segunda-feira, 2 de novembro de 2026

A Young Person's Guide To: Caetano As Guest (Bands + Gal & Bethânia)



Encerro hoje as coletâneas relativas às participações de Caetano Veloso em álbuns de outros artistas. Depois do Volume I, com artistas masculinos, e o volume II, com artistas femininos, hoje é a vez de apresentar as contribuições do baiano em álbuns de bandas, da irmã Maria Bethânia e da super-parceira Gal Costa. 

As participações de Caetano em discos de bandas não foram muitas, e decidi não incluir nada d'Os Doces Bárbaros, já que é apenas um EP e o álbum ao vivo, ambos icônicos e fortemente representados em diversas coletâneas, e nem do Grupo Cê, já que são três álbuns de estúdio (e mais três ao vivo) fundamentais para os anos 2000, e que um dia irei tratar por aqui. Sendo assim, escolhi sete para o Lado A da coletânea, e deixei de fora "coisas" bem estranhas, advindas dos discos de: Meninos Do Pelô (Adota Eu - "Roda Pião); Bate Lata (Gente É Pra Brilhar, Não Pra Morrer De Fome - "Gente"); Jammil (Três - "Tempo de Estio"); Timbalada (Vamos Dar Uma Volta No Guetho (Ao Vivo) - "Margarida Perfumada" e "A Luz de Tieta") e Só Pra Contrariar (Acústico - "Final Feliz"). Então, para fechar a coletânea, selecionei três canções de Caetano em discos de Bethânia, e quatro canções em discos da Gal.

Com Bethânia, que gravou inúmeras canções do mano Caetano, ele gravou o álbum ao vivo de 1978 Maria Bethânia e Caetano Veloso, e além das citadas abaixo, tem a participação em "Alguém Me Avisou" (Talismã, 1980), "O Canto De Dona Sinhá (Toda Beleza Que Há)" (Maricotinha, 2001),  "Saudade Dela" (Encateria, 2009), "Maria Bethânia, A Menina Dos Olhos De Oyá" (Mangueira, A Menina Dos Meus Olhos, 2019), e ainda sua presença ao violão em "Ciclo" (Ciclo, 1983). Já com Gal, ele gravou Domingo, sua estreia em vinil, no ano de 1967, e Temporada de Verão (1974), álbum ao vivo que marca o retorno de Caetano e Gil (igualmente presente no álbum) ao Brasil após o exílio em Londres. 

A baiana também gravou inúmeras canções do conterrâneo. Além das citadas no texto, existem também as participações dele em "Flor do Cerrado" (Cantar, 1974), "Salvador Não Inerte / Ladeira Do Pelô" (Plural, 1990) e "A Luz De Tieta" (trilha de Tieta Do Agreste, 1996).

Vamos à seleção que escolhi, e se você sentiu falta de alguma, ou lembra de algo que não foi citado nos três textos, por favor, traga nos comentários.

Lado A

1. "Brigitte Bardot": Asdrubal Trouxe O Trombone – A Farra Da Terra [1983]

O famoso grupo de teatro Asdrubal Trouxe O Trombone revelou ao Brasil nomes como Luis Fernando Guimarães, Regina Casé, Patrycia Travassos, Evandro Mesquita, entre outros. Nos anos 80, a banda levou para os estúdios a anarquia, diversão e ironia que chocou (e conquistou) o Rio de Janeiro, tendo como produtor artístico Caetano. Seu único disco, o excelente A Farra da Terra, apresenta canções que lembram muito o que a Blitz havia feito um ano antes, e entre elas, Caetano faz Backing Vocals em "Baleia (Eu Quero Mamar"), "Blues da Passagem", "Iansão" e "Quem Parte Quem Fica", sendo a voz central, junto de Regina Casé, em "Brigitte Bardot". Com letra de Péricles Cavalcanti, é uma espécie de valsa à francesa, que enaltece a beleza da musa, capaz de inspirar poetas como o próprio Caetano e Bob Dylan, mas traz também a ironia ao dizer que "Agora pede liberdade para os animais", no qual é nítido que Caetano segura a risada. Puro sarcasmo, no melhor do humor nacional dos anos 80. Para fechar, ouçam "Heavy Metal", uma das melhores obras de Péricles Cavalcanti!

2. "Bem Brasil": Premeditando O Breque – O Melhor Dos Iguais [1985]

Uma das bandas mais sarcásticas do Brasil, o Premeditando O Breque estourou nas rádios brasileiras com o mega-sucesso "São Paulo, São Paulo", de 1983. Saídos da Vanguarda Paulista do final dos anos 70, misturando rock, MPB, e até música erudita, a banda era centrada no talento dos guitarristas Wandi Doratiotto (que acabou tornando-se famoso ao apresentar o programa Bem Brasil) e Mário Manga. Com letras de um humor ácido, muito à frente para o seu tempo, e que certamente inspirou os conterrâneos do Ultraje a Rigor, no terceiro álbum os paulistas chamaram Caetano para ser a voz principal da sensacional "Bem Brasil". Um sambaço que ironiza o fato que nosso país "não tem terremoto, não tem revolução, é um país abençoado onde todo mundo põe a mão". O disco inteiro é fantástico (o que é a interpretação de Cristina Correa em "Balão Trágico", o peso de "Carrão De Gás" ou a espetacular crítica aos playboys de "Trampo Jóia"?), e deveria aparecer mais nas audições dos roqueiros Brasil à fora. 

Com o pessoal do Premeditando O Breque

3. "Ilê De Luz": Ilê Aiyê – Canto Negro [1989]

A música negra da Bahia tem uma potência a ser descoberta pelos preconceituosos brancos do resto do país, e felizmente, Caetano nunca abandonou suas raízes baianas, principalmente na segunda metade dos anos 80 e durante os anos 90. Antes mesmo do sucesso do Olodum, ou da grandiosidade da Timbalada de Carlinhos Brown (revelado ao mundo por Caetano no seu álbum de 1987), o Ile Aiyê já fazia história pelas ruas do pelourinho baiano, na década de 70 (fundado em 1° de novembro de 1974, ou seja, 52 anos hoje, é o primeiro bloco afro do Brasil), se consolidando como uma das maiores expressões culturais do Carnaval de Salvador. Esse sonzaço carregado pela percussão forte do grupo, tem uma melodia linda, e uma letra impactante: "Me diz que sou ridículo / Nos teus olhos sou mau visto / Diz até tenho má índole / Mas no fundo, tu me achas bonito, lindo!" e segue: "Negro sempre é vilão / Até meu bem provar que não, que não É racismo meu? Não". Esse cântico/protesto é uma das melhores produções do estilo. Para ser ouvido sempre, mas principalmente, com a proximidade do 20 de novembro, ser apresentado nas escolas. 

4. "Sampa": Os Cariocas - Reconquistar [1992]

Grupos vocais foram sucessos nacionais nos anos 40 e 50 aqui no Brasil, influenciados por nomes vindos principalmente dos Estados Unidos. Os Cariocas surgiram em 1942, liderados por Ismael Neto, e em 1991, em comemoração aos 50 anos da banda, lançaram Reconquistar, álbum que trouxe a participação de grandes nomes da música brasileira, e entre eles, Caetano. O baiano reinterpreta "Sampa", mega-sucesso do contestado álbum Muito (Dentro de Uma Estrela Azulada) (1978), e que ganhou uma cara totalmente diferente para o lindo samba original. Aqui, ela virou algo puramente bossa-nova, que nas vozes d'Os Cariocas, ganha todo o charme de uma Ipanema ou Copacabana enaltecendo a maior cidade do país. Caetano surge entre orquestrações e piano, cantando frases de um dos mais belos poemas criados para São Paulo, e assim, vai alternando estrofes com os cantores d'Os Cariocas, encerrando com a bela sacada "E Os Cariocas podem te curtir numa boa", dando uma pequena modificada na letra, mas que caiu muito bem para o momento. Quem não curte o estilo deste grupo (e de outros como MPB4, Quarteto em Cy ou Boca Livre, só para citar alguns), passa longe, mas para quem tem ouvidos abertos, é uma recriação muito interessante.

5. "Kanela Y Menta": Ketama – Toma Ketama! [2000]

O grupo Ketama surgiu em Madrid, em meados dos anos 80, mesclando o flamenco com o pop. Em 2000, com uma carreira já bastante experiente, o grupo lançou Toma Ketama!, álbum que vendeu mais de 200 mil cópias somente na Espanha, e que traz a presença de Caetano em "Kanela Y Menta". A faixa é puramente flamenca, onde o violão de Juan Carmona e a base percussiva extremamente dançante são as atrações maiores, além de um refrão grudento. Para quem gravou um disco como Fina Estampa (1993), a participação de Caetano cantando em espanhol até que é interessante aqui, principalmente por se aventurar em um estilo que não se encontra em nenhum outro álbum dele. Certamente, não é uma das melhores canções que o baiano gravou, mas pelo ineditismo de entrar no mercado espanhol, e pelo violão flamenco sempre bem-vindo, vale a pena inserir "Kanela Y Menta" nesta coletânea.

6. "Menino Deus": A Cor Do Som - Acústico [2005]

No álbum/show que comemorou o retorno d'A Cor do Som aos palcos, após 10 anos, Caetano participa de um dos maiores sucessos dos meninos. "Menino Deus" é uma ode à cidade de Porto Alegre, registrada originalmente em Magia Tropical (1982), que mudou os rumos de um grupo virtuoso instrumentalmente para estourar nas rádios com algo mais popular. Caetano já solta a voz de cara, acompanhado pelo violão e o piano elétrico, e assim, único nos vocais, faz a mais bela versão que A Cor do Som nunca antes havia registrado para uma obra-prima, acompanhado pelo magistral mandolin de Armandinho, pelo belíssimo acordeão de Marcos Nimrichter e um arranjo fabuloso. Clássico!

