sábado, 29 de agosto de 2026

Syrius - Széttört Álmok [1976]


*as fotos estão sem legenda, principalmente pela dificuldade de identificar ano e alguns músicos

Um dos mais importantes grupos da música húngara e que é muito desconhecido no resto do mundo é o Syrius. Com uma sonoridade muito particular, o Syrius se destacou na década de 70 do outro lado da Cortina de Ferro, e conquistou fãs por países como Polônia, Bulgária, Iugoslávia, URSS e Tchecoslováquia, além de terem feito sucesso na Austrália, tocando um jazz rock inspirado no progressivo e com elementos do blues. Já contei a história da banda neste post, e venho hoje trazer aqui a história e as músicas que envolvem o segundo disco do grupo.

Indo direto ao assunto, após a estreia dos húngaros, Az Ördög Álarcosbálja, lançado em 1972 na Hungria, enquanto em 1971, foi lançado sob o nome Syrius na Austrália, onde o grupo havia passado uma temporada, a banda fez uma série de concertos pela Hungria, participando também de festivais, onde foram eleitos o melhor grupo no Ljubjlana Jazz Festival daquele ano. A formação clássica do grupo contava com o líder e fundador Zsolt Baronits no saxofone tenor, Jackie Miklós Orszáczky no vocal e baixo, Mihály Ráduly na flauta e saxofone, László Pataki nos teclados, András Veszelinov na bateria, além de Tibor Tátrai na guitarra. O atemporal álbum é um dos melhores discos da história, e “É algo incrivelmente bem pensado, organizado, musicalmente refletido e que forma uma unidade do começo ao fim. Você não consegue tirar uma faixa e dizer: ‘isso é o Syrius’. Não é. O álbum inteiro é a maior e mais decisiva parte da obra do Syrius”, afirma o músico húngaro János Bródy. Porém, o grupo acabou se dissolvendo no final de 1973, com Ráduly indo morar nos Estados Unidos e Jackie voltando para a Austrália, onde formou o grupo experimental Bakery (esse merece um espaço por aqui hein?).

Mas ainda existia um disco a ser lançado, já que o contrato com a Pepita Records previa 2 LPs, e então, em 1975, o grupo retornou, na formação tendo quatro instrumentos de sopro que se tornariam uma continuação digna do segundo capítulo do Syrius. Os arranjos dos sopros, a principal marca registrada do Syrius, foram feitos por Ákos Molnár (saxofone alto), adaptando-se perfeitamente ao estilo dos outros instrumentistas (Endre Sipos e Rudolf Tomsits no trompete, Károly Friedrich no baixo e trombone, e o velho Zsolt Baronits). András Veszelinov e Tibor Tátrai seguiam na bateria e guitarra respectivamente, e agora, a presença de Ottó Schöck nos teclados, junto de Endre Sipos (baixo, trompete), além dos vocais e percussão de Tamás Turai. 

Após a saída de Jackie, Turai (vindo do grupo Non Stop) foi o único capaz de fazer o público esquecê-lo, pois sabia que devia ser ele mesmo, ao invés de tentar imitar o ídolo da banda. Em junho já estavam com um material exaustivamente ensaiado em concertos e tocado com grande sucesso. "Széttört Álmok" correspondia a uma suíte de quase 40 minutos. No estúdio tudo corria bem, mas apenas até o momento em que o supervisor do estúdio encontrou as letras da suíte e achou-as muito sombrias e pessimistas. O supervisor era nada mais que Péter Erdős, executivo da gravadora Pepita, que empacou o trabalho, dizendo: "ou gravamos outras canções, ou encerramos tudo". Coube a Schöck reescrever rapidamente Széttört Álmok e, talvez sob pressão e por rebeldia, nasceu um disco totalmente diferente, coeso, mas absolutamente digno e à altura do Syrius. 

Em comparação ao seu antecessor, Széttört Álmok traz uma sonoridade mais moderna, principalmente pela entrada de Tátrai e Turai, e é totalmente cantado em húngaro (a suíte era toda em inglês). A bateria apresenta o ritmo de "Hajnali Ének" (Song at Dawn), trazendo os teclados, guitarra e baixo, explodindo no saxofone que comanda uma canção dançante, a qual eu facilmente comparo com os bons rocks de Rita Lee na época Tutti Frutti. Claro que os vocais em húngaro soam estranhos a priori, mas a faixa é muito boa, com uma ótima percussão, e com o saxofone sendo o instrumento central, além de um ótimo solo de guitarra. A abertura de "Hol Az Az Ember" (Where Is The Man), com o naipe de metais estourando as caixas de som, me lembra muito Chicago, mas com os vocais, o som ganha mais ritmo, bem dançante e de difícil definição, assim como é difícil ficar parado com o ritmo avassalador da guitarra de Tátrai, que faz um solo espetacular. Baita música, com um arranjo de metais sensacional, e o baixão estourando as caixas de som. O vocal de Baronits me lembra muito o de Derek Shulman (Gentle Giant) em diversos momentos, e aqui mais que nunca. 

A bela balada "Mint Április" (Like April) capricha no piano elétrico e no hammond, relembrando as belas faixas românticas de grupos como Bee Gees e Supertramp, seguindo com "A Láz" (The Fever), faixa que como o nome sugere, está diretamente associada à febre disco que tomava conta do planeta em 1976. O ritmo percussivo, o riff pegajoso da guitarra e baixo, e o estrondoso naipe de metais, fazem desta faixa outra forte candidata a melhor do álbum, ainda mais pelo ótimo arranjo da mesma, e pelo sensacional solo de piano elétrico, além de outro bom solo de guitarra. Bota sonzeira o que esses caras fazem aqui. O lado A encerra com a faixa-título, com o baixão e a percussão trazendo uma faixa em ritmo muito dançante, onde novamente os metais lembram Chicago, e cara, impossível ficar parado com outra canção contagiante, que mesmo sem saber húngaro, saímos cantarolando o empolgante refrão que entoa no nome da canção, a qual não tem nada a ver com a suíte, como falarei mais adiante.

A bateria e percussão abrem o lado B com a estonteante "Kinyújtom Kezem" (I'm Stretching Out My Arms), com o naipezão de metais comandando a pegada dançante, e destaque para o baixo carregado de efeitos aqui. Prepare-se para o solo de trompete, pois Sipos está matador, o cara manda ver, e também para o sensacional solo de piano elétrico. Demais! "Hová Mehetnék" (Where Could I Go?) mantém o ritmo incansável da Syrius, com o naipe de metais em alta mais uma vez, e o trompete de novo sendo o centro das atenções com outro grandioso solo. Atente-se também para a participação do baixo aqui, e claro, para o incansável batera Veszelinov. 

É ele quem faz o solo de introdução para "Igen, Szép Volt" (Yeah, That Was Nice), faixa que certamente deixou o Herbie Hancock de 1975 felicíssimo. Um jazz-funk sacolejante, com boas passagens de guitarra, baixão retumbante e os metais marcando presença. O trompete de Sipos mais uma vez toma conta durante o magnífico solo, mas preste a atenção nas linhas de baixo e nos fraseados e solos de guitarra aqui. E para melhorar tudo, temos um solo de sax soprano simplesmente demais. Que ritmo, que pancadaria, que coisa mais linda!

"Széparcú Idegen" (The Stranger Of Nice Face) encerra o disco com uma faixa mais amena, bastante leve com um ritmo percussivo cadenciado, que lembra as belas baladas do Santana, fazendo a poeira levantada durante todo o lado B baixar de forma sublime, com o lindo solo de saxofone tenor. 

Após o lançamento de Széttört Álmok, o qual teve edições somente na Hungria, cada integrante saiu para fazer carreira de alguma outra forma. Da formação clássica que gravou o primeiro álbum, Veszelinov foi trabalhar no grupo Apostol, com quem lançou o álbum 2 em 1980. Jackie seguiu como músico na Austrália, lançando discos regularmente e vindo a falecer em 2008. Já Miháli retornou para a Václav Zahradník And His East All Stars Band, com quem gravou o disco Interjazz 2 em 1974 (Mihály já havia participado do álbum Interjazz de 1971).

Mas e a suíte "Széttört Álmok", o que deu? Aqui é necessário voltar no tempo e explicar como chegamos aos sonhos quebrados da Syrius. Em 1970, foi trasmitido via rádio  Kossuth, às 21:20 do dia 8 de outubro, uma obra musical em que surgiam imagens do inferno, de um homem abatido e torturado pela vida, divida em cinco movimentos, alguns deles tensos e extremamente completos, com vocais declamados a la os poemas mais assustadores de Edgar Allan Poe. No final da obra, o homem, apesar da ausência do sol, descobre que ainda há seu brilho, e tenta de alguma forma sobreviver. Essa era a suíte "Széttört Álmok" , que a banda nunca pôde lançar oficialmente. Ela foi a primeira composição autoral do Syrius. A transmissão foi felizmente gravada pelos ouvintes, e em 1994 lançada oficialmente como parte do disco Most, Múlt, Lesz, contendo 35 minutos. 

"Széttört Álmok" é uma obra muito mais profunda e complexa do que Az Ördög Álarcosbálja,  cujas faixas, digamos assim, são mais populares. As gravações da transmissão de rádio de 1970 são as únicas de "Széttört Álmok" em húngaro que estão acessíveis no mundo atualmente. Em 1971, ainda na Austrália, gravaram a versão em inglês ("Shattered Dreams"), e alguns de seus movimentos ainda podem ser encontrados no Youtube. Após o retorno do Syrius da Austrália, é provável que a suíte completa nunca mais tenha sido tocada ao vivo em húngaro, já que Jackie só cantava em inglês (vários bootlegs guardam vestígios disso).

Os dois primeiros movimentos da suíte voltaram a ser tocados pelo Syrius em 2001, no festival Margitszigeti Szabadtéri Színpad de Budapeste, em 7 de setembro de 2001. Nessa ocasião o Syrius se reuniu novamente, infelizmente sem Zsolt Baronits, que faleceu em 3 de agosto de 1999. Jackie cantou de forma bem interessante, misturando idiomas, ora em húngaro, ora em inglês, e a gravação do concerto, organizado por Károly Csonkics e Gergely Böszörményi, foi lançada em 2008 com o título The Last Concert. Em 2012, a companhia Szegedi Kortárs Balett interpretou a história da obra de forma muito peculiar, com acompanhamento da Frank Zappa-Syrius Emlékzenekar. Em dezembro de 2016, na apresentação Hommage à Syrius, Iván Vitáris cantou em inglês, com sua banda Ivan & Parazol.

Em 24 de outubro de 2017, o Syrius Legacy apresentou a suíte completa no Festival Színház, tendo como músico convidado Tibor Tátrai. Aqui vale um depoimento de Benkó Akós, líder, baterista e vocalista da Syrius Legacy: "Quando ouvi o Syrius pela primeira vez, sabe o que achei estranho? Em todos os cantores, no Deep Purple, Led Zeppelin ou Colosseum, toda melodia vocal parece ser composta pelas notas de uma escala. Com Jackie eu sempre sinto que a melodia nunca vem das notas fundamentais de uma escala, mas sempre de alguma nota de blues. Tive que trabalhar separadamente as melodias, porque tem intervalos muito difíceis. As três primeiras notas da escala menor estão separadas por semitons — para cima, para baixo. É incrivelmente difícil e genial. Até hoje não ouço nada parecido na Hungria, de alguém estar nesse nível, não só no timbre, mas também na melodia, tão a par e tão original, sem ter gosto e cheiro de teoria musical. Tento fazer as pessoas entenderem a mensagem: gente, ouçam que melodias são essas aqui.

