quinta-feira, 1 de outubro de 2026

50 Anos de Crystal Ball


Conforme prometido, apresento hoje a história de Crystal Ball. Mas por que o sexto álbum dos estadunidenses merece um texto aqui no site? Bom, por que ao meu ver, ele foi fundamental para direcionar o Styx para novos caminhos sonoros que fizeram da banda uma maiores de sua geração, além de influenciar nomes como Boston, Journey, Kansas, entre outros, praticamente criando o rock de arena, mas, principalmente, revelar ao mundo o talento de Tommy Shaw.

Voltando no tempo, o ano é 1975. O Styx estava lutando na estrada desde 1970, em uma gravadora pequena (a Wooden Knickel, a qual chegou a apelidar os caras durante este período) e com apenas um sucesso em sua carreira, "Lady", de Styx II (1972). A formação do grupo à época era Dennis DeYoung (teclados, vocais, piano), James JY Young (guitarra, vocais), John Curulewski (guitarras), John Pannozzo (bateria) e Chuck Pannozzo (baixo), e após o lançamento de Equinox, no primeiro dia de dezembro de 1975, o quinto disco da banda, Curulewski decidiu que ia seguir outros caminhos musicais.
A formação inicial do Styx: James JY Young, Dennis DeYoung,
John Curulewski, John Panozzo e Chuck Panozzo

Este era o primeiro disco do grupo com uma grande gravadora, a A&M. Porém, Curulewski sentia-se com dúvidas no novo contrato, chegando a afirmar que "está acontecendo a mesma merda com a A&M que aconteceu com a Wooden Nickel. Não estão investindo na gente, não estão fazendo divulgação, não estão nos dando os bons horários de turnê". Ao mesmo tempo, Frampton Comes Alive!, de Peter Frampton, chegou às lojas também lançado pela A&M, e seu lançamento só piorou as coisas, pois afinal, o disco ao vivo do guitarrista estourou inesperadamente, e assim, o Styx passou a não receber a atenção da A&M.

DeYoung também estava insatisfeito com a forma como Equinox foi divulgado. “Eis o que aconteceu: ele parou nas paradas na posição 60 e não chegou a disco de ouro. Originalmente vendeu cerca de 350 mil cópias. Foi, mais uma vez, uma falha da gravadora... eles deixaram Equinox cair.” Disse DeYoung para o jornalista Sterling Whitaker, em 2007. Sobre Comes Alive!, DeYoung complementa: “Aquilo afetou todo o mercado da música, porque aquele álbum mostrou aos executivos das gravadoras que era possível vender milhões de álbuns para os jovens sem precisar de singles de sucesso. Em certo sentido, a A&M, para nós naquela época, virou uma gravadora pequena e sem distribuição, porque o Frampton estava em todo lugar e Equinox foi jogado pra escanteio.”

Com um temperamento difícil, acusado de não ser uma pessoa positiva, sempre infeliz, e que não se relacionava bem fora dos palcos, levando o apelido de "rebelde", chegou ao ponto de que nenhum dos outro quatro membros do Styx queriam dividir quarto de hotel com Curulewski. Cabia ao tour manager Jim Vose ser o responsável por acolher e acompanhar Curulewski. Nas palavras de Vose: “Eu sempre me certificava de ficar com ele pra tentar ser pacificador e intermediário. Ele era um pouco mais radical, uma pessoa muito criativa, mas com algumas ideias diferentes. Ninguém se dava bem com ele”.

O styx à época de Equinox: Dennis DeYoung, James JY Young,
John Curulewski, Chuck Panozzo e John Panozzo

Para piorar a situação, depois de ter sido considerado um compositor importante para o Styx - afinal, ele co-escreveu "Lady" - , Curulewski teve apenas um crédito completo ("Prelude 12") e dois co-créditos ("Born for Adventure" e "Mother Dear") em Equinox, fazendo-o realmente sentir-se incomodado com o comportamento dos demais colegas. Vose estava lá no derradeiro dia do guitarrista na banda, 6 de dezembro de 1975, menos de uma semana pós-lançamento de Equinox. Com problemas de saúde e decepcionado com o comportamento autoritário de DeYoung, Curulewski pediu as contas após um show, no qual houve uma grande discussão entre ele e DeYoung. Curulewski estava com laringite e tentou cancelar a apresentação dentro dos camarins, enquanto 12000 fãs aguardavam o Styx. Ele fez o show abaixo de remédios, mas ao final, DeYoung disse a Curulewski: "Eu nunca mais quero subir no palco com você", ao que ele respondeu: "Ok, então eu peço demissão", e foi cuidar de si e de sua família.

O temperamento forte de Curulewski já havia o feito a pedir demissão outras vezes, mas dessa vez os colegas de banda levaram a sério. Voltando ao depoimento de Vose: "DeYoung basicamente me perguntou o que eu achava, depois se virou e disse ‘Some daqui’, e os outros apoiaram. Naquela época eles não tinham escolha. DeYoung sempre teve o poder". Por fim, a presença de Derek Sutton como novo empresário do grupo foi a gota d'água para encerrar de vez as contribuições de Curulewski com o Styx. Foi ele quem colocou a pá de cal, afirmando que "a gente troca ele" e pronto, pois julgava que o Styx ainda não tinham tido nenhum sucesso de verdade. Curulewski tornou-se professor de música em Chicago, tocando eventualmente em algumas bandas, vindo a falecer em 13 de fevereiro de 1988, vítima de aneurisma cerebral, aos 37 anos.

Com uma turnê nacional prestes a começar, o Styx não tinha muito tempo para achar um substituto, e então, surge o nome de Tommy Shaw. Nascido no Alabama, em Montgomery, Tommy deixou a pequena cidade ao se formar no ensino médio, para buscar sucesso no mundo da música. Ele passou por grupos como o The Smoke Ring e o MSFunk, onde tocou por três anos. O MSFunk era empresariado por pessoas de Chicago, e numa das apresentações do grupo na cidade, Shaw foi visto pelo pessoal do Styx.

Com o término da MSFunk, Shaw voltou para Montgomery, indo tocar no Harvest, mas logo recebeu a ligação de Jim Vose e o convite para fazer audição para o Styx. Shaw disse: "Eu peguei o avião e fui pra lá no dia seguinte, e eles nem me pediram para tocar guitarra. A guitarra nem saiu do case". Assim que o Styx ouviu a fita demo de Shaw e ele provou que conseguia cantar a harmonia aguda em "Lady", ele foi contratado, no dia 12 de dezembro de 1975.

A nova formação do Styx: Dennis DeYoung, Chuck Panozzo, James JY Young,
Tommy Shaw e John Panozzo

O grupo caiu na estrada com a nova formação, com Shaw fazendo sua estreia em 16 de dezembro (quatro dias após ser contratado), no Municipal Auditorium de Zanesville, Ohio. Agora, o Styx tinha um novo compositor, vocalista e guitarrista. Shaw caiu como uma luva para as ideias musicais de DeYoung, e além disso, também era capaz de dividir solos de guitarra com JY sem a timidez de Curulewski, o que era outro fator que incomodava bastante os colegas, pois o antigo guitarrista quase nunca colocava-se à frente do palco para solar, devido a uma espécie de complexo de inferioridade, e sim, muita timidez. Na estrada, passam a escrever as canções do sexto álbum, o qual chegou às lojas no primeiro dia de outubro de 1976.

E Shaw chegou chegando. Cinco das sete faixas do LP trazem sua mão na escrita, começando com a excelente "Put Me On" (obra composta à seis mãos, entre Shaw, JY e DeYoung) e que é uma exaltação as audições de um vinil, e ao mesmo tempo uma das melhores canções da banda. A devastadora introdução dos teclados, com o riff das guitarras e do baixo, é daqueles momentos eternos na carreira de uma banda, com DeYoung mandando ver no virtuosismo. Grandiosa, a introdução traz os vocais de Shaw, JY e DeYoung: "Put me on I'm your brand new record album / Side one, cut one listen to the songs / Play me loud don't you worry 'bout  your neighbours / Hope I make you feel good all day long / All day long" ("Me coloca pra tocar, eu sou seu álbum novo em folha / Lado A, faixa 1, escuta as músicas / Toca alto, não se preocupa com os vizinhos / Espero te fazer se sentir bem o dia todo / O dia todo"). Cara, que coisa sensacional. Quem nunca teve a vontade (e acabou fazendo) de colocar o vinil novinho na agulha, primeira faixa no talo, sem se importar com os vizinhos, e sair pulando pela casa, ouvindo o disco o dia inteiro??