7. "Hoje Sou Trovão": Fresno - A Sinfonia De Tudo Que Há [2016]

Em um disco ambicioso, onde os gaúchos da Fresno tentaram mostrar ao Brasil que eram capazes de fazer um álbum sério, e criaram um álbum conceitual sobre "enxergar o universo como uma grande canção", Caetano entrega sua voz para "Hoje Sou Trovão", uma faixa sombria, muito diferente de tudo o que Caetano já participou antes. Sua casa contrapoe os vocais de Lucas Silveira, com grande destaque para o refrão e o peso da guitarra e do baixo, além das percussões que estão em toda essa complexa faixa. Apesar do disco soar um tanto quanto melodramático, e os vocais de Lucas me darem uma certa repulsa, confesso que me surpreendi com o álbum, e "Hoje Sou Trovão" é uma forte candidata a melhor canção da banda. 

Com a mana Bethânia

Lado B

1. "Pássaro Proibido": Maria Bethânia - Pássaro Proibido [1976]

O ano de 1976 fez com que o quarteto baiano Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa e Maria Bethânia levasse aos palcos os Doces Bárbaros, uma das maiores fusões de gênios que o Brasil já viu. Naquele ano, além do espetacular álbum ao vivo que registrou a turnê, Bethânia lançou Pássaro Proibido, cuja faixa-título foi composta em parceria com o irmão Caetano, e que por curiosidade, é o único músico desta faixa levada pelo seu violão e a voz com os manhosos tremelicos que são pura e unicamente Caetano. Um clássico, que honestamente, nunca entendi por que está aqui e não em Jóia ou Qualquer Coisa, os discos solos de Caetano de 1975. 

2. "Alguém Me Avisou": Maria Bethânia - Talismã [1980]

Bethânia é uma das poucas artistas que atravessou os anos 80 sem se entregar aos eletrônicos em algum momento, ou ao "som de elevador" que tocava direto nas AMs e FMs. Manteve seu foco na MPB, e em Talismã, teve a difícil tarefa de suceder os aclamados Álibi (1978) e Mel (1979), o quais venderam mais de 1 milhão de discos em menos de um ano. Com um timaço de banda (Tulio Mourão ao piano, Luizão Maia no baixo, Perinho Albuquerque na guitarra, Enéas Costa na bateria, entre outros), o álbum oscila entre baladas e canções mais suaves, mantendo a linha de seus antecessores. Mas com "Alguém Me Avisou", revisão da obra da imortal Dona Ivone Lara, vem o samba alegria que fez de Talismã mais um disco sucesso de vendas, atingindo a marca de 700 mil cópias em apenas seis meses. Uma das canções mais conhecidas da carreira de Bethânia, conta com um molejo sensacional, e sua divisão de vozes com Caetano, e ainda com Gil, é sensacional. Complementando esse mega-clássico, uma orquestração fabulosa. Uma pena que Caetano e Bethânia não incluiram "Alguém Me Avisou" no repertório da turnê que fizeram recentemente, mas aqui, é obrigatória a presença. No ano seguinte, o trio gravou Brasil, junto de João Gilberto. Mas isso é papo para outra postagem.

3. "Purificar O Subaé": Maria Bethânia - Alteza [1981]

Em um de seus melhores discos, Bethânia interpreta a genial letra de Caetano neste ótimo samba-ecológico em defesa do Rio Subaé, localizado em Santo Amaro da Purificação, na Bahia, cidade natal dos irmãos. Na excelente letra de Caetano, ele evoca os poderes de deuses e deusas das águas para "purificar o Subaé" (o simples fato de unir o nome da cidade ao rio já é genial) e mandar os malditos que contaminaram o Subaé (empresas que jogaram chumbo e outros metais pesados no local), com todas as águas que desaguam no rio (no caso, do Sergimirim) auxiliando para salvar "a gente morena ... os mariscos e os peixes" contra um "progresso vazio". Caetano, além da letra, colabora com os vocais (que também tem Gil e Nicinha, esta irmã de Bethânia e Caetano), e deixou para eternidade uma das melhores canções ecológicas que o Brasil criou. 

Com a mega-parceira Gal Costa

4. "Que Pena (Ela Já Não Gosta Mais de Mim)": Gal Costa - Gal Costa [1969]

Neste incrível disco de estreia da Gal, comandada pelos arranjos precisos do saudoso Rogério Duprat, Gal eternizou a versão de "Baby" que a fez conhecida nacionalmente, e que conta com a voz do autor Caetano. Sanduichada entre ela e outra obra-prima de Caetano, no caso "Divino Maravilhoso", vem este sambinha na linha Jorge Ben, sensacional, no qual Gal e Caetano dividem os vocais gostosamente, como só os dois sabiam fazer. A voz doce e manhosa de Gal é de se colocar a "Galcha" debaixo do braço e ficar agarrado eterno, e Caetano complementa tudo com uma suavidade única. Sensacional, como quase tudo que esses dois fizeram juntos. 

5. "No Tabuleiro Da Baiana": Gal Costa - Aquarela Do Brasil [1980]

No disco tributo de Gal ao sensacional Ary Barroso, ela chama o amigo Caetano para interpretar a versão definitiva de "No Tabuleiro Da Baiana". Nela, Caetano e Gal alternam-se nas frases, fazendo um sambaço, onde ambas as vozes destacam-se. Gal vivia uma fase espetacular nos agudos, e Caetano aqui não abusa das vibrações vocais, tornado a canção ainda mais agradável. Os dois divertem-se nitidamente através desse clássico de Ary, e não tem como não ficar contagiado pela alegria que sai das caixas de som. 

6. "Groupie": Gal Costa - Minha Voz [1982]

Álbum de enorme sucesso na carreira de Gal, graças ao mega-clássico "Pegando Fogo", Minha Voz apresenta ótimas canções - como a definitiva versão para "Borzeguim", de Tom Jobim -, e entre elas, esse jazz broadway extremamente pomposo, com presenças de Rita Lee, Gilberto Gil, Chico Buarque e Caetano Veloso, que encaixam-se perfeitamente na ideia da letra da canção, de alguém que virou fã destes artistas. Mas aqui eles não entram cantando, e sim trocando ideias em conversas bastante íntimas com Gal. Entre inserções de trechos musicais dos artistas citados, Caetano acaba revelando para ela que ia na casa de Gal para querer namorar Dedé, e fala para Gal "você quer ser minha namorada, hein Gal", e ambos soltam uma risada mais que gostosa, íntima, de dois amigos que "se amam", como afirmado na sequência. As revelações de Gal sobre ser fã dos demais é igualmente muito legal, e um registro de como uma artista gigante pode ter humildade de revelar sua paixão por outros artistas.

7. "Sorte": Gal Costa - Bem Bom [1985]

Bem Bom é um dos discos mais bem sucedidos da carreira de Gal, chegando a marca de 800 mil cópias vendidas no Brasil, e 100 mil cópias em Portugal. Muito disso e por conta de duas parcerias atemporais registradas neste disco. "Dia de Domingo" (com Tim Maia) e "Sorte", ao lado de Caetano. Essa baladaça repleta de sintetizadores, com presença de nomes como Pedrão Baldanza no baixo, Marcelo Costa na bateria e Tony Costa nas guitarras, traz a datação musical dos anos 80 de forma explícita, mas que fez muito sucesso entre a geração dos anos 80. As vozes de Gal e Caetano se alternam nas estrofes, a canção é simples, romântica, e fecha esta série de coletâneas com o saudosismo da voz de Gal em nossas mentes. 

sábado, 24 de outubro de 2026

Gal Costa - As Várias Pontas De Uma Estrela [2025]



Em 17 de setembro de 2022, Gal Costa fazia sua última apresentação ao vivo. No palco do Coala Festival, o qual contou também com nomes como Maria Bethânia, Djavan, Gilberto Gil, Alceu Valença, Rodrigo Amarante, e muito mais, a baiana trouxe para os fãs um repertório incrível, e que veio à luz na forma de CD simples e LP duplo, acompanhado de uma ecobag, através da Biscoito Fino, com o nome As Várias Pontas de Uma Estrela. O show fez parte da turnê que dá nome ao disco, o qual havia levado Gal novamente aos palcos depois da pandemia, com início em abril de 2022 e passando por festivais como o Breve, em Belo Horizonte, e o CoMA, em Brasília, além de uma data em Berlim, na Alemanha.

Duvido que quem assistiu a apresentação de Gal naquele show, ou mesmo ouve o álbum, consegue imaginar que menos de dois meses depois ela estaria morta, vítima de um infarto fulminante, provavelmente causado por um câncer de cabeça e pescoço, no dia 9 de novembro de 2022. No palco do Memorial da América Latina, Gal está ao lado do trio formado por Limma (teclados), Fabio Sá (baixo) e Vitor Cabral (bateria), além de Tim Bernardes e Rubel como convidados em algumas canções. O trio serve como uma base quase jazzística para Gal passear na sua carreira, recriando clássicos e fazendo uma agradável sessão nostalgia para o fã mais saudoso.