Voltando então a história da Syrius, em 1995, chegou às lojas Rock Koncertek A Magyar Rádió Archivumából I: Syrius, 1975, que como o nome diz, trata-se de uma apresentação em uma rádio húngara em 1975. Em 2009 saiu a compilação tripla Anno Live, trazendo diversos registros ao vivos totalmente inéditos do grupo entre 1971 e 1973. Todos estes registros são impecáveis, mas tenho que certeza que aqui, poucos ouviram falar da Syrius, e por isso afirmo que Széttört Álmok (e os demais) é um disco que parece que só eu gosto. Você conhece a Syrius?

Contra-capa do álbum

Track list

1. Hajnali Ének 

2. Hol Az Az Ember

3 Mint Április

4. A Láz 

5. Széttört Álmok

6. Kinyújtom Kezem 

7. Hová Mehetnék 

8. Igen, Szép Volt 

9. Széparcú Idegen

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Ouve Isso Aqui: O Rock Que Veio Do Frio


Tema escolhido por Marcelo Freire

Com Andre Kaminski, Anderson Godinho, Davi Pascale, Mairon Machado e Marcello Zappelini

Neste mês, Marcelo Freire nos trouxe cinco discos de bandas escandinavas setentistas um tanto quanto obscuras, mas com sonoridades interessantíssimas. Conhece algumas delas? Tem outras para recomendar? Poste nos comentários!

November – En Ny Tid Är Här [1970]

Marcelo: O disco tem aquele peso inicial dos anos 70, ainda muito ligado ao blues e ao hard rock, mas cantado em sueco e com uma aspereza própria, como se o Cream, o Sabbath e o rock psicodélico tivessem sido filtrados por paisagens frias da Suécia. Há algo muito direto na forma como a banda toca: riffs fortes, cozinha seca, pouca frescura e uma sensação constante de que o peso ainda estava sendo inventado. Para começar a entender esse “rock que veio do frio”, En ny tid är här… é uma porta de entrada perfeita.

Anderson: November tem muito mérito em fundir o blues rock anglo-saxão com uma densidade sombria. Mesmo nas passagens mais psicodélicas, o November mantém os pés no chão, entregando um som que é ao mesmo tempo pesado e melancólico. A produção bem rudimentar aumenta a sensação de que aquela música foi gravada em um porão. Sonoridade setentista clássica, muito bom de ouvir. Destaque para o órgão de Hammond de Björn Inge e a guitarra de Christer Stålbrandt muito criativa. Richard Rolf não é excepcional, mas sustenta muito bem a proposta. Enfim, um hard rock, com uma levada bluseada, algo de psicodélico no meio e uma sonoridade muito satisfatória! Mount Everest é uma abertura perfeita e define bem o álbum. Gostei muito de En Annan Värld representando o lado mais rápido da banda. ‘Ta Ett Steg I Sagans Land’ e ‘Lek Att Du Är Barn Igen’ um tanto progressivas são muito interessantes, também.

André: Uma base psicodélica mas com altas doses de hard e blues rock muito bem tocado e bem arranjado. Vocal agradável, guitarras variadas, baterista criativo e linhas de baixo fora do feijão com arroz. Ùnico ponto negativo é em “Ta Ett Steg I Sagans Land”, em que a música começa bem legal mas no final uma criança sueca começa a falar por cima da gravação. Exageraram no LSD quando permitiram uma viagem dessas. Mas o disco tem muito mais méritos do que esse único defeito e qualquer um que goste de rock setentista pode ouví-lo sem próblemas.

Davi: Embora seja comum encontrarmos reportagens citando esse grupo como proto-metal, o que temos aqui é basicamente uma banda que cruzava hard rock com blues, algo que já fica explícito na faixa de abertura “Mount Everest”. Uma faixa que achei interessante foi “Lek Att Du Är Barn Igen”, uma balada blueseira, contando com uns licks meio Hendrix (andou ouvindo “Highway Chile”, né rapazinho?) e uma flauta meio Jethro Tull. Também curti “Ta Ett Steg I Sagans Lad”, que aponta em uma levada zeppeliana e “En Annan Värld”. Curiosamente, o som do contrabaixo está bem na cara, ainda que os grandes destaques sejam a guitarra e a bateria. Trabalho vocal diria que é correto apenas. De todo modo, foi um álbum que gostei de escutar.

Mairon: Os suecos do November eram fortemente influenciados pelo Blues Britânico, mas com um adendo, suas letras eram em sueco. Isso dá um charme e tanto para as ótimas canções do grupo, onde a gutiarra de Richard Rolf é o grande destaque. O disco todo é muito coeso, com ótimas músicas, nenhuma delas longa (a maior dura pouco mais de cinco minutos), que se é para destacar alguma, chamo atenção para o solo de ” En Annan Värld”, o riff e o wah-wah comendo solto em “Ta Ett Steg In I Sagans Land” e a agressividade de “Gröna Blad”. Elas trazem tudo o que você adora de um vigoroso power trio, ou seja guitarras e solos ácidos, baixão estourando e uma percussão espanca pescoços. Porém, é a presença da flauta em duas canções o que mais curto. Acho genial a introdução deste instrumento ao final de “Mount Everest” (única com letra em inglês), só que a presença jethrotulliana em “Lek Att Du Är Barn Igen” é ara mim o ponto máximo dessa raridade que conheci através da finada (?) Poeira Zine.

Marcello: Primeiro disco da lista que ouvi, começou com algo que me agrada: uma introdução de baixo em “Mount Everest” (boa música, aliás). Aliás, para minha alegria, o baixo se destaca bastante nas músicas. As músicas têm um quê de Black Sabbath em alguns momentos, e um detalhe curioso: uma flauta aparece aqui e ali, mas nada que se intrometa muito. Gostei do clima meio oriental da guitarra de Richard Rolf em “En Annan Värld”, e da flauta e do vocal feminino em “Lek Att Du Är Barn Igen”. Pena que depois de três boas músicas o disco diminuiu um pouco de qualidade, mas nada que comprometesse. “Gröna Blad”, com ótimo trabalho de guitarras, foi a que mais se destacou, muito bem construída. “Ta Ett Steg i Sagans Land” é outra música bem legal na parte final do disco, e me lembrou um pouco o Uriah Heep do Very ‘Eavy Very ‘Umble, ainda que sem o órgão e os backing vocals que caracterizavam a turma de Mick Box. Nunca tinha ouvido falar do November, depois vi que se tratava de um power trio. Os cidadãos (bons músicos, diga-se de passagem) cantam em sueco, mas, na verdade, se o fizessem em aramaico não teria feito a menor diferença; não teria entendido do mesmo jeito. Vi que tanto o baixista Christer Stalbrant quanto o baterista Bjorn Inge (que se destaca na introdução de “Attonde”) cantam, então, não sei quem é que tem a boa voz solo que aparece nas músicas. O disco é bem interessante, com aquele clima do hard rock do princípio dos anos 70, e provavelmente ouvirei novamente.

Culpeper´s Orchard – Culpeper´s Orchard [1971]

Marcelo: O debut dos dinamarqueses traz uma mistura muito saborosa de folk, blues, psicodelia e rock progressivo. É daqueles discos que parecem nascer de uma encruzilhada, sem se comprometer totalmente com um único caminho. Há momentos mais acústicos, passagens mais viajantes e, quando a banda resolve pesar a mão, o resultado vem com naturalidade. Talvez seja o álbum mais “ensolarado” da lista, o que é curioso para uma pauta chamada O Rock Que Veio do Frio, mas justamente por isso ele funciona tão bem: mostra que a Escandinávia setentista não produzia apenas gelo sonoro, mas também calor, cor e imaginação. Músicarock

Anderson: Apesar de ter uma pegada bem progressiva e psicodélica, alguns elementos folk dão uma sonoridade distinta ao material. Não é a sonoridade que faz com que eu fique empolgado para caramba, um tanto maçante em muitos momentos, mas é inegável que chama muito a atenção considerando o som produzido e a época em que foi proposto. Remete a clássicos como Jethro Tull e Yes. Algumas coisas bem pesadas como passagens da dupla de "Moutain Music (I e II)" e outras passagens com melodias menos intensas, mas ainda assim muito bem construídas. O álbum apresenta uma coesão muito interessante, realmente há um todo maior que as partes aqui. Bem interessante.

André: Conheço esses dinamarqueses embora façam anos que não ouvia este disco por inteiro. Também cheios de influências, há hard rock, psicodélico, prog e folk. Com uma grande energia e composições vigorosas, lamentavelmente os caras provavelmente não devem ter saído muito dos toca-discos escandinavos em sua época de atividade. O que é uma pena. Destaco o primoroso trabalho de guitarras, com licks e solos de muito bom gosto.

Davi: Esse álbum de estreia do Culpeper´s Orchard é bem bacana e mostra que os rapazes estavam bem antenados com tudo que estava rolando na música naquele momento. O que temos aqui é um feliz cruzamento entre o hard rock (sentido no trabalho de guitarra de “Mountain Music Part 1), folk (escute “Hey You People” e tente não se lembrar de Crosby, Stills, Nash & Young), prog (acredito que “Teaparty For An Orchard” seja um bom exemplo) e rock psicodélico. As vocalizações trazem, por vezes, um acento pop que não tira a força das músicas. Trabalho agradável e bem resolvido.

Mairon: Dos cinco discos aqui indicados, este era um dos que não conhecia. Da Dinamarca, tenho apreço pelo Gasolin’ (que era uma das bandas que pensei que iriam surgir quando vi o tema), então, esperava algo na mesma linha, um rock mais simples com pequenas pitadas de progressivo aqui e ali. Mas não mesmo. O som é mais pesado do que imaginava, com um baixo muito interessante, a cargo de Michael Friis, um ótimo vocal (em inglês) e a guitarra repleta de distorção, que foi o que mais me chamou a atenção. Me lembrou algo do Family com Deep Purple Mark I, bastante pesado, e lógico que as duas partes de “Mountain Music” são o grande destaque do disco. As alternâncias sonoras, presença de instrumentos como harpsichord e violões, e grandes solos de guitarra, mostram como os anos 70 são um universo infinito a ser explorado de bandas boas. As duas ocupam quase 14 minutos de duração do disco, e este é outro ponto que chama atenção, pois seis das nove faixas ultrapassam os cinco minutos (e das outras três, duas são curtinhas, “Bajocul”, de 45 segundos, apenas com banjo e voz, e “Hey You People” , de pouco menos de dois minutos). Mas voltando ao som dos caras, o guitarrista Niels Henriksen é muito bom, solos ácidos, vigorosos, muitos bends, fera mesmo. Seu trabalho em “Your Song And Mine”, seja nos solos, seja no ritmo do violão, E ainda temos violões e flautas acústicas na introdução de “Ode to Resistance”, mais violões na suave “Blue Day’s Morning”, a mágica presença do órgão em ” Teaparty For An Orchard”, belíssima e viajante, com várias alternâncias sonoras, e a delicadeza do piano de “Gideon’s Trap”. Baita indicação Marcelo, curti muito conhecer esta banda.

