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sexta-feira, 18 de julho de 2014

Cinco Discos Para Conhecer: o Rock Argentino




Por Mairon Machado

Nossos vizinhos argentinos sempre foram uma força dentro do rock. Nomes como Charly Garcia (La Máquina de Hacer Pájaros, Sui Generis), Luis Alberto Spinetta (Almendra, Pescado Rabioso) e Walter Giardino (Rata Blanca) são alguns dos nomes mais conhecidos, e que fizeram do rock argentino conhecido mundialmente.

Em homenagem aos atuais vice-campeões do mundo, o Consultoria do Rock traz aqui Cinco Discos para Conhecer o Rock Argentino, mas não através desses nomes tão consagrados, mas de artistas que fizeram álbuns marcantes, um tanto quanto desconhecidos, mas essenciais para se entender como o rock evoluiu em nosso país vizinho.

Vox Dei - La Biblia [1970]

Fundado em 1967, nos subúrbios de Quilmes, o Vox Dei atravessou a década de 70 como uma das primeiras bandas do hard rock  na Argentina. Seu segundo álbum, La Biblia, é considerado um dos grandes ícones do rock argentino, e talvez a primeira ópera-rock totalmente composta em espanhol. Durante o decorrer dos cincoenta e cinco minutos desse incrível álbum duplo, somos apresentados aos dois testamentos do Livro Sagrado Cristão na visão do genial e esquecido guitarrista Rocardo Soulé. Lançado por um dos selos mais importantes da Argentina, o Sello Mandióca, traçou uma grande parceria com a Igreja Católica local, que adorou o resultado final. E isso não é pouco. O disco possui uma interpretação magistral dos jovens músicos da banda, destacando as quatro longas e intrincadas faixas que constituem o Velho Testamento, destacando o andamento sinistro de "Génesis", com o baixão de Willy Quiroga explodindo as caixas de som e um fantástico duelo de guitarras feito por Soulé e "Yodi" Godoy, a delicada viajem de "Moisés", o peso alucinante e os solos ácidos da suíte "Las Guerras", e o clima pampeano-bluesy de "Profecías", maravilhado por suas vocalizações trabalhadamente emocionantes. O Novo Testamento contém mais quatro canções, não tão longas quanto as do Velho Testamento, mas igualmente tocantes, com destaque para a dupla "Cristo (Nacimiento)" e "Cristo (Muerte y Resurrección)", ambas trazendo um emocionante arranjo de cordas criado por Roberto Lar, com a segunda levando o ouvinte às lágrimas através do grandioso solo de harmônica feito por Soulé. As gravações foram complicadas, com brigas internas que levaram a saída de Godoy, o segundo grande nome do Vox Dei, que permaneceu como um trio fazendo seus discos e mantendo, entre idas e vindas, a história e os fantásticos trabalhos instrumentais e vocais de La Biblia sempre presentes, inclusive com uma regravação ao vivo (La Biblia En Vivo, 1987) e e em estúdio (La Biblia II, 1997). Sem medo, afirmo que esta é A OBRA conceitual do rock argentino, e ao meu ver, o melhor disco daquele país em toda sua história.

Willy Quiroga (vocais, baixo), Ricardo Soulé (vocais, guitarra, harmônica, violino e piano), Rubén Basoalto (bateria), Juan Carlos "Yodi" Godoy (vocais, guitarra),

Participação especial

Roberto Lar (arranjos)

Track list

1. Génesis
2. Moisés
4. Profecías
5. Libros Sapienciales
6. Cristo (Nacimiento)
7. Cristo (Muerte y Resurrección)
8. Apocalipsis

Pedro y Pablo – Conesa [1972]
Por Marco Gaspari

A primeira metade dos anos 70 testemunhou o surgimento de ótimas duplas de rock na Argentina. A mais bem sucedida e famosa delas, com certeza, foi o Sui Generis dos geniais Charly García e Nito Mestre. Mas houve também o belíssimo folk naif do Vivencia e o rock acústico do Pastoral, responsável entre outras pérolas por uma ópera rock acústica gravada em 1972 de nome Vida y Vida de Sebastián.  O pioneirismo, no entanto, coube a Miguel Cantilo e Jorge Durietz, compositores, guitarristas e cantores que formaram a dupla Pedro y Pablo em 1968, mas já atuavam como Los Cronopios desde 67. Seu primeiro LP foi lançado no início dos anos 70 e o segundo, o que estamos tratando aqui, veio à luz em 1972. Batizado de Conesa em homenagem a um velho casarão situado na rua de mesmo nome na cidade de Buenos Aires e que abrigava naquela época artistas que procuravam, de forma comunitária, refúgio do mau tempo político perpetrado pela ditadura militar que assumiu o país em 1966.  Disco que traduz o encontro da dupla com o rock psicodélico da banda La Cofradia de la Flor Solar, Conesa trata do êxodo da cidade em busca de uma maior conexão com a natureza, mas não apenas como um ideal hippie, e sim como uma fuga da violência promovida pela brutalidade militar. Era, sem dúvida, um disco de músicas de protesto e não passou despercebido aos ditadores, que logo trataram de responder. Primeiro ameaçaram censurar a capa, por considerarem que a dupla posou de guerrilheiros cubanos e, após a breve brisa peronista que logo se transformou no vendaval de sangue da ditadura Videla, finalmente o disco foi proibido em 1976 e permaneceu assim até 1983, quando a volta da democracia ao país tratou de reparar esse e outros pecados.  Não vou cansar o leitor com uma análise de cada uma das músicas do disco. Não é do meu feitio e nem acho que tenha capacidade para isso. Mas recomendo fortemente a audição, principalmente para aqueles que se deliciam com harmonias vocais a la CSN&Y e guitarras em profusão. Há uma variedade delas, desde as tocadas pela dupla, como também a dos convidados: o ácido Kubero Diaz e o sublime Roque Narvajo. Em 1976, Miguel Cantilo se exilou na Espanha, mas antes disso formou com Kubero o Grupo Sur, cujo raríssimo disco é outro cotonete macio para ouvidos encharcados de tantas bobagens.

