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sábado, 6 de junho de 2026

Maravilhas do Mundo Prog: Rush - Jacob's Ladder [1980]


O Ano de 1980 começou diferente para o Rush. Meses antes, em apenas quatro semanas (entre setembro e outubro de 1979) o grupo havia encerrado as gravações de seu sétimo álbum, Permanent Waves, nos estúdios Le Studio, entre as montanhas de Morin Heights em Quebec, no Canadá. O lugar idílico e contemplativo, com paredes de vidro onde se viam apenas neve, nuvens, montanhas, árvores e um lago, inspirou o trio Alex Lifeson (guitarras, guitarra de doze cordas, violões, violão de 12 cordas, violão clássico, bass pedal sinthesizer), Geddy Lee (baixo, violão de doze cordas, mini-moog, bass pedal synthesizer, vocais) e Neil Peart (bateria, sinos, tímpano, tubular bells, Wind Chimes, triângulo, Bell Tree, Vibraslap) a buscar novas sonoridades para a nova década que estava entrando em suas casas. Dentro destas sonoridades, o grupo The Police foi uma grande força motora para o Rush ampliar seus sons progressivos, e começarem a criar canções mais acessíveis, não tão grandiosas quanto suas Maravilhas "2112" e "Cygnus X-1 Book Two: Hemispheres", mas capazes ainda de trazerem novidades para os fãs.

O Rush no Le Studio, em outubro de 1979

O processo de composição começou em meados de julho de 1979, seis semanas após a última apresentação do trio durante a turnê de Hemispheres, a qual ocorreu em 4 de junho, no Pink Pop Festival de Galeen, na Holanda. Depois de merecidas férias, Lee, Lifeson e Peart não sabiam bem o que queriam, mas sabiam bem O QUE NÃO QUERIAM. Como explicou Lee para o jornalista Jon Sutherland, em uma entrevista para a revista Record Review em 1980: "Chega um ponto em que você se pega caindo num certo padrão, e aí é hora de sacudir a cabeça, se soltar e fazer algo diferente. No que diz respeito a álbuns conceituais, a gente já fez isso. Levamos isso até o limite lógico, e agora é hora de fazer outra coisa."

Era uma clara ideia de sair das longas e conceituais faixas de seus discos anteriores, e com essa mentalidade, a banda migrou para a fazenda Lakewood em julho de 79, há duas horas da cidade Natal dos rapazes, Toronto, onde começaram a criar e compor novas canções, mergulhando em improvisações que logo na primeira noite viraram a primeira composição, batizada "Uncle Tounouse". Partes dela iriam ser usadas para criar outras canções logo adiante. Após duas semanas trancafiados, com Peart tendo seu próprio espaço para pensar as letras, e Lee e Lifeson desenvolverem seus lados musicais, quatro faixas estavam prontas: "The Spirit of Radio", "Freewill", "Entre Nous" e nossa Maravilha de hoje, "Jacob's Ladder".

Alex Lifeson, Neil Peart e Geddy Lee.
O Rush em pleno trabalho de criação, outubro de 1979

De lá, partem para o Sound Kitchen, um estúdio em Toronto, para registrarem as demos dessas quatro faixas, e logo em seguida, em setembro de 79, já estavam novamente com o pé na estrada para apresentar duas delas ao seu público, no caso "The Spirit of Radio" e "Freewill". "Entre Nous" e "Jacob's Ladder" continuaram a ser aperfeiçoadas durante as passagens de som, e então, como dito no início do texto, ainda em setembro isolam-se em Morin Heights para encerrar as gravações. Apenas a menção de Le Studio para os fãs do Rush já traz uma visão romântica sobre aquele período, no que o jornalista Ray Wawrzyniak considera como "o casamento perfeito". 

Vamos às palavras de Peart sobre o local: "Le Studio é um local maravilhoso, aninhado no vale das montanhas Laurentian, cerca de 60 milhas (100 kms) ao norte de Montreal. Está situado em 250 acres de terreno acidentado e arborizado, ao redor de um lago particular. Em uma extremidade do lago fica o estúdio, e na outra, a cerca de uma milha (pouco mais de 1,5 km), está a casa de hóspedes luxuosa e confortável. Nós nos deslocávamos de bicicleta, barco a remo, a pé, ou, por preguiça ou mau tempo, de carro. Chegamos no auge da glória plena do outono, e ficamos lá durante um autêntico Verão de São Martinho (Indian Summer em inglês), e saudamos a chegada da neve e do inverno, tudo isso nas nossas quatro semanas de estadia.". 

Neil Peart

Peart continua, agora comentando sobre o estúdio em si: "O local de gravação é, obviamente, nada menos que excelente em todos os sentidos. A própria sala tem uma parede inteira de vidro, com vista para um cenário espetacular do lago e das montanhas. Isso está em contraste direto com a maioria dos estúdios, que são mais como cofres isolados e atemporais, o que, nesse aspecto, claro, não é necessariamente ruim. Nós trabalhamos sob a luz do sol, e dava pra observar a mudança das estações nos momentos de descanso, em vez de ter uma visão pouco iluminada e esfumaçada de equipamentos musicais e eletrônicos". 

Com esse ambiente em sua volta, a amizade entre os três membros da banda tornou-se ainda mais forte, ensaiando e gravando durante o dia, e jogando vôlei durante a noite, tornando-se um lugar definido por Lee como "especial em nossos corações". Definitivamente, não havia local melhor para Permanent Waves ser concebido. 

Encarte de Permanent Waves, com a dedicatória em “The Spirit of Radio”

Lançado em 14 de janeiro de 1980, o álbum abre com "The Spirit of Radio", justamente trazendo a ideia da importância do rádio para a música, sendo esta uma das canções mais comerciais - e não à toa, de maior sucesso - da história do trio canadense misturando elementos do rock principalmente com o reggae. Como lembra Lifeson: "estávamos sempre tocando reggae no estúdio, e costumávamos fazer a introdução de 'Working Man' nesse estilo durante os shows, e foi então que isto logo tornou-se 'The Spirit of Radio'. Pensamos que fazer um reggae iria nos fazer sorrir e ter um pouco de diversão". O Rush passou a tocar nas rádios frequentemente pós-"The Spirit of Radio", que talvez só seja batida em termos de popularidade por "Tom Sawyer". 

Vale lembrar que no encarte do álbum, há uma inscrição que diz: "inspirado pelo 'espírito do rádio' de Toronto, vivo e bem (até agora)", em uma homenagem à David Marsden, o cara responsável por lançar o Rush nas rádios, anos antes, quando era funcionário da CHUM-FM, de Toronto, tocando canções do primeiro disco do grupo. O nome da canção é uma homenagem ao slogan criado por David para a rádio e o programa que ele estava em 1979, a CFNY-FM, de Toronto.