Marcello: Essa banda eu conhecia de nome, mas nunca tinha ido atrás para ouvir. De cara tomei um susto com um banjo e uma voz meio esquisita, mas era só uma vinheta (“Banjocul”). “Mountain Music part 1” é bem mais interessante, um hard rock com bom riff de guitarra de Niels Henriksen e Cy Nicklin. Outra vinheta, “Hey You People” me lembrou Byrds antes da guinada para o country em Sweetheart of the Rodeo; “Teaparty for an Orchard” tem um quê de psicodelia, especialmente no trecho instrumental no meio da canção, antes do bom solo de guitarra de Henriksen – infelizmente, a música ficava melhor sem isso. “Ode to Resistance” começa suave e depois ganha um riff muito legal, que dá peso à parte instrumental da música. “Blue Day’s Morning” é uma baladinha semiacústica que investe pesado na harmonia vocal, e mais uma vez lembrou um pouco os Byrds. O álbum se encerra com “Mountain Music part 2”, um pouco menos interessante do que a primeira parte, mas ainda assim uma boa música (mas eu dispensava a volta do banjo ao final, ainda que entenda a lógica por trás disso). No todo, o álbum apresenta uma reunião de estilos diferentes; se você gosta de um deles, não vai gostar de muitas músicas, mas vale a pena conferir (e, nos casos mais radicais, ouvir pulando algumas faixas…). Em linhas gerais, a minha opinião é de que os músicos do Culpeper’s Orchard são bastante talentosos (o baixista Michael Friis se desdobra nos teclados e flauta!) e se mostraram capazes de compor boas músicas, mas o álbum acaba soando como se eles não se decidissem por um direcionamento musical e por isso atiravam para todas as direções. Às vezes isso funciona, às vezes não.

Samla Mamma´s Manna – Maltid [1973]

Marcelo: Aqui a coisa fica mais esquisita, no melhor sentido possível. O Samla Mammas Manna parece pegar o rock progressivo, desmontar as peças na mesa e remontar tudo de um jeito meio circense, meio jazzístico, meio Frank Zappa (alô, Mairon) perdido numa cozinha sueca. Måltid não é exatamente um disco fácil, mas numa seção chamada Ouve isso aqui é o disco mais importante da lista. Há virtuosismo, há humor, há mudanças inesperadas e uma recusa quase infantil, no bom sentido, de soar “sério” demais. Sempre que ouço esse disco, penso na liberdade com que a banda bagunça as expectativas.

Anderson: Creio que aqui o limite do que consigo discernir musicalmente foi extrapolado. Há um caos sonoro! Complexidade que faz com que eu não consiga gostar das músicas. As músicas são constantemente quebradas, com batidas que fogem totalmente a qualquer gênero específico de música. Há uma variedade de coisas acontecendo simultaneamente que deixa de fazer sentido estético, sonoro, melódico… tudo.

André: Infelizmente, esta banda entra naquela seara do prog em que pouca coisa me agrada: o tal do avant-prog. Que nada mais é do que pegar os ritmos já quebrados das bandas progressivas e estilhaçá-las ainda mais, fazendo um som estranho e pouco palatável. Umas vocalizaçõeszinhas medonhas e infantis, umas gritarias, pouca coesão instrumental, é aquela coisa de botar um pincel na mão de um macaco e depois chamar de arte moderna. Mesmo eu, que ando mais tolerante para esse tipo de som nos últimos anos, não consegui digerir bem esse disco. Maçante.

Davi: A jogada dessa banda sueca é fazer um rock progressivo, com altas influências de jazz fusion, muito improviso e muita experimentação com colagens de sons. A música, na maior parte do tempo, é instrumental. Se não me engano tem apenas uma que possui letra e uma outra que possui vocalizes. Os músicos, de fato, são muito bons, mas esse é o tipo de som que não me agrada. Não tenho faixa preferida aqui. Foi legal ouvir para conhecer, mas é um disco que não ouviria de novo.

Mairon: Essa conheço bem. Os malucos suecos entraram na minha vida quando eu tive a oportunidade de vasculhar blogs que permitiam downloads de músicas através dos famosos .rar e .zip da vida, ou torrents dos mais diversos, e certo dia entrei no mundo incrível desses caras. O segundo disco deles apresenta músicos mais maduros e com capacidade criativa incrível, misturando hard rock, blues e pitadas de progressivo, onde o pianista Lasse Hollmer e o guitarrista Coste Apetrea são as grandes atrações. As canções são repletas de variações e momentos complexos, que lembram um pouco os instrumentais do Zappa, vide “Dundrets Fröjder” – que magnífico solo de piano elétrico, entre viajantes acordes de mellotron e muita quebração ao fundo – e “Minareten” – preparem-se para os vocais mais doidos que você já ouviu – , as duas faixas mais longas do disco (e as melhores em disparado). As faixas mais curtas são até mais estranhas, onde os vocais em sueco causam uma sensação um tanto quanto desconfortável, só que o instrumental é fenomenal e viajante. Construções muito bem feitas, com percussões feitas em materiais aleatórios (vidros, portas, latões), vocalizações a la Focus e ótimos solos de teclado e guitarra, além de uma criatividade fantástica (o que é “Tärningen” se não uma mistura de Gentle Giant com Yes e Zappa nos seus melhores dias) fazem do Samla Mammas Manna uma bandaça que deve E MUITO ser conferida, e que ainda recomendo ouvir “Den Återupplivade Låten”, um resumo de tudo o que descrevi acima. Gosto mais do disco de estreia deles, um pouco mais cru, mas este aqui não fica atrás por muito não.

Marcello: Outra banda que conhecia de nome e nunca tinha ido atrás. Após os primeiros minutos de “Dundrets Fröjder”, percebi que não seria para mim. Depois dessa primeira música (com mais de 10 minutos), o que veio não mudou minha impressão. Após ouvir pela primeira vez, esperei alguns dias para ouvir a segunda, e concluí que a vida é curta demais para desperdiçar mais 40 minutos ouvindo a terceira. O tecladista Lasse Hollmer é muito bom, o guitarrista Coste Alpetrea, o baixista Lasse Krantz e o baterista Hasse Bruniusson seguram bem a onda, mas os vocais beiram o ridículo, o que me fez imaginar que as coisas seriam melhores se tivessem gravado um disco instrumental. De todas as músicas, apenas a parte inicial (até aproximadamente 2’30”) de “Den Aterupplivade Laten”, o interessante jazz-rock “Tärningen” e os primeiros dois minutos de “Minareten” (segunda música mais longa do álbum) me chamaram a atenção. A versão da Amazon Music trouxe três bônus, mas nenhuma delas melhorou o panorama. Para concluir, gosto não se discute; eu não gostei do Samla Mammas Manna.

Høst – På Sterke Vinger [1974]

Marcelo: Pensando a lista num viés de mostrar que o rock escandinavo dos anos 70 também sabia soar grande, pesado e emocional, eu escolhi o Høst. På sterke vinger tem aquele equilíbrio muito bonito entre hard rock e progressivo, com guitarras que avançam sem perder melodia e uma dramaticidade que combina perfeitamente com o norueguês cantado. O disco não soa como cópia dos ingleses, embora o parentesco com o hard prog da época seja evidente; há uma solenidade própria, uma espécie de peso de montanha, que dá identidade ao trabalho. É curto, direto e muito mais forte do que sua relativa obscuridade faria supor. Dos discos selecionados, é o meu favorito.

Anderson: O segundo que mais gostei da lista, apresenta um som pesado e sombrio. A banda cria uma atmosfera pesada durante o material todo, me lembrou um pouco o Blue Oyster Cult, enquanto a sonoridade me remeteu ao Wishbone Ash. Não é tão original quanto outras da lista, mas é uma das mais palatáveis, facilmente. ‘Fattig Men Fri’ abre super bem o material com algo bem clássico do progressivo, ‘I Ly Av Mørket’ é outra muito boa e que mantêm a intensidade, com teclados e guitarras se entrelaçando em arranjos densos. O ápice, para mim, é a faixa título ‘På Sterke Vinger’ que, com seus quase 10 minutos, soa como um resumo do todo. Muito boa a audição desse material que, apesar da língua, mostra muito valor sonoro.

André: Esse também eu já conhecia. Bom disco. Não se destaca perante vários outros hards setentistas, mas não fica feio na discografia de ninguém. O vocalista Geir Jahren tem um vocal esganiçado meio exagerado, mas se conseguir ignorá-lo, aproveitará bons solos e um instrumental bem arranjado.

Davi: Vi muitos críticos se dirigindo à esse grupo como uma banda de rock progressivo. Para mim, a sonoridade aqui é um hard rock com influência de prog, e não uma banda prog de fato. Se bem que não conheço os demais trabalhos. Não sei se eles se aprofundaram no gênero nos discos seguintes. De todo modo, o disco é bacana. “Fattig Men Fri” aposta em um hard com uma guitarra pesadinha (para a época) e um bom riff. “For Senr a Angre”, cuja linha de guitarra me lembrou “Badge” (Cream), aponta em uma sonoridade mais pop e é redondinha. Outra faixa que me chamou a atenção foi “Samhold”, com seus vocalizes àla Queen. Disco bem interessante, só não espere uma sonoridade muito viajandona…

Mairon: Outra banda que eu não tinha a mínima ideia qe existia. Noruega é um país que me lembro apenas do A-ha e da Anni-Frida como músicos em uma primeira passada na memória (Motorpsycho e Mayhem em uma segunda), e não sabia o que esperar do Høst O som dos caras é tipicamente anos 70, com boas guitarras, teclados, uma bateria forte e o baixão estourando, além de ótimos vocais. De alguma forma, me lembrou  o Uriah Heep (“”Fattig Men Fri” e “Samhold”) em seus primeiros dias, com alguma coisa de Wishbone Ash (“I Ly Av Mørket” e “Dit Vi Må”), e o mais legal, como é cantado em norueguês, dá um gostinho extra a audição. O som tem suas originalidades, implementando piano, novos timbres para a guitarra, fazendo um bom uso do wah-wah em “Satans Skorpe”, e este vocal sensacional em norueguês. Grande destaque para os 10 minutos de “På Sterke Vinger”, a mais wishboniana das faixas, mas com vocais puramente Uriah Heep, com direito a guitarra gêmeas e tudo, e com a presença lindíssima de um hammond. Que baita trecho instrumental, que baita música e que baita surpresa ouvir estes caras. Obrigado Marcelo, por mais uma ótima indicação.

Marcello: Os noruegueses do Høst tiveram apenas três álbuns lançados, um deles ao vivo, e este é o primeiro. Bons riffs de guitarra alimentam “Fattig Men Fri”, “For Sent A Angre” e “Satans Skorpe” (ótimo wah-wah no início!), num belo trabalho de Svein Ronning (que também responde pelos teclados e vocais) e Lasse Nilssen. “I Live Av Morket” é levada no piano, e tem um ritmo mais lento do que as duas primeiras músicas, tendo me lembrado um pouco o Uriah Heep, não sei bem o porquê; “Samhold” tem vocais que se aproximam bastante do Uriah, mas a música em si não parece com nada que a banda tenha feito (talvez a versão original de “Bird of Prey”, de Salisbury, seja o paralelo mais próximo). “Dit Vi Ma” tem um ritmo meio funky e uns malabarismos vocais bem interessantes do cantor principal, Geir Morgan Jahren”, e mais uma vez as guitarras são os destaques da música – uma dupla bem afiada, essa formada por Ronning e Nilssen. O álbum (curtinho, infelizmente; pouco mais de 35 minutos) se encerra com a épica faixa-título, muito boa, por sinal, deixando uma boa impressão geral; não é nada de especial, mas um som bem agradável de se ouvir, com aquele sabor do começo dos anos 70. Gostaria de ter ouvido o grupo antes. Teria sido interessante ler as aventuras do detetive Harry Hole, do escritor norueguês Jo Nesbø, ao som deles.