Gal ao vivo no Coala

Gal abre o show com "Fé Cega, Faca Amolada", com um bom apoio vocal, e destacando o piano elétrico de Limma. É visível que a voz da baiana já não é mais a mesma de anos anteriores, mas ao mesmo tempo, sentir sua energia através dos gritos dados fora do microfone, nos causa uma sensação de total simpatia e vontade de curtir junto, ainda mais com o riffzão de piano e e baixo acompanhado pela forte presença da bateria de Vitor Cabral, que migram para o lindo blues de "Hotel das Estrelas", uma das melhores canções da carreira da Galcha (apelido que Gil deu para Gal), e que somente com baixo, piano e bateria, coloca-nos em uma casa inebriada de fumaça e cheiro de álcool, para chapar mesmo. Belíssima versão, novamente com um ótimo arranjo vocal no apoio, onde Gal apoia-se para uma entrega com todas as forças, e fazer jus à um clássico de sua discografia, registrada no excelente Legal (1970), e de versão definitiva em Fa-Tal (1972).

Gal segue revisitando o passado com outro clássico, "Divino Maravilhoso", canção que praticamente lançou a artista ao Brasil no ano de 1968, totalmente reinventada pelo baixo sacolejante de Fábio Sá, e que vem abaixo com a galera cantando o famoso refrão "é preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte". Uma lástima que a voz de Gal já não está com tamanha potência, e percebe-se sua força para cantar, mas mesmo assim, saber que esta foi a última vez que Gal cantou esta canção, arranca lágrimas.

Contra-capa interna do vinil

Depois de dois mega-sucessos do início da carreira, Gal salta para o bolero "Dom de Iludir", obra-prima de Caetano, na qual ele contrapõe Noel Rosa e Vadico, ao criarem o samba "Pra que Mentir", em - mais uma - das geniais letras de Caetano, e que aqui serve para acalmar os ânimos, e nos lembrar da Gal quase crooner do início dos anos 2000. Chegando na sua fase mais recente, Gal traz a ótima "Quando Você Olha Pra Ela", de Mallu Magalhães, registrada no excelente Estratosférica (2015), e que reflete os dramas de uma mulher que percebe que seu companheiro está de olho em alguém mais nova, num bom sambinha onde Gal diverte-se cantando, e o piano elétrico de Limma é a principal atração nessa faixa que encerra o lado A do vinil. 

Seguindo pelo lado B, e mantendo os anos recentes, vem "Palavras no Corpo", do polêmico A Pele do Futuro (2018). Essa linda balada, com climão anos 60, é um dos grandes destaques do último álbum oficial de inéditas de Gal (sendo que Nenhuma Dor, de 2021, traz várias recriações com diversos parceiros), e volta ao passado com a linda "Nada Mais (Lately)", uma arrepiante versão desta obra de Stevie Wonder, que Gal registrou no emblemático Profana (1984). Gal então novamente homenageia Milton Nascimento, em uma animada versão para "Paula E Bebeto", e de seu disco em homenagem à Tom Jobim, faz uma fiel versão para a bossa-nova de "Desafinado", onde o piano elétrico de Limma brilha. Fechando o lado B, Chico Buarque e sua "A História de Lilly Braun", jazz/bluesy raro na obra do carioca, originalmente gravada por Maria Gadú em 2009, e com toda sua vibe hollywoodiana, ganhou muito com o piano de Limma e com um charme grandioso na voz de Gal, inclusive com seus pedidos em inglês para a plateia bater palmas e agitar durante o solo do piano. Musicão!

Vinis coloridos

O vinil dois retorna aos anos 80 através de "Açaí", sucesso de Djavan que Gal registrou em Fantasia (1981), e que surpreendentemente tem o refrão cantado em uníssono pela plateia, e ficou muito boa com o arranjo para piano, baixo e bateria. Seguimos nos anos 80, e com a plateia cantando em altos brados, "Lua De Mel", faixa de Lulu Santos lançada em Lua De Mel Como O Diabo Gosta (1987), um dos discos mais achincalhados da carreira dela, e que particularmente, é daqueles que considero que só eu gosto (um dia escreverei sobre ele aqui). Os anos 80 se encerram com "Sorte", mega-sucesso de Bem Bom (1985), na qual Gal simplesmente deixa a plateia levar no gogó um bom trecho da mesma. Esse resgate oitentista mostra como Gal teve músicas de sucesso, independente da época e da geração, e ouvir a plateia cantando essas duas canções, é arrepiante. Os arranjos para baixo, bateria e piano, dão um ar jazzístico que mudaram bastante a cara dessas faixas, que conseguem fazer com que Gal cante sem se esforçar. 

O lado C encerra-se com mais duas obras essenciais de Caetano, "Como 2 e 2" e "Tigresa". A primeira traz Gal acompanhada de Rubel na voz e violão, e retoma os anos 60 através do órgão elétrico de Limma, e o dueto vocal Gal/Rubel ficou muito legal no palco. Como não cantar "meu amor, tudo certo como 2 e 2 são 5"?? Já a segunda, além de Rubel, temos também a guitarra lisérgica e a voz de Tim Bernardes, e com os seus "gatinhos fofinhos", surge uma linda revisão para uma das melhores canções de toda a carreira de Gal, com um show de Tim na guitarra e na interpretação vocal. Ouvir a plateia cantando ao fundo, o riffzão do álbum Caras e Bocas (1977) sendo retomado em 2022, e lembrar que semanas depois Gal não estaria mais entre nós, cara, quem é fã sabe do que estou falando da emoção que isto passa. 

Tim segue no palco, e no início do lado D, traz o riff e manda ver nos vocais de "Negro Amor", essa fantástica (e - repetidamente - genial!) revisão de Caetano para "It's All Over Now, Baby Blue" de Bob Dylan. A voz de Tim aqui pqp, incrível. Quando Gal começa a cantar até surge um certo estranhamento, por que os falsetes que Tim dá ao longo da canção, rasgando a voz, são fantásticos. E mais um excelente arranjo instrumental aqui. Seguimos com Tim no palco na linda versão de "Vapor Barato", bluesy, charmosa e o órgão e guitarra fazendo as bases para Gal e Tim soltarem suas vozes. Além disso, um solo de órgão e guitarra que são energia pura, demais! E Gal fazendo suas vocalizações então, sem palavras!

Tim Bernardes, Gal e Rubel no palco do Coala

Rubel volta ao palco, e novamente com Tim, entoam "Baby", voltando então ao fim dos 60 em pleno tropicalismo, em uma versão samba/bossa nova para colocar as emoções nos eixos. Novamente, a voz e a interpretação de Tim são pontos altíssimos para o disco. Uma lástima O Terno ter acabado e a carreira solo dele não ser tão brilhante quanto a da sua ex-banda. Tinham tudo para ir longe! Fechando o disco, Gal resgata "Um Dia De Domingo", parceria original dela com Tim Maia (outro Tim) e lembrando que a canção foi um grande sucesso na América Latina e em Portugal, mas que a imprensa "bateu muito" nela por que a faixa foi escrita por Michael Sullivan e Paulo Massadas, os quais a imprensa perseguia bastante. A plateia solta a voz nessa linda balada fazendo a parte original de Tim, e claro, sem a presença do síndico, perde bastante. E depois que Gal interpretou a voz de Tim no excelente Recanto Ao Vivo (2013), não tem como não lembrar que há versões melhores. Mas é muito bom ter ela no track list.

Ecobag

Fechando o disco, chegamos no polêmico momento do show, no qual Gal faz uma fala política como raramente se viu ela fazer, dizendo que dali alguns dias (mais precisamente 15 dias depois), haveria eleições. "Vamos votar direitinho, vamos votar com sabedoria e com inteligência. Vamos votar sem ódio e vamos votar com amor", enquanto fazia com a mão esquerda a letra L, que normalmente é um gesto usado por apoiadores de Lula. Assim, vem a paulada "Brasil", um de seus maiores sucessos, colocando o Coala para dançar e cantar juntos. Propositalmente (?), a Biscoito Fino deixou os gritos da plateia ao final do show, com "olê, olê, olá, Lula, Lula" (vai ter conservador que não irá comprar o disco por causa disso, certeza). 

Gal em seus últimos momentos no palco, fazendo o L

Em véspera de eleições, e 4 anos depois, é interessante que o mundo político no Brasil mudou pouco ou quase nada. Lula continua na ativa, e vai para tentar mais um mandato, mas terá a oposição de um dos piores senados já eleitos (se não o pior) na história do Brasil. Já Bolsonaro cometeu uma série de crimes, dentre eles tentativa de gole, e está preso em regime domicilia. Mas deixou seu filho Flávio no lugar, um homem que vive da política há anos sem apresentar projetos que beneficiem a sociedade, e com uma série de investigações nas costas que vão desde rachadinha, recebimento de propina do Vorcaro, até beneficiar criminosos e milicianos. Os dois estão no segundo turno, amanhã, e infelizmente, só resta torcer para que o menos pior ganhe. Por outro lado, Gal deixou saudades, deixou uma infinita lista de canções atemporais, e deixou no palco do Coala uma mensagem que na época acabou dando certo. Gal tinha razão, votem com amor. Obrigado Biscoito Fino.

