Mostrando postagens com marcador The Yardbirds. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador The Yardbirds. Mostrar todas as postagens

sábado, 27 de abril de 2024

Consultoria Recomenda: Invasão Britânica



Editado por André Kaminski

Tema escolhido por Davi Pascale

Com Anderson Godinho, Daniel Benedetti, Fernando Bueno*, Líbia Brígido, Mairon Machado e Marcello Zappellini

Uma bela seleção de discos clássicos sessentistas aparece neste Recomenda, focado nas bandas do movimento conhecido como "Invasão Britânica", liderado principalmente pelos Beatles, Rolling Stones e The Who. Mas tirando esses gigantes, a Invasão Britânica da América teve muito mais bandas, tanto grandes como pequenas, que fizeram algum sucesso ou lançaram seus discos por lá. O que achou de nossa seleção? Comente lá embaixo!


Herman's Hermits - Both Sides of Herman´s Hermits [1966]

Por Davi Pascale

A British Invasion também ficou marcada com a presença de grupos mais pops. Dentre esses, sempre gostei muito do trabalho realizado pelo The Hollies, pelo Gerry & The Pacemakers e pelo Herman´s Hermits. Pensei muito em qual álbum indicar porque, assim como acontecia com os The Beatles, a discografia norte-americana (e também, a brasileira) eram, muitas vezes, álbuns criados para aquele país misturando algumas músicas do disco em questão com as músicas lançadas nos compactos. Queria indicar um álbum como foi concebido e comecei a revirar o tracklist (muitos desses discos tenho a versão norte-americana na minha coleção) e notei que nesse LP continha “Bus Stop”, uma faixa que tocou bastante aqui no Brasil. Além dessa, também gosto muito de “Listen People”, “The Story of My Life”, “When Where You When I Needed You” e “Dial My Number”. Disco bem bacana e que difere um pouquinho dos álbuns indicados aqui, que são espetaculares, mas são mais focados no blues ou na psicodelia.

Anderson: Nesse álbum as melodias cativantes, alegres e a simplicidade das músicas apresentam um cenário mais atrelado ao pop rock, algo mais palatável não tão agressivo com distorções ou vocais mais elaborados. Elementos distintos de outras bandas já comentadas e que justamente por isso posicionam o Herman’s Hermits em um espectro um pouco diferente das demais citadas ao meu ver. Dentre as mais interessantes citaria a boa Bus Stop que na verdade é um cover da banda The Hollies e a animada Dial My Number. No geral foi o material que menos me empolguei em reouvir, mas deve-se destacar que participaram do movimento da Invasão Britânica com alguma relevância.

André: Não faz muito tempo que eu conheci este álbum. Eles pegam por um lado mais pop do que rock em seus discos, mas o fazem com uma qualidade exemplar, caso deste disco.

Daniel: Não conhecia. É aquela sonoridade bem Beat, mas, aos meus ouvidos, soou excessivamente adocicada. Não é pra mim.

Líbia: Esse grupo também não era do meu conhecimento. Eles tem uma variedade de estilos bem variados, explorando muitos estilos em evidência na época de lançamento. Tem muita qualidade em suas músicas. A que mais se destacou para mim foi a “Where Were You When I Needed You”, quando ouvi senti algo familiar nos primeiros acordes, e lembrei imediatamente da “Crystal Light” do UFO, lançada anos depois. Deixando de lado essa observação, achei todo o conjunto musical muito bom, os vocais aqui estão mais entregues ao coração assim como todo o restante da banda, a dinâmica da música é muito boa. Se eles seguissem essa linha em todo o restante do álbum seria mais incrível.

Mairon: Eita. Não lembro a última vez que ouvi este disco. Deve ter sido lá no final de 2007, início de 2008, por aí. Era uma época onde os blogspots da vida estavam bombando, assim como vários grupos do Orkut traziam links para baixar discos diversos, e eu me divertia conhecendo muita coisa boa de diversos estilos. Quando coloquei aqui para tocar, lembrei na hora do choque que tomei ao ouvir o baixão e o peso de "Little Boy Sad", com o arranjo vocal interessantíssimo, mas depois o disco não segue assim. Ao longo de pouco menos de meia hora, o que se sobressai são arranjos vocais espetaculares, e um instrumental bem fraquinho, como atestam "Bus Stop", "Dial My Number" e "Where Were You When I Needed You?". É legal ouvir Herman (Peter Noone) cantando em francês tosquinho de "Je Suis Anglais (L'autre Jour)", mas a sua voz acaba se tornando as vezes irritante. O solo de guitarra de "For Love" é no mínimo constrangedor. Melhor faixa para o rockaço de "My Reservation's Been Confirmed". Obrigado ao consultor que recomendou esse disco (ouvi a versão britânica por sinal) por me fazer dar algumas risadas lembrando de um passado não muito distante.

Marcello: A banda de Peter Noone nunca me chamou a atenção, para ser honesto, mas o cantor tem meu respeito, afinal ele foi o primeiro a colocar nas paradas “Oh! You Pretty Things”, de David Bowie. Além do ótimo Noone nos vocais (à época com 19 anos, mas já um intérprete maduro e com boa variação de voz), o grupo incluía Derek Leckenby e Keith Hopwood nas guitarras, Karl Green no baixo e Barry Whitwam na bateria, que lidera uma versão da banda até hoje. O forte da banda eram os arranjos vocais, mas as guitarras não comprometem, destacando-se nas várias músicas. Este é o segundo LP inglês (e o quarto americano) da banda e traz doze músicas, na maioria covers, e teve como grande sucesso “Leaning on a Lamp Post” (o que não dá de entender, porque a música é bem enjoadinha). O álbum começa com as guitarras surpreendentemente pesadas de “Little Boy Sad”, um dos seus destaques, junto com “My Reservation’s Been Confirmed”, “For Love”, a curiosa “Je Suis Anglais” – que deveria ter feito sucesso na França, com Noone arriscando-se no francês, e a bela baladinha “Listen People”. Por outro lado, a versão de “Bus Stop” (de Graham Gouldman), é mais fraca do que a do The Hollies (e confirma que Bobby Elliott era um dos melhores bateristas da cena britânica nessa época) e “All the Things I Do For You” soa como um pastiche de Bob Dylan imitando os Beatles tentando fazer uma música dylanesca. As demais músicas não se destacam, mas também não comprometem. No todo, o disco é bom, mas sofre do mesmo problema que a esmagadora maioria das bandas da época: as coletâneas são melhores. E apesar de suas qualidades, o Herman’s Hermits não figura alto na lista das bandas inglesas dos anos 60.


The Kinks - Kinks [1964]

Por Anderson Godinho

Acredito que o The Kinks represente muito bem essa fase de virada cultural que ocorria no Reino Unido dos anos 1960: uma banda de irmãos e amigos já envolvidos na cena musical, que buscavam seu lugar ao sol através de uma sonoridade que passa por Folk, Blues, R&B e moldava a cara do tal Rock ‘n’ Roll. O debut autointitulado da banda traz um material muito eclético e interessante, são poucos mais de 30 minutos que apresentam uma síntese da banda e abriria um leque de possibilidades para seu futuro à época. Praticamente todas a músicas são muito boas no que apresentam. Desde as animadas misturas folk/blues como So Mystifying e I’m a Lover Not a Fighter, passando por aquele toque de rockabilly de I Took my Babe Home. Dentre as autorais, uma vez que o algum é composto por covers, Stop Your Sobbing atende a demanda por baladas românticas. Agora, se o Kinks alçou voos altos na carreira com certeza a pérola You Really Got Me foi a principal responsável! A música, ainda hoje aclamada, alcançou ótimos números logo após o lançamento do material e apresentou algo realmente empolgante e, porquê não dizer, a frente se sua época. Fato é que após esse belo debut, a banda lançaria mais de 20 álbuns até pelo menos os anos 1990.

André: Gosto bastante do Kinks e de sua atitude mais despojada ao compor e gravar suas músicas. É um álbum da invasão britânica, todavia, sem o mesmo brilho dos gigantes Beatles, Stones e Who. A banda melhoraria muito a partir do terceiro disco para frente. Daqui me agrada as versões deles para "Long Tall Shorty" e "Bald Headed Woman". Suas poucas composições próprias me passam despercebido e os outros covers são bem inconsistentes. Disco no melhor dos dias, mediano.

Daniel: A banda dos irmãos Davies em seu primeiro trabalho já mostrava a que veio. Em um misto de composições originais e várias versões, o álbum é muito divertido. Só “You Really Got Me” já valeria a audição, mas o disco é bem mais que isso. O “alto-astral” do álbum nem vislumbra a animosidade que Ray e Dave desenvolveriam ao longo do tempo. Bela indicação.

Davi: É realmente impressionante constatarmos quantos músicos dessa geração foram influenciados pelo saudoso Chuck Berry. Em seu álbum de estreia, os Kinks traziam duas regravações desse que é considerado o pai dos riffs. O hit “Too Much Monkey Business” aparece em uma versão bem mediana e bem inferior à registrada pelo rei do rock Elvis Presley. Já “Beautiful Delilah”, responsável por abrir o LP, ficou fenomenal e é um dos grandes destaques do disco. Assim como os Stones e os Pretty Things, eles misturam releituras com números originais e o mais bacana é que os grandes destaques ficam por conta das autorais “So Mystifying”, “Stop Your Sobbing” (que anos mais tarde voltaria às paradas com uma versão fenomenal dos Pretenders) e “You Really Got Me” (que anos mais tarde voltaria a causar barulho com a incrível regravação do Van Halen). Um bom disco dessa grande banda.

Líbia: Neste registro, os Kinks ainda estão buscando sua identidade sonora. É evidente a presença de diversas influências de artistas de Rhythm and Blues que os inspiraram. No entanto, se há uma faixa que se destaca é a "You Really Got Me". Essa música, de muitas maneiras, é a raiz do surgimento do punk rock. Além disso, Dave Davies é um dos pioneiros do efeito Fuzz na guitarra, pois é conhecido por ter cortado os cones dos alto-falantes de seu amplificador para obter um som distorcido, o que acabou criando esse efeito, e influenciou muitos músicos depois dele.

Mairon: Fabulosa estreia dos caras, trazendo fortes inspirações no blues e no rock 'n' roll americano. Logo de cara, "Beautiful Delilah" surge como que saída de algum álbum perdido de Elvis Presley. Acho a banda muito similar ao que os Stones faziam na mesma época, vide os vocais despojados de "Got Love If You Want It",  "Long Tall Shortly" e "I'm A Lover Not A Fighter", ou as vocalizações de "I'm Been Driving on Bald Mountain" e "So Mystifying". Ou mesmo quando enveredam para baladinhas, como "Just Can't Go to Sleep" e "Stop Your Sobbing", e rockzinhos animados, tais como "I Took My Baby Home" e o cover para "Too Much Monkey Business" (Chuck Berry), parece que falta algo que seus colegas tinham (técnica talvez?). Acabei pegando a versão britânica para ouvir, e nela, o lado B é bem melhor. Gosto da harmônica em "Cadillac", falando de carros como muitos à época, a pegada de "Revenge", bela pauladinha instrumental, e também a cômica "Bald Headed Woman". O lado A por outro lado traz uma obra prima do calibre de "You Really Got Me", imortalizada pela voz de David Lee Roth e a guitarra de Eddie Van Halen, e que é disparada a melhor canção do disco, totalmente diferente das demais, com ótimos vocais e um belo solo de guitarra (para a época muito "audacioso"). As críticas não diminuem a qualidade de Kinks. Somente os coloca um nível abaixo dos gigantes Stones, Beatles e claro, Yardbirds. A banda se tornaria bem maior na segunda metade dos anos 60 e início dos 70, mas isso é para outro Recomenda talvez.

Marcello: The Kinks seria a banda mais britânica de todas as que compõem a chamada “British Invasion”, mas isso ainda não estava nítido nesta época. Os irmãos Ray e Dave Davies, mais Peter Quaife (baixo) e Mick Avory (bateria – antecedeu Charlie Watts numa das primeiras versões do que se tornaria os Rolling Stones), gravaram 14 músicas nessa estreia britânica, sendo seis covers de músicas americanas, duas do produtor Shel Talmy (que também trabalhou com o The Who) e o resto era de Ray Davies. E são do vocalista e guitarrista rítmico as músicas mais conhecidas do álbum, “You Really Got Me” e “Stop Your Sobbing”. O álbum abre com “Beautiful Delilah”, de Chuck Berry, com os Kinks soando quase como uma banda punk! Curiosamente, a primeira música é cantada por Dave Davies e não por Ray. As primeiras músicas de Ray no álbum, “So Mistifying” e “Just Can’r Go To Sleep”, são bem mais interessantes, ainda um pouco imaturas, mas não se pode esquecer que eram composições de um garoto de 19-20 anos. E o resto do lado A segue com rocks sessentistas bem simpáticos (“I’m a Lover Not a Fighter” é uma cópia de “You Can’t Catch Me”, de Chuck Berry, e traz Dave no vocal principal e Ray no seu único solo de guitarra em todo o álbum), até chegar na monumental “You Really Got Me” e sua guitarra distorcida, grande sucesso do disco. A curta “Revenge” traz Ray na harmônica, e os vocais são apenas para fazer efeito. Outra de Berry, “Too Much Monkey Business”, é mais tradicional e mais próxima do original. “Bald Headed Woman” e “I’ve Been Driving on Bald Mountain” são composições de Shel Talmy, e têm pouco destaque, deixando apenas a pergunta de por que tanta preocupação com carecas. A linda “Stop Your Sobbing” vem em seguida, mostrando que os Kinks só tinham a ganhar se investissem nas músicas de Ray. O álbum original termina com “Got Love If You Want It”, clássico do blues que trocentas bandas gravaram.  A edição DeLuxe traz quase meia hora a mais de música, incluindo outro clássico de Ray Davies, “All Day and All of the Night”. Considerado no todo, “The Kinks” não figura muito alto numa lista de melhores álbuns da banda, mas é um disco honesto, enérgico e que já deixava entrever o talento de Ray Davies para composição. Coisas melhores viriam, mas é aqui que tudo começou.


 

The Animals - The Animals [1964] (British Album)

Por Marcello Zappellini

O primeiro LP britânico não traz “The House of the Rising Sun”, que catapultou a banda ao estrelato, diferentemente do americano. Mas escolhi essa versão porque ela capta melhor a energia primitiva do The Animals, a banda que tirou seu nome da reação do público aos seus shows caóticos (o grupo se chamava The Alan Price Set). A formação é a clássica com Eric Burdon nos vocais, Alan Price nos teclados, Chas Chandler no baixo, Hilton Valentine na guitarra e John Steel na bateria, e o repertório é praticamente todo formado por covers de artistas americanos de blues e rhythm’n’blues. A primeira coisa que você ouve ao colocar o disco para tocar é o órgão de Price, grande destaque instrumental da banda, abrindo “The Story of Bo Diddley”, letra de Burdon sobre a famosa “Bo Diddley Beat” – com direito a uma citação de “A Hard Day’s Night”. Na sequência, o que se tem são clássicos de John Lee Hooker (“Dimples”, “I’m Mad Again” e “Boom Boom”), Fats Domino (“I’ve Been Around”, “I’m in Love Again”), Chuck Berry (“Memphis Tennessee” e “Around and Around”), Ray Charles (“The Right Time”), bem como outras composições extraídas da mina de ouro da música americana (“She Said Yeah”, “Bury my Body” e “The Girl Can’t Help It”). As comparações com os Stones, que mineravam o mesmo catálogo, são inevitáveis: “She Said Yeah” e “Around and Around” se saem melhor com o quinteto londrino de Jagger e Richards, mas “Memphis Tennessee” ficou melhor com a turma de Newcastle capitaneada por Burdon e Price, especialmente porque a voz de Eric se casou melhor com a música do que ade Mick Jagger. Os destaques, para mim, ficam com “Dimples” e “The Girl Can’t Help It” (ambas com direito a belos solos do eternamente subestimado Valentine), “I’m Mad Again” (Burdon na sua melhor forma), o órgão de igreja de Price em “The Right Time”, perfeita para a voz de Burdon, e “Boom Boom” – o velho John Lee deve ter curtido essa versão. “The Animals” não traz a música que tornou a banda um sucesso, mas é mais próximo do que eles faziam no palco do que “The House of the Rising Sun”.

Anderson: Assim como era praxe na época, muitas alusões ao blues e ao folk derivados dos EUA, bem como, versões e homenagens. Nesse álbum o The Animals apresenta alguns dos elementos que o caracterizam como banda, como: o contrabaixo e os teclados. Agora, não é possível pensar em The Animals e não ouvir a poderosa voz de Eric Burdon! A abertura do disco é Story Of Bo Diddley e apresenta uma narrativa que contextualiza todo esse cenário de reinvenção e expansão do rock britânico a partir da breve história de Bo Diddley. Logo na sequência um dos destaques do disco, a poderosa Bury my Body que apresenta um som pesado com Eric Burdon destruindo! Dentre algumas coisas mais calmas ou românticas, destaco, o bom blues I’m Mad Again muito intensa que apresenta uma crescente bem interessante. Por fim, a agitada e animada She Said Yeah. Dentre todas essas bandas do período o The Animals é uma que não pode faltar. Uma bela pedida.

André: Tirando a primeira faixa, mais covers. Porém, diferente dos Kinks, os Animais aqui fazem versões muito boas ou até mesmo melhores que as originais dando praticamente uma geral naquilo que seria o início do rock 'n' roll da década anterior. Acho "Bury my Body" e "I'm Mad Again" belíssimos hinos de uma época em que ninguém sequer consegue copiar mesmo com toda a tecnologia de hoje.

Daniel: Fazia muito tempo que eu não ouvia este disco, mas me recordo de que, quando o fiz, não havia me marcado muito. Talvez o fato de que o ouvi logo após a audição do álbum dos Kinks tenha prejudicado minha experiência, mas a realidade é que não me comoveu (novamente). Ah, eu curto a ótima versão para “I'm in Love Again”.

Davi: O álbum de estreia do The Animals, assim como os primeiros álbuns do The Rolling Stones, era focado em releituras do blues. A única exceção aqui é a faixa “The Story of Bo Diddley”, onde os músicos tentaram reproduzir, inclusive, a batida que o cultuado guitarrista utilizava em suas canções. Essa música acho meio sem sal, mas o disco é excelente e tem várias versões que são memoráveis. “She Said Yeah”, “Dimples” e “Bury My Body” se destacam ao lado da inconfundível voz de Eric Burdon. Muitos críticos o consideram uma das grandes vozes do rock e diziam que ele fazia parte do time de "cantores brancos que tinham voz de cantores negros", assim como acontecia com Joe Cocker. Concordo com ambas as afirmações.

Líbia: Um álbum de R&B/Rock muito sólido. A cada faixa, descobrimos novas camadas, destacando a maestria dos membros em capturar a essência desse gênero musical. Faixas como 'Boom Boom' e 'She Said Yeah' foram posteriormente regravadas por muitas outras bandas, mas suas versões sempre se destacam como uma das melhores. O mesmo pode ser dito de 'The House of the Rising Sun', que está na versão americana deste álbum. As músicas de blues se destacam. Em 'I'm Mad Again', Burdon mostra do que é capaz vocalmente.

Mairon: Os Animals durante muito tempo frequentaram audições regulares em meu Media Player. Baseada no blues e R & B americano, a estreia britânica é muito boa, e inova começando com uma faixa de 6 minutos homenageando Bo Diddley na genial "Story of Bo Diddley", contando a história de um dos nomes mais importantes do blues, um dos pais do rock, sobre uma de suas bases mais conhecidas. Letra fantástica! As revisões fogem um pouco dos cantores tradicionais, indo de Fats Domino ("I've Been Around" e "I'm In Love Again") até John Lee Hooker ("Boom Boom", "Dimples" e "I'm Mad Again") e Chuck Berry ("Around and Around" e "Memphis Tenesse"), ou seja, os caras estavam ligados na cena americana dos anos 40 e 50, levando esses artistas para uma nova geração de jovens britânicos com um ar que segue as linhas originais, onde a voz de Eric Burdon se destaca. Porém, o grande diferencial dos caras, além da genialidade de Burdon, era o órgão de Alan Price. Aquele som que nos acostumamos a ouvir no The Doors de 1967 já estava em voga com ele em 64, se sobressaindo em "Boom Boom", "Bury My Body" e "The Right Ime". Na citada "I'm Mad Again", certeza que antes da voz de Burdon entrar você irá pensar "Olha o Doors fazendo mais um blues aí". Pois é meus caros, a origem vem da velha ilha, e que baita solo de órgão!  Um disco de 40 minutos, que para 64 era uma eternidade, onde não há o que tirar nem por. Espetacular!