Wigwam – Nuclear Nightclub [1975]

Marcelo: Nuclear Nightclub é provavelmente o disco mais elegante da lista, menos preocupado em soar pesado e mais interessado em combinar rock progressivo, pop refinado e uma musicalidade cheia de detalhes. A banda finlandesa já tinha estrada, mas aqui parece encontrar uma forma mais acessível sem abrir mão da inteligência instrumental. Tudo no álbum soa muito bem acabado: as melodias, os arranjos, os vocais, os teclados, a leveza quase pop que convive com a ambição progressiva. O Wigwam, dos 5 discos selecionados, é o que eu torço que tenha mais simpatia de meus colegas consultores.

Anderson: Para quem não é fã incondicional de progressivo, como meu caso, esse é o material mais tranquilo da lista. São músicas não muito extensas, flertando em vários momentos com um rock mais melódico e até pop. Há uma certa leveza em por todo o álbum e bons refrãos são desenvolvidos, como na própria música de abertura (apesar de um pouco ‘boba’) ou a boa ‘Do or Die”. Creio que as duas mais interessantes são ‘Bless your Lucky Stars’, com estruturas mais complexas que as demais, possui um peso e um ar mais sinistro. O teclado se destaca e algumas mudanças de andamento chamam a atenção. Enquanto a outra muito boa é ‘Pig Storm’, com destaque para a guitarra de Pekka Rechardt cheia de feeling, técnica e com um timbre que lembra os grandes guitarristas do rock dos anos 70. Esse sim, muito bom.

André: Já tinha ouvido falar mas nunca tirei um tempo para conhecer. Pelo que deu a entender, lembra aqueles progressivos de inclinação pop que bandas como Genesis e Yes estavam fazendo no final dos anos 70. Não é ruim, mas acho que falta um diferencial na banda, seja no vocal ou na instrumentação. Há muita harmonização vocal, mas sem um pingo da qualidade ou senso de um Crosby, Stills & Nash ou um Eagles. Vi que eles tem mais discos, talvez os antigos me agradem mais.

Davi: O que temos aqui é uma banda de prog caindo de cabeça na música pop. Já tivemos outros exemplos ao longo da história (Genesis, Yes e Camel para ficar nos exemplos mais óbvios). O resultado é um pop de excelência, com arranjos sofisticados e trabalhos vocais bem resolvidos. Ainda que não sejam tão bons compositores quanto aos artistas citados acima, a audição é bem satisfatória e entrega algumas pérolas como a faixa-título, além da pinkfloydiana “Save My Money & Name”. Legalzinho…

Mairon: O Wigwam conheci através do maravilhoso texto de Marco Gaspari para a Poeira Zine, e que depois foi publicado aqui. O som dos caras é algo mais próximo ao rock inglês do que os demais grupos aqui apresentados, que por um lado lembra um pouco Wings, Fleetwood Mac e outras bandas da segunda metade dos anos 70. Este álbum já é de um período comercial do grupo, pós-empresário Kim Fowley, e que não consegue ter a mesma força de seus dois primeiros e excelentes álbuns. As músicas são gostosas de ouvir, mas por se parecer tanto uma banda britânica, acaba não tendo o mesmo impacto. Gosto mais de Hard ‘n’ Horny, mas de qualquer forma, foi legal reescutar faixas como “Bless Your Lucky Stars”, talvez a melhor do álbum, principalmente pelo belo trabalho instrumental, junto da totalmente instrumental “Pig Storm”, “Do or Die” e seu ótimo trabalho de guitarras, cheias de efeitos, e o blues floydiano de ” Save My Money & Name”. Bom disco, mas o mais fraquinho desse Ouve Isso Aqui.

Marcello: A banda é finlandesa, com uma discografia até bem extensa, mas o vocalista tem um nome (pseudônimo?) anglo-saxão – Jim Pembroke. Como ele se encarrega das letras, as músicas são em inglês. O guitarrista Pekka Rechardt é o principal compositor das melodias suaves que formam o LP. As músicas são curtas e os integrantes da banda não se dão a muitos improvisos ou solos, e os teclados do convidado Esa Kotilainen ganham destaque em várias delas (o sujeito faz alguns solos de sintetizador, inclusive). O álbum é bem diferente dos outros escolhidos para essa seção: não tem o ecletismo do Culpeper’s Orchard, nem o peso do November e do Høst, nem (graças a Deus!!) a debilidade melódica do Samla Mammas Manna. Mas confesso que, embora não tenha visto problema algum no disco, também não me senti atraído por ele; a faixa-título, “Bless Your Lucky Stars” (essa traz um bom solo do guitarrista Pekka Rechardt), “Save my Money & Name” (agradavelmente pop) e “Pig Storm” – a banda deixou o melhor para o final, uma instrumental com bom desempenho de Rechardt – foram as músicas que mais gostei. Foi legal conhecer o Wigwam, mas diferentemente do Høst e do November, provavelmente não voltarei ao grupo (à exceção, talvez, de “Pig Storm”).

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

A Young Person's Guide to: Caetano as Guest [Parte I]


Um dos maiores arroz de festa na música mundial se chamado Caetano Emanuel Viana Teles Veloso, ou simplesmente Caetano Veloso. O baiano de Santo Amaro da Purificação, que está de aniversário hoje, completando 84 anos, e reverenciado e aclamado como talvez o maior nome da MPB em todos os tempos, tem uma lista infinita de participações em discos de artistas e bandas, que não negaram - ou até usaram do - o nome de Caetano para ganhar uma promoçãozinha extra com a mídia e, por que não, até com os fãs do cantor e compositor.

Como a lista é enorme, resolvi fazer uma série de três partes com 14 canções de Caetano como convidado em discos de artistas masculinos (parte 1), femininos (parte 2) e bandas + Bethânia / Gal (parte 3). Um critério que escolhi é pegar canções que não apareceram no CD de raridades/inéditas dos boxes da série 40 Anos Caetanos (a saber Pipoca Moderna, Certeza da Beleza e Que De-Lindo), mas algumas são tão boas que, caso surjam nestas listas, serão citadas que estão nestas compilações. O segundo foi não pegar participações de Caetano cantando músicas dele em discos de outros artistas, e acredite, há muito disso. Por fim, Gil e Chico também ficaram de fora, já que com eles, Caetano gravou com cada um no mínimo dois álbuns.

Além dos 14 citados, vale trazer que o artista também colaborou com os seguintes artistas (álbuns): Jorge Ben (Salve Simpatia); Carlos Mendes (Ímã); Marito (Companheiros); Arrigo Barnabé (Janete); Nilton Marçal (Recompensa); Moraes Moreira (Mestiço É Isso); Péricles Cavalcanti (Canções); Carlinhos Vergueiro (15 Anos de Carreira); Pablo Milanés (Ao Vivo no Brasil); Toni Costa (Gente de Rua); Luiz Caldas (Flor Cigana); Toots Thielemans (The Brasil Project Vol. 1 e Vol. 2); Roberto Mendes (Matriz); Lô Borges (Meu Filme); Cauby Peixoto (Cauby Canta Sinatra); Carlinhos  Brown (Alfagamabetizado); Francis Hime (Álbum Musical); Ivan Lins (Viva Noel); Roberto Mendes (Roberto Mendes & Convidados); Orlando Morais (Agora); Saul Barbosa (Cidade Aberta); Raphael Rabello (Mestre Capiba); Carlos Bolão (Pulsação); Lee Ritenour (Festival); Lanny Gordin (Duos); Dadi (Dadi), Leo Gandelman (Sabe Você), Jorge Drexler (Bailar En La Cueva), Stefano Bollani (Que Bom) e Jherek Bischoff (Composed), assim como as participações ao lado de Zeca Pagodinho e Roberto Silva nos álbuns 2 e 4 do projeto Casa de Samba, respectivamente.  Mas com certeza há muito mais além destes que tenho na minha coleção, o que exige um grande tempo de pesquisa e garimpo. Mas deve ter mais além destes que tenho na minha coleção. 

Sendo assim, vamos para as quatorze faixas gravadas em álbuns de artistas masculinos, e daqui um tempo, a segunda e terceira parte.

"Pra Chatear": Ronnie Von - Ronnie Von N° 3 [1967]

Pouco antes de sua estreia com Gal Costa em Domingo, Caetano participou ao lado de Ronnie Von nesta marchinha de carnaval psicodélica, escrevendo e fazendo um dueto vocal muito bom com o eterno Pequeno Príncipe. Caetano parece ainda bem tímido no estúdio, mas sua marcante voz já é característica, além de ser a primeira gravação oficial do baiano ligada ao Carnaval. Simples, mas fundamental!

"Áquas" - Walter Smetak - Smetak [1975]

O músico e compositor suíço veio para o Brasil em 1937, e aqui, tornou-se um dos maiores nomes do cenário avant-garde nacional, dando origem ao grupo Uakti e influenciando muitos outros artistas. Dentre eles, Caetano Veloso. No seu álbum de estreia, em 1975, Caetano participa como editor, produtor e também com o corpo. Sim, com o corpo, já que ele usa de palmas e batidas em diversas partes do corpo (barriga, pernas, bochechas) para criar uma canção fora dos padrões chamada "Áquas". Entre grunhidos, barulhos de água, gotas, bolhas estourando, uma gaitinha desafinada e sons aleatórios, o ouvinte que não tem um contato com o estilo se quer imagina que é Caetano quem está fazendo alguns destes barulhos. Serve como um registro raríssimo da capacidade do baiano perambular por dentre os mais variados mundos musicais.  

"Não Quero Ver Você Dançar": Sergio Dias - Sergio Dias [1980]

Canção do álbum de estreia de Sergio Dias - o qual havia participado na Sitar de "Terra", do álbum Muito (Dentro De Uma Estrela Azulada), lançado por Caetano em 1978 -  em carreira solo, ela recoloca os tropicalistas em uma faixa puramente funkeada e cheia de swingue. O naipe de metais aqui é assombroso, no melhor estilo Motown, e o baixão grooveado de Jamil Joanes, junto com a batera de Paulinho Braga, dão ainda mais movimento para uma ótima canção. Caetano colabora com a letra e com o rap que contrapõe os vocais de Serginho, e este manda ver nos seus solos. Se você gosta de Mutantes, irá torcer o nariz. Mas se você aprecia boa música de qualquer gênero, irá se deliciar. Detalhe adicional: no mesmo álbum, Caetano contribui com a letra de "O Grão". Apesar de não colocar sua voz nela, vale a pena a audição, assim como todo o disco em si.

Com Erasmo Carlos

"Quero Que Vá Tudo Pro Inferno": Erasmo Carlos - Convida ... [1980]

Uma das mais brilhantes reconstruções musicais que Caetano fez em sua carreira está aqui. O rock cheio de energia que Roberto Carlos registrou em Jovem guarda (1965), e que virou um dos símbolos de uma geração no Brasil, ganha uma cara mais romântica e leve na voz de Caetano junto d'A Outra Banda da Terra. Um dos melhores discos com convidados na história do Brasil, Erasmo Carlos Convida ... fornece muitas obras similares às gravações originais do Tremendão ao lado de gigantes como Tim Maia, Maria Bethânia, Rita Lee, Gilberto Gil ..., mas é nessa desconstrução malemolente de Caetano que está um de seus maiores brilhos. Sensacional!

