Nada mais justo que hoje, dia da "Independência do Brazil", trazer aqui um texto sobre a maior banda que o país pariu em seus 520 anos de "descoberta", Os Mutantes. Há quase um ano, escrevi sobre o livro Rita Lee - A Autobiografia, lançado pela eterna ex-Mutante em 2017, e desci um pouco a lenha no livro, por diversas situações que você pode conferir aqui. Naquele livro, Rita, entre críticas diversas a pessoas diversas, critica também Carlos Calado, autor da biografia A Divina Comédia dos Mutantes, lançado primeiramente em 1995, e que até hoje, já recebeu uma segunda edição em 1996, e uma terceira em 2012.
Claro, o livro tem quase 25 anos, então é natural haverem outras edições, mas honestamente, para mim esse é uma das melhores biografias lançadas em nosso país sobre um artista legitimamente brasileiro. Com 360 páginas, 22 capítulos mais Prefácio por Mathilda Kóvak, Agradecimentos, Índice Remissivo, Discografia, Bibliografia e Crédito das diversas imagens raras que aparecem ao longo do livro, A Divina Comédia dos Mutantes é um prato cheio para quem quer conhecer a história da banda mais importante da história do Brasil, e por que não, uma das maiores do mundo.
O livro começa relembrando a tragédia que envolveu Arnaldo Baptista, quando o mesmo jogou-se, no dia 31 de dezembro de 1981 (aniversário de Rita), do terceiro andar do Hospital do Servidor Público de São Paulo, narrando todo o drama da recuperação de Arnaldo, e depois, em ordem cronológica, conta a formação dos Mutantes de forma envolvente e de fácil leitura, fazendo com que o texto passe rapidamente por nossos olhos. A infância e adolescência dos irmãos Sergio, Arnaldo e Claudio (o quarto Mutante) Baptista, bem como de Rita, são os primeiros capítulos, destacando as primeiras bandas e apresentações dos mesmos, até chegarem ao grupo O'Seis.
Nesta passagem, muito bem detalhada, destacam-se a criação do Six Sided Jazz, que mudou rapidamente para Six Sided Rockers, e então O' Seis, as apresentações dos Rockers na TV (Programas Jovem Guarda, Show em Si-monal, Papai Sabe Nada e Almoço Com as Estrelas), a primeira gravação com um Mutante (o compacto "Pertinho do Mar" e "O Meu Bem Só Quer Chorar Perto de Mim", de Tony Campello, acompanhado pelas Teenage Singers, que tinham Rita nos vocais), e a gravação do raríssimo compacto do O'Seis.
No limbo pós debandada geral dO'Seis, surge Ronnie Von, responsável por acolher o trio Rita, Arnaldo e Sergio, além de batizá-los, e levá-los para a TV, cuja estreia foi no dia 15 de outubro de 1966, no programa O Pequeno Mundo de Ronnie Von. Surgem as participações no Quadrado E Redondo da TV Bandeirantes, Divino Maravilhoso da Tupi, os encontros com Gilberto Gil e Caetano Veloso, e os Mutantes participando (e chocando) nos grandes festivais nacionais da segunda metade dos anos 60. Novamente, Calado preenche o texto com muitos detalhes, o que torna a leitura bastante atrativa, e ainda traz informações pertinentes e raras, como a participação do grupo no filme As Amorosas, o registro de Tropicália ou Panis et Circensis, disco símbolo do tropicalismo, contando com o trio, o inflamado discurso de Caetano no TUCA em 1968, durante o FIC daquele ano, e a esperada (e elogiada) estreia de 1968, no álbum homônimo que hoje é aclamado como um dos Melhores Lançamentos nacionais da história. Outro ponto interessante, e bastante desconhecido até então, foi o festival organizado por Caetano na boate Sucata, contando com os Mutantes, que acaba levando a conturbada prisão (e deportamento) de Caetano e Gil em 27 de dezembro de 1968.
Com o status de grande banda alcançado logo no primeiro lançamento, chega então Mutantes, o segundo disco, e a estreia de Dinho "I Du Rancharia" Leme na bateria. O autor traz a primeira passagem do grupo pela Europa, apresentando-se no MIDEM, em Cannes, França (1969), onde ganharam muitos elogios da imprensa francesa, apresentações em Portugal, e ainda uns dias de férias nos EUA, onde viram Janis Joplin, que deixou-os de boca aberta, e decepcionaram-se com os Mothers de Frank Zappa.
Como novidade não-musical para os fãs da banda, Calado traz detalhes da participação da banda como convidados da Feira de Utilidades Domésticas de São Paulo, em abril de 1969, com o desfile Moda Mutante, apresentando as coleções masculina e feminina da Rhodia, com os Mutantes como atração central, em um evento que durou quase três semanas, e a peça de teatro Planeta dos Mutantes, espetáculo que estreou em julho de 69, escrito e idealizado pelo trio, e que chocou a pauliceia desvairada com cenas bastante bizarras, e que acabou resultando em certo prejuízo financeiro ao grupo. Porém, é aqui onde a sonoridade dos Mutantes começa a mudar.