Parte frontal do encarte

O álbum segue com "Freewill", outra faixa que traz esse sentido de novos ares para o Rush, principalmente na letra, e então, fechando o lado A, nossa maravilha. Na Bíblia, a Escada de Jacó é uma escada que leva ao Céu, sendo retratada em um sonho que o Patriarca Jacó teve durante a fuga de seu irmão Esaú, no Livro do Gênesis (capítulo 28:10-19). Trago aqui o trecho da citação bíblica:

"E Jacó saiu de Beer-Sabá e foi em direção a Harã... ele pegou uma das pedras do lugar, colocou-a sob a cabeça e deitou-se ali para dormir. E ele sonhou, e eis uma escada erguida na terra, e o topo dela alcançava o céu; e contemplem os anjos de Deus ascendendo e descendo sobre ela ... A terra onde jazes, a ti a darei e à tua descendência. E a tua semente será como o pó da terra, e espalharás para o oeste, para o oriente, para o norte e para o sul. E em ti e em tua descendência todas as famílias da terra serão abençoadas..."

O significado do sonho tem sido debatido e causado diversas interpretações, mas a maioria delas concorda que Jacó é colocado diante de suas obrigações e da herança do povo escolhido por Deus. Os anjos subindo e descendo da escada podem significar a própria vinda e ascensão dos homens à Terra. De qualquer forma, a inspiração do sonho, e da construção da escada, influenciou os meteorologistas a batizar o fenômeno meteorológico onde a luz do Sol rompe nuvens durante uma tempestade, ou até em dias fechados, exatamente de Escada de Jacó. 

Geddy Lee

E este fenômeno esteve no Le Studio, e com a visão das luzes do Sol nas paredes de vidro do estúdio, Peart teve a inspiração para criar esta obra-prima. Conforme seu relato: "A maioria das ideias que lidamos dessa vez eram menores e, em alguns casos, como em 'Jacob's Ladder', vistas como uma ideia cinematográfica." Ele segue: "Criamos toda a música primeiro para evocar uma imagem – o efeito da Escada de Jacó – e pintar o quadro, com as letras adicionadas só como um pequeno detalhe, depois, para torná-la mais descritiva." Era o início do Rush começando a criar pequenas peças cinemáticas, que seriam muito bem exploradas em Moving Pictures

Fechando a concepção de nossa Maravilha, Neil nos conta que "na letra, eu retiro muitas referências da Bíblia, pois ela é uma fonte muito colorida de imagens. Eu não cresci em um meio religioso, mas cercado por religião, indo à escola dominical e tendo lições de educação religiosa na escola. Então, todas estas coisas sugerem elas mesmas como metáforas. 'Escada de Jacó' é uma frase adorável, aquelas duas palavras por si só. E de fato nós iniciamos com isto. Antes de qualquer letra ser escrita, falamos sobre a imagem de uma 'Escada de Jacó', de um céu nublado se aproximando, e de repente, todos estes feixes de luz que todo mundo viu. Isto foi muito inspirador para mim, mas nós tivemos a mesma experiência em comum. Então, nós criamos a música a partir daquela visão, ou imagem, e escrevemos o som inteiro. Depois, escrevi alguns versos para fazer a imagem mais acurada, e também para trazer os vocais como mais um instrumento sonoro".

Alex Lifeson

Um fenômeno lindo só poderia gerar uma música linda. O baixo surge marcando o tempo junto de um longo acorde de sintetizador, trazendo o dedilhado da guitarra e as batidas marciais de Peart, em uma introdução enigmática, até que a guitarra passa a fazer os mesmos acordes do baixo. A voz de Lee surge sobre camadas de sintetizadores, trazendo a letra:

"The clouds prepare for battle

In the dark and brooding silence

Bruised and sullen stormclouds

Have the light of day obscured

Looming low and ominous

In twilight premature

Thunderheads are rumbling

In a distant overture"

"As nuvens se preparam para a batalha

No silêncio escuro e sombrio

Nuvens de tempestade roxas e carrancudas

Ocultaram a luz do dia  

Aproximando-se baixas e ameaçadoras

Num crepúsculo prematuro

As nuvens de trovoada ribombam

Numa abertura distante"

A medida que Lee vai cantando, a canção vai tornando-se cada vez mais tensa, até explodir com as batidas de Peart. Lifeson e Lee soltam notas longas que fazem a base para o lindo solo de Lifeson, carregado de eco e muitos, mas muitos bends e notas agudas. Um dos solos mais lindos de sua carreira, sem exagerar nas notas rápidas, apenas sentimento puro, solando simples enquanto baixo, teclados e bateria conduzem-no para romper o céu. Eis que então "Jacob's Ladder" ganha mais tensão, com baixo, guitarra e bateria fazendo o ritmo  igualmente, como nuvens chocando-se para criar trovões, utilizando-se de variações sobre seis acordes menores, enquanto o sintetizador apenas faz a camada que interliga tudo para o grande clímax da canção. 

De forma etérea, entre os sons de sintetizadores que surgem nas caixas de som, novamente enigmáticos, trazendo ao ouvinte a sensação das nuvens no espaço, soltas, e um céu fechado a ser colorido conforme se queira pelas luzes do Sol. A voz robótica de Lee surge, na mesma melodia do sintetizador Oberheim:

"All at once,

The clouds are parted

Light streams down

In bright unbroken beams"

"De repente,

As nuvens se abrem

A luz jorra lá de cima

Em raios brilhantes e contínuos"

Uma escada de Jacó, flagrada no Japão

Então, a 'Escada de Jacó' começa a ser pintada pelo Rush em seu céu imaginário, após as batidas dos sinos tubulares, começando com a guitarra de Lifeson fazendo seu dedilhado, e com pequenas batidas que lembram pinceladas suaves, cada raiar de luz jorrar das nuvens, as quais vão se tornando mais agressivas na medida que Peart impõem ritmo "à pintura", como mais raios de luz rasgando o céu. Lee também faz marcações com seu baixo, enquanto o sintetizador passeia seu pincel junto com a guitarra e a bateria para criar a mais perfeita ilustração deste céu iluminando-se. Tudo encerra-se com guitarra e baixo solando juntos, enquanto Peart dá um show à parte, concluindo uma obra prima, seja no céu imaginário, seja na audição real, com batidas fortes de guitarra, baixo e bateria, trazendo então a voz de Lee:

"Follow men’s eyes

As they look to the skies

The shifting shafts of shining

Weave the fabric of their dreams…"

"Siga o olhar dos homens

Enquanto fitam os céus

Os raios mutáveis e brilhantes

Tecem o tecido de seus sonhos"

Um pouco mais do Rush no Le Studio

Assim, de forma avassaladora, a letra é concluída, mostrando como os homens estão fascinados com o que veem no céu, ao mesmo tempo que estamos todos fascinados com o que ouvimos nas caixas de som, deixando apenas o ritmo marcial do baixo e os longos acordes de teclados ressoando pela sala para podermos refletir sobre a tempestade musical que passou. Fantástico. 