"Cidadão-Cidadã": Jorge Mautner - Bomba De Estrelas [1981]

Extraída do sensacional disco de convidados de Jorge Mautner, "Cidadão-Cidadã" tem uma vibe Thin White Duck em seus quase 5 minutos de duração, que me encanta. As vozes de Caetano e Mautner - que vieram a gravar em 2002, juntos, o álbum Eu Não Peço Desculpas - se complementam junto a um andamento envolvente de baixo (Arnaldo Brandão), bateria (Wilson Meirelles) e piano (Tomaz Improta). O saxofone, a cargo de Marcelo Neves, e o mandolim de Ronald Pinheiro, dão um charme a mais para a canção. E como não valorizar as passagens do piano elétrico de Improta? Um dos grandes músicos da música brasileira nos anos 70 e 80, e que aqui entrega mais uma contribuição essencial. Muitos acham que Mautner é um exagerado, e suas composições são no mínimo sem graça. Honestamente, curto muito a carreira dele, e tenho em "Cidadão-Cidadã" uma de suas melhores composições musicalmente falando. A letra aqui, honestamente, que se foda. Eu quero é me maravilhar com a voz de Caetano e o solo de saxofone. 

Com Milton Nascimento

"As Várias Pontas De Uma Estrela": Milton Nascimento - Ănĭmă [1982]

Tendo um timaço de banda (Wagner Tiso ao piano, Robertinho Silva na bateria, José Renato no violão de 12 cordas e Paulinho Carvalho no baixo), "As Várias Pontas de Uma Estrela" é a fusão da baianidade tropicalista de Caetano com a sensibilidade mineira do Clube da Esquina. Que música! As vocalizações de Milton acompanhadas pelo piano de Tiso introduzem para a voz marcante de Caetano surgir cantando sua linda letra. O contraponto vocal de Milton, com seus falsetes ao fundo da voz de Caetano, funciona muito bem, e a faixa desenvolve-se com o piano e o dedilhado de violão, com Caetano soltando a voz no refrão. Na medida que a faixa vai rolando, Caetano canta com uma raridade, enquanto Milton apenas surge fazendo sempre o contraponto vocal. O encontro de dois gigantes, que trabalhariam juntos anos depois na trilha do filme O Coronel e o Lobisomem. Mas isso é papo para outra postagem, ficando aqui a dica de uma das belas canções da MPB nos anos 80. Esta faixa aparece em Certeza Da Beleza - Raridades 3 (83-94), o box da terceira caixa Quarenta Anos Caetanos, mas ela é tão bela que merece estar aqui.

"Chegou No Vento": Vinícius Cantuária - Vinícius Cantuária [1982]

Vinícius foi um dos fundadores d'O Terço, e foi membro crucial das bandas de apoio de Caetano entre 1978 e 1984, no caso A Outra Banda da Terra e Banda Nova, gravando álbuns cruciais como Muito (Dentro De Uma Estrela Azulada), Cinema Transcendental e Velô, só para citar alguns. Em Outras Palavras (1981), Caetano já havia gravado o que se tornou sucesso "Lua E Estrela", composição de Vinícius, que em sua estreia solo no ano seguinte, chama o chefe para colaborar com "Chegou No Vento". Este xote animado é ótimo, lembrando "Esperando Na Janela" (de Gil), contando a relação de amor de alguém que anda pelas estradas que levam a Maceió, e é perfeito para se curtir uma festinha ao som de música nordestina. Caetano e Vinícius se alternam nas vozes com um entrosamento de quem se conhece há tempos, e a música flui com uma naturalidade gostosa que, mesmo não se gostando do ritmo, acaba agrando. No mesmo álbum, Vinícius registra "O Grande Lance É Fazer Romance", também de Caetano, essa já mais soturna, que sempre fiquei curioso em ouvir na voz do baiano, o qual ainda participou de "Banda Nova" no álbum Siga-Me, lançado por Vinícius em 1985, e também de "Aqua Rasa", do álbum Vínicius (2001).

Com Vinícius Cantuária

"Maria Bethânia": Nelson Gonçalves - Eu & Eles [1985]

Na metade dos anos 80, o gigante Nelson Gonçalves tentou revitalizar sua carreira, gravando grandes sucessos ao lado de cantoras e cantores modernos. Assim, lançou os álbuns Nós (1987), Eu & Eles (1985) e Ele & Elas (Vol. 1 de 1984 e Vol. 2 de 1986), com convidados diversos, como Lobão, Milton Nascimento, Tim Maia, Fagner, Gal Costa, Tetê Espíndola e Caetano Veloso, entre outros e outras. Quando criança, Caetano era apaixonado pela música "Maria Bethânia", tanto que seu amor por essa música foi responsável pelos pais batizarem a irmã com o nome da canção. Nada mais justo que Nelson chamar Caetano para interpretar essa pérola do cancioneiro nacional, obra de Capiba. Apesar dos teclados oitentistas, a canção conta com um belo arranjo orquestral de Reinaldo Arias, e nela, Nelson solta seu vozeirão grave na primeira estrofe, com a delicada voz de Caetano fazendo a segunda estrofe. A partir de então, os dois vão alternando suas vozes, dando dramaticidade e dor para uma das maiores obras que a música popular brasileira pariu. Clássico!

"Olhos Negros": Johnny Alf - Olhos Negros [1990]

Falar de Johnny Alf é chover no molhado. Um dos maiores cantores, pianistas e compositores do Brasil, Johnny fez fama como um dos primeiros nomes da Bossa Nova, ao lado de João Gilberto e Tom Jobim, mas com um detalhe: o músico era de classe pobre, negro e homossexual, e conseguiu mesmo assim se sobrepor através do seu talento em uma classe totalmente racista, preconceituosa e da elite carioca. Em 1990, Johnny uniu uma constelação de estrelas para gravar Olhos Negros. Gal Costa, Chico Buarque, Gilberto Gil e Caetano Veloso são alguns dos 10 convidados do álbum, e coube ao baiano Caetano registrar a faixa-título. Conduzido pelo indefectível piano de Johnny, e o maravilhoso arranjo orquestral a cargo de Guto Graça Mello, Caetano brilha nesta faixa que tem todo o ar e charme da orla de Copacabana misturados com a embriaguez de Ipanema. Ou seja, uma faixa puramente do sul carioca, que ganha a pimenta baiana para complementar a grave voz de Johnny. Para quem aprecia MPB, melhor que isso não há.

"Responso": Keiler Rêgo - Oratório De Santo Antônio [1993]

Para quem acha que Caetano só começou a flertar com o evangelismo e com religião no final da década passada, mero engano. Em 1993, através de convite do maestro e compositor Keiler Rêgo, Caetano entregou sua voz para o hino "Responso", lançado no álbum Oratório de Santo Antônio. É no mínimo curioso ouvir a doce voz de Caetano cantando um hino religioso sobre camadas de teclados e do piano elétrico. A letra é dedicada à Santo Antônio, e o hino é uma bonita canção, além de uma raridade dentro da vasta discografia de Caetano. 

Com Fito Páez

"Mariposa Tecknicolor": Fito Paéz - Circo Beat [1994]

Esta faixa bônus de Circo Beat ficou bem curiosa de se ouvir na voz de Caetano. Um dos grandes sucessos da carreira de Fito Paéz, aqui recebe uma versão em português, feita por Herbert Vianna, cantada pelos dois, dividindo os vocais igualmente, e não sei o que é mais curioso, se Paéz cantando em português ou Caetano soltando sua voz em um rock rápido e bem discrepante da malemolência baiana que conhecemos. Um ótimo rock, quase que uma preciosidade musical para os que curtem o rock advindo dos hermanos, principalmente pela energia portenha exalada na canção. 

"Assum Branco": José Miguel Wisnik - Pérolas Aos Poucos [2003]

A música minimalista de José Miguel Wisnik é praticamente desconhecida pela população geral brasileira, mas dentre os chamados "intelectuais" da cultura nacional, Wisnik é considerado um dos grandes compositores deste século. Eu fico no meio termo em relação à sua obra, mas gosto bastante de Onkotô, álbum/trilha que ele gravou ao lado de Caetano em 2006. Pouco antes, no álbum Pérolas Aos Poucos, a parceria Wisnik/Caetano começou através de "Assum Branco", uma faixa que óbvio, liricamente remete à "Assum Preto". Mas aqui, na dramaticidade do piano de Wisnik, e na tocante interpretação de Caetano, o qual não faz força para simplesmente arregaçar as caixas de som, é de arrancar lágrimas de um totem. Linda faixa, mais uma das tantas a serem descobertas deste grande compositor/músico brasileiro. 

"Lisboa Que Amanhece": Sérgio Godinho - O Irmão Do Meio [2003]

No final dos anos 90, Caetano era um nome super em voga na Europa, principalmente pelo sucesso do álbum ao vivo Prenda Minha. Isto acabou o levando a fazer shows por lá, e também a gravar com músicos europeus, dentre eles, o ator, compositor e cantor português Sérgio Godinho. Em seu álbum de convidados, O Irmão do Meio, Godinho chamou Caetano para contracenar na romântica "Lisboa Que Amanhece", uma bela canção carregada no órgão farfisa e na bela condução bossa-novística do violão, com um clima bem tropicalista, onde a voz de Caetano predomina, contrastando com o português carregado de sotaque de Godinho. Uma boa canção, que remete fácil a musicalidade do nosso Brasil varonil, mas com toda a presença de Portugal na voz de Godinho.

Em estúdio, com Vitor Ramil

"Milonga De Los Morenos": Vitor Ramil - Délibáb [2010]

Em um disco intimista, no qual Vitor retoma seus tempos de Ramilonga, privilegiando a cultura dos pampas, eis que surpreendentemente ele convida o baiano Caetano para interpretar "Milonga De Los Morenos" E não é que o sotaque baiano se encaixa muito bem com a letra em espanhol? Ok, Caetano já havia tido a experiência de gravar em espanhol no álbum Fina Estampa (1994), mas confesso que sempre que ouço esta canção, me assusta positivamente como a voz acalentada de Caetano se encaixa perfeitamente no ritmo milongueiro. Belíssima canção, que encerra aqui a primeira parte de Caetano como convidado de artistas masculinhos. Daqui umas semanas, apresento então ele como convidado de artistas femininos.

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Consultoria Recomenda: Discos em que o vocalista também é o baixista



 Editado por André Kaminski

Tema escolhido por Marcello Zappellini

Com Anderson Godinho, Davi Pascale, Mairon Machado e Marcelo Freire

Quando chegou a minha vez de propor um tema, pensei um pouco e decidi homenagear o instrumento musical que normalmente mais me chama atenção no rock e seus múltiplos subgêneros: o baixo. Mas, simplesmente falar de baixistas não seria muito interessante, então pensei na ideia de trazer recomendações de discos em que o baixista seja o vocalista principal. Uma regra foi aplicada: não poderia haver outro vocalista principal na banda, o que levou a deixar de lado Beatles e Kiss, por exemplo. Embora não tenha ficado explícito, também não caberia indicação de baixista/vocalista em carreira solo. O resultado foi uma lista bem variada, como se pode ver. (Marcello Zappellini)


The Police - Regatta de Blanc [1979]

Por Marcello Zappellini

O segundo disco do The Police não é muito lembrado na carreira da banda, pois não teve a novidade do primeiro nem o impacto de Sinchronicity, mas sempre esteve entre meus favoritos da banda. Diferentemente do primeiro LP, Sting não domina as composições (embora as duas músicas mais conhecidas sejam dele, “Message in a Bottle” e “Walking on the Moon”), pois duas são creditadas aos três, uma a Sting e Stewart Copeland e três foram escritas por Copeland. O riff intrincado de Andy Summers em “Message in a Bottle” abre (muito bem) o disco, seguido pela faixa-título quase instrumental, e por “It’s Alright for You”, que não faria feio no primeiro disco; nessa, o baixo é creditado a Stewart Copeland. “Bring on the Night” traz um baixo mais trabalhado e, como tanto Andy e Stewart estão meio discretos na música, Sting se torna o destaque. “Deathwish” é uma canção injustamente pouco lembrada, em que o nosso baixista/vocalista de novo carrega a melodia. Já “Walking on the Moon” é um primor de simplicidade - ninguém precisa ser Chris Squire ou John Entwistle para fazer o baixo ser o instrumento que mais chama sua atenção. “On Any Other Day” é bem diferente e tem um estilo meio 50s/60s que o Police nunca mais explorou; “The Bed’s Too Big Without You” retoma o reggae com outro riff marcante de baixo, e "Contact” é bem new wave, e traz um interessante baixo em staccato, mas não escapa de ser a mais fraca do disco. Copeland é o responsável por “Does Everyone Stare”, em que toca piano. A enérgica “No Time This Time” encerra o disco, com outra bela linha de baixo em uma música que também podia estar no disco anterior. Nos vocais, Sting desempenha melhor aqui do que no primeiro LP, embora ele ainda fosse melhorar com o tempo; a impressão que tenho é que, para se dissociar do movimento punk, o grupo investiu em uma sonoridade mais sofisticada, o que passa pela voz do baixista. E o reggae é um estilo que favorece o baixo, que confere a necessária pulsação à música, tornando Regatta de Blanc um álbum digno desta lista.