The Pretty Things - Get the Picture [1965]

Por Líbia Brígido

Um dos grupos muitas vezes esquecidos das primeiras bandas da Invasão Britânica é o The Pretty Things. A ideia principal por trás do álbum era fazer um filme que mostrasse a banda um pouco como os Beatles haviam feito, a fim de oferecer uma boa promoção para a banda. Infelizmente, devido provavelmente à falta de tempo e financiamento, o filme só foi lançado em 1966 e não atendeu às expectativas comerciais. O som não é tão claro, mas isso não é um grande problema para mim. A faixa de abertura "You Don't Believe Me" é uma das minhas favoritas, uma música que não ficaria fora de lugar em discos de meados dos anos 60 dos Beatles ou Stones. As melhores músicas estão no final das faixas bônus. "Come See Me" e "L.S.D." são excelentes.

Anderson: Essa banda eu particularmente não conhecia, assim como muitas outras possíveis pérolas da chamada Invasão Britânica. Trata-se de um rock ‘n’ roll bem clássico que se mantém presente por toda a sonoridade do álbum. Por exemplo, o simples, mas, bem interessante solo de Get the Picture, bem como as distorções e melodias presentes em outras músicas como You'll Never Do It Babe ou Can't Stand the Pain, essa que, por sua vez, soa mais introspectiva do que as demais. Poderia ser uma música do Animals ou mesmo quem sabe estar em um álbum do Blue Oÿster Cult. É um disco interessante, com um rock and roll mais consolidado que outros dessa geração, mesmo dentre os que ouvimos nessa lista, mas não é o que mais me agradou. Muitas músicas simplistas demais, fracas, muitas baladas e um vocalista (Phil May) um tanto sem sal. Porém, fica a oportunidade de conhecer e quem sabe ir mais a fundo em tal banda.

André: Sou mais chegado à sua fase mais psicodélica de uns anos depois, mas nesse período ainda garageiro eles ofereciam ótimas composições que não deviam em nada à sua melhor fase. "You Don't Believe Me" que abre o disco e "Gonna Find Me a Substitute" que fecha o lado B são grandes rocks da época e a banda cresceria ainda muito mais nos álbuns seguintes.

Daniel: Este eu nunca havia ouvido. Parabéns a quem o indicou, curti muito. Os solos de Dick Taylor são bem legais e a sonoridade que funde o Blues e o Rock, de maneira até meio “inocente” (na falta de um termo melhor) são cativantes. “We'll Play House” é uma música muito legal!

Davi: Esse álbum foi minha porta de entrada no universo do Pretty Things. Lembro que peguei o CD para ouvir por conta de “You Don´t Believe Me”, música que haviam composto em parceria com o grande Jimmy Page (sim, o próprio). Essa banda sempre foi muito comparada aos Stones e a comparação faz sentido. Eles percorriam o mesmo território explorando uma sonoridade que era, basicamente, um blues mais eletrizado, digamos assim. As linhas vocais de Philip May, por vezes, remetem ao Mick Jagger. Um grande exemplo seria a regravação do blues de Jimmy Witherspoon, “I Had a Dream”. Um grande diferencial é que eles arriscavam mais com composições próprias e, dentre essas, a minha favorita atualmente é “Cry to Me”. Bom disco.

Mairon: Segundo álbum do grupo, mantém a linha de canções simples que o rock vindo da ilha tinha. A diferença do Pretty Things para outros grupos da British Invasion se dá no vocal dramático de Phil May, vide faixas como a faixa-título, os gritos de "I Want Your Love" e "You'll Never Do It, Baby" ou "You don't Believe In Me", o que dificilmente encontraremos em Beatles ou Stones por exemplo. A harmonia bluesy, também bastante presente nas demais bandas, aqui surge de uma forma um tanto quanto experimental, como atestam "Cry To Me" e "Can't Stand the Pain", além da versão empolgante de "I Had a Dream". E claro, baladinhas para alegrar as meninas também levantam o braço marcando presença, através de "Rainin' In My Heart". Gosto da forma como a guitarra é usada em "Buzz The Jerk" e "We'll Play House", com boas distorções, e do uso do violão na agitada "London Town" . Tudo simples, sem muita técnica ou virtuose, mas redondinho. Melhor faixa ao meu ver é a versão de " "Gonna Find Me a Substitute", original de Ike Turner, e que resume muito bem essa fase inicial dos caras, com todas as características que citei acima. Único ponto negativo é que em 30 minutinhos a coisa acaba, deixando um gostinho de "faltou mais" para saborearmos um belo disco, mas que é um aperitivo entre tantas guloseimas aqui recomendadas. O tempo iria mudar (e muito) a carreira da banda, e S. F. Sorrow, de 1967, fez grande diferença aqui.

Marcello: Banda formada por Dick Taylor após deixar os Rolling Stones, e pelo vocalista Phil May, cujo nome saiu de uma música de Bo Diddley, não da (inexistente) beleza dos meninos. O grupo se completava com o guitarrista Brian Pendleton, John Stax no baixo e um monte de bateristas envolvidos na gravação (Viv Prince, Bobby Graham e Twink Alder). “You Don’t Believe Me” foi coescrita por Jimmy Page, que a produziu (e nos anos 70 assinou a banda com a Swan Song Records). “Buzz the Jerk” e “Get the Picture” são ótimos rocks de garagem, com guitarras na medida e bateria pesada, somados ao vocal canalha de Phil May. A bluesy “Rainin’ in my Heart” soa muito como Stones tocando blues no começo de carreira e, embora seja altamente genérica, é uma música bem gostosa de ouvir por causa do charme tosco dos Pretty Things. “You’ll Never Do it Baby” traz um bom trabalho de guitarras, indicando que Dick Taylor era melhor do que poderia pensar à primeira vista. Mas “I Had a Dream” é muito parecida com “The Night Time (Is the Right Time”) de Ray Charles, e soa meio deslocada – até porque na sequência “I Want Your Love” é bem interessante (e o solo lembra um pouco o de “The Last Time”, dos Stones – mas não sei quem copiou quem nessa história! Falando em Stones, “Cry to Me”, de Solomon Burke, foi regravada também por eles, numa versão que eu acho bem melhor, com Keith Richards se destacando nas guitarras. Mas, verdade seja dita, essa também ficou bacana. O disco se encerra com “Gonna Find me a Substitute”, outro rock bem interessante, com May e Taylor se destacando. Fazia bastante tempo que não ouvia The Pretty Things dos anos 60 (tenho apenas o “Silk Torpedo” em minha coleção). Este álbum me motivou a buscar mais coisas deles dessa época.


The Yardbirds - Having a Rave Up With The Yardbirds [1965]

Por Mairon Machado

Se é para falar de discos para conquistar o mercado americano, nada mais apropriado que Having a Rave Up With The Yardbirds. Voltado única e exclusivamente para os US, este álbum apresenta o talento de Jeff Beck ao mundo. E o cara chega mandando ver com sua guitarra carregada de efeitos e muito mais técnica que Eric Clapton. Além disso, Os Yardbirds eram diferentes de todas as demais bandas não só por revelar Eric Clapton, Jeff Beck e Jimmy Page, mas também por ter em suas composições muito mais do que inspirações bluesísticas, que até surgem na revisão de "I'm a Man", com Keith Relf mandando ver na harmônica, mas com Beck se sobressaindo no solo carregado de efeitos, ou na pancada "Train Kept A-Rollin". E é aqui o toque que faz a diferença no som dos Yardbirds. Os caras exalavam rebeldia e talento para compôr, colocando no bolso os demais fazendo músicas atemporais com muita inventividade e improvisos que ninguém tinha coragem de fazer nesta época, o que para mim a torna simplesmente a maior banda da British Invasion. Essas composições diferenciadas são observadas na beleza psicodélica de "You A Better Man Than I". Colocar Sitar na introdução e no riff de "Heart Full of Soul" não basta para lhe provar isso, então choque-se com os cantos gregorianos de "Still I'm Sad". Não tem como não soltar um "puta que pariu" quando se ouve a primeira, a segunda, a milésima vez de "Still I'm Sad". Quem fez algo tão triste no rock antes de 1965? Que música encantadora! E como é bom ouvir o solo de "Evil Hearted You", e as vocalizações sutis por trás da voz chorosa de Relf. O lado B é um compilado de quatro faixas da estreia Five Live Yarbirds ("Smokestack Lightning", "Respectable", "I'm A Man" e "Here 'Tis") que ainda não haviam saído nos EUA, agora com Clapton na guitarra, e bem mais blues do que o ardente lado A, mas não menos incrível. Discaço!

Anderson: Bom, escola básica do Rock and Roll: Yardbirds. Você precisa conhecer e ponto. Esse álbum em específico conta com Jeff Beck substituindo Eric Clapton, ou seja, trata-se de algo grande. Dentre as músicas da banda, uma vez que os covers eram muito comuns nas gravações da época, logo na primeira faixa uma pedrada daquelas: Mr. You're a Better Man Than I traz um rock and blues muito poderoso que dita a regra do que viria na sequência. Heart Full of Soul é outro som maravilhoso, com algumas experimentações e ritmo marcante com uma pegada um tanto folk, sensacional. Na animada The Train Kept A-Rollin mais um clássico Rock ‘N’ Roll traz uma capacidade de envolver o ouvinte que irá perceber o que aconteceu quando a música acabar, muito bom! Poderia comentar sobre os ótimos blues, solos, gaitas, melodias... mas deixo a surpresa para quem for conferir! Vale a pena!

André: Aqui não tem erro tendo dois grandiosos guitarristas como Jeff Beck e Eric Clapton cada um em um lado do disco (Beck em estúdio, Clapton no ao vivo). Todo guitarrista deveria pegar esse disco e ouvir umas 10 vezes seguidas para ver se inculca em sua mente um pouco da verdadeira arte de se tocar guitarra. Não dá de destacar uma faixa aqui, o disco todo é excelente.

Daniel: Yardbirds é, de longe, minha banda preferida nesta lista. Sempre admirei a capacidade do grupo em pegar canções de terceiros e as transformar em uma espécie de nova música, imprimindo a personalidade do conjunto em suas versões. Também, uma banda que tinha Jeff Beck, Eric Clapton e Jimmy Page não foi qualquer uma.

Davi: Em seu segundo registro, os músicos passavam por um período de transição. Saía o fenomenal Eric Clapton, para a chegada do igualmente fenomenal Jeff Beck. E isso está contado no disco. Como assim? O lado A traz 6 registros, em estúdio, ao lado de Beck. Já o lado B são 4 músicas ao vivo com a guitarra de Clapton. A mudança de estilos também é sentida. O lado A traz uma pegada mais rock psicodélico tendo como destaques as inesquecíveis “You´re a Better Man Than I”, “Heart Full of Soul” e “I´m a Man”. O lado B, por outro lado, tem uma pegada mais blues, mais R&B, tendo como destaque “Smokestack Lightning”. Quando for ouvir, além das guitarras, reparem no trabalho vocal e no trabalho de harmônica de Keith Relf. Muito se fala, compreensivelmente, dos guitarristas que passaram pelo grupo, mas ele também era um diferencial na banda.

Líbia: É incrível como esse grupo jovem soava sofisticado e como eles eram originais. Em 1965, a maioria dos grupos não podia deixar de ser influenciada pelos Beatles, mas os Yardbirds tinham uma abordagem única. Uma das minhas favoritas desse registro é a "Evil Hearted You" que segue com uma melodia memorável e um maravilhoso trabalho de guitarra de Beck. Outra surpreendente é a “Still I’m Sad” que combina backing vocals no estilo canto gregoriano, um arranjo musical parecido com Ennio Morricone e uma ótima performance vocal principal.

Marcello: Um LP americano, pois na época a banda não tinha cacife para bancar um 12 polegadas (alguém aí chegou a ver essa denominação?) na Inglaterra – até porque o único LP britânico até então, “Five Live Yardbirds”, tinha fracassado comercialmente. Formado por músicas antigas, gravadas com Eric Clapton, e novidades com Jeff Beck, “Having a Rave Up...” é um daqueles discos para você fechar os olhos e viajar no som. O lado A é praticamente irrepreensível, sendo difícil destacar alguma música: “Evil Hearted You” traz guitarras extremamente pesadas para sua época, “Still I’m Sad” traz o canto gregoriano como influência (com direito a Giorgio Gomelski, produtor e empresário da banda, no basso profundo), a bela “You’re a Better Man Than I” (de Mike Hugg, do Manfred Mann – uma banda que pensei que ia aparecer nessa lista), que nunca entendi como é que foi parar no lado B do compacto “Shapes of Things”, e a versão com Beck reproduzindo a cítara na sua Telecaster de “Heart Full of Soul” (a melhor, para mim – a versão com a cítara não ficou tão boa), o balanço de “Train Kept A’Rollin’”... Ou seja, à parte a questionável inclusão da versão de estúdio de “I’m a Man” (que, aliás, é gravada com Clapton na guitarra-solo), só há clássicos dos Yardbirds no lado A. No lado B, quatro músicas extraídas de “Five Live...”, que não foi lançado nos EUA naquela época: “I’m a Man” reaparece na sua versão (muito superior) ao vivo, “Respectable” do Isley Brothers (com a banda engatando a quinta marcha), “Here ‘Tis”, de Bo Diddley (como as bandas inglesas gostavam dele no começo dos anos 60!), e mr. Eric “Slowhand” Clapton no seu habitat natural em “Smokestack Lightning”. Ao vivo, a banda se mostra segura, ainda que a voz de Keith Relf não seja a melhor para o repertório apresentado; é curioso ver que a maioria das músicas do lado B não mostre o talento de Clapton - será que é porque tinha saído da banda? No mais, os bons Jim McCarthy na bateria, Paul Samwell-Smith no baixo e o subestimado Chris Dreja na guitarra rítmica (também, quem vai prestar atenção nele numa banda que teve Clapton, Beck e depois Jimmy Page?) seguram bem a peteca. Mas o lado A deste LP é melhor e é preferível ouvir “Five Live Yardbirds” na íntegra para ver o que os Most Blueswailing eram capazes de fazer.


The Dave Clark Five - Have a Wild Weekend [1965]

Por Fernando Bueno

*Infelizmente, Fernando Bueno não conseguiu nos mandar os comentários a tempo desta publicação. (André)

Anderson: A autointitulada faixa título já inicia os trabalhos com uma baita energia! Rock ‘N’ Roll, mas com aquela pegada de rockabilly, aquela animação na melodia. Diria que nesse mesmo sentido se enquadram I Can’t Stand It, On the Move e mesmo Doo Dah. Porém é a segunda música do álbum, Catch Us If You Can, que posiciona o álbum como algo grandioso. O que os caras conseguiram com a melodia dessa música é memorável. O álbum em si foi composto no intuito de ser trilha sonora do filme de mesmo título e isso por um lado pode ter limitado a criatividade da banda ou mesmo ter aberto possibilidades, fato é que o disco é totalmente alinhado a dinâmica cinematográfica. Entretanto, ao comparar esse material com o Kinks, o Yardbirds ou o Animals a seta do Dave Clark Five aponta para trás e não para frente, não se ouvem inovações do que viria a ser incorporado lá no Hard Rock ou lá no universo psicodélico, ao menos não enxergo assim, remetem mais ao passado consolidado do estilo que se delineava. Todavia, não se engane, é um ótimo álbum, muito bom mesmo, top 20 da Billboard, mas datado.

André: Dentre todos, o disco que eu esperava menos mas que me surpreendeu positivamente. Uns rocks blueseiros misturados ao surf que me animaram muito aqui no que a audição foi passando. Depois fui ver que esse disco é uma trilha sonora de um filme. Fiquei até com vontade de assistir o dito cujo filme só para ter uma desculpa de ouvi-los de novo.

Daniel: Conhecia apenas de nome e nunca havia parado para ouvir um álbum inteiro. Não é que foi uma audição ruim, mas não me causou maiores emoções. Não é algo que eu vá procurar novamente.

Davi: Muito bacana essa lembrança. Eu, provavelmente, teria escolhido o álbum Glad All Over, mas não há como negar que esse disco é bem divertido de ouvir. Misturando canções cantadas com (poucas) instrumentais, Having a Wild Weekend é a trilha de um filme de mesmo nome. As músicas continuam com a pegada que tornou o grupo famoso e traz, ao menos um grande hit: “Catch Us If You Can”. Outros grandes destaques ficam com os rockões “New Kind of Love” e a faixa título, que conta com uma irresistível pegada anos 50, além das baladas “I Said Was Sorry” e “Don´t Be Taken In”. Essa última conta com uma vocalização bem beatle, banda que, na época, eles disputavam. E, certamente, deram muita dor de cabeça, afinal os hits não foram poucos.

Líbia: Eu não conhecia esse álbum, mas ao pesquisar sobre ele, vi que se trata da trilha sonora de um longa-metragem que também aborda questões sociais. Alguém aqui já assistiu ao filme? Quanto às músicas, considero esta trilha sonora ideal para diversos momentos do dia. A primeira que me chamou a atenção foi “Don’t Be Taken In”; sua melodia é envolvente e cativante. Destaque para a instrumental “When I’m Alone”. Tem uma variedade de músicas animadas e baladas melódicas, o lançamento oferece uma experiência auditiva diversificada.

Mairon: Fabuloso quinteto de rock 'n' roll direto na linha Little Richard e Elvis, ou seja, inspiradaço nos gigantes americanos dos anos 50. A faixa título já abre o disco arregaçando. Então, desfilamos por ótimas faixas dançantes com destaque para a presença marcante do saxofone. Ou baladinhas bonitas como "Don't Be Taken In",  "I Said I Was Sorry", "New Kind of Love", onde o piano é o centro das atenções junto de um belo arranjo vocal. Curto bastante as instrumentais "Dum-Dee-Dee-Dum", que parece saída de um filme de faroeste, e principalmente "No Stopping", com o sax mandando ver, belo solo de órgão, e que nos remete a filmes do 007 na linha da guitarra. Além disso, é surpreendente o arranjo de cordas e a leveza da gaita e vocais em "When I'm Alone", com certeza a faixa mais impressionante do álbum, junto de outra instrumental, a suave "Sweet Memories", também com cordas, mas aqui levada por um belo tema de guitarra e harmônica. Acho que o disco soa bem destoado de tempo para 1965, mas que é um baita disco, a isso é.

Marcello: Dave Clark era um baterista mediano, mas tinha um ótimo ouvido para um som pop e seu quinteto era formado por músicos de alto calibre. Este álbum é o sexto da discografia americana da banda e é trilha sonora de um filme de mesmo nome, de John Boorman. O quinteto era formado por Clark na bateria, Mike Smith nos teclados e vocal principal, Lenny Davidson na guitarra, Rick Huxley no baixo e Denis Payton no sax; os backing vocals são divididos pela banda, e quase todos (Huxley é a exceção) compuseram para o disco, produzido pelo nosso herói Dave Clark. O álbum alterna músicas com jeitão de lançamento de compacto com instrumentais próprias para uma trilha sonora – mas algumas são bons rocks, e outras baladinhas para cenas românticas. Após o começo com a roqueira e animada faixa-título, a beatlemaníaca “New Kind of Love” tem aquele sabor do pop sessentista, enquanto que “Dum-Dee-Dee-Dum” é uma quase instrumental, pontuada pelos gritos dos músicos, que soa como country dos anos 50. “I Said I Was Sorry” não teria feito feio no LP “With The Beatles”, por exemplo, e aí reside um probleminha do DC5: enquanto a banda de Liverpool na mesma época lançava “Yesterday”, “Ticket to Ride” e “You’ve Got to Hide Your Love Away”, eles emulavam o som da Beatlemania. Por outro lado, outra instrumental, “No Stopping”, é bem avançada para a época e ficaria interessante na trilha sonora de um filme do 007. Gosto muito de “Don’t Be Taken In” e “Catch Us If You Can”, ótimos exemplos do talento do grupo para compor e gravar músicas que grudavam no ouvido, mas a bela melodia de “When I’m Alone” foi prejudicada pelo arranjo cafona (como teria sido dito em 65...). Dave Clark Five fez um sucesso enorme nos anos 60, mas hoje é quase esquecido. É uma pena, pois o rock’n’roll da banda pode soar inocente, mas era muito bem feito e tinha arranjos bem criativos, com teclados e saxofone proeminentes.