O lado B segue com mais uma faixa bem comercial, "Entre Nous", seguida por "Different Strings", com seu complexo andamento que exigiu de Peart o uso de um metrônomo para concluí-la, e outra Maravilha Prog, "Natural Science". Mas esta é papo para outra postagem. 

Contra-capa de Permanent Waves

Permanent Waves atingiu a quarta posição nas paradas dos Estados Unidos, onde recebeu ouro (500 mil cópias vendidas) apenas três meses após seu lançamento - e posteriormente, em 1987, tornou-se platina, com um milhão de cópias vendidas - e número três no Reino Unido e Canadá. O single de "The Spirit of Radio" foi o primeiro dos canadenses a superar o Top 30 nas paradas estadunidenses. 

O grupo partiu para mais uma longa turnê, retornando ao Le Studio para gravar aquele que é considerado sua obra-prima, Moving Pictures. Porém, encerro por aqui - por enquanto - as Maravilhas Progs do Rush, lembrando que em janeiro, o Rush novamente estará entre nous - e eu estarei lá novamente para vê-los.

domingo, 7 de setembro de 2025

Maravilhas Do Mundo Prog: O Terço - Suíte (1982)


Trago aqui, em homenagem ao sete de setembro, uma Maravilha Prog de uma das maiores bandas brasileiras de todos os tempos, O Terço. Retomando a história, o grupo Terço em 1976 lança Casa Encantada, após um período em um sítio no interior de São Paulo, na "casa encantada" que deu nome ao álbum. Porém, a formação deste disco não avança, já que o vocalista e tecladista Flávio Venturini decide ir gravar junto de Beto Guedes, enquanto Cesar de Mercês retorna definitivamente para o Terço (Cesar havia participado dos dois primeiros discos da banda), e junto com ele apresenta o novo tecladista, Sérgio Kaffa.

O compacto "Amigos"/"Barco de Pedra"

A estreia da nova formação, agora como quinteto (além de Cesar e Kaffa temos Sergio Hinds na guitarra e vocais, Sergio Magrão no baixo e vocais, e Luiz Moreno na bateria e vocais) ocorre no compacto “Amigos”/”Barco de Pedra” e também do álbum Mudança de Tempo, lançado em 1978. Contendo músicas instrumentais e belos arranjos, esse disco completa uma trilogia essencial em qualquer armário de colecionador, destacando o clássico "Gente do Interior", com um lindo arranjo orquestral de Rogério Duprat, "Terças e Quintas", que lembra bastante as canções progressivas de bandas como Gentle Giant e PFM, principalmente pelo trabalho de piano feito por Kaffa, com bastante marcações e viradas, a fantástica faixa-título, com dois temas e momentos muito distintos, o primeiro carregado pelo baixo pesadíssimo de Magrão e violões, e o segundo mais ameno, privilegiando solos de violão, piano elétrico e guitarra, a jazzística "Descolada" e a complexa "Hoje É Domingo", que encerra com chave de ouro esse grande disco.

Anúncio do lançamento de Mudança de Tempo, na revista Pop

É neste álbum que surge o logotipo que caracteriza a a banda nos anos oitenta e noventa, e que foi criado por Guernot. A capa do álbum também teve duas versões, assim como Criaturas da Noite; uma com o logotipo sobre um fundo azul, e outra com o grupo olhando por uma janela, sendo que a primeira é muito rara. Na divulgação de Mudança de Tempo, O Terço fez os seus primeiros shows internacionais, no chamado Concerto Latinoamericano de Rock. Foram três no Brasil (São Paulo, Campinas e Belo Horizonte) e dois na Argentina (em Buenos Aires, no Luna Park, e em Rosário), sempre acompanhados pela banda Crucis, que vem a ganhar uma homenagem no futuro álbum do O Terço, chamado Time Travellers (1993), com a faixa “Crucis”.

Problemas com a gravadora e também a sensível mudança na sonoridade acabaram abalando as estruturas da banda, bem como um grave acidente com Hinds, que o impossibilitou de continuar a tocar por um bom tempo, sendo substituído para completar a turnê de divulgação do álbum por Ivo de Carvalho. Ao fim da turnê, ainda em 1978, O Terço anunciava seu término. Luiz Moreno montou a banda Original Orquestra e participou do álbum de Elis Regina Ao Vivo, de 1979. Sérgio Magrão fundou, ao lado de Flávio Venturini, Cláudio Venturini, Vermelho e Hely Rodrigues, o super grupo 14 Bis, que estourou no Brasil com sucessos como "Caçador de Mim", "Todo Azul do Mar", e as versões fantásticas para "Canção da América" e "Nos Bailes da Vida", de Milton Nascimento, enquanto Hinds seguiu em carreira solo.

As duas capas de Mudança de Tempo

Mas em 1982, com Hinds, Ruriá Duprat (teclados), Zé Português (baixo) e Franklin Paolillo (bateria), O Terço volta às suas atividades, e em 1983 lança Som Mais Puro. O disco foge dos padrões progressivo que fizeram d'O Terço uma das maiores bandas do estilo no país durante os anos 70, mas resgate com propriedade “Suíte”, Maravilhosa faixa instrumental dos tempos de Venturini. Ela começa com o riff de guitarra de Hinds e o piano elétrico de Duprat, trazendo então as batidas de bateria, a marcação do baixo e os sintetizadores repetindo o riff de Hinds. Então, a guitarra despeja seu solo sobre um andamento percussivo e quebrado. Uma breve pausa leva ao piano elétrico, seguido pelo bonito solo de guitarra de Hinds, no qual ele usa o botão de volume para criar belos efeitos, até que guitarra e piano repetem o mesmo tema por alguns momentos, levando a um magistral solo de Hinds. Ao fundo, o baixão estoura as caixas de som, com um andamento peculiarmente encantador da bateria e dos sintetizadores. Lindo trecho!

Guitarra, bateria e baixo fazem marcações pesadas, que nos remetem a "1974", enquanto o piano martela forte ao fundo, passando por um solo mais virtuoso de Hinds, que vai crescendo com a entrada do órgão e do andamento de Paolillo. Então, mais uma breve pausa modifica a canção novamente. Enquanto Hinds sola explorando novamente o pedal de volume e longas notas, bateria, piano e baixo dão um show de marcações e passagens marcadas igualmente, que encaminham nossa Maravilha para sua segunda metade. Agora o andamento é festivo, comandando pelo piano e pelo baixo. A guitarra faz leves notas, e embala a canção para uma sequência de batidas que trazem o solo de sintetizadores (imitando um trompete) feito por Duprat, sobre um ritmo percussivo, São várias mudanças no tempo da canção, extremamente complexa, para chegarmos a reta final dessa joia com longos acordes do órgão elétrico, acompanhado apenas pelo piano. As tradicionais vocalizações que marcam tanto a carreira do grupo se fazendo presentes, e então, temos o último solo de Hinds, com um espetáculo de Paolillo na bateria, fechando os 10 minutos e 20 segundos de "Suíte" com o riff da guitarra sendo cantarolado em sua memória. Sensacional!