Anderson: Um dos clássicos do The Police, sem sombra de dúvidas. Message in a Bottle e Walking on the Moon não me deixam mentir, mas poderia destacar "Deathwish" ou "The Bed's Too Big Without You" que em minha concepção representam muito a sonoridade da banda naquele momento. Acredito que algumas faixas poderiam ter sido deixadas de lado, mas como o material não é tão extenso é aceitável que permaneçam. Por fim, acho que a sonoridade apresentada pelo The Police aqui representa bem um dos caminhos que o rock estava desbravando no final dos anos 1970, o que torna o material ainda mais relevante.

André: Demorei um tempão, mas o som do The Police me fisgou depois dos 30 anos. É curioso como eles tentam fazer aqui uma espécie de reggae-punk-pop-rock. Como a guitarra de Andy Summers tem pouquissimo overdrive, o baixo de Sting acaba tomando conta da maioria das canções e, como vocalista, o Picada sempre se destacou. Para este tema, um ótimo disco e bem representativo como era de se esperar.

Davi: O The Police foi um grupo pop de primeiríssima linha, que contava com três grandes músicos e uma sonoridade bem definida e bem refinada misturando elementos de vertentes distintas como o punk e o reggae. Sua trajetória foi curta, mas deixou uma discografia impecável repleta de grandes hits e verdadeiras pérolas escondidas. Nesse segundo CD, os hits ficam por conta das inesquecíveis “Message In a Bottle” e “Walking On The Moon”, enquanto meus lados B favoritos ficam por conta de “It´s Alright For You” e “Bring On The Night”. Discão!

Mairon: Nunca fui muito com a cara do The Police, e sempre me perguntava o por que disso. Ouvi os discos da banda há muitos anos atrás, e desisti. Me culpava por um certo lado, pois alguns amigos que conheço consideram a banda revolucionária. Então, fui de coração aberto, quase 20 anos depois, para ouvir esse segundo disco deles, e pqp, logo de cara, em "Message in the Bottle", me dei conta de quão insuportável (e vexatório) é o Sting, que como baixista acho limitadíssimo, tentar cantar como o Bob Marley, e quão é terrível essa ideia de três britânicos quadradões tentarem fazer reggae de branco. O Clash ao menos foi honesto e fez letras que representavam um pouco o que é o reggae, mas isso aqui?? Que coisa tinhosa, que coisa detestável, que coisa triste saber que Andy Summers e Stewart Copeland, estes sim muito talentosos, fizeram parte de algo tão chato. Me surpreende um pouco de saber que o Rush gostou disso aqui, e se inspirou neles para fazerem "The Spirit of Radio", por que olha, musicalmente é vomitativo o que esses caras fizeram. Não tenho mais palavras para mostrar meu ranço com o The Police, mas se alguém quiser vir defender esses otários, que vá ouvir a imundíce chatíssima dos "io io ios" e "ie ie ies" da faixa-título ou de "Walking on the Moon". Me perdoa Marcelo (certeza que foi tu quem recomendou), mas que baita bost@. Preciso ouvir Zappa para limpar meus ouvidos.

Marcelo: Gosto bastante do The Police, embora entenda perfeitamente quem tenha dificuldade com a banda, sobretudo quando a mistura de reggae, punk, pop e rock parece mais calculada do que espontânea. Em Regatta de Blanc, porém, acho que esse equilíbrio funciona muito bem. Sting ainda não é o compositor absoluto que se tornaria depois, mas sua presença como baixista e vocalista já organiza boa parte da identidade do grupo. “Message in a Bottle” e “Walking on the Moon” são as pérolas evidentes e tocadas à exaustão nas boas rádios brasileiras do início da década de 80, mas “Bring on the Night” e “The Bed’s Too Big Without You” são as aulas de Sting sobre como baixistas podem, além de acompanhar os demais instrumentos, também conduzir o clima da música.


Robin Trower - Robin Trower Live [1976]

Por Marcelo Freire

 Minha indicação foi este Robin Trower Live, muito mais por James Dewar do que pelo próprio Trower, por mais absurdo que isso pareça diante de um guitarrista desse tamanho e do tanto que eu o amo, vide o que já escrevi sobre ele aqui na casa. Dewar era aquele tipo de músico que, sem parecer disputar espaço, sustentava tudo: baixo firme, pesado, cheio de presença, e uma voz soul/blues absolutamente fantástica, meu Deus, como cantava fácil esse homem... Em “Too Rolling Stoned”, “Daydream”, “I Can’t Wait Much Longer” e “Little Bit of Sympathy”, ele mostra por que foi o parceiro ideal de Trower. O disco tem todos os méritos de um grande registro ao vivo setentista, mas, dentro deste tema, o que mais me interessa é perceber como Dewar consegue ser base e frente ao mesmo tempo, sem transformar isso em exibicionismo.

Anderson: Definitivamente não gosto de álbuns ao vivo e esse me lembrou o motivo. Uma coisa é ir no show e viver aqueles momentos com todo o contexto emocionante que contam histórias únicas e pessoais. Agora, os álbuns ao vivo não expressam tudo isso, entendo sua importância em vários sentidos, como para registrar os distintos momentos pelos quais uma banda passa, bem como disponibilizar um material para um público que, possivelmente, nunca teria como ver in loco. Dito isso, o material apresenta todos os excessos que em um show caem bem, mas que se tornam maçantes em uma audição cuidadosa em casa. A banda, por sua vez, está impecável, reza a lenda que não sabiam que o material se tornaria um disco. Musicalmente, Trower mostra os motivos de ser considerado um dos grandes. Particularmente, as baladas me pegaram: Daydream e I Can't Wait Much Longer são muito boas e a execução é muito boa. Enfim, um ótimo material para quem curte Live.

André: Ótimo disco ao vivo de Trower, um destaque na guitarra blues rock. Em conjunto com o vocalista e baixista James Dewar, que também canta e toca pacas, temos um lindíssimo disco do melhor do que o blues rock setentista pode oferecer. Curioso como o comparam ao Hendrix. Mas a bem da verdade, realmente é o sujeito que eu mais vejo ter chegado próximo em termos de guitarra neste estilo.

Davi: Clássico álbum do grande guitarrista Robin Trower. Lembro que um tempo atrás, indiquei o Bridge of Sighs, em uma outra edição do Consultoria Recomenda. Bacana ver mais um disco dele por aqui. Não tem muito o que falar de novidade. Robin é um guitarrista brilhante, James Dewar é um vocalista de mão cheia (embora o trabalho vocal dele aqui tenha sido refeito em estúdio), e o set é fantástico. Claro... Como o LP da época era simples (atualmente existe uma edição de luxo mais completa), faltavam alguns sons como a fantástica “Day of The Eagle”, mas não tem como criticar um disco que traz sons como “Little Bit of Sympathy”, “Lady Love” e “Rock Me Baby”. Audição obrigatória!

Mairon: Robin Trower, James Dewar e Bill Lordan formaram um dos grandes power trios da história. Assim como Taste e a Stevie Ray Vaughan Band, a Robin Trower Trio era escorada na genialidade de seus guitarristas (para quem não sabe, o Taste era liderado por Rory Gallagher). Robin Trower sempre foi um filhotão de Jimi Hendrix, e suas qualidades são inquestionáveis, mas como o Recomenda se trata de baixista e vocalista, me concentro então a analisar o trabalho de Dewar. Seus vocais britânicos são nítidos e brilhantes, me lembrando muito os de Bobby Martin (que acompanhou Zappa nos anos 80) em faixas como a dançante "Too Rolling Stoned", o rockaço "Lady Love" e a doloridíssima "Daydream", uma das mais lindas canções da carreira de Trower, assim como a bela " I Can't Wait Much Longer", na qual Trower demole na guitarra. Além disso, o groove do seu baixo é a sólida base para "Little Bit Of Sympathy", "Rock Me Baby" e principalmente "Alethea", faixa pegadíssima, com um ótimo solo de Lordan, que remete diretamente ao Jimi Hendrix Experience e ao Cream. Apesar de achar que a mixagem do baixo está baixa ao longo de todo o álbum, é um disco que acerta em cheio no coração de quem ama rock, e principalmente, um bom e vigoroso power trio..

Marcello: O quarto disco-solo do ex-guitarrista do Procol Harum é um absurdo de bom, e faz parte dessa lista por causa da presença do gigantesco James Dewar, ex-Stone The Crows e não somente um baixista excelente, como um vocalista dono de uma voz simplesmente fenomenal, cheia de soul. Falei mais desse álbum na matéria sobre o rock ao vivo  em 1976, e para não me repetir, vou me concentrar no desempenho de Dewar. O músico já brilha na introdução de “Too Rolling Stoned”, antes de Trower entrar com sua guitarra com wah-wah, e quando Dewar começa a cantar você percebe que está diante de algo especial. “Daydream”, mais suave e romântica, permite a nosso herói explorar sua bela voz, ao passo que “Rock Me Baby” prova que ele podia cantar blues muito bem. “Lady Love”, que encerra o antigo lado 1, não permite muito destaque a Dewar, mas na sequência tem-se a monumental “I Can’t Wait Much Longer”, em que Robin estraçalha na guitarra – mas James consegue nos fazer esquecer dele em alguns momentos. “Alethea” se assemelha um pouco em termos de desempenho vocal a “Too Rolling Stoned”, e o disco se encerra com “Little Bit of Sympathy”, em que Trower arrasa novamente e Bill Lordan tem direito a um curto solo de bateria. Preciso chamar atenção para o timbre pesado de James no baixo, que soa em alguns momentos como se ele usasse distorção, mas, até onde sei, isso não ocorre. Robin trabalharia com bons baixistas (Jack Bruce, por exemplo), mas James Dewar (infelizmente falecido ainda jovem) foi seu parceiro ideal, e Live! está aí para provar.