The Tremeloes - The Tremeloes: Chip, Dave, Alan, Rick [1967]

Por André Kaminski

Sendo curto e direto: peguei este disco desta banda porque os considero extremamente underrated. Nunca entendi o porquê de não serem tão conhecidos quanto os seus contemporâneos. Talvez porque os caras são um pouco mais velhos do que "os jovens revolucionários britânicos"? Sei lá. Só peço que ouça.

Anderson: O nome do álbum já indica algo importante, mudanças! A banda deixa de ser uma ‘banda de apoio’ para assumir o protagonismo de suas ações como grupo musical. A sonoridade é bem clássica do período tendendo para um pop rock um pouco mais elaborado, forçando a barra é possível encontrar alguns elementos de psicodelia ou algo progressivo. Particularmente os Tremeloes não me atraem muito, são talentosos, apresentam algumas experimentações por vezes, como em Happy Song ou em Sing Sorta Swingle, mas não são músicas que me cativam. Com certeza é uma banda historicamente importante para o cenário da época, há pessoas que afirmam que a banda e este álbum são subestimados, mas não é uma opinião que compartilho, realmente não me impressionam muito. Vale a pena conferir, mas sem grandes expectativas.

Daniel: Dos que eu não conhecia, achei este o melhor álbum. Minha impressão é de que há mais misturas de sonoridades diferentes ao Pop, com algumas canções com toques psicodélicos. Belas harmonias vocais, algumas músicas com a guitarra mais presente. Vou ouvir novamente.

Davi: A primeira vez que ouvi algo dos Tremeloes foi através de uma coletânea do Brian Poole & The Tremeloes. Lembro que estava curioso para ouvir a versão deles para “Twist and Shout”, que conhecia pelos Beatles e considerava a versão do fab four insuperável (sendo honesto, ainda considero). Depois, ouvi a versão deles para “The Silence Is Golden” (hit do grupo 4 Seasons) e aí, sim fiquei impressionado. A versão era perfeita e as vocalizações encantadoras. Pois bem, esse é o álbum que contém o megahit. O disco é variado e traz bastante influência da cena psicodélica (o que pode ser notado já na faixa de abertura, a contagiante “Happy Song”). Os caras eram feras e o disco entrega outros momentos memoráveis como “I´m With You All The Way” e “Running Out”. Agora... A versão deles para “Too Many Fih In The Sea” é bem abaixo da versão das Marvelettes, hein?

Líbia: Esse foi o único que infelizmente não tive como ouvir, não encontrei por aqui. Nesse eu “tonguei” totalmente. Até encontrei no Youtube mas não tem a divisão das faixas. Como não conheço achei melhor “deixar quieto” no momento e ouvir com mais calma depois.

Mairon: Das bandas aqui recomendadas, os Tremeloes são os únicos que não conheço mais a fundo. Acho que este é o primeiro disco da banda que ouço na íntegra, e gostei do que ouvi, principalmente por encontrar diversas referências ao longo da audição. As variações de "Happy Song", com o piano elétrico em evidência e boas harmonias vocais, já me conquistaram de cara. O mesmo ocorreu com a introdução e a melodia da lindinha "Norman Stanley James St. Clare", influência clara para os álbuns iniciais da Aphrodite's Child de Vangelis e Demis Roussos. Até o estilo vocal me lembrou o que Roussos fez depois. Ao mesmo tempo, foi legal ver o gingado de "Cool Jerk", "Running Out" e "Too Many Fish In The Sea" (bota distorção na guitarra aí!), que me lembrou o que a Mark I do Deep purple faria anos depois. No geral, o que mais me chamou a atenção foram os arranjos vocais, se destacando em "Come On Home", "I'm With You All The Way", "Negotiations In Soho Square" e "Sunshine Games", e a psicodelia de faixas como a doida "Sing Sorta Swingle" ou "Suddenly Winter", algo quejá surgia com força na Londres de 67. E quando ouvi "Silence Is Golden" meu coração bateu mais forte, já que me remeteu a infância ouvindo horas a fio Jive Bunny & The Master Mixers!! Bem bom de conhecer este trabalho.

Marcello: De todos os álbuns escolhidos, este era o único que nunca tinha ouvido antes. Conhecia a banda de nome e nunca tinha ido atrás, por conta da sua primeira fase como Brian Poole & The Tremeloes – a banda que a Decca preferiu contratar em vez dos Beatles. A banda é formada aqui por Chip Hawkes (baixo e vocais), Dave Munden (bateria, vocais), Alan Blakley (guitarra, teclados, vocais) e Rick Westwood (guitarra e vocais). O álbum começa com “Happy Song”, digna desse nome, bem flower power, bem 1967. “Running Out” já me soa bem mais interessante, com mais energia e um trabalho mais interessante de guitarras. “Negotiation in Soho Square” está mais próxima da primeira música, mas não me agradou muito. “Suddenly Winter” e “Sunshine Games” são boas, mas com guitarras muito magrinhas, que precisavam de um pouco mais de peso. “Silence is Golden”, um dos destaques do LP, é muito bonita em sua harmonia vocal; é uma cover da banda americana The Four Seasons, e como não conhecia a versão original (nunca dei muita importância para a banda do Frankie Valli), fui atrás dela – e gostei mais da cover do Tremeloes. “Norman Stanley James St. Clare” soou um pouco como Procol Harum do primeiro LP, só faltou o Hammond. “Cool Jerk” é um clássico, e ficou legalzinho, mas a versão original do The Capitols, neste caso, é melhor. “I’m With You All the Way” não chamou a atenção e “Sing Sorta Swingle” até é boa, mas tem uma fuga vocal no meio, entremeada por risadas, que estragou tudo... Bom que “Too Many Fish in the Sea” é bem boa, com um órgão muito legal. O álbum conclui com “Come on Home”, uma baladinha interessante. No geral, este álbum batizado com o nome dos quatro músicos foi uma surpresa agradável, mas não vai me fazer sair correndo atrás do resto da discografia da banda. Agradeço a quem o recomendou por me chamar a atenção para ele!


The Zombies - Odessey and Oracle [1968]

Por Daniel Benedetti

Escolhi Odessey and Oracle, pois foi um dos álbuns mais ousados da década de 1960, misturando melodias alucinantes e sons exuberantes do Mellotron comandado por Rod Argent. A forma como as harmonias vocais são construídas são outro ponto alto. Também destaco a seção rítmica formada por Chris White e Hugh Grundy, os quais fornecem um certo peso às canções. Músicas como "Care of Cell 44", "Changes", "Butcher's Tale (Western Front 1914)" e "Time of the Season" falam por si mesmas. Apesar de sua qualidade, a falta de sucesso e demanda por shows fez deste o “último” disco do Zombies até reuniões futuras.

Anderson: Não poderia faltar algo voltado para o psicodélico. Deste modo a lacuna está preenchida com louvor. Esse material é resultado dos últimos suspiros da banda que gravou apenas dois álbuns antes de retornar nos anos 1990. Tecnicamente colocaria esse álbum em outro patamar nessa lista junto com o do Yardbirds. As harmonias são fantásticas, algo de jazz aqui e ali, psicodelia de ponta a ponta, algo de Rock ‘N’ Roll, porém já alçando os anos 1970. Algumas das músicas são clássicas como Hung Up on a Dream, Time of the Season e Butcher's Tale (Your Final Piece). Vou optar por não entrar em detalhes, acredito que os companheiros da resenha vão se desdobrar na obra! Recomendadíssimo.

André: Inacreditável pensar que a banda tinha acabado pela falta de sucesso e renda antes mesmo de lançarem este petardo. E não dá de aceitar que, novamente, o disco vendeu uma mixaria. O que estavam pensando a hippaiada da época? Aqui tem tudo o que eles gostam. O mundo é um lugar injusto. E os zumbis foram vítimas disso.

Davi: É curioso notar que várias revistas colocam esse álbum como um dos melhores de todos os tempos. Digo curioso porque, na época, muitos torceram o nariz para o disco. Inclusive, seu lançamento foi recusado, inicialmente, nos Estados Unidos onde só chegou às lojas 2 anos depois, quando o grupo não mais existia. Aquela velha história... A banda não deixou os chefões contentes com os números atingidos e isso levou à separação. O disco, de fato, é maravilhoso e mistura psicodelia e harmonia na dose certa. Um exemplo do que estou falando é a belíssima “Brief Candles”. Outra que eu gosto muito é a faixa de abertura “Care of Cell 44”. Como se não bastasse, ainda temos o o classicão “Time of the Season", uma gravação que considero simplesmente perfeita. Bela lembrança!

Líbia: Este é um álbum que, numa loja de discos, conquistaria pela capa, especialmente se você fosse um fã do visual psicodélico. Ele possui uma grandiosidade nas composições; na minha opinião, é muito original, por isso surpreende. Das minhas favoritas, "Beechwood Park" tem uma vibe psicodélica, mas também é muito emocional. "Brief Candles" tem harmonias semelhantes às dos Beatles? Provavelmente possui muita influência, mas tem uma essência única. "Hung Up On A Dream" é muito emocionante. Enfim, adorei este álbum; foi o que mais gostei de ouvir desta lista, álbum nota 10. Fiquei até triste com a história da banda em relação a indústria musical.  Deixo aqui o meu "Muito Obrigada" pela recomendação.

Mairon: Podem me chamar de maluco, mas considero este álbum uma cópia paraguaia de Pet Sounds. Basta ouvir as vocalizações em “Care of Cell 44″ e “A Rose for Emily” que essa sensação aparece de cara. Acho que é um disco bem trabalhado, principalmente na parte vocal e no piano de Rod Argent, e é óbvio que o mellotron dá uma cara diferente. As alternâncias entre acústico e elétrico de "Maybe After He's Gone", com ótimas vocalizações, são um dos pontos altos do álbum, assim como as "flautas" e todo o arranjo de "Changes", bem como manda o estilo psicodelia londrina de 68. Não é um disco ruim, mas não entendo todo o auê que fazem com ele, e também penso que a British Invasion aqui, em especial, já havia acabado. Fechando o comentário, ressalto que a clássica “Time of the Season” é certamente a melhor faixa do disco, e ela por si só já vale o LP, principalmente pelo solo de piano elétrico, o melhor momento da carreira do Zombies.

Marcello: Uma obra-prima tardia de uma banda que estava se desfazendo. Rod Argent e Chris White criaram um repertório de belas canções para marcar o fim dos Zombies, cansados de muito batalhar e pouco obter em troca. Gravado entre junho e setembro de 1967 e lançado em abril de 1968, “Odessey and Oracle” inclui doze composições originais, das quais cinco foram escritas pelo tecladista Rod Argent e sete pelo baixista Chris White; as gravações foram complicadas e, para todos os efeitos, a banda estava nas últimas. O quinteto se completa com Hugh Grundy na bateria, Paul Atkinson na guitarra e Colin Blunstone nos vocais. Do início com “Care of Cell 44” ao encerramento com “Time of the Season”, “Odessey...” oferece apenas pérolas do pop psicodélico do final dos anos 60. Além dessas músicas, gosto muito de “A Rose for Emily”, “Beechwood Park”, “Hung Up on a Dream”, “I Want Her, She Wants Me” e “Friends of Mine”, mas o disco todo se mantém em alto nível o tempo todo, o que o faz ser um daqueles álbuns especiais que você ouve sem pular nenhuma faixa. Mas, quando foi lançado, “Odessey...” seguiu o caminho para o anonimato, sem chamar a atenção do público; em 1969, “Time of the Season” começou a tocar nas rádios americanas e virou um hit, o que fez com que houvesse uma demanda por shows e turnês – mas os Zombies já tinham acabado após um último concerto em dezembro de 67 (o que levou ao surgimento de vários “fake Zombies” pelos EUA!). Quando a banda se reuniu nos anos 90, “Odessey...” foi finalmente executado ao vivo por quem era de direito, e de lá em diante várias turnês capitaneadas por Blunstone e Argent levaram o álbum adiante. Este é daqueles discos que não podem faltar na coleção de quem gosta de rock, ponto final.

quarta-feira, 10 de março de 2021

Crossroads - A Vida e a Música de Eric Clapton [1995]



Michael Schumacher é um renomado piloto alemão de Fórmula 1, heptacampeão, e que infelizmente sofreu um gravíssimo acidente que acabou com sua carreira, sendo que ainda hoje sabemos pouco sobre o seu estado de saúde. Porém, é o nome também de um brilhante escritor norte americano, que em 1995, escreveu a Biografia Crossroads - A Vida e a Música de Eric Clapton, uma das melhores biografias que já li sobre o guitarrista inglês. Com 390 páginas (mais oito páginas exclusivas para fotos em preto e branco), Crossroads mergulha na vida de Clapton até o ano de 1995, sem deixar passar nenhum detalhe, mas ao mesmo tempo, sem ser maçante ou demasiadamente exagerado em termos de informações.

A edição que tenho não possui orelhas (é a edição de 1995 da Editora Record), o que já chama a atenção por fugir dos padrões normais dos lançamentos de livros. São 13 capítulos, mais prólogo e epílogo, saindo da família e infância conturbada de Clapton nos anos 40 até a morte do filho Conor em 1991, e de como Clapton teve que ressurgir das cinzas por diversas vezes ao longo de sua vida. Com o final do texto, fica a sensação de que você realmente é apresentado para toda a vida e a obra de de Clapton, já que Schumacher não deixa passar nada, e também, de como Clapton sempre foi um arroz de festa participando de shows e discos de diversos artistas.

Os Bluesbreakers - John Mayall, Hughie Flint, Eric Clapton e John McVie - numa opção de foto para a capa de seu clássico disco de 1965, The Bluesbreakkers with Eric Clapton.


Fazendo um apanhado geral do conteúdo de Crossroads, há vários pontos a se destacar sobre a vida e a música de Clapton. Quando pequeno, Clapton sofreu um trauma por saber que foi criado pelos avós, e que aquela que ele julgava ser sua irmã na verdade era sua mãe. Esse ponto da infância de Clapton é tratado de forma bastante delicada por Schumacher, mas sem perder-se em detalhes desnecessários ou fazer qualquer sensacionalismo barato. São os fatos por si só, apresentados ao leitor. O que tira a introversão de Clapton e o choque familiar é a música, mais precisamente o rock de Elvis Presley, o que o levou a comprar um violão quando tinha 13 anos, mas que não teve sucesso imediato para aprender o mesmo.

O contato com o blues, aos 17 anos, vem junto ao afastamento de Clapton da escola. Em 1962, a cena do blues estava ascendente em Londres, e Clapton passou a frequentar pubs para assistir e, por que não, aprender a tocar - ao mesmo tempo que se apresentava - por alguns trocados. Logo ele monta seu primeiro grupo, os Roosters, banda na qual Clapton aprendeu a tocar Howlin' Wolf, Robert Johnson, Freddie King e Muddy Waters, construindo assim uma reputação que o leva aos Yardbirds. Ali, ele passou a ser O cara da banda, empregando ao grupo solos de blues pouco comuns para jovens brancos ingleses, e claro, fazendo com que o nome de Eric começasse a se ampliar entre os frequentadores dos pubs londrinos. É aqui que o guitarrista realiza o sonho de tocar ao lado de um de seus ídolos, Sonny Boy Williamson, e quando ele se depara com deficiências próprias para tocar blues que só seriam saradas anos mais tarde. Além disso, o guitarrista abandona os Yardbirds logo após a gravação de Five Live, por conta do apelo comercial que o grupo rumava.

Com 20 anos, Clapton sai dos Birds para ingressar na trupê de John Mayall. Como um dos Bluesbreakers, é aqui que Clapton finalmente alcança o status de God pelos fãs. Ao lado de Mayall, Clapton teve um amigo com quem podia compartilhar igualmente sua paixão pelo blues, e também onde ele conhece os futuros colegas Jack Bruce (baixo, vocais) e Ginge Baker (bateria). A formação do Cream é narrada de forma até hilária, já que a rivalidade entre Baker e Bruce nunca foi negada por nenhum dos dois, só que a vontade de Baker tocar com Clapton era tão grande que ele aceitou o desejo do guitarrista de só formar a banda se tivesse Bruce como baixista. No Cream, a química e vitalidade do trio principalmente nos palcos era fantástica, mas pessoalmente, a guerra de egos e o excesso de shows era enorme, e infelizmente, o mundo viu o grupo em ação por apenas três anos, parindo álbuns seminais e atemporais, obras que são estudadas e referenciadas por músicos e jornalistas até hoje. Vale citar aqui a influência que Hendrix teve para Clapton nesse período, inclusive com o inglês adotando um visual mais hippie (com cabelo Black Power e tudo) por conta do Deus Negro da guitarra. Outro ponto importante é quando Schumacher cita o momento que Clapton decide abandonar o Cream: "Eu fiz uma experiência certa noite ... parei de tocar na metade de um número e os outros dois nem notaram ... então pensei, fodam-se!".

Clapton e sua guitarra, na fase psicodélica do Cream


Saindo do Cream, surge o convite para gravar "While My Guitar Gentle Weeps" com os Beatles, a amizade com George Harrison, e a formação de outra banda gigante, a Blind Faith. Ao lado de Steve Winwood, Rick Grech e o também ex-Cream Baker, temos aqui uma super banda, que fez um álbum sensacional mas que também sofreu muito na sua breve existência, principalmente pelo excesso de violência que ocorria nos shows da banda nos Estados Unidos, chegando ao ponto de em uma apresentação no Madison Square Garden, em Nova Iorque, os fãs serem implacavelmente espancados pela polícia, que ainda agrediu Baker, considerado um hippie desordeiro pela polícia, e não um membro da atração principal. A Blind Faith durou pouco mais de um ano, e Clapton novamente pulou da barca. Na entre-safra, temos outra parceria com um beatle, agora John Lennon, no álbum Live Peace in Toronto 1969 (1969), a participação de Clapton junto com o grupo Delaney and Bonnie and Friends (na gravação de On Tour with Eric Clapton, de 1970), o primeiro álbum solo de Clapton, Eric Clapton (1970), a conturbada participação do guitarrista em um projeto com Howlin' Wolf, culminando no essencial The London Howlin' Wolf Sessions (1971), e o nascimento da Derek and the Dominos.

O período no Dominos é um dos mais tristes na vida do guitarrista. Apaixonado pela esposa do melhor amigo, Pattie Harrison, vivendo um casamento frustrado, além de consumir drogas como quem respira, Clapton compôs uma das melhores letras de amor de todos os tempos, registradas no essencial Layla and Other Assorted Love Songs (1970), além de músicas marcantes como "Layla", que contaram com a mão e o talento essencial do guitarrista Duane Allman. Esse ponto do livro é interessante por que desmascara o mito de que George deixou a esposa para o amigo. Isso não ocorreu! Pattie também estava frustrada com seu relacionamento com George, que vivia cada vez mais voltado para a religião e o trabalho, praticamente abandonando o relacionamento entre eles. Clapton tentou de todas as formas conquistar Pattie, mas só foi conseguir se relacionar com ela depois que finalmente ela decidiu-se a separar-se de George. Porém, até chegar esse ponto, a vida de Clapton entrou em uma espiral declinante. Entre 1971 e 1974, Clapton teve que fazer uma reclusão forçada, gastando quase 1000 libras por semana em heroína, e levando sua esposa, Alice Orsmby-Gore, para o fundo do poço junto com ele. Musicalmente, há a participação em All Things Must Pass (disco solo de Harrison, 1970) e no Concerto for Bangladesh (1971), além de um novo amigo surgir na vida do guitarrista, o colega Pete Townshend (The Who), que veio várias vezes a ajudar Eric nos anos seguintes.