E o mais foda é que "Put Me On" é uma paulada, pesadíssima. Cantada pelo vocal debochado de JY, a canção segue aclamando o vinil como o melhor amigo de um fã: "Put me on and play me loud / I'm the madman screaming in your living room / I'll soon be coming to your town / To sing and play a little tune / I said put me on and play me loud / Turn your stereo up all the way / All the way / Now your body's immersed in sound / So hear the synthesizers play" ("Me coloca pra tocar e toca alto / Eu sou o louco gritando na sua sala de estar / Em breve estarei chegando na sua cidade / Para cantar e tocar uma musiquinha / Eu disse me coloca pra tocar e toca alto / Aumente seu som no máximo / No máximo / Agora seu corpo está imerso no som / Então ouça os sintetizadores tocarem").

Styx, prontos para se tornarem uma das maiores bandas dos EUA

Não sou de colocar letras nos meus textos, mas "Put Me On" merece o destaque por que a letra é sensacional. Simples, direta, falando exatamente o que um fã faz ao ouvir um vinil. Após JY dizer para "ouvir os sintetizadores", DeYoung surge solando alucinadamente com os sintetizadores, levando para o magnífico solo de JY, com notas velozes e muito peso. A canção muda, e num clima quase Yes, camadas de sintetizadores trazem a voz aguda de DeYoung para cantar a última estrofe, acompanhado por violões e o leve andamento de baixo e bateria: "And now you're in the mood / Let the melody just drift your cares away / It's got to do you good / As it mesmerizes you in it's own way / So drift away" ("E agora você está no clima / Deixe a melodia levar suas preocupações embora / Ela tem que te fazer bem / Enquanto te hipnotiza do jeito dela / Então vá se deixando levar"). As vocalizações do grupo, os harmônicos de guitarra, o andamento suave, tudo leva a canção para aqueles momentos etereanos, voltando repentinamente para o riff pegado que encerra de vez uma das melhores faixas de abertura de todos os tempos.

Compacto de "Mademoiselle"
A segunda faixa nos apresenta a voz de Shaw, através de "Mademoiselle", canção cujo single atingiu Top-40 das paradas. Ela lembra muito o Queen de A Night At the Opera e A Day At the Races, com o baixão de Chuck fazendo a introdução, o riff das guitarras gêmeas e as vocalizações esganiçantes. O andamento dançante, com a guitarra e o baixo serpenteando os vocais de Shaw, além dos backing vocals agudos - puro suco de Queen - nos colocam fácil, na verdade, em qualquer álbum da trupe de Freddie Mercury nos anos 70.
Compacto de "Jennifer"

DeYoung volta aos vocais na excepcional "Jennifer", rockzão setentista comandado por piano elétrico e violões, além de uma guitarra carregada de distorções, onde o refrão é demolidor. Mais uma canção pesada, enaltecendo as belezas da menina de 17 anos, cujo amor é tão convidativo e excitante (hoje, com certeza seria uma faixa cancelada nas redes). O solo de JY, repleto de efeitos e alavancadas, e os vocais do refrão, assim como o peso das guitarras, são as grandes atrações de uma faixa poderosa e esplêndida, que encerra-se em um climão prog, cheia de sintetizadores. 

Compacto de "Crystal Ball"

Quando mal percebemos, o lado A se conclui com a faixa-título. Os violões fazem um dos dedilhados mais emblemáticos da carreira do Styx, trazendo o doce vocal de Shaw para mais uma canção brilhante. O longo trecho aos violões segue por duas estrofes que conta sobre o personagem central, que costumava andar na linha mas agora sente-se sozinho e confuso, levando ao refrão onde ele sofre e implora à bola de cristal o que fazer, explodindo num riff mais que pesado, com um espetáculo de vocalizações e o magnífico solo de moog por DeYoung. Que faixa linda e espetacular, e tem em seu final, repetindo o refrão apenas com a voz de Shaw e as guitarras detonado ao fundo, o seu ápice. Arrepiante, não à toa, "Crystal Ball" tornou-se uma das mais tocadas nas apresentações do Styx a partir de então, e um símbolo da era Shaw.


O lado B abre com "Shooz", rockaço feito por JY e Shaw, começando com o estalar de dedos e a voz de Shaw, trazendo o riff de slide feito por Shaw, que solta a garganta em uma hardão estadunidense ótimo, com pitadas southern, e ótimas vocalizações enaltecendo as diversões no fim de semana pelas ruas de Chicago. Seguimos com "This Old Man", linda canção de DeYoung em homenagem ao pai, o trabalhador de uma fábrica de luz durante trinta anos, e que ensinou ao filhou que mostrar o amor deve ser simples, e não se pode esconder os sentimentos. O riff das guitarras gêmeas logo de início já emociona, e a interpretação de DeYoung, sobre os violões de Shaw e JY, é tocante. O refrão certamente faz arrancar lágrimas dos ouvintes mais sensíveis, com os vocais entoando a melodia das guitarras gêmeas, e a marcante presença do hammond de DeYoung. No solo, com o hammond sendo o centro das atenções junto das guitarras, temos um momento mais roqueiro, mas no geral, "This Old Man" é mais uma lindíssima canção da carreira dos caras.

Por fim, como de costume nos álbuns do Styx até então, uma mistura de uma peça clássica com uma composição da banda. Aqui, temos "Clair de Lune", de Claude Debussy, apenas com DeYoung ao piano, introduzindo "Ballerina, uma paulada fenomenal que surge com a voz de DeYoung e o piano alternando bruscamente o tom de "Clair de Lune", de forma mais agressiva. Após a primeira estrofe, entra o hammond acompanhando a voz de DeYoung falando sobre seu encantamento pela bailarina. A banda então passa a acompanhar os vocais, e "Ballerina" ganha ritmo.

Um belo trecho com o dedilhado das guitarras, traz um curto solo de JY, para mais uma breve participação de DeYoung aos vocais, explodindo nos imortais "lá-lá-lás" e "o-o-os" do refrão que grudam em nossa mente. Que momento! A partir daqui é só curtir e ficar cantando junto da banda, enquanto Shaw e JY solam acompanhando os vocais de DeYoung. Fantástico, fechando esplendidamente um disco esplêndido.

O encarte de Crystal Ball traz mini-biografias de cada um dos músicos. Trago os textos para cada músico.

As mini-biografias no encarte do vinil ...

Dennis

O Styx mitológico era descrito como um rio de fogo que separava o Purgatório do Inferno. O objetivo do Styx musical tem sido acender um fogo finamente controlado no estúdio e, em seguida, deixá-lo enfurecer-se violentamente pelas salas de concerto em apresentações ao vivo. Ao traçar essa chama até sua origem, descobrimos que as primeiras faíscas emanaram do tecladista Dennis De Young, que apropriadamente incorpora esse calor intenso em temperamento e talento. Poucos tinham a disposição para lutar e escapar da turbulenta Comunidade Pullman de Chicago, na Zona Sul, e passaram a se tornar alguém de destaque. De Young participou do campo de batalha local com determinação, de modo que, quando descobriu os teclados por volta dos 16 anos, já estava suficientemente fortalecido para a batalha de dez anos que tinha pela frente. Ao longo desse período, De Young desempenhou o duplo papel de combustível e chama — ele exala o tipo de energia que pode guiar um grupo de cinco pessoas pelos momentos mais difíceis, e exibe continuamente o tipo de habilidade musical que torna o estrelato possível. É assim que Dennis encara tudo — se ele define uma meta pessoal, ela se torna realidade. Apesar de sua presença de palco tempestuosa, Dennis está obstinadamente determinado a estar no controle de si mesmo, de sua carreira e do destino do Styx — e suas canções são a razão principal para o sucesso do Styx até este momento. Seus esforços cooperativos com James Young abriram novos horizontes musicais, e a recente adição de Tommy Shaw já proporcionou mais um estímulo musical aos talentos de Dennis para composição e performance.