Ruriá Duprat e Sergio Hinds (acima).
Zé Português e Franklin Paolillo (abaixo). O Terço em 1982

As demais faixas soam bem oitentista, focando na MPB de"Asa Delta", e trazendo a colaboração de Cantuária em "Coração Cantador", "Linda Imagem" e "Nunca Duvidar", bem como o emocionante reencontro, depois de 10 anos, entre Cantuária, Hinds e Jorge Amidem (a primeira formação do grupo, ainda como O Têrço) em "Tambores da Mente", mesmo que seja somente como compositores, nesta que é outra boa faixa de Som Mais Puro.  Destaque também para "Viajante Relógio", com um belo trabalho de teclados e sintetizadores por Duprat, e a viajante "Luzes", magnífica faixa instrumental de mais de sete minutos de duração que também pode ser considerada uma Maravilha Prog, com um espetáculo a parte de Hinds usando o botão de volume na guitarra sobre camadas de teclados e intervenções de baixo e percussão durante a primeira metade da canção, e um fervilhante show santaniano na segunda metade, na qual a cozinha Paolillo/Português comanda o ritmo para Hinds e Duprat brilharem em seus solos, e tendo incluso breves solos também de Paolillo e Português. Baita faixa!

Depois de Som Mais Puro, o grupo seguiu com diversas mudanças de formação, chegando a fazer os shows de abertura do Asia e do Marillion quando os mesmos passaram por aqui ao mesmo tempo em que lançaram O Terço (1990), o já citado Time Travellers (1993), Compositores (1996), Spiral Words (1998) e Tributo a Raul Seixas (1999), além do ao vivo Live at Palace (1994). Em 2001, A formação clássica – Sérgio, Venturini, Mercês, Magrão e Moreno – se reuniu para participar de um show de Venturini. Foi o pontapé inicial para uma reunião, que começou a tomar forma rapidamente. Porém, devido a uma parada cardíaca, Moreno veio a falecer em 2003, adiando o retorno por mais algum tempo.

Sérgio Hinds, Sérgio Mello, Sérgio Magrão e Flávio Venturini, em 2012

Em 2005 O Terço voltou a ativa com Hinds, Venturini, Magrão e Sérgio Mello substituindo Moreno, feito registrado no CD/DVD Ao Vivo, onde o grupo tocou, entre outras, “1974″, “Tributo ao Sorriso” e “Criaturas da Noite”, e também teve a participação especial do talentoso Marcus Vianna (Saecula Saeculorum, Sagrado Coração da Terra). Venturini retornou para sua carreira solo, até que em 2015, surpreendem com o lançamento, via crowfunding, do CD 45 Anos de Estrada - Ao Vivo, e do DVD O Terço 3D, no qual a banda - agora com Hinds, Mello, Magrão e Fred Barley na bateria - inova mais uma vez, com uma apresentação trazendo efeitos tridimensionais para quem assiste em casa, e tendo, entre suas quinze canções, nada mais nada menos que "1974" e "Suíte", esta finalmente gravada por Venturini, e numa versão mais completa que a de Som Mais Puro, atingindo os 16 minutos de duração). O DVD é marcante também pelas participações especiais de Cesar de Mercês e de Vinicíus Cantuária, e foi lançado como forma de comemorar os então 45 anos da banda.

Em 2021, foi lançado o livro 50 Anos, escrito em parceria entre Nélio Rodrigues e Hinds, trazendo muitas histórias sobre a banda e também - inovando mais uma vez - cinco imagens em realidade aumentada. Da formação que gravou os principais discos da banda nos anos 70, Hinds segue em carreira solo, fazendo shows regularmente. Venturini lançou em 2020 Paisagens Sonoras Vol. 1, e desde então, deu uma sumida dos holofotes, assim como Magrão. O presente da banda é de lembrança apenas na memória dos fãs, e a esperança de que um dia, possam voltar aos palcos para mais uma vez arrebatar o coração dos fãs com lindas Maravilhas Progs e tantos sucessos que o grupo gravou.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Maravilhas do Mundo Prog: Premiata Forneria Marconi - L'isola de Niente [1974]



Depois de três anos de apresentações semanais, e depois quinzenais, de mais de uma centena de Maravilhas Prog, esta sessão não poderia deixar de existir sem prestar uma devida homenagem para um dos principais grupos de rock progressivo da Itália, Premiata Forneria Marconi. Afinal, se hoje idolatramos nomes como Le Orme e Banco del Mutuo Soccorso, muito se deve a ampla divulgação que os italianos conseguiram realizar mundo a fora.

Com uma carreira invejável, iniciada no ano de 1971 e contando com mais de três dezenas de álbuns lançados, o grupo teve diversas formações, que colocaram o rock progressivo do mediterrâneo em voga no mudo inteiro.

Quelli, o grupo que originou o PGM (Mussida a esquerda, Di Cioccio no centro e Pagani a direita)

O Premiata Forneria Marconi, doravante PFM, começou em Milão como uma evolução do grupo Quelli, que fez relativo sucesso nos anos 60, com diversos compactos e um único álbum, lançado em 1969.

A primeira formação do PFM era um quinteto formado por Franco Mussida (guitarra, violões, voz), Mauro Pagani (flauta, violino, voz), Giorgio Piazza (baixo), Flavio Premoli (órgã0, piano, acordeão, mellotron, moog, voz) e Franz Di Cioccio (bateria, percussão, voz). Essa formação iniciou em estúdio com Storia di Un Minuto (1972), uma das melhores estreias do rock progressivo realizado fora da Grã-Bretanha, destacando a hoje clássica "È Festa".

Durante sua fase inicial, o grupo teve como auge seus shows, abrindo para Yes, Procol Harum e Deep Purple quando os gigantes britânicos mostraram forças pela Itália.

PFM em 1971: Flavio Premoli, Giorgio Piazza, Franz Di Cioccio, Mauro Pagani e Franco Mussida

Essa mesma formação consolidou-se no final de 1972 com Per Un Amico, considerado por muitos fãs como a principal obra dos italianos, apresentando Pérolas Maravilhosas encrustadas sob os nomes de "Appena Un Po'" e "Il Banchetto". A turnê de Per Un Amico foi feita abrindo para Emerson, Lake & Palmer, ainda na Itália, sendo que Greg Lake ficou tão fascinado com o som do PFM que arranjou um contrato com a gravadora do grupo, a Manticore Records.