Eric e Pattie, num dos tão prezados carros esportes de Clapton


Com a ajuda de George, Clapton apresenta-se no Rainbow Theatre, gerando o álbum Rainbow Concert (1973), e assim, começa uma nova fase na carreira do guitarrista, após um longo e intenso tratamento neuroelétrico que fez ele abandonar o consumo de heroína e outras drogas. Montando uma super banda, grava um de seus discos mais bem sucedidos em carreira solo, 461 Ocean Boulevard (1974). Muito disso também está ao fato de que finalmente agora Clapton estava com o amor de sua vida, Pattie Boyd, que agora já estava separa de George. Nesse trecho do livro ficamos sabendo que o casal tinha pretensão de passar uns dias no Brasil, onde Clapton estava afim de gravar sons como samba, mas com a nova amante, ficou poucos dias, fugindo do país por conta de uma epidemia de meningite no Rio de Janeiro. Também nesse período, é relatado o acidente que quase tirou a vida de Clapton, quando o musico resolveu dar uma volta com sua Ferrari Boxer cinza-prata e acabou preso nas ferragens da mesma após atingir uma carreta. Salvo da morte por milagre, Clapton acabou temporariamente surdo de um dos ouvidos pelos cacos de vidro que penetraram nele, e só foram retirados duas semanas após o acidente. Em termos musicais, sem muito se preocupar em gravar, e curtindo o amor, lança o fraco There's One in Every Crowd (1975), e dos shows dessa tour sai o ótimo ao vivo E. C. Was Here (1975). Outro bom disco que surge após muito trabalho, e mais uma "super banda" na carreira de Clapton, é No Reason To Cry (1976), que uniu o inglês aos canadenses da The Band adicionados de Ron Wood (timaço). Porém, uma apresentação em Birmingham quase colocou fim a fama de Clapton. Totalmente embriagado, ele acabou ofendendo elogiando Enoch Powell, um político conhecido por não gostar de minorias imigrantes e relações raciais, justamente quando Birmingham passava por grande tensão racial. Ali, seguida de uma série de gafes alcóolicas,  foi o estopim para a relação Clapton + álcool começar a ter seu fim, seguida por Slowhand (1977), que eternizou mais dois clássicos na carreira de Clapton, "Cocaine" e "Wonderful Tonight".

Depois de excursionar com Muddy Waters, registra o que Schumacher chama de nadir (ponto mais baixo que uma estrela atinge no céu visível) das gravações de Clapton nos anos setenta, passar pela primeira vez pela Europa Oriental (com muitos problemas) e países da Ásia, o que culminou no álbum Just One Night (1979), humilhar Jack Bruce em uma festa de família, e uma série de brigas com Pattie Boyd - inclusive com um relacionamento extra conjugal com a modelo Jenny McLean, Clapton grava seu primeito registro nos anos 80, Another Ticket (1981), e definitivamente afundou-se no álcool. O britânico acaba internando-se na Hazelden Foundation, nos Estados Unidos, uma clínica de reabilitação para alcóolicos, um período extremamente importante para mostrar o que é a vida real para o guitarrista. A partir de então, passa a frequentar o AA, e a livrar-se gradualmente de sua dependência de álcool. Com novo ânimo, registra Money and Cigarettes (1983), que o trouxe novamente para o blues, no mesmo ano que uniu-se a Jeff Beck e Jimmy Page para participar do concerto ARMS, Movimento de Pesquisa da Esclerose Múltipla, em benefício do amigo e guitarrista Ronnie Lane (Faces), e que ficou eternizado por colocar em um mesmo palco os três grandes guitarristas da Inglaterra que o Yarbirds produziu.

Jimmy Page, Eric Clapton e Jeff Beck - todos ex-discípulos de guitarra dos Yardbirds - reuniram seus prodigiosos talentos numa série de concertos para levantar fundos para pesquisa sobre esclerose múltipla


Com um novo parceiro, Phil Collins, nasce Behind the Sun (1985) um álbum bastante diferente na discografia do britânico, em um rompimento radical com seu passado, principalmente pela entrega aos sintetizadores. O álbum surge pouco depois de Clapton gravar e excursionar com Roger Waters, durante a turnê do ótimo The Pros and Cons of Hitchhiking (1984), primeiro disco solo de Waters pós-Pink Floyd. A experiência de Clapton com Waters não foi das melhores, apesar de desafiadoras, segundo o próprio, principalmente por considerar o show pretensioso e desanimado. Uma série de aparições em shows e eventos também marca esse período, principalmente o Live Aid (1985), com o guitarrista arrasando e conquistando o mundo ao som de uima versão arrebatadora para "White Room". 85 também é o ano do nascimento de Ruth Clapton, filha do guitarrista com Yvonne Kelly, mais um dos vários casos extra conjugais que ele teve. Porém, quando a modelo italiana Lory Del Santo também ficou grávida de Clapton (1986), Pattie pediu as contas. Solteiro, papai e com a parceria ainda de Collins, Clapton registra August (1986), disco bastante criticado pela imprensa.

A partir de 1987, Clapton começa uma nova tradição, com os shows no Royal Abert Hall. (foram seis de primeira, até atingir 24 apresentações em sequência em 1991, registrada no álbum 24 Nights, lançado naquele ano). Mais uma série de participações diversas, em discos de Jack Bruce, Rolling Stones, George Harrison, trilhas sonoras, entre outros, o lançamento do incrível box Crossroads (1988) e da gravação de Journeyman (1989), Clapton fez a primeira apresentação de um artista internacional em Moçambique, vêm as duas tragédias que marcaram Clapton nos anos 90, as mortes de Stevie Ray Vaughan e do filho Conor. A morte de Vaughan, minutos após os dois se apresentarem no dia 26 de agosto de 1990 em Alpine Valley, EUA, transformou a turnê de promoção de Journeyman uma catarse emocional, obscurecendo um ano radiante para Clapton, quando recebeu o prêmio Living Legend nos Elvis Awards e foi considerado Top Rock Album Artis na Billboard Music Awards, além de uma exaustiva turnê que o levou ´para Austrália, Extremo Oriente e, pela primeira vez com shows, aqui no Brasil. Já o acidente que vitimou o pequeno Conor serviu para Clapton perceber como a vida pode acabar de repente, sem aviso, e decidir viver em bênção a cada dia que acordava, e utilizando o talento que tinha em toda plenitude.

Tendo consolidado sua reputação como um dos maiores guitarristas da época, Clapton era frequentemente chamado para se apresentar em shows como convidado especial. Nesta foto, ele conversa com B. B. King durante um dos shows de King no Café Au Go Go de Nova York.


O livro encerra-se então com a inversão dos papeis, agora Clapton trazendo Harrison aos palcos, com treze apresentações no Japão que rendera, Live in Japan (1992), o estrondoso sucesso de Unplugged (1992), recebendo seis Grammys, a inserção do Cream no Rock 'n' Roll Hall of Fame (1993), quando o trio voltou a se apresentar juntos depois de muito tempo, e, através do Epílogo, situa o leitor sobre a atual (na época) condição de Clapton, promovendo o excelente From the Cradle (1994) e voltando definitivamente para o blues, algo que os anos posteriores mostraram que não seria bem assim.

Complementa o texto Crédito das Fontes, Discografia Selecionada entre 1964 - 1994,  com compactos e LPs de Clapton lançados oficialmente nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, bem como uma ampla seleção de compilações oficias, discos piratas e participações do guitarrista como convidado ou músico de estúdio, com as faixas que ele aparece, além da ficha técnica dos discos envolvidos. Mas acima de tudo, Essa belíssima obra, como tentei resumir acima, narra TUDO o que Clapton fez e deixou de fazer sem deixar nada de lado, mas também sem ser maçante ao ponto de aprofundar-se em detalhes por vezes desnecessários. É uma leitura obrigatória para quem quer conhecer a carreira de um dos maiores nomes da música em todos os tempos, um acervo fundamental para quem é fã de Clapton, e uma fonte riquíssima de conteúdo para quem quer pesquisar ou se aprofundar na, como diz o título, vida e música de Eric Clapton.


sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

The Yardbirds - The Very Best Of The Yardbirds [1991]



Coletâneas sempre são difíceis, para mim, de poder dar uma descrição. Afinal,  a gravadora que resolve investir a mídia para ganhar alguns vinténs em cima de determinado artista geralmente gosta de trazer os grandes sucessos, ou, se o lançamento é focado para um determinado país, com faixas que fizeram sucesso somente lá. Dificilmente irá adentrar em canções mais desconhecidas ou raridades, principalmente se for um Best of ou Greatest Hits. Imagine então um The Very Best Of???

Bom, esse não é o caso no The Very Best Of The Yardbirds (Featuring Eric Clapton, Jeff Beck & Jimmy Page), lançado pelo selo Music Club em 1991 somente na Inglaterra. Como o complemento do nome já diz, o álbum possui a intenção de apresentar aos fãs um apanhado da passagem de três dos maiores guitarristas da história pela banda mais importante da história, só que não é bem assim. O breve encarte, de apenas duas páginas, já traz a rasgação de seda para Clapton e Beck, e trata com certo desprezo a passagem de Page pela banda, criticando fortemente o disco Little Games (1967) e dando uma espécie de "graças a Deus" pelo álbum não se fazer presente no lançamento.

Keith Relf, Eric Clapton, Jim McCarty, Chris Dreja e Paul Samwell-Smith. Yardbirds em 1965

O foco são os discos com Clapton (a saber Five Live Yardbirds e For Your Love) e Beck (Having A Rave Up With The Yardbirds e Yardbirds, também conhecido como Over, Under, Sideways, Down  ou Roger the Engineer), e como são poucos álbuns, a coletânea se torna então um belo aperitivo para se mergulhar em uma obra tão importante e relevante.

A fase Clapton é a mais bem representada. Aqui estão "A Certain Girl", "Boom Boom", "For Your Love", "Good Morning Little School Girl", "Heart Full Of Soul" e "I Wish You Would". É a fase "adolescente" dos britânicos, voltados para o rhythm 'n' blues, e que fez o Deus da Guitarra Clapton pedir o boné devido ao sucesso de "Good Morning Little School Girl". Ao ouvir essas faixas, o mais legal de tudo, além da jovialidade do quinteto formado por Clapton, Keith Relf (vocais, harmônica), Cris Dreja (guitarra base), Paul Samwell-Smith (baixo) e Jim McCarty (bateria), é que aqueles solos inspirados de Clapton nas épocas de Cream, Derek and the Dominoes, Blind Faith, ..., já começavam a ser moldados lá no distante 1965. As letras juvenis de "A Certain Girl", "Boom Boom", a citada "Good Morning Little School Girl" e "I Wish You Would" causam uma risada gostosa, e musicalmente, é bom ouvir um rock simples e bem tocado de vez em quando. Destaque maior para "Heart Full Of Soul", com um riff certeiro e um solo simples mas que levanta defunto.

Paul Samwell-Smith, Chris Dreja, Jeff Beck, Keith Relf e Jim McCarty. Yardbirds em 1966


Já com Beck, começam as explorações musicais que marcaram a segunda fase do grupo, através de canções próprias e praticamente um afastamento do rhythm 'n' blues, que está presente apenas no pop "I'm Not Talking". Dessa fase temosos cantos gregorianos de "Still I'm Sad", composta por McCarty e Samwell (dando um aperitivo do que viria a ser o Renaissance três anos depois) e os mega sucessos "You're A Better Man Than I" e "Shapes Of Things", essa última regravada posteriormente pelo próprio Beck no seu álbum de estreia em carreira solo, Truth (1968), com uma magistral interpretação vocal de Rod Stewart. Além disso, faz mais um riff e solo marcante em "Evil Hearted You", e cria sua primeira obra-prima, o boogie "Jeff's Blues". Fechando a fase Beck, "New York City Blues" (intitulada apenas "New York City"), a canção mais obscura do lançamento, já que saiu apenas como lado B do compacto de "Shapes of Things", e a revisitação ao blues de "I'm A Man".

Temos então um pequeno atrativo, que é essa raridade de "New York City Blues", mas ainda há mais. A reta final do CD conta com sete faixas registradas ao vivo. O encarte menciona que elas fazem parte originalmente de Five Live Yardbirds, mas não é a realidade. As faixas são: "Pretty Girl", "Respectable", "Smokestack Lighting", "Too Much Monkey Business", "Let It Rock", "You Can't Judge A Book By Its Cover" e "Who Do You Love". Dessas, as quatro primeiras somente fazem parte de Five Live Yardbirds. As demais só foram aparecer de forma oficial no raro London 1963 - The First Recordings! (1981) e no relançamento desse álbum em 2003. Ou seja, ao levar essa coletânea para casa, além de ter um belo apanhado do melhor dos Yardbirds, irá também levar algumas raridades relativas a banda, principalmente relacionadas a essa apresentação no Craw Daddy, em 1963, que acabou culminando em canções de Five Live e também de Sonny Boy Williamson & The Yardbirds (1965).

Jim McCarty, Chris Dreja, Keith Relf e Jimmy Page. Yardbirds em 1967

Encerrando o track list, uma única canção com Page, batizada de "Stroll On", na qual é possível perceber também que o gigantes que conquistou ao mundo com o Led Zeppelin já estava bem vitaminado e pronto para fazer sucesso junto aos The Yardbirds. The Very Best Of The Yardbirds é passível de ser interpretada como um belo caça-níqueis, mas vou além. Para quem não conhece a obra da (repito) banda mais importante de todos os tempos, é um disco quase que essencial.

Parte traseira do encarte

Track list


1 For Your Love
2 Heart Full Of Soul
3 Good Morning Little School Girl
4 Still I'm Sad
5 Evil Hearted You
6 A Certain Girl
7 Jeff's Blues
8 I Wish You Would
9 New York City
10 I'm Not Talking
11 You're A Better Man Than I
12 Shapes Of Things
13 I'm A Man
14 Boom Boom
15 Smokestack Lighting (Live)
16 Let It Rock (Live)
17 You Can't Judge A Book By Its Cover (Live)
18 Who Do You Love (Live)
19 Too Much Monkey Business (Live)
20 Respectable (Live)
21 Pretty Girl (Live)
22 Stroll On

sábado, 4 de abril de 2020

Melhores De Todos Os Tempos: Anos 60


Beatles em 1967: Ringo, John, Paul e George


Por Mairon Machado

Com André Kaminski, Daniel Benedetti, Davi Pascale, Eudes Baima, Fernando Bueno, Líbia Brigido, Micael Machado e Ronaldo Rodrigues

As listas de Melhores de Todos os Tempos foram precursoras em termos de visualizações e comentários em nosso site. Desde 2013, mensalmente publicávamos as listas de 10 melhores discos de determinado ano, começando a partir do ano de 1963. Diversos participantes escolhiam seus 10 Melhores daquele ano, e após uma contagem baseada no sistema da Fórmula 1, fechavam-se os 10 mais, para assim cada um dos participantes traças seus comentários (pro bem ou pro mal) sobre os discos. Muita treta rolou nessas edições, umas mais sérias que outras, mas no geral, ficou uma camaradagem e conhecimento de diversos discos novos por quase todos os participantes.

Infelizmente, muito desse material foi perdido quando ocorreu o chamado Uol Incident (sem mais detalhes, por favor), e ficou uma saudade dos bons tempos. Felizmente, após quase 4 anos de buscas em e-mails, bem como de postagens em outros sites, conseguimos resgatar os discos (ao menos) que foram citados em cada ano. estamos trabalhando árdua e incansavelmente para tentar resgatar todos os comentários para esses anos, e dentro do possível, republicar essas matérias. porém, não sabemos quando e se isso irá ocorrer. Mas, de forma a animar nossos queridos leitores, e instigá-los a novamente participar com seus comentários, resolvemos criar uma nova brincadeira.

Desta feita, escolhemos os 10 Melhores discos dos anos 60, 70, 80, 90 e 2000. Recentemente escolhemos os dez mais brasileiros dos anos 2010, e através dessa ideia, partimos para esse novo projeto. Para não haver injustiça com o passado, cada um de nossos participantes escolheu dez discos dentre os que já havia sido escolhidos nas listas originais *. Como novidade, além da pontuação da Fórmula 1, adicionamos 1 ponto para cada citação de álbum, como se fosse o ponto da volta mais rápida, tentando evitar ao máximo alguma injustiça, de por exemplo um álbum citado apenas uma vez entrar no lugar de um álbum citado 4 vezes. Por fim, como tradicionalmente, foi divulgada apenas a primeira posição, e os demais 9 álbuns sendo somente agora revelados para os participantes.

E para encabeçar nossa primeira lista de Melhores De Todos Os Tempos - - Anos 60, aquele que por muitos é considerado o melhor álbum de todos os tempos. Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band venceu o duelo com Pet Sounds por apenas dois pontos, mostrando que ambos os álbuns são revolucionários e fundamentais para a consolidação do rock, e por que não, para a arte a partir de então. Complementam essa lista mais três álbuns de 1967 (seria esse o ANO DO ROCK) , quatro álbuns de 1969 (duelando com 1967), com destaque para o Led Zeppelin, único a encabeçar dois discos nessa lista, e um álbum de 1965. Gostou, não gostou? Concorda com a lista? Não concorda com alista? Deixe seus comentários abaixo, participe! E vamos aos comentários dos nossos participantes

* A lista com os Melhores Discos escolhidos dos anos 60 nas listas originais envolvem os álbuns de cada ano, álbuns das listas de Melhores Brasileiros e aqueles discos citados na série Aqueles Que Faltaram. Esses discos estão listados no fim da postagem, após as listas individuais.