Chuck e John

Os irmãos gêmeos Chuck e John Panozzo nasceram com apenas 90 minutos de diferença, mas não poderia haver maior contraste entre os dois. O baterista John é o impaciente que dita o ritmo, revelando uma energia bruta interior que está perpetuamente em busca de uma fuga. Ele é alto e ostenta um cabelo afro volumoso, um tipo um tanto intimidador. Chuck é um pouco menos imponente no comportamento e na aparência, mas sua quase imobilidade no palco carrega seu próprio tipo de ameaça, e suas avaliações mais calmas equilibram a impaciência de seu irmão. Mas independentemente de quem tenha começado, essa dupla incomum de gêmeos tem fornecido o ritmo para o Styx e seus projetos anteriores desde o início. É talvez a telepatia que une o baixo e a bateria do Styx na base musical sólida em que os outros membros do grupo confiam e a partir da qual constroem. Os garotos Panozzo cresceram logo na mesma rua de Dennis, mas os três não se conheceram até que a música lhes deu um terreno comum. Na verdade, é mais preciso chamar os Panozzo de "fundadores" do Styx, porque Dennis originalmente se juntou à banda de garagem deles. Chuck e John têm um orgulho intenso de suas contribuições criativas, tanto no estúdio quanto no palco. A abordagem deles em relação aos seus papéis musicais é uma das características pessoais que compartilham — os dois Panozzo dedicam HORAS INTERMINÁVEIS de prática. John encontra uma fuga do trabalho árduo da música produzindo filmes caseiros sobre o Styx. Chuck é confiante ao trabalho de coordenar a arte dos álbuns e é o árbitro final de bom gosto do Styx. Ambos consideram a produção de filmes como parte de seus planos de longo prazo e, em algum momento, farão uma tentativa séria de cronicar as aventuras do Styx.

... e na capa interna da edição gatefold francesa

JY

Se Dennis De Young é a fera que encontra libertação através do romantismo, então James Young (chamado de "J. Y." pela banda) é o romântico que se torna um monstro na performance. Fora dos palcos, J. Y. desempenha o papel de analista cuidadoso, um homem que adota uma abordagem minuciosa nos negócios da música e em suas idiossincrasias decorrentes. Seu pragmatismo é um trunfo inestimável para o Styx, servindo para equilibrar o temperamento explosivo dos outros hiperativos integrantes do Styx. Ele vem da Comunidade Roseland, que fica adjacente à área de Pullman de onde vêm De Young e os Irmãos Panozzo. Ele se juntou ao trio cerca de seis meses antes de gravarem pela primeira vez e foi o seu trabalho eletrizante na guitarra que originalmente chamou a atenção das gravadoras quando o Styx tocava no circuito de clubes de Chicago. Suas feições marcantes e sua altura de 1,88m o tornam uma figura imponente no palco. Lá, ele deixa de lado sua abordagem geralmente pragmática das coisas e se torna totalmente desinibido. J.Y. sempre foi o Rock 'n Roller do grupo, como mostram suas canções, mas sua presença de palco rosnante e provocadora e sua guitarra selvagem finalmente encontraram um contraponto no sensual lirismo sulista de Tommy Shaw.

Shaw

Caramba, Tommy Shaw. Boas-vindas ao mais novo integrante do Styx, que expandiu o elenco totalmente de Chicago do grupo ao se juntar a eles após a conclusão do álbum anterior, Equinox. Tommy é nativo do interior do Alabama. Sua presença foi sentida imediatamente pelo Styx quando ele saiu em turnê com eles apenas alguns dias após o primeiro ensaio. Tom estava bem preparado para isso, no entanto, tendo dedicado 18 de seus 23 anos à guitarra, trabalhando continuamente, esperando pacientemente por sua oportunidade. Seu impacto foi aparente no palco imediatamente, adicionando uma dimensão revigorante à performance ao vivo do Styx. Ele é um forte comunicador no palco, apesar de suas proporções físicas miúdas, que contrastam com a altura imponente de J. Y. Seu desejo de vencer é algo compartilhado com o resto da banda, e seu talento será um trunfo inestimável para o Styx. De qualquer forma, seus companheiros consideram sua adição ao grupo como a melhor coisa que aconteceu desde que J. Y. se juntou ao grupo 5 anos atrás. Durante seus anos em bandas de circuito de clubes que trabalhavam duro, mais notavelmente a M. S. Funk, Tommy acumulou uma grande quantidade de material. Ao verificar os créditos deste álbum, você notará que ele não perdeu tempo em dar sua contribuição à música do Styx. O grupo demonstrou sua fé no recém-chegado ao dar ao álbum o título de uma música totalmente escrita e cantada por Tommy. As contribuições de Tommy — tanto no estúdio quanto no palco — garantirão um crescimento contínuo para o Styx, fornecendo outro estilo musical e uma abordagem diferente da vida. Seu dinamismo impulsionará o grupo ainda mais em direção à perfeição musical e ao estilo mais individual que eles sempre buscaram.

Com estas credencias, o Styx entrava em uma nova fase. Crystal Ball não teve uma recepção muito boa de início, alcançando apenas a posição 66 na Billboard, a mais baixa de um lançamento do Styx pela A&M. Mas também, o que veio na sequência foram absurdos de vendas. Porém, com o passar dos tempos, Crystal Ball subiu nas vendas, alcançando ouro no Canadá (50 mil cópias) e Estados Unidos (500 mil cópias). A partir daqui, o Styx só iria crescer nos Estados Unidos. The Grand Illusion (1977, 6 milhões de cópias no mundo, sendo 3 milhões apenas nos EUA), Pieces of Eight (1978, 5 milhões em escala mundial, sendo 3 milhões nos Estados Unidos), Cornerstone (1979, 4 milhões em nivel mundial, com metade disso somente nos Estados Unidos) e Paradise Theater (1981, único primeiro lugar nos Estados Unidos, vendendo quase 4 milhões de cópias) colocaram a banda no topo das paradas e vendas, fazendo-a uma das maiores de sua geração. Encerro então as duas homenagens aos álbuns aniversariantes do Styx dizendo simplesmente: ouça!

Contra-capa do vinil

Track listing


1. Put Me On


2. Mademoiselle


3. Jennifer


4. Crystal Ball


5. Shooz


6. This Old Man


7. Clair de Lune / Ballerina

sábado, 26 de setembro de 2026

A Young Person's Guide To: Caetano Veloso As Guest (Part II)



A segunda "coletânea" apresentando Caetano como convidado, agora traz a presença do baiano em álbuns ou canções ao lado de mulheres. É curiosa a relação de Caetano com artistas femininas, pois até 1980, ele só havia participado de gravações ao lado ou de Gal Costa ou da irmã Maria Bethânia, com uma rara participação no álbum Os Meus Amigos São Um Barato, cantando Odara" junto da dona do álbum, Nara Leão, em 1977, o qual marcou o retorno de Nara aos lançamentos regulares depois de algum tempo. 

Porém, a partir de 1980, Caetano expandiu seus horizontes musicais ao lado de mulheres, gravando ora composições suas, ora regravações, ora canções inéditas. As 14 participações que listo abaixo, conforme citado na primeira parte, são todas canções que nunca haviam sido lançadas - até então - em álbuns oficiais de Caetano, mas destaco que além delas, você encontrará a voz do mano Caetano nos seguintes discos de artistas femininos (marcas com * estão presentes no CD de extras das caixas 40 Anos Caetanos, Vol. 3 e Vol. 4), lembrando que estes são os que tenho em coleção, e deve haver muito mais por aí:

Telma Costa* (Telma Costa), Xuxa (Xuxa e Seus Amigos), Margareth Menezes (Gente de Festa *, Para Gil e Caetano), Fiorella Manoia (Gente Comune), Vania Bastos (Cantando Caetano), Cesaria Evora (São Vicente de Longe), Negra Li* (Negra Livre), Belô Velloso (Belô Velloso), Elba Ramalho (São João Carioca), Maria Dolores Pradera (Caminemos), Mercedes Sosa (Cantora), Hebe Camargo (Hebe Camargo & Convidados), Roberta Spindel (Dentro do Meu Olhar), Maria Odette* (Maria Odette), Dona Ivone Lara (Casa de Samba 1), Gil (Casa de Samba 3)

O Lado A tem sete canções ao lado de cantoras brasileiras, enquanto o Lado B fica com cinco cantoras internacionais e duas brasileiras (uma delas com Caetano cantando em inglês). No próximo mês, trago a participação de Caetano em discos de bandas, assim como gravações ao lado de Bethânia e Gal. 