Mauro Pagani
Os dois primeiros álbuns foram originalmente lançados apenas na Itália, mas com o contrato da Manticore, o PFM começou a gravar suas canções em inglês, graças a uma grande amizade com Peter Sinfield - letrista e um dos principais nomes no nascimento do King Crimson - lançando em 1973, Photos Of Ghosts, álbum histórico que colocou pela primeira vez um grupo italiano entre os 200 mais vendidos na Billboard americana, atingindo a centésima octagésima posição. Nos seus sulcos, versões em inglês para canções presentes nos dois primeiros álbuns citados acima, além da inédita "Old Rain".

Franz Di Cioccio
Com uma pequena mudança na formação, apresentando Jan Patrick Djivas no lugar de Piazza, em 1974 chegou ao mercado italiano aquele que eu considero o grande disco do quinteto, L'isola de Niente.

Logo na abertura do LP, a faixa-título já mostra o que esse álbum tem de diferente perante seus antecessores. A mini-suíte "L'isola di niente", com seus quase onze minutos de duração, surge assustadoramente com um imponente coral de vozes femininas e masculinas, em vocalizações tensas que combinam-se de forma harmônica, passando uma sensação de apreensão ao ouvinte, seja pela delicadeza das vozes femininas ou pela brusca variação com os graves masculinos.


Formação de L'isola de Niente: Patrick Djivas, Mauro Pagani, Franco Mussida, Franz Di Cioccio e Flavio Premoli

Repentinamente, as vocalizações encerram-se trazendo peso da guitarra de Mussida em um riff incomum dentro do rock progressivo. Marcações nos pratos e no baixo surgem vagarosamente, trazendo os vocais de Premoli, cantando duas estrofes. Uma série de marcações faz a ponte para Premoli cantar mais duas estrofes, com destaque para as escalas de Mussida, levando então para uma complicada sessão de marcações entre órgão, guitarra, baixo e bateria.

Flavio Premoli
Após, estamos no centro da canção, com as vozes delicadas dos músicos cantando o refrão entre as bonitas notas dos sintetizadores, chegando no belo trecho instrumental, com o baixo solando acompanhado pelo dedilhado do violão, e o mellotron arrepiando inesperadamente entre as marcações. Cordas misturam-se as flautas, e o mellotron novamente abrilhanta a canção, até que barulhos de sintetizadores modificam a canção.

Franco Mussida
Uma marcação nos teclados aparece, reproduzida também pela guitarra e com uma tímica marcação no chimbal. Os teclados vão ganhando espaço com solos individuais sobrepostos, sendo que vários instrumentos são adicionados, para então, após uma pequena série de viradas na bateria, surgir o intrincado tema de marcação feita igualmente por guitarra, bateria e sintetizador, enquanto o baixo cavalga deliberadamente entre as marcações complicadas dos instrumentos citados.

As vocalizações do coral re-aparecem, trazendo o riff pesado do início da canção, com Premoli repetindo as estrofes inicias, seguida pela ponte de marcações entre guitarra, baixo e bateria, voltando para mais duas estrofes vocais nas quais destacam-se as escalas de Mussida.

Patrick Djivas
O coral está de novo presente, seguido pelo delicado dedilhado do violão, agora acompanhando uma estridente guitarra que lembra bastante Steve Hackett, e com um lindo tremolo sendo apresentado ao fundo. Por fim, "L'isola de Niente" conclui-se com o trêmolo sacudindo o cérebro, enquanto a guitarra de Mussida gruda nos neurônios com um timbre fatal e perfeito, de uma das melhores canções progressivas paridas na terra da pizza.

O lado A continua com "Is My Face on Straight", única canção do álbum cantada em inglês, repleta de variações e marcações interessantes, destacando Premoli ao piano e o breve solo de flauta de Pagani, além do encerramento surpreendente com o acordeão.

A formação de L'isola de Niente, ao vivo: Pagani, Djivas, DiCioccio, Mussida e Premoli

O lado B abre com clássica "La Luna Nuova", canção praticamente instrumental que é uma das grandes performances de Premoli, seja no moog, no acordeão ou nos sintetizadores, mesclada com uma singela participação de Pagani na flauta, passando pela suave "Dolcissima Maria", linda balada levada por violão e flauta, acompanhando uma sensacional variação entre guitarra acústica, moog e violino, bem como a sussurrante voz de Premoli, arrancando lágrimas durante sua segunda metade, com o tema de flauta e guitarra sendo repetido entre as variações de acordes do mellotron, e encerra-se com "Via Lumiere", outra canção que facilmente pode ser considerada uma Maravilha, devido

L'isola de Niente também recebeu sua versão em inglês, tornando-se The World Became the World, com nossa Maravilha recebendo o nome de "The Mountain". Chama a atenção a bonita capa deste álbum, com uma abertura na sua parte frontal na qual inicialmente, vimos uma ilha, mas ao retirar o encarte onde está o disco, e consequentemente a ilha, a abertura mostra um mundo bastante devastado.

A capa de The World Became the World. O detalhe da abertura (acima) e o mundo devastado (abaixo)

O álbum alavancou o nome do grupo nos Estados Unidos, onde excursionaram durante boa parte de 1974 e registram o álbum Live in USA (que também ganhou uma versão inglesa chamada Cook), lançado ainda em 1974.

No ano seguinte, o Premiata tornou-se um sexteto, com a entrada do vocalista Bernardo Lanzetti. Sua estreia foi com Chocolate Kings, para muitos o último grande disco da banda. Depois, Pagani acabou saindo, e o grupo voltou a ser um quinteto lançando uma sucessão de álbuns muito irregulares, com formações muito distintas, mas o grupo jamais deixou de existir, concentrado nos pilares Mussida, Djivas e DiCioccio. Nos dias de hoje, segue excursionando - inclusive tendo passado pelo Brasil no ínicio desse ano - mostrando as Maravilhas do tempero italiano geradas na década de 70.

Obrigado por terem apreciado essas 110 Maravilhas do Mundo Prog. Tenho certeza e consciência que muito material Maravilhoso ainda ficou por ser pautado por essas linhas, mas os compromissos profissionais infelizmente me impedem de seguir com a sessão atualmente.

Um forte abraço à todos, Feliz Natal, um excelente 2015 e deixo aqui minha satisfação por ter passado um pouco das infinitas Maravilhas que o Mundo Prog nos propicia.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Maravilhas do Mundo Prog: Uriah Heep - Salisbury [1971]



Formado em 1969, o Uriah Heep notabilizou-se no início da década de 70, mais precisamente em 1972, com os álbuns The Magician's Birthday e Demons and Wizards, os quais apresentaram uma sonoridade fortemente calcada no órgão Hammond e no peso das guitarras, e com letras falando sobre magia e misticismo que acabaram inclusive erroneamente fazendo com que alguns setores da imprensa classifica-se o grupo com uma certa ligação ao satanismo.