1° The Beatles - Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band [1967] (77 pontos)
André: Fiquei surpreso com a colocação do Sargento Pimenta em primeiro. Até acharia que entrava mas como sei que a Consultoria, curiosamente, não tem lá muitos fãs do Beatles (ou eu achava que não tinha) esperava Led Zeppelin ou Floyd em primeiro. Mas sabia que ele iria entrar de algum jeito. Já aqui não existia mais Beatles ao vivo, talvez a única banda da história que se deu ao luxo de não fazer mais turnês e lançar apenas discos de estúdio. Segundo os próprios, é aqui que eles meio que deixam aquele jeito mais juvenil de lado e querem fazer o "Pet Sounds" deles. Eu gosto bastante de "Lucy in the Sky with Diamonds" e "Within You Without You". Ótimo disco, mas Revolver é o melhor deles. Por sinal, vai ter gente brava aqui se eu disser que "Fixing a Hole" é uma música tremendamente chata?
Daniel: Deixando bem claro que faço parte daqueles renegados do mundo que não são fãs de Beatles, então, votar em qualquer álbum deles seria uma atitude hipócrita. Entretanto, não sou louco o suficiente para denegri-los. Sgt. Pepper’s é tido como o melhor álbum de todos os tempos por muita gente boa. Fato é que se trata de um trabalho inovador, seja pela forma como foi gravado, com o estúdio funcionando como um instrumento adicional, novas técnicas de gravação, seja pelo fato de reforçar o formato LP como mais relevante que os singles. Musicalmente, há faixas impressionantes como “With a Little Help from My Friends”, “Lucy in the Sky with Diamonds”, “A Day in the Life” e a belíssima “Within You Without You”.
Davi: Um dos melhores álbuns já criados. LP simplesmente perfeito. Psicodelia na dose certa, sem pender para exageros, composições extremamente melódicas e arranjos extremamente criativos. Os Beatles tinham compositores de mão cheia e tinham total consciência de até onde poderiam ir em seus instrumentos. Muitos criticam a bateria de Ringo Starr, mas quem ouvir com atenção notará que, embora não fosse um virtuose, era um cara extremamente criativo. Paul McCartney era um músico completo. Multi-instrumentista, compositor de mão cheia, excelente cantor. John Lennon não ficava muito atrás, não. Cantava bem pra caramba, compunha bem pra caramba e tocava bem. George Harrison nunca foi muito seguro ao vivo, mas nos discos brilhava. Imagina um time desse trancado em um estúdio, sem pressão e com liberdade criativa. O resultado está aqui. Esse disco não tem filler, mas para não ficar em cima do muro, chamo uma atenção especial para faixas como “Getting Better”, “Lovely Rita”, “A Day In The Life” e a faixa-título. Primeiro lugar merecidíssimo!
Eudes: Problema com esta lista é que não há praticamente mais nada a dizer sobre os álbuns escolhidos. Embora não tenha incluído Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band em minha lista (o disco beatle que escolhi foi Abbey Road, que ficou em segundo na minha lista), dizer o que deste primeiro lugar? Justo! A força simbólica da obra, a influência que ainda não dá sinais de recuar, 52 anos depois, e mesmo os números das vendas e downloads mostram a imensa permanência de Peppe'sr no imaginário popular e a vigência de sua marca, até aqui, indelével na cultura contemporânea. Uma especulação que me ocorre é se o álbum perdurará para além da contemporaneidade, digamos, se em dois séculos ele seguirá sendo relevante como expressão da música de nossos dias. Quer dizer, sobre sua influência em todo este período histórico que vem dos anos 1960 até hoje não há mais nada a ser dito. A questão agora é: ele se tornará clássico no sentido de Bach, Chopin e Beethoven?
Fernando: Cada um pode ter sua percepção sobre o melhor álbum da história. Porém, é difícil não citar esse disco em uma discussão do tipo. Ele não foi só importante por conta da coleção de fantásticas músicas que ele possui, mas também por consolidar o conceito de long player que veio junto desse disco. Era a maior banda da história chegando em seu ponto máximo de criatividade. Merecido o primeiro lugar.
Líbia: Em um “Verão paz e amor”, dia 1º de junho, esse disco chegou aos ouvidos de toda uma geração que mesmo sedenta por coisas novas foi pega de surpresa com essa sonoridade tão mística, indecifrável, rica e fora do comum. O nosso “Capitão Pimenta” pode ser chamado de divisor de águas, pois foi um dos que mudaram a cara da música. É claro que tudo que aqui escrevo já foi comentado com vários tipos de abordagens. As faixas se relacionam, mas se eu fosse apresentar esse álbum a alguém, começaria por “A Day In The Life”, a que fecha o disco. Você começa a escutar e não quer o fim dela, a voz de John Lennon já começa impressionando, a meia orquestra, e os trechos de Ringo nessa música e em todos as outras faixas revolucionou a forma de tocar bateria. Foi um disco que preencheu vários vazios na música. É aquele álbum que você olha e ver o que quer, desde a capa até a sonoridade.
Mairon: Para muitos, este é o melhor disco de todos os tempos. Gosto muito do seu lado A, principalmente as faixas mais “obscuras”, no caso “Getting Better” e “She’s Leaving Home”, mas acho que a história perde-se no lado B, onde “When I’m Sixty-Four”, "Fixing A Hole" e “Good Morning, Good Morning” são uma das coisas mais toscas que já ouvi. Se isso é tosco, não há palavras para definir a chatice de “Being For The Benefit Of Mr. Kite!”, eita trem ruim da porra. Joe Cocker dá um banho na versão de “With A Little Help From My Friends”, certamente a definitiva, e as duas versões da faixa-título não chegam perto do que Hendrix fez. “Lovely Rita” certamente foi ouvida e reouvida pelo trio mutante para compor algumas de suas canções, mas isso não é só daqui. Gosto de “A Day in the Life”, mas não ao ponto de achar ela uma obra prima como muitos enaltecem por aí. E a Sitar de George Harrison em “Within You, Without You” para mim soa tão oportunista como toda a carreira dos Titãs. A versão que os Bee Gees (com convidados como Alice Cooper, Aerosmith e Peter Frampton) de 1978 roda muito mais faceira aos meus ouvidos do que a versão original. Com certeza, para 1967 o álbum deve ter sido revolucionário em termos de composição e gravação, mas não consigo, honestamente, perceber aqui nada mais grandioso do que foi feito em Pet Sounds um ano antes. Entre os discos dos garotos de Liverpool até então, com certeza é o melhor, mas muito longe de fazer por merecer entrar em uma lista de dez melhores da década de 60, ainda mais em primeiro. Mas ok, pelo jeito eu que sou o louco na história.
Micael: Mais uma lista de mais um site musical com o Sargento Pimenta no topo... precisamos mesmo disto? Bem, eu, como nunca fui um grande apreciador da obra dos besouros de Liverpool, digo que não. Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band pode ser o álbum mais importante, o mais influente e o mais inovador disco dos anos 60, mas está longe de ser o melhor, ou sequer de ser o melhor disco dos Beatles. Praticamente qualquer versão de músicas deste álbum que eu conheça (a faixa-título com Hendrix, a magistral versão de "With a Little Help from My Friends" com Joe Cocker, "A Day in the Life" com Jeff Beck - exceção talvez à "Lucy in the Sky with Diamonds", que sempre soa tão horrível quanto sua origem) supera de longe a original, o que é um indicativo da baixa estima que este disco tem junto a mim. Para não dizer que não gosto de nada, "Within You Without You" é maravilhosa, mas até aí é quase uma música solo de George Harrison, não dos Beatles, e isso conta...
Ronaldo: A explosão trazida por Sgt.Pepper's deve-se a uma confluência de novidades embaladas em um único disco. Os Beatles trouxeram a variedade de instrumentação do pop orquestral (que em última instância vem da música erudita), uma pitada de experimentação e um leve apelo conceitual amarrando o álbum, tudo isso temperado com as mãos de "hit-maker" do Fab-Four. Esses elementos, ainda que com um resultado musical bem diferente, estariam presentes em outra revolução sonora que surgiria nos anos seguintes - o rock progressivo, tendo como elemento adicional o virtuosismo trazido por grupos como Nice, King Crimson, Yes, ELP e Gentle Giant. Talvez nem seja o experimento mais bem sucedido ou ousado de fusão desses elementos mas, além de ter sido um dos primeiros, foi feito apenas pela banda mais famosa do mundo na ocasião, o que influenciou todos que vieram depois. Então, todos os louros sejam dados aos Beatles.

2° The Beach Boys - Pet Sounds [1966] (75 pontos)
André: Este também estava perto de entrar na minha lista. Não tenho a mesma louvação que vários de meus companheiros, porém, é incrível o que fizeram aqui. Curioso que eu que não conheço nenhuma banda que foi fazer o seu disco auge no décimo primeiro trabalho, embora naquela época era comum lançarem álbuns anuais (as vezes até dois no mesmo ano). É um disco muito bonito, recheado de camadas e camadas de som e instrumentos diferentes que, de maneira impressionante, se harmonizam muito bem. Que pena que Brian Wilson foi mais uma mente brilhante atormentada pelas drogas. Mas ele garantiu seu lugar ao sol com um dos discos mais louvados que eu tenha conhecimento nessa vida.
Daniel: Pet Sounds é onipresente em listas de melhores discos de todos os tempos. Mesmo não sendo fã do The Beach Boys, é possível compreender a adoração pelo trabalho. É extremamente sólida e palpável, durante a audição, a preocupação com cada detalhe de cada uma das composições, bem como a atenção para cada milésimo de segundo de sua produção. As características harmonias vocais da banda estão ainda mais caprichadas e tenho a percepção de uma certa triste melancolia na sonoridade. Destaco a clássica “Wouldn’t It Be Nice”, a tocante “Sloop John B”, a atmosférica “I’m Waiting for the Day” e a lindíssima “God Only Knows”.
Davi: Gosto muito dos Beach Boys, mesmo, mas nunca consegui entender o culto em torno desse disco. Claro, é um trabalho bacana e muito bem feito. Não dá para dizer que é um disco ruim, longe disso, mas nunca considerei como um dos melhores álbuns do rock. Na verdade, não o considero nem o melhor dos Beach Boys. Prefiro eles antes, com aquela pegada de verão californiano, digamos assim, mais surf rock. Brian Wilson decidiu dar um passo adiante, quis experimentar mais, sair do básico. Louvável, mas para mim, se perdeu um pouco da magia. Existem momentos onde me soa mais um álbum solo dele do que um trabalho dos Beach Boys. Gosto muito da harmonia vocal deles, como ocorre em algumas faixas como “Sloop John B”, característica pouco explorada no disco. A faixa de abertura “Wouldn´t It Be Nice” e o single “God Only Knows” estão entre meus momentos favoritos. Bom disco, sem dúvidas, mas não Brian, você não escreveu o melhor álbum de rock de todos os tempos. Sorry! De 0 a 10, leva um 7.
Eudes: Uma pergunta que faço aos universitários há anos: Pet Sounds saiu no Brasil na época, ou pouco depois de seu lançamento? Na verdade, parece que a discografia dos Beach Boys, como um todo, foi amplamente ignorada no nosso país. Fato estranho para uma banda com tantos hits de sabor popular. Só fui me dar conta do clássico principal da banda quando comecei a ter acesso às poucas publicações musicais do Brasil, ali no fim dos anos 70, sem conseguir ouvi-lo (sim meninos, não havia Internet). Para mim, então, os BBs eram só uma banda pop pouco relevante, muito mal vista nas publicações especializadas. Até hoje, a banda parece um segredo entre amigos no Brasil e nem na era do CD seus discos foram postos a venda no Brasil. Meus discos são todos de uma coleção 2 em 1 importada. Com exceção justamente de Pet Sounds, uma edição nacional de 1990 que comprei em meados dos anos 90 e até hoje está sempre em meu toca-discos. Dizem que Brian Wilson foi impulsionado a compor a coleção de canções que compõe o disco depois da audição de Rubber Soul. Parece que a versão tem fundamento (“Rubber Soul era uma coleção de canções que de alguma forma eram juntas como nenhum álbum já feito antes, e fiquei muito impressionado”, disse Brian Wilson), mas os irmãos Wilson conseguiram a proeza de superar o excelente disco dos Beatles. Não sei nem se a palavra “superar” se aplica, porque Pet Sounds opera em outro nível. Brian concebeu o disco inteiro previamente – ao lado do letrista Tony Asher. A banda compareceu aos estúdios para executar a partitura, por assim dizer. Escrevi num artigo, há tempos, acho que aqui mesmo na Consultoria, que o álbum é uma revolução conservadora. No sentido de que o abalo que Brian provocou com a obra não era produto da pesquisa de novos recursos, da inovação tecnológica, mas da incorporação criativa da grande tradição orquestral estadunidense. E não apenas no uso de instrumentos mais afeitos ao erudito e ao jazz, mas pela estrutura musical em si, que nos dá aquela sensação de absoluta novidade e absoluta familiaridade. E, meus amigos, tem as canções. Ah, as canções...
Fernando: Dizem que quando os Beatles lançaram o Revolver, Brian Wilson se fechou no estúdio para tentar superar outra obra prima da banda de Liverpool. Acredito que Pet Sounds até superou mesmo esse álbum dos Beatles, mas o problema foi quando lançaram o número um dessa nossa lista. Brian Wilson acabou ficando pirado. Pet Sounds é tão bom que a versão que eu tenho com as versões em stereo e mono na sequencia me faz sempre ouvir tudo duas vezes.
Líbia: Os meados dos anos 60 tiveram grandes lançamentos, cada disco que você escuta dessa época você diz coisas do tipo “Esse mudou toda a música!”. O pessoal andava engajado em lançar uma coisa mais grandiosa que a outra e quanto mais diferente e inovador mais satisfeitos estariam. E resumindo, criatividade é liberdade. Esse álbum é simplesmente perfeito do início ao fim, sem pular nenhuma faixa. Na primeira audição você reconhece que há algo significativo ali. Há uma sensibilidade tão ímpar que deve escuta-lo inteiro para senti-lo e entende-lo. “Wouldn't it be nice”, “That's not me”, “God Onlys knows” e “I know there's an answer” são minhas favoritas, mas deve escuta-lo inteiro para a experiencia ficar completa. Brian Wilson alcançou seu objetivo se colocar esse disco na história do rock, abrindo vários caminhos para a música no geral e até hoje segue no topo da lista mundial.
Mairon: Pet Sounds não estar na primeira posição dessa lista é vexatório. Tudo o que o disco representou em 1966, sendo inclusive responsável direto pela criação do primeiro lugar. Afinal, o próprio Paul afirmou que nenhuma formação musical é construída sem ter ouvido o álbum, ouvindo-o tanto que as vezes passava 10 horas seguidas sentado apreciando as letras e melodias do LP. Composições do calibre de “Don't Talk (Put Your Head On My Shoulder)”, “God Only Knows”, “Here Today”, “I Just Wasn't Made For These Times”, “I Know There's An Answer” e “Would it be Nice” são a nata da nata feita na música pop nos anos 60, e melhor do que todo o resto dessa lista. Adicione a isso o arranjo de “Sloop John B” e “That's Not Me”, as vocalizações primorosas de “I'm Waiting For The Day” e “You Still Believe In Me”, a provocante “Caroline, No” ... Fecham as instrumentais “Let's Go Away For Awhile” e “Pet Sounds”. Um dos melhores discos de todos os tempos. Brian Wilson criando melodias e harmonias impressionantes, jamais ouvidas até então e jamais igualadas posteriormente. Um trabalho árduo, longo e de extrema dedicação, feito com todo o amor que o álbum prega. Por isso, todos que o ouvem são unânimes em admirar aquilo que é transmitido pelo grupo norte-americano. Inclusive os críticos musicais, há mais de 50 anos, garantem a sobrevivência deste disco sempre tecendo elogios amplamente qualificados para a obra-prima da década de 60, e principal influência para diversos grupos. Falei mais sobre ele aqui e aqui
Micael: Assim como no caso de The Piper at the Gates of Dawn, pode-se dizer que este é um álbum de Brian Wilson, não dos Beach Boys. E, assim como acontece com Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, é mais um registro, a meu ver, superestimado, embora eu goste muito mais deste do que daquele. Nunca consegui entender direito este disco, o acho “meloso” demais, com Brian se queixando demais da vida boa que levava e praticamente rompendo com o estilo e os temas adotados pela banda até então. "Wouldn't It Be Nice", "God Only Knows" (“a melhor música já criada”, segundo Paul McCartney) e "Caroline, No" são fantásticas, sempre gostei do ar de ingenuidade que "Sloop John B" carrega em seu complicado arranjo, e " I Know There's An Answer" é sempre merecedora de elogios, mas é outro disco que, para mim, mereceria estar na lista de “mais importantes”, não na lista de “melhores”. Pelo menos, é extremamente agradável de ouvir!
Ronaldo: A sinfonia pop perfeita. O talento de Brian Wilson como compositor e arranjador é inquestionável e a companhia de seus colegas de banda nos vocais torna esse trabalho absolutamente peculiar, uma coisa única na história da música contemporânea. É música que está dentro das cercanias do rock, mas que busca traduzir, através de uma melancolia suave, algo que o próprio rock raramente consegue oferecer.

3° King Crimson – In the Court of the Crimson King [1969] (71 pontos)
André: Pessoal vai querer me apedrejar, mas dentre os muitos gigantes progs britânicos setentistas, o King Crimson é o que menos me atrai. Outras bandas até mesmo muito menores tem mais a minha atenção. O fato de Robert Fripp ser também radicalmente louco por causa de seus direitos autorais também não ajuda a ter uma simpatia por eles (não se surpreendam se de repente a capa do disco aqui do nosso site desaparecer após recebermos um e-mail dele ou de seus advogados com ameaças de processo por uso de imagem), mesmo que nós sejamos um site nanico do qual não ganhamos um centavo por ele. Falando da música, sim, tenho admiração principalmente pelas habilidades guitarrísticas de Fripp, mas mesmo seu maior clássico não me prende a atenção tanto quanto todos os outros progs que virão na lista da década de 70, já prevendo o que entrará. Admiro seus integrantes individualmente quando participaram de outras bandas e projetos, mas não aqui.
Daniel: In the Court of the Crimson King pode ser considerado como uma pedra fundamental para a incipiente vertente do rock progressivo que estava surgindo naquele momento. Boa parte dos elementos os quais se tornariam presença constante nas principais obras do estilo progressivo, durante os anos seguintes, apareceram presentes no álbum. Enfim, muito à frente de qualquer outro álbum desta lista – e de outras mais – o disco de estreia do King Crimson é forte candidato a melhor disco de todos os tempos. E a cada audição isto fica ainda mais óbvio, ao menos, para mim.
Davi: Banda cultuadíssima, com músicos de primeiríssimo time, mas que faz um som que não é dos mais fáceis. Se fosse para recomendar um álbum como porta de entrada, contudo, indicaria esse aqui mesmo. Sem dúvidas, o seu álbum definitivo. Há, ao menos, duas grandes músicas aqui: “21st Century Schizoid Man”, dona de um excelente riff, trabalho de bateria matador e uma jam alucinante, e “The Court of Crimson King”, faixa com uma construção simplesmente perfeita. Outra que gosto muito é “I Talk To The Wind”, uma balada lindíssima que carrega uma dose de psicodelia. Se tivessem deixado “Moonchild” de fora, o álbum seria perfeito.
Eudes: Uma das experiências mais memoráveis e bizarras que tive na vida foi a primeira vez em que ouvi "21st Century Schizoid Man", há uns 43 ou 44 anos atrás, no alto da ignorância dos meus 15 anos. O peso insuportável, a dinâmica jazzística, os breaks quebra pescoço, os vocais com filtro “telefônico”... my god, o que era aquilo? Mas a experiência só se completava com o abrupto contraste de "I Talk To The Wind", que emendava, sem tempo para respirar, na primeira faixa, com uma suavidade igualmente esmagadora. Aliás, até hoje, acho que não faz sentido ouvir as duas faixas separadamente. As maravilhas que o formato LP proporcionava, né? De passagem, alguém pode explicar porque Michael Giles não é considerado um dos maiores bateristas do rock (ou mesmo do jazz)? A partir daí, o ouvinte é levado por paisagens sonoras pouco usais, uma odisseia fortemente centrada no ambiente. A viagem pelas suítes "Epitaph", "Moonchild" e "The Court of the Crimson King" não tem volta. Embora eu seja fã de todas a inúmeras variações musicais que marcaram a trajetória da banda, ainda acho que este primeiro disco é uma síntese antecipada do conjunto da história futura. Uma pedra fundamental da música popular moderna.
Fernando: Esse é um dos meus discos preferidos de todos os tempos. Difícil até falar sobre o mesmo pois gosto de absolutamente tudo nele. Mesmo “Moonchild” que alguns como um ponto baixo. A banda mudou tanto durante sua história, mas é impressionante o quanto Greg Lake se tornou um símbolo do grupo e ele só gravou esse disco. Mas vejam, compreensível, já que ele fez um trabalho excepcional. Se é ou não o pontapé inicial do chamado rock progressivo é algo irrelevante. O importante é que se tornou um padrão para a crescente onda musical que estava surgindo.
Líbia: Sem dúvidas um disco de estreia e tanto! Já começando com a empolgante “21st Century Schizoid Man”, ela começa com um suspense e logo vem todo um monumento musical. Você se apaixona nesse exato momento pela banda. Não há economia de experimentação, os saxofones e o baixo tiveram um dos seus maiores destaques no rock.
O álbum apresenta uma combinação de momentos densos, relaxantes e lindos. Em “Epitaph” temos o maravilhoso vocal de Greg Lake, que faz você olhar para dentro de si de alguma forma, tornando uma música de beleza ímpar. A faixa “The Court of The Crimson King” finaliza lindamente esse álbum, com seus 10 minutos trabalhados magnificamente e tem um dos mais belos solos de flautas desse mundo. Quando se trata de rock progressivo tudo é possível, e King Crimson abriu muitos caminhos com esse obrigatório álbum.
Mairon: Fiquei muito surpreso quando esse disco foi o primeiro de 1969, e ainda mais surpreso de vê-lo aqui na lista de Melhores dos anos 60. A estreia de Fripp e cia. é uma inegável coleção de maravilhas prog, da qual a que mais reluz é “Epitaph”. Que música fantástica, andamento arrasadoramente depressivo, mas lindo, e a interpretação vocal de Lake é para matar a pau.Discordo de quem afirma que “21st Century Schizoid Man” é uma precursora do heavy metal. Ali estão as mais furiosas notas de um jazz rock promissor, que a primeira geração do Crimson sabia tocar como ninguém. Outra maravilha é “The Court of the Crimson King”, com o mellotron mandando ver. A delicadeza da flauta de "I Talk to the Wind" e as endiabradas maluquices de Robert Fripp em "Moonchild" (faixa bem aquém de toda a grandeza do disco) encerram um disco atemporal. Deve ter sido algo totalmente surpreendente ouvir isso em 1969, pois não há casos similares antes na música pop mundial. Não é o meu preferido do King Crimson, quiçá de 1969, mas que é um baita disco, e tem uma relevância gigante quanto a burrice de certo presidente da América do Sul, ah isso tem.
Micael: O recentemente cinquentão álbum de estreia do King Crimson é um dos pilares do rock progressivo, à época ainda praticamente nascente, mas que teve muito de sua “cartilha” escrita nos sulcos deste LP. Não é meu registro favorito do grupo (Red ocupa esta posição) por causa da segunda parte de "Moonchild", faixa que ainda hoje, depois de centenas de audições, ainda tenho dificuldades de entender, mas está no Top 3 da banda para mim. Mesmo que muitos se prendam à virulência e agressividade de "21st Century Schizoid Man", é nos momentos mais contemplativos e melodiosos do disco que a verdadeira beleza deste álbum se revela. A histórica apresentação do grupo no Rock In Rio de 2019 teve apenas oito músicas executadas, sendo que três eram deste disco. Deve querer dizer alguma coisa, certo?
Ronaldo: Nesse disco separam-se os homens das crianças. Foi o casamento definitivo da maturidade instrumental do rock com toda aquela atmosfera experimental e exploratória do rock do fim dos anos 60, tentando traduzir uma ampla verve cerebral para dentro de um estilo que até então era música pra chacoalhar o corpo ou os cabelos. O disco é dramático, intenso, sufocante, hipnótico e melancólico até a medula, com uma interpretação instrumental que permanece intactamente embasbacante ao longo desses 50 anos.