Miguel Cantilo (violão, vocais), Jorge Durietz (violões, vocais)

Músicos convidados

Roque Narvaja (vocal, violão e flauta)
Kubero Díaz (guitarra eléctrica, piano, vocais)
Quique Gornatti (baixo, guitarras e slide guitar)
Nestor Paul (baixo), Alex Zucker (baixo)
Ruben "Tzocneh" Lezcano (bateria)
Mariano Tito (marimba)
Pappo (guitarra em 2)

1. Padre Francisco
4. El Barco Pálido
5. Instrucciones
6. El Bolsón De Los Cerros
7. Apremios Ilegales
9. El Alba Del Estío

Miguel Abuelo - et Nada [1975]
Por Marco Gaspari

Tem gente que precisa de muito para fazer alguma coisa. E têm alguns que a partir do nada conseguem fazer quase tudo. Miguel Abuelo foi um desses. Nascido Miguel Angel Peralta em 1946, passou boa parte da sua infância em um orfanato. Em 1967 praticamente inventou o rock argentino junto com Litto Nebia, Tanguito, Spinetta e mais alguns pioneiros que se reuniam nas pistas do boliche La Cueva. Inspirado pela frase “hijos de los piojos, abuelos de la nada”, de uma obra de Leopoldo Marechal, funda o grupo Los Abuelos De La Nada e grava dois compactos até 1969, quando se retira e deixa a liderança do grupo para o guitarrista Norberto Nappolitano, mais conhecido como Pappo. Gravou também alguns compactos solo para o famoso selo Mandioca. Depois de uma tentativa frustrada de montar uma banda com Luis Alberto Spinetta (El Huevo, que se tornaria depois o Pescado Rabioso), rende-se ao fato de que sua querida Argentina não mais lhe pertence e sim aos ditadores de plantão e se refugia na Europa, onde permanece errante entre cidades da Espanha e da França, vivendo na casa de amigos, fazendo artesanato e tocando sua música. Nesse meio tempo se casa, tem um filho chamado Gato Azul, escreve um livro de poesias, dedica-se à religião Sufi e se entope das drogas mais variadas. Entre 72 e 73 forma um grupo com expatriados chilenos e argentinos, entre eles o guitarrista Daniel Sbarra, e grava o disco Miguel Abuelo & Nada, produzido pelo multimilionário Moshé Naim para seu selo francês. O disco só sairia em 1975 quando a banda já estava desfeita em função de divergências de estilo, mas alguns shows em 74 pela França tiveram ótima acolhida e boas críticas. Esse disco nunca foi editado na Argentina e amargou uma injusta obscuridade por décadas, sendo relançado na Europa uma única vez em uma pequena tiragem de apenas 500 exemplares. Para quem o conhece é considerado um dos melhores discos gravados em castelhano nos anos 70, transitando entre o progressivo sinfônico, baladas folk medievais e um furioso hard rock. Depois de ser preso como imigrante sem documentação no final dos anos 70, Miguel consegue sua liberdade e volta para a Argentina em 1981, onde revive com sucesso Los Abuelos de La Nada, agora produzidos e apadrinhados por Charly Garcia. Morre em março de 1988 de parada cardíaca causada pela Aids e vira nome de uma pracinha na Avenida Santa Fé, em Buenos Aires. Nada mal para quem era Nada.

Miguel Abuelo: (vocais, violão), Daniel Sbarra (guitarra, vocais), Daniel Rodriguez (bateria), Carlos Beyris (violoncelo), Pinfo Garrigo (baixo), Juan Dalera (quena)

2. El Largo Día De Vivir
5. Señor Carnicero
6. Recala Sabido Forastero
7. Octavo Sendero

Anacrusa - El Sacrificio [1978]

O Anacrusa surgiu no início da década de 70 em Buenos Aires, lançando três álbuns que marcaram a sonoridade portenha por mesclar com perfeição e soberania a música tradicional do pampa argentino com rock progressivo, blues e até mesmo o tango. Governados por Susana Lago (piano e vocais) e José Luis Castiñeira (violões, arranjos), o grupo sofreu com a pressão da ditadura argentina, e acabou mudando-se para a França em 1977. Lá, registraram seu melhor trabalho, El Sacrificio, o qual condensa todo o poder de fogo de um octeto afiadíssimo, misturando elementos típicos do rock progressivo (flauta, guitarras, teclados) com a música argentina (bandoneon, piano, clarinete, oboé, bumbo leguero). São apenas sete canções de um disco praticamente instrumental,  trazendo música clássica na grandiosa "El Pozo de los Vientos", as viagens floydianas / Piazollenses de "Los Capiangos", o clima milongueiro de "Sol de Fuego", as passagens enigmáticas e enlouquecedoras da suíte "Tema de Anacrusa", recheada de alternações e mudanças de ritmo, e o tocante tango  de "Homenaje a Waldo", uma das Maravilhas Progressivas que a Argentina pariu. Dentre as duas faixas com vocais, "Quien Bien Quiere" é a que se sobressai por conta de seu ritmo medieval levado por instrumentos andinos, mas a faixa-título é uma belíssima joia a ser descoberta. O grupo lançou mais um excelente álbum durante seu exílio francês, Fuerza (1982), e separou-se logo em seguida. Diversas reuniões foram feitas, resultando em mais dois lançamentos de estúdio entre os anos 90 e 2000, mas já sem a criatividade e a força de El Sacrificio, para mim o segundo melhor álbum do rock argentino em toda sua história.