Essa mudança aparece em A Divina Comédia Ou Ando Meio Desligado, que contou com a fundamental colaboração do amigo Élcio Decário nas composições, Liminha, fã dos Mutantes desde adolescente, no baixo e participações de Naná Vasconcelos e Raphael Vilardi. Arnaldo mergulha nos teclados, influenciado pelo que viu e ouviu na Europa, e começa a ter suas primeiras brigas e separações com Rita, levando inclusive a uma breve "estacionada" dos Mutantes, já no final de 1969, com Rita passeando pela Europa e Arnaldo viajando de moto pela América Latina. Essa separação acabou sendo boa visualmente para Rita, que acabou sendo convidada para ser protagonista dos shows-desfiles Nhô-Look e Build Up, outra grande novidade para os fãs do grupo, e também lançou seu primeiro álbum solo, Build Up, com participações dos demais membros da banda.
Com a chegada dos anos 70, os Mutantes mudam-se para a serra da Cantareira. Novamente, a banda vai à Europa, agora para uma temporada de shows no Olympia francês. Voltam ao Brasil para fazer parte do elenco do programa Som Livre Exportação, da Rede Globo, e com muitos ácidos europeus na mente, registram Jardim Elétrico, disco com canções de um álbum inicialmente planejado para ser lançado na Europa (Technicolor), mas que acabou ficando engavetado por quase 30 anos, e mais algumas novidades. Os detalhes que Calado nos apresenta até aqui são muito reveladores não só da intimidade mutante, mas da importância e pioneirismo do grupo em ser um dos primeiros nomes nacionais a conseguir conquistar o mercado europeu com shows lá no Velho Continente, destacando ainda mais a relevância do nome Mutantes para a música mundial.
Envolvidos pela fácil e repleta de informações leitura, chegamos em 1972, e no capítulo 17, com os Mutantes lançando seu quinto álbum, e metendo-se em uma empreitada fantástica: uma turnê itinerante por pequenas cidades do país, começando por Guararema, onde foram saudados pelo prefeito local. Sobre Mutantes e Seus Cometas no País dos Baurets, brigas com a censura e a exploração instrumental da faixa-título são os destaques. Com a casa na Cantareira, a banda passa a cada vez mais fazer ensaios e improvisos, culminando com uma forte guinada para o rock progressivo britânico de Yes e ELP (principalmente). Rita e Arnaldo separam-se novamente, com Rita indo para a Inglaterra, e na sua volta, gravam Hoje É O Primeiro Dia do Resto das Suas Vidas, segundo disco de Rita, mas que na verdade, é um álbum totalmente Mutantes.
Da Inglaterra também veio Mick Killingbeck, que mudou totalmente a cabeça dos rapazes da banda, tornando-se um guru de Arnaldo (e um affair de Rita). Ele é um dos principais influenciadores de "Mande Um Abraço Pra Velha", última canção com Rita na banda, já que logo em seguida, após declarar "estar cansada de ser o Jon Anderson", a ovelha negra havia sido demitida (ou convidada a deixar a banda) por Arnaldo. Esse é o ponto mais delicado de A Divina Comédia dos Mutantes. Calado coloca o dedo na ferida, e acaba sendo sensato, atribuindo a separação para os dois lados em termos de culpa (uma Rita que queria ser estrela e um grupo de rapazes que queriam ser a melhor banda do país).
O ano de 73 começa com o grupo vivendo a fase Uma Pessoa Só. Calado nos apresenta as gravações de O A E O Z e diversas apresentações da banda naquele ano, com o show Mutantes com 2 Mil Watts de Rock, para a época, o maior espetáculo sonoro que o país já vira. Calado também apresenta a (única) apresentação das Cilibrinas do Èden, banda formada por Rita e a amiga Lucia Turbull, na Phono 73, e os graves problemas de Arnaldo com as drogas, culminando com sua saída da banda (ele mesmo se demite) por tentar impor uma apresentação gratuita em São Lourenço, Minas Gerais, o que foi descartado pelos colegas de forma unânime. Arnaldo foi sozinho para Minas, e ali entrou em derrocada na carreira, enquanto Rita monta a Tutti Frutti e começa sua longa carreira solo de sucesso. Ah, o álbum Loki! também é narrado por Calado, em um clima de muita dor e emoção.