Lado A

1. "Nosso Estranho Amor": Marina - Olhos Felizes [1980]

Um dos maiores sucessos da carreira de Caetano, em termos de composição, "Nosso Estranho Amor" foi gravada pela primeira vez no segundo álbum de Marina (futura Lima). Este blues conduzido por piano e guitarra, no qual Caetano expõe seus problemas de relacionamento com a esposa na época, Dedé Gadelha, tem a participação do compositor cantando o imortal refrão "ah mainha, deixa o ciúme chegar, deixa o ciúme passar e sigamos juntos". Enquanto Marina declama a letra blueseira e apaixonada, Caetano surge com vocalizações ao fundo, e soltando a voz no refrão. Emblemática, atemporal e com um timaço de banda de apoio (Helvius Vilela, do Tempo Trio, no baixo, Pedrinho Batera, do Som Nosso de Cada Dia, na bateria, Paulo Rafael do Ave Sangria, nas guitarras, e Paulo Barros no baixo), um magistral solo de guitarra, música fundamental para abrir esta "coletânea".

2. "Mansidão": Jane Duboc - Jane Duboc [1982]

Quem ouve Depois do Fim, o incrível álbum que a Bacamarte lançou em 1983, e se encanta com a voz de Jane Duboc, se quer imagina que o disco foi gravado quando ela ainda não possuía uma carreira oficial. Ao longo dos anos 70, e início dos anos 80, Jane foi voz ativa nos backing vocals de artistas como Roberto Carlos, Chico Buarque, Tavito e, Caetano Veloso, fazendo parte do grupo que registrou Outras Palavras. A amizade entre os dois levou Caetano a contribuir no segundo disco solo de Jane, contando que o primeiro "oficial" foi lançado carregando o sobrenome do então marido Gay Vaquer, sob a alcunha de Jane Vaquer, e ao lado de José Tobias, em 1977. Somente em 1980 ela lançou o primeiro disco com o nome Jane Duboc, no caso Languidez, criando assim "Mansidão", uma linda bossa nova que surge com o violão e a voz de Caetano, seguido pelo piano e a voz de Jane. Um belo contraste entre os instrumentos e as vozes, serpenteados por um belíssimo baixo acústico. A voz de Jane se sobressai na maior parte do tempo, mas o violão e a voz de Caetano se fazem presentes, ajudando a nos revelar a amplitude cultural de uma das maiores intérpretes de nosso país.

Com Joyce

3. "Samba da Benção": Joyce - Negro Demais No Coração [1988]

Joyce Silveira Moreno foi apadrinhada por Vinícius de Moraes, destacando-se como cantora, instrumentista e compositora, o que a levou a se tornar a Menina dos Olhos da Bossa Nova durante a década de 70. Nos anos 80, depois de uma série de discos de pouco sucesso, Joyce resolveu regravar composições do padrinho no álbum Negro Demais No Coração. E coube a Caetano emprestar sua voz para abrir o disco com a atemporal "Samba da Benção" (com a frase que batiza o álbum), de Vinícius e Baden Powell. Joyce esbanja graça na sua voz e no violão, e quando Caetano passa a cantar, é um complemento gigantesco para algo que se transforma em uma jam maravilhosa, inserindo músicas incidentais ("O Samba da Minha Terra", "O Que Que A Baiana Tem", "Requebra Que Eu Dou Um Doce", "Aquarela Do Brasil" e "El Manisero") que fazem uma fusão sensacional do samba carioca de Vinícius com a malemolência do gingado baiano de Dorival Caymmi, através das vozes carioca e baiana de uma dupla sensacional, e por que não, genial!

4. "Cantar": Silvia Patricia - Silvia Patricia [1991]

Mais uma baiana na vida de Caetano, Silvia Patricia (hoje, Sylvia Patricia) veio ao mundo em uma família musical (para se ter ideia, seu avô é primo do pai de Alceu Valença). Falaria horas sobre o talento e a formação de Silvia, que é uma artista reconhecida internacionalmente, mas no Brasil, quase não se fala dela. Em 1988 lançou seu primeiro disco, inspiradíssima em Marina Lima. Com seu segundo disco, lançado em 1991, Silvia mergulhou naquele clima de canções sem tantos teclados e mais dançantes, no que foi chamado pela imprensa de "Pop urbano", e chamou Caetano para cantar "Cantar". uma faixa bastante linda e suave, levada pelos violões de Waltel Blanco e Chico Braga, onde a voz de Silvia está bastante delicada. Mas com certeza é Caetano quem dá o upgrade definitivo à faixa, ao entrar com sua voz igualmente delicada, mas cheia de manha. Os violões com um ar sertanejo, e o belo arranjo de cordas, dão um ar campeiro para a faixa que a torna ainda mais atrativa, e não à toa, levou-a a fazer parte da trilha de Pantanal.

5. "Onde O Rio É Mais Baiano": Alcione - Brasil De Oliveira Da Silva Do Samba [1994]

A parceria do baiano Caetano com a maranhense Alcione é de longa data. Em 1994, Marrom gravou "Onde O Rio É Mais Baiano", uma ode de Caetano à escola Estação Primeira da Mangueira. E quem melhor que a mangueirense raiz para entoar um sambaço de tirar o chapéu. Anunciado com honras, Caetano dá um show cantando seu samba, e claro, o vozeirão de Alcione preenche as caixas de som. O refrão no ritmo do Olodum, com ambos cantando juntos, enaltecendo que "A Mangueira é onde o Rio é mais baiano", é o momento mais forte de uma grande canção. Caetano regravou-a em Livro (1997), disco bastante influenciado pelas percussões do Olodum, e fez mais uma nova parceria com Marrom no clássico A Paixão Tem Memória (2004), com "Pedra de Responsa"*. Mas para mim, é "Onde O Rio é Mais Baiano" a melhor faixa que ele gravou com a Rainha do Samba.

Com a "Marrom" Alcione

6. "Noite Chuvosa": Ângela Maria - Amigos [1996]

Se na edição anterior trouxe para a coletânea a colaboração de Caetano com a magnífica voz de Nelson Gonçalves, não podia deixar de fora sua fundamental contribuição com a Sapoti Ângela Maria. Uma das maiores vozes de sua geração, Ângela também quis surfar na onda de gravar com artistas da nova geração, e em Amigos, chamou Caetano para interpretar "Noite Chuvosa", de Britinho. A dolorida canção ganhou um ar dramático através do piano de Eduardo Souza Neto e do violão de João Lyra. Caetano e Ângela alternam-se nas estrofes, dividindo o espaço igualitariamente, e o arranjo de cordas engrandece o samba-canção do pelotense João Adelino Brito, com uma magistral interpretação de Ângela. Para poucos, mas esses poucos sabem o que quero dizer.  

7. "Jeito Faceiro": Virgínia Rodrigues - Nós [2001]

Em 1997, a cantora baiana (mais uma) Virgínia Rodrigues surgiu ao mundo através de uma descoberta de Caetano, durante as gravações do já citado Livro. O vocal lírico e grave de Virgínia chocou os puristas da axé music, mas encantou aqueles que apreciam música clássica com inovações, levando o The Times de Londres a chamá-la de "nova diva da música brasileira", enquanto a imprensa estadunidense batizou-a de "Cinderela Brasileira". O que ela entrega em Nós, homenageando os blocos afro de Salvador, são encantadoras faixas com orquestras e violões, além de belos arranjos que fazem a negritude baiana do candomblé e da umbanda ser totalmente recriada musicalmente. E ainda tem a honra de dividir os vocais com quem a descobriu em "Jeito Faceiro", uma canção que parece saída das entranhas do Uakti, com um belo arranjo percussivo, e a voz delicada e singela de Caetano sendo um contraponto aos graves e potentes cânticos de Virginia. O dolorido violino que acompanha o vocal dos dois equilibra as diferenças vocais, e é impossível não se arrepiar com algo tão inovador, e ao mesmo tempo reflexivo. Você não precisa gostar de axé music, mas o que foi feito por Caetano e Virgínia aqui, é de altíssimo padrão!