Contra-capa do vinil

Track list

1. Fé Cega, Faca Amolada

2. Hotel das Estrelas

3. Divino Maravilhoso

4. Dom de Iludir

5. Quando Você Olha Pra Ela

6. Palavras no Corpo

7. Nada Mais (Lately)

8. Paula e Bebeto

9. Desafinado

10. A História de Lily Braun

11. Açaí

12. Lua de Mel

13. Sorte

14. Como 2 e 2 (com Rubel)

15. Tigresa (com Rubel e Tim Bernardes)

16. Negro Amor (com Tim Bernardes)

17. Vapor Barato (com Rubel e Tim Bernardes)

18. Baby (com Rubel e Tim Bernardes)

Bis:

19. Um Dia de Domingo

20. Brasil

sábado, 3 de outubro de 2026

Pink Floyd - At Pompeii MCMLXXII [2025]


Depois de 43 anos, eis que finalmente o famoso show do Pink Floyd em Pompeia é lançado oficialmente em formatos de áudio (LP e CD). Gravado entre 3 e 7 de outubro de 1971, ou seja, há 55 anos, no famoso anfiteatro romano da cidade Italiana soterrada pelas cinzas do vulcão Vesúvio, no ano 90 d. C., a apresentação de David Gilmour (guitarra, vocais), Roger Waters (baixo, vocais, percussão), Rick Wright (teclados, vocais) e Nick Mason (bateria, percussão) ficou eternizada nas telas mundiais através do filme Pink Floyd At Pompeii, de 1972, e que saiu ao longo dos anos nos formatos VHS, DVD, Laserdisc e Blu-Ray. 

David Gilmour, Roger Waters, Rick Wright e Nick Mason. Pink Floyd em Pompeia

Porém, para quem queria apenas ouvir o show, existiam somente vinis e CDs bootlegs, em uma quantidade infinita, mas o Floyd recusava-se a lançar algo oficial. Até que ano passado, At Pompeii MCMLXXII veio definitivamente para agradar os fãs, e preencher um grande vazio na discografia dos britânicos. O álbum foi lançado em CD e LP duplos, e possui exatamente o mesmo track list do famoso filme de 1972. 

"Pompeii Intro" no filme serve para apresentar os participantes do espetáculo (no caso os nomes dos músicos e demais envolvidos no projeto), e aqui, são apenas batidas e barulhos de sintetizadores, que levam à "Echoes (Part One)", uma performance fantástica do Pink Floyd para a linda suíte de Meddle (que havia acabado de ser lançado). A versão apresentada pelo quarteto nas ruínas de Pompeia é muito fiel ao que foi registrado em estúdio, sem tirar nem pôr, mas uma coisa que fica clara já na audição é que ver as imagens impacta da apresentação impacta bem mais do que apenas ouvir. De qualquer forma, é uma bela versão, onde a harmonia vocal entre Wright e Gilmour é encantadora, assim como Gilmour também brilha em seu solo, com uma poderosa camada sonora comandada pelas viradas de Mason e a marcação do órgão e do baixo. 

O "palco" do Pink Floyd em Pompeia

Mas, como no filme, "Echoes" é encerrada abruptamente após o "reggae" que conduz o segundo solo de Gilmour, começando então "Careful With That Axe, Eugene", a qual está próxima do registrado em Ummagumma (1969). Uma faixa soturna, onde os berros de Waters emulando Eugene são apavorantes, e também merece destaque Mason, que particularmente faz uma de suas melhores performances da carreira em Pompeia, como também podemos comprovar em "A Saucerful Of Secrets". Outra faixa bem próxima ao que foi registrado em Ummagumma, tem em suas duas partes uma distinção muito clara musicalmente. 

Enquanto a primeira é uma viagem ácida por solos improvisados de Gilmour sobre as batidas violentas de Mason, a segunda é uma bela balada onde os vocais angelicais de Gilmour se sobressaem e emocionam, diferenciando da versão de Ummagumma exatamente nessa segunda parte, já que os vocais apresentam-se apenas em uma única estrofe, e não em duas como no disco de 1969. Novamente, ver a apresentação é bem mais impactante do que apenas ouvir, seja por entender como Gilmour arranca tanto barulho de sua guitarra (esfregando o slide impiedosamente sobre as cordas e apertando tudo que é botão de seus pedais), seja por Wright espancando seu piano, seja pela performance inesquecível de Waters espancando o gongo sob a luz do Sol de Pompeia. Porém, ouvir a segunda parte, com o órgão de Wright brilhando, e a já citada voz de Gilmour, é arrepiante, numa das melhores versões já registrada dessa canção.

Imagens do "show" do Pink Floyd em Pompeia, no encarte do CD
A versão em CD

Seguimos por "One Of These Days", bem fiel à versão de Meddle, e com mais um show por parte de Mason, ao mesmo tempo de como é bom ouvir o Floyd capaz de experimentar sem medo, o que também ocorre na sensacional "Set The Controls For The Heart Of The Sun", também similar ao que ouvimos em Ummagumma, destacando os fantasmagóricos teclados de Wright, o vocal sussurrado e soturno de Waters, que também espanca o gongo sem dó. Musicaço! 

Passamos então por "Mademoiselle Nobs", uma versão inicial para o que viria a ser "Seamus", ou seja, um blues comandado pela cachorrinha Nobs (isso mesmo, é uma cadelinha que 'canta' a música, mostrando mais uma vez a liberdade criativa do Floyd) enquanto é acariciada por Wright e incentivada pela gaitinha de Gilmour, e o CD 1 encerra-se com "Echoes (Part Two)", pegando então a suíte a partir do fim do reggae de "Echoes (Part One)", com os 'baulhos de baleia" advindas da guitarra de Gilmour, e todo o trecho final.

No CD 2, temos uma versão não editada de "A Saucerful of Secrets", onde a introdução da primeira parte é bem mais longa, tendo a faixa no total quase 13 minutos (em comparação aos 10 minutos do CD 1) e uma tomada alternativa para "Careful With that Axe, Eugene", sem tantos berros por parte de Waters, que não acrescentam muito no conjunto final da obra. Acompanha a obra um pequeno livreto de 12 páginas com imagens da banda, das gravações e informações técnicas. 

Penso que At Pompeii MCMLXXII poderia ter corrigido o erro de separação de "Echoes", tornando-a uma única peça, que ficaria ainda melhor de ser apreciada do que as peças dividas lançadas originalmente. Mas esse errinho é pequeno, e cabe agora apreciar essa que é uma das melhores apresentações da história do Floyd, com uma excelente qualidade de mixagem e masterização. E se puder conseguir a versão em vídeo, melhor ainda.

Contra-capa do CD

Track list

CD 1

1. Pompeii Intro 

2. Echoes (Part 1)

3. Careful With That Axe, Eugene

4. A Saucerful Of Secrets

5. One Of These Days

6. Set The Controls For The Heart Of The Sun

7. Mademoiselle Nobs

8. Echoes (Part 2)

CD 2

1. Careful With That Axe, Eugene (Alternate Take)

2. A Saucerful Of Secrets (Unedited)

Tommy Bolin - The Ultimate Teaser

 Teaser - Re-mastered

1-1 The Grind

1-2 Homeward Strut

1-3 Dreamer

1-4 Savannah Woman

1-5 Teaser

1-6 People, People 4:55

1-7 Marching Powder

1-8 Wild Dogs

1-9 Lotus

Alternates & Outtakes

2-1 Teaser

2-2 Flying Fingers

2-3 Cookoo

2-4 Wild Dogs

2-5 Chameleon

Alternates & Outtakes

3-1 Crazed Fandango

3-2 People, People

3-3 Smooth Fandango

3-4 Marching Powder

3-5 Homeward Strut

3-5 Oriental Sky (Lotus)

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

50 Anos de Crystal Ball


Conforme prometido, apresento hoje a história de Crystal Ball. Mas por que o sexto álbum dos estadunidenses merece um texto aqui no site? Bom, por que ao meu ver, ele foi fundamental para direcionar o Styx para novos caminhos sonoros que fizeram da banda uma maiores de sua geração, além de influenciar nomes como Boston, Journey, Kansas, entre outros, praticamente criando o rock de arena, mas, principalmente, revelar ao mundo o talento de Tommy Shaw.

Voltando no tempo, o ano é 1975. O Styx estava lutando na estrada desde 1970, em uma gravadora pequena (a Wooden Knickel, a qual chegou a apelidar os caras durante este período) e com apenas um sucesso em sua carreira, "Lady", de Styx II (1972). A formação do grupo à época era Dennis DeYoung (teclados, vocais, piano), James JY Young (guitarra, vocais), John Curulewski (guitarras), John Pannozzo (bateria) e Chuck Pannozzo (baixo), e após o lançamento de Equinox, no primeiro dia de dezembro de 1975, o quinto disco da banda, Curulewski decidiu que ia seguir outros caminhos musicais.
A formação inicial do Styx: James JY Young, Dennis DeYoung,
John Curulewski, John Panozzo e Chuck Panozzo

Este era o primeiro disco do grupo com uma grande gravadora, a A&M. Porém, Curulewski sentia-se com dúvidas no novo contrato, chegando a afirmar que "está acontecendo a mesma merda com a A&M que aconteceu com a Wooden Nickel. Não estão investindo na gente, não estão fazendo divulgação, não estão nos dando os bons horários de turnê". Ao mesmo tempo, Frampton Comes Alive!, de Peter Frampton, chegou às lojas também lançado pela A&M, e seu lançamento só piorou as coisas, pois afinal, o disco ao vivo do guitarrista estourou inesperadamente, e assim, o Styx passou a não receber a atenção da A&M.

DeYoung também estava insatisfeito com a forma como Equinox foi divulgado. “Eis o que aconteceu: ele parou nas paradas na posição 60 e não chegou a disco de ouro. Originalmente vendeu cerca de 350 mil cópias. Foi, mais uma vez, uma falha da gravadora... eles deixaram Equinox cair.” Disse DeYoung para o jornalista Sterling Whitaker, em 2007. Sobre Comes Alive!, DeYoung complementa: “Aquilo afetou todo o mercado da música, porque aquele álbum mostrou aos executivos das gravadoras que era possível vender milhões de álbuns para os jovens sem precisar de singles de sucesso. Em certo sentido, a A&M, para nós naquela época, virou uma gravadora pequena e sem distribuição, porque o Frampton estava em todo lugar e Equinox foi jogado pra escanteio.”