Chegamos na reta final do livro, com Sergio tocando o Mutantes e suas diversas formações, seja com Manito, Túlio Mourão ou Luciano Alves nos teclados, o batera Rui Motta e Antonio Pedro e Paul de Castro no baixo. É a época dos shows lotados, músicas longas e viajantes, das gravações de Tudo Foi Feito Pelo Sol - curiosamente, até então, o álbum do grupo que mais havia vendido - e Ao Vivo, de uma turnê pela Itália, e o fim de uma das bandas mais importantes da história da música nacional. A tentativa frustrada de unir o trio original em 1992, em um show de Rita, é tratada rapidamente por Calado, que conclui o livro dando um panorama atual (na época) de cada membro que passou pela banda.
Sergio, Arnaldo e principalmente Rita desceram a lenha no livro sem exagero algum. Tudo bem, o autor pode ter se passado em algumas informações bastante pessoais (principalmente nos casos amorosos e extra-conjugais do trio), mas esse tipo de fofoca é pouco perto da grandiosidade de pesquisa (foram quase 2 anos de trabalho e mais de 200 entrevistas) e informações que A Divina Comédia dos Mutantes traz. Para quem é um fã da banda, é uma ótima pedida de investimento. E para quem está a fim de aprender muito sobre uma época que não volta mais, e de todo o pioneirismo de Arnaldo, Claudio, Rita, Sergio, Liminha e Dinho, terá em mãos uma ótima escolha.
Esqueça tudo o que você já ouviu de jazz, fusion, jazz rock e outros gêneros similares. Esqueça Weather Report, The Eleventh House, Return Of Forever, V. S. O. P. e outros grandes grupos como o quinteto de Keith Jarret ou os Jazz Messengers de Art Blakey. Você não precisa ir tão longe para ouvir esse estilo de forma simplesmente insuperável. Basta adquirir o álbum Jazz Mania Live, do guitarrista Sérgio Dias.
A carreira de Serginho foi construída em cima dos Mutantes, como muitos sabem. Com o fim do grupo no final da década de 70, Serginho partiu para uma carreira solo com a finalidade de explorar a música brasileira, lançando o disco Sérgio Dias em 1980, onde conta com a participação, entre outros, de Caetano Veloso. Após o lançamento do álbum, exiliou-se nos Estados Unidos, onde viveu até 1985. Lá, dividiu espaço com gente como Gil Evans, John McLaughlin, Manolo Badrena, Michael Brecker, David Sanborn, Jeremy Steig e Jaco Pastorius, exatamente na fase "brasileira" do Weather Report, ao mesmo tempo que dividia apartamento com L. Shankar e Fernando Saunders.
Versão autografada
Com os parceiros de apê e mais TM Stevens, formou a banda Unit, e passou a tocar em diversos locais de Manhattan. Após a Unit, Serginho formou a Steps Of Imagination, ao lado de Danny Gotlieb, Marcos Silva e TM Stevens, que mudou de nome para Airto e Flora and The Steps Of Imagination quando Airto Moreira e Flora Purim estiveram em um dos ensaios da Steps, curtindo tanto o som que decidiram entrar na banda.
O contato com McLaughlin e o pessoal da Weather mudou a cabeça de Serginho, que voltou para o Brasil afim de fazer evoluir seus conhecimentos jazzísticos. Assim, reuniu músicos brasileiros e criou o projeto Zod, o qual havia iniciado nos Estados Unidos com músicos desconhecidos da América, e com quem figurou na trilha de Armação Ilimitada ("Juba e Lula, wow!!") com a música "Darling Forever Gone".
Sergio Dias *
Cercando-se de excelentes músicos, Jurim Moreira (bateria), José Lourenço (teclados), Paul Lieberman (sopros) e Tony Mendes (baixo), Serginho começou a apresentar seu novo trabalho instrumental em abril de 1985, na edição do Free Jazz festival do Rio e Sampa, ao lado de estrelas como Chet Baker, Egberto Gismonti, Pat metheny e Bob McFerrin.
Depois de algum tempo, reunem-se novamente para uma minitemporada na extinta casa Jazzmania, localizada no Arpoador, entre os dias 23 e 26 de julho de 1986, as quais foram resgatadas, tratadas e cuidadosamente masterizadas 17 anos depois no CD Jazz Mania Live.
O disco abre com "Janeth & Steve", com o sax de Lieberman acompanhado pelos teclados viajantes de Lourenço, bem na linha do Weather Report, com intervenções feita por Sérgio em um clima viajante. A bateria vai surgindo aos poucos através dos pratos e, com um rufar, trás o baixo acompanhando o riff principal feito por Sérgio e Lieberman ao mesmo tempo, com o teclado a executar diversos acordes.
O que ouvimos a seguir é uma sequência fantástica de solos, começando com Sérgio que abusa da alavanca durante uma sessão free jazz, com Lieberman literalmente enlouquecido, a la Coltrane. O acompanhamento baixo/bateria nos faz recordar a Mahavishnu Orchestra, com Sérgio mandando notas e mais notas efusivamente, sobre uma levada complicadíssima da cozinha. As intervenções do teclado são assustadoras, e Sérgio não diminui um segundo o pique e a quantidade de notas. Coloque essa faixa para um admirador de McLaughlin e divirta-se ouvindo o cidadão dizer "Não conhecia esse som do John".