4° Led Zeppelin – Led Zeppelin II [1969] (66 pontos)
André: A diferença é bem pouca do meu gosto entre o primeiro e o segundo. Mas a segunda tem uma canção que não gosto muito que é a balada "Thank You". Considerando que eu também escolho apenas um disco de cada banda, aí optei por votar no primeiro. Mas tirando esta faixa, o restante segue em um nível altíssimo. "Whole Lotta Love", "The Lemon Song", "Ramble On", "Moby Dick" são grandes músicas desta banda com uma discografia tão brilhante.
Daniel: É difícil comentar sobre um álbum, que já foi dissecado incontáveis vezes, sem soar repetitivo. Prefiro ressaltar que este disco é a aula pioneira sobre o Hard Rock setentista, pois contém, em doses cavalares, tudo aquilo que seria repetido à exaustão na década seguinte. Brilhante, empolgante, extasiante… enfim, um álbum memorável em todos os sentidos.
Davi: Quando alguém surge com um álbum foda logo de cara, cria-se uma expectativa enorme para o trabalho seguinte e, infelizmente, muitas vezes dá uma frustrada. Não é o caso aqui. Os caras conseguiram dar um passo adiante e fizeram um LP perfeito novamente. John Bonham dá aula de bateria em faixas como “Whole Lotta Love” e “Moby Dick”. Jimmy Page deixava claro que era um dos maiores riffmakers de todos os tempos em canções como “The Lemon Song” e “Heartbreaker”. Robert Plant se destaca em “Ramble On” e “Bring It On Home”. Trabalho simplesmente impecável.
Eudes: Poucos meses após o lançamento do disco de estreia e fruto de um processo pouco ortodoxo de composição e gravação, em meio a intermináveis turnês, apresentações em rádio e TV e compromissos publicitários, sai Led Zeppelin II. A julgar pela excelência do primeiro álbum, havia pouco a esperar de um novo disco da banda. O que mais, em tão pouco tempo, poderia sair de novas gravações? E, inusitadamente, o novo disco representava uma improvável evolução em relação à estreia. De repente, o primeiro disco passou a soar como um fundamento sólido para a decolagem das faixas de II. O blues na sua dimensão mais formal aparece como background do som do Led, que se aventura em direções diversas, do namoro com a colagem sonora sobre base tradicional, de "Whole Lotta Love" (um dos riffs de guitarra mais simples e reconhecíveis da história) à aerodinâmica que quase antecipa o soul da Philadelphia em "What Is and What Should Never Be", da delicadeza de "Thank You" ao estrondo de "Heartbreaker", da vitalidade sexual adolescente de "Living Loving Maid (She's Just a Woman)" à fusão de bebedeira comatosa e ressurgência elétrica de "Bring It On Home", um velho blues de Willie Dixon. Em suma, meu disco predileto dos anos 1960 e que, no que pese as maravilhas que a banda produziria entre 1970 e 1973, só seria superado pelo melhor disco da história, Physical Graffiti (1975).
Fernando: O fato de ter dois disco do Led Zeppelin numa lista dessa pode parecer exagero. Eu mesmo, pensando na inclusão de outros nomes, poderia ter deixado esse segundo disco de fora, mas o repertório desse disco é tão forte quanto o primeiro e, até pelo pouco tempo de gravação entre um e outro, consegue manter a unidade do material muito coeso.
Líbia: Muito conhecido como “O álbum mais pesado” da banda, um disco ainda muito ligado ao blues rock, porém muito mais pesado com guitarras mais altas e distorcidas. Em “Whole Lotta Love” está um dos riffs mais marcantes do Jimmy Page. Em “The Lemon Song” temos um dos melhores trabalhos de contrabaixo de John Paul Jones, além de excelentes performances da guitarra e bateria com viradas fenomenais de Bonham. Led Zeppelin II é uma verdadeira aula de música e instrumentação com riffs de guitarra cheios de alma de Jimmy Page, canções bem construídas para os vocais apaixonantes de Robert Plant, em cima da coesão rítmica da bateria de John Bonham e o baixo perfeito de John Paul Jones nos envolvem.
Mairon: Se com o seu primeiro disco o Led mostrou que vinha forte, com Led Zeppelin II isso foi comprovado definitivamente. Plant, Page, Jones e Bonham desbancaram Stones e Beatles, e cravaram seus nomes no patamar mais alto da história da música. A partir daqui, o quarteto passou a voar solenemente acima de todos os demais. As experimentações de "Whole Lotta Love", o jogo de luz e sombra das lindas "Thank You" e "Ramble On", as recriações sensacionais para os blues animalescos de "Bring it On Home" e "The Lemon Song", os solos extravagantes e ousados de Page ("Heartbreaker") e Bonham ("Moby Dick)", as curtinhas mas grudentas "Living Loving Maid (She's Just a Woman)" e "What Is And What Should Never Be" fazem Led Zeppelin II passar tranquilo pelas suas caixas de som, como todo grande álbum deve ser. O Led ser a única banda a emplacar dois discos, ao menos nessa lista, mostra que os caras eram acima da média mais alta das bandas daquela década. E tenho certeza que em nos anos 70 no mínimo mais dois discos devem aparecer. Não há outra palavra a não ser PARABÉNS para o quarteto britânico, ou melhor, OBRIGADO por terem criado tanta música boa!
Micael: Em minha opinião, o Led conseguiu superar sua bela estreia poucos meses depois de seu primeiro registro completo chegar ao mercado. Mais pesado, mais impactante, mais sensível (ouçam "Thank You" sem se emocionar e confirmem sua incapacidade de ter sentimentos), mas ainda mantendo um pezinho firme no blues, II é um dos grandes discos de uma das grandes bandas da história. Simples assim!
Ronaldo: Pra mim é particularmente difícil escrever sobre esse disco, porque eu simplesmente o acho o melhor disco de rock de todos os tempos. Minha visão sobre esse disco é absolutamente turva e enviesada e não tenho como tentar convencer mais o leitor sobre isso, porque simplesmente é o melhor de todos.


5° The Who – Tommy [1969] (59 pontos)
André: Foi com dor que tive que cortar este disco radiante de minha lista. Mas fico muito feliz que tenha entrado. Não tem como não ficar espantado com o capricho que o The Who teve com essa obra e com estas canções. Pioneiro em complexidade e superprodução, a banda não decepciona e o lado A do primeiro disco é o que mais gosto. "1921" e "Amazing Journey" são as minhas favoritas do disco embora os outros lados eu também destaque "Underture" e "We're not Gonna Take it". Eles tem que mesmo se abraçar na bandeira do Reino Unido como sempre fizeram, porque só uma nação grandiosa como essa soltou tantas bandas incríveis e tantas músicas marcantes nessa década de ouro.
Daniel: Embora não seja o meu álbum preferido da banda, é fácil entender a presença de Tommy nesta lista. Um disco duplo, recheado de clássicos do calibre de “Pinball Wizard” e “We’re Not Gonna Take It”, por exemplo, não tem como não ser exaltado. Trata-se de uma ópera rock, de enredo interessante, recheado de arranjos memoráveis e composições que marcaram a história do rock. Presença justíssima.
Davi: Matador! Essa é a melhor palavra para definir esse disco. Assim como acontecia no Led, o The Who tinha um time perfeito. Um músico melhor do que o outro. Keith Moon é outro que considero como um dos melhores bateristas de todos os tempos. Mas, em se tratando de The Who, é preciso mencionar a figura de Pete Townshend. Além de ser um exímio guitarrista e um bom cantor, o cara é um baita de um compositor. E foi exatamente da mente dele que nasceu o Tommy. Provavelmente, a melhor ópera rock que já foi criada. O texto é inteligentíssimo, o repertório é impecável. Apesar de ser um álbum duplo, o trabalho não é cansativo. Pelo contrário, nem sentimos o tempo passar. Os grandes destaques ficam por conta de: “Overture”, “Amazing Journey”, “Christmas”, “The Acid Queen”, “Pinball Wizard”, “Go To The Mirror” e “We´re Not Gonna Take It”.
Eudes: Tommy é a invenção da ópera-rock, gênero que foi exercido com sucesso praticamente apenas pelo Who. A grande parte de outras tentativas soaram apenas pretensiosas e/ou constrangedoras. Claro que a ópera popular, essa tradução da velha arte lírica para a cultura pop não foi inventada por Pete Townsend, já era sobejamente conhecida na esfera da música norte-americana (Porgy and Bess, por exemplo), mas nunca havia sido testada em linguagem rock. O segredo da habilidade do Who para o gênero, que repetiria (para alguns, até com mais inspiração) a empreitada em Quadrophenia, está na verdade na destreza para compor e executar canções de extrema energia e excelência melódica, que a banda já praticava com um que de genialidade nos seus discos anteriores, mas agora costuradas por meio, não só de um único tema, mas por uma competente equação orquestral. Tá certo, que a história contada é meio besta, marcada por um certo tom messiânico da época, mas não é isso que na verdade dá o tom da obra, mas a compacta massa sonora armada sobretudo por Pete Townshend e executada com exímia habilidade pela banda. Uma obra essencial para entender o que se passava no lendário final dos anos 60.
Fernando: Depois desse disco mais um termo se popularizou na cena musical: a ópera rock. Com uma história até um pouco confusa – só fui entender mesmo depois de ler o conceito explicado – trouxe para o mainstream algo que já havia acontecido algumas vezes com outro conjuntos, os discos conceituais. Era o rock se aproximando da arte ou a arte chegando próximo do rock.
Líbia: Confesso que minha primeira audição dessa ópera-rock foi com lágrimas nos olhos já nos primeiros minutos instrumentais da faixa que abre o álbum, “Overture”. E não estou exagerando. Essa faixa é uma grande junção das melodias que vão servi de base das músicas do álbum. “Amazing Journey” é um dos grandes destaques do disco, e é onde já sabemos porque o Tommy é um garoto “cego, surdo e mudo”. A capacidade de Pete Townshend de construir uma longa narrativa conceitual trouxe novas possibilidades ao rock. E apesar da complexidade do projeto, The Who não perdeu de vista as sólidas melodias, harmonias e instrumentação vigorosa, resultando em um material com uma graça adequadamente poderosa.
Mairon: A segunda ópera rock de Pete Townshed até hoje permanece como uma das mais importantes, junto com The Wall (1979), do Pink Floyd. Musicalmente, acho o disco um pouco cansativo, com ótimos momentos (“Overture”, clássico dos clássicos, “Underture”, “Sparks”, “I’m Free”, “Go To The Mirror!” e “We’re Not Gonna Take It”) e outros que, apesar de importantes para a história, não me agradam muito (“1921”, “Pinball Wizard” . Meu preferido do The Who é outra ópera-rock Quadrophenia (1973), um disco mais sério e com uma história muito boa, apesar de, em termos de letras, Tommy ser praticamente perfeito, e ao vivo, podadinha, funcionar que é uma beleza. Não votei nele, mas assim como o 1° lugar, creio que eu que devo ser o maluco na história. Ao menos admito que as versões que foram feitas no filme homônimo não superam o original, diferente para o que ocorre com o disco dos caras de Liverpool.
Micael: “Ouça este disco com uma vela acesa e ele lhe mostrará o futuro”, escreveu a irmã do protagonista do filme Quase Famosos ao fugir de casa e lhe deixar sua coleção de LPs. A ópera rock por excelência me conquistou primeiro por suas versões ao vivo (nos registros ampliados gravados em Leeds e na Isle of Wight), e demorei anos para conhecer a versão de estúdio desta obra prima, a qual, é claro, não me decepcionou. Coloquei este disco no primeiro lugar da minha lista, pois o considero uma obra prima, algo a ser escutado na íntegra, com pouquíssimos ou nenhum “tapa-buracos” preenchendo os sulcos do vinil duplo. A hoje famosa história do garoto “cego, surdo e mudo” virou filme, musical da Broadway e foi adaptada e interpretada ao vivo diversas vezes, mas sua força nunca se perdeu nestes mais de cinquenta anos. Clássico.
Ronaldo: Nem sempre o pioneiro em algum assunto é quem realmente leva a fama. Assim como as experiências dos Beatles em Sgt. Peppers não foram exatamente inéditas quando lançadas, o mesmo se aplica ao Who em Tommy. Mas a diferença entre o como é feito e quem fez (se esse alguém, por mérito anterior, já for famoso) faz toda a diferença. É a ópera-rock definitiva e nem o próprio Who conseguiu lançar algo melhor nesse formato.


6° The Jimi Hendrix Experience – Are You Experienced? [1967] (56 pontos)
André: Já tive minhas épocas de não ligar muito para os trabalhos de Hendrix que, felizmente, ficaram no passado. Mais um sujeito de vida curta que influenciou uma porrada de bandas que gosto tanto e que deixou aqui um grande registro sonoro. Só talvez minha reclamação fique em relação ao foco excessivo da crítica em cima da louvação à Hendrix quando se tem um Mitch Mitchell e um Noel Redding fazendo chover na bateria e no baixo, respectivamente. Eles são um trio e este trio fez um disco excelente, tenho dito!
Daniel: Para mim, é outro dos melhores discos de todos os tempos. Penso que o Rock pode ser dividido em antes e depois de Hendrix. Já havia riffs e solos de guitarras antes, mas não com o feeling e o talento únicos de Jimi – o maior expoente e responsável por transformar a guitarra no símbolo do Rock e tirá-la de uma posição de instrumento de acompanhamento para ser a protagonista do estilo. “Manic Depression”, “Red House”, “Fire” e “Foxy Lady” são exemplos destas afirmações.
Davi: Excelente trabalho de estreia de um dos guitarristas que ajudaram a definir a estética do rock n roll. Os músicos que estavam por trás também eram espetaculares. Eu sou baterista e sempre admirei muito o estilo do Mitch Mitchell. Claro que Hendrix era a figura central aqui, mas os caras são tão feras que é impossível ignorá-los. Lançado na era da psicodelia, o disco traz alguns momentos experimentais como ocorre com a faixa título, mas claro que na obra do cara, as músicas onde as guitarras ficam na cara são o ponto alto. O repertório é tão bom que o LP parece uma coletânea. A trinca inicial com “Purple Haze”, “Manic Depression” e “Hey Joe” comprova isso. Outros momentos de destaque ficam com “Foxey Lady”, “Stone Free”, “Red House” e a linda balada “The Wind Cries Mary”.
Eudes: Estamos diante de um álbum que traz em seu repertório, entre vários outros, clássicos do tamanho de "Purple Haze", "Hey Joe" e "The Wind Cries Mary", faixas que estão incluídas entre as 500 melhores canções já gravadas da Rolling Stone. Só para a gente ter a proporção do que estamos falando. Não é à toa que Reuben Jackson, arquivista do Smithsonian Institution escreveu: "ainda é uma gravação histórica, porque é do rock, R&B, blues ... da tradição musical. Alterou a sintaxe da música ... de uma maneira que comparo a Ulisses de James Joyce”. Esta alteração da sintaxe, contudo não se expressa num disco de música progressiva ou estritamente experimental. The Jimi Hendrix Experience era uma banda de rock. Toda a experimentação é filtrada aqui em faixas feitas para o rádio, na forma, como alguém já disse sobre o rock dos anos 60, de pequenas sinfonias de 3 ou 4 minutos. O concentrado experimental e subversivo dos arranjos e da execução de Hendrix está entranhado em canções perturbadoras, mas perfeitamente audíveis pelo ouvinte comum de rádio. Enfim, em seu álbum de estreia, a banda de Jimi Hendrix cria o protótipo do clássico do rock e da música popular. Original, subversivo, fundador!
Fernando: É difícil analisar hoje sem a perspectiva da época o quanto isso impactou o mundo do rock, principalmente pela questão do uso das guitarras. Hoje apenas podemos repetir o que ouvimos durante décadas, mas eu queria ter vivido esse impacto. Após 50 anos a técnica utilizada nem impressiona muito e imagino que o Clapton já mostrava algo parecido há mais tempo. Eu tenho os três disco lançados por Hendrix, gosto deles, mas nunca tive vontade de me aprofundar nas milhares de gravações lançadas postumamente. Talvez com elas eu tivesse uma noção maior da importância de Hendrix.
Líbia: Você pode estar em um lugar aonde não conhece ninguém, mas se colocam para tocar as conhecidas “Purple Haze”, “Hey Joe”, “Foxey Lady” logo se sentirá em casa. Cito essas três porque sem fazer esforço foram das primeiras músicas desse ícone da guitarra que passaram pelos meus ouvidos. Hendrix conseguiu unir o Blues, Psicodelia, Soul e Funk com maestria, tornando o seu som um dos mais originais e inovadores. Assim ele se tornou um ídolo até mesmo de grandes guitarristas. Foi mais um grande disco de 1967, ano de lançamentos históricos, mas Are You Experienced? deixou muitos de joelhos. O destaque dele naquele ano foi constante e hoje podemos ver como um disco atemporal. "Manic Depression" com seus riffs insanos e bateria ainda mais. "Fire" é realmente incendiária, iniciando com um riff surpreendente. "The Wind Chies Mary" é uma exibição simples e bonita do lado mais suave de Hendrix. Após o lançamento, Jimi Hendrix fez muita gente querer aprender a tocar guitarra e entender como funcionava toda aquela complexa magia.
Mairon: Se Hendrix tivesse gravado só esse álbum, já seria o suficiente para ser o que ele se tornou. A inovação das guitaras elétricas com certeza pssa por Are You Experienced?, basta ouvir os solos dilacerantes de "Manic Depression", as experimentações de "May This Be Love" ou a delicadeza de "The Wind Cries Mary". Para apresentar Hendrix a um desconhecido de sua obra, é só largar "Hey Joe", "Purple Haze" ou "Foxey Lady" que certamente a pessoa irá ligar o nome a obra. Fora que a cozinha de Mitch Mitchell e Noel Redding é igualmente competente e fudidaça, vide "Fire" e seu ritmo avassalador, ou o vigor de "I Don't Live Today". Mesmo com canções menos inspiradas, no caso "Remember" (versão inglesa) "Love Or Confusion" e "May This Be Love", a estreia de Hendrix é um apanhado de canções que viraram referências para a guitarra a partir de então. Antes de Hendrix, a guitarra era apenas um instrumento de acompanhamento. Depois de Hendrix, a guitarra virou o símbolo do rock ‘n’ roll. A faixa-título deve ter dado uma trabalheira do caralho para gravar, mas o resultado é uma das mais majestosas canções de toda a obra do Deus Negro. “Third Stone from the Sun” (QUE QUE É ISSO?? - Maria Do Rosário Mode On), a sensacional revisão para “Red House” ou a paulada "Can You See Me" (essas três na versão britânica, assim como o nome corrigido de "Foxy Lady") são outros ápices de um ótimo disco, que deve ser apresentado para qualquer menino com vontade de ser músico. O melhor disco de Hendrix, cujas faixas ao vivo ganhavam ainda mais vigor, historicamente essencial, e justíssima sua entrada nesses dez mais, apesar de eu não tê-lo mencionado.
Micael: A estreia do The Jimi Hendrix Experience mostra o surgimento do maior, mais influente, mais inovador e mais importante guitarrista da história do rock. É impressionante ouvirmos gravações de Hendrix dois anos antes, como músico acompanhante de artistas como Curtis Knight ou Little Richard, e vermos o quanto ele evoluiu em tão pouco tempo se comparados aos registros feitos para este LP. Seja em sua versão original inglesa, quanto em sua versão alterada norte-americana (a qual colocou os singles de sucesso no track list em lugar de algumas faixas “menores” aos olhos da gravadora), Are You Experienced? é um álbum essencial, que serviu também para revelar ao mundo um dos maiores bateristas daquela década, o genial e quase sempre menosprezado Mitch Mitchell, o qual, por estar “atrás” de um ser alienígena que veio a este mundo mudar a história da guitarra elétrica, na maioria das vezes acaba não recebendo todos os louvores e elogios que merece. Mais um disco essencial desta lista, obrigatório a todo aquele que sonha, um dia, tocar alguma passagem que seja nas seis cordas da guitarra. Só não vale desistir da ideia depois da audição, coisa que chegou a passar pela cabeça do próprio Eric Clapton depois de assistir Hendrix pela primeira vez. Se nem “Deus” deu conta de competir com Jimi, que somos nós, pobres mortais, para tentar?
Ronaldo: Uma revolução em forma de disco, tanto pela forma quanto pelo conteúdo. Foi um disco que, ao amplificar a potência dos instrumentos e a postura dos instrumentistas, permitiu que o rock fizesse mais com menos. Ou seja, era mais força musical com menos gente no palco - o formato power-trio. Musicalmente trazia músicas sem refrão, com uma insanidade virtuosa na guitarra, levadas pouco convencionais de bateria como algumas das muitas inovações trazidas por este disco. Divisor de águas para o rock e para a guitarra elétrica.