No final da década de 70, o grupo sofreu uma grande transformação musical, que afetou bastante o som do grupo, peregrinando pelo pop, o AOR e até mesmo o Metal mais pesado que dominou o início da década de 80. Com a entrada do vocalista Bernie Shaw em 1988, o Uriah finalmente construiu uma nova face, a qual vem carregando até os dias de hoje, voltada para um hard rock não tão pesado quanto na década de 70, mas sim um som bem trabalhado e capaz de agradar tanto aos velhos quanto aos novos fãs.

Porém, antes do sucesso, o grupo peregrinou por outras áreas sonoras. em seus três primeiros álbuns, o grupo apresentou desde o mais tradicional blues ("Lucy Blues", de ... Very 'Eavy ... Very 'Umble, o primeiro disco, de 1970), passando pelo folk ("Lady in Black", de Salisbury, lançado em 1971) até psicodelia lunática de Londres ("Shadows of Grief" , de Look at Yourself, lançado em 1971), e foi exatamente no meio dessa mutação musical que o grupo passava que acabou rolando um pequeno flerte com o progressivo, concebendo uma Maravilhosa cria chamada "Salisbury".

The Stalkers: Dave Garrick, Mick Box, Rog Penlington, Richard Herd e Alf Raynor

As origens do grupo vem ainda em 1967, quando o jovem guitarrista Mick Box passa a integrar o grupo beat The Stalkers. Acompanhado por Roger Penlington (bateria), Richard Herld (baixo), Alf Raynor (guitarras) e o primo de Penlington, David Garrick (vocais). A dupla Garrick e Box rapidamente começou a compor canções e vislumbrar um futuro melhor longe do The Stalkers, e então, em 1968, ambos abandonam Penlington para formar o Spice. Com o nascimento do Spice, David resolve adotar um pseudônimo, Byron, e a partir de então, passa a ser reconhecido como David Byron.

Spice: Mick Box, Alex Napier, Paul Newton e David Byron

Completam o Spice Alex Napier (bateria) e Paul Newton (baixo). O som do grupo era muito pesado para sua época, destacando principalmente o brilhantismo das composições. O grupo fez uma série de apresentações que chamaram a atenção do empresário Gerry Bron, o qual satisfeito com a sonoridade dos garotos, levou-os a assinar um contrato com a recém formada Vertigo. O inesperado contrato possibilitou ao quarteto fazer uma série de gravações no Lansdowne Studios de Londres, já no final de 1969 e com um novo baterista, Nigel Pegrum.

Foi lá que, ao ler o livro David Copperfield, de Charles Dicken, o Spice mudou para Uriah Heep, uma homenagem aos cem anos da morte do autor britânico.

O quarteto produziu uma série de canções, até que Box decidiu que a entrada do Hammond poderia incrementar ainda mais o som deles, na linha do que o Vanilla Fudge estava fazendo nos Estados Unidos com o álbum Renaissance (1968). O primeiro músico a ocupar o posto de tecladista do Uriah foi Colin Wood, seguido pelo ex-colega de Newton no The Gods, Ken Hensley. Hensley também era um guitarrista de mão cheia, tocando slide como poucos, e seu casamento com as composições de Byron e Box foi imediata, e logo em seguida, partem para a conclusão do álbum.

... Very 'Eavy, Very 'Umble ... (original à esquerda, americano à direita)

Porém, Napier acabou sendo substituído por Nigel Olsson, baterista do grupo de Elton John, que então foi responsável por finalizar o disco. A estreia da banda ocorre em 1970, com ... Very 'Eavy, ... Very 'Umble, um disco bastante pesado e inovador, que gerou o primeiro clássico para os britânicos, "Gypsy", faixa que já abre o LP com uma potência descomunal. O lançamento americano trouxe uma capa bastante diferente, assim como uma pequena modificação no set list, com a entrada de "Bird of Prey" no lugar de "Lucy Blues".

A imprensa caiu em cima, criticando bastante o som dos jovens músicos, inclusive com a famosa citação da Rolling Stone americana, afirmando que cometeria suicídio caso a banda fizesse sucesso. Porém, a boa sequência de apresentações continuava. Uma mudança na formação ocorreu, com a entrada de Keith Baker no lugar de Olsson, que voltou para o grupo de Elton John (sendo inclusive o responsável pelas baquetas no clássico Goodbye Yellow Brick Road, de 1973). A nova formação então, entre outubro e dezembro de 1970, gravam o ambicioso segundo álbum, Salisbury.

Ken Hensley, David Byron, Paul Newton, Mick Box e Keith Baker

Lançado em janeiro de 1971 (e em fevereiro do mesmo ano nos Estados Unidos), Salisbury destacou-se por conta da incrível evolução que o grupo tinha na parte das composições, méritos principalmente de Ken Hensley. Também é importante ressaltar que assim como a  estreia, a capa do lançamento americano, assim como o set list, são diferentes em relação ao lançamento britânico.

O álbum na sua versão britânica abre com a pancada "Bird of Prey", com os vocais de David Byron revelando-se agressivos, complementados ainda por vocalizações agudas que tornaram-se uma das marcas registradas da carreira do Uriah. A balada psicodelia "The Park" possui um lindo momento jazzísitico, do qual o solo de Hammond é o que mais fascina os ouvidos. Em "Time to Live", temos uma canção mais pesada, com Box exibindo-se com o wah-wah, e o lado A encerra-se com a clássica "Lady in Black", animadíssima faixa acústica cantada por Ken Hensley, que facilmente tornou-se um hino na carreira do quinteto.

Contra-capa da versão original inglesa de Salisbury

O lado B abre com a veloz "High Priestess", onde o que brilha são as guitarras gêmeas da dupla Box / Hensley, além do último fazer misérias com o slide. E eis que chegamos na Maravilhosa suíte que dá nome ao álbum. Logo de cara, a imponência dos metais da orquestra assombram o recinto, acompanhados pelo Hammond de Hensley. Um breve tema no oboé marca a entrada das vocalizações, enquanto os metais simulam uma espécie de riff. Outro breve tema, agora executado apenas pelas trompas, é seguido por um longo acorde de Hammond, que estoura em um tema feito ao mesmo tempo pelos metais e Hammond, em um arranjo encantador.

A entrada da bateria marca o surgimento do primeiro riff de "Salisbury", com os metais e o Hammond sendo o centro das atenções. Enquanto o andamento quase marcial da bateria conduz as intervenções dos metais e as passagens do órgão, a guitarra passa a solar timidamente, e assim, constrói-se a base que irá acompanhar a voz de Byron.

Lord David Byron

O vocalista transborda emoção em sua interpretação, e o arranjo da orquestra é arrepiante. Baixo, órgão e bateria fazem intervenções pontuais a cada frase cantada por Byron, assim como instrumentos distintos como flauta, oboé e trompete fazem pequenas intervenções durante a segunda estrofe vocal, que é encerrada por uma série de escalas feitas por guitarras e metais.

Dela, nasce uma longa sequência instrumental, que começa com um veloz duelo de guitarra e órgão, enquanto baixo e bateria acompanham galopeando pelas caixas de som, e com diversas interferências da orquestra. O andamento jazzístico de Newton e Baker apresentam o gigante solo de Hammond, no qual Hensley abusa de notas velozes enquanto a orquestra circunda seu instrumento com passagens sombrias e enigmáticas. Ao mesmo tempo, vale destacar a performance precisa das escalas de Newton. Um crescendo arrepiante é realizado pela orquestra, causando uma explosão sonora digna das grandes orquestras dos tempos áureos das Big-Bands, encerrando esse trecho instrumental com mais uma série de notas repetidas por metais e guitarra.

O Mago Ken Hensley

"Salisbury" modifica-se abruptamente com a entrada do Hammond, o novo condutor da canção, que puxa um novo riff, o qual é repetido pelo baixo. A orquestra faz viajantes passagens, trazendo a guitarra de Box com notas tímidas e breves, tocadas com a presença do wah-wah. É aqui que começa a preparação para o show particular de Box.

Mick Box
Antes, Byron retorna para soltar a voz, intercalado pela presença de fagote, oboé e dos metais, sempre com o andamento cavalgante do baixo e bateria, que resgatam parte dos riffs apresentados na introdução. A angústia e curiosidade gerada pela suíte aumentam enquanto Byron solta sua voz, e é incrível novamente a genialidade do arranjo, com a flauta surgindo entre as frases de Byron inesperada e magnificamente.

Eis que Box resolve dar as caras, e impiedosamente pisoteando o wah-wah, sola endiabrado sua Les Paul, em escalas velozes, bends agudos e vibratos que acabaram virando um ponto de referência para quando cita-se as qualidades técnicas de Box. O que ele constrói nessa série de três solos realizados em um andamento de quatro passagens cada um, intercalados por vocalizações e belas passagens orquestrais, é de se fazer comer o chapéu. A personalidade que o menino de apenas vinte e três anos coloca em seu solo, além de uma precisão e feeling raros, não tem comparação, e uma pena que poucos deem valor para o hoje gordinho Box.

Uma série de notas repetidas entre orquestra, guitarra, bateria, baixo e guitarra retorna ao riff inicial, trazendo novamente os vocais de Byron, que repete as primeiras estrofes de "Salisbury" para encerrar essa Maravilhosa suíte com uma série de repetições feitas por órgão, orquestra, baixo  e bateria, culminando então com a orquestra sob batidas que aumentam de velocidade até Byron estourar as caixas de som com um grito agudo e dolorido, enquanto a pancadaria pega ao fundo com a orquestra, órgão, bateria e guitarra.

Salisbury na versão americana

Ok que outros grupos já tinham feito a mistura rock/orquestra anteriormente, inclusive gerando belos resultados como as Maravilhas "Atom Heart Mother" e "In Held 'Twas In I", ou então álbuns inteiros como Deep Purple (Concerto for Group & Orchestra) ou Yes (Time And a Word), mas nenhum deles fez uma junção tão incrivelmente pesada quanto o Heep.

O Heep seguiu seu caminho, com Iain Clark (ex-Cressida) no lugar de Bajer. Esse novo time lançou Look At Yourself ainda em 1971, e depois, firmando-se com sua formação clássica, com Byron, Box, Hensley, Gary Thain (baixo) e Lee Kerslake (bateria, vocais). Essa formação lançou os principais discos do grupo (Demons and Wizards e The Magician's Birthday, ambos de 1972, Sweet Freedom, de 1973, e Wonderworld, de 1974, além do essencial Live, de 1973), e colocou o Heep como uma das principais bandas do hard setentista, obrigatória na casa de todos os admiradores de boa música, e que em um passado distante, fez um flerte Maravilhoso e exclusivo com o progressivo.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Maravilhas do Mundo Prog: Cannabis India - Lapis [1973]



Quando falamos dos grandes power-trio do rock progressivo, certamente o primeiro nome que vem à mente do fã é o britânico Emerson Lake & Palmer, união de três gigantes em seus instrumentos (Keith Emerson, teclados, Greg Lake, baixo, vocais, e Carl Palmer, bateria) que mostrou ao mundo como fazer rock sem guitarras. A fama do ELP espalhou-se pelo mundo, e concebeu mais um gigante na Europa, mais precisamente na então Alemanha Ocidental. Ali, o Triumvirat do tecladista Jürgen Fritz atravessou a década de 70 com diversas mudanças na formação, mas sempre como um trio poderosíssimo, capaz de bater de frente com as obras Maravilhosas advindas da Terra da Rainha.

Quase na garagem ao lado, porém muito menos desconhecido, o Triumvirat tinha a companhia de outro belíssimo trio progressivo, relegado a obscuridade eterna por conta principalmente do nome adotado para a banda: Cannabis India.

O grupo surgiu em 1971, na pequena cidade de Wuppertal, mesmo local de um grupo que tornou-se cultuado entre os admiradores de krautrock, o obscuro Höderlin, através dos músicos Oliver Petry (órgão, vocais), Dirk Fleck (baixo) e Rüdiger Braune (bateria). Antes, eles faziam parte de um grupo concentrado em executar covers da British Invasion, o The Futures, cujo principal formador, Burckhard Eick, acabou tornando-se o empresário do Cannabis India. Vale ressaltar que Oliver tinha dezesseis anos quando o grupo nasceu, mas tinha uma longa história musical, estudando música clássica desde os sete anos de idade.

O grupo começou a fazer apresentações em diversas cidades da Europa, assim como virou atração em festivais espalhados pela Alemanha, abrindo para nomes hoje consagrados como Birth Opera, Earth and Fire, Fumble entre outros. Dois shows foram marcantes nesse período, o primeiro deles em Berlin, e outro no Wuppstock Festival, na cidade Natal dos garotos. Ambos os shows ocorreram em 1973, e foi graças a eles que surgiu o convite para as primeiras gravações em estúdio da banda.

As gravações ocorreram em 11 maio de 1973, no Südwestfunk Studios em Baden Baden, mas foram lançadas somente em 2009 pelo selo Long Hair, através da série SWF Session, que resgatou nomes obscuros como Jud's Gallery, Coupla Prog e Kollektiv. O nome da bolachinha: SWF Session 1973, uma peça exemplar para mostrar aos que querem conhecer o rock progressivo por que se fala tanto da união entre a música clássica com o rock, já que os dotes clássicos de Petry são exibidos constantemente nas quatro estonteantes faixas instrumentais da bolacha.