Sérgio destrói a guitarra em alavancas e bends, abrindo espaço para o solo de Moreira, com muitos rufos e batidas nos pratos, como manda o figurino jazzístico. Mais uma prova de que estamos ouvindo uma filial brasileira da Mahavishnu, pois o modo de tocar de Moreira é idêntico ao de Billy Cobham (primeiro baterista da Mahavishnu).
Após o solo de bateria, temos novamente o riff principal executado por Sérgio e Lieberman, e quando menos percebemos, aprecíamos 11 minutos de boa música, feita em homenagem a dois amigos de Sérgio, Janeth e Steve Reynolds, os quais apresentaram a NASA para o guitarrista quando o mesmo excursionava por Houston.
Um dos maiores guitarristas do mundo*
O CD segue com "Suíte Para Filemón Y La Gorda", e uma introdução na linha do U. K., com muito sintetizador e uma quebradeira geral da bateria, além de uma escala hipnotizante do baixo de Mendes. Lieberman entra com a flauta, com Serginho seguindo as notas da flauta em sua fender.
O ritmo ganha uma linda evolução, já que originalmente fora concebida para um desenho animado feito quadro a quadro no canal HBO, por um artista colombiano.
"Columbia" é uma viagem em homenagem a NASA. O início dedilhado da guitarra relembra as canções de O A E O Z, ganhando o clima jazzístico com a entrada de sax e teclado executando o tema principal. "Return To Forever" e "The Eleventh House" são os nomes que vêm a cabeça, mas o som é legitimamente brasileiro. Sinais de telégrafo feitos pela guitarra são sequência a parte fusion da canção, cercada de teclados e viajantes intervenções de sax e guitarra.
Teclados e bateria imitam o som da "espaço-nave" Columbia, com baixo e bateria relembrando o tema de 2001: Uma Odisséia No Espaço. A sequência de acordes do teclado, com as alavancadas de Sérgio, são de respirar fundo, e imaginar como uma real trilha para viajar pelo espaço. Destaque para as importantes intervenções de Moreira, que criam um clima espe(a)cial bem interessante, encerrando novamente com o riff principal e a Columbia viajando nas caixas de som.
A sensual "Sabor Caballero" trás um clima todo tropical com o sax de Lieberman e as intervenções de teclado. A levada baixo/bateria é extremamente dançante, e é muito bom ver que Sérgio está apenas como um admirador da beleza sonora, executando imperceptíveis acordes enquanto o tema principal está sendo tocado.
Finalmente, como um Carlos Santana, Serginho começa a solar, acompanhado por teclados e pelo ritmo tropical da bateria e baixo, com direito até aos famosos UH! de Perez Prado. O crescendo no solo de Serginho é interrompido pela entrada do sax executando uma pequena parte do tema principal, e após uma breve sessão de teclados, volta ao início dessa bela canção.
Momento de relaxamento *
Outra suíte, "Brazilian New Wave", vem a seguir, resgatando a mesma canção do álbum de estreia solo de Serginho, mas com uma roupagem totalmente diferente, começando com Liberman solando agonizantemente no pícolo, acompanhado por Lourenço. Os teclados dão origem a um samba-jazz empolgante, com o riff principal sendo executado por sax e guitarra. Lourenço está demais nas viradas da bateria, e o acompanhamento pastoriano de Mendes é fenomenal.
Lieberman assume então a flauta, executando um brasileiríssimo solo, e mais uma vez, Serginho fica relegado a um mero espectador no espetáculo musical criado pelos seus quatro músicos de acompanhamento, com somente alguns acordes na guitarra. Se você não balançar a perna aqui, vá no médico, pois o embalo realmente é contagiante.
Após se admirar do solo de flauta, Sérgio mais uma vez destrói a guitarra em um enlouquecido solo de guitarra, apimentado com timbres de Santana e notas Zappianas impossíveis de serem reproduzidas, mostrando o por que de ser considerado o melhor guitarrista brasileiro de todos os tempos. Um samba-jazz, que assim como essa sessão, é essencial para se esquecer da vida, ainda mais acompanhado de uma garrafa de Rum e espetinhos de queijo/presunto.
Lourenço também tem seu espaço, ao duelar com Sergio em uma feroz sequência de guitarra e moog, voltando ao tema principal e deixando o ouvinte com as pernas bambas nos 9 minutos mais energéticos que ele já experimentou.
Encarte do CD
"Hell's Kitchen" lembra "The Meeting Of Spirits" da Mahavishnu, com um clima oriental apreensivo no dedilhado de Serginho e no solo de Lieberman. As viradas de Lourenço mais uma vez estão muito bem construídas, e a canção ganha um crescendo fantástico, virando um viajante funk, com uma intrincada peça construída por baixo, guitarra, teclado e sax, abrindo espaço para Lieberman solar livremente sobre nuvens de funk e soul music.