7° The Doors – The Doors [1967] (50 pontos)
André: Não sou grande fã do The Doors mas é claro que preciso reconhecer suas qualidades. Certo que a figura de Jim Morrison se tornou muito mais messiânica do que eu creio que deveria, mas sim, os caras fizeram este primeiro disco a frente do seu tempo e com arranjos bem originais. Talvez seja a falta do baixo (que existe de maneira discreta, servindo apenas para reforçar o órgão de Manzarek), meu instrumento de rock favorito. Por questão de gosto meu mesmo, não tenho aquela admiração pela discografia deles, mas entendo que coloquem este primeiro disco em alta conta. Mas eu sou esperançoso e me conheço: este álbum vai, um dia, ser apreciado por mim daqui talvez uma década e eu vou ficar com aquela cara de "como foi que eu desprezei isso por tantos anos?".
Daniel: Uma obra-prima do Rock Psicodélico. A voz de Jim Morrison, a guitarra de Robby Krieger e o órgão de Ray Manzarek se entrelaçam em uma simbiose única, produzindo músicas memoráveis como “Break On Through (To the Other Side)”, “Soul Kitchen”, “Twentieth Century Fox” e as clássicas “Light My Fire” e “The End”. Um álbum único e espetacular, que marcou a carreira do conjunto para a eternidade.
Davi: Acho esse álbum absurdo. Lembro que até indiquei esse disco em um dos Consultoria Recomenda. O que disse naquela época, mantenho. A sonoridade deles já estava mais do que definida quando entraram no estúdio para fazer o registro. Tem artista que demora alguns anos até criar sua identidade. Não era o caso deles. O instrumental era fantástico. Jim Morrison além de ser um excelente letrista, era um ótimo cantor e um excelente frontman. As apresentações dos caras eram uma verdadeira catarse e, muitas vezes, suas atitudes chamavam mais a atenção do que as jams que os músicos realizavam quando estavam em ação. O repertório desse primeiro LP é impecável e traz grandes clássicos do rock como “Light My Fire”, “The End”, “Break On Through” (com uma levada de bateria inspirada na bossa nova), além de várias músicas que são consideradas clássicos entre os fãs do grupo como as belíssimas “The Crystal Ship” e “Take As It Comes”. Audição obrigatória.
Eudes: Não sou particularmente fã dos Doors, mas também não sou terraplanista para negar a importância e influência da banda que a credenciam a estar corretamente nesta lista. O primeiro disco da banda é outro que só ouvi na idade adulta. Não estava no meu menu da época de adolescência. Os Doors estavam bastante centrados numa tradução da poesia americana clássica, bem como da literatura da época beatnik, para a música pop, inclusive com a proximidade física de vários expoentes desta escola poética com a banda e, em especial, com Jim Morrison. Mas The Doors é um disco de rock, e nesse campo é um álbum muito bom. Sua fusão de som pesado com um fraseado de órgão e guitarra minucioso e delicado, na base de uma seção rítmica que passeava do blues à bossa nova produzia uma sensação de novidade a ouvidos roqueiros. No mais, o que dizer de um álbum que começa com "Break On Through (To the Other Side)" e termina, vejam só, com "The End", passando por "The Crystal Ship", "Light My Fire", pelas versões para "Alabama Song (Whisky Bar", de Brecht e Weil, e "Back Door Man", de Willie Dixon?
Fernando: Esse é talvez o disco que menos ouço dessa lista. Não por que não gosto da banda, mas por conta dessa ser uma das poucas que tenho costume de ouvir coletâneas e não álbuns específicos. Porém, analisando seu set list, é quase uma coletânea mesmo.
Líbia: The Doors é um álbum extremamente essencial e um dos mais influentes da banda. Lançado em 1967, ano de grandes lançamentos no mundo, a banda começava a impressionar as pessoas com essas 11 faixas, e certamente foi uma estreia de respeito. Vou comentar aqui minhas impressões de algumas músicas desse grande álbum. “Break on Through” é um dos maiores hits, muitos já nasceram familiarizada com ela. A calma “The Crystal Ship” é minha música favorita do disco, acho que devo ter uma atração por melancolia. Gosto da forma como ela é levada tanto nos instrumentais quanto nos vocais de Jim. Em “Alabama Song” temos um órgão sendo executado de forma extraordinária. “Light my fire” uma das melhores apresentadas em shows e essa música é um dos mais significativos feitos da história do rock. “The end”, a última faixa progressiva e marcante. Não precisa de nada para viajar nesse som.
Mairon: The Doors é um dos grandes álbuns de estreia em todos os tempos no rock mundial, servindo fácil como uma coletânea de clássicos para apresentar a banda a alguém que não a conheça. São ao menos três grandes clássicos: “Break on Through (To The Other Side)”, na qual somos apresentados a potência do órgão de Ray Manzarek; “Light My Fire”, a balada criada por Robbie Krieger e totalmente readaptada para uma interpretação inesquecível de Jim Morrison; e "The End”, trilha sonora de filmes e séries que narram a psicodelia sessentista, fundamental de ouvir ao menos uma vez na vida para qualquer um que aprecie rock. Unem-se a os clássicos as faixas “I Looked At You”, “Soul Kitchen” e “Twentieth Century Fox”, com levadas agradáveis, a voz adocicada de Morrison chapando o ouvinte e apropriadas para pular pela casa, e as pérolas escondidas “End of the Night” e “Take it As it Comes, as quais foram conquistando o espaço no coração do fã com o passar dos anos. Como não se comover com a baladaça “The Crystal Ship”, cantar totalmente embriagado com os amigos “Alabama Song / Whisky Bar”? Há de se aplaudir também a bela recriação dos garotos para “Back Door Man”, de Willie Dixon. O órgão de Manzarek fez história junto as letras de Morrison, e se seria muito injusto não estar um álbum do The Doors entre os dez mais. Apareceu sua estreia, mas ouça também Strange Days, e entenda por que eles se tornaram o que são hoje!
Micael: Se considerarmos a Experience como uma banda inglesa, então os Doors e os Beach Boys serão os únicos artistas americanos presentes nesta lista, o que mostra a superioridade da música inglesa sobre a americana da época (embora a cena de San Francisco e o próprio Velvet Underground, ignorado por meus colegas consultores, sejam fortíssimos argumentos contra esta afirmação). A esteia de Jim Morrison e companhia ficou marcada eternamente por "The End" e "Break On Through", mas é muito mais que isto. É uma amostra da psicodelia californiana em seu estado bruto, da beleza do texto do “poeta” Morrison, da criatividade do tecladista Ray Manzarek e da capacidade musical de um agrupamento que, assim como outros desta lista, alcançaria voos ainda mais altos e variados que os feitos aqui, mas que teria em seu primeiro registro uma obra magnífica firmemente plantada dentre as melhores estreias da história do rock and roll. Como muitos desta lista, essencial.
Ronaldo: No rock pós-66 começava a surgir um antagonismo entre a música pra dançar e a música cerebral. O The Doors conseguiu unir magicamente esses dois pólos repulsivos. O som é simultaneamente ensolarado, como a Califórnia natal do quarteto, e repleto da névoa densa das grandes metrópoles. Além disso, é marcante o fato do disco trazer muitas inovações do ponto de vista musical, como a proeminência dos teclados, a ausência do baixo, as batidas emprestadas de outros ritmos e um guitarrista de blues no meio dessa geleia sonora. Um disco totalmente original, e assim como em vários outros exemplos, imbatível até mesmo pela própria banda que o criou.


8° Led Zeppelin – Led Zeppelin [1969] (44 pontos)
André: Não tem jeito, essa banda fica ainda mais sensacional quanto mais o tempo passa. Já nesse primeiro disco a gente vê que não é qualquer coisa, moleques iniciantes e tal. Já é disco de banda gigante. Tantos clássicos, tanta coisa boa, o instrumental então espetacular e mesmo eu não sendo lá tão fã de Robert Plant, é mais do que óbvio que o cara é muito acima da média. Mas Page, Jones e Bonham são deuses em seus instrumentos. Aqui não tem faixa ruim, é uma melhor que a outra.
Daniel: A estreia do Led Zeppelin é um disco inovador, que traz a importância da beleza e da sutileza de melodias como complemento a uma abordagem agressiva, extrema e voraz do Hard/Heavy nascente. Desta forma, Led Zeppelin aponta para o estilo Hard/Heavy que conquistaria as massas na década seguinte ao mesmo tempo em que traz a diferença estilística marcante do conjunto. Quando é pesado e feroz, o Led Zeppelin é dominante, mas, ao mesmo tempo, também cativa com a leveza e a sensibilidade durante as melodias mais amenas.
Davi: Amo Led Zeppelin. É uma banda que cresci ouvindo. Especialmente, os 5 primeiros álbuns. São parte do que chamo de disco de cabeceira. Os caras tinham o time perfeito. Não havia um músico mediano em sua formação, somente mestres. John Bonham e Jimmy Page estão, para mim, entre os melhores de seus respectivos instrumentos em todos os tempos. Muita gente acusa o grupo de ter plagiado canções, mas não há como negar que as músicas aqui, com ou sem plágios (você decide), são perfeitas. Chega a ser uma irresponsabilidade citar um destaque, mas para não ficar em cima do muro vou citar 4 canções que me marcaram muito: “Good Times, Bad Times”, “Babe I´m Gonna Leave You”, “Dazed and Confused” e “Communication Breakdown”. Se você está entrando no mundo do rock agora e ainda não ouviu esse disco, dê uma escutada nessas faixas com atenção. Duvido você não colocar de volta na primeira música e deixar o play rolando.
Eudes: Uma marca diferencial de Led Zeppelin (ou Led Zeppelin I) é o fato da banda apresentar seu som e o estilo que forjou praticamente prontos, já na estreia. Bem diferente de seus contemporâneos, como Beatles, Rolling Stones e Who, cujas carreiras podem ser facilmente divididas entre uma fase mais primitiva e outra mais evoluída. O Zeppelin já estreou com um som amadurecido, com o conjunto do que futuramente distinguiria a banda já presente. Este fato faz com que eu me incline a achar que este álbum é o melhor debut fonográfico de um grupo em todos os tempos. Tomo como referência Truth, do Jeff Beck Group, que aliás entrou na minha lista. Este excepcional disco de um time, no papel, superior ao Led Zeppelin, na época (era o que se passou a chamar de supergrupo) não consegue se ombrear com a estreia do Led. Provavelmente, um diferencial seja o artesanato da produção, já estritamente controlada por Page, que juntou coisas aparentemente díspares: liberdade musical e amarração pop das faixas, peso mastodôntico e filigrana, virtuosismo individual e conjunto. Além, obviamente, de um repertório enlouquecedor!
Fernando: Esse foi o resultado de anos de preparação, estudo, experimentações que Jimmy Page fez nas bandas que participou, nas milhares de sessões que participou como músico de estúdio ou nos discos que ajudou de alguma outra forma. Todo esse trabalho ajudou a moldar uma das mais importantes bandas da história com um disco de estreia que é lembrado como exemplo invejável de cartão de visitas.
Líbia: Posso dizer que “Good Times Bad Times” abre o álbum com maestria, podemos ver toda a banda unida a bateria de John Bonham. Esse disco vai de aulas de blues, psicodelismo até o mais puro Rock and Roll. Sem dúvidas, pelo seu peso, pode ser considerado um dos primeiros registros do Heavy Metal. “Communication Breakdown” e “How Many More Times” são um dos maiores hits já gravados na história. Não posso dizer que é o melhor álbum do Led Zeppelin, mas é meu favorito. E certamente cada fã terá um favorito diferente.
Mairon: É difícil dizer qual dos dois álbuns iniciais do Led eu gosto mais. Na minha lista, coloquei a estreia, e acredito que fiz certo. A crueza dos novatos Plant e Bonham com a experiência de Jones e Page geraram a maior banda de rock de todos os tempos, provando que o Yardbirds tinha tudo para receber esse posto, se não fosse o fim precoce em meados de 1968. (In)felizmente, a morte de um gigante gerou outro gigante, maior e mais forte, e que conquistou o mundo durante a década de 70, e, ainda hoje, conquista fãs das novas gerações. Citação para esse álbum: ouça do início ao fim infinitas vezes! Depare-se com a brutalidade jovial de um Plant esganiçando sua garganta sem piedade (“Good Times, Bad Times”, “Communication Breakdown”), a locomotiva de quatro membros de John Bonham, fazendo “Dazed and Confused” ganhar a força que Jimmy Page queria, e conduzindo magistralmente o blues de “I Can’t Quit You Baby”, a exuberância soberana de John Paul Jones, seja nos teclados da linda “Your Time Is Gonna Come”, ou formando a melhor cozinha da história da música durante todo o disco, e principalmente, Jimmy Page. Afim de mostrar suas asas ao mundo, o cara faz misérias, seja com o jogo de luz e sombra na sensacional recriação de “Babe, I’m Gonna Leave You”, abusando do arco de violino em “How Many More Times”, mandando ver na viola em “Black Mountain Side”, e duelando com os vocais de Plant na arrepiante “You Shook Me”. Puta que pariu, escrevendo essas palavras, o disco me vem à mente, e me arrepio só de lembrar de cada música. Discaço! E mais, quatro discos de 1969 na lista. Esse foi o grande ano da história do rock? Bom, ficou parelho com 1967, mas de qualquer forma,  duvido que isso se repita nas próximas décadas.
Micael: A estreia do Led foi avassaladora, pois o mundo não estava preparado para escutar o blues da forma como o grupo fazia. Tampouco o folk, o hard rock, ou o pop espalhados pelos sulcos do LP. Ao longo da carreira, o Zeppelin de Chumbo iria voar ainda mais alto, mas sua estreia já demonstrava que o grupo não era apenas “mais um” na cena inglesa da época, muito menos os “novos Yardbirds” que seu nome original sugeria. Nascia uma entidade poderosíssima, um mito que perdura eternizado ainda hoje, e que demorará milênios até esvanecer.
Ronaldo: A soma de todos os sons de guitarra, de baixo, de bateria e de todas as gargantas de 1956 até ali. Buscai primeiro o peso e tudo o mais vos será acrescentado.

9° Pink Floyd – The Piper at the Gates of Dawn [1967] (30 pontos)
André: Olha, diferente da maioria, acho os dois discos solo de Barrett apenas medianos, mas claro, tenho consciência do fato de que ele já não tinha condições mentais de fazer algo melhor do que aquilo. Mesmo já no início de seu declínio mental, é incrível como The Piper at the Gates of Dawn soa intenso, vigoroso, criativo e com um psicodelismo de se fazer viajar sem precisar do uso de ácidos alucinógenos. "Astronomy Domine" e "Bike" são exemplos perfeitos disso. É uma tristeza mesmo saber que um sujeito tão criativo como Barrett não conseguiu mais compor nada ao nível deste primeiro disco do Floyd, que é um clássico.
Daniel: The Piper at the Gates of Dawn é o álbum de estreia do Pink Floyd, mas bem que poderia ser considerado um disco apenas de Syd Barrett. Sua sonoridade navega pelo Rock Psicodélico e é uma obra muito experimental, portanto, distante do Rock Progressivo que consagraria a banda anos depois. Muito longe de ser um álbum ruim, mas não consigo perceber nele toda a tal genialidade decantada em verso e prosa. O Pink Floyd que eu venero se estabeleceria na década seguinte.
Davi: Gosto muito do Pink Floyd, mas esse é um álbum que não consigo morrer de amores. Não sei se por eu já ser de uma geração posterior, e acabei ouvindo antes álbuns como Atom Heart Mother, The Wall, Dark Side Of The Moon e Meddle, mas sei lá... Muita gente me diz que esse é um dos melhores álbuns psicodélicos. Algo que, definitivamente, não concordo. Ok, uma banda do calibre do Pink Floyd ninguém é louco de questionar a qualidade dos músicos, mas nunca morri de amores pelo Syd Barrett (que papai do céu me perdoe) e não acho o repertório desse LP tão genial. A única música, desse disco, que acho realmente boa é “Astronomy Domine”. “The Gnome” acho simpática, mas só. O resto não me agrada. Prefiro o que fizeram depois.
Eudes: Engraçado, dos discos “de vera” do Pink Floyd, The Piper at the Gates of Dawn foi o último que ouvi. Nem sei qual o motivo. Não lembro se o LP teve pequena tiragem no Brasil, mas, por uma razão ou por outra, demorei bastante a conhecer o disco. De modo que, quando ouvi, já o fiz sob o impacto da audição dos discos mais consagrados, aqueles gravados ao longo dos anos 70. Então, a audição de The Piper soou meio como um anticlímax para mim. Isso teve, contudo, um lado bom. Pude ouvi-lo sem expectativa, sem hype, com a calma dos anos. Assim, pude sorver cada faixa como quem toma um vinho de boa safra, sem pressa e saboreando cada canção. De fato, o álbum é uma peça única. Muito influente, com fãs confessos do porte de Paul McCartney, poderia ter sido atribuído tranquilamente a outra banda, pré-Pink Floyd, com outra orientação e outra natureza criativa. Impossível muitas vertentes do rock e da música em geral, vindas depois, terem existido sem o peso do disco de estreia do Pink Floyd sob as rédeas (soltas) de Syd Barret. Nem a banda, que se foi por outros caminhos (também brilhantes), nem ninguém gravou mais nada como The Piper at the Gates of Dawn, gema solitária na música do século XX. Graças aos deuses, não fez escola. PS: Barret se deu ao luxo de não incluir no disco os singles arrasa-quarteirão "Arnold Layne" e "See Emily Play".
Fernando: Já gostava muito do Pink Floyd, mas não conhecia a fundo sua história. Gostava de muitas músicas, mas não sabia dizer em qual disco elas estavam. Porém nenhuma delas era desse disco e quando o conheci foi um choque. Não era o Pink Floyd que eu conhecia. Ouvi tanto que parece até que eu quis tirar todo atraso de te conhecido esse disco tão tardiamente. Adoro o disco todo.
Líbia: Em The Piper At The Gates Of Dawn temos Syd Barrett tentando levar os ouvintes as profundezas de sua mente. Mesmo sendo o único registro como compositor principal, até hoje é considerado um dos maiores gênios que definiram o rock psicodélico. E sim, por muitos considerado um dos melhores álbuns do Pink Floyd. Em “Astronomy Domine” há vocais bem distorcidos e mostra a forma excêntrica que Sid tocava a sua guitarra com riffs desarmônicos criando uma sensação inexplicável. “Lucifer Sam”, é uma ótima música de rock e também muito psicodélica. E “Interstellar Overdrive” é uma verdadeira obra-prima dividida em partes diferentes. A palavra “caótica” define essa música, o que a torna tão incrível. Esse disco é uma verdadeira explosão musical e uma viagem bem distante em um lugar estranho.
Mairon: Se a psicodelia californiana era regada a ervas, ácidos e canções de protesto contra a guerra do Vietnã, a psicodelia londrina era temperada com LSD e improvisações eternas. O Pink Floyd, entre as dezenas de grandes bandas que existiam na cidade na sua mesma época, foi a que se destacou mais por conta de seu líder, o gênio Syd Barrett. Ouvir “Interstellar Overdrive” e “Pow R. Toc H.” é prova de fogo para saber se você é louco ou não. Um disco sensacional, formado por canções curtas em sua maioria (algumas cômicas como “Bike”, “The Gnome” e “The Scarecrow”), ao mesmo tempo em que é um raro registro de um Syd Barrett ainda lúcido em relação ao que estava fazendo nos estúdios. Basta ouvir e viajar ao som de “Astronomy Dominé”, “Lucifer Sam” OU “Matilda Mother”, e tentar imergir na profundidade complexa de “Chapter 24” ou “Flaming”. E ainda temos o pequeno gênio Waters dando seu ar da graça na sensacional criação de “Take Up Thy Stethoscope And Walk”. Depois de The Piper at the Gates of Dawn, o grupo migrou para o rock progressivo naturalmente, com a entrada de David Gilmour, e perdeu toda sua essência psicodélica, mas jamais esqueceu de beber na fonte genial da experimentação de seu álbum de estreia. 4 Discos de 1967 nessa lista só comprova aquilo que Michael Schumacher, na biografia Crossroads de Eric Clapton, escreveu: "Se houve um ano com uma trilha sonora de rock 'n' roll, 1967 pode reivindicar a honra".
Micael: O próprio Roger Waters (que virou figura execrável para alguns idiotas do nosso país em 2018, por razões que nem mesmo eles entenderam) já disse que The Piper at the Gates of Dawn é muito mais um disco de Syd Barrett do que um registro do Pink Floyd, o que, de muitas formas, é correto. Piper é uma prova da genialidade de Syd, a qual seria destruída pouco depois pelo abuso de “aditivos químicos” e pelos próprios problemas mentais do artista, que, mesmo tendo deixado alguns registros posteriores bastante interessantes, nunca mais conseguiu atingir o nível de excelência que teve aqui. Psicodelia, lisergia, misticismos, pequenos traços do então incipiente rock progressivo, ingenuidade e muita viagem saltam dos sulcos do LP aos borbotões, deixando maravilhados a nós, simples ouvintes que só podemos agradecer ao cérebro de Syd, que, antes de ir para o “lado escuro da lua”, ainda teve tempo de mostrar como a música pode ser genial e maravilhosa. Obrigado, "Crazy Diamond"!
Ronaldo: Sem contar com a plenitude das paisagens ensolaradas dos EUA, a psicodelia gerida pelo Pink Floyd carrega no peito o ar pesado e nublado da sua terra de origem. Os delírios sonoros e vocais atingem outras cores e buscam consolo nos astros; cacofonias sonoras, embates entre acordes e ritmos e uma exploração até então unusual de efeitos sonoros deixam o ouvinte atordoado. Uma verdadeira ruptura com o pop/rock que se fazia até então.

10° The Yardbirds – For Your Love [1965] (29 pontos)
André: Uma das poucas que podemos com toda certeza chamar de supergrupo, tínhamos que ter um disco do Yardbirds entre os 10 primeiros. Um disco composto basicamente de seus singles, temos aqui um compilado de grandes canções de um supergrupo que serviu para dar origem a outro (Zeppelin) e relevância a mais um punhado de futuros instrumentistas de renome ao que temos um daqueles rocks blueseiros com uma pegada mais pop de grande qualidade. Leve, bacana e delicioso. Nem só de peso vive o rock e aqui temos um grande exemplo.
Daniel: A capacidade com que o Yardbirds pegava as canções de terceiros e traziam para roupagens únicas, para sua época, é algo louvável. O ritmo e a intensidade de suas execuções eram sem parâmetros para aqueles dias em que surgiram. Uma espécie de ‘coletânea’ de seus singles lançados nos Estados Unidos, For Your Love é um registro incrível do momento em que o Rock começava a ganhar ‘potência’.
Davi: O Yardbirds é uma banda de rock de garagem dos anos 60 que ficou muito cultuada entre os roqueiros por ter contado com três dos maiores guitarristas do rock em sua trajetória: Eric Clapton, Jeff Beck e Jimmy Page. Naquela época, eles ainda não eram superstars, eram apenas garotos que buscavam seu sonho. Garotos mega-talentosos, é claro. Nesse álbum, temos Jeff Beck aparecendo em 3 canções, mas a maior parte do material foi gravada com o lendário Eric Clapton. A banda era bem bacaninha, o disco é bem legalzinho, mas colocá-lo como um dos 10 melhores da década acho um pouquinho de exagero. Agora, é interessante notar que diversas canções daqui foram regravadas pela turma da Jovem Guarda. Ou, versionadas, se assim preferir. O clássico “For Your Love” ganhou uma versão de Renato e Seus Blue Caps aqui no Brasil. “My Girl Sloopy” tornou-se um grande hit com a dupla Leno e Lilian, levando o nome de “Pobre Menina”. Tenho quase certeza que “A Certain Girl” também ganhou uma versão por aqui. Não estou me recordando agora quem... Essas 3 canções somadas com “I Ain´t Got You” são os grandes momentos do disco.
Eudes: Quer entender como as coisas foram parar no blues-rock que determinou, em larga parte, todo o rumo do rock dos anos 70 em diante (Led Zeppelin, Jeff Beck Group, Deep Purple, Black Sabbath, e quase toda cena hard rock), precisa ouvir For Your Love, dos Yardbirds. Esta afirmação se torna mais crível quando lembramos que o disco foi lançado em julho de 1965. Como tal, For Your Love, se situa ainda na transição da hegemonia do Mersey Beat para o blues-rock, bem como no período em que o formato LP para a música pop ainda se afirmava. O disco, aliás, ainda combina faixas escritas especialmente para ele com uma coleção de singles lançados anteriormente. O álbum captura as primeiras façanhas de Jeff Beck e Eric Clapton à guitarra, mas se destaca mesmo é pela coesão da equipe que joga solidariamente em todas as faixas. Curiosamente, For Your Love é um disco americano dos Yardbirds e parte de suas principais faixas só saiu na Inglaterra meses depois, no EP Five Yardbirds. Para quem quer saber, em uma parte importante, como tudo começou para o rock inglês clássico.
Fernando: Negligenciei por muito tempo o Yardbirds. Quando finalmente fui ouvir eu gostei. Comprei uma coletânea dupla com 40 músicas com todos seus hits da época e com material que engloba todos os três guitarristas fantásticos que passaram por sua formação. Mas eu não achei a banda no nível de seus contemporâneos mais famosos como Beatles, Stone e The Who. Aliás, pensando bem, acho que esse disco está ocupando o lugar de algum da banda de Mick Jagger.
Líbia: O disco dessa importante banda começa com a música “For Your Love”, que foi o primeiro sucesso da banda, essa mesma música resultou na saída meio que voluntária de Eric Clapton da banda, abrindo passagem para entrada de outro grandioso guitarrista chamado Jeff Beck, indicado por Jimmy Page que havia recusado o convite anteriormente. Em “I’m Not Talking” (minha favorita do álbum) já podemos ver o peso do Beck. "I Ain't Got You" apresenta a gaita de Keith Relf (que mais tarde formaria o Armageddon e a também grandiosa banda Renaissance, diga-se de passagem). Em “Sweet Music” a banda já soa diferente, se torna interessante por conta da banda envolvida nessa gravação, o grande Manfred Mann, portanto a faixa está realmente fora do lugar nesse disco. Para mim esse álbum significa o nascimento de uma história mais rica da banda, Jeff Beck estava começando a encontrar o seu próprio estilo nessa fase, mas com For Your Love tiveram a oportunidade de fazer a sua primeira turnê. Esse disco abriu portas para a banda que mais tarde lançou álbuns mais firmes como “Roger the Engineer” e o experimental, psicodélico e também meu favorito, o último disco “Little Games”, já na fase Page.
Mairon: Uma palavra poderia definir For Your Love: COLETÂNEA. E pior que o disco não deixa se ser isso mesmo, já que temos aqui um apanhado de singles lançados pelos Yardbirds entre 1965 e 1966, unidos de canções inéditas, o que gera uma mistura de estilos de tocar tão diversos entre Eric Clapton e Jeff Beck. Quem conhece a diferença entre os dois, facilmente percebe quem toca em uma e quem toca em outra canção. Considerando o âmbito geral, dificilmente uma banda conseguirá unir tantos clássicos em um único álbum. Desde a abertura com faixa-título, até o encerramento com “My Girl Sloopy” (versão para “Hang on Sloopy”), todas as onze faixas de For Your Love são hinos para os aficionados (que nem eu) do grupo. Claro que há umas mais emblemáticas que outras, como a letra sacana de “A Certain Girl”, o mega sucesso “Good Morning Little School Girl”, se contagiar com a harmônica de “I Ain’t Got You”, o chiclete refrão de “I Wish You Would”, ou o embalo sensual de “Putty (In Your Hands)”. Mas ao mesmo tempo, é inevitável sair dançando ao som de “I Ain’t Done Wrong”, “I’m Your Talking”, chamar o (a) companheiro (a) para ficar agarradinho em “"Sweet Music", ou simplesmente pegar uma air guitar para tocar o blues de “Got To Hurry”. Enquanto os Beatles estavam tentando mudar o curso de seu leme, Stones e Animals iniciavam a flertar com drogas mais pesadas, os Yardbirds ainda guardavam a ingênua delinquência juvenil através de canções gostosas de ouvir, dançar, cantar e curtir. Uma aula do que é o rock ‘n’ roll, e que bom que ficou entre os dez mais.
Micael: Este era o único disco desta lista que eu não conhecia, por isto, fui até a wikipedia saber mais sobre ele (a banda, que revelou ao mundo nada menos que Eric Clapton, Jeff Beck e Jimmy Page, além dos também geniais Keith Relf, Chris Dreja e Paul Samwell-Smith, simplesmente dispensa apresentações). Descobri que se trata de uma coletânea lançada nos EUA com os compactos ingleses do Yardbirds, mais duas demos (todos com Clapton na guitarra), além de três faixas já com Beck nas seis cordas. Estas últimas são uma amostra do poder inventivo que os pássaros de jardim teriam ao longo de sua breve carreira, mas as composições com o ainda “pré-Deus” são muito fincadas ao tradicionalismo do blues, estilo que nunca foi dos meus favoritos. Quando a banda decidiu se afastar das “amarras” impostas pelo estilo, Clapton se recusou e partiu, abrindo espaço para o surgimento de álbuns melhores que este, os quais, se fosse realmente necessário ter um registro dos Yardbirds nesta lista (coisa da qual eles são mais do que merecedores, diga-se de passagem), estariam mais capacitados, a meu ver, do que este “catadão” compilado para apresentar o grupo às audiências americanas. Esta aqui, infelizmente, não é a minha praia musical...
Ronaldo: O maior berçário de guitarristas do mundo. Obviamente o disco é bom, mas visto em perspectiva, Beatles e Rolling Stones não dividiam o trono da invasão britânica à toa. Ambas tinham um carisma que o Yardbirds não tinha, ainda que musicalmente estivessem equiparados. Disco muito importante e de inquestionável qualidade, mas não capaz de roubar a posição dos Rolling Stones em uma lista de apenas 10 discos.

Listas Individuais
ANDRÉ
1. Led Zeppelin – Led Zeppelin
2. Crosby, Stills & Nash – Crosby, Stills & Nash
3. The Yardbirds – For Your Love
4. Sam Cooke – Ain’t That Good News
5. Jefferson Airplane – Volunteers
6. Buffalo Springfield – Buffalo Springfield Again
7. Duke Ellington & John Coltrane – Duke Ellington & John Coltrane
8. The Jimi Hendrix Experience – Are You Experienced?
9. The Rolling Stones – Their Satanic Majesties Request
10. Roy Orbison – In Dreams

DANIEL
1. King Crimson – In the Court of the Crimson King
2. The Jimi Hendrix Experience – Are You Experienced?
3. Bob Dylan – Blonde on Blonde
4. Led Zeppelin – Led Zeppelin II
5. The Who – Tommy
6. The Doors – The Doors
7. The Rolling Stones – Let It Bleed
8. The Band – The Band
9. Blind Faith – Blind Faith
10. The Moody Blues – Days of Future Passed

DAVI
1. Beatles – Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band
2. The Doors – The Doors
3. Jimi Hendrix – Are You Experienced?
4. The Who – Tommy
5. Big Brother And The Holding Co. – Cheap Thrills
6. The Rolling Stones – Let It Bleed
7. Beatles – A Hard Day´s Night
8. Vários - Tropicália ou Panis Et Circensis
9. The Rolling Stones – The Beggar's Banquet
10. Santana – Santana

EUDES
1. Led Zeppelin - Led Zeppelin II
2. The Beatles - Abbey Road
3. Jimi Hendrix Experience - Axis Bold as Love
4. Jeff Beck - Truth
5. John Coltrane - A Love Supreme
6. The Who - Tommy
7. The Beach Boys - Pet Sounds
8. Santana - Santana
9. The Band - Music From Big Pink
10. The Rolling Stones - Let It Bleed

FERNANDO
1. King Crimson – In the Court of the Crimson King
2. The Beatles – Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band
3. The Beach Boys – Pet Sounds
4. Blind Faith - Blind Faith
5. Pink Floyd – The Piper at the Gates of Dawn
6. Led Zeppelin – Led Zeppelin
7. Crosby, Stills & Nash – Crosby, Stills & Nash
8. The Small Faces – Ogden’s Nut Gone Flake
9. The Band – Music From Big Pink
10. Chicago Transit Authority – Chicago Transit Authority

LIBIA
1. John Mayall – Blues Breakers With Eric Clapton
2. Cream - Disraeli Gears
3. Santana - Santana
4. The Beatles – Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band
5. The Jimi Hendrix Experience – Electric Ladyland
6. The Rolling Stones – Beggar's Banquet
7. The Doors – The Doors
8. The Who – My Generation
9. King Crimson – In the Court of the Crimson King
10. Led Zeppelin – Led Zeppelin

MAIRON
1. The Beach Boys - Pet Sounds
2. The Rolling Stones - Their Satanic Majesties Request
3. Jefferson Airplane - Volunteers
4. The Yardbirds – For Your Love
5. Janis Joplin - I Got dem Ol' Kosmic Blues, Again Mama
6. Big Brother & The Holding Company - Cheap Thrils
7. Led Zeppelin - Led Zeppelin
8. Duke Ellington & John Coltrane - Duke Ellington & John Coltrane
9. Blind Faith – Blind Faith
10. David Bowie – David Bowie

MICAEL
1. The Who – Tommy
2. Pink Floyd – The Piper at the Gates of Dawn
3. The Jimi Hendrix Experience – Are You Experienced?
4. The Doors - The Doors
5. Led Zeppelin – Led Zeppelin II
6. King Crimson – In the Court of the Crimson King
7. The Velvet Underground – The Velvet Underground & Nico
8. Cream – Disraeli Gears
9. Blind Faith – Blind Faith
10. The Jimi Hendrix Experience – Electric Ladyland

RONALDO
1.The Beach Boys – Pet Sounds
2. The Beatles – Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band
3. Led Zeppelin – Led Zeppelin II
4. The Pretty Things – S.F. Sorrow
5. Colosseum – Valentyne Suite
6. John Coltrane – A Love Supreme
7. King Crimson – In the Court of the Crimson King
8. The Jimi Hendrix Experience – Electric Ladyland
9. Cream – Wheels of Fire
10. The Doors – The Doors


DISCOS ELEITOS ENTRE 1963 E 1969 
Baden Powell E Vinícius de Moraes – Os Afro-Sambas
Big Brother and the Holding Company – Cheap Thrills
Blind Faith – Blind Faith
Bob Dylan – Another Side of Bob Dylan
Bob Dylan – Blonde on Blonde
Bob Dylan – Highway 61 Revisted
Bob Dylan – The Freewheelin’ Bob Dylan
Bob Dylan – The Times, They Are A-Changin’
Buffalo Springfield – Buffalo Springfield Again
Caetano Veloso – Caetano Veloso
Charles Mingus – The Black Saint and the Sinner Lady
Chicago – Chicago Transit Authority
Colosseum – Valentyne Suite
Cream – Disraeli Gears
Cream – Fresh Cream
Cream – Wheels of Fire
Crosby, Stills & Nash – Crosby, Stills & Nash
David Bowie – David Bowie
Donovan – Sunshine Superman
Duke Ellington & John Coltrane – Duke Ellington & John Coltrane
Eduardo Rovira – Tango Vanguardia
Gal Costa – Gal
Gilberto Gil – Gilberto Gil
Janis Joplin – I Got Dem Ol’ Kozmic Blues Again Mama
Jeff Beck – Truth
Jefferson Airplane – Volunteers
John Mayall – Blues Breakers With Eric Clapton
Julian Bream – Popular Classics For Spanish Guitar
John Coltrane – A Love Supreme
King Crimson – In the Court of the Crimson King
Led Zeppelin – Led Zeppelin
Led Zeppelin – Led Zeppelin II
Leonard Cohen – Songs of Leonard Cohen
Leslie West – Mountain
Love – Forever Changes
Miles Davis – Seven Steps to Heaven
Neil Young with Crazy Horse – Everybody Knows This Is Nowhere
Os Mutantes – Os Mutantes
Os Mutantes – Mutantes
Pink Floyd – The Piper at the Gates of Dawn
Ronnie Von – Ronnie Von
Roy Orbison – In Dreams
Sam Cooke – Ain’t That Good News
Sam Cooke – Night Beat
Santana – Santana
Simon & Garfunkel – Sounds of Silence
The Animals – The Animals
The Band – The Band
The Band – Music From Big Pink
The Beach Boys – Pet Sounds
The Beach Boys – Surfer Girl
The Beach Boys – The Beach Boys Today!
The Beatles – A Hard Day’s Night
The Beatles – Abbey Road
The Beatles – Help!
The Beatles – Please Please Me
The Beatles – Revolver
The Beatles – Rubber Soul
The Beatles – Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band
The Byrds – Fifth Dimension
The Byrds – Mr. Tambourine Man
The Doors – The Doors
The Hollies – In the Hollies Style
The Jimi Hendrix Experience – Are You Experienced
The Jimi Hendrix Experience – Axis: Bold as Love
The Jimi Hendrix Experience – Electric Ladyland
The Kinks – Face to Face
The Kinks – Kinks
The Moody Blues – Days of Future Passed
The Moody Blues – In Search of the Lost Chord
The Pretty Things – S.F. Sorrow
The Rolling Stones – Aftermath
The Rolling Stones – Beggar's Banquet
The Rolling Stones – Let It Bleed
The Rolling Stones – Out of Our Heads
The Rolling Stones – The Rolling Stones
The Rolling Stones – Their Satanic Majesties Request
The Small Faces – Ogden’s Nut Gone Flake
The Velvet Underground – The Velvet Underground & Nico
The Velvet Underground – White Light/ White Heat
The Ventures – Ventures in Space
The Yardbirds – Five Live Yardbirds
The Yardbirds – For Your Love
The Who – My Generation
The Who – Tommy
The Zombies – Begin Here
The Zombies – Odessey and Oracle
Traffic – Traffic
Vários Artistas – Tropicália ou Panis Et Circensis
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...