Com um temperamento difícil, acusado de não ser uma pessoa positiva, sempre infeliz, e que não se relacionava bem fora dos palcos, levando o apelido de "rebelde", chegou ao ponto de que nenhum dos outro quatro membros do Styx queriam dividir quarto de hotel com Curulewski. Cabia ao tour manager Jim Vose ser o responsável por acolher e acompanhar Curulewski. Nas palavras de Vose: “Eu sempre me certificava de ficar com ele pra tentar ser pacificador e intermediário. Ele era um pouco mais radical, uma pessoa muito criativa, mas com algumas ideias diferentes. Ninguém se dava bem com ele”.

O styx à época de Equinox: Dennis DeYoung, James JY Young,
John Curulewski, Chuck Panozzo e John Panozzo

Para piorar a situação, depois de ter sido considerado um compositor importante para o Styx - afinal, ele co-escreveu "Lady" - , Curulewski teve apenas um crédito completo ("Prelude 12") e dois co-créditos ("Born for Adventure" e "Mother Dear") em Equinox, fazendo-o realmente sentir-se incomodado com o comportamento dos demais colegas. Vose estava lá no derradeiro dia do guitarrista na banda, 6 de dezembro de 1975, menos de uma semana pós-lançamento de Equinox. Com problemas de saúde e decepcionado com o comportamento autoritário de DeYoung, Curulewski pediu as contas após um show, no qual houve uma grande discussão entre ele e DeYoung. Curulewski estava com laringite e tentou cancelar a apresentação dentro dos camarins, enquanto 12000 fãs aguardavam o Styx. Ele fez o show abaixo de remédios, mas ao final, DeYoung disse a Curulewski: "Eu nunca mais quero subir no palco com você", ao que ele respondeu: "Ok, então eu peço demissão", e foi cuidar de si e de sua família.

O temperamento forte de Curulewski já havia o feito a pedir demissão outras vezes, mas dessa vez os colegas de banda levaram a sério. Voltando ao depoimento de Vose: "DeYoung basicamente me perguntou o que eu achava, depois se virou e disse ‘Some daqui’, e os outros apoiaram. Naquela época eles não tinham escolha. DeYoung sempre teve o poder". Por fim, a presença de Derek Sutton como novo empresário do grupo foi a gota d'água para encerrar de vez as contribuições de Curulewski com o Styx. Foi ele quem colocou a pá de cal, afirmando que "a gente troca ele" e pronto, pois julgava que o Styx ainda não tinham tido nenhum sucesso de verdade. Curulewski tornou-se professor de música em Chicago, tocando eventualmente em algumas bandas, vindo a falecer em 13 de fevereiro de 1988, vítima de aneurisma cerebral, aos 37 anos.

Com uma turnê nacional prestes a começar, o Styx não tinha muito tempo para achar um substituto, e então, surge o nome de Tommy Shaw. Nascido no Alabama, em Montgomery, Tommy deixou a pequena cidade ao se formar no ensino médio, para buscar sucesso no mundo da música. Ele passou por grupos como o The Smoke Ring e o MSFunk, onde tocou por três anos. O MSFunk era empresariado por pessoas de Chicago, e numa das apresentações do grupo na cidade, Shaw foi visto pelo pessoal do Styx.

Com o término da MSFunk, Shaw voltou para Montgomery, indo tocar no Harvest, mas logo recebeu a ligação de Jim Vose e o convite para fazer audição para o Styx. Shaw disse: "Eu peguei o avião e fui pra lá no dia seguinte, e eles nem me pediram para tocar guitarra. A guitarra nem saiu do case". Assim que o Styx ouviu a fita demo de Shaw e ele provou que conseguia cantar a harmonia aguda em "Lady", ele foi contratado, no dia 12 de dezembro de 1975.

A nova formação do Styx: Dennis DeYoung, Chuck Panozzo, James JY Young,
Tommy Shaw e John Panozzo

O grupo caiu na estrada com a nova formação, com Shaw fazendo sua estreia em 16 de dezembro (quatro dias após ser contratado), no Municipal Auditorium de Zanesville, Ohio. Agora, o Styx tinha um novo compositor, vocalista e guitarrista. Shaw caiu como uma luva para as ideias musicais de DeYoung, e além disso, também era capaz de dividir solos de guitarra com JY sem a timidez de Curulewski, o que era outro fator que incomodava bastante os colegas, pois o antigo guitarrista quase nunca colocava-se à frente do palco para solar, devido a uma espécie de complexo de inferioridade, e sim, muita timidez. Na estrada, passam a escrever as canções do sexto álbum, o qual chegou às lojas no primeiro dia de outubro de 1976.

E Shaw chegou chegando. Cinco das sete faixas do LP trazem sua mão na escrita, começando com a excelente "Put Me On" (obra composta à seis mãos, entre Shaw, JY e DeYoung) e que é uma exaltação as audições de um vinil, e ao mesmo tempo uma das melhores canções da banda. A devastadora introdução dos teclados, com o riff das guitarras e do baixo, é daqueles momentos eternos na carreira de uma banda, com DeYoung mandando ver no virtuosismo. Grandiosa, a introdução traz os vocais de Shaw, JY e DeYoung: "Put me on I'm your brand new record album / Side one, cut one listen to the songs / Play me loud don't you worry 'bout  your neighbours / Hope I make you feel good all day long / All day long" ("Me coloca pra tocar, eu sou seu álbum novo em folha / Lado A, faixa 1, escuta as músicas / Toca alto, não se preocupa com os vizinhos / Espero te fazer se sentir bem o dia todo / O dia todo"). Cara, que coisa sensacional. Quem nunca teve a vontade (e acabou fazendo) de colocar o vinil novinho na agulha, primeira faixa no talo, sem se importar com os vizinhos, e sair pulando pela casa, ouvindo o disco o dia inteiro??

E o mais foda é que "Put Me On" é uma paulada, pesadíssima. Cantada pelo vocal debochado de JY, a canção segue aclamando o vinil como o melhor amigo de um fã: "Put me on and play me loud / I'm the madman screaming in your living room / I'll soon be coming to your town / To sing and play a little tune / I said put me on and play me loud / Turn your stereo up all the way / All the way / Now your body's immersed in sound / So hear the synthesizers play" ("Me coloca pra tocar e toca alto / Eu sou o louco gritando na sua sala de estar / Em breve estarei chegando na sua cidade / Para cantar e tocar uma musiquinha / Eu disse me coloca pra tocar e toca alto / Aumente seu som no máximo / No máximo / Agora seu corpo está imerso no som / Então ouça os sintetizadores tocarem").

Styx, prontos para se tornarem uma das maiores bandas dos EUA

Não sou de colocar letras nos meus textos, mas "Put Me On" merece o destaque por que a letra é sensacional. Simples, direta, falando exatamente o que um fã faz ao ouvir um vinil. Após JY dizer para "ouvir os sintetizadores", DeYoung surge solando alucinadamente com os sintetizadores, levando para o magnífico solo de JY, com notas velozes e muito peso. A canção muda, e num clima quase Yes, camadas de sintetizadores trazem a voz aguda de DeYoung para cantar a última estrofe, acompanhado por violões e o leve andamento de baixo e bateria: "And now you're in the mood / Let the melody just drift your cares away / It's got to do you good / As it mesmerizes you in it's own way / So drift away" ("E agora você está no clima / Deixe a melodia levar suas preocupações embora / Ela tem que te fazer bem / Enquanto te hipnotiza do jeito dela / Então vá se deixando levar"). As vocalizações do grupo, os harmônicos de guitarra, o andamento suave, tudo leva a canção para aqueles momentos etereanos, voltando repentinamente para o riff pegado que encerra de vez uma das melhores faixas de abertura de todos os tempos.

Compacto de "Mademoiselle"
A segunda faixa nos apresenta a voz de Shaw, através de "Mademoiselle", canção cujo single atingiu Top-40 das paradas. Ela lembra muito o Queen de A Night At the Opera e A Day At the Races, com o baixão de Chuck fazendo a introdução, o riff das guitarras gêmeas e as vocalizações esganiçantes. O andamento dançante, com a guitarra e o baixo serpenteando os vocais de Shaw, além dos backing vocals agudos - puro suco de Queen - nos colocam fácil, na verdade, em qualquer álbum da trupe de Freddie Mercury nos anos 70.
Compacto de "Jennifer"

DeYoung volta aos vocais na excepcional "Jennifer", rockzão setentista comandado por piano elétrico e violões, além de uma guitarra carregada de distorções, onde o refrão é demolidor. Mais uma canção pesada, enaltecendo as belezas da menina de 17 anos, cujo amor é tão convidativo e excitante (hoje, com certeza seria uma faixa cancelada nas redes). O solo de JY, repleto de efeitos e alavancadas, e os vocais do refrão, assim como o peso das guitarras, são as grandes atrações de uma faixa poderosa e esplêndida, que encerra-se em um climão prog, cheia de sintetizadores. 