Susana Lago (piano, vocais), Jose Luis Castiñeira (violões, arranjos), Julio César Pardo (flauta), Bruno Pizzamiglio (oboé), Daniel Sbarra (guitarras), Jorge Trasante (bateria e percussão), Juan Mosalini (bandoneon) e Phillipe Pages (piano, órgão).

1. El Pozo de los Vientos
2. El Sacrificio
3. Sol de Fuego
4. Quien Bien Quiere
5. Homenaje a Waldo
6. Los Capiangos

2112 - Intro [1994]

Para não ficar apenas nos clássicos e obscuros discos da década de 70, trazemos aqui um representante do Prog Metal portenho. Para muitos, o nome Rata Blanca é comum nas rodas relacionadas ao Heavy Metal. Porém, contemporâneos a banda de Walter Giardino, e tão talentosos quanto, eram o quarteto 2112, formado em 1986 pelos fãs de Rush Juan Tambussi (guitarras) e Sergio Moscatelli (bateria). O nome já entrega suas inspirações no rock progressivo. Lançaram seu primeiro disco em 1990, mas foi com Intro que conquistaram sucesso na Europa e nos Estados Unidos. Cantando em espanhol, esse é um dos principais destaque do 2112, já que as qualidades técnicas de Tambussi e de Moscatelli (esse fortemente influenciado por Neil Peart) e as perceptíveis passagens advindas de álbuns do trio canadense em canções como "Souvenir", "Dalo Vuelta" também revelam-se positivamente em Intro. Das oito faixas, os fãs da banda canadense irão vibrar com a instrumental "451", trazendo surpreendentemente um solo de gaita de fole em seu encerramento, e os admiradores de nomes como Dream Theater ou Stratovarius certamente apreciarão o peso de " Libre del Bien y el Mal" e "Desde el Trapecio". Porém, o grande mérito da banda é a criação de "Payasos Asesinos del Espacio Exterior", com um riff poderoso para o estilo de metal, mas carregado por densas pinceladas do rock progressivo. Depois, houve diversas mudanças na formação, mais dois lançamentos de estúdio, um com o grupo gravando em inglês (Glory Lies Ahead, 2000) e outro voltando a gravar em espanhol (El Maravilloso Circo de Los Hermanos Lombardi, 2012), e uma atividade diminuída com o passar dos anos, mas ao que consta, o 2112 ainda está na ativa.

Juan Tambussi (guitarras), Lucho Passeri (baixo, vocais), Adrián Katz (teclados), Sergio Moscatelli (bateria)

1. Centrales de Poder
2. Souvenir
3. 451
5. Dalo Vuelta
6. Analogías
7. Payasos Asesinos del Espacio Exterior
8. Libre del Bien y el Mal


terça-feira, 10 de junho de 2014

Anacrusa


Arte inicial por Pablo Ribeiro

Durante a década de 70, Brasil e Argentina não rivalizavam apenas no futebol, mas também na formação de grandes bandas. Enquanto o Brasil tinha Secos & Molhados, Mutantes, Som Nosso de Cada Dia e O Terço (só para citar alguns), a Argentina rivalizava com Sui Generis, Vox Dei, Almendra e La Maquina de Hacer Pajaros (também para citar só alguns). Porém, os argentinos tinham um diferencial em suas bandas, já que a maioria delas explorava com muita qualidade as características sonoras de seu país.

Não era diferente com o Anacrusa, um grupo espetacular, que sabia fazer miséria com tango, rock progressivo, mambo, milonga, chamamé e diversos outros estilos comuns ao pampa portenho.

O grupo, cujo nome é uma forma musical europeia, advinda do grego ἀνάκρουσις, que significa retrocesso, tem uma história praticamente obscura, mas graças a geração MP3, o mundo pode conhecer uma das bandas mais versáteis que o pampa portenho já ouviu, que fez questão de retroceder às origens folclóricas de seu país, mas foi além com o passar dos anos e as inspirações progressivas.

Fundado no início dos anos 70, capitaneado José Luis Castiñeira de Dios (violão, charango, cuatro, bandoneón, baixo, arranjos) e pela voz marcante de Suzana Lago (piano, órgão, charango e voz), acompanhados pelo trioAlex Eriich-Oliva (double bass, violões, violoncelo), Julio Pardo (flauta, oboé, instrumentos de sopro) e Elias "Chiche" Heger (bateria, percussão).


"Chiche" Heger

Individualmente, as formações eram bastante distintas. Chiche tinha uma formação essencialmente jazzística, e começou sua atividade artística como baterista de jazz no The Royal Garden Jazz Band, que em seguida virou a Diexieland Smugler's, quando começou a receber aulas de percussão do maestro Antonio Yepes. Em 1960, foi designado para representar a Argentina no Primer Festival Internacional de Jazz, no Chile. Posteriormente, passou por diversos grupos do estilo, tanto na Argentina como no exterior, até passar a ser parte do conjunto Trío Juárez, em 1969, gravando dois LPs. Ainda em 1969, funda com o também baterista Eduardo Casalla o Centro de Estudios de Percusión, onde passou a ministrar aulas com regularidade.

Pardo vinha de uma formação clássica no piano e no violão, tendo sido estudante nos conservatórios Julián Aguirre e Manuel de Falla, onde também aprendeu clarinete. Foi com este último que converteu-se em um amante do jazz, tocando ao lado dos conjuntos The Hot Gang, The Modern Dixielands, The New Orleans Stompers, The Saint Louis Stompers e The Dixie Band. Despertou seu interesse pela flauta cm Alfredo Ianelli, ingressando o conceituado grupo de Eduardo Rovira no final da década de 60. Era o flautista principal na Banda Sinfónica da Polícia da Província de Buenos Aires, quando foi convidado para integrar o Anacrusa.

Por fim, Alex Oliva vinha de uma tradição folclórica, tendo como mestres seu pai Ruwin Erlich (piano) e Aldo Tonini (violino). A partir de 1967, integrou o grupo Trio Juárez, gravando dois álbuns. Virou diretor musical em diversos espetáculos do teatro argentino, e contrabaixista da Orquestra de Cámara del Sindicato de Luz y Fuerza, em Buenos Aires.


A dupla Susana Lago e Jose Luis Castiñeira, nos anos 2000
O cerne do Anacrusa era a dupla Susana Lago e Jose Luis Castiñeira de Dios. Suzana era uma renomada artista argentina, tendo sida enviada para representar o país no September Musical Tucumano, em 1972, e também nos XX Jogos Olímpicos de Munique, no mesmo ano, onde conheceu Castiñeira. Formada no Conservatório Nacional de Música argentina, foi integrante do grupo Cuarteto Cabrakán, bem como foi figura principal no espetáculo Folklore de Rancho y Rascacielo, ao lado de Leda Valladares e Anastasio Quiroga, o qual lotou o Teatro Regina e o Teatro Municipal de San Martín em duas temporadas na década de 60. Depois, mudou-se para a França, onde atuou em recitais por lá e na Espanha, tocando com destaque no Colégio Mayor de Madrid e em rádios e televisões franceses, voltando para a Argentina para fazer seu nome como concertista apresentando-se no Instituto de Arte Moderno Exposhow, Cine Club Mar del Plata, Biblioteca Municipal Verdi de al Plata e também na rádio e TV argentina.


Jose Luis Castiñeira de Dios

Castiñeira integrou diversos grupos folclóricos e de música popular argentina antes de montar o Anacrusa, destacando-se  o Trio Eduardo Lagos, o Quinteto Teluria e o Trio Juárez + 2, ao lado de Oliva. Seus estudos levaram-no a conseguir uma bolsa do Instituto de Cultura Hispánica, que permitiu mudar-se para a Espanha em 1965. Por lá, tomou contato com Waldo de los Ríos, participando de diversas gravações do maestro argentino durante o ano de 1966. Fez renome através de trilhas sonoras para filmes e teatro, o que levou a representar a Argentina durante os XX Jogos Olímpicos de Munique, quando conheceu Suzana (com eles também estavam Leda Valladares e Anastasio Quiroga).

O grupo apresentava-se em pequenos locais de Buenos Aires, apresentando um som fortemente influenciado pelos ritmos portenhos e latinos.

A estreia do Anacrusa, com muitos elementos tradicionais
Não tardou para que assinassem um contrato com o selo Redondel, e em 1973, lançasse seu álbum de estreia, auto-batizado. O disco é muito belo, misturando os elementos do pampa com sutis porções de rock progressivo.

Em pouco mais de trinta minutos, somos apresentados a diversos ritmos latinos, como as cuecas "La Rosa Y El Clave" e "Rio Limay", esta contrastando os violões, piano e bandoneón com majestosos solos de flauta e xilofone, e as canções populares e dançantes presentes no joropo "Lo Que Mas Quiero" e no merengue "Marula Sanchez". 


Contra-capa do LP de estreia dos argentinos

A voz de Susana destaca-se na guajira "Pobre Mi Tierra" e em "Elegia Sobre Un Poema", onde ela realmente assombra, e os destaques ficam para as instrumentais "El Baile del Pajarillo" (joropo venezuelano), "Zamba de Invierno", ambas com um show de Castiñeira e Pardo, "Galopa del Mamboreta", uma galopa com uma empolgante variação de ritmos entre piano e flauta, a andina "Viento de Yavi", todas com ótimas passagens de elementos prog com elementos do pampa, e a mágica chacarera "Piedra Y Madera", sem sombra de dúvidas a melhor e mais elaborada canção do LP. 

São canções curtas, mas com um belo apelo emocional, que indicavam um promissor caminho para o quinteto, que na capa do LP, mostrava suas influências progressivas, imitando o Pink Floyd de Ummagumma ao posar com todos os seus instrumentos ao mesmo tempo.

Segundo álbum do grupo
O álbum vendeu relativamente bem, angariando mais shows para o grupo e permitindo a gravação de um segundo LP no ano seguinte. Anacrusa II apresenta a primeira reformulação da banda, agora com o La Platense Rubén "Mono" Izaurralde no lugar de Pardo.

O grupo continua suas explorações musicais no ano seguinte, e Mono foi A substituição, dando uma nova face para o grupo, já que além de tocar muito bem, também canta, aqui em "Rio Manzanares". 

Contra-capa de Anacrusa II
O álbum possui canções populares de diferentes países, como a citada "Rio Manzanares" (canción venezuelana), "Coplas de Cundinamarca" (coplas colombianas) e a dançante "Palmero" (marinero peruana), além de "Homenaje", uma cueca legitimamente portenha, e que está no lado B. 

Mas com a dolorida "Polo Coriano", o grupo surpreende nas partes instrumentais, enaltecidas nas pérolas "Zamba de la Despedida", destacando o órgão de Susana, e a suíte "Campo Sur", divida na suave "Saque Mi Corazón de la Tierra Quemada", com violão, flauta e piano dividindo as atenções,  e a estonteante "Calcufurá", uma incrível canção na qual Susana usa e abusa das notas do piano, e Mono faz misérias com a flauta, encerrando de forma fantástica esse belíssimo álbum, e mostrando os caminhos progressivos que o grupo iria seguir em breve.

União dos dois primeiros LPs em um único CD

Anacrusa e Anacrusa II foram posteriormente relançados em um único CD, chamado Anacrusa (2001), trazendo todas as canções de ambos os álbuns. 

O mercado latino começava a receber de braços abertos o quinteto, que não parava de produzir espetáculos cada vez mais concorridos. Porém, em plena ditadura militar, sobreviver como músico no país vizinho tornou-se uma tarefa complicada, e desta forma, as dificuldades financeiras começaram a aparecer.

Mesmo assim, o quinteto seguiu na luta, e com uma nova formação tendo Castiñera,  Mono, Susana, Bruno Pizzamiglio (oboé), Quique Alvarado (baixo e sintetizador), Juan Carlos Lícari (bateria) e Ricardo Martinez (percussão), lançam Anacrusa III, em 1975, pelo pequeno selo Global. 

O último disco do grupo lançado antes do exílio
Se em Anacrusa II, os argentinos colocavam o pé levemente no progressivo, no terceiro disco a situação inverte-se, já que esse é o álbum mais folclórico do grupo, que como todos os demais, possui uma distinção muito clara nos ritmos apresentados. 

Nas canções com vocal, temos o joropo de "Pullas", com os vocais divididos entre Mono e Susana, as vidalas "Lamento del Salitral" e "Tanta Lagrima Regada", a marinera peruana de "M'hey de Guardar", a valsa peruana "Maldito Amor" e a milonga "Milonga del Silencio", ambas com dramáticas interpretações de Susana. 

Contra-capa de Anacrusa III

Para manter a constante, os arranjos instrumentais do maestro Castiñeira são o que temos de melhor, engrandecendo cada vez mais o nome do grupo para os fãs, através das jóias "Polquita Cruceña", uma polca boliviana com um belo duelo de flauta e oboé, e "Los Capiangos", uma chaya típica representante da sonoridade Anacrusa, trazendo como novidade a presença do sintetizador.

A agitada candomble "Recuerdos de Monserrat", que serviria de base para outra canção do grupo no futuro, destacando a inclusão do xilofone na mesma, é um dos principais destaques, ao lado de "Horizontes Y Senderos", que traz lágrimas em suas três partes, uma mais bela que a outra, e totalmente distintas entre si, mostrando que é possível construir uma ótima canção repleta de variações em apenas cinco minutos.

Coletânea unindo Anacrusa III com canções inéditas

Em 2005, esse álbum foi relançado com o nome Documentos 75-76, trazendo cinco bônus, que foram gravadas para o quarto álbum do grupo, o qual seria lançado em 1976, mas não chegou a sair. São elas: "Cuando Llegare", "Vidala de la Tierra Conocida", "Cuando Salgo a Sabanear", "Polo Margariteno" e "Carnavalito Y Vidala", sendo Documentos 75-76 um álbum de mais fácil acesso em comparação aos demais.

A ditadura passou a ficar cada vez mais pesada entre os hermanos, obrigando o grupo a retirar-se do país, buscando exílio na França em 1977. Apesar da saída às pressas de sua Terra Natal, os ares europeus foram revitalizadores, já que lá, o quinteto ampliou seus conhecimentos musicais. 

Amigos argentinos e da América Latina em geral, também exilados na França, passaram a frequentar as residências de Susana e Castiñeira, surgindo um novo Anacrusa, agora com Susana, Castiñeira, Pardo e Bruno, Daniel Sbarra (guitarras), Jorge Trasante (bateria e percussão), Juan Mosalini (bandoneon) e Phillipe Pages (piano, órgão). O que estava bom iria fica incrivelmente melhor a partir de então. Os novos rumos ainda levaram o grupo a assinar com o mega selo Philips, e em 1978, chega às lojas El Sacrificio.

O melhor álbum do grupo, e o primeiro do exílio

Desde a estonteante entrada com "El Pozo de los Vientos", e uma impecável mistura de elementos progressivos com latinos, percebemos que o grupo cresceu e muito. Guitarra, baixo e piano misturam-se a flauta, oboé e percussões de uma maneira ímpar, sendo que o trabalho de Sbarra é perfeito, com suas distorções puramente psicodélicas, apresentadas na recriação de "Los Capiangos" e em "Quien Bien Quiere", ambas com um belíssimo arranjo orquestral. 

O trabalho instrumental de Castiñeira e Susana é elevado para o nível mais alto, como atestam "Sol del Fuego", com uma ótima participação do bumbo-leguero, e na longa suíte "Tema de Anacrusa", uma canção merecedora de ser chamada de Maravilha, com seus treze incansáveis minutos de variações e andamentos mágicos criados por piano, flauta, saxofone, baixo, guitarras e percussão, além de fantásticas vocalizações de Susana. 


Contra-capa do vinil (acima) e do CD (abaixo) de El Sacrificio

Aliás, o que ela faz com a voz na faixa-título assusta até fantasmas, e quando ouvimos os cinco minutos da Maravilhosa "Homenaje a Waldo", não tem como evitarmos as lágrimas e a tradicional frase cuja sigla é "PQP!", tamanha a emoção e perfeição que os músicos exprimem na mesma.