Na sequência, é a hora e a vez de Sérgio mandar ver em seu solo, abusando de escalas, alavancas, bends e notas muito velozes, sem perder todo o feeling e o pique do funk criado pela cozinha. O intrincado tema é retomado, com a introdução fazendo novamente as ordens da casa, e Lieberman acabando o fôlego em longas notas de seu sax.
CD de Jazz Mania
Jazz Mania Live encerra com "Twilight In Tunisia", uma balada com Serginho solando na guitarra limpa, acompanhado pelos teclados e sons de natureza. De levar as lágrimas, principalmente com a entrada no tema principal e pelo suave andamento de baixo e bateria, acompanhados por intervenções de piano. Porém, o único pecado do disco ocorre, já que um corte gritante foi feito na canção, que encerra com aplausos no meio do início do segundo solo de Serginho.
Acompanha o CD um interessante encarte contando sobre o período da vida de Sergio pré-gravação de Jazz Mania Live, além de fotos da época.
Depois de ouvir esse disco, fica difícil de entender como que o Brasil não teve sua vertente jazzística profundida pelos seus quatro cantos, pois se trata de um achado em termos de sonoridade e principalmente, de conjunto.
Serginho seguiu uma carreira cigana, perambulando por áreas como piano, orquestrações, voltando ao rock e ressurgindo com os Mutantes em 2006, com o qual permanece excursionando até as datas de hoje, prometendo para breve um novo lançamento, bem longe da incrível fase jazzística que o músico teve durante os anos 80.
Contra-capa do CD
Track list
1. Janeth & Steve 2. Suíte Para Filemón Y La Gorda 3. Columbia 4. Sabor Caballero 5. Brazilian New Wave 6. Hell's Kitchen 7. Twilight in Tunisia
Por Mairon Machado (Publicado originalmente no blog Consultoria do Rock)
O podcast da Consultoria do Rock essa semana abre espaço para uma das mais importantes (se não a mais importante) banda de rock do Brasil, o grupo paulista Mutantes. Especialmente para você, ouvinte do podcast e leitor do blog, traçaremos os principais fatos da carreira do grupo, apresentando canções não tão famosas da carreira do grupo, onde exploraremos desde a fase inicial com o grupo participando como acompanhante de diversos artistas no final dos anos 60, até a fase progressiva dos anos 70, e também artistas relacionados ao grupo, com muitas raridades e surpresas.
O embrião dos Mutantes foi o grupo O'Seis. Na São Paulo do início dos anos 60, o rock and roll era muito cultuado pelos jovens da cidade, os quais tinham acesso a inúmeras bandas, como Beatles, Stones e Elvis Presley. Quem tinha um pouco mais de dinheiro conseguia os vinis e compactos diretamente da Europa. Este era o caso de Rita Lee (vocais, percussão, flauta), e da família Baptista, os quais tinham três filhos: Cláudio, Arnaldo e Sérgio, que viviam em função dos LPs vindos da europa e Estados Unidos.
Six Sided Rockers: Raphael, Mogguy, Serginho, Rita e Arnaldo
Outros garotos e garotas da região curtiam o rock'n'roll, e formavam suas bandas. Duas delas se fundiram para formar O'Seis: o Wooden Faces, formado por Arnaldo no baixo, Cláudio na guitarra, Raphael Villardi na guitarra e Luiz Pastura na bateria, cujo nome inicial era The Thunders e cujas músicas basicamente incluíam no repertório The Ventures e Duanne Eddy; e o Teenage Singers, grupo vocal basicamente formado por garotas, composto por Rita, Suely, Jean e Beatrice. A fusão se deu devido a namoros internos, e quando em um ensaio, o pequeno Sérgio Dias Baptista (Serginho Dias) tocou guitarra com pouco mais de 14 anos em um ensaio do quinteto, foi efetivado como guitarrista solo do grupo, nascendo O'Seis com Serginho, Arnaldo, Rita, Sueli, Villardi e Pastura, surge a Six Sided Rockers, que em pouco tempo virou O'Seis.
O único registro do O'Seis
Em 1966 a banda lançou seu primeiro e único compacto, que contava com a fantástica "O Suicida" de um lado e "Apocalypse" do outro. A letra de "O Suicida" é uma jóia rara na música brasileira da década de 60. Enquanto a maioria dos artistas cantavam temas relacionados ao amor, "O Suicida" trazia uma letra depressiva, de um paulistano que resolve se suicidar no Viaduto do Chá. A letra de "Apocalipse" trata de outro tema forte, a loucura, nesse caso de um cidadão que destrói o mundo ao seu redor e depois arrepende-se por ver que ficou sozinho. O compacto foi um fracasso comercial, e O'Seis não passou disso.