Compacto de "Crystal Ball"

Quando mal percebemos, o lado A se conclui com a faixa-título. Os violões fazem um dos dedilhados mais emblemáticos da carreira do Styx, trazendo o doce vocal de Shaw para mais uma canção brilhante. O longo trecho aos violões segue por duas estrofes que conta sobre o personagem central, que costumava andar na linha mas agora sente-se sozinho e confuso, levando ao refrão onde ele sofre e implora à bola de cristal o que fazer, explodindo num riff mais que pesado, com um espetáculo de vocalizações e o magnífico solo de moog por DeYoung. Que faixa linda e espetacular, e tem em seu final, repetindo o refrão apenas com a voz de Shaw e as guitarras detonado ao fundo, o seu ápice. Arrepiante, não à toa, "Crystal Ball" tornou-se uma das mais tocadas nas apresentações do Styx a partir de então, e um símbolo da era Shaw.


O lado B abre com "Shooz", rockaço feito por JY e Shaw, começando com o estalar de dedos e a voz de Shaw, trazendo o riff de slide feito por Shaw, que solta a garganta em uma hardão estadunidense ótimo, com pitadas southern, e ótimas vocalizações enaltecendo as diversões no fim de semana pelas ruas de Chicago. Seguimos com "This Old Man", linda canção de DeYoung em homenagem ao pai, o trabalhador de uma fábrica de luz durante trinta anos, e que ensinou ao filhou que mostrar o amor deve ser simples, e não se pode esconder os sentimentos. O riff das guitarras gêmeas logo de início já emociona, e a interpretação de DeYoung, sobre os violões de Shaw e JY, é tocante. O refrão certamente faz arrancar lágrimas dos ouvintes mais sensíveis, com os vocais entoando a melodia das guitarras gêmeas, e a marcante presença do hammond de DeYoung. No solo, com o hammond sendo o centro das atenções junto das guitarras, temos um momento mais roqueiro, mas no geral, "This Old Man" é mais uma lindíssima canção da carreira dos caras.

Por fim, como de costume nos álbuns do Styx até então, uma mistura de uma peça clássica com uma composição da banda. Aqui, temos "Clair de Lune", de Claude Debussy, apenas com DeYoung ao piano, introduzindo "Ballerina, uma paulada fenomenal que surge com a voz de DeYoung e o piano alternando bruscamente o tom de "Clair de Lune", de forma mais agressiva. Após a primeira estrofe, entra o hammond acompanhando a voz de DeYoung falando sobre seu encantamento pela bailarina. A banda então passa a acompanhar os vocais, e "Ballerina" ganha ritmo.

Um belo trecho com o dedilhado das guitarras, traz um curto solo de JY, para mais uma breve participação de DeYoung aos vocais, explodindo nos imortais "lá-lá-lás" e "o-o-os" do refrão que grudam em nossa mente. Que momento! A partir daqui é só curtir e ficar cantando junto da banda, enquanto Shaw e JY solam acompanhando os vocais de DeYoung. Fantástico, fechando esplendidamente um disco esplêndido.

O encarte de Crystal Ball traz mini-biografias de cada um dos músicos. Trago os textos para cada músico.

As mini-biografias no encarte do vinil ...

Dennis

O Styx mitológico era descrito como um rio de fogo que separava o Purgatório do Inferno. O objetivo do Styx musical tem sido acender um fogo finamente controlado no estúdio e, em seguida, deixá-lo enfurecer-se violentamente pelas salas de concerto em apresentações ao vivo. Ao traçar essa chama até sua origem, descobrimos que as primeiras faíscas emanaram do tecladista Dennis De Young, que apropriadamente incorpora esse calor intenso em temperamento e talento. Poucos tinham a disposição para lutar e escapar da turbulenta Comunidade Pullman de Chicago, na Zona Sul, e passaram a se tornar alguém de destaque. De Young participou do campo de batalha local com determinação, de modo que, quando descobriu os teclados por volta dos 16 anos, já estava suficientemente fortalecido para a batalha de dez anos que tinha pela frente. Ao longo desse período, De Young desempenhou o duplo papel de combustível e chama — ele exala o tipo de energia que pode guiar um grupo de cinco pessoas pelos momentos mais difíceis, e exibe continuamente o tipo de habilidade musical que torna o estrelato possível. É assim que Dennis encara tudo — se ele define uma meta pessoal, ela se torna realidade. Apesar de sua presença de palco tempestuosa, Dennis está obstinadamente determinado a estar no controle de si mesmo, de sua carreira e do destino do Styx — e suas canções são a razão principal para o sucesso do Styx até este momento. Seus esforços cooperativos com James Young abriram novos horizontes musicais, e a recente adição de Tommy Shaw já proporcionou mais um estímulo musical aos talentos de Dennis para composição e performance.

Chuck e John

Os irmãos gêmeos Chuck e John Panozzo nasceram com apenas 90 minutos de diferença, mas não poderia haver maior contraste entre os dois. O baterista John é o impaciente que dita o ritmo, revelando uma energia bruta interior que está perpetuamente em busca de uma fuga. Ele é alto e ostenta um cabelo afro volumoso, um tipo um tanto intimidador. Chuck é um pouco menos imponente no comportamento e na aparência, mas sua quase imobilidade no palco carrega seu próprio tipo de ameaça, e suas avaliações mais calmas equilibram a impaciência de seu irmão. Mas independentemente de quem tenha começado, essa dupla incomum de gêmeos tem fornecido o ritmo para o Styx e seus projetos anteriores desde o início. É talvez a telepatia que une o baixo e a bateria do Styx na base musical sólida em que os outros membros do grupo confiam e a partir da qual constroem. Os garotos Panozzo cresceram logo na mesma rua de Dennis, mas os três não se conheceram até que a música lhes deu um terreno comum. Na verdade, é mais preciso chamar os Panozzo de "fundadores" do Styx, porque Dennis originalmente se juntou à banda de garagem deles. Chuck e John têm um orgulho intenso de suas contribuições criativas, tanto no estúdio quanto no palco. A abordagem deles em relação aos seus papéis musicais é uma das características pessoais que compartilham — os dois Panozzo dedicam HORAS INTERMINÁVEIS de prática. John encontra uma fuga do trabalho árduo da música produzindo filmes caseiros sobre o Styx. Chuck é confiante ao trabalho de coordenar a arte dos álbuns e é o árbitro final de bom gosto do Styx. Ambos consideram a produção de filmes como parte de seus planos de longo prazo e, em algum momento, farão uma tentativa séria de cronicar as aventuras do Styx.

... e na capa interna da edição gatefold francesa

JY

Se Dennis De Young é a fera que encontra libertação através do romantismo, então James Young (chamado de "J. Y." pela banda) é o romântico que se torna um monstro na performance. Fora dos palcos, J. Y. desempenha o papel de analista cuidadoso, um homem que adota uma abordagem minuciosa nos negócios da música e em suas idiossincrasias decorrentes. Seu pragmatismo é um trunfo inestimável para o Styx, servindo para equilibrar o temperamento explosivo dos outros hiperativos integrantes do Styx. Ele vem da Comunidade Roseland, que fica adjacente à área de Pullman de onde vêm De Young e os Irmãos Panozzo. Ele se juntou ao trio cerca de seis meses antes de gravarem pela primeira vez e foi o seu trabalho eletrizante na guitarra que originalmente chamou a atenção das gravadoras quando o Styx tocava no circuito de clubes de Chicago. Suas feições marcantes e sua altura de 1,88m o tornam uma figura imponente no palco. Lá, ele deixa de lado sua abordagem geralmente pragmática das coisas e se torna totalmente desinibido. J.Y. sempre foi o Rock 'n Roller do grupo, como mostram suas canções, mas sua presença de palco rosnante e provocadora e sua guitarra selvagem finalmente encontraram um contraponto no sensual lirismo sulista de Tommy Shaw.

Shaw

Caramba, Tommy Shaw. Boas-vindas ao mais novo integrante do Styx, que expandiu o elenco totalmente de Chicago do grupo ao se juntar a eles após a conclusão do álbum anterior, Equinox. Tommy é nativo do interior do Alabama. Sua presença foi sentida imediatamente pelo Styx quando ele saiu em turnê com eles apenas alguns dias após o primeiro ensaio. Tom estava bem preparado para isso, no entanto, tendo dedicado 18 de seus 23 anos à guitarra, trabalhando continuamente, esperando pacientemente por sua oportunidade. Seu impacto foi aparente no palco imediatamente, adicionando uma dimensão revigorante à performance ao vivo do Styx. Ele é um forte comunicador no palco, apesar de suas proporções físicas miúdas, que contrastam com a altura imponente de J. Y. Seu desejo de vencer é algo compartilhado com o resto da banda, e seu talento será um trunfo inestimável para o Styx. De qualquer forma, seus companheiros consideram sua adição ao grupo como a melhor coisa que aconteceu desde que J. Y. se juntou ao grupo 5 anos atrás. Durante seus anos em bandas de circuito de clubes que trabalhavam duro, mais notavelmente a M. S. Funk, Tommy acumulou uma grande quantidade de material. Ao verificar os créditos deste álbum, você notará que ele não perdeu tempo em dar sua contribuição à música do Styx. O grupo demonstrou sua fé no recém-chegado ao dar ao álbum o título de uma música totalmente escrita e cantada por Tommy. As contribuições de Tommy — tanto no estúdio quanto no palco — garantirão um crescimento contínuo para o Styx, fornecendo outro estilo musical e uma abordagem diferente da vida. Seu dinamismo impulsionará o grupo ainda mais em direção à perfeição musical e ao estilo mais individual que eles sempre buscaram.