Com Elza Soares

Lado B

1. "Sophisticated Lady": Elza Soares - Somos Todos Iguais [1985]

Depois de um período conturbado em sua vida, quando se separou de Garrincha, e viu o "gênio das pernas tortas" falecer, afastada da música e sem dinheiro para sustentar a si e ao filho Garrinchinha, Elza procurou Caetano desesperada pedindo ajuda. O baiano a acolheu, e a levou para gravar "Língua", em Velô (1984). A canção virou um sucesso nacional, e no ano seguinte, a Som Livre lançava Somos Todos Iguais, com Elza voltando ao mercado da música após cinco anos. Em um repertório variado, o jazz revisitado de "Sophisticated Lady" (Duke Ellington) é um êxtase musical, ainda mais conduzido pelo violão e a voz aveludada de Caetano, que canta em inglês, enquanto a voz áspera e cheia de potência de Elza (particularmente, ao vivo um dos shows mais impressionantes que eu vi) preenche as caixas de som. Infelizmente desconheço os músicos que acompanham Elza, mas o solo de saxofone, e a base do piano, junto ao violão de Caetano e um espetacular baixo acústico, é para ficar girando o uísque embriagado pelo álcool e pela leveza de uma brilhante canção.

2. "Olhos Castanhos": Eugenia Melo e Castro - Amor É Cego e Vê [1991]

A portuguesa Eugenia Melo e Castro fez sucesso no Brasil nos anos 80, graças a sua parceria com Kleiton Ramil e a capacidade de descobrir talentos de Wagner Tiso, que produziu os primeiros discos da cantora no país. Através de Tiso, Eugenia conheceu Caetano, que logo no segundo disco da portuguesa, entregou "Meu E Assim", presente também no terceiro álbum dela. No quarto, grava a faixa-título "Coração Imprevisto", e finalmente, em 1991, a dupla faz uma linda adaptação para "Olhos Castanhos", de Alves Coelho Filho. Apesar dos teclados modernosos e do andamento quadradão, o sotaque português delicadíssimo de Eugenia funciona perfeitamente com a voz manhosa de Caetano, que alternam-se nas estrofes de forma que um complementa o outro. Faixa para curtir sem pretensão alguma, e apenas absorver um pouco dos sempre bem-vindos ares lusitanos.

com Fiorella Manoia

3. "Il Culo Del Mondo": Fiorella Mannoia - Gente Comune [1994]

Em 1994, Caetano foi a Itália para gravar com Fiorella Manoia uma ótima versão para "O Cú Do Mundo" (lançada originalmente no excelente Circuladô, de 1991), intitulada "Il Culo del Mondo". A versão musicalmente é muito fiel ao original de Caetano, levada por um baixo estonteante, o violão marcante e uma percussão jamie muriana para fã de King Crimson não botar defeito. Ouvir Fiorella soltando seu vozeirão nas agressivas palavras da letra de Caetano, em italiano, dá um charme ainda maior para uma música naturalmente agressiva, na qual Caetano colabora cantando também em italiano, e refazendo o refrão em português. Os dois se encontraram 12 anos depois para regravar uma versão em italiano de "13 de Maio", gravada originalmente por Caetano no álbum Noites do Norte (2001). Ok, eu havia dito que não ia colocar regravações de Caetano na lista, mas como resistir a uma ruivinha xingando muito em italiano? 

4. "Mistério de Afrodite": Teresa Salgueiro - Brizzi do Brasil [2002]

Este é um caso curioso, pois o álbum é uma daquelas belas amostras do talento de um compositor (no caso Aldo Brizzi) que se apoia em ombros de gigantes para transformar suas ideias em arte. Com a presença de nomes como Gilberto Gil, Arnaldo Antunes, Tom Zé, entre outros, o compositor italiano chamou Caetano para duas canções, e uma delas esse delicado fado, ao lado da eterna voz do Madredeus Teresa Salgueiro. Caetano usa e abusa de vocalizações, fazendo intervenções cruciais, mas é Teresa o centro das atenções, dando uma aula - como sempre - de interpretação vocal. Com um instrumental apenas ao violão, baixo e uma tímida percussão, é no tocante sotaque português, que contracena divinamente com as participações cheias de dor de Caetano, entoando o nome de uma faixa belíssima, que ela tem que se fazer presente aqui. Pontual e para se embriagar acompanhado de um bom vinho português!

5. "Island of Wonder": Nelly Furtado - Folklore [2003]

A canadense Nelly Furtado fez sucesso em 2000 com o álbum Whoa, Nelly!. Com apenas 21 anos, a menina encantou o mundo com faixas como "I'm Like A Bird" e "Turn Off the Light", que levaram Nelly a vender mais de 7 milhões de discos ao redor do mundo, e seu som pop com elementos do trip hop. Em seu segundo álbum, a descendente de açorianos resolveu mudar totalmente a sonoridade. Batizado de Folklore, o disco imerge em sons voltados ao folk (como o nome diz), tendo como destaque a bela canção "Island of Wonder". Composta por Caetano, ela mistura algo do flamenco com pitadas do olodum, em um ritmo hipnotizante e tenso, que ganha um toque emotivo brilhante nas vozes de Nelly (cantando em inglês) e Caetano (cantando em português e inglês). O refrão desta canção é lindíssimo, e apesar dos scratches no meio da canção, as vozes de Nelly (arregaçadora) e Caetano carregam ela para status de grandiosa.

Com Lila Downs

6. "Burn it Blue": Lila Downs - Frida [2003]

Não necessariamente uma participação em um álbum de uma artista, mas sim (mais) uma parceria com uma cantora, "Burn it Blue" está presente na trilha sonora do filme Frida, na qual a mexicana Lila Downs é responsável pela voz de cinco faixas. Dentre elas, este espetáculo sonoro que encerra o álbum, e que foi indicado ao Oscar de Melhor Canção Original na 75ª edição do Academy Awards em 2003 - com apresentação da dupla Caetano e Lila em pleno palco do Oscar defendendo a canção, com orquestra e tudo - , do qual a trilha ganhou, mas a canção perdeu para "Lose Yourself", do Eminem, feita para o filme 8 Mile. Tendo tom dramático, ela é puxada pelo violão flamenco e uma das performances vocais mais lindas e incríveis de toda a carreira de Caetano, cantando em inglês. A presença de cordas dá ainda mais dramaticidade para a canção, que ganha contornos de ansiedade com a entrada da voz angustiada de Lila, contrapondo a voz de Caetano. O duelo vocal dos dois, ele em inglês, ela em espanhol, é de se ajoelhar diante das caixas de som, e quando ela canta sozinha, caralho, é de arrepiar. Que música incrível, praticamente obscura na discografia do baiano, e com certeza, uma das grandes obras já registradas em toda sua carreira, seja solo, seja ao lado de outro artista.

7. "Pé Do Meu Samba": Mart'nália - Ao Vivo [2004]

Fechando a coletânea, algo para irritar os leitores. Caetano sembre teve um pé no samba, e ao longo de sua carreira, compôs diversas canções no estilo. Uma de suas composições batizou o álbum de Mart'nália de 2003, que acabou sendo levado aos palcos e registrado em Ao Vivo (2004). Um lindo samba, onde o cavaquinho de Tavinho Menezes e a cuíca de Ovídio Brito fazem a base para uma interpretação magistral de Caetano. Seu dueto vocal com Mart'nália, ao longo do refrão, é fantástico, e claro, a voz cheia de marra e do sotaque carioca de Mart'nália dá um ar ainda mais agradável para esse sambaço. Os xiitas fãs de metal vão se ofender ao ver um samba por aqui, mas aos que têm mente aberta e apreciam boa música, independente do gênero, com certeza irão curtir essa faixa. 

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

25 Anos de Magnification


No dia 10 de setembro de 2001 (um dia antes do fatídico 11/09), o mundo do rock progressivo recebia aquele que se tornou o último álbum de estúdio do Yes com o vocalista Jon Anderson: Magnification. O 19° disco da banda - em termos de álbuns em estúdio - completa hoje, portanto, 25 anos, e é para mim um dos grandes discos dos já veteranos Anderson, Steve Howe (guitarra, vocais), Chris Squire (baixo, vocais) e Alan White (bateria, piano). Além disso, é o único em uma carreira de quase 60 anos, a ter apenas um quarteto na formação do grupo, graças ao ineditismo de gravar o disco ao lado da Orquestra Sinfônica de San Diego, com arranjos de Larry Groupé, que também conduziu a Orquestra. 

