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sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Consultoria Recomenda: Não Ouça Isso Aqui




Editado por André Kaminski

Tema escolhido por Mairon Machado

Com Daniel Benedetti, Davi Pascale e Fernando Bueno

Bem interessante esta escolha de tema do Mairon: discos ruins de bandas que você curte. Temos aí alguns trabalhos que nossos consultores não gostam e que o restante comentou. Como sempre, umas opiniões aí polêmicas e difíceis de engolir. Você também gosta desses discos? Ou concordam que sejam também uma porcaria? Deixem suas opiniões nos comentários!

Focus – Focus [1985]

Por Mairon Machado

Tenho muitos discos frustrantes em minha coleção, mas com certeza, a maior decepção veio desse Focus. Afinal, é a união novamente dos grandes nomes que consagraram a banda holandesa nos anos 70, porém nos anos 80, quase 10 anos após a sua separação. Jan Akkerman e Thijs Van Leer ostentam alaúde e flauta na contra-capa, e só podemos esperar lindos arranjos e melodias advindos das caixas de som, criadas por esses gênios do progressivo. Mas o que ouvimos é uma vexatória tentativa de soar moderno, e que naufraga em tediosas explorações eletrônicas e sintetizadores de timbres tinhosos, vide “Indian Summer” (tenebrosa), e “Le Tango” (que ganharia uma versão mais digna anos depois). O pior fica para os mais de dez entediantes e insuportáveis minutos de “Beethoven’s Revenge“, um dos piores abortos musicais da história. Pouco se escapa aqui, como “King Kong”, onde a capa faz justiça com a participação de flauta e violão, mas não de forma tão empolgante como imaginávamos, algumas passagens de “Who’s Calling“, quando a guitarra e flauta dão o ar da graça na tinhosa “Olé Judy”, e alguns parcos momentos de “Russian Roulette”. Estava pegando poeira na prateleira há algum tempo, e voltou para rodar para essa edição, apenas para ficar mais alguns anos servindo apenas como complemento da coleção do Focus. Vergonha alheia.


André: Não chega a ser uma bomba, mas sim um peido de véio. Um disco inofensivo, sem graça, um prog eletrônico pouco inspirado e que tenta pegar carona na onda oitentista sintetizada. Até tem umas coisinhas legais de flauta em “King Kong”, mas nada de marcante. Sei lá, parece que queriam misturar world music com folk, com prog, com eletrônico, com mais um monte de coisa e saiu uma salada bem sem nada de destaque.

Daniel: Eu tenho este álbum, pois ele veio em uma caixa do Focus com outros 12 discos. Vou confessar que nunca havia prestado muita atenção nele e neste exato momento entendi o porquê. Na realidade, esta não é a banda que gravou o clássico “Hocus Pocus”. Isto aqui é um programa de uma rádio FM, que é transmitido às 3 horas da tarde, direcionado a quem está em uma sala, esperando uma consulta médica ou como trilha sonora de repartição pública. Não necessariamente terrível, mas a chamada “música de elevador”.

Davi: Esse disco deve ter sido um belo balde de água fria para quem comprou na época. Afinal, esse álbum marcava o primeiro trabalho de inéditas da dupla Jan Akkerman e Thijs Van Leer, em uma década. E, para piorar, usaram o nome do Focus na capa do disco. Até acho que seria aceitável se saísse com o nome de The Unfinished Demos, porque é exatamente essa a sensação que fica de várias faixas. Akkerman e Van Leer apresentam aqui um álbum instrumental e adequado ao som da época. Ou seja, um disco repleto de sintetizadores, bateria eletrônica e uma sonoridade mais clean. Não tenho tanto problema com isso, mas achei o repertório bem fraco. O disco é bem sem graça e você se esquece de tudo que ouviu poucos minutos após terminar a audição. “King Kong”, “Le Tango” e “Ole Judy” são as melhores, mas mesmo assim estão longe do que considero uma grande faixa. Achei o disco irregular.

Fernando: Confesso que nunca tinha ouvido esse disco. Gosto e tenho muitos discos do Focus mas nunca tive a necessidade de ouvir toda a discografia. Muitas bandas progs se perderam nos anos 80 por tentar modernizar seu som ou simplesmente ir na onda do que estava em alta na época, mas o Focus foi para outro nível. Os timbres são ruins, as ideias são ruins e tudo isso me parece que foi resultado de uma reunião que feita também em um momento ruim.

Megadeth – Risk [1999]

Por Daniel Benedetti


Este disco é uma das maiores decepções musicais que tive. Tudo bem, os dois álbuns da discografia do Megadeth que o antecedem já não são do nível que a banda atingiu em Rust in Peace, mas tinham os seus momentos. Este aqui, nem isso. Há um riff aqui e outro acolá, mas, no grosso, o que fica são canções amenas, sem nenhum ‘punch’, sem nenhuma pegada, com vocais vexaminosos de Dave Mustaine. Há canções constrangedoras como “The Doctor Is Calling”, “I’ll Be There” e “Ecstasy”, todas são um “pop metal” sem nenhuma graça, sem vibração ou mesmo sentido. Mas nada supera “Crush ‘Em”, a pior música da carreira do Megadeth. Enfim, este álbum é uma catástrofe.

André: Dos discos daqui, é o único que irei contrariar e dizer que gosto do álbum. Por mais que tenha sido um fracasso comercial e grande parte do pessoal tenha malhado o disco na época, digo que o álbum até envelheceu bem. Tem uma pegada hard rock moderna com alguns momentos de metalcore. Mas as composições e o estilo do disco me agradam. Eu por exemplo adoro “Crush’ Em”. Outra que também curto é “Seven” que contam com riffs legais e uma pegada do hard oitentista que gosto, mesmo que seja estranho a primeira ouvida com as vozes de Mustaine. Enfim, não acho ruim, sei que destoa do restante da discografia da banda, mas esse é um daqueles casos que de “Discos que Parece que Só Eu Gosto”.

Davi: Sabe quando a banda sai da sua zona de conforto, mas seus fãs são conservadores demais para entenderem o álbum e começam a torcer o nariz para o artista? Bem, esse é exatamente o caso de Risk. O Megadeth é um dos gigantes do thrash metal, que nasceu quando seu líder foi expulso de outro gigante do thrash metal. Bem… Os caras lançam um álbum, o que todo mundo espera? Thrash metal! O que está presente no disco? Heavy metal com influência de rock alternativo e rock industrial. Pronto! A treta se tornou real. Esse é aquele trabalho típico que, se tivesse sido lançado com o nome de Dave Mustaine Project, não teria sido massacrado. Ok, “Crush ‘Em” é bem fraquinha, mas o disco, como um todo, é bem interessante. “Breadline” tem um pé no pop, mas é uma boa canção. “Prince of Darkness”, “The Doctor Is Calling” e “Ecstasy” também são faixas acima da média. Claro, o disco não é perfeito, tem uns fillers aqui e ali, mas está longe de ser essa bomba atômica que pintam. Deixe o mimimi de lado e dê uma nova chance.

Fernando: Nunca desgostei totalmente desse álbum do Megadeth. Analisando todas as circunstâncias de quando ele foi lançado é muito compreensível o seu resultado. Os anos 90 fora cruéis para algumas bandas e quem tentou algo diferente nem sempre deu certo. Vem à cabeça um exemplo parecido, o Kreator, que como o Megadeth errou a mão, mas fez discos que tem seus momentos interessantes. Entretanto a velha comparação com o Metallica também deve ter interferido muito, pois sabemos que mesmo dizendo que não, os rumos de sua ex-banda sempre influenciava no que Dave estava fazendo.

Mairon: Pessoal sempre caiu de pau nesse disco, e confesso que nunca entendi por que. Gosto bastante de “Insomnia” e da pesada “The Doctor Is Calling”. Ok, o disco tem experimentações como os eletrônicos de “Prince of Darkness”, momentos psciodélicos da ótima “Wanderlust”, flerte com disco music(?) em “Crush ‘Em”, uma das melhores músicas que Mustaine fez em sua carreira, e até uma pisadinha no Metallica de Load e Re-Load em “Seven” (que solos de guitarras massa). Mas para aí, essas músicas são muito legais, e melhores até que os discos da “banda rival” da turma de Mustaine. Admito que “Breadline” e “I’ll Be There” são fraquinhas, que a primeira parte de “Time” é desnecessária, mas no mais, acho que a coisa funciona muito bem. Fala sério, como não cantar “Ecstasy” em plenos pulmões, e ainda por cima com aqueles violões?? É um disco bastante diferente na discografia do Megadeth, mas acho ele muito bom, e longe de ser o pior da banda, já que mesmo nos anos 2000 vieram coisas bem mais fracas ou com pouca inspiração.


Queensrÿche – Q2K [1999]

Por André Kaminski


Eu sempre achei que essa banda tinha um potencial enorme para lotar estádios e ser uma banda gigante. Mas depois de Empire [1990], a banda só flopou em seus lançamentos posteriores com um ou outro disquinho bom ou meia boca. Este é um dos piores. Um rockzinho alternativo chato, monótono, com um instrumental previsível e de pouco capricho. Não sei como os caras aguentaram essas baboseiras do Tate por mais de 20 anos desde a obra prima que foi o Empire. Depois que eles separaram, tanto Tate quanto o restante da banda até que entraram nos eixos e lançaram trabalhos melhores. Mas aí já era tarde demais para serem aquela banda gigante que eu achei que poderiam ser. Se quiserem pegar o melhor da banda, escutem os 4 primeiros, daí ouça o Mindcrime II (que eu até achei bom) e aí voltem ao autointitulado de 2013 para frente que você terá boas coisas. Quanto ao restante, fuja. Desse aqui principalmente.

Daniel: Que disco chato! Vou soar repetitivo, mas este é outro trabalho sem nenhuma pegada, sem nenhum punch. Eu gosto do grupo, especialmente de seus álbuns iniciais, mas este aqui foi uma tortura de ouvir até o fim. “Liquid Sky” é um símbolo da chatice do álbum, bem como a insuportável “Burning Man”. Para não dizer que nada se salva, “Breakdown” é legalzinha, mas é só. Nada de músicas mais trabalhadas e zero de inspiração.

Davi: A fase do Queensryche que vai do EP ao Empire é devotada entre os fãs de heavy metal. A partir de Promised Land, seus álbuns começam a dividir cada vez mais os seguidores. E esse aqui teve um fator extra para isso. O guitarrista Chris De Garmo, figura extremamente importante nessa primeira fase, havia largado o barco. Para o seu lugar veio (o bom) Kelly Gray. Discos como Operation Mindcrime e Empire ficaram na memória dos fãs por apresentar um repertório cativante e complexo. Em Q2K, os arranjos estavam mais simples e a sonoridade aqui estava mais próxima do Hear In The Now Frontier do que fase clássica. Trata-se de um álbum variado, extremamente bem tocado e bem cantado, porém eles não haviam se livrado da influência do rock alternativo, que tanto vinha incomodando parcela de seus fãs. Contudo, se você ouvir o disco, sem comparar com o que foi feito no passado, simplesmente der o play e tentar entender o contexto do álbum, você provavelmente irá se divertir bastante. Eu, particularmente, gosto muito de faixas como “How Could I?”, “Breakdown” e “The Right Side of My Mind”. Não é um clássico, mas é um bom disco.

Fernando: Achar disco ruim na discografia do Queensryche não é coisa difícil, principalmente depois de Promise Land. Talvez esse nem seja seu pior disco. Tem outros que poderiam estar aqui como Dedicated to Chaos, Tribe, American Soldier… Ou seja, a banda perdeu por no mínimo 20 anos de carreira.

Mairon: O Queensrÿche é uma banda que realmente não consigo gostar, mas o EP de estreia, que foi recomendado em um Consultoria Recomenda há alguns anos, eu curti bastante. Não sabia o que esperar deste disco, e até que me surpreendi positivamente. A banda não está voltada aquelas inspirações progressivas do final dos 80, início dos 90, e soa como um hard noventista com pitadas de grunge. A coisa funcionou bem. Gostei de faixas como “Breakdown”, “Falling Down”, “How Could I?” e “Sacred Ground”. Impressionante como a voz do Geoff Tate me lembrou o Michael Kiske de Chameleon (que achei que pintaria nessa lista). “One Life” é uma ótima música, dá vontade de cantar junto, e com um lindo solo carregado no wah-wah (Alice in Chains deve ter ficado faceiro aqui), bem como “The Right Side of My Mind”, a única a flertar com progressivo, mas de forma muito sutil. Até a baladinha “When the Rain Comes…” é legalzinha, melhor que a clássica “Silent Lucidity”. A segunda metade do álbum cai bastante, principalmente em faixas como “Beside You”, “Burning Man”, “Liquid Sky” e “Wot Kinda Man”, essa última um Soundgarden pioradinho. No geral, gostei do disco, mas entendo que para um fã de Queensrÿche, realmente não combina.

Gov’t Mule – Mighty High [2007]

Por Davi Pascale


Quando pedi para o Mairon que me explicasse o tema, ele me disse que teria que recomendar um disco de uma banda que fosse fã, mas que não gostasse tanto do disco em específico, que considerasse uma bola fora. Não demorou muito e vários títulos começaram a pipocar na minha cabeça. Pensei no Zooropa (U2), no Los Hermanos 4, no Eye II Eye do Scorpions, mas acabei optando por esse do Gov´t Mule por considerá-lo menos manjado. Me tornei fã do Gov’t Mule ainda nos anos 90, por recomendação do pessoal da Aqualung, quando ainda era moleque. De cara, adorei o som blues rock praticado pelo trio. As músicas eram fantásticas, os músicos impressionantes, e vim acompanhando a cada lançamento desde então. Comprei esse disco na época de lançamento e, pela primeira vez, fiquei decepcionado. Claro, a parte de execução continua brilhante, mas achei o repertório bem chato. Aqui, eles saem do senso comum e caem no universo do reggae/dub. Até gosto de algumas coisas do gênero, mas sei lá, acho esse trabalho bem cansativo. A música que abre o álbum “I´m a Ram” considero excelente, “The Shape I´m In” acho bacana e a versão de “Play With Fire” (Rolling Stones) ficou interessante, o resto do disco não me agrada. Nem mesmo a versão do clássico “Hard to Handle” (Otis Redding) me cativou. Claro, não vou dizer que é um lixo, a banda sempre teve qualidade de sobra, mas definitivamente é um trabalho que não me encanta. Vamos ver o que nossos colegas têm a dizer.

André: Não conheço muito da banda, mas sei que eles fazem um southern rock competente. Então me surpreendi quando comecei a tocá-lo e começou a sair um “reggae rock” aqui das minhas caixas de som. Não sou fã de reggae, mas ouço sem fazer cara feia. Porém, achei o disco meio chatinho. Não é um horror, mas é aquela coisa meio inofensiva, como uns momentos xaropentos que me remeteriam a uma espécie de “reggae alternativo” como em “Horseflies”. “Unblow your Horn” tem um trompete que soa, como dizemos aqui no Sul, “paia”. Bem esquecível e totalmente deslocado na discografia dos caras.

Daniel: Eu confesso que nunca dei bola para essa banda e não conheço seu trabalho anterior, portanto, não sou capaz de comparar este disco com a obra prévia do grupo. Dito isto, também confesso que “Reggae Rock” não é algo que costume me agradar, ainda mais quando me parece um pastiche. Este é o pior disco da lista – e com sobras. “Rebel with a Cause”, a segunda faixa, quase me fez desistir da audição, mas segui em frente. Mal sabia que a versão para “Play with Fire” seria uma tortura infindável, que “Unthrow That Spear” é ruim de doer ou que “Reblow Your Mind” gira sem sair do mesmo lugar. Para não dizer que odiei tudo, “So Ram, So Strong” tem uma malemolência legalzinha. Concluindo: se isto é o tal Gov’t Mule, nunca mais!

Fernando: Eu não consigo nem dizer se esse disco do Gov´t Mule é ruim ou não, pois desconheço a banda quase que completamente. Porém sei que os fãs de Southern rock tem a banda em alta conta, então só de encontrar sinais de reggae e dub já me fazem ir com a maré e não recomendar esse disco.

Mairon: Confesso que não sou um grande conhecedor da obra do Gov’t Mule, mas o pouco que havia ouvido, havia gostado (principalmente os discos dos anos 90). Esse álbum em especial nunca tinha ouvido, e me foi uma baita surpresa. Jamais imaginaria o grupo gravando reggae e versões dub para suas canções, e por mais que eu goste de reggae, a combinação com o estilo southern original do grupo não combinou. É difícil ouvir as jams “Reblow Your Mind” e “Outta Shape”, ou entao “Rebel With a Cause” e “The Shape I’m In”, sem sentir uma sonolência pesada. A coisa piora em “Horseflies”, “Plasticine Era”, “Unblow Your Horn”, na desnecessária revisão para “Play With Fire”, ou então “Unthrow That Spear”, faixas perfeitas para se soltar aquele “put@ que p@riu, olha o que me obrigam a ouvir …”. Se a banda ficasse só no que foi consagrado mundialmente, seria ótimo, como o solo de “I’m a Ram”, ou se o disco fosse todo com os vocais animados de Toots Hibbert em “Hard to Handle”, ou até mesmo a malemolência de “So Ram, So Strong”, daí até passaria por média. Mas não é, infelizmente. Como diz a canção “Hard to Dubya”, é duro de ouvir isto … Ótima indicação para esse Recomenda. Fuja sem medo!

Van der Graaf Generator – Alt [2012]

Por Fernando Bueno

Eu já até escrevi sobre esse disco aqui para o site. Lembro que foi uma decepção tão grande quando recebi esse disco e coloquei para tocar que me senti na obrigação de avisar outros fãs da banda para que não cometesse o mesmo erro que eu. Afinal o meu objetivo aqui no site é passar as boas impressões que eu tenho de música para os leitores e escrever sobre algo que eu não gostei nunca foi a intenção. Ou seja, o desgosto foi tão grande que causou essa ocasião única para mim. O texto original ficou perdido pelo nosso problema com o antigo servidor. E talvez nem possa ser considerada uma perda.

André: Daquele tipo de coisa que eu simplesmente abomino: arte pós-moderna. Pintam um quadro de branco e chamam de “O Nada”, “O Vazio”. Dão um pincel para um macaco fazer sujeira e chamam a bagunça de “Arte Símia”. Basicamente o mesmo tipo de comparação pode ser dito sobre este disco: um monte de baboseiras instrumentais coladas que alguns chamam de “música”. Ruim. Muito ruim. E além de ruim, é chato.

Daniel: Esqueça-se da banda que gravou álbuns como Pawn Hearts e Godbluff. Se o leitor for ouvir este Alt esperando aquele som, vai ser pura decepção. Este disco é totalmente experimental, quase uma “bricolagem” de sons e efeitos sonoros, com passagens instrumentais. É um disco que eu chamaria de ‘desafiador’, pois exige do ouvinte uma boa dose de ‘boa vontade’, não apenas para compreender a proposta, mas, principalmente, embarcar nesta viagem experimental. Eu curti e “Dronus” é uma faixa incrível!

Davi: Tudo bem, a banda é boa, fez história, mas isso aqui é uma verdadeira tortura. Trata-se de um álbum extremamente experimental, que apresenta os músicos fazendo jams e colocando efeitos fora de hora. Nenhuma música mais melódica e nenhum momento que faça seus olhos brilharem, que te deixe intrigado. É aquele álbum típico que deixaria Yoko Ono feliz, mas que deixa meus ouvidos tristes, muito tristes. Nenhuma música se destaca. Achei o álbum horripilante do início ao fim. Foi o pior da lista, fácil, fácil.

Mairon: Esse álbum do Van der Graaf Generator é um tanto quanto controverso entre os fãs da banda, mas não o considero o pior. Totalmente instrumental e bastante improvisicional, a união do trio Peter Hammill, Hugh Banton e Guy Evans cria um clima bastante interessante ao meu ver, como uma espécie de trilha sonora, de onde destacam-se experimentações como “Colossus”, “Dronus” e “Splendid”, ou os espetáculos a parte de Guy em “Elsewhere”, uma das melhores faixas do álbum. Quando há criação exclusiva por parte de Banton, a coisa flui ainda melhor, vide a linda “Repeat After Me” e a espetacular “Midnite or So”. Ok, o disco possui alguns delírios e viagens desnecessárias, mas nada que seja tão ridículo ou ruim assim. Se Time Vaults estivesse por aqui, até entenderia, mas Alt eu discordo fortemente

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Cinco Músicas Para Conhecer: Parece, Mas Não É


Nos últimos tempos, tornou-se comum a brincadeira do reaction, onde se filma uma pessoa tendo reações ao ver um determinado vídeo ou ouvir uma música pela primeira vez. Baseado nessas experiências, o Cinco Músicas Para Conhecer de hoje simula uma espécie de reaction com alguém que irá ouvir as faixas escolhidas, pensando ser uma coisa, mas que na verdade, é outra.

Atomic Rooster - "Gershatzer" [1970]

Como é bom ouvir Emerson Lake & Palmer, que paulada já de cara. Esse órgão do Emerson, o baixão do Lake, e pô, Palmer soltando o braço. Sonzeira fudida hein? Olha essa rufada do Palmer, que espetáculo. Ei, que massa, Emerson demolindo o piano no seu solo. O cara tinha é uma técnica sensacional. Olha esse pulo para os teclados, e a velocidade. E agora vai para a sutileza do piano com uma simplicidade monstra! E essas loucuras assim é puro Emerson. Genial! Baita solo! É  da época do Tarkus? Só pode, pela inspiração! Voltou o riff, puro ELP. Que baita música, não conhecia. Ih rapaz, Palmer mandando ver no solo. Cara, como ele toca tanto? Monstro, olhada as rufadas, mão esquerda impecável, e o controle dos bumbos. Baita som. É de qual disco? O que? Não é ELP? É meu caro, isso é Atomic Rooster, um dos grandes power trios da história da música britânica, liderado pelo genial Vincent Crane nos teclados, e que por acaso revelou Carl Palmer ao mundo. Mas aqui, as baquetas estão a cargo do também fenomenal Paul Hammond. Está no excelente e fundamental segundo disco do grupo, Death Walks Behind You (1970) e em diversas coletâneas da banda. Para conhecer um pouco mais sobre a banda e a faixa, acesse aqui. 

Focus - "House of the King" [1970]

Violão fazendo acordes velozes, e eis que a flauta surge sobre um andamento rápido, linha de baixo complicada e uma bateria marcante.O sorriso toma conta, afinal, é o Jethro Tull quem está tocando. Como Ian Anderson toca bem, certamente isso é da fase Aqualung, uma sobra de Thick as a Brick no máximo. Por que será que nunca foi lançada? Epa, mas e essa virada? A guitarra do Martin Barre não tem esse timbre! Claro meu caro, é Jan Akkerman na guitarra, solando para um dos maiores clássicos do grupo holanês Focus. O flautista em questão é Thijs Van Leer, um dos maiores nomes do instrumento, claro, ao lado de Ian Anderson. "House of the King" é tão Jethro Tull, mas tão Jethro Tull, que certa vez um famoso lojista de Porto Alegre falou que "é a canção que Ian Anderson jamais gravou, mas com certeza deve ter composto". Exageros a parte, é uma magnífica faixa, que saiu originalmente nas versões americana e inglesa de Focus Play Focus (batizadas de In And Out of Focus), posteriormente em algumas das várias versões de Focus 3, e em diversos lançamentos em compacto, inclusive sendo responsável por manter o Focus na ativa, já que o fracasso de vendas de Focus Play Focus levava para o fim prematuro da banda, mas o sucesso da bolachinha fez com que Jan Akkerman (guitarras) e Thijs Van Leer (teclados, flauta, voz) reformulam-se a banda e seguissem na ativa, para conquistar o mundo no seu lançamento seguinte.

Mandrill - "Mandrill" [1970]

O som começa com uma tecladeira infernal, envolta por percussão rítmica avassaladora. Um naipe de metais entoa o riff da canção, e então surge a guitarra com wah-wah e carregadíssima de efeitos. Impossível não ser a trupe de Carlos Santana. A medida que a canção vai passando, o ritmo frenético da percussão e o solo de órgão só nos comprova cada vez mais que é Santana sim. Claro, a presença de flautas, vibrafones e metais, cria aquela pulga atrás da orelha, ainda mais quando a flauta passa a solar virtuosisticamente. Peraí, vibrafone tomando conta das caixas de som sobre o ritmo avassalador? Isso é Santana? Ah, esse solo avassalador de percussão faz minha pergunta cair por terra, agora tenho certeza que sim, é Santana o que sai das caixas de som. Mas não é minha leitora, meu leitor, você foi redondamente enganado por uma das bandas mais fantásticas da década de 70.  Um hepteto do brooklyn com uma boa discografia a ser descoberta. "Mandrill" está no álbum de estreia da banda, auto-intitulado, e em quatro compactos como lado A, tendo cada um no lado B as faixas "Peace And Love" (Espanha, que ilustra a matéria), "Revolucion Sinfonica" (México), "Warning Blues" (Estados Unidos) e "Hang Loose" (Reino Unido).

Styx - "Mademoiselle" [1976]

Um acorde de teclado, baixo marcante, guitarra e bateria juntinhos, uma voz em francês, solo de guitarra com efeitos e uma vocalização aguda e marcante. Opa, é Queen! Mas peraí, quem está cantando? Brian May? Bom, o instrumental é Queen, deve ser o May sim. Pô, isso é Queen, só pode ser Queen. Ouve essas linhas de guitarra, essas vocalizações. Cara, com certeza é Queen. Ah velho, está brincando, isso é Queen sim!! Não meu caro, isso é uma das obras atemporais que o Styx lançou no excepcional Crystal Ball, de 1976, quando o Queen havia acabado de conquistar o mundo. Nunca foi comprovado se o Styx se inspirou no Queen para fazer "Mademoiselle", mas com certeza, os elementos de vocalizações e efeitos na guitarra que Brian May usou na banda inglesa apareceram em diversas outras faixas da banda antes mesmo do Queen pensar em existir como tal, como "After You Leave Me" (1972) ou "Earl of Roseland" (1973). "Mademoiselle" é um exemplo mais recente na obra do Styx, mas eu poderia ter escolhido vários outros. Trouxe essa faixa do SEXTO disco da banda, e de um belíssimo compacto com a sensacional “Lonely Child” no lado B, para ver se causo uma polêmica por aqui. E também existe um compacto com “Light Up” no lado B.


Greta Van Fleet - "Lover, Leaver" [2018]

Epa, é uma versão nova de "Whole Lotta Love"? Opa, não é nova não, é a original. Deve ser ensaios de gravação né? Mas a letra tá diferente. Eita, o Bonham devia estar gripado esse dia, mas o Plant e o Page estão afiadíssimos. Por que o baixo do Jonesy tá tao baixo? Eita, Plant canta pra caralho nesses agudos hein? Sonzeira. É uma versão inicial de "Whole Lotta Love"? A letra tá bem diferente ... Eita, Page e sua Les Paul, baita solo. Bah, os caras tavam flertando com orquestrações antes do Led III, eu sabia!! O que? Isso é um bando de garotos americanos dessa década? Tás de brincadeira!! O Greta Van Fleet é o verdadeiro caso do Ame ou Odeie, muito mais por um preconceito infantil e besta, Tirando a paixão clubística de lado, os caras entregam faixas memoráveis, claro que sugadas diretamente da fonte Zeppeliana, mas com toda uma vitalidade moderna que cai muito bem aos dias atuais. "Lover, Leaver" é um exemplo claro disso. Todas as referências ao Led estão lá, mas o comportamento geral da canção mostra que há muito mais criatividade do que inspiração na obra dos americanos. Está no seu primeiro full lenght, de 2018, e foi lançada no mesmo ano para download no site oficial da banda, através do single que ilustra a postagem.

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Focus - Parte II



Depois de um longo retiro, com apenas dois álbuns lançados em um período de mais de vinte anos, o grupo firmou-se nos anos 2000, lançando álbuns de estúdio regularmente e ressurgindo como uma das maiores forças do rock progressivo atual. Voltando no tempo, em 1985, novamente o nome Focus apareceu no cenário musical, e dessa vez, de forma totalmente surpreendente.

Um dos piores discos da história

Lançado em 1985, Focus é sem dúvidas, essa é a maior mancha negra da história do Focus, e quiçá da história da música. Quando ninguém esperava, a união de Akkerman e Van Leer foi anunciada em 1984, e assim, criou-se uma grande expectativa para o que seria parido pelos dois gênios comandantes do grupo dez anos após a separação. Quando Focus chegou ao mercado, a decepção foi maior do que a imensa barriga (e careca) estampada por Van Leer na contra-capa do álbum. 

O excesso de sintetizadores e batidas eletrônicas em nada convergem para os instrumentos acústicos (violão e flauta respectivamente) ostentados pela dupla na contra-capa do LP. O único momento razoável é "King Kong", principalmente por não conter nada eletrônico, mas nada mirabolante, e a jam "Who's Calling", enaltecendo as virtudes de Akkerman na guitarra e Van Leer na flauta. Há alguns momentos interessantes durante "Russian Roulette", com a participação do baixista Tato Gomez, e "Olé Judy", que lembra um pouco o que Rick Wakeman fez na mesma época, mas pelo menos dando espaço para a flauta e a guitarra se exibirem agradavelmente. 

Jan Akkerman e Thijs Van Leer (1985)

O resto são canções injustificáveis, seja "Indian Summer", tendo a presença de Tato e também da tabla de Ustad Zamir Ahmad Khan, a participação de Ruud Jacobs tocando baixo durante os insuportáveis dez minutos de "Beethoven's Revenge" ou Sergio Castillo fazendo a percussão eletrônica de "Le Tango", uma terrível tentativa de tornar o tango moderno. Um disco muito fraco, que é a mais pura demonstração de como os anos 80 serviram para destruir com a carreira de grandes nomes do rock dos anos 70. Recomendado apenas para colecionistas.

Bert Ruiter, Thijs Van Leer, Jan Akkerman e Pierre Van der Linden, Na reunião de 1990


Em 1990, a principal formação do Focus, com Van Leer, Akkerman, Bert Ruiter (baixo) e Pierre Van der Linden (bateria) voltou a se reunir para duas apresentações nos programas da TV holandesa Veronika e Goud van Oud. Infelizmente, quando todos achavam que a reunião iria vingar, nada mais do que essas duas apresentações surgiu. Em 1993, Van Leer e Akkerman dividiram o palco durante o North Sea Jaz Festival. Van Leer continuou sua carreira solo, e em 1999, reformulou o Focus, trazendo na formação Hans Cleuver (baterista da primeira formação da banda), Ruiter e Menno Gootjes (guitarras). 

Vários shows pela Holanda foram realizados, e depois de algumas mudanças na formação, eis que o Focus entra nos anos 2000 com toda força. Van Leer juntou-se aos membros da banda CONXI Bobby Jacobs (baixo), Ruben Van Roon (bateria) e Jan Dumée (guitarras) e ressuscitou o Focus. Van Roon nem chegou a esquentar as baquetas, e foi substituído por Bert Smaak. Esse time lançou Focus 8 em 2002, que colocou o grupo no mercado novamente, através de uma extensa turnê mundial, promovendo o melhor trabalho da banda desde Hamburgo Concerto (1974).

O retorno definitivo do Focus nos anos 2000



 O álbum resgata a sonoridade marcante do Focus anos 70, sendo por exemplo impossível não lembrarmos de "House of the King" durante o solo de flauta e violão de "Tamara's Move", a singela oitava parte (faixa-título) de "Focus", a bela "De Ti O De Mi", e também de segurar as lágrimas na arrepiante revisão instrumental de "Brother", totalmente modificada em relação a péssima canção registrada em Focus Con Proby, tendo Dumée reproduzindo a linha vocal de Proby na guitarra e com uma tímida citação à "Eruption" em seu encerramento. 

Temos uma mistura inovadora do yodel e peso durante "Hurkey Turkey", canção que virou o grande sucesso do álbum, trazendo a participação de Geert Scheijgrond na guitarra, "Neurotyka", uma neta com genes fortemente ligados a avó "Hocus Pocus", gravada ao vivo no estúdio e com Ruben Van Roon na bateria, e "Rock & Rio", alegre homenagem à cidade Maravilhosa. O yodel também está presente em duas canções totalmente opostas, a festiva "Flower Shower", canção bônus totalmente desnecessária, sendo a mais fraca do álbum, e "Što Čes Raditi Ostatac Života?", sem dúvidas a melhor canção de Focus 8, levada pelo dedilhado flamenco do violão, os longos acordes de órgão e um solo magistral de Dumée, que comanda a suavidade e simplicidade de "Blizu Tebé", outra fortemente inspirada nos anos 70. 

Parte interna de Focus 8

A flauta é o principal instrumento de "Fretless Love", trazendo elementos de Focus 3 com o som dos anos 2000. Um retorno essencial e definitivo, trazendo o grupo novamente para os palcos, e possibilitando a geração de uma nova leva de fãs, além do resgate dos mais antigos.



Uma extensa turnê mundial trouxe o Focus pela primeira vez ao Brasil em novembro de 2002, para shows no Rio de Janeiro, Macaé, São Paulo e Belo Horizonte. Essa turnê foi registrada no DVD Live in America (2002). O grupo voltou novamente ao Brasil em março do ano seguinte, com três concorridas apresentações em São Paulo, duas no Rio de Janeiro, uma em Porto Alegre e uma em Belo Horizonte. No mesmo ano, foi lançado o CD Live at BBC de forma oficial. O mesmo já aparecia como bootleg na década de 90, e nele esá uma apresentação da banda na rádio inglesa em fevereiro de 2006. 


Em 2004, Pierre Van der Linden assumiu novamente seu posto, no lugar de Smaak. No mesmo ano, foi lançado o excelente DVD Masters from the Vaults, um documentário repleto de imagens raras e com toda a história dos holandeses, que seguiram excursionando, passando mais uma vez pelo Brasil (em maio de 2005, com quatro apresentações em São Paulo, mais uma apresentação no Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte), até o novo lançamento, em 2006, já com Niels van der Steenhoven no lugar de Dumée. Vale citar que essas vindas ao Brasil ocasionaram um futuro lançamento, como veremos na sequência, graças a uma jam session realizada no "Boteco" Orquídea, em Niterói, junto ao pianista Marvio Ciribelli.
O único álbum com Niels na guitarra

Lançado em 2006, Focus 9 / New Skin traz uma nova formação, que dá uma nova cara para o Focus, principalmente por conta da guitarra jovem de Niels, que foge bastante do virtuosismo empregado por Dumée, e assemelha-se mais as linha de Akkerman, sendo que por diversas vezes confundimos os timbres da guitarra e achamos que é o próprio Jan quem está nas seis cordas, principalmente durante as suaves linhas de "Sylvia's Stepson", transformando-se em uma pesada canção na parte central, e nas duas partes de "Focus", no caso a balada "Focus 7" e a jazzística maluca "Focus 9" (para os curiosos de plantão, "Focus VI" está presente no álbum Reflections, lançado por Van Leer em sua carreira solo, no ano de 1981). 

Por outro lado, o guitarrista criou um suingue inigualável em "Niel's Skin", única faixa de Focus 9 escrita por ele, e que casou muito bem com a cozinha Jacobs / Van der Linden, além de trazer o free jazz como fonte adicional de criatividade para a música clássica durante os épicos e divertidos dez minutos de "European Rap(sody)", na qual Thijs é o astro principal, seja na flauta, no órgão, no piano e até nas vocalizações que aparecem na canção, citando nomes de canções do grupo que acabam formando a letra dessa pequena Maravilha. 

Thijs van Leer; Pierre Van Der Linden; Bobby Jacobs e Niels Van Der Steenhoven. Focus em 2006

O Focus moderno, com Niels e Van Leer emulando as mesmas melodias, está na alegre "Pim" e nas baladas "Ode to Venus"  e "It Takes 2 2 Tango", a qual poderia ser um pouco mais curta. O álbum traz uma recriação instrumental para "Black Beauty" (de Focus Play Focus), que particularmente considero bem melhor que sua versão original, e a segunda parte de duas canções gravadas pelo grupo anteriormente: "Hurkey Turkey 2", um pouco mais lenta que a primeira versão (presente em Focus 8), e com yodels simulando as linhas da "Marcha Turca" de Mozart; e "Just Like Eddy", sequência de "Eddy" (Focus Con Proby) tendo Jo de Roeck nos vocais, e totalmente descartável. Já o excesso de yodels do álbum anterior é desconstruído em Focus 9, aparecendo apenas em "Hurkey Turkey 2" e em "Aya-Yuppie-Hippie-Yee", uma agitada faixa, destacando a performance de Van der Linden, assim como a flauta está mais tímida, aparecendo apenas nas partes leves de "Curtain Call". No geral, um disco muito bom, que mantém a vontade de se ouvir o grupo em alta.


Mais excursões seguiram-se, com outras três vindas ao Brasil: em junho de 2008 (São Paulo, Rio de Janeiro e Recife); em março de 2010 (Belo Horizonte, Juiz de Fora, Porto Alegre, Goiânia e São Paulo); e março de 2012 (Belo Horizonte, Pouso Alegre, Rio de Janeiro, Goiânia, Votorantim e São Paulo). Nesse meio tempo, em janeiro de 2011, Niels anunciou sua saída oficial do Focus, sendo substituído por Menno Gootjes. Esse time voltou ao estúdio para gravar Focus X.

O melhor álbum sem Akkerman na opinião do autor


Contando com uma belíssima arte sob a mão do mestre Roger Dean, Focus X, lançado em 2012, é para mim o melhor álbum do Focus sem Jan Akkerman. O grupo está solto, e a cozinha Ruiter / Jacobs funciona como uma máquina perfeitamente ajustada. A pancada "Father Baccus", que abre a bolacha, entra na lista das melhores faixas que o grupo gravou, e Van Leer comprova seu talento na flauta durante a circense "Talk of the Clown" e a veloz "All Hens On Deck" - que também apresenta um bonito duelo de yodel com guitarra - além de declamar um poema em latim durante a viajante "Hoeratio". 


Menno Gootjes, Thijs Van Leer, Bobby Jacobs e Pierre Van der Linden


Belo também é o trabalho de piano, violão e guitarra em "Amok In Kindergarten". A guitarra de Menno conversa com o ouvinte durante "Message Magique" e "Victoria". Surpreendentemente, temos Ivan Lins fazendo a voz de "Birds Come Fly Over (Le Tango)", e mais surpreendentemente ainda é que é uma boa canção. Outra canção com convidado é "Crossroads", apresentando Berenice Van Leer nas vocalizações, e o papai  Thijs fazendo a voz principal. Focus X também abre espaço para as bonitas melodias da última parte de "Focus", "Focus 10".  A versão japonesa possui dois bônus: “Santa Teresa”, trazendo Ivan Lins nos vocais, em espanhol, e uma versão ao vivo para “Hocus Pocus”. Recentemente, Van Leer declarou que esse é um dos seus discos preferidos da banda, ao lado de Moving Waves e Focus 3.

O grupo retornou ao Brasil para mais apresentações em abril de 2014, com uma grande turnê e shows em Florianopolis (09), Curitiba (12), Pouso Alegre (12), Rio de Janeiro (15), Belo Horizonte (16), Catanduva (17), Porto Alegre (18) e São Paulo (19). No mesmo mês, mais precisamente no dia 29, lançam pelo novo selo, In And Out of Focus Records, mais um álbum.


Coletânea com regravações

Golden Oldies (2014) trata de regravações de clássicos da banda com a formação de Focus X. Estão aqui "Aya Yippie Hippie Yee", "Brother" (similar ao arranjo de Focus 8, e não ao de Con Proby), "Focus 1", "Focus 3 & 2", "Hocus Pocus", "House Of The King", "Neurotica", "Sylvia" e "Tommy" (uma das partes de "Eruption"). Com exceção de "Focus 3 & 2", que faz uma mistura dessas duas partes de "Focus", e de pequenas modificações em "Focus 1" e "Sylvia", conforme apresentadas nos shows da época, bem como Van Leer nos vocais de "Brother", não há nenhum arranjo novo. 

Apenas uma nova formação interpretando de forma fiel os arranjos originais. Claro que os solos de Menno são bastante diferentes dos de Akkerman (nas faixas em que este era o guitarrista), Van Leer acrescenta novos improvisos aqui e acolá, a cozinha modifica algumas partes de determinados trechos das canções, mas no geral, é mais um caça-níqueis do que um item de exceção na discografia da banda. Vale como uma boa coletânea revisitada.
Álbum gravado no Brasil e com músicos brasileiros

Apresentando uma série de convidados, e sob o título Focus and Friends Featuring Marvio Ciribelli, Focus 8.5 / Beyond The Horizon foi gravado em nosso país durante a turnê de 2005, como resultado das tours citadas acima. O pianista Marvio Ciribelli é a atração na capa, e um dos arranjadores ao lado de Van Leer. Além do brasileiro, estão também Sérgio Chiavazzoli (guitarras, violões), David Ganc (Flauta), Marcelo Martins (Flauta), Mário Sève (Flauta), Arthur Maia (baixo), Rogério Fernandes (baixo), Amaro Júnior (bateria), Marcio Bahia (bateria, voz), Fabiano Segalote (Trombone, voz), Amaro Júnior (Percussão), Flavio Santos (Percussão), Marcio Bahia (efeitos), Mylena Ciribelli (ela mesma, repórter esportiva, efeitos e vocais), Thaís Motta (vocais), Marcio Lott (vocais), além de Van Leer, Van Der Linden, Jacobs e Dumée. 

O Focus como banda surge apenas na estonteante "Hola, Como Estas?", belíssima e quebrada faixa com a participação vocal dos amigos brasileiros. Thijs, Jacobs e Pierre estão em "Surrecit Christus", faixa hipnotizante, onde as flautas de Thijs, David e Mário Seve são os destaques junto das vocalizações de Thaís, além de um solo de baixo por Jacobs. Os músicos estão improvisando de forma descontraída, sem compromisso, como comprova-se em "Focus Zero", faixa fantástica na qual Van Der Linden e Van Leer são o centro das atenções, trazendo o brilhante suingue de Marvio ao piano, Arthur no baixo e Sérgio na guitarra. 

A versão nacional, devidamente autografada

É legal de ver a influência do som brasileiro em "Millenium", faixa criada por Dumée, com a participação de Van der Linden, mas onde o principal destaque é o suingue percussivo provocado por Amaro, Flavio, Marcio e Pierre, o piano elétrico de Marvio e o piano acústico do próprio Dumée, que também faz vocalizações na melhor linha Milton Nascimento, sendo essa uma faixa que tranquilamente apareceria em algum disco do Clube da Esquina. Marvio é o responsável pela criação de duas canções, "Rock 5", faixa linda, dividida entre uma balada que destaca as vocalizações de Thaís e uma dançante sessão instrumental, com Jacobs sendo o único membro do Focus a participar, e "Înãlta", marchinha com pitadas progs tendo a flauta de Van Leer e as suaves vocalizações de Mylena tornando a mesma ainda mais agradável. 

Por fim, Van der Linden e Marcio fazem um duelo nada empolgante em "Talking Rhythms", faixa onde somente as baterias e vocalizações estão presentes, e bem desnecessária. No geral, um bom álbum, que no Brasil, foi lançado com uma capa diferente, trazendo caricaturas dos músicos da banda e de alguns dos "amigos". Também é de 2016 o CD e DVD ao vivo Live In England, com o registro de Bilston, no dia 28 de abril de 2009. Mais uma mudança na formação, com Udo Pannekeet substituindo Jacobs, e assim, surge mais um disco da banda, logo após mais uma importante compilação de sobras, chamada The Focus Family Album, de 2017.

Coletânea dupla com material diverso
Essa coletânea dupla, com mais uma belíssima arte de Roger Dean, traz canções do Focus somadas a faixas solo de Van Leer, Van Der Linden, Gootjes, Pannekeet e do projeto Swung, um trio com Menno, Jacobs e Van der Linden. Concentrando-se apenas nas canções do Focus, há de tudo um pouco. O Brasil participa com o Estúdio Mosh cedendo espaço para a jam session "Mosh Blues", gravada em 18 de março de 2012, e para "The Fifth Man", registrada no dia 13 de abril 2014. A primeira é uma jam session com improvisos muito simples, enquanto a segunda é uma faixa muito boa, hardeira e mais trabalhada, pensada inclusive de aparecer em Focus XI, mas que foi descartada. "Santa Teresa" é o bônus da versão nipônica de Focus X, com Ivan Lins nos vocais.Falando em Ivan Lins, Van Leer substitui ele nos vocais de "Birds Come Fly Over (Le Tango)", cujo instrumental é idêntico ao de Focus X. Do mesmo álbum temos uma versão editada e com nova mixagem vocal para "Victoria". Ainda, "Five Fourth" nasceu no Brasil, e foi gravada em apenas uma tomada, com os músicos tocando uma sequência de notas escritas por Van Leer no intervalo das gravações de Focus X. "Clair-Obscur" e "Winnie" são versões primárias da mesmas faixas que irão aparecer em Focus XI. "Song For Eva" é uma longa peça de quase dez minutos, trazendo o poema “They Say that Hope is Happiness” de Lord Byron, e com um belo solo de Menno. O vocalista Jo de Roeck, que participou de “Just Like Eddy” em Focus 9, interpreta "Fine Without You". Da "família", "Nature Is Our Friend" e "Let us Wander" foram gravadas exclusivamente para o disco, tendo apenas Van Leer na sua flauta, caminhando junto a natureza. "Hazel" e "Two-part Intervention", também exclusivas do álbum, são lindas peças ao violão clássico, na linha de canções de Bach. Já "Riverdance" e "Spiritual Swung", solos de bateria, foram retiradas de Pierre’s Drum Poetry, um disco apenas para os amigos e familiares, lançado em 2000, mas que teve uma tiragem mundial em 2018. "Song for Yaminah" é uma das faixas que Pannekeet apresentou em seu teste, enquanto "Anaya" destaca o uso do baixo de seis cordas. Já as duas faixas do projeto Swung são do álbum Swung Vol. 1 & 2, de 2014. Apesar de longo (80 minutos), não é um disco a ser desprezado pelos fãs, valendo muito a pena sua posição nas prateleiras.

No dia 04 de março de 2018, Hans Cleuver, primeiro baterista da banda, faleceu. O baterista, mesmo após sair do Focus, continuou esporadicamente trabalhando com Van Leer e Akkerman nos discos solos dos mesmos.





Focus 11 [2018]

Outra linda capa de Roger Dean dá sequência aos trabalhos e shows que a nova formação já vinha apresentando, com improvisos e muita experimentação, Focus XI encerra (por enquanto) a Discografia dos holandeses no mesmo nível dos álbuns Focus 8 e Focus 9. Das faixas mais Focus, posso citar " How Many Miles?", na linha de "Sylvia" e com Van Leer aos vocais, sem yodel, a bela "Theodora Na Na Na", com um riff de flauta e guitarra hipnotizante, e a intrincada "Mazzel", para mim a melhor do disco, principalmente pela sua complexidade. Mas quer mesmo Focus, então faça uma emocionante volta ao passado de "Focus II" ou "Focus III" com "Mare Nostrum", principalmente pelo timbre Akkermaniano da guitarra de Gootjes, mas com uma virada surpreendente em sua segunda metade, ou com "Focus 11", bem diferente das versões anteriores, e mantendo o nível de capacidade de tocar os ouvidos e a mente ds fãs. No mais, temos de tudo um pouco. Inspirações latinas em "Heaven", com Van Leer destacando-se ao piano, a mistura de jazz e rock 'n' roll de "Palindrome" (um espetáculo a parte de Van der Linden na bateria) e "Who's Calling", ambas lembrando os grandes nomes do jazz rock do final dos anos 70, além de um retorno aos anos 80 em "Final Analysis", momentos de profunda intensidade emocional em "Winnie" (que já tinha dado as caras em Focus Family, aqui registrada com um arranjo idêntico), com a flauta e o piano derretendo corações. "Clair-Obscur", outra que está em Focus Family, também possui um arranjo similar, mas prefiro a versão anterior, mais crua em termos de equalização. Focus 11 foi lançado em uma limitada tiragem em vinil turquesa, especial para colecionadores.

E para mais histórias e notícias, indico o excelente blog Focus the Band, totalmente dedicado ao maior grupo holandês da história da música.

domingo, 26 de maio de 2019

FOCUS - Parte I

Jan Akkerman, Pierre van der Linden, Thijs van Leer e Bert Ruiter


O grupo holandês Focus é com certeza o maior grupo de rock progressivo que a Holanda forneceu ao mundo, tanto por conta da música como por conta da técnica e qualidade individual de seus músicos. Uma carreira cheia de altos e baixos, com mais de dez discos que começaremos a abranger a partir de hoje, com o período áureo dos holandeses, nos anos 70, comandados pela dupla Thijs van Leer (órgão, piano, flauta, mellotron), Jan Akkerman (guitarra, violão), até a saída do último em 1976. Posteriormente, em uma segunda parte, traremos a partir do momento quando Akkerman retorna ao grupo nos anos 80, saindo para uma carreira solo de relativo sucesso, deixando o legado para Van Leer governar sozinho.


Jan Akkerman, Thijs Van Leer, Hans Cleuver e Martin Dresden


A estreia dos holandeses é um aperitivo humilde perto da importância que o grupo teria no ano seguinte para o rock progressivo. Conhecido também como In and Out of Focus (nome dado ao lançamento internacional do álbum),  Focus Plays Focus chegou às lojas em 1970. No LP, a formação além de Van Leer e Akkerman, Martin Dresden (baixo, vocais) e Hans Cleuver (bateria), e apresenta jóias instrumentais como "Focus (instrumental version)", com solos simples e encantadores da guitarra, e "Anonymous", que seria a gênese de uma Maravilha Prog lançada dois anos depois através dos solos individuais de cada músico. 

A estreia de 1970


Cleuver apresenta sua voz na jazzística "Happy Nightmare (Mescaline)", "Focus (vocal version)", seguindo as mesmas linha de "Focus (instrumental version)", e nas sessentistas "Sugar Island", "Black Beauty" e "Why Dream", ambas cheirando a mofo psicodélico londrino, com leves aromas do flower-power californiano. A guitarra de Akkerman é o principal destaque em todo LP, mas é inquestionável a fundamental participação da flauta e do órgão de Van Leer, criando o marcante som do grupo. 

Na Alemanha, o álbum trouxe "House of the King" como faixa adicional, uma canção que marcou os fãs por ser muito similar ao que o Jethro Tull fazia na mesma época, sendo fácil encontrar pessoas que confundem as bandas quando ouvem essa canção. Os Estados Unidos, lançaram o álbum no mesmo formato que a versão alemã, porém com as canções em ordem alterada. Existem diferentes capas desse álbum espalhadas pelo mundo, algumas você pode conferir aqui. A capa que estampa esse artigo é a da versão original holandesa. "House of the King" acabou sendo o primeiro sucesso internacional do Focus, apesar de ter saído apenas como compacto em seu país.

Pierre Van der Linden, Cyrill Havermans, Thijs Van Leer e Jan Akkerman

Como o grupo não emplacou no primeiro álbum, Akkerman decidiu abandonar o navio, e montou uma nova banda, acompanhado de Pierre Van der Linden (bateria) e Cyrill Havermans (baixo, vocais). Porém, Dresden e Cleuver também resolveram abandonar Van Leer, que se juntou aos amigos de Akkerman, nascendo a segunda formação do Focus.Com esta nova formação, o Focus muda totalmente sua forma musical, apostando no rock progressivo instrumental e deixando a voz apenas para servir como um instrumento a fazer vocalizações complementares nas linhas melódicas criadas pelo órgão e guitarra. 

Assim nasce Focus II (1971). A única canção com letra é a experimental "Moving Waves", tendo Van Leer na posição de vocalista e pianista, os únicos instrumentos da canção. Foi com Focus II que o Focus alcançou seu status internacional, principalmente por conta de "Hocus Pocus", uma peça fantástica, na qual Van Leer exibe pela vez primeira toda a graça de suas vocalizações em yodel, algo que marcou a carreira do grupo a partir de então, e que chegou na nona posição nos Estados Unidos. 


A capa original de Focus II (acima) e a mundialmente conhecida Moving Waves (abaixo)

A sequência de solos vocais divididas com os solos de guitarra ainda hoje agita muitas festas mundo afora. Mas Focus II não sobrevive apenas disso, já que também tem um lindo momento solo de Akkerman, batizado de "Le Clochard", no qual ele abrilhanta o ouvinte com uma peça ao violão clássico, acompanhado por longos acordes de órgão, e a beleza de "Janis", destacando Van Leer na flauta. Os holandeses não viraram sinônimo de progressivo por acaso, e o lado prog aparece na sequência de "Focus", chamada "Focus II", uma leve balada progressiva com aproximações fortes no jazz, destacando os crescendos de órgão e guitarra, provando mais uma vez todas as qualidades do injustiçado Akkerman, já que raramente ele aparece nas listas de melhores guitarristas de todos os tempos.

O ápice do LP é a Maravilhosa suíte "Eruption", que através de seus vinte e três minutos, e quatorze partes, faz uma adaptação da ópera Euridice de forma brilhante. Akkerman continua o centro das atenções, com a capacidade de sair de uma erupção sonora de solos rasgados para a suavidade de um lago tranquilo, através do uso do botão de volume e leves bends. Vale lembrar que Focus II é a versão original holandesa, e Moving Waves é a versão internacional.

Cyril saiu do grupo em 1971, após o encerramento da primeira turnê europeia do grupo, sendo substituído por Bert Ruiter, dando origem então a terceira e mais famosa formação dos holandeses, a qual gravou seu álbum mais ambicioso no ano seguinte, e que para muitos, esse é o melhor álbum dos holandeses, e qualidades não faltam para garantir essa primeira posição. 


O ambicioso Focus III

Com Focus III (1972), A entrada de Ruiter trouxe a possibilidade das expansões vocais do yodel, e também motivou Van Leer a se soltar mais. Um exemplo é a abertura, com "Round Goes the Gossip", quando na primeira parte da canção ele apenas entoa o nome da mesma, e na segunda apresenta seu lado soprano cantando em latim. Essa mesma faixa mostra que o jazz misturado ao progressivo está cada vez mais presente nas composições do grupo. "Carnival Fugue" é uma peça clássica comandada pelo piano, com tímida participação dos demais membros do grupo, transformando-se em um jazz fusion em sua segunda parte. A música clássica tambem dá o ar da graça na "Elspeth of Notthingham", com acordes de violão inspirados na música celta, e com a participação da flauta em alguns trechos. 

A arrepiante união do violão clássico e da flauta aparece também em "Love Remembered", capaz de arrancar lágrimas de qualquer ser vivo nesse planeta. Focus III trouxe o terceiro grande sucesso dos holandeses, "Sylvia", canção originalmente composta para fazer parte de um programa de televisão, mas que acabou sendo bastante popular principalmente em sua Terra Natal, com um riff poderoso e uma melodia grudenta da guitarra, e que alcançou a quarta posição nas paradas britânicas. A dupla "Focus III" e "Answers? Questions! Questions? Answers!" mostra Akkerman e Van Leer duelando em solos inesquecíveis, acompanhados pela formidável cozinha Ruiter/Van der Linden. 

Várias versões de Focus III mundo afora (Brasil, Uruguai, Estados Unidos e Alemanha)

Falando em dupla, o álbum foi lançado originalmente no formato duplo, isso graças a inclusão da Maravilhosa "Anonymous Two", uma incrível jam de mais de vinte e seis minutos que ocupa todo o lado C e boa parte do lado D do vinil, e onde o quarteto apresenta-se com solos individuais, tendo como base o riff de "Anonymous", lançada no primeiro álbum. Do primeiro álbum também foi resgatada "House of the King", que finalmente era lançada em um álbum oficial do grupo na Holanda. Existem diferentes capas de Focus III mundo a fora, e as duas apresentadas aqui são a versão original holandesa (primeira) e a versão internacional lançada na América do Norte (segunda).

A bela versão nipônica de at The Rainbow


A segunda turnê europeia aconteceu a partir do segundo semestre de 1972, e foi registrada no essencial at the Rainbow (1973), trazendo um show do grupo gravado no Rainbow Theatre em Londres, e que foi lançada também em VHS, sendo esse vídeo o responsável pela difusão do Focus em países da América do Sul e Ásia.

O escocês Collin Allen (ex-Stone the Crows) substituiu Van der Linden, e essa nova formação continuou inspirada, lançando em 1974 Hamburger Concerto, que julgo ser o melhor LP do grupo.

O melhor álbum da banda na opinião do autor



O álbum apresenta o hardão de "Harem Scarem", a beleza indescritível de "La Cathedrale de Strasbourg", com Van Leer sobressaindo-se ao piano e nos vocais, as experimentações psicodélicas-clássicas de "Birth", apresentando Van Leer no cravo, e fazendo belezuras junto de Akkerman quando pula para o órgão e a flauta, e a música clássica da vinheta "Delitiae Musicae", um magnífico momento somente com alaúde e flauta. 

Porém, nada supera o que o quarteto registrou no lado B desse vinil, que é a suíte-título. Com trechos inspirados em "Variations on a Theme by Haydn", de Joseph Hayden, a suíte é dividida em seis partes. Difícil dizer qual o principal momento dessa Maravilha, já que desde a introdução, com as linhas de baixo de Ruiter, o andamento suave dos primeiros minutos, o riff marcante, os solos vocais de Van Leer, o órgão e a flauta alimentando o cérebro com notas divinas, a pegada na guitarra de Akkerman durante a segunda metade da canção, a epopeia emocionante do encerramento, e Collin Allen fazendo ninguém sentir saudades de Van der Linden, são alguns dos pontos que me tornaram fã dos holandeses. Mais um daqueles momentos mágicos na música. 



Thijs van Leer, Jan Akkerman, Collin Allen e Bert Ruiter

O relançamento em CD trouxe uma faixa bônus, "Early Birth", que é a versão original de "Birth", sem a introdução com o cravo, e na sequência, mais uma mudança na formação, com o americano David Kemper substituindo Allen, leva a Mother Focus, lançado em 1975.

Allen participa em apenas uma faixa, "I Need a Bathroom", uma balada funk que tornou-se a única canção do grupo a ser cantada por Ruiter. O álbum parece contaminado pela onda disco, com muitos sintetizadores, a utilização constante do vocoder (instrumento que imita a voz humana) e canções curtas que fogem bastante dos padrões esperados para o Focus, lembrando grupos como Sly & The Family Stone ou Funkadelic, mas não deixa de ter seus momentos bons, como a peça clássica "Father Bach", somente com órgão e guitarra, o suingue da faixa-título, a sutileza de "Focus IV", sem contar com as linhas de suas antecessoras, mas ainda assim muito bela, e "No Hangs Up", com certeza a faixa mais Focus de Mother Focus

O fraco Mother Focus

A dupla "Soft Vanilla" e "Hard Vanilla" parecem trilha sonora de filme brasileiro dos anos 70, diferenciando apenas pelo instrumento utilizado para o solo principal (flauta sintetizada no primeiro e vocoder no segundo), mas "Bennie Helder" é uma das amostras positivas de como misturar elementos clássicos com o funk e a disco-music, enquanto Akkerman convence que ainda existe genialidade na dupla "Someone's Crying ... What?" / "All Together ... Oh That!". Já "My Sweetheart" e "Tropical Bird" acabam sendo manchas negras na carreira do grupo, que começava a rumar para seu fim.

Akkerman pediu as contas pouco depois, sendo substituído pelo belga Philip Catherine, dando origem a uma nova fase para o Focus. O guitarrista mergulhou em uma carreira solo de destaque, e mesmo com um substituto a altura, as coisas não estavam nada bem. O jeito foi arriscar na loteria, e assim, o grupo manteve-se na ativa, unindo-se ao cantor pop americano P. J. Proby e lançando seu sétimo disco de estúdio, o primeiro sem Akkerman, no ano de 1978. Antes, por esforços do produtor Mike Vernon, mais um álbum com Akkerman chegou na praça, no ano de 1976.


O disco de sobras Ship Of Memories

Ship of Memories é uma coletânea de canções que acabaram ficando de fora dos lançamentos oficiais. Vernon não mediu esforços para manter a chama do Focus acesa durante o período de instabilidade, e resgatou obscuridades não lançadas oficialmente. O lado A foi gravado em duas semanas do ano de 1973, e nele ouvimos uma sequência interessante de canções programadas para compor o quarto álbum dos holandeses. 

"P's March" alterna-se entre solos de flauta e guitarra, e "Focus V" traz as fontes jazzísticas e o andamento que criaram a base musical do Focus. O melhor fica para "Can't Believe My Eyes" e "Out of Vesuvius", ambas experimentações virtuosísticas de Akkerman, inseridas em um andamento sombrio e tenso (a primeira) e em uma levada dançante (a segunda). 

Bert Ruiter, David Kemper, Thijs Van Leer e Philip Catherine

O lado B é mais diversificado, trazendo "Spoke the Lord Creator", gravada em 1970, e que foi a primeira tentativa de recriar "Variations on a Theme by Haydn", "Ship of Memories", um breve solo de bateria e órgão de igreja feito por Van der Linden, "Red Sky at Night", tendo um belo solo de Akkerman, e "Glider", versão original de "Mother Focus" e que particularmente considero melhor que a versão registrada no álbum homônimo, principalmente pela exploração dos yodels. 

Nessa canção, Akkerman toca Sitar elétrico, o que também deu um efeito diferente, e conta com Van der Linden na bateria. "Crackers" é da época de Mother Focus, enaltecendo o lado funk-fusion que predominou no último álbum lançado com Akkerman nas guitarras, sendo uma canção de menor qualidade perto das demais. A contra-capa do álbum apresenta um interessante texto de Mike Vernon contando sua experiência com o grupo e os caminhos que levaram ao lançamento de Ship of Memories, o que é um bom complemento para quem quer se aprofundar na história da banda.



O álbum com o cantor pop PJ Proby






Trazendo na formação Thijs Van Leer (flauta, teclados, vocais), Bert Ruiter (baixo, vocais), Philip Catherine (guitarras), Steve Smith substituindo David Kemer na bateria e a adição do excelente Eef Albers às guitarras, além da voz principal de Proby, Focus Con Proby é lançado em 1978. Os holandeses surpreenderam com um álbum muito diferente do que havia sido apresentado nos discos anteriores, principalmente no fraco Mother Focus (1975). É difícil classificar esse álbum, pois existem momentos preciosos e outros que em nada poderiam estar presentes na Discografia de um gigante como o Focus. 

A voz de Proby é um estranho no ninho para quem estava acostumado com as vocalizações em yodel de Van Leer, mas por outro lado, as guitarras de Albers e Catherine deram uma nova cara para a banda, que no geral, inspira-se no som do final dos anos 70, praticando um som próximo ao de grupos como Weather Report e Eleventh House, e aqui cito a velocidade jazzística de "Sneezing Bull", com Van Leer exibindo-se na flauta (coloque para um amigo e duvido que ele não diga que é Jethro Tull o que está rodando), a exuberância zappiana de "Maximum", com solos de Catherine e Van Leer, a linda "Orion", com Ruiter e Albers fazendo o solo principal juntamente, na alucinante "Night Flight", com Albers gastando seus dedos em um solo impressionante, e outros mais voltados para canções dançantes ( "Tokyo Rose", "How Long" e "Wingless") e baladas mela-cuecas ("Eddy" e "Brother") que em nada acrescentam ao fã dos primeiros álbuns. 

Pela parte instrumental, temos um excelente trabalho, e se você retirar as duas últimas canções com vocais citadas nesse texto, Focus con Proby é um ótimo disco. O problema é que aturar "Eddy" e "Brother" é um constrangimento e tanto para quem já pulou com "Hocus Pocus". O grupo fez uma curta turnê, mas em seguida, Van Leer anunciou o encerramento das atividades do Focus, seguindo para uma carreira solo de relativo sucesso. Porém, em 1985, novamente o nome Focus apareceu no cenário musical, e dessa vez, de forma totalmente surpreendente.


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