Com estas credencias, o Styx entrava em uma nova fase. Crystal Ball não teve uma recepção muito boa de início, alcançando apenas a posição 66 na Billboard, a mais baixa de um lançamento do Styx pela A&M. Mas também, o que veio na sequência foram absurdos de vendas. Porém, com o passar dos tempos, Crystal Ball subiu nas vendas, alcançando ouro no Canadá (50 mil cópias) e Estados Unidos (500 mil cópias). A partir daqui, o Styx só iria crescer nos Estados Unidos. The Grand Illusion (1977, 6 milhões de cópias no mundo, sendo 3 milhões apenas nos EUA), Pieces of Eight (1978, 5 milhões em escala mundial, sendo 3 milhões nos Estados Unidos), Cornerstone (1979, 4 milhões em nivel mundial, com metade disso somente nos Estados Unidos) e Paradise Theater (1981, único primeiro lugar nos Estados Unidos, vendendo quase 4 milhões de cópias) colocaram a banda no topo das paradas e vendas, fazendo-a uma das maiores de sua geração. Encerro então as duas homenagens aos álbuns aniversariantes do Styx dizendo simplesmente: ouça!

Contra-capa do vinil

Track listing


1. Put Me On


2. Mademoiselle


3. Jennifer


4. Crystal Ball


5. Shooz


6. This Old Man


7. Clair de Lune / Ballerina

sábado, 26 de setembro de 2026

A Young Person's Guide To: Caetano Veloso As Guest (Part II)



A segunda "coletânea" apresentando Caetano como convidado, agora traz a presença do baiano em álbuns ou canções ao lado de mulheres. É curiosa a relação de Caetano com artistas femininas, pois até 1980, ele só havia participado de gravações ao lado ou de Gal Costa ou da irmã Maria Bethânia, com uma rara participação no álbum Os Meus Amigos São Um Barato, cantando Odara" junto da dona do álbum, Nara Leão, em 1977, o qual marcou o retorno de Nara aos lançamentos regulares depois de algum tempo. 

Porém, a partir de 1980, Caetano expandiu seus horizontes musicais ao lado de mulheres, gravando ora composições suas, ora regravações, ora canções inéditas. As 14 participações que listo abaixo, conforme citado na primeira parte, são todas canções que nunca haviam sido lançadas - até então - em álbuns oficiais de Caetano, mas destaco que além delas, você encontrará a voz do mano Caetano nos seguintes discos de artistas femininos (marcas com * estão presentes no CD de extras das caixas 40 Anos Caetanos, Vol. 3 e Vol. 4), lembrando que estes são os que tenho em coleção, e deve haver muito mais por aí:

Telma Costa* (Telma Costa), Xuxa (Xuxa e Seus Amigos), Margareth Menezes (Gente de Festa *, Para Gil e Caetano), Fiorella Manoia (Gente Comune), Vania Bastos (Cantando Caetano), Cesaria Evora (São Vicente de Longe), Negra Li* (Negra Livre), Belô Velloso (Belô Velloso), Elba Ramalho (São João Carioca), Maria Dolores Pradera (Caminemos), Mercedes Sosa (Cantora), Hebe Camargo (Hebe Camargo & Convidados), Roberta Spindel (Dentro do Meu Olhar), Maria Odette* (Maria Odette), Dona Ivone Lara (Casa de Samba 1), Gil (Casa de Samba 3)

O Lado A tem sete canções ao lado de cantoras brasileiras, enquanto o Lado B fica com cinco cantoras internacionais e duas brasileiras (uma delas com Caetano cantando em inglês). No próximo mês, trago a participação de Caetano em discos de bandas, assim como gravações ao lado de Bethânia e Gal. 

Lado A

1. "Nosso Estranho Amor": Marina - Olhos Felizes [1980]

Um dos maiores sucessos da carreira de Caetano, em termos de composição, "Nosso Estranho Amor" foi gravada pela primeira vez no segundo álbum de Marina (futura Lima). Este blues conduzido por piano e guitarra, no qual Caetano expõe seus problemas de relacionamento com a esposa na época, Dedé Gadelha, tem a participação do compositor cantando o imortal refrão "ah mainha, deixa o ciúme chegar, deixa o ciúme passar e sigamos juntos". Enquanto Marina declama a letra blueseira e apaixonada, Caetano surge com vocalizações ao fundo, e soltando a voz no refrão. Emblemática, atemporal e com um timaço de banda de apoio (Helvius Vilela, do Tempo Trio, no baixo, Pedrinho Batera, do Som Nosso de Cada Dia, na bateria, Paulo Rafael do Ave Sangria, nas guitarras, e Paulo Barros no baixo), um magistral solo de guitarra, música fundamental para abrir esta "coletânea".

2. "Mansidão": Jane Duboc - Jane Duboc [1982]

Quem ouve Depois do Fim, o incrível álbum que a Bacamarte lançou em 1983, e se encanta com a voz de Jane Duboc, se quer imagina que o disco foi gravado quando ela ainda não possuía uma carreira oficial. Ao longo dos anos 70, e início dos anos 80, Jane foi voz ativa nos backing vocals de artistas como Roberto Carlos, Chico Buarque, Tavito e, Caetano Veloso, fazendo parte do grupo que registrou Outras Palavras. A amizade entre os dois levou Caetano a contribuir no segundo disco solo de Jane, contando que o primeiro "oficial" foi lançado carregando o sobrenome do então marido Gay Vaquer, sob a alcunha de Jane Vaquer, e ao lado de José Tobias, em 1977. Somente em 1980 ela lançou o primeiro disco com o nome Jane Duboc, no caso Languidez, criando assim "Mansidão", uma linda bossa nova que surge com o violão e a voz de Caetano, seguido pelo piano e a voz de Jane. Um belo contraste entre os instrumentos e as vozes, serpenteados por um belíssimo baixo acústico. A voz de Jane se sobressai na maior parte do tempo, mas o violão e a voz de Caetano se fazem presentes, ajudando a nos revelar a amplitude cultural de uma das maiores intérpretes de nosso país.

Com Joyce

3. "Samba da Benção": Joyce - Negro Demais No Coração [1988]

Joyce Silveira Moreno foi apadrinhada por Vinícius de Moraes, destacando-se como cantora, instrumentista e compositora, o que a levou a se tornar a Menina dos Olhos da Bossa Nova durante a década de 70. Nos anos 80, depois de uma série de discos de pouco sucesso, Joyce resolveu regravar composições do padrinho no álbum Negro Demais No Coração. E coube a Caetano emprestar sua voz para abrir o disco com a atemporal "Samba da Benção" (com a frase que batiza o álbum), de Vinícius e Baden Powell. Joyce esbanja graça na sua voz e no violão, e quando Caetano passa a cantar, é um complemento gigantesco para algo que se transforma em uma jam maravilhosa, inserindo músicas incidentais ("O Samba da Minha Terra", "O Que Que A Baiana Tem", "Requebra Que Eu Dou Um Doce", "Aquarela Do Brasil" e "El Manisero") que fazem uma fusão sensacional do samba carioca de Vinícius com a malemolência do gingado baiano de Dorival Caymmi, através das vozes carioca e baiana de uma dupla sensacional, e por que não, genial!

4. "Cantar": Silvia Patricia - Silvia Patricia [1991]

Mais uma baiana na vida de Caetano, Silvia Patricia (hoje, Sylvia Patricia) veio ao mundo em uma família musical (para se ter ideia, seu avô é primo do pai de Alceu Valença). Falaria horas sobre o talento e a formação de Silvia, que é uma artista reconhecida internacionalmente, mas no Brasil, quase não se fala dela. Em 1988 lançou seu primeiro disco, inspiradíssima em Marina Lima. Com seu segundo disco, lançado em 1991, Silvia mergulhou naquele clima de canções sem tantos teclados e mais dançantes, no que foi chamado pela imprensa de "Pop urbano", e chamou Caetano para cantar "Cantar". uma faixa bastante linda e suave, levada pelos violões de Waltel Blanco e Chico Braga, onde a voz de Silvia está bastante delicada. Mas com certeza é Caetano quem dá o upgrade definitivo à faixa, ao entrar com sua voz igualmente delicada, mas cheia de manha. Os violões com um ar sertanejo, e o belo arranjo de cordas, dão um ar campeiro para a faixa que a torna ainda mais atrativa, e não à toa, levou-a a fazer parte da trilha de Pantanal.

5. "Onde O Rio É Mais Baiano": Alcione - Brasil De Oliveira Da Silva Do Samba [1994]

A parceria do baiano Caetano com a maranhense Alcione é de longa data. Em 1994, Marrom gravou "Onde O Rio É Mais Baiano", uma ode de Caetano à escola Estação Primeira da Mangueira. E quem melhor que a mangueirense raiz para entoar um sambaço de tirar o chapéu. Anunciado com honras, Caetano dá um show cantando seu samba, e claro, o vozeirão de Alcione preenche as caixas de som. O refrão no ritmo do Olodum, com ambos cantando juntos, enaltecendo que "A Mangueira é onde o Rio é mais baiano", é o momento mais forte de uma grande canção. Caetano regravou-a em Livro (1997), disco bastante influenciado pelas percussões do Olodum, e fez mais uma nova parceria com Marrom no clássico A Paixão Tem Memória (2004), com "Pedra de Responsa"*. Mas para mim, é "Onde O Rio é Mais Baiano" a melhor faixa que ele gravou com a Rainha do Samba.