O trio que virou a música brasileira de ponta cabeça: Rita Lee (acima), Arnaldo Baptista (esqerda) e Sérgio Dias (direita)
O grupo acabou se desintegrando principalmente por que o empresário do O'Seis era um cidadão chamado Toninho Peticov. Arnaldo ficou muito insatisfeito com a produção e com o trabalho de Peticov, e já havia feito um contato com outro empresário, Asdrúbal Galvão. Arnaldo, Rita e Serginho assinaram um contrato com Galvão, excluindo Mogguy e Pastura. Ao saber da decisão dos demais integrantes, Villardi pulou fora e disse não confiar em Galvão, e também porque o guitarrista era namorado de Mogguy. Enfim, meses depois nascia Os Mutantes. Galvão acabou sendo um dos responsáveis pelo nome da banda. Ele havia sugerido dois nomes: Os Bruxos e Os Mutantes. Ronnie Von colocou o nome de Os Bruxos em sua banda, ficando então Os Mutantes para o jovem trio. Ronnie também foi o responsável pelo batizado do grupo na parte de gravação, que viria a ser no álbum Ronnie Von No 3, além de tornar a banda uma das atrações de seu programa de TV, "O Pequeno Mundo de Ronnie Von", da Rede Record.
Delirando em Sampa (1968)
Em 1967 o diretor da emissora resolve desmantelar a programação do canal, o que fez com que Os Mutantes saissem de lá, voltando sua participação para os bons e velhos festivais que ocorriam na época. Em um deles conhecem o maestro Rogério Duprat, além dos Baianos Caetano Veloso e Gilberto Gil.
A proximidade foi imediata, e Os Mutantes viraram a banda de apoio de Gil, interpretando várias canções em diferentes eventos, mas a imagem mais famosa seria a de Serginho empunhando uma guitarra elétrica no III Festival da Música Popular Brasileira durante a canção "Domingo No Parque", deixando a platéia e o júri furiosos com tamanha atitude.
Em 1968 a banda participa de quatro faixas do álbum A Banda Tropicalista de Duprat, "Canção Pra Inglês Ver/Chiquita Bacana", "The Rain, The Park and The Other Things", "Cinderella-Rockfella" e "Lady Madonna", com destaque especial para "Lady Madonna", já que a mesma ficou muito similar a versão dos Beatles; e também no álbum "Tropicália ou Panis Et Circensis", nas faixas "Panis Et Circensis", "Parque Industrial" e "Hino Ao Senhor do Bonfim".
Estreia dos Mutantes, vinil esencial em qualquer discografia de rock nacional
Nesse mesmo ano lançam seu primeiro álbum, Os Mutantes. Na época o disco não fez muito sucesso, mas hoje em dia é considerado pela crítica especializada como um dos 50 discos mais inovadores da história, segundo a revista MOJO, ficando na frente de nomes como Beatles, Pink Floyd e Frank Zappa. Além disso, foi eleito pela revista Showbizz como um dos 10 melhores álbuns do rock nacional de todos os tempos, ficando na quinta colocação.
Estreia de Dinho na bateria dos Mutantes (acima) e contra capa do mesmo álbum (abaixo), com Rita e seus "seis dedos".
A banda ainda participou de faixas dos álbuns de Gil e Caetano antes de, em 1969, lançar seu segundo disco. Agora retirando o artigo "Os" do nome, Mutantes chegou as lojas escandalizando a sociedade paulista e brasileira, já que Rita aparece na capa do disco vestida de noiva, mas com um detalhe: uma noiva grávida (forte para os padrões culturais da época). Na contra-capa, temos os integrantes fantasiados de ETs, sendo que Rita esta com seis dedos.
A contribuição de Duprat nesse álbum diminuiu consideravelmente, mas o que não diminuiu o trabalho dos garotos, pelo contrário, eles já estavam prontos para galgar horizontes maiores, contando agora com o baterista Dinho "Du Rancharia" Leme. O sucesso de seu segundo álbum, regado com as diversas participações em festivais, fizeram com que Rita Lee se tornasse uma musa para os fãs, chamando a atenção também de diversas gravadoras.
Em Mutantes, estão clássicos como "Don Quixote", "Mágica", "Qualquer Bobagem", "Rita Lee", "Caminhante Noturno" e a colaboração com Tom Zé, "2001". Além disso, a canção "Algo Mais" acabou sendo utilizada em diferentes propagandas televisivas da gasolina shell, onde Rita, Sérgio e Arnaldo são os protagonistas.
Compacto de Caetano Veloso com participação dos Mutantes (1968)
Nos festivais, os Mutantes começaram a ganhar notoriedade desde o início, como citado na primeira parte. Em 1968 eles acompanharam Caetano na interpretação de "É Proibido Proibir", no II Festival Internacional da Canção, organizado pela Rede Globo. No mesmo festival eles defenderam uma canção própria da banda, no caso "Caminhante Noturno", o que gerou certas turbulências para a emissora, já que diversos compositores enviaram um abaixo-assinado para a mesma protestando contra a participação dos Mutantes.