Som Nosso de Cada Dia - Som Nosso [1977]

Por Mairon Machado

Minha recomendação é mais uma forma de homenagear um dos maiores baixistas/vocalistas do Brasil, além de ser um cara muito simpático e querido, que tive a honra de entrevistar pouco antes de seu falecimento. Pedrão Baldanza tocou com praticamente todos os grandes nomes que o nosso país revelou, e foi na Som Nosso de Cada Dia que teve sua criatividade progressiva revelada, através do excelente Sneges (1974). Depois de uma reformulação no line-up da banda, em 1977 veio o segundo álbum da banda, com uma sonoridade totalmente moderna e diferente de seu trabalho antecessor.  famoso Lado Sábado é para realmente se divertir com uma noitada de fim de semana. Nele, os vocais rasgados e trêmulos de Pedrão de sobressaem em faixas como , "Levante a Cabeça", "Pra Swingar" e seu baixo swingado aparece em faixas como "François", além de comandar o riffzão no groove de "Estação da Luz", "Pra Segurar", praticamente arrebentando as cordas, e "Vida de Artista". Já o lado Domingo é para aquele dia que você apenas relaxar com um som bastante progressivo, na linha Snegs, com os vocais característicos de Pedrão comandando "Bem No fim", e uma baita linha de baixo, e a tocante "Neblina", carregada nos viajantes teclados e nas delirantes vocalizações de Pedrão, além do baixão de "Água Limpa" e "Rara Confluência", pauladas prog com muito moog e guitarra. Destaque total neste lado para "Montanhas", com um show a parte do baixo de Pedrão (e da bateria de Pedrinho), e certamente a faixa mais Snegs de um disco incompreendido, sendo fundamental e necessário de ser apresentado para as novas gerações.

Anderson: Não conhecia a banda, mas sua audição gerou momentos agradáveis. Sendo bem direto, há uma distinção interessante entre músicas mais animadas que podem ser inseridas no contexto da disco music e do funk, músicas que soam muito acessíveis, e por outro lado algo voltado para o rock progressivo. As músicas Bem no Fim e Montanhas representam bem esse segundo momento do álbum. Em minha opinião essa segunda parte é muito mais interessante do que o início, apesar de o disco como um todo ser muito agradável. Vale a pena ouvir na íntegra.

André: Gosto muito deste disco e Pedrão é o cara! Seu baixo pulsa com vida em praticamente todo o disco. Prog, funk, soul e jazz se misturam aqui facilmente, com a banda conseguindo a façanha de fazer essa salada sonora soar muito boa. Para um disco dos anos 70 com essa qualidade de som, tem que se tirar todos os chapéus possíveis.

Davi: Em Som Nosso, o grupo do saudoso Pedro Baldanza atacava em 2 frentes. O lado A trazia uma sonoridade com uma pegada funk/soul e um pezinho na MPB. OS arranjos são bem resolvidos e os músicos são excelentes. Quem curte aquela sonoridade setentista do Tim Maia deve curtir, principalmente a faixa “Levante a Cabeça”. Contudo, me identifico mais com a segunda metade do LP, onde os músicos apostam em uma sonoridade jazz/rock com forte influência do rock progressivo. Nessa segunda metade, o grande destaque vai para a bela faixa “Montanhas”. Foi um disco legal de reescutar, mas ainda prefiro o Snegs.

Marcelo: Por que temos tantas coisas muito boas de se ouvir e, subitamente, nos lembramos de um disco que deveríamos ouvir mais?! Esse é um daqueles discos que sempre me fizeram defender como o rock brasileiro dos anos 70 ainda guarda surpresas imensas. Pedrão Baldanza é o tipo de figura que justifica plenamente a presença nesta postagem: baixo pulsante, voz característica e uma capacidade muito natural de atravessar prog, funk, soul, jazz-rock e música brasileira sem parecer que está apenas colando referências. Gosto especialmente quando o disco assume o balanço do lado “Sábado”, mas o lado “Domingo” também tem momentos progressivos muito bonitos. Talvez seja irregular justamente por tentar muita coisa, mas é uma irregularidade cheia de vida.

Marcello: O representante do rock brasileiro na lista é um grupo de quem só conhecia um disco (que ouvi em fita, aliás!) e nem imaginava que tinha um baixista/vocalista (Pedrão). O disco tinha dois lados bem distintos: o lado A (“Sábado”) começa com “Para Swingar”, que faz jus ao nome com seu balanço funk, os metais e a voz canalhinha de Pedrão. “Levante a Cabeça” já dá mais destaque para o baixo numa música que dura pouco e deixa gostinho de “quero mais”, e “François” tem forte influência de disco music. “Para Segurar” põe os teclados em relevo e outro ótimo arranjo de metais. “Estação da Luz” e “Vida de Artista” foram compostas por Tony Osanah, figura conhecida no cenário da época, a segunda com um ritmo intrincado que destaca novamente os teclados e traz na letra a linha mortal: “para subir na vida é melhor ser ascensorista”. O lado B (“Domingo”) remete ao clássico álbum de estreia do grupo, Snegs (1974), com menor influência de black music. “Bem no Fim” tem outra linha de baixo fantástica e ótimos teclados, e “Montanhas” começa com aquele som “viajante” de meados da década de 70, trazendo uma bateria sensacional de Pedrinho Batera numa música meio jazz-rock, e quando você pensa que a música será toda instrumental, os vocais entram para concluir. “Neblina” não me chamou muito a atenção, mas “Água Limpa” traz um interlúdio instrumental com um piano sensacional. O álbum se encerra com “Rara Confluência”, com uma introdução de sintetizador que lembrou os bons tempos de Rick Wakeman e outra bateria fantástica. Apesar da habilidade impressionante dos músicos envolvidos, confesso que preferi o lado A. Som Nosso é um daqueles discos que se tivessem sido gravados nos EUA ou Inglaterra, poderia ter feito sucesso, especialmente se investisse no som do lado A. Infelizmente, nem aqui vendeu bem, e a banda acabou pouco depois.


Reverend Bizarre - II: Crush the Insects [2005]

Por André Kaminski

Embora o doom metal mais tradicional seja a base (nas quatro últimas faixas), fica claro que a banda se inspira no Sabbath setentista (nas três primeiras). Diferente das temáticas obscuras e melancólicas, o baixista e vocalista Albert Witchfinder volta e meia usa o humor em suas letras na criação de canções que não parecem se levar a sério. Por pouco não indiquei Goddess of Doom, mas pena que era apenas um single homenageando a deusa do terror Vandinha Addams, ou Christina Ricci, que até aceitou ser a capa do disco! É um doom metal divertido (isso existe?) e diferenciado, de uma banda que durou pouco mas que muitos a tem como seu "achado de estimação da qual não contarei a ninguém".

Anderson: Outra banda que não conhecia e que me surpreendeu bastante. O disco é uma loucura, começa mais cru e seco, soa como um stoner rock mais simples e clássico. Colocaria as três primeiras nessa lista, destaque para Doom Over the World, a mais interessante. Eis que a partir da quarta música, um épico de 13 minutos, a sonoridade muda vertiginosamente para um Doom Metal daqueles bem cadenciados. Até o final teremos músicas longas e arrastadas que criam uma atmosfera completamente melancólica. Em minha perspectiva, a última música Fucking Wizard é o maior destaque dessa “fase 2” do material, faz menção ao Black Sabbath, mas ao seu jeito. Acredito que o nome da banda justifica bem o material. Com certeza não é para qualquer um, ainda não sei me surpreendi positiva ou negativamente.

Davi: Segundo álbum da banda de doom metal da Finlândia. Confesso que não conhecia o grupo e que fiquei impressionado em ver como esse álbum é cultuado entre os críticos de metal. Sério... Não consegui enxergar toda essa qualidade que os caras mencionaram. Achei as composições chatas, a audição extremamente cansativa, o som da bateria extremamente sem graça e o trabalho vocal fraquíssimo. Definitivamente, não é pra mim.

Mairon: Nunca tinha ouvido falar desta banda, então, quando olhei a capa do álbum, pensei que viria algo de contexto histórico. O som é um doom metal sem muita energia, e onde o vocal e o baixo de Albert Witchfinder se destacam realmente. Apesar de ser um disco muito longo (1 hora e 13 minutos), e não ser o estilo de música que aprecio hoje em dia, reconheço qualidades no disco, principalmente em "The Devil Rides On" e claro, o épico "Slave of Satan", com uma longa introdução de baixo e que fiz questão de ouvir as duas versões (a versão single, completa, possui 21 minutos!) . Me lembrou algo do Misfits, sei lá, mas mais arrastado, em especial "By This Axe I Rule!" e "Fucking Wizard", cujos trechos velozes são sensacionais, mas o longo trecho arrastado em cada uma delas é bem cansativo. Se essas canções fossem uns 30% mais curtas, seria um ótimo disco. De qualquer forma, irei ouvir os outros dois álbuns do trio finlandês para ver se é assim mesmo. Recomendação interessante.

Marcelo: Aqui eu confesso que apanhei um pouco. O Reverend Bizarre tem aquele culto em torno de si que sempre me deixa curioso, mas é só curiosidade mesmo. mas II: Crush the Insects exige uma disposição que nem sempre tenho para o doom mais arrastado. Albert Witchfinder se encaixa perfeitamente no tema, porque o baixo e a voz são parte central da identidade soturna da banda, e há momentos em que essa combinação funciona muito bem, especialmente quando o disco encurta um pouco o caminho. O problema, para mim, é que algumas faixas longas passam do ponto e começam a transformar peso em repetição. Foi muito bom conhecer, mas não sei se voltarei a ele com frequência, mas que voltarei, voltarei, sobretudo por faixas como a de abertura, “Doom Over The World”. Ah, e a capa é ótima.

Marcello: Quando recebi a lista, minha reação foi “quem???”. Quando vi a capa, minha reação foi “oh, não!”, e fui ouvir o disco sem muita expectativa. Quatro das oito músicas ultrapassam os 10 minutos de duração, e o baixista Albert Witchfinder se mostra um vocalista de bons recursos, além de mostrar segurança nas 4 cordas. “Doom over the World” me lembrou bastante do Black Sabbath: teria sido interessante ouvi-la com Tony Iommi e Tony Martin! Mas dispenso o papo furado no final, que não contribuiu em nada com a música. “The Devil Rides Out” mantém o clima sombrio e um solo curiosamente melodioso. Na sequência, a menor música do disco (só 5’22”!): “Cromwell” fala do Lord Protector, mas, como não fui atrás da letra, não sei o que ele veio fazer aqui no meio do disco – diferentemente das duas primeiras, as influências sabbathianas passam longe dessa música. Foi uma quebra interessante no meio do disco, para falar a verdade. O baixo introduz “Slave of Satan” - da faixa mais curta à mais longa – e os vocais de Witchifinder, embora ocupem pouco espaço na música, são o principal destaque. A música, em si, é um pouco monótona e não caiu no meu gosto. “Council of Ten” mantém o ritmo arrastado da anterior, e de novo o vocal me chamou a atenção, mas a mudança de ritmo n terço final ficou bem legal. “By This Axe I Rule” mantém o clima soturno e o mesmo ritmo das duas anteriores – parece que o baterista se cansou, hehehe. O baixo ganha algumas distorções, tornando-o o instrumento mais proeminente, e puxa uma acelerada na música que mais uma vez me lembrou o Sabbath. “Eternal Forest” não muda muito em relação às músicas anteriores – mesmo problema de “Fucking Wizard”, essa uma “Black Sabbath” (a música, não a banda) sem os mesmos atrativos. No fim das contas, algumas músicas sofreram por ter uma duração muito longa e se tornaram bastante monótonas e repetitivas, mas II: Crush the Insects funcionou bem nas músicas mais curtas – as longas mereciam algumas tesouradas ou pelo menos introduzir outros instrumentos nos arranjos. Foi bom para conhecer, mas não acho que voltarei ao Reverend Bizarre.


Sacred Reich - The American Way [1990]

Por Anderson Godinho

Esse álbum, na discografia da banda, significa uma mudança para um som mais pesado e menos veloz em relação aos anteriores. Phil Rind comanda as mudanças com algumas passagens mais grooveadas, mas é Greg Hall quem se destaca mais com seus arranjos para a bateria (inclusive em 1991, Hall deixa a banda). As letras também são destaque no sentido de apresentarem um tom mais politizado. Alguns clássicos da banda como Love...Hate e a faixa título The American Way até os dias atuais são lembradas nos shows. Algumas elucubrações e invencionices também são lembradas, mas não necessariamente por serem boas, 31 Flavors é um pavor. De modo geral é um bom disco de Thrash Metal, longe de se destacar em meio à multidão, mas tem bons momentos e é um material lembrado na discografia da clássica banda do Arizona.

André: Já ouvi alguns discos dessa banda, incluive este The American Way. Tem aquela mistura de thrash e groove tal como o contemporâneo Pantera, mas sem a qualidade dos riffs de Dimebag Darrel. É um disco bom, na parte de baixo e vocais, o responsável Phil Rind consegue um desempenho satisfatório embora ele não seja nem um grande baixista e nem um grande cantor. A música que mais gostei foi "Crimes Agains the Humanity", incluisive com a intro fazendo uso em destaque do baixo com os vocais.

Davi: The American Way é o segundo álbum do Sacred Reich. O disco aposta em um thrash metal bem cadenciado, bem trabalhado, com um ‘q’ de groove metal. Gosto bastante tanto de thrash, gosto de groove metal, mas não gostei do disco. O trabalho de guitarra de Wiley Arnett é o muito bom, mas o trabalho vocal de Phil Rind é muito fraco. Sua interpretação não me convence e as linhas vocais não me empolgam. No fim do disco há uma faixa chamada “31 Flavors”, onde a banda soa muito como o Red Hot Chili Peppers na época do Freaky Styley. Algo que destoa totalmente do restante do álbum e, mais uma vez, não convence. A melhor música do disco é “Who´s to Blame”, ainda assim longe do que considero uma grande canção.

Mairon: O Sacred Reich é daquelas bandas que mereciam mais reconhecimento dentro do thrash, e que legal ver os estadunidenses aqui. Este segundo disco é uma mudança sonora radical no som dos caras, lembrando um pouco o Anthrax, graças ao genial líder, baixista, vocalista e faz tudo Phil Rind. Com letras bastante críticas, o álbum é muito coeso, e em termos da performance de Rind, o cara tem uma voz interessante, a qual destaca-se principalmente na pesada "Who's to Blame". Mas admito que curto mais ele como baixista. Afinal, ele cria excelentes riffs, vide "I don't Know" e  "The Way It Is", duelando com as guitarras de Wiley Arnett e Jason Rainey . Gosto bastante da pancada "The American Way", e das longas "Crimes Against Humanity", com o baixo estourando as caixas de som, e "State of Emergency", pesadíssima, e com o baixo também marcando presença. Fechando o disco, como não curtir a audácia de "31 Flavors"?. Um funkzão recheado de slaps no baixo, com Rind emulando Mike Patton, e um ótimo naipe de metais que provoca o ouvinte a "sair da caixinha" e ouvir algo totalmente inovador dentro do Thrash, e com uma letra sensacional. Disco clássico que me surpreendeu de ver por aqui, e me fez abrir um sorriso de orelha a orelha. Parabéns ao consultor que o indicou!

Marcelo: O Sacred Reich era uma banda que eu havia deixado meio esquecida nos anos 90, pois enquanto todo mundo ouvia o Rust in Peace do Megadeth, que é do mesmo ano, eu ouvia esse do Sacred Reich... E voltar a The American Way depois de décadas foi uma grata surpresa. Phil Rind talvez não é nem o vocalista mais impressionante e nem o baixista mais virtuoso da lista, mas tem uma presença muito eficiente, especialmente porque o disco combina bem aquela pegada thrash com momentos mais cadenciados e letras de forte teor crítico. “Love…Hate”, “The American Way” e “Crimes Against Humanity” sustentam muito bem o álbum, mas a faixa que mais me divertiu relembrar foi “31 Flavors”, justamente por quebrar a expectativa e flertar com um funk metal inesperado. 46 anos depois, ainda tem personalidade.

Marcello: Uma banda que ouvi algumas vezes nos anos 90 e estava completamente esquecida para mim. E outra que também não sabia que tinha um baixista (Phil Rind) como vocalista principal. Este segundo LP da banda começa com “Love/Hate”, que te dá uma paulada na cabeça; a faixa-título é um pouco mais cadenciada e lembra um pouco o ritmo que o Metallica seguiu nos anos 90 (gostei bastante do riff de guitarra de Jason Rainey). “The Way It Is” pareceria à primeira vista ser uma música meio conformista, mas repetir “this is reality” ao longo dela mostra que a cabeça de Phil Rind está em outro lugar. “Crimes Against Humanity” traz um bom solo de Wiley Arnett, que infelizmente dura pouco tempo, mas, sobretudo, um desempenho fantástico do baterista Greg Hall. “State of Emergency” mantém o clima da anterior, e gosto bastante do baixo palhetado de Rind nessa música. Daí até o final são três músicas mais curtas (pouco mais de 10 minutos), com a introdução suave de “Who’s to Blame” quebrando o peso do disco – mas não deixe a impressão inicial te enganar, porque depois a música acelera, diminuindo o ritmo novamente para o solo de Wiley. “I Don’t Know”, pelo contrário, não dá moleza para o ouvinte, sendo quase punk. A grande curiosidade é “31 Flavors”, com um ritmo funk que se amplifica com os metais e vocais que parecem rap. Parece um cruzamento do Sacred Reich com o Red Hot Chili Peppers, mas ficou muito legal. Não conheço muito da carreira do Sacred Reich, mas The American Way é um bom disco, ainda que meio curtinho, e vou procurar mais coisas deles para ouvir.


Winger - Pull [1993]

Por Davi Pascale

Esse é e sempre foi o meu álbum favorito do Winger. Não é o mais famoso deles (alcunha que fica com In The Heart of The Young), mas foi o disco que me tornou fã dos rapazes. Os músicos envolvidos são todos de primeiro calibre e Kip Winger é um cantor de mão cheia (algo que já fica claro na música de abertura “Blind Revolution Mad”). O disco é muito bem feito e mescla hard rocks um pouco mais pesados do que o grupo costumava fazer (caso de canções como “Junkyard Dog” e “In My veins”), com baladas de extremo bom gosto (como “Who´s The One”, “Spell I´m Under” e “The Lucky One”), além da divertidíssima “Down Incognito”. A banda entregava aqui um trabalho maduro, com interpretações de primeira, mas o lançamento acabou ofuscado pela mudança de mercado que ocorria na época. Disco altamente recomendado para os fãs de hard rock.

Anderson: Mesmo tendo dado uma “estudada” na carreira do Winger para o Bangers Open Air desse ano, não tinha ouvido esse material na íntegra. É muito bom! Fazia um bom tempo que não ouvia um Hard Rock tão bem feito. Devia ter dado mais atenção ao show de Kip Winger e Cia no festival. Elementos de Skid Row são evidentes, aquele peso característico, mas sem perder a melodia em nenhum momento. Dedilhados, solos, backvocals muito bem pensados chamam a atenção, também. É impressionante como, mesmo tendo perdido o tecladista, tornando-se um trio, a banda soa mais cheia e pesada do que materiais anteriores. Geralmente gosto de apontar ao menos três músicas que me chamaram mais atenção, porém aqui fico com o conjunto da obra, 47 minutos muito bem utilizados. Dessa lista, o que mais gostei de conhecer.

André: Há anos não ouvia este álbum. Embora eu ainda prefira o anterior, este trabalho me soou também muito bom e bem consistente para um hard rock farofa. Já era uma época de vacas magras para o estilo (1993, que excetuando o Guns e mais umas poucas, não havia mais espaço para o gênero), todavia o disco soa pesado e bacana. Porém, para o tema, o disco soou fraco em termos de baixo, com Kip Winger apenas cozinhando sem nenhum solo ou toque diferenciado, exceto em algumas pequenas partes acústicas.

Mairon: Fazia muito tempo que não ouvia o Winger, e foi legal voltar neste terceiro disco dos caras. Acho que é um dos mais pesados da carreira deles, mesmo com as mesclas de momentos acústicos com elementos mais pesados, e muito pelo baixão do Kip Winger, que aliás é um dos grandes vocalistas de sua geração. Reb Beach é um monstro nas seis cordas (não à toa Coverdale o levou para o Whitesnake anos depois), mas concentrando-se na performance de Kip, o cara está soltando a garganta como manda o bom figurino do Heavy Metal da época, e eu destaco aqui seus vocais em "Blind Revolution Mad" e "No Man's Land'. Já no baixo, o trabalho de faixas como "Junkyard Dog (Tears On Stone)" e "Like A Ritual" chamam a atenção pelo peso. E claro, Winger sem baladinha nao é Winger, e ela aparece através da lindinha "The Lucky One", que deve fazer muito casalzinho ainda se ronronear romanticamente, e nao tão empolgante assim "Who's The One", que eu acho a mais fraquinha de Pull. No mais, destaque total para "Spell I'm Under", musicaço com ótimos arranjos vocais, e uma audição de uma banda que sempre é legal redescobrir, apesar de não fazer parte do meu ambiente musical.

Marcelo: Nunca fui exatamente fã do Winger, mas Pull me pareceu um disco melhor do que a reputação da banda poderia sugerir para quem ficou preso apenas à imagem mais farofa dos rapazes nos anos 80. Kip Winger canta muito bem, isso é inegável, e o álbum soa mais pesado, mais maduro e menos glam do que eu esperava. “Blind Revolution Mad” abre muito bem o trabalho, “Down Incognito” tem um refrão daqueles que grudam sem pedir licença, e “The Lucky One” mostra que a banda sabia trabalhar melodias com competência. Ainda não me converte em fã, mas me fez ouvir o Winger com menos preconceito, o que, para uma recomendação, já é bastante coisa.

Marcello: O grupo que leva o nome de Kip Winger era outro que estava esquecido do meu lado, e pensava ter ouvido o disco nos anos 90; no final das contas, acho que só tinha escutado os dois primeiros álbuns deles, pois não reconheci nenhuma música ao colocar Pull pela primeira vez. A banda estava reduzida a um trio, trazendo Reb Beach nas guitarras e Rod Morgenstern na bateria, e no álbum explora um som mais hard e menos glam do que nos discos anteriores. “Blind Revolution Mad” abre (bem) o álbum com uma música bem trabalhada e com boa variação de ritmos. Uma harmônica (inesperada) inicia “Down Incognito” com seu refrão feito para ser berrado ao vivo; uma das melhores músicas do disco, em minha opinião. “Spell I’m Under” é mais leve e mais baladeira, com belo desempenho vocal do chefe da banda; não compromete, mas também não chega a se destacar, apesar do belo solo de Beach. “In My Veins” reintroduz o peso no disco, e apresenta outro bom solo do guitarrista. “Junkyard Dog” remete à abertura, por ter trechos mais suaves, com violões no arranjo. “The Lucky One” é outra das melhores, para mim, uma quase balada muito bem trabalhada, mais uma vez com arranjo incluindo violões, ao passo que “In for the Kill” traz um órgão proeminente na introdução que, infelizmente acaba ficando muito baixo em boa parte da música. “No Man’s Land” não me chamou a atenção em nenhuma das audições, soando como a banda em piloto automático, enquanto “Like a Ritual” (com outro bom desempenho vocal de Kip e um solo de bateria para encerramento) e “Who’s the One” (mais uma música lentinha levada no violão) encerram o disco em nível elevado. Pull é um bom disco, que me agradou mais do que os dois primeiros, mas não me converte em fã do Winger.

 

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...