zeppelin III. A colaboração de Sandy foi tão crucial que ela recebeu uma runa no encarte do álbum, no caso, três triângulos invertidos. 

Chegamos no momento máximo do disco, a obra que deu origem a este texto, "Stairway To Heaven". É daqueles momentos que uma entidade baixa na Terra e diz :"faça isso!", e sai algo realmente sobrenatural. O próprio Plant afirma que, ao escrever a letra, estava sendo "guiado por alguma coisa", que não era realmente ele quem estava controlando a caneta. Antes do lançamento, Page já informava um pouco sobre "Stairway to Heaven": "É algo começando com uma guitarra nua, sem efeitos de pedal ... Bonham entra para dar um efeito, deixar a coisa correr, e então, há um grande orgasmo no final". Não há descrição mais perfeita para o que ocorre em "Stairway To Heaven". 

O single de "Stairway to Heaven"

Difícil tentar falar de uma música tão importante e conhecida, mas vamos lá. O lindo dedilhado inicial ao violão (que causou problemas por conta da similaridade com "Taurus", do Spirit), a entrada das flautas, o vocal doce de Plant, quase que chorando, só essa vasta introdução já arrepia. A cada "u-u-uh, and it makes me wonder" de Plant, a canção vai crescendo, com Page sendo o responsável por comandar esse crescimento, lentamente. Na segunda estrofe, Page sai do violão e vai para a guitarra, entram os teclados, e o ritmo só acelera, de forma controlada. Mais uma série de "u-u-uh, and it makes me wonder", e entra o baixo, timidamente, na terceira estrofe da letra.

A bateria entra na quarta estrofe, e a canção já está em outro patamar. As cinco batidas de Bonzo são suficientes para catapultar "Stairway To Heaven", e um ouvinte que nunca ouviu a canção, já fica percebendo que a canção está sendo elevada cada vez mais para níveis estratosféricos. Com todos os instrumentos fazendo sua parte, Plant canta a última estrofe em cima da melodia original, e assim, vem a mais famosa série de variações em Am que a música já ouviu, para então Page demolir no seu solo, sobre a base daquela que é a sequência de acordes mais copiada da história da música (Am, G, F), e que arranca lágrimas, faz você criar bolhas nos seus dedos de tanto tocar a sua air guitar, e ainda vem mais. Complementando essa sensação de êxtase, Plant surge cantando a berros as lindas frases finais da canção, e não há outro sentimento para o cérebro e o corpo de um orgasmo inesquecível e acachapante, quando Plant lança a penúltima frase da canção, "To be a rock and not rooooooooooooooooooll". O Led ainda nos brinda com mais 5 segundos, só com a voz de Plant, dizendo, "and she's buying a Stairway to Heaven", e pronto, caímos diante desta gigante obra-prima da história da arte.

A letra de "Stairway To Heaven" no encarte do quarto álbum

Tentando se recuperar (se possível) de algo tão impactante como "Stairway To Heaven", voltamos para Tolkien em "Misty Mountain Hop", faixa que abre o lado B com o predomínio do piano elétrico de Jonesy, em uma faixa dançante e bem em anti-clímax ao que encerrou o lado A. Mas mesmo sendo uma faixa aquém das demais, é uma faixa bem legal para "voltar a vida" e recobrar as energias depois de tudo que aconteceu em "Stairway To Heaven". "Four Sticks" foi uma das músicas mais difíceis de serem criadas. Baseadas em um raga indiano, com andamento intrincado que varia entre cinco e seis compassos, só foi concebida após uma noitada de Bonham, na qual, após ver um show da Ginger Baker's Airforce, já pela manhã, ele chegou, pegou quatro baquetas e construiu o ritmo avassalador do raga pensado por Page. O riff de baixo e guitarra é pesado e forte como os agudos de Plant, e a entrada dos violões e dos sintetizadores dá mais tensão para a canção. Impressionante os vocais de Plant aqui. Essa faixa é daquelas que ficou perfeita quando dos arranjos que Page e Plant fizeram anos depois em No Quarter

Mais do Led em Headley Grange

Chegamos em "Going To California", uma homenagem de Plant para Joni Mitchell, a garota com amor nos olhos e flores no cabelo: "quando você se apaixona por Joni Mitchell, você realmente precisa escrever a respeito agora e sempre", disse Plant certa vez. Outra obra de arte genial, com Page mudando a afinação do violão para D, o mandolin de Jonesy serpenteando as notas dedilhadas pelo violão, e Plant mais contido, apaixonado por sua musa inspiradora e cantando de forma ebriante. Linda faixa, e que mostra mais uma vez como Page estava iluminado nessa época.

Por fim, a versão Zeppeliana de "When The Levee Breaks", original de Memphis Minnie e Kansas Joe McCoy , e que aqui teve boa parte da letra reaproveitada por Plant, mas convenhamos, essa versão do Led é arrasadora, e muito diferente do original. Enquanto Memphis e Kansas criam um blues tradicional de pouco mais de dois minutos, o Led nos traz uma paula brutalmente pesada de 7 minutos. Bonham surge já socando seu kit, e então entra a banda fazendo o riff enquanto Plant esfola seus lábios na harmônica em um solo gigante, que raramente se encontra em um disco de uma banda de rock (lembro apenas de Keith Relf fazer algo parecido em "Buzzard", do Armageddon). São exatamente a harmônica e a bateria os diferenciais centrais em relação a versão do blues de 1929. A faixa passa por diversas variações, sempre pesadíssimas, alternando o brilho central entre a guitarra, a harmônica e o vocal dilascerante de Plant. Faixa grandiosa, pouco lembrada as vezes pelos fãs da banda, mas que eu também curto demais. 

Cartaz promocinal com as runas de cada membro do Led

A capa do álbum apresenta apenas quatro símbolos, as runas, e trouxeram uma sensação de mistério que ajudou ainda mais o disco a vender. Os símbolos estiveram em outdoors, jornais, e claro, nos palcos do Led, e foi totalmente intencional. Page foi quem deu a ideia para a capa, baseado no livro The Book of Signs, de Rudolph Koch: "No início eu queria apenas um símbolo, mas como era o quarto disco, e éramos quatro, cada um escolheu o seu próprio". Assim, Jones olhou o livro e escolheu um símbolo de um círculo trespassado por três arcos semicirculares interligados (símbolo usado para manter o mal longe). Bonham escolheu três anéis sobrepostos (símbolo da família). Já Page e Plant encomendaram seus símbolos. A de Plant, uma pena dentro de um círculo, representa coragem. Já a estranha "Zoso" não é uma palavra, mas segundo o próprio Page, um desenho sem sentido.

 O EP americano, com as runas na capa

Nos Estados Unidos, também foi lançado (1972) um EP promocional com "Rock and Roll", "Black Dog" e "Stairway To Heaven", canção que também saiu como single em alguns países (inclusive em uma versão pirata brasileira). A capa do EP é uma versão preto e branco do quarto álbum, apresentando também as quatro runas (imagem ao lado).

O fato de não haver o nome da banda ou qualquer sinalização ao Led na capa foi um empecilho gigante entre a gravadora Atlantic e o desejo de Page, por medo de que o público não iria comprar um disco sem saber de quem era, e assim o álbum naufragaria. A Atlantic acabou cedendo, e fez muito bem. O quarto álbum chegou ao topo das paradas britânicas rapidamente, e alcançou o segundo lugar nos Estados Unidos, onde ficou nos charts por mais de dois anos. Hoje, é o quarto disco da história da música, com mais de 35 milhões de cópias vendidas (23 milhões apenas nos Estados Unidos), e completa 50 anos como um verdadeiro clássico que você ouve pela primeira vez e parece ter ouvido antes, mas quando vai ouvir a milésima vez, parece que é a primeira.

As runas no palco do Led em 1971 (acima) e 1973 (abaixo)

Track list

1. Black Dog

2. Rock and Roll

3. The Battle of Evermore

4. Stairway To Heaven

5. Misty Mountain Hop

6. Four Sticks

7. Going To California

8. When The Levee Breaks

terça-feira, 26 de outubro de 2021

Datas Especiais: 50 anos de Chicago Live at Carnegie Hall [1971]


Muito antes do Chicago ser uma potência pop comandada por Peter Cetera nos anos 80, o grupo americano já era uma banda impactante. Para começar, o grupo era formado por sete membros, a saber o já citado Cetera (baixo, vocais), Terry Kath (guitarra vocais), Robert Lamm (teclados, vocais), Lee Loughnane (trompete, percussão, guitarras, vocais de apoio), James Pankow (trombone, percussão, vocais de apoio), Walter Parazaider (flauta, saxofone, clarinete, percussão, vocais de apoio) e Danny Seraphine (bateria). Como podemos ver, são três vocalistas oficiais, e mais vocais de apoio que caracterizaram as harmonias vocais entoando as letras políticas e românticas da banda ao longo de sua carreira. O trio formando o naipe de metais é monstruoso, com três músico gabaritadíssimos para esse papel. Seraphine é um dos bateristas mais injustiçados do rock, sendo que tocava qualquer estilo com uma segurança rara. E por fim, Lamm, Kath e Cetera além de vocalistas excepcionais, também tocavam demais seus instrumentos, sendo Lamm e Kath nomes que deveriam aparecer muito mais nas listas de melhores dos teclados e guitarra respectivamente. 

Seus três primeiros álbuns são talvez o único caso na história da música a serem todos lançados no formato duplo, inclusive com gatefold, e com a impressionante mixagem quadrifônica (também presente nos cinco álbuns subsequentes do grupo, com exceção do aqui apresentado hoje). Para aumentar ainda mais a grandiosidade, a partir do segundo disco, vários foram os lançamentos na primeira metade dos anos 70 com encartes exclusivos e pôsters gigantes, uma das grandes novidades que o Chicago trouxe para o mercado consumidor e colecionador. Por fim, a hegemonia do Chicago era tamanha logo na sua fase inicial que eles foram a primeira banda "de rock" a tocar durante uma semana inteira, entre 5 e 10 de abril, para um Carnegie Hall (berço do jazz nova iorquino) sold out, ou seja, com ingressos esgotados. Um fato tão importante quanto esse não poderia ser deixado de lado, e assim, culminou no lançamento de seu primeiro álbum ao vivo, Live at Carnegie Hall, que completou ontem 50 anos. 

Inserts individuais

Mas óbvio que o não seria qualquer disco ao vivo em se tratando do hepteto. Ele também tinha que ser grandioso, e após muitas discussões e especulações, e com o pessoal da gravadora Columbia de cabelos arrepiados, no dia 25 de outubro de 1971, ou seja, há 50 anos, Live at Carnegie Hall foi lançado em um magnífico formato quádruplo (subsequentemente lançado em formatos individuais duplos, com os volumes I e II em um álbum e os volumes III e IV em outro), em um box caprichadíssimo, trazendo além dos quatro LPs em encartes exclusivos, um livreto de 20 paginas, trazendo fotos da banda bem como todas as datas de shows do Chicago desde sua primeira apresentação, em 22 de maio de 1967, um pôster gigante do Carnegie Hall, um pôster gigante da banda e um colossal pôster da banda ao vivo. Para se ter uma ideia do tamanho desse pôster colossal (veja imagem abaixo), os pôsters gigantes são no formato 3 x 2, ou seja pegue uma capa de vinil normal e simule 3 colunas por duas linhas. O pôster colossal é no formato 6 x 4, ou seja, seriam seis colunas por quatro linhas de capas de vinil, totalizando o impressionante tamanho de 24 capas de vinil (!). O bendito ocupou todo meu sofá, sendo que os pôsters do Carnegie Hall e da banda, que já são grandes, parecem umas coisinhas sobre ele.

O colossal pôster que vem na caixa, ocupando todo o sofá …
… Comparando o tamanho do pôster colossal com os pôsters gigantes

Vamos ao som, que também é gigante. Após as conferências dos instrumentos, e a apresentação da banda, o Chicago começa já detonando com "In The Country", magistral faixa de Chicago (1970), também conhecido como Chicago II, mostrando um riffzão do naipe de metais, e um trabalho sensacional de baixo e guitarra. Comandados pela grave voz e as passagens de guitarra impressionantes de Kath, a faixa é perfeita para abrir as próximas três horas de audição, seguida de "Fancy Colours", outra de Chicago, a qual surge com o brilhante hammond de Lamm e os vocais adocicados de Cetera, modificando-se para uma dançante canção na qual a banda exalta suas harmonias vocais com um talento incomparável, além de Parazaider fazer estripulias diversas na flauta, passando por um breve duelo entre hammond e uma guitarra pesadíssima de wah-wah.

Na sequência, o grupo retorna para Chicago Transit Authority (1969), o álbum de estreia, trazendo uma mistura de duas canções daquele disco, "Does Anybody Really Know What Time It Is" e "Free Form" começando com uma longa apresentação solo de Lamm ao piano, nos deixando hipnotizados por 10 minutos com suas linha jazzística, aquela deliciosa melodia do trompete, e uma letra que até uma marmota bêbada consegue cantarolar. Faixa fantástica, e assim, como um estalar de dedos, encerramos os quase 25 minutos do Lado A. Ainda há mais sete lados para vir, e já estamos ajoelhados diante da vitrola. 

Terry Kath (acima) e Robert Lamm (abaixo)

Seguimos então com Chicago Transit Authority, através da sensual "South California Purples", uma magistral faixa onde Lamm manda ver no hammond, Kath pisoteia seu wah-wah sem piedade e claro, o naipe de metais dá um banho de participação, incrementando a massa sonora criada pelos demais instrumentos com passagens marcantes em nosso cérebro. O solo de Kath é a primeira amostragem de por que eu o considero um dos gigantes da guitarra, carregando de feeling mas também muita técnica e swing, algo difícil de misturar, e que leva a música por mais de metade de sua duração. Pena que faleceu cedo ... A ovação da plateia ao final não precisa dizer mais nada. Chegamos a "Questions 67 And 68", imponente faixa de Lamm e cujos vocais duelados entre ele e Cetera chegam a arrancar lágrimas. Adoro o trabalho de baixo de Cetera aqui, suave mas ao mesmo tempo muito forte nas melodias, acompanhando a bateria, que assovalha tudo em um andamento incansável. E os metais, buda que partiu, que coisa linda. Lado B encerrado, é hora de pegar uma água (ou algumas cervejas), por que o show está só começando.

O lado C pula para Chicago III, começando com a funkeada "Sing A Mean Tune Kid" e 13 minutos novamente avassaladores. Naipe de metais destruindo, wah-wah comendo solto, piano martelando o piso e os vocais grudando vários "yeahs yeahs" em nosso pensamento. Além disso, mais uma aula de Kath na guitarra, agora abusando de escalas jazzísticas, enquanto Lamm e Seraphine parece estarem em um frenesi alucinógeno. Que solo, para tirar o fôlego! Destruídos com  ferocidade de "Sing A Mean Tune Kid", os ouvintes são massageados pela singela beleza de "Beginnings", faixa linda para se declarar ao seu amor, com Lamm cantando magnificamente, e a guitarra de Kath embalando corações. É a quinta faixa do álbum de estreia dos americanos a aparecer em Carnegie Hall, e encerra o Lado C com os metais mandando ver sobre a ginga de bateria, guitarra e baixo.

Peter Cetera (acima) e Danny Seraphine (abaixo)

"It Better End Soon" e seus cinco movimentos ocupam todo o lado D. Nesta faixa que originalmente também ocupa quase todo o lado D de Chicago, temos de tudo. São 16 minutos do Chicago quase progressivo, começando por mais um veloz solo de guitarra, o riffzão do naipe de metais, o vozeirão de Kath estourando as caixas de som, o baixo de Cetera socando nossa cara na parede, passando por solos individuais de flauta, onde Parazaider apresenta alguns temas tradicionais, acompanhado pela leve percussão de Seraphine. Kath também nos abrilhanta os ouvidos com um veloz e furioso solo, acompanhado por muita percussão e todo o groove do baixo de Cetera. Kath também declama (a berros) também um grandioso poema antiguerra, batizado de "Preach", que inclusive está no livreto que acompanha o álbum. 

Vamos para os Volumes III e IV, ou melhor, o terceiro e quarto vinil de Live at Carnegie Hall, retornando para Chicago Transit Authority com a faixa de abertura daquele álbum, "Introduction", uma das melhores faixas da carreira dos americanos, com os metais criando um riff marcante, a bateria avassaladora de Seraphine e os vocais graves de Kath sacudindo a casa. As viradas e pontes da canção encaixam-se muito bem em discos progressivos de bandas como King Crimson ou Gentle Giant, com uma perfeição incrível, e o solo de trompete, com o dedilhado de baixo de Cetera, é simplesmente de chorar. Mas segure as lágrimas, por que o que Kath faz na guitarra não é apenas para chorar, mas para arrancar os cabelos pensando como o cara consegue tocar tão rápido. Que sonzeira! Faixa espetacular para iniciar alguém na obra do Chicago. "Mother" e "Lowdown", faixas que abrem o Lado C de Chicago III, encerram o lado E de Live at Carnegie Hall, apresentando mais influências progressivas, e com destaque para o acompanhamento de baixo de Cetera durante o sensacional solo dos metais na primeira, cantada por Lamm, e para o ritmo dançante da segunda (dê-lhe wah-wah e baixão estourando as caixas de som).

Walter Parazaider (acima) e James Pankow (abaixo)

Para o lado F, seguimos com Chicago III, através das três primeiras partes de "Travel Suite": o country rock de "Flight 602", lembrando Buffalo Springfield ou até mesmo Poco; "Motorboat to Mars", momento solo de Seraphine, usando muito dos tons e viradas rápidas, em um estilo muito peculiar de tocar; e "Free", uma pancada anti-vietnã no nível de "Introduction", na qual é difícil dizer o que é mais destacado, se as harmonias vocalizações, as intervenções dos metais, o ritmo avassalador da cozinha Cetera-Seraphine, os vocais arregaçados de Kath, o saxofone alucinado de Parazaider ou as viradas precisas do hepteto. Outra baita sonzeira para destruir a casa. Depois de arrasados com "Free", somos levados para Chicago e a balada "Where Do We Go From Home", conduzida pelo piano de Lamm e a voz de Cetera, já dando indícios do que um dia o Chicago conseguiria fazer com melosidades, encerrando o terceiro disco com o bluesão "I don't Want Your Money", de Chicago III, e mais uma pequena aula de Kath ao wah-wah, preparando então o caminho para o LP final.

A dançante "Happy Cause I'm Goin Home", de Chicago III, chega com as vocalizações e o embalo da guitarra de Kath, mas o grande destaque vai para o magistral solo de flauta de Parazaider. Na sequência, entramos para a suíte "Ballet for a Girl in Buchanan", com suas sete partes, e originalmente gravada em Chicago. Essa faixa é um desbunde total. Logo na abertura, os metais apresentam o riff progressivo de "Make a Smile", repleto de quebradas, muito complexo. A voz soul e rouca de Kath surge embalada pela poderosa cozinha de Cetera e Seraphine, e os metais tomam conta, com passagens e riffs fantásticos. Kath comanda o embalo e também faz um solo primoroso, veloz, arregaçante, abusando das escalas jazzísticas, enquanto a quebradeira come solta ao fundo. Repentinamente, a canção muda, e em uma escala decendente, temos mais uma amostra progressiva do Chicago ("So Much To Say, So Much To Give"), levando ao solo de trompete de "Anxiety's Moment" e as intrincações Zappianas de "West Virginia Fantasies". Se colocassem isso para eu ouvir, ia chutar que era algo de Zappa na fase The Grand Wazoo ou Over-Nite Sensation, tamanha a intrincação. Então, sob muitos aplausos, o piano de Lamm começa a dedilhar delicadamente em "Colour My World", e após a bela letra, mais um lindo solo de flauta por Parazaider. "To Be Free" é a penúltima parte da suíte, com mais um espetáculo dos metais, fechando então com "Now More Than Ever", que resgata a letra de "Make Me Smile". 

Lee Loughnane

O último lado é talvez o melhor de todos. "Puxa, mas depois de tudo que você escreveu ainda dá para melhorar?". Sim, e muito. Abrindo os trabalhos do lado H, o trombone sinistro de Pankow em "A Song for Richard and His Friends", canção inédita na qual Terry Kath mostra por que era um dos maiores ídolos de Jimi Hendrix. É um show de alavancadas e feedbacks para poucos, emulando trechos de "Free Form Guitar" (Chicago Transit Authority. Como que a guitarra aguenta tanta alavancada não dá para explicar. Os metais também fazem misérias, em uma intrincada sessão puramente progressiva. A guinada bluesy da canção, através da entrada do solo de hammond, é genial! Temos então mais um belo show dos metais, e claro, Kath mandando ver em seu solo veloz e com as escalas jazzísticas sendo dedilhadas com uma precisão robótica. Repentinamente, voltamos a quebradeira inicial, encerrando uma canção fantástica.

Na reta final, "25 or 6 to 4", de Chicago, coloca o salão do Carnegie Hall para dançar. O riff dos metais surge, e logo imaginamos que esse riff poderia estar na abertura de um programa esportivo. As passagens de metais, o vocal gritado de Cetera e um refrão forte irão fazer você sair pulando pela casa entoando o nome da canção, e cara, o que os metais participam aqui ... E Kath de novo nos brilha com outro grandioso solo, acompanhado pelo baixão de Cetera e o ritmo incansável da bateria. Demais! O ritmo avassalador de Seraphine continua em "I'm a Man", de Chicago Transit Authority. Lamm, Cetera e Kath dividem os vocais, e também a atenção de seus instrumentos durante a primeira metade da canção, com Cetera puxando a guitarra e o hammond fazendo o riff central. Na segunda, temos o longo solo percussivo, comandado pelo ritmo de Seraphine, e com os membros do naipe de metais mandando ver em diversos instrumentos percussivos, fechando com chave de diamante esse brilhante e subestimado álbum ao vivo.

Live at Carnegie Hall alcançou a terceira posição em vendas nos Estados Unidos, sendo até hoje o álbum quádruplo mais vendido da história, e foi durante muito tempo o Box Set mais vendido de todos os tempos, sendo superado apenas em 1987 por  Live/1975-85, a caixa de 5 LPs de Bruce Springsteen, mas fracassou na Europa. Muitos jornalistas criticaram o Chicago pelo excesso do álbum, seja pela longa duração, por registrarem até os momentos de afinação e conversas com a plateia, e claro, pelos extras do box. Dentro da banda, Cetera e Pankow também criticam a mixagem do disco, qualificando-a como pobre, sendo que Pankow acusou o naipe de metais de soarem como Kazoos - o famoso mirlitão, ou cornetinha de aniversário - o que discordo fortemente, mesmo tendo ouvido a mixagem posterior, considerada muito melhor, quando do lançamento em CD triplo, ou na versão DELUXE, que traz réplicas de todo o material lançado no box original, além de quatro CDs, sendo um deles somente de faixas bônus. 

A versão em CD, imitando o lançamento original, com os três pôsters

Falando nesse relançamento, as canções do CD bônus, a saber "Listen" (6/4/1971), "Introduction" (6/4/1971), "South California Purples" (5/4/1971), "Loneliness Is Just A Word" (8/4/1971), "Free Form Intro (Naseltones)", "Sing A Mean Tune Kid" (8/4/1971), "A Hour In the Shower" (8/4/1971) e "25 or 6 To 4" (6/4/1971), todas registradas naqueles dias de Chicago no Carnegie Hall, atestam ainda mais a grande perda que foi Terry Kath. O cara faz misérias em solos velozes mas repletos de muito feeling. Lamm também é outro que está tocando muito bem ao piano nessas canções, e que acrescentam mais uma hora de música para as já 3 horas de duração do box original.

Voltando então ao lançamento principal, Loughnane é o mais forte, alegando que o álbum nunca deveria ter sido lançado. Mas sou muito contrário a essas opiniões. Acho a qualidade de gravação muito boa, que nos remete diretamente para dentro de uma sala como o Carnegie Hall, não só como colecionador que aprecia os incríveis mimos que estão neste lançamento, ou pelas ótimas músicas que entretem por três horas, mas principalmente, por que Live at Carnegie Hall nos mostra como uma banda gigante como o Chicago pode soar em um palco, deixando também aquela dúvida de como que uma banda com composições tão incríveis pode ter mudado tanto de estilo ao longo dos anos. Para ouvir e se deleitar!

James Pankow, Robert Lamm, Walter Parazaider, Peter Cetera, Lee Loughlane, Danny Seraphine e Terry Kath

Track list

1. In The Country

2. Fancy Colours

3. Does Anybody Really Know What Time It Is? (Free Form Intro)

4. Does Anybody Really Know What Time It Is?

5. South California Purples

6. Questions 67 And 68

7. Sing A Mean Time Kill

8. Beginnings

9. It Better End Soon

10. Introduction

11. Mother

12. Lowdownd

13. Flight 602

14. Motorboat To Mars

15. Free

16. Where Do We Go From Here

17. I Don’t Want Your Money

18. Happy Cause I’m Going Home (Ballet For A Girl In Buchannon)

19. Make Me Smile

20. So Much To Say, So Much To Give

21. Anxiety’s Moment

22. West Virginia Fantasies

23. Colour My World

24. To Be Free

25. Now More Than Ever

26. A Song For Richard And His Friends

27. 25 or 6 To 4

28. I’m A Man


quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Ouve Isso Aqui: Guitarristas Subestimados




 Editado por André Kaminski

Tema escolhido por Ronaldo Rodrigues

Com Daniel Benedetti, Davi Pascale, Fernando Bueno e Mairon Machado

Impressiona a quantia de bons guitarristas que o rock legou (e continua legando) para a humanidade. O objetivo dessa seção é pegar um apanhado de guitarristas que não alcançaram grande fama e sucesso em seus trabalhos e, apenas por isso, não figuram na lista dos melhores guitarristas de todos os tempos. É bom cifrar que essas listas são, em sua maioria, listas dos melhores guitarristas famosos. Aqui nós buscamos ir um pouco além e trazer uma seleção de guitarristas de alto calibre de diferentes épocas e vertentes do rock. Além disso, a busca visa ofertar bons guitarristas inseridos em bons discos. (Ronaldo Rodrigues)

Joe Beck - Nature Boy [1968]

Ronaldo: Joe Beck poderia, com tranquilidade, ser contado entre os guitarristas que ajudaram na evolução exponencial do instrumento na segunda metade dos anos 60. Jimi Hendrix virou a grande alegoria dessa evolução, mas ele não estava só nessa. E Joe Beck era um dos que corria por fora - seu trabalho solo, de 1968, é uma prova da técnica inovadora e criatividade do garoto. Além do repertório cativante, Beck gravava várias camadas de guitarra, usando diferentes efeitos e abusando do estéreo. O cara era bom na guitarra limpa ou na distorcida, usando com maestria o efeito wah-wah (ainda uma novidade na época), bem como no violão. É um disco que vai além de ser um disco de guitarrista - Nature Boy é um excelente álbum de rock, em fusão com outros estilos, com todo o sabor variado do fim dos anos 60.

André: Tá aí um cara que gosta bastante do wah wah. Um disco com pegada, energia, apesar da capa aparentar algo mais folk e relaxado, o álbum traz muito de rock, jazz e fusion. O disco é muito variado e com faixas para todos os gostos. Sua voz também é bastante agradável. Não conhecia este guitarrista e fiquei bem interessado em seus outros trabalhos.

Daniel: Eu nunca havia escutado este álbum ou mesmo ouvido falar em Joe Beck. Gostei deste álbum, tem aquela aura do fim dos anos 1960s e pré-70s. A psicodelia tem uma presença marcante na obra, com a guitarra liderando o trabalho, mas permitindo que os demais instrumentos brilhem. Álbum bem legal.

Davi: Confesso que não conhecia o trabalho desse cara. Dei uma lida sobre ele e vi que ele tocou com grandes músicos do jazz e, por conta disso, achei que essa seria a dinâmica do álbum, mas não é bem assim. Sim, há referências claras de jazz na construção das músicas, mas há também uma enorme dose de psicodelia nos arranjos e até uma influência do blues. E são justamente os momentos mais “roqueiros” que me chamaram a atenção. As faixas “Let Me Go”, “No More Blues” e “Ain´t No Use In Talkin´” são minhas favoritas. Achei o disco bom, muito bem tocado, várias faixas interessantes. Os pontos baixos ficam por conta do trabalho vocal (não compromete, mas não emociona) e a fotografia da capa, que em nada parece álbum de um guitarrista. Parece mais um trabalho solo do cantor do Rinaldo & Liriel, do que qualquer outra coisa. De todo modo, vale uma checada.

Fernando: Em um tema sobre guitarristas o que me chamou atenção logo de cara na primeira música foi o baixo. Também estranhei um pouco e até achei que estava ouvindo o disco errado, pois eu fui ouvir o disco com a informação de que Joe Beck era um guitarrista de jazz mas o que encontrei foi um rock psicodélico, cheio de whah whah, muito característico do ano do lançamento do disco. Também pensei comigo como alguém que se compromete a tocar jazz pudesse ser um guitarrista subestimado, já que esse é um estilo que você precisa ser considerado no mínimo bom para começar a tocar. O que fica claro logo na segunda faixa, “Spoon’s Caress”, com seus dedilhados bem intricados. Aí eu fico na dúvida se muitas vezes os considerados subestimados são só desconhecidos mesmo. Nessa caso eu estaria na segunda opção, já que desconhecia completamente Joe Beck. Belo disco! Vai ficar na minha lista de audições por mais tempo.

Mairon: A estreia de Joe Beck é um daqueles álbuns clássicos obscuros do final dos anos 60, graças ao estilo único do guitarrista tocar, seja pisoteando o wah-wah com elegância como na faixa-título, "Goodbye L. A." e "Maybe", ou dedilhando o violão no melhor estilo folk em "Please Believe Me" (lindíssima, ainda mais com o solo de piano) e "Spoon's Caress" . Aprecio muito as harmonias vocais que Beck emprega ao longo do disco, e também da utilização de um excelente naipe de metais em "Ain't No Use In Talking" e "Let Me Go". Apesar de ser um guitarrista de mão cheia, é no piano de "Come Back: Visions Without You" que o artista cria sua melhor obra nesse álbum, acompanhado pelo trompete demoníaco de Randy Brecke. Faixa delirante, assim como a sensacional "No More Blues", com uma introdução magnífica com orquestra que desencadeia em um blues animado onde Beck pisoteia seu wah-wah com gosto. Mais uma bela indicação do Ronaldo por aqui!

Elliott Randall - Randall's Island [1970]


Ronaldo: Randall era um guitarrista de estúdio que resolveu se arriscar com um projeto próprio. Se o sucesso não veio, do ponto de vista artístico, o primeiro disco que gravou com seu nome foi um primor em termos musicais. A técnica e as qualidades guitarrísticas estão em primeiro plano, mas uma banda afiada o acompanha em temas instrumentais e com vocais. O estilo parte do blues-rock, mas incorpora naipes de metais e percussões, se aproximando de Chicago e Blood, Sweat and Tears. O timbre de Randall é ardido e muito característico, repleto de personalidade; Randall joga o tempo todo para o time, ainda que ele seja o líder inconteste do trabalho. Suas qualidades como músico de estúdio o renderam participações em grupos como o Steely Dan. Um dos solos de guitarra da faixa "Reelin in the Years" é de sua lavra e Jimmy Page o contava com um de seus solos favoritos em todos os tempos.

André: Um blues rock do estilo que gosto: pegado, com energia e ao mesmo tempo que consegue soar algo fino e com classe. Você sente tanto aquela coisa mais selvagem do rock ao mesmo tempo que o baixo e a bateria colocam aquele requinte do blues e do jazz. O disco é curtinho, passou rápido e deixou ótima impressão.

Daniel: Este eu também nunca havia ouvido. Disco muito interessante, baseado em uma sonoridade que eu curto muito (Blues Rock), por vezes com doses muito bem colocadas de peso e de intensidade. Os solos esbanjam feeling e o trabalho da guitarra é cativante. Minha preferida foi " Mumblin' To Myself".

Davi: Elliott Randall é um músico que não é muito conhecido entre o grande público, mas é um nome manjado entre os músicos. Esse cara já chegou a tocar com grandes nomes como Steely Dan, Carly Simon, Peter Frampton... Chegou até a participar dos álbuns solo que o Gene Simmons e o Peter Criss lançaram em 1978. Randall´s Island é um disco muito bacana e traz um repertório bem variado. “Take Out The Dog, Bark The Cat” e “Mumblin´to Myself” embarcam no blues. “Jolly Green Giant and the Statue of Liberty” cai de cabeça na psicodelia. “Soulflower” conta com uma jam que possui os 2 pés no jazz, enquanto “Life In Botanical Gardens” é uma balada pop repleta de violões e vocais bem trabalhados que poderia, muito bem, ter tocado nas FM´s da época. Disco bem legalzinho e bem construído.

Fernando: Um início com uma mistura de vários estilos em uma faixa instrumental que me deixou com a impressão de este ser um disco totalmente sem vocais. Mas logo na segunda faixa isso se mostra errado em uma bela canção com vocais bem suaves, flautas e tudo o mais, representando bem o nome da faixa “Life Is a Botanical Garden (Oh, Yes)”. Já a próxima faixa é mais aquilo que eu esperava em um disco de blues rock. No geral um ótimo disco que eu também desconhecia totalmente.

Mairon: Um dos músicos de estúdio mais requisitados de sua geração, tocando com nomes tão diversos quanto os caras do Kiss e Steely Dan até Joan Baez e Chuck Berry, faz aqui sua estreia solo. Acompanhado de uma bandaça, cujo destaque maior é o saxofonista Paul Fleisher, Elliott manda ver em um álbum envolvente, com canções chapantes típicas do final dos anos 60, vide o embalo de "Brother People", a pancada instrumental "Sour Flower" ou a complexa e pesada "Bustin’ My Brains", com um grande solo de baixo carregado de distorção. Quando envereda pelo blues, o cara se sobressai com faixas swingadas e muito bem elaboradas para o estilo, vide "Mumblin' To Myself", onde o embalo da guitarra junto a participação do hammond dão um toque especial para a canção, e "Take Out The Dog & Bark The Cat", para ouvir balançando a perna com um copo de uísque na mão. E que maravilha o arranho acústico de "Life In Botanical Gardens (Oh, Yes)", onde os vocais suaves de Elliott brilham junto de um acompanhamento incrível, assim como o hammond de "All I Am’s", linda demais. Desnecessária apenas "Jolly Green Giant and the Statue of Liberty", que nada acrescenta para este bom disco. Como os anos 70 pariram discos fantásticos, e este é mais um.

.Philip Catherine - September Man [1975]

Ronaldo: Na praia do jazz-rock, haveria incontáveis nomes a se incluir nessa relação de discos. Mas o guitarrista belga Philip Catherine merece destaque, pois além da técnica apurada, detém uma assinatura muito original em seus solos e composições. No estilo fusion muitos guitarristas "velocistas" apareceram, mas Catherine sabia também muito bem tocar lento e soar celestialmente melódico, como se pode atestar pela bela faixa de abertura do álbum em questão. O álbum é bastante variado, indo desde abordagens mais tradicionais, a terrenos mais experimentais e de forma livre, nos quais a guitarra de Catherine sempre cria o clima perfeito. Catherine foi um substituto à altura de Jan Akkerman no Focus e até hoje lança ótimos discos de jazz, merecendo maior chance de reconhecimento entre os apreciadores de boa música.

André: Esse eu achei o mais fraco da lista. Sem muitos abusos e ousadias (em termos de prog), há um trabalho sólido em que se misturam guitarras, piano e a cozinha de baixo e bateria. Tenta pegar uma vibe progressiva mas com transições nem sempre suaves. Alguns solos legais, outros nem tanto. O baixo bem prog não me agradou. Um álbum mediano. A que gostei mais foi "When It Is - The Beginning" que lembra aqueles folks mais tradicionalistas que gosto bastante.

Daniel: Achei este o melhor álbum da lista. Primeiro, porque sou um apaixonado por Jazz, segundo, pois o álbum é realmente muito bom. "T.R.C." é uma canção espetacular e o que Catherine faz na guitarra nesta faixa é inacreditável. Também merece destaque o trompetista Palle Mikkelborg. Jazz Fusion de muito boa qualidade.

Davi: Esse cara eu já conhecia alguma coisa. Não sou um estudioso de sua obra, mas já tinha escutado alguns discos dele. Esse September Man, se não me engano, foi o disco que meio que colocou ele no mapa. De todo modo, apesar da importância do álbum em sua trajetória e da alta qualidade técnica de todos os envolvidos, o disco não me cativou. Considero esse trabalho um pouco cansativo, não tem nenhuma faixa que realmente me cative, me emocione. Em relação ao trabalho de guitarra, realmente é fantástico e muito bem elaborado, onde destaco a canção “When It Is – The Middle”. Não é um disco que faz minha cabeça, mas foi legal ter sua presença por aqui. É um nome que não esperava dar as caras aqui no Consultoria.

Fernando: Aqui entra novamente aquela dúvida: subestimado seria porque não dão valor ao nível musical da pessoa, ou pelo desconhecimento do público. Novamente não podemos dizer que o cara é um excelente músico, mas quantos músicos talentosos não foram reconhecidos não? O resultado depende de tanta coisa que é difícil dizer um só motivo, mas o fato de tocar um estilo que não é um dos preferidos das massa também não ajuda, não é?

Mairon: Phillip Catherine é um gênio subestimado. Uma carreira solo brilhante, a parceria incrível com Larry Coryell, uma passagem no mínimo interessante com o Focus, substituindo o também genial Jan Akkermann, e uma técnica incrível que passa do jazz ao rock com uma naturalidade monstra. Dito isto, vamos a September Man. Logo de cara, Catherine já apresenta seus dedilhados tradicionais e viajantes na linda "Nairam" , que se repetem na intricada "T.P.C."., com um solo veloz e muito representante da carreira do guitarrista, e na tímida mas eficiente "Monday 13". A banda que acompanha Catherine também é excepcional, o que não poderia ser diferente advindo de alguém tão perfeccionista quanto o belga.  Que maravilha é ouvir algo como a suíte "When It Is", e suas três distintas partes, com muitas inspirações em Miles Davis, e com a segunda parte, "The Middle", fazendo brilhar o piano elétrico de Jasper Van't Hoff, na melhor linha Chick Corea. E é exatamente quando Catherine envereda pelo jazz que a coisa fica demais, vide os hipnotizantes dez minutos de "Nineteen Seventy Fourths". Discaço!!

Pat Travers Band - Go for What You Know? (live) [1979]

Ronaldo: O canadense Pat Travers era um autêntico guitar-hero, daquele tipo que fazia sua guitarra falar alto e cativar grandes plateias com rocks empolgantes e performance incendiária. Ouvi-lo ao vivo, com sua banda de apoio que contava com Tommy Aldrige na bateria, e o segundo guitarrista Pat Thrall, é certeza de ouvir ótimos riffs, timbres marcantes e solos de guitarra faiscantes. O som de Pat as vezes até se conecta com o de seus conterrâneos do Mahogany Rush, com bases funkeadas e inspirações Hendrixianas. Travers, todavia, tinha um variado conjunto de ideias e referências, que lhe faziam soar apenas como ele próprio.

André: Esse eu conheço e adoro! Hard rock daqueles pesadões nervosos com uma energia gigante, animação e bateção de cabeça! Não tinha ouvido esse ao vivo e curti muito. "Heat the Street", que solo mais ao final da música! Ronaldo me provou agora mesmo que este foi o guitarrista mais subestimado da lista e um dos mais subestimados do rock. Não é possível que esse cara não tenha feito sucesso mundial.

Daniel: Eu nunca fui fã de álbuns ‘ao vivo’ e não será este que vai me fazer mudar de ideia. Apesar disto, eu gostei das canções, as quais contam com um viés feroz e boas doses de agressividade. Os riffs e solos de guitarra são muito bons e este é o tipo de sonoridade que eu costumo gostar bastante. Minhas favoritas são “Gettin’ Betta” e “Stevie”.

Davi: Esse é, certamente, o álbum que mais me empolgou nessa seleção. É um que vou tentar arrumar uma cópia para mim, inclusive. Também não tinha como dar errado, né? Pat Travers é um baita músico e o time que está por trás dele é sensacional. Temos aqui, nada mais, nada menos do que Pat Thrall (muito lembrado, no Brasil, pelo álbum que gravou ao lado do Glenn Hughes, no início dos anos 80) e o monstro Tommy Aldridge (dispensa apresentações). Pat Travers arregaça na guitarra e a banda tinha uma energia fora do comum. No repertório, vale destacar a explosiva “Hooked on Music”, a swingada “Go All Night”, o inspirado cover de “Boom Boom (Out Go The Lights)”, além da empolgante “Makes No Difference”, que conta com um solo de guitarra inspiradíssimo. Para ouvir no último volume!

Fernando: Curioso entrar discos ao vivo nesses tipos de matérias que a gente faz. Quase nunca ninguém indica esse tipo de material. Aqui, no quarto disco dessa séria de indicações do Ronaldo Rodrigues eu já estava me sentindo mal por não conhecer nenhum deles. Porém mais um daqueles que vão deixar ainda mais longa a lista de coisas que eu tenho (ênfase no verbo ter) que ouvir. A faixa de abertura mesmo é uma paulada! Lembrei até da expressão “rock pauleira” que ouvia de meus tios quando era criança (e eu tava ouvindo Titãs ou algo do tipo). Gostei também, exceto de “Boom Boom” que achei chatinha.

Mairon: Hardzão comandado pelas guitarras dos Pats (Travers e Thrall), que soa quase como um Lynyrd Skynyrd mais pesado, com o excepcional arroz de festa Tommy Aldrige na bateria e Mars Cowling no baixo. É um álbum bem regular, mas que não me impacta como os demais aqui indicados. Dá de dançar tranquilo com "Gettin' Betta", e curtir a baladaça "Stevie", com seu lindo solo de guitarras gêmeas. Mas aí que está. Ao ouvir esse solo, ou sons como o boogie de "Boom Boom (Out Go The Lights)", ou até mesmo a boa abertura de "Hooked On You", e a pegada "Makes No Difference", fica aquela sensação de que já ouvi algo similar (e melhor) anteriormente. E o vocal de Pat Travers, convenhamos, é bem fraquinho. É um bom disco, é sim, mas falta alguma coisa para me conquistar a ponto de adquirir ou ouvir mais frequentemente.

Earthless - Rhythms from a Cosmic Sky [2007]

Ronaldo: Quando apresentamos um disco todo instrumental, com apenas uma única música de cada lado (ou duas faixas em CD/digital) como uma longa jam, podemos ver uma horda de narizes torcidos. Mas quando nesse disco se encontra um guitarrista talentoso, como o norte-americano Isaiah Mitchell, há muitos que podem se converter. O disco começa com uma sessão de efeitos sonoros vindos de outra galáxia, para que uma avalanche de riffs espertos e pesados invada os alto-falantes. Mitchell segura muito a onda com solos inventivos, nada tediosos, e bases nervosas. A cozinha oferecida por Mario Rubalcaba (bateria) e Mike Eginton (baixo) também ajuda bastante. O disco é pura potência, com muita variedade. É guitarra em alta octanagem para estourar os ouvidos!

André: Gostei desse stoner rock. Apesar de ter uma receita típica para deixar todos de cabelo em pé (músicas muito longas e solos infinitos), achei um ótimo disco desse lado do rock que anda ganhando cada vez mais adeptos. A segunda canção, "Sonic Prayer" é a melhor. Achei que seria um álbum demorado, mas até que desceu bem. Já tinha ouvido alguma coisinha do Earthless antes, mas nada que me chamasse a atenção. Independente disso, o Ronaldo escolheu um disco mais "atual" bem bacana para fazer parte dessa lista.

Daniel: Este eu achei bem chatinho. O disco é composto de 2 faixas de mais de 20 minutos cada uma, cada qual mais interminável que a outra, fica a sua escolha quem seria a pior. Não é que seja terrível, não é o caso, mas foi uma sonoridade que definitivamente não me pegou.

Davi: Achei esse álbum interessante. Não é espetacular, mas foi curioso ouvir. O disco, na verdade, são 2 faixas. Cada uma durando um pouco mais de 20 minutos. “Godspeed”, a primeira delas, começa com uma introdução de aproximadamente 3 minutos com os músicos fazendo uma bagunça sonora. No início, não estava botando muita fé. Suspeitava que seria mais um daqueles discos artísticos sem pé, nem cabeça. Graças a Deus, estava equivocado. A faixa instrumental conta com uma pegada stoner, com os músicos tocando com garra e Isaiah Mitchell debulhando na guitarra. O riff remete à Sabbath, mas o solo apresenta claras influências de Hendrix. Influência que fica ainda mais escancarada na jam instrumental “Sonic Prayer”, onde o músico, mais uma vez, é o grande destaque. Algumas versões desse disco trazem o bônus “Cherry Red”, um cover do Groundhogs. A versão é bem bacana, bem enérgica e conta com um trabalho vocal correto. (Infelizmente, não consegui a informação de quem gravou a voz). Para quem curte rock instrumental, pode ser uma boa pedida.

Fernando: Nem havia percebido que tinha um disco “recente” aqui na lista. Apesar que a sonoridade e até a capa até confunde com algo dos anos 70. Essa introdução longa eu não curti, mas entendo que faz parte do tipo de som. No geral é calcado nos anos 70, mas adota aquela linguagem mais stoner que também nunca me fez tanto a cabeça. Estou no meio da audição e estou preocupado em não gostar do disco mais recente e ser taxado de ser daqueles que “só gostam de velharias”. Lá pelos 6 minutos da primeira faixa tem uma passagem mais rápida, quase heavy metal, que é bem legal. O disco só tem 3 músicas sendo duas seguidas com 20 minutos. Quero só ver fã de Iron Maiden reclamando disso aqui nos comentários, hein! Entendo o motivo dele estar aqui, o guitarrista pira em vários momentos, mas no geral o disco não me pegou.

Mairon: Não conhecia essa banda, e fui pego de surpresa com um trio que manda ver em um instrumental stoner/hard de ótima qualidade. Os caras tem uma grande pegada, e principalmente, ótima criatividade. São duas longas faixas que parecem ser uma longa série de improvisos em cima de bases pré-determinadas, o que em nada desqualifica o resultado final. Solos rasgados de guitarra feitos pelo competentíssimo Isaiah Mitchell competem com uma cozinha que manda ver sem piedade, e é uma audição muito boa, para curtir viajando com sua air guitar. Ambas as faixas são excelentes, mas curti mais o vigor da primeira, "Godspeed", em relação as viajantes e improvisantes passagens de "Sonic Prayer", que é uma canção mais "chapante" em relação a sua irmã. De bônus, uma versão poderosa para "Cherry Red", do The Groundhogs. Belo disco, e surpreendente.

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