"Dom Quixote" foi defendida no IV Festival da Música Popular Brasileira, organizado pela Record, e contou com a participação do grupo Anteontem 56 e meio, o qual era o embrião da famosa Joelho de Porco. A banda ainda registraria o compacto "Glória Ao Rei dos Confins do Além", em 1968, e faria uma ponta no filme "As Amorosas", onde interpretaram "Misteriosas Rosas Brancas" e "O Tigre", sendo que Rita teve um papel de, digamos, destaque em comparação aos demais integrantes dos Mutantes.
Mutantes em festival de 1970 (já com Liminha, a direita, sentado)
Após o lançamento de Mutantes, foram convidados a participar de uma feira na França, onde apareceram até na TV do país, agora contando com o novo integrante, Dinho, na bateria.
Ando Meio Desligado ou A Divina Comédia, com o túmulo de isopor (acima) e a polêmica contra-capa do mesmo álbum (abaixo)
A passagem pela França influenciou direto os garotos, que voltaram a mil para o Brasil, lançando o antológico e marcante A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado. Já na capa, uma visão do inferno de Dante, com Arnaldo saindo de uma tumba feita de isopor e com muito gelo seco, mais uma ideia do irmão Cláudio. Nos sulcos do vinil, os Mutantes começavam a mostrar cada vez mais a evolução individual de cada um, com Arnaldo concentrando-se em novos sons para os teclados e com Sérgio fazendo solos cada vez mais elaborados.
Os grandes destaques desse LP ficam por conta de "Ando Meio Desligado", "Meu Refrigerador Não Funciona", "Desculpe Babe", "Ave Lúcifer", "Haleluia" e "Oh! Mulher Infiel". O grupo fez uma debochada versão para a clássica "Chão de Estrelas" (de Silvio Caldas e Orestes Barbosa), e acabou gerando problemas com a conservadora sociedade brasileira, que acabou destruindo diversas cópias do vinil em praça pública, alegando que tal obscenidade com um clássico da canção popular brasileira não poderia ser admitido.
Antes disso foi lançado o primeiro trabalho solo de Rita Lee. "Build Up" tem a participação dos Mutantes em todas as faixas, mas, perto do que eles haviam feito com A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado, é um álbum relativamente fraco.
Se em A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado os Mutantes rasgaram o cordão umbilical que os prendia a sua carreira inicial, foi em Jardim Elétrico que se tornaram respeitados também como músicos. O álbum começou a ser gravado em uma nova incursão pela França. A ideia era lançar os Mutantes como banda também na Europa, fazendo então um álbum totalmente voltado para a indústria fonográfica européia. O problema barrou na falta de critério para a seleção das músicas, bem como na falta de apoio financeiro para os integrantes (que agora já eram cinco) permanecerem na França. O álbum ficou engavetado por anos, sendo lançado somente em 2000 com o nome de Tecnicolor.
Mutantes em Paris: Arnaldo, Sérgio, Rita, Dinho e Liminha
Voltando ao Brasil, participaram do Som Livre Exportação e excursionaram por várias cidades do país, além de estarem cada vez mais envolvidos com o LSD. Nessa época decidiram criar uma "comunidade mutante" na serra da cantareira (o que viria a ser copiado depois pelos Novos Baianos), onde passaram a se chapar e ensaiar (não nessa mesma ordem) direto. O ponto de extase era tão grande que certo dia o caminhão de som da banda pegou fogo e eles nem perceberam. Enfim, no início de 71 lançam o álbum Jardim Elétrico, com os cinco integrantes posando na contra-capa. O álbum traz algumas canções gravadas na França ("Vírginia", "El Justiciero" e " Tecnicolor") e outras compostas já na fase cantareira, destacando "Top Top", "Portugal de Navio", "Benvinda" e "Jardim Elétrico".
Jardim Elétrico foi uma pedrada nos críticos, que diziam que os Mutantes era somente Rita Lee. Arnaldo está impecável nos teclados e Serginho nas guitarras, enquanto a cozinha, com Liminha e Dinho, funcionou muito bem. Rita se tornava cada vez mais "um membro" da banda, sendo que o seu único talento realmente era a voz.
Com o passar do tempo na Cantareira, os Mutantes decidiram se embrenhar em uma turnê pelas cidades do interior de São Paulo, munidos de seus instrumentos e de um ônibus. Esses shows começaram em Guararema (onde foram tiradas as fotos que aparecem no segundo álbum solo de Rita) e passaram por mais algumas cidades.