O álbum abre com "Hand of the King", potência sonora que une os melhores momentos e Emerson Lake & Palmer, Triumvirat e Atomic Rooster em uma única canção, com o diferencial sendo exatamente as belas escalas clássicas das teclas de Petry, um belíssimo músico infelizmente relegado à obscuridade eterna, se não fosse o advento da internet. Vale a pena citar o quão belos instrumentistas são Fleck e Braune, com o primeiro praticamente solando o tempo todo ao lado de Petry, e o segundo providenciando ritmos impecáveis e dançantes para as belezas sonoras criada pela dupla, nessa canção que tranquilamente poderia estar sendo resenhada por aqui. Porém, escolhi a canção que vem na sequência.

Contra-capa do álbum

"Lapis" surge com uma imponente sequência de notas de órgão e baixo, com a bateria estraçalhando, seguida por marcações que nos remetem rapidamente para "Tarkus" (Emerson Lake & Palmer), intercaladas por velozes escalas do órgão. As marcações vão diminuindo, e com a entrada do moog, começa o ritmo alucinante da canção, com Petry solando alucinadamente, enquanto Braune rufa endemoniado e Fleck faz as marcações no baixo como se fosse a base de uma orquestra.

A velocidade do solo de Petry é incrível, explorando escalas clássicas com uma habilidade comum apenas entre os gigantes do teclado prog, e chama bastante a atenção as batidas fortes da bateria. A canção ganha ritmo através das marcações de Braune, enquanto baixo e órgão dão seu espetáculo de duelos e momentos individuais, deixando o ouvinte exausto e satisfeito com toda a explosão musical.

Depois de três minutos com uma velocidade absurda, a bateria conduz o baixo para uma suave canção, na qual o órgão é o principal instrumento em um solo de arrancar lágrimas. O que Petry faz com o instrumento, utilizando escalas lentas, longos acordes e uma dose extra de emoção advinda da cozinha, causa uma comoção até em estátuas, fazendo o aparelho de CD banhar-se em lágrimas, e gradualmente, o ritmo vai retornando através das velozes escalas de Petry, enquanto a cozinha Braune / Fleck mantém uma marcação constante e dançante.

Passagens entre os três instrumentos fazendo as mesmas batidas concluem esse momento, levando a segunda metade da nossa Maravilha, aberta por um belo solo clássico do órgão, transportando o ouvinte para um Igreja Medieval, e ganhando mais emoção com o retorno de baixo e bateria, que fazem um crescendo único para o órgão poder ser explorado sem piedade, ora com notas curtas, ora com acordes longos, ora atacado por notas velozes, ora com apenas a mão sendo sentada sem piedade nas teclas. Prepare o lenço, por que "Lapis" certamente já está fazendo até as paredes chorarem nesse momento.

Finalmente, breves segundos de silêncio estouram no baixo muito veloz, seguido pelo ritmo jazzístico da bateria. O órgão repete a velocidade e as notas do baixo, e então simplesmente Petry destrói as teclas com acordes longos, agudos e arrepiantes, enquanto a bateria pega fogo em um ritmo jazzy. A escala do baixo é repetida por diversas vezes, e a pauleira come solta, cada músico ganhando destaque em separado, e então, os três músicos voltam para o início da canção, com mais marcações que nos remetem facilmente para Emerson Lake & Palmer, mas com momentos bastante intrincados, na qual Braune é o polvo de dezesseis tentáculos (e não oito) tamanha a fúria e velocidade de suas batidas em pratos, tons e bumbo.

Petry faz uma velocíssima escala no órgão, e com muito barulhos em acordes arrepiantes, leva "Lapis" ao encerramento junto das marcações de baixo e bateria, concluindo essa Maravilhosa peça de doze minutos com um longo e assombroso acorde de órgão, e muito barulho por parte de baixo e bateria. De tirar o fôlego!

Encarte de SWF Sessions 1973, com breve história do Cannabis India em alemão

"Revolver" é uma canção mais alegre, na qual o órgão parece cantar, e Petry abusa de escalas clássicas acompanhado pela impressionante velocidade das batidas de Braune e da marcação perfeita de Fleck. Essas mesmas linhas clássicas são ressaltadas na linda versão para a "Nona Sinfonia" de Beethoven, obviamente intitulada "Beethoven's 9th", e concentrada especialmente na magistral, e por que não Maravilhosa, interpretação de Petry, tendo a fiel e fundamental participação da cozinha Braune / Fleck.

Depois das gravações, o Cannabis India ganhou um guitarrista, Martin Köhmstedt, ex-integrante do grupo Solomon Jackdaw, mas não demorou muito tempo no seu posto, já que logo no início de 1974, o Cannabis India separou-se. Petry acabou fundando o grupo Universe, ao lado de ex-membros do Solomon Jackdaw, Detlev Dalitz (baixo), Bernd Frielingsdorf (bateria) e Detlev Krause (guitarras), os quais fizeram um breve registro que entrou como bônus de SWF Sessions 1973, as faixas "Mirror" e "The Hunt", ambas mais acessíveis, porém mantendo a potência progressiva das cinco canções anteriores, com belas passagens clássicas seja no órgão ou na guitarra, e destacando uma maior presença do moog ao lado do órgão na primeira, e os vocais Gillanianos (além do moog) de Petry na segunda.

Os três álbuns do grupo Gate

Martin acabou ingressando no grupo Gate, onde registrou três álbuns: Live (1977), Red Light Sister (1977) e Well Done (1980). Os membros da Cannabis India voltaram a tocar juntos anos depois, em um projeto chamado Fritz Mueller Band, o qual fez diversas apresentações abrindo para Neu! e Kraftwerk no final dos anos 70, e gravou o álbum Kommt, trazendo um som que mistura punk com psicodelia, longe dos tempos áureos do progressivo de SWF Sessions. 

Braune tocou com o grupo The Ramblers, formando o Kowalski na década de 80, grupo pelo qual registrou dois álbuns: Schlagende Wetter (1982) e Over Man Underground, versão inglesa de Schlagende Wetter, lançada em 1983, ambos pelo selo Virgin. Dirk fundou o grupo Mama, enquanto Petry tornou-se vocalista do Empire, registrando apenas um álbum em 1981, e hoje vive como empresário e webdesigner. 

Quanto ao Cannabis India, sobrou a missão para os caçadores de preciosidades buscar essa relíquia chapante, de uma banda que podia ter sido uma das maiores do prog alemão, mas o destino infelizmente não quis dessa forma.

PS: Infelizmente, não encontrei nenhuma imagem do trio, o que corrobora a raridade que é o Cannabis India.
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