Yes durante a Masterworks Tour

Voltando no tempo, em 1999 o Yes lançava The Ladder. O álbum trouxe como novidade o tecladista russo Igor Khoroshev, que já havia excursionado com o grupo na turnê de Open Your Eyes (lançado em 1997, e que trouxe o grupo ao Brasil inclusive com um show inesquecível em Porto Alegre). A turnê de The Ladder, batizada Masterworks, durou três meses, passando por 31 cidades dos Estados Unidos. Nela, o Yes caprichou em resgatar suítes dos anos 70, incluindo no repertório "Close to the Edge", "The Gates of Dellirium" e "Ritual".

Porém, ela foi encerrada com polêmicas envolvendo o russo, o qual foi acusado de assédios sexual e moral com policiais femininas. Segundo elas, durante o show realizado em 22 de julho de 2000, na cidade de Hartford, ele se aproximou de uma delas, que fazia a segurança próximo à grade de proteção e tentou beijá-la à força. Como foi afastado, acabou por cravar os dentes no seu pescoço. Logo após o espetáculo avançou em outra policial, dizendo palavras de baixo calão e se afastando, não sem antes alisar as nádegas da mulher. Ele foi acusado de duas contravenções, sendo libertado com uma fiança de mil dólares. Khoroshev também possuía comportamento barulhento em hotéis, e assim, pouco depois do último show da turnê, realizado em Cincinatti no dia 04 de agosto de 2000, ele foi demitido. Sem um tecladista, Anderson, Howe, Squire e White começaram a pensar sobre o que fazer, e uma ideia que surgiu era a de tocar com uma orquestra no palco. Vamos às palavras de Howe na época de lançamento de Magnification: 

Igor e Jon em estúdio
Steve Howe durante a gravação
de Magnification

"Nos encontramos com um cara chamado Larry Groupé, que trabalha com a Orquestra Sinfônica de San Diego, e começamos a conversar com ele sobre esse projeto. Inicialmente ele estava muito empolgado em fazer as músicas antigas, para tocar todas as noites, e ele vai reger. Nós vamos sair em turnê, e ele vai reger uma orquestra diferente em cidades diferentes, tocando a partitura dele do Yes enquanto nós tocamos. Me pareceu que, já que estávamos procurando uma orquestra em parte para substituir um tecladista, um dia sugeri, por que não fazemos isso com o disco; em vez de ter um tecladista, por que não usamos instrumentos de verdade quando quisermos, se quisermos cordas, por que não ter cordas de verdade. Eu não levo todo o crédito por ter pensado na ideia de colocar a orquestra, ela meio que veio através de discussões, e eu meio que percebi que era uma opção; e quando eu apontei, os caras disseram, bem, é uma ideia muito boa." 

Anderson ficou surpreso que Squire e White concordaram, pois sentia que os dois sempre preferiam um som de rock mais pesado. Em janeiro de 2001, uma votação online foi publicada no site oficial do grupo perguntando se os fãs desejavam ver a próxima turnê com uma orquestra, e a resposta foi "SIM" (ou melhor, "YES"). Com a confirmação da turnê, em fevereiro a banda entra em estúdio para começar as gravações de Magnification, título escolhido pelo próprio Anderson. 

Larry Groupé e Chris Squire

O álbum abre com uma das melhores canções do disco, tendo o violão e a guitarra trazendo a orquestra para abrir a faixa-título. A marcante voz de Anderson surge, e "Magnification" vai ganhando força com as entradas das cordas, baixo e bateria, além de Anderson dividir os vocais com Squire. O refrão é pulsante, entoando o nome da canção, e a orquestra da um espetáculo a parte ao fundo. Além dela, Howe está impecável, e é impossível não cantar junto de Anderson o nome da canção, que abre o álbum lá em cima. 

"Spirit of Survival" traz um clima bastante sombrio para letras do Yes, levada peo violão de Howe e o baixo de Squire. Os vocais de Anderson são agressivos, e a participação da orquestra é igualmente agressiva. Além disso, o baixão Rickenbacker de Squire explode as caixas de som, em uma faixa muito diferente do que estamos acostumados a ouvir no Yes, e que acabou gerando uma série de teorias, pois no dia seguinte ao lançamento do álbum, ocorreu o famoso atentado das torres gêmeas. O álbum segue com "Don't Go", a canção mais comercial do disco, que se fez presente nos shows de divulgação do disco, e lembra algo na linha do que foi registrado na era Trevor Rabin. Confesso que acho ela a mais fraca do disco, e portanto, passo para a próxima. 

Steve Howe, Alan White, Jon Anderson e Chris Squire. Yes em 2000

"Give Love Each Day" surge com as orquestras em um clima de trilha sonora de filmes de ficção científica. A introdução orquestral é linda, nesta que é a terceira faixa mais longa do álbum, com quase 8 minutos. Após a presença de apenas orquestra por mais de dois minutos, entram guitarra, percussão e o baixo, o qual contracena com a voz de Anderson, em algo muito próximo à carreira solo de Anderson nos anos 70. Ótima faixa, com a orquestra dando um ganho sensacional para o instrumental criado pelo Yes. Impressionante como o vocal cristalino de Anderson brilha aqui, principalmente no belíssimo refrão. 

Squire faz os vocais principais da próxima canção, "Can You Imagine", a qual foi originalmente escrita para o supergrupo XYZ, que contava com Squire, White e Jimmy Page, e que chegou a gravar algumas canções demo em 1981. Aqui, com apenas três minutos de duração, ela ganha vida através do piano de White, cordas e o lap steel guitar de Howe, podendo tranquilamente ser uma faixa do aclamado Fish Out of Water. Chega então a vez de Howe brilhar ao violão na linda introdução de "We Agree". Quem que não curte as criações acústicas do velhinho, simples mas complexas de se tocar, e que se tornam arrepiantes com a presença de um oboé que conduz aos doces vocais de Anderson. Esta é uma canção que considero muito injustiçada, pois além de bela, e com a orquestra marcando presença, "We Agree" apresenta uma das melhores performances de Howe no violão dentro do Yes. Como é bom ouvir ele acompanhando os vocais de Anderson na virada central da canção, muito Yes, e muito, muito bom. 

Imagens no encarte de Magnification

Os vocais de Anderson e o violão de Howe dividem o espaço com flautas, harpa, violoncelo e violinos na bela "Soft as a Dove", outra linda faixa, que peca apenas por ser curta. Mas mesmo assim, com apenas 2 minutos, é de uma grandiosidade que somente gênios como Anderson e Howe conseguem criar, levando à longa "Dreamtime", uma faixa complexa, de 11 minutos, cuja introdução frenética ao violão, tendo um dramático violino solando, e a forte presença orquestral, nos coloca em uma espécie de ansiedade e curiosidade pelo que virá pela frente. 

A alternância de ritmos, instrumentos e a percussão que assola "Dreamtime" fazem dela uma mini-suíte que inicialmente causa um impacto estranho, do tipo "mas o que é isso que os caras fizeram?". Somente após várias audições que entendemos a complexidade magnifica dela, principalmente de como Howe e Squire alternam-se como o centro das atenções durante o trecho instrumental onde Howe sola ora ao violão, ora na guitarra, enquanto o Rickenbacker ressoa pelas caixas de som, e a orquestra, junto de White, comandam o ritmo numa espécie de locomotiva sem freios, cujo final é espetacular, um show orquestral sensacional, que encaminha para outra forte candidata a melhor do álbum. 

Ela é a mini-suíte "In The Presence Of", com suas quatro partes: "Deeper"; "Death of Ego"; "True Beginner" e "Turn Around And Remember". Com White ao piano, fazendo o riff inicial, entra então a voz de Anderson, embriagante, seguido do baixo de Squire, vocalizações e o mandolim de Howe. Orquestra, bateria e guitarra surgem na sequência, dando ritmo para "Deeper", a qual avança pelas caixas de som hipnotizando os ouvidos de uma forma singular, seja pelos vocais de Anderson, seja pelo arranjo orquestral, seja pela base vocal de Squire, seja pela guitarra de Howe.

Yes em show na Suécia, em 6 de novembro de 2001

A canção vai crescendo mais e mais, apresentando o primeiro solo de Howe, chegando então em "Death of Ego", agora com os violões mais presentes, além do lap steel guitar de Howe. Este trecho é tenso, e tem a orquestra em maior destaque na parte instrumental, além de Howe fazer seu segundo solo, abusando da lap steel. "True Beginner" então aparece com fortes vocalizações e marcações como só o Yes sabe fazer, e cara, que coisa magnífica é a harmonia vocal que os caras criam aqui. Finalmente, "Turn Around And Remember" encerra com baixo, lap steel e orquestra conduzindo a voz de Anderson falando "Turn around and remember that ...", alternando os fins de cada frase, e fechando com "Standing on sacred ground", para mais um belíssimo solo de Howe, naquilo que pode ser facilmente definido como uma Maravilha Prog. O álbum fecha com "Time is Time", pequena canção de apenas dois minutos, que serve como uma despedida digna de Anderson, lembrando a saudosa "We Have Heaven", de Fragile. 

A capa do álbum apresenta a arte criada por Bob Cesca, depois de quatro artes criadas pelo genial Roger Dean. Ela traz o logo criado por Dean criou em 1972, que não agradou a Howe, que afirmou que "é uma imagem sem brilho, sem graça e sombria que não fez nada além de decepcionar os fãs e a mim." 

O EP YesSymphonic, com canções que acabaram
saindo em lançamentos com extras

Entre 2001 e 2004, saíram relançamentos do álbum, trazendo como bônus um CD com faixas ao vivo inéditas, registradas nas turnês Masterworks (ainda com Khoroshev nos teclados) e na turnê promocional de Magnification (que falarei a seguir). Aos completistas, vamos para as edições, com as respectivas canções bônus gravadas ao vivo:

- Edição dupla com CD-Rom: "Deeper (In The Presence Of)"; "Gates Of Delirium" e "Magnification", além de entrevista com Jon Anderson, o clipe de "Don't Go" e o vídeo de "Gates Of Delirium" ao vivo;

- Edição dupla normal: "Ritual-Nous Sommes Du Soleil" (com Igor Khoroshev) e "Long Distance Runaround";

- Edição dupla normal: "Close To The Edge" (com Igor Khoroshev) e "Long Distance Runaround"; 

- Edição dupla normal: "Gates Of Delirium" (com Igor Khoroshev) e "Long Distance Runaround";

- Edição dupla normal: "Long Distance Runaround", "Don't Go" e "Magnification";

- Edição dupla normal: "Gates Of Delirium", "Starship Trooper", "And You & I" e "In The Presence Of";

Steve Howe e Tom Brislin,
em ensaio para a Symphonic Tour

- Edição dupla normal: "Close To The Edge", "Long Distance Runaround" e "Gates Of Delirium / Soon";

A turnê de promoção de Magnification foi - como quase toda turnê do Yes - audaciosa, com a banda tendo no palco a companhia de uma orquestra e o tecladista estadunidense Tom Brislin (futuro Camel, Renaissance, Kansas, entre outros). 

Ela foi batizada de Symphonic Tour, e o show em Amsterdam, no Heineken Music Hall, em 22 de novembro de 2001, acabou sendo registrado no CD, DVD e LP Symphonic Live, um dos grandes ao vivos da banda. Felizmente, no track list há três faixas ("Magnification", "Don't Go" e "In The Presence Of") do aniversariante de hoje, deixando para a posteridade o brilhantismo ao vio daquilo que o Yes criou há 25 anos em estúdio, em um de seus melhores trabalhos. Ouça sem medo!

Contra-capa de Magnification

Track list

1. Magnification

2. Spirit Of Survival

3. Don't Go

4. Give Love Each Day

5. Can You Imagine

6.We Agree

7. Soft As A Dove

8. Dreamtime

9. In The Presence Of

10. Time Is Time

sábado, 29 de agosto de 2026

Syrius - Széttört Álmok [1976]


*as fotos estão sem legenda, principalmente pela dificuldade de identificar ano e alguns músicos

Um dos mais importantes grupos da música húngara e que é muito desconhecido no resto do mundo é o Syrius. Com uma sonoridade muito particular, o Syrius se destacou na década de 70 do outro lado da Cortina de Ferro, e conquistou fãs por países como Polônia, Bulgária, Iugoslávia, URSS e Tchecoslováquia, além de terem feito sucesso na Austrália, tocando um jazz rock inspirado no progressivo e com elementos do blues. Já contei a história da banda neste post, e venho hoje trazer aqui a história e as músicas que envolvem o segundo disco do grupo.

Indo direto ao assunto, após a estreia dos húngaros, Az Ördög Álarcosbálja, lançado em 1972 na Hungria, enquanto em 1971, foi lançado sob o nome Syrius na Austrália, onde o grupo havia passado uma temporada, a banda fez uma série de concertos pela Hungria, participando também de festivais, onde foram eleitos o melhor grupo no Ljubjlana Jazz Festival daquele ano. A formação clássica do grupo contava com o líder e fundador Zsolt Baronits no saxofone tenor, Jackie Miklós Orszáczky no vocal e baixo, Mihály Ráduly na flauta e saxofone, László Pataki nos teclados, András Veszelinov na bateria, além de Tibor Tátrai na guitarra. O atemporal álbum é um dos melhores discos da história, e “É algo incrivelmente bem pensado, organizado, musicalmente refletido e que forma uma unidade do começo ao fim. Você não consegue tirar uma faixa e dizer: ‘isso é o Syrius’. Não é. O álbum inteiro é a maior e mais decisiva parte da obra do Syrius”, afirma o músico húngaro János Bródy. Porém, o grupo acabou se dissolvendo no final de 1973, com Ráduly indo morar nos Estados Unidos e Jackie voltando para a Austrália, onde formou o grupo experimental Bakery (esse merece um espaço por aqui hein?).

Mas ainda existia um disco a ser lançado, já que o contrato com a Pepita Records previa 2 LPs, e então, em 1975, o grupo retornou, na formação tendo quatro instrumentos de sopro que se tornariam uma continuação digna do segundo capítulo do Syrius. Os arranjos dos sopros, a principal marca registrada do Syrius, foram feitos por Ákos Molnár (saxofone alto), adaptando-se perfeitamente ao estilo dos outros instrumentistas (Endre Sipos e Rudolf Tomsits no trompete, Károly Friedrich no baixo e trombone, e o velho Zsolt Baronits). András Veszelinov e Tibor Tátrai seguiam na bateria e guitarra respectivamente, e agora, a presença de Ottó Schöck nos teclados, junto de Endre Sipos (baixo, trompete), além dos vocais e percussão de Tamás Turai. 

Após a saída de Jackie, Turai (vindo do grupo Non Stop) foi o único capaz de fazer o público esquecê-lo, pois sabia que devia ser ele mesmo, ao invés de tentar imitar o ídolo da banda. Em junho já estavam com um material exaustivamente ensaiado em concertos e tocado com grande sucesso. "Széttört Álmok" correspondia a uma suíte de quase 40 minutos. No estúdio tudo corria bem, mas apenas até o momento em que o supervisor do estúdio encontrou as letras da suíte e achou-as muito sombrias e pessimistas. O supervisor era nada mais que Péter Erdős, executivo da gravadora Pepita, que empacou o trabalho, dizendo: "ou gravamos outras canções, ou encerramos tudo". Coube a Schöck reescrever rapidamente Széttört Álmok e, talvez sob pressão e por rebeldia, nasceu um disco totalmente diferente, coeso, mas absolutamente digno e à altura do Syrius. 

Em comparação ao seu antecessor, Széttört Álmok traz uma sonoridade mais moderna, principalmente pela entrada de Tátrai e Turai, e é totalmente cantado em húngaro (a suíte era toda em inglês). A bateria apresenta o ritmo de "Hajnali Ének" (Song at Dawn), trazendo os teclados, guitarra e baixo, explodindo no saxofone que comanda uma canção dançante, a qual eu facilmente comparo com os bons rocks de Rita Lee na época Tutti Frutti. Claro que os vocais em húngaro soam estranhos a priori, mas a faixa é muito boa, com uma ótima percussão, e com o saxofone sendo o instrumento central, além de um ótimo solo de guitarra. A abertura de "Hol Az Az Ember" (Where Is The Man), com o naipe de metais estourando as caixas de som, me lembra muito Chicago, mas com os vocais, o som ganha mais ritmo, bem dançante e de difícil definição, assim como é difícil ficar parado com o ritmo avassalador da guitarra de Tátrai, que faz um solo espetacular. Baita música, com um arranjo de metais sensacional, e o baixão estourando as caixas de som. O vocal de Baronits me lembra muito o de Derek Shulman (Gentle Giant) em diversos momentos, e aqui mais que nunca. 

A bela balada "Mint Április" (Like April) capricha no piano elétrico e no hammond, relembrando as belas faixas românticas de grupos como Bee Gees e Supertramp, seguindo com "A Láz" (The Fever), faixa que como o nome sugere, está diretamente associada à febre disco que tomava conta do planeta em 1976. O ritmo percussivo, o riff pegajoso da guitarra e baixo, e o estrondoso naipe de metais, fazem desta faixa outra forte candidata a melhor do álbum, ainda mais pelo ótimo arranjo da mesma, e pelo sensacional solo de piano elétrico, além de outro bom solo de guitarra. Bota sonzeira o que esses caras fazem aqui. O lado A encerra com a faixa-título, com o baixão e a percussão trazendo uma faixa em ritmo muito dançante, onde novamente os metais lembram Chicago, e cara, impossível ficar parado com outra canção contagiante, que mesmo sem saber húngaro, saímos cantarolando o empolgante refrão que entoa no nome da canção, a qual não tem nada a ver com a suíte, como falarei mais adiante.

A bateria e percussão abrem o lado B com a estonteante "Kinyújtom Kezem" (I'm Stretching Out My Arms), com o naipezão de metais comandando a pegada dançante, e destaque para o baixo carregado de efeitos aqui. Prepare-se para o solo de trompete, pois Sipos está matador, o cara manda ver, e também para o sensacional solo de piano elétrico. Demais! "Hová Mehetnék" (Where Could I Go?) mantém o ritmo incansável da Syrius, com o naipe de metais em alta mais uma vez, e o trompete de novo sendo o centro das atenções com outro grandioso solo. Atente-se também para a participação do baixo aqui, e claro, para o incansável batera Veszelinov. 

É ele quem faz o solo de introdução para "Igen, Szép Volt" (Yeah, That Was Nice), faixa que certamente deixou o Herbie Hancock de 1975 felicíssimo. Um jazz-funk sacolejante, com boas passagens de guitarra, baixão retumbante e os metais marcando presença. O trompete de Sipos mais uma vez toma conta durante o magnífico solo, mas preste a atenção nas linhas de baixo e nos fraseados e solos de guitarra aqui. E para melhorar tudo, temos um solo de sax soprano simplesmente demais. Que ritmo, que pancadaria, que coisa mais linda!

"Széparcú Idegen" (The Stranger Of Nice Face) encerra o disco com uma faixa mais amena, bastante leve com um ritmo percussivo cadenciado, que lembra as belas baladas do Santana, fazendo a poeira levantada durante todo o lado B baixar de forma sublime, com o lindo solo de saxofone tenor. 

Após o lançamento de Széttört Álmok, o qual teve edições somente na Hungria, cada integrante saiu para fazer carreira de alguma outra forma. Da formação clássica que gravou o primeiro álbum, Veszelinov foi trabalhar no grupo Apostol, com quem lançou o álbum 2 em 1980. Jackie seguiu como músico na Austrália, lançando discos regularmente e vindo a falecer em 2008. Já Miháli retornou para a Václav Zahradník And His East All Stars Band, com quem gravou o disco Interjazz 2 em 1974 (Mihály já havia participado do álbum Interjazz de 1971).

Mas e a suíte "Széttört Álmok", o que deu? Aqui é necessário voltar no tempo e explicar como chegamos aos sonhos quebrados da Syrius. Em 1970, foi trasmitido via rádio  Kossuth, às 21:20 do dia 8 de outubro, uma obra musical em que surgiam imagens do inferno, de um homem abatido e torturado pela vida, divida em cinco movimentos, alguns deles tensos e extremamente completos, com vocais declamados a la os poemas mais assustadores de Edgar Allan Poe. No final da obra, o homem, apesar da ausência do sol, descobre que ainda há seu brilho, e tenta de alguma forma sobreviver. Essa era a suíte "Széttört Álmok" , que a banda nunca pôde lançar oficialmente. Ela foi a primeira composição autoral do Syrius. A transmissão foi felizmente gravada pelos ouvintes, e em 1994 lançada oficialmente como parte do disco Most, Múlt, Lesz, contendo 35 minutos. 

"Széttört Álmok" é uma obra muito mais profunda e complexa do que Az Ördög Álarcosbálja,  cujas faixas, digamos assim, são mais populares. As gravações da transmissão de rádio de 1970 são as únicas de "Széttört Álmok" em húngaro que estão acessíveis no mundo atualmente. Em 1971, ainda na Austrália, gravaram a versão em inglês ("Shattered Dreams"), e alguns de seus movimentos ainda podem ser encontrados no Youtube. Após o retorno do Syrius da Austrália, é provável que a suíte completa nunca mais tenha sido tocada ao vivo em húngaro, já que Jackie só cantava em inglês (vários bootlegs guardam vestígios disso).

Os dois primeiros movimentos da suíte voltaram a ser tocados pelo Syrius em 2001, no festival Margitszigeti Szabadtéri Színpad de Budapeste, em 7 de setembro de 2001. Nessa ocasião o Syrius se reuniu novamente, infelizmente sem Zsolt Baronits, que faleceu em 3 de agosto de 1999. Jackie cantou de forma bem interessante, misturando idiomas, ora em húngaro, ora em inglês, e a gravação do concerto, organizado por Károly Csonkics e Gergely Böszörményi, foi lançada em 2008 com o título The Last Concert. Em 2012, a companhia Szegedi Kortárs Balett interpretou a história da obra de forma muito peculiar, com acompanhamento da Frank Zappa-Syrius Emlékzenekar. Em dezembro de 2016, na apresentação Hommage à Syrius, Iván Vitáris cantou em inglês, com sua banda Ivan & Parazol.

Em 24 de outubro de 2017, o Syrius Legacy apresentou a suíte completa no Festival Színház, tendo como músico convidado Tibor Tátrai. Aqui vale um depoimento de Benkó Akós, líder, baterista e vocalista da Syrius Legacy: "Quando ouvi o Syrius pela primeira vez, sabe o que achei estranho? Em todos os cantores, no Deep Purple, Led Zeppelin ou Colosseum, toda melodia vocal parece ser composta pelas notas de uma escala. Com Jackie eu sempre sinto que a melodia nunca vem das notas fundamentais de uma escala, mas sempre de alguma nota de blues. Tive que trabalhar separadamente as melodias, porque tem intervalos muito difíceis. As três primeiras notas da escala menor estão separadas por semitons — para cima, para baixo. É incrivelmente difícil e genial. Até hoje não ouço nada parecido na Hungria, de alguém estar nesse nível, não só no timbre, mas também na melodia, tão a par e tão original, sem ter gosto e cheiro de teoria musical. Tento fazer as pessoas entenderem a mensagem: gente, ouçam que melodias são essas aqui." 

Voltando então a história da Syrius, em 1995, chegou às lojas Rock Koncertek A Magyar Rádió Archivumából I: Syrius, 1975, que como o nome diz, trata-se de uma apresentação em uma rádio húngara em 1975. Em 2009 saiu a compilação tripla Anno Live, trazendo diversos registros ao vivos totalmente inéditos do grupo entre 1971 e 1973. Todos estes registros são impecáveis, mas tenho que certeza que aqui, poucos ouviram falar da Syrius, e por isso afirmo que Széttört Álmok (e os demais) é um disco que parece que só eu gosto. Você conhece a Syrius?

Contra-capa do álbum

Track list

1. Hajnali Ének 

2. Hol Az Az Ember

3 Mint Április

4. A Láz 

5. Széttört Álmok

6. Kinyújtom Kezem 

7. Hová Mehetnék 

8. Igen, Szép Volt 

9. Széparcú Idegen

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