Um disco perfeito, que ao lado de La Biblia (Vox Dei) e Artaud (Pescado Rabioso), está no topo dos Melhores álbuns já lançados por um grupo da Argentina.

O Anacrusa seguiu como um grupo errante, atuando pouco mas concentrando-se bastante nas composições, além de uma grande mudança na formação, agora com Castiñeira e Susana acompanhados de Narciso Omar Espinosa (violão), Tony Bonfyls (baixo), André Arpino (bateria), Jacky Tricore (guitarra), Alain Human (percussão),  Rubem Sanchez Resta (percussão), Patrice Mondon (violino), Pierre Gozzes (saxofone), Claude Maisonneuve (oboé) e Raymond Guiot (flautas).

Segundo disco do período de exílio

O segundo disco do exílio demorou quatro anos para ser parido, com o nome de Fuerza, e é um forte concorrente para El Sacrificio à posição de melhor do grupo. Temos um álbum muito elétrico, levado principalmente pela guitarra ácida de Tricore. 

As únicas canções que trazem um pouco das origens são a quase Weather Report "Monserrat", inspirada nos acordes de "Recuerdos de Monserrat", e a bela faixa-título, com o bumbo leguero se fazendo presente, mas destacando exclusivamente o arrepiante arranjo vocal, mas no mais, o Anacrusa apresenta novidades em seu som, como as baladas "En Paz" e "Vidala de la Tierra", essa com um ótimo arranjo orquestral, e até mesmo jazz-fusion, na incrível "Presion", com Susana dando show ao piano, além de um duelo inesquecível de violino e guitarra. 

Contra-capa de Fuerza

A maravilhosa recriação para "Calfucurá" é tão sublime quanto a versão de Anacrusa II, mas muito mais potente com a presença dos metais e das cordas, além do tom medieval empregado na parte final da canção. O melhor fica para o final, com a estonteante "Chaya", repleta de inspirações diversas, desde o jazz ao tango, e  a suíte "Voz del Agua", que certamente irá fazer você pensar "Por que eu não ouvi essa banda antes?", tamanha a profundeza emocional que o Anacrusa nos apresenta ao longo dos seus nove minutos de duração, nesta que é a canção mais trabalhada orquestralmente na carreira do grupo.

Infelizmente, após o lançamento de Fuerza, o grupo separou-se, com alguns músicos voltando para a Argentina e outros permanecendo na Europa. Nesse período, o Anacrusa entrou na obscuridade, e somente Castiñeira ganhou algum destaque, compondo trilhas para diversos filmes franceses e argentinos. Somente nos anos 90, uma nova reunião entre Susana e Castiñeira veio a ocorrer, e a mesma acabou gerando mais um registro fonográfico, o quinto do grupo.

O retorno da dupla Castiñeira / Lago, em 1995

13 anos depois de Fuerza, Castiñeira e Susana reencontraram-se em Buenos Aires, registrando Reencuentro (1995), com a participação de diversos músicos convidados. No álbum, revezam-se Arturo Schneider e Rubén Mono Izarrualde (flautas), Adalberto Cevasco e Quique Alvarado (baixo), Enrique "Zurdo" Roizner e Carlos Carli (bateria), Narciso Omar Espinoza e Ricardo Lew (guitarras), além de Bruno Pizzamiglio (oboé), Daniel Binelli (bandoneón), Hugo Pierre (clarinete e saxofone) e Víctor Skorupski (flauta e saxofone). 

O grande momento desse reencontro é a faixa que abre o CD, a suíte "Tristes Llanos", com épicos quinze minutos instrumentais nos quais piano, guitarra, flauta e saxofone são os senhores de uma musicalidade quase esquecida nos anos 90. 

Contra-capa de Reencuentro

Depois, temos quinze canções que variam bastante os estilos, algumas reaproveitadas de obras já compostas por Castiñeira, com Susana prestando sua voz para "Alla Viené Un Corazón" , "Ya Me Voy", e a excepcional "Hasta Volver", que são as canções mais folclóricas do álbum. Como sempre, os momentos instrumentais são os que mais chamam a atenção, destacando "Gotas", "Violento", "Bajo Otro Sol", "Noche de Cueca", Prisión" e "Glaciares", todas com complexos e belos arranjos. 

Há ainda canções que perambulam entre agradar ou não, que são as baladas vocais "Procesión" e "Estilo", e as instrumentais "De Aca Y de Alla", com flautas andinas fazendo o solo principal, mas com um magnífico bandoneón na sua segunda parte, e "Subiendo Cuestas", tendo como destaque o charango, mas um ritmo muito sonolento. 

Encarte de Reencuentro

Os deslizes ficam para "Canto a la Tierra" e "Elegía", totalmente descartáveis. Um disco ameno, que podia ser mais curto (principalmente nas canções com vocal), mas cuja importância é muito relevante, já que algumas pérolas são encontradas apenas aqui.

Seguiu-se um longo hiato novamente, e somente em 2005 os fãs puderam se surpreender com mais um lançamento do conjunto, Encordado.

O último álbum do grupo até o presente momento
Com Susana, Castiñeira, Alejandro Santos (flauta, saxofone, quena, sikus), Hugo Pierre (saxofone, flauta, clarinete), Ricardo Lew (guitarra, violão), Enrique "Zurdo" Roizner (bateria) e Allan Ballan (baixo, violoncelo), e apresentando também um quarteto de cordas, bem como diversos convidados, o Anacrusa surpreendeu os fãs com Encordado, no qual o o grupo homenageia o Brasil com "Nordestino", uma canção que, como o nome diz, remete ao nordeste brasileiro através da flauta, cordas e percussão.

No álbum, há uma recriação mais lenta para "El Sacrificio", e também, "Mamboreta", nada mais que uma versão moderna para "Galopa del Mamboreta", do primeiro álbum. As canções populares soam cansativas, e aqui encaixam-se "Rema Rema", "Rio Rio", "La Partida" e "Atardecer".  Por outro lado, o instrumental continua impecável, como atestam "Prision", "Galeron" e "Cautiva". "Candombe de Alain", "Cruz de Sal" e "Zamba de Invierno" são o trio de ouro de um álbum mediano, mas bem melhor que seu antecessor.

O único registro ao vivo do grupo

Uma pequena série de apresentações acabou fazendo com que mais um registro ocorresse, dessa vez do álbum En Vivo, registrado em novembro de 2005, no Teatro Presidente Alvear, em Buenos Aires,  e lançado no mesmo ano. 

Desde então, Castiñeira segue sua carreira como compositor, e aguarmos por uma reunião que parece, por enquanto, existir apenas nos sonhos dos fãs de uma das melhores bandas da América do Sul.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Maravilhas do Mundo Prog: Anacrusa - Homenaje a Waldo [1978]



O rock progressivo na Argentina sempre teve forte respeito. Não somente os grupos clássicos fizeram sucesso por lá. O país acabou propiciando dezenas de artistas que, de alguma forma, acabaram chamando a atenção de uma boa parcela de cultuadores do estilo, e hoje em dia são verdadeiros tesouros procurados por colecionadores.

O mais marcante no prog argentino era a influência de elementos folclóricos, como o tango, a milonga e outros estilos, criando um gênero único, chamado pelos hermanos de prog-folk. Um dos principais nomes desse novo gênero foi o Anacrusa.

Formado em 1972, o grupo mesclava os elementos citados acima com uma sonoridade bem distinta de grupos como Nito Miestre Y Los Desconocidos ou Sui Generis. Capitaneado pelo maestro José Luis Castiñera de Dios, que dava as honras como violonista e baixista, o Anacrusa iniciou como um quinteto, tendo ainda Alex Eriich-Oliva (double bass, violões), Juli Pardo (flauta), Elias "Chiche" Heger (bateria, percussão) e Susana Lago (piano, órgão, charango e voz).

Primeiro LP do Anacrusa
No ano seguinte, gravaram seu primeiro disco. Anacrusa, mistura bastantes os elementos latinos e do folclore argentino, destacando bastante a flauta, como “Pobre Mi Tierra”, “Marula Sanchez” e “Lo Que Mas Quiero”, além de belas composições instrumentais, como “Rio Limay”, “Viento de Yaví”, “Zamba de Invierno” e “Piedra Y Madera”, essa última a única que pode ser considerada progressiva. A capa é uma pequena homenagem ao Pink Floyd, com o quinteto posando ao lado de todos os instrumentos utilizados na gravação do LP (imitando o que o grupo britânico fez em Ummagumma, de 1969).





Anacrusa II, segundo
LP do grupo argentino
Em 1974, com Rubén "Mono" Izaurralde no lugar de Pardo, entram no estúdio Phonalex, onde gravam o segundo álbum. Lançado no mesmo ano, Anacrusa II mantém os temas folcóricos de seu antecessor, destacando as belas instrumentais “Polo Coloriano” e “Zamba de la Despedida” e a (também instrumental) arrepiante “Saqué Mi Corazón de la Tierra Quemada”, outra que poderia facilmente frequentar as casas dos assíduos de um rock progressivo mais experimental, com um espetáculo à parte da flauta e do violão, em um tema emotivo e muito tocante, e da grandiosa “Calfucurá”, uma fantástica canção repleta de temas marcados, com um belíssimo trabalho ao piano e flauta, e que mostra uma leve guinada do Anacrusa para tornar-se um grupo de rock progressivo.

Porém, a ditadura argentina comia solta em 1975, e o grupo resolveu retirar-se do país, buscando exílio na França após o lançamento de Anacrusa III. Lá, o quinteto ampliou seus conhecimentos musicais. Amigos argentinos e da América Latina em geral, também exilados na França, passaram a frequentar as residências de Susana e Castañera. O Anacrusa voltou forte, trazendo, além dos dois citados, o flautista Júlio Pardo, Bruno Pizzamiglio (oboé), Daniel Sbarra (violões), Jorge Trasante (bateria e percussão), Juan Mosalini (bandoneon) e Phillipe Pages (piano, órgão).


Rara fotografia dos argentinos

É esse octeto que, em 1978, gravou o primeiro disco exilado do Anacrusa, o belíssimo El Sacrifício. Trata-se de um álbum bem diferente do que estamos acostumados a ouvir das terras portenhas. O predomínio de instrumentos de sopro e cordas é gritante, fazendo um som muito inovador, misturando elementos orientais com toques pampeanos (como a milonga e o chamamé) além dos timbres que marcaram o progressivo britânico. A canção de abertura, a fantástica instrumental “El Pozo de los Vientos”, é um bom exemplo da sonoridade que permanece no LP, com passagens repetitivas, sobrepondo-se e renovando-se através dos instrumentos citados. Essa psicodelia segue em “El Sacrificio”, na qual a guitarra de lembra Syd Barret, e a interpretação vocal é arrepiante. Mais uma vez, os instrumentos de sopro, como a flauta andina, e as belas passagens de violino, são uma saborosa novidade ao que estamos acostumados a ouvir no rock.



“Sol de Fuego” e “Quien Bien Quiere” mantêm o pensamento inovativo do Anacrusa, sendo a primeira uma instrumental que faz uso de bumbo leguero (instrumento típico do pampa), piano e violino para criar um dançante jazz rock instrumental, enquanto a segunda parece ter saído de algum país do Oriente Médio, principalmente por seu ritmo cavalgante e pelas hipnotizantes participações vocais e do violino, além das cambiadas agitadas, onde a guitarra se sobressai. 

Entretanto, nada supera a canção que encerra o lado A de El Sacrifício, batizada de “Homenaje a Waldo”. Em pouco mais de cinco minutos, ela coloca todas as novidades no chão, através de um triste e sofrido (como só os argentinos conseguem fazer) tango, mas não um tango qualquer, um tango feito totalmente com inspirações progressivas.

“Homenaje a Waldo” é uma maravilhosa peça instrumental que começa com o piano executando um triste dedilhado, enquanto entoa vagarosamente o tema central da canção, com notas emotivas e muito tocantes. Órgão e violino passam a acompanhar a melodia do piano, fazendo um leve crescendo, junto de um pequeno arranjo para violinos. Um oboé aparece, e pouco a pouco violino, percussão e flauta surgem, encerrando o que seria a primeira estrofe.

O vinil argentino original

O bandoleom passa a fazer o tema central, acompanhado pelo piano e pela flauta, e depois é a vez do oboé repetir este tema, ainda ao lado de flauta e piano. Flautas surgem como pássaros em meio a uma selva de violinos, soltando notas aleatórias, e a canção começa novamente a crescer. Mas é o bandoleom que toma conta novamente, ficando sozinho, solando tristemente sobre a escala do tema central.

Lentamente, a percussão surge e finalmente leva ao verdadeiro crescendo de “Homenaje a Waldo”, ao mesmo tempo em que o oboé sola, duelando com o bandoleom e com o órgão ao fundo. Com várias viradas de bateria, as extravagâncias do baixo e um fabuloso ataque às teclas do piano, a guitarra passa a solar, e assim, bandoleom, violino, órgão e flauta fazem o tema central juntos, arrancando lágrimas de qualquer ser vivo à sua volta, acompanhados pela marcação do baixo e da bateria, com um emocionante arranjo de cordas ao fundo, encerrando a canção com a sobreposição das notas do violino, órgão, piano e bateria, e uma última passagem do oboé, para concluir com um fúnebre acorde “E” feito por órgão e piano. 


El Sacrifício ainda continua com “Los Capiangos”, outra maravilhosa e experimental canção instrumental, cheia de mudanças de andamento, na qual a flauta e o oboé têm papel de destaque junto da percussão e do baixo, chapantes em sua primeira parte, com o violão, o clarinete e o moog sendo as atrações na segunda parte; e a longa suíte “Tema de Anacrusa”, talvez a principal música do que foi convencionado chamar de jazz-prog-pampeano, trazendo na linha de frente baixo e percussão, responsáveis pelos andamentos sinfônicos do violino e dos metais de um épico instrumental com mais de doze minutos de muitos temas marcados, variações e passagens complexas de flauta, órgão, oboé, violino e instrumentos andinos, além dos jazzísticos solos de piano e oboé e das arrepiantes vocalizações. As duas faixas são um complemento mais que satisfatório para que gostemos ainda mais do que já havíamos ouvido no lado A, e principalmente, na maravilhosa “Homenaje a Waldo”.


O ótimo Fuerza

Quatro anos depois, o grupo lançou o segundo disco no exílio. Fuerza é um álbum mais “elétrico”, como comprovam “Vidala de la Tierra”, a fantástica “Calfucura” (merecedora do rótulo "maravilha prog"), “Presion” , “Voz de Agua” (outra maravilha) e “Chaya”, na qual o Anacrusa verdadeiramente soa como um grupo de rock progressivo, mas ainda traz momentos folclóricos, com destaque para a faixa-título, “En Paz”, e com “Montserrat” sendo a mescla de estilos, privilegiando o lado elétrico, apesar das passagens puramente latinas. Fuerza é o melhor disco do Anacrusa, mas não contém algo se quer perto da força de "Homenaje a Waldo".



O Anacrusa deixou de existir depois disso, e passou a viver de voltas não tão marcantes. Em 1995, lançaram Reencuentro, e somente em 2005, o grupo voltou oficialmente à tona, tendo na formação Castañera, Susana, Víctor Skorupsky (clarinete), Jorge Padín (percussão), Sebastián Prusak (violino), Juan Scaffino (violino), Pablo Fusco (viola) e Roberto Segret (violoncelo), fazendo shows com preços populares (2 pesos em média, cerca de 1 real) e lançando o álbum Encordados, além da coletânea de raridades Documentos, todos lançados naquele ano, mas nada comparáveis à genialidade alcançada em El Sacrifício, que, seguindo as palavras de um vendedor de discos na Rua Corrientes, é o melhor disco do mundo, e um dos melhores da Argentina.

O maestro Castañera

Brincadeiras portenhas à parte, o álbum do Anacrusa é uma obra-prima a ser buscada pelos apreciadores do rock progressivo, principalmente para aqueles que desejam ser surpreendidos por novidades, sendo “Homenaje a Waldo” o ápice da criatividade de uma das principais bandas que a Argentina já ouviu.

Como detalhe final, em 1976 foi lançado o disco Anacrusa III, quando o grupo já estava exilado na França. Infelizmente, não encontrei mais informações a respeito e desconheço seu conteúdo musical. Fica o pedido para que o leitor que conhece esse álbum, e também o Anacrusa, exponha seu conhecimento através dos comentários.
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