Com a "Marrom" Alcione

6. "Noite Chuvosa": Ângela Maria - Amigos [1996]

Se na edição anterior trouxe para a coletânea a colaboração de Caetano com a magnífica voz de Nelson Gonçalves, não podia deixar de fora sua fundamental contribuição com a Sapoti Ângela Maria. Uma das maiores vozes de sua geração, Ângela também quis surfar na onda de gravar com artistas da nova geração, e em Amigos, chamou Caetano para interpretar "Noite Chuvosa", de Britinho. A dolorida canção ganhou um ar dramático através do piano de Eduardo Souza Neto e do violão de João Lyra. Caetano e Ângela alternam-se nas estrofes, dividindo o espaço igualitariamente, e o arranjo de cordas engrandece o samba-canção do pelotense João Adelino Brito, com uma magistral interpretação de Ângela. Para poucos, mas esses poucos sabem o que quero dizer.  

7. "Jeito Faceiro": Virgínia Rodrigues - Nós [2001]

Em 1997, a cantora baiana (mais uma) Virgínia Rodrigues surgiu ao mundo através de uma descoberta de Caetano, durante as gravações do já citado Livro. O vocal lírico e grave de Virgínia chocou os puristas da axé music, mas encantou aqueles que apreciam música clássica com inovações, levando o The Times de Londres a chamá-la de "nova diva da música brasileira", enquanto a imprensa estadunidense batizou-a de "Cinderela Brasileira". O que ela entrega em Nós, homenageando os blocos afro de Salvador, são encantadoras faixas com orquestras e violões, além de belos arranjos que fazem a negritude baiana do candomblé e da umbanda ser totalmente recriada musicalmente. E ainda tem a honra de dividir os vocais com quem a descobriu em "Jeito Faceiro", uma canção que parece saída das entranhas do Uakti, com um belo arranjo percussivo, e a voz delicada e singela de Caetano sendo um contraponto aos graves e potentes cânticos de Virginia. O dolorido violino que acompanha o vocal dos dois equilibra as diferenças vocais, e é impossível não se arrepiar com algo tão inovador, e ao mesmo tempo reflexivo. Você não precisa gostar de axé music, mas o que foi feito por Caetano e Virgínia aqui, é de altíssimo padrão!

Com Elza Soares

Lado B

1. "Sophisticated Lady": Elza Soares - Somos Todos Iguais [1985]

Depois de um período conturbado em sua vida, quando se separou de Garrincha, e viu o "gênio das pernas tortas" falecer, afastada da música e sem dinheiro para sustentar a si e ao filho Garrinchinha, Elza procurou Caetano desesperada pedindo ajuda. O baiano a acolheu, e a levou para gravar "Língua", em Velô (1984). A canção virou um sucesso nacional, e no ano seguinte, a Som Livre lançava Somos Todos Iguais, com Elza voltando ao mercado da música após cinco anos. Em um repertório variado, o jazz revisitado de "Sophisticated Lady" (Duke Ellington) é um êxtase musical, ainda mais conduzido pelo violão e a voz aveludada de Caetano, que canta em inglês, enquanto a voz áspera e cheia de potência de Elza (particularmente, ao vivo um dos shows mais impressionantes que eu vi) preenche as caixas de som. Infelizmente desconheço os músicos que acompanham Elza, mas o solo de saxofone, e a base do piano, junto ao violão de Caetano e um espetacular baixo acústico, é para ficar girando o uísque embriagado pelo álcool e pela leveza de uma brilhante canção.

2. "Olhos Castanhos": Eugenia Melo e Castro - Amor É Cego e Vê [1991]

A portuguesa Eugenia Melo e Castro fez sucesso no Brasil nos anos 80, graças a sua parceria com Kleiton Ramil e a capacidade de descobrir talentos de Wagner Tiso, que produziu os primeiros discos da cantora no país. Através de Tiso, Eugenia conheceu Caetano, que logo no segundo disco da portuguesa, entregou "Meu E Assim", presente também no terceiro álbum dela. No quarto, grava a faixa-título "Coração Imprevisto", e finalmente, em 1991, a dupla faz uma linda adaptação para "Olhos Castanhos", de Alves Coelho Filho. Apesar dos teclados modernosos e do andamento quadradão, o sotaque português delicadíssimo de Eugenia funciona perfeitamente com a voz manhosa de Caetano, que alternam-se nas estrofes de forma que um complementa o outro. Faixa para curtir sem pretensão alguma, e apenas absorver um pouco dos sempre bem-vindos ares lusitanos.

com Fiorella Manoia

3. "Il Culo Del Mondo": Fiorella Mannoia - Gente Comune [1994]

Em 1994, Caetano foi a Itália para gravar com Fiorella Manoia uma ótima versão para "O Cú Do Mundo" (lançada originalmente no excelente Circuladô, de 1991), intitulada "Il Culo del Mondo". A versão musicalmente é muito fiel ao original de Caetano, levada por um baixo estonteante, o violão marcante e uma percussão jamie muriana para fã de King Crimson não botar defeito. Ouvir Fiorella soltando seu vozeirão nas agressivas palavras da letra de Caetano, em italiano, dá um charme ainda maior para uma música naturalmente agressiva, na qual Caetano colabora cantando também em italiano, e refazendo o refrão em português. Os dois se encontraram 12 anos depois para regravar uma versão em italiano de "13 de Maio", gravada originalmente por Caetano no álbum Noites do Norte (2001). Ok, eu havia dito que não ia colocar regravações de Caetano na lista, mas como resistir a uma ruivinha xingando muito em italiano? 

4. "Mistério de Afrodite": Teresa Salgueiro - Brizzi do Brasil [2002]

Este é um caso curioso, pois o álbum é uma daquelas belas amostras do talento de um compositor (no caso Aldo Brizzi) que se apoia em ombros de gigantes para transformar suas ideias em arte. Com a presença de nomes como Gilberto Gil, Arnaldo Antunes, Tom Zé, entre outros, o compositor italiano chamou Caetano para duas canções, e uma delas esse delicado fado, ao lado da eterna voz do Madredeus Teresa Salgueiro. Caetano usa e abusa de vocalizações, fazendo intervenções cruciais, mas é Teresa o centro das atenções, dando uma aula - como sempre - de interpretação vocal. Com um instrumental apenas ao violão, baixo e uma tímida percussão, é no tocante sotaque português, que contracena divinamente com as participações cheias de dor de Caetano, entoando o nome de uma faixa belíssima, que ela tem que se fazer presente aqui. Pontual e para se embriagar acompanhado de um bom vinho português!

5. "Island of Wonder": Nelly Furtado - Folklore [2003]

A canadense Nelly Furtado fez sucesso em 2000 com o álbum Whoa, Nelly!. Com apenas 21 anos, a menina encantou o mundo com faixas como "I'm Like A Bird" e "Turn Off the Light", que levaram Nelly a vender mais de 7 milhões de discos ao redor do mundo, e seu som pop com elementos do trip hop. Em seu segundo álbum, a descendente de açorianos resolveu mudar totalmente a sonoridade. Batizado de Folklore, o disco imerge em sons voltados ao folk (como o nome diz), tendo como destaque a bela canção "Island of Wonder". Composta por Caetano, ela mistura algo do flamenco com pitadas do olodum, em um ritmo hipnotizante e tenso, que ganha um toque emotivo brilhante nas vozes de Nelly (cantando em inglês) e Caetano (cantando em português e inglês). O refrão desta canção é lindíssimo, e apesar dos scratches no meio da canção, as vozes de Nelly (arregaçadora) e Caetano carregam ela para status de grandiosa.

Com Lila Downs

6. "Burn it Blue": Lila Downs - Frida [2003]

Não necessariamente uma participação em um álbum de uma artista, mas sim (mais) uma parceria com uma cantora, "Burn it Blue" está presente na trilha sonora do filme Frida, na qual a mexicana Lila Downs é responsável pela voz de cinco faixas. Dentre elas, este espetáculo sonoro que encerra o álbum, e que foi indicado ao Oscar de Melhor Canção Original na 75ª edição do Academy Awards em 2003 - com apresentação da dupla Caetano e Lila em pleno palco do Oscar defendendo a canção, com orquestra e tudo - , do qual a trilha ganhou, mas a canção perdeu para "Lose Yourself", do Eminem, feita para o filme 8 Mile. Tendo tom dramático, ela é puxada pelo violão flamenco e uma das performances vocais mais lindas e incríveis de toda a carreira de Caetano, cantando em inglês. A presença de cordas dá ainda mais dramaticidade para a canção, que ganha contornos de ansiedade com a entrada da voz angustiada de Lila, contrapondo a voz de Caetano. O duelo vocal dos dois, ele em inglês, ela em espanhol, é de se ajoelhar diante das caixas de som, e quando ela canta sozinha, caralho, é de arrepiar. Que música incrível, praticamente obscura na discografia do baiano, e com certeza, uma das grandes obras já registradas em toda sua carreira, seja solo, seja ao lado de outro artista.

7. "Pé Do Meu Samba": Mart'nália - Ao Vivo [2004]

Fechando a coletânea, algo para irritar os leitores. Caetano sembre teve um pé no samba, e ao longo de sua carreira, compôs diversas canções no estilo. Uma de suas composições batizou o álbum de Mart'nália de 2003, que acabou sendo levado aos palcos e registrado em Ao Vivo (2004). Um lindo samba, onde o cavaquinho de Tavinho Menezes e a cuíca de Ovídio Brito fazem a base para uma interpretação magistral de Caetano. Seu dueto vocal com Mart'nália, ao longo do refrão, é fantástico, e claro, a voz cheia de marra e do sotaque carioca de Mart'nália dá um ar ainda mais agradável para esse sambaço. Os xiitas fãs de metal vão se ofender ao ver um samba por aqui, mas aos que têm mente aberta e apreciam boa música, independente do gênero, com certeza irão curtir essa faixa. 

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