O excelente Mutantes e seus Cometas no País dos Bauretz
Após essa rápida turnê, a banda gravou seu quinto e mais controverso álbum, Mutantes e seus Cometas no País dos Baurets, no início de 1972. O disco já começou a ter problemas de cara com a censura, que podou a faixa "Cabeludo Patriota", a qual teve o nome alterado para "A Hora e a Vez do Cabelo Nascer". Além disso, o álbum mostrava que, com exceção de Rita, os Mutantes estavam sendo guinados para a nova vertente musical que crescia na Europa, o rock progressivo, sendo influenciados diretamente por Yes e Pink Floyd.
Descontente com o que estava acontecendo, não só com a banda mas também com sua vida pessoal (Arnaldo tornava-se cada vez mais agressivo e infiel), Rita passou a projetar sua carreira solo. Ainda em 1972 foi lançado o seu segundo disco, Hoje é o Primeiro Dia do Resto da sua Vida, que também conta com a participação dos Mutantes e é bem melhor que o primeiro. Esse LP tem pérolas como "Tapupukitipa", "Beija-Me Amor" e Superfície do Planeta", mas o que parecia uma realidade acabou tornando-se uma ilusão.
Rita não tinha mais moral nenhuma com a banda. Em uma ida à Europa, voltou com um minimoog e um mellotron, mas quando foi tentar usar em um ensaio virou alvo de chacota por parte dos outros integrantes. Além disso, problemas internos como falta de criatividade, briga com empresários e também os excessos de Arnaldo fizeram com que no final de 72 Rita pedisse o boné (ou os Mutantes dessem o boné para Rita, ninguém sabe realmente o que aconteceu), seguindo uma carreira solo de sucesso, enquanto os demais passaram a dedicar somente a virtuose e ao progressivo, esquecendo o passado de vez.
Mutantes pós-Rita: Liminha, Dinho, Arnaldo e Serginho (1973)
Antes da saída dos Mutantes, Rita ainda registrou o compacto "Mande um Abraço pra Velha", uma das melhores composições do grupo, que infelizmente ficou reservada à relíquia de colecionadores. Rita partiu dessa pra uma melhor (seguindo carreira com o Tutti Frutti), enquanto os quatro integrantes restantes trancaram-se no estúdio para a realização de uma obra conceitual, o álbum O A E O Z, que originalmente era para ser um álbum duplo com um dos LPs sendo totalmente preenchido pela faixa "O A E O Z". Porém, o disco acaba não sendo lançado devido ao fato de a gravadora da banda considerá-lo anti-comercial (detalhe, o Yes fez o mesmo com Tales From Topographic Oceans e se tornou o disco mais vendido dos ingleses).
Era o ano de 1973 e Arnaldo então saía dos Mutantes, cansado principalmente dos seus abusos, com problemas de saúde, e foi lançar o maravilhoso Lóki?, onde levou consigo Liminha e Dinho. Por um tempo Liminha e Dinho permaneceram com Serginho e o novo tecladista, o multi-instrumentista Manito. Dinho foi o primeiro a sair, sendo substituído por Rui Motta, enquanto Manito não durou muito também, sendo substituído por Túlio Mourão.
Sessões para Tudo Foi Feito Pelo Sol. Acima: Rui Motta, Túlio Mourão, Sérgio Dias e Antônio Pedro de Medeiros (1974); abaixo, os mesmos personagens ensaiando no Rio de Janeiro (1974)
A banda entrou em estúdio para a gravação de um novo LP, mas, no meio destes, Liminha saiu, sendo substituído por Antônio Pedro de Medeiros. Com essa formação, lançam em 1974 o álbum Tudo Foi Feito Pelo Sol. Totalmente inspirados por Yes, o álbum já traz de cara uma bela capa, além de músicas muito mais elaboradas e longas. O grupo então passou a dedicar-se mais a shows, os quais, talvez pelo sucesso do progressivo em nossas terras, estavam sempre lotados de fãs ardorosos, mesmo com o álbum não tendo vendido muito. Além disso, os Mutantes viraram uma referência nacional para diversas bandas que começavam a surgir, como Módulo 1000, Som Nosso de Cada Dia, O Peso e Terreno Baldio, sendo sempre convidados para o encerramento de grandes festivais, como o Hollywood Rock de 1975.
Mutantes em Milão: Luciano Alves, Rui Motta, Paul de Castro e Sérgio Dias (1976)
Em 1976 o grupo sofreu uma nova reformulação, agora contando com Luciano Alves nos teclados e Paulo de Castro no baixo, ambos, ex-membros do grupo Veludo Elétrico. Durante esse período, realizaram uma temporada de shows no Museu de Arte Moderna, onde foi registrado o primeiro álbum ao vivo, intitulado somente Ao Vivo. Infelizmente, a gravadora novamente podou o disco, mas dessa vez lançou o mesmo, só que de uma forma diferente do que era previsto (uma versão simples ao invés da versão dupla) e contendo inúmeros cortes nas faixas, que, se no show duravam quase dez minutos, passaram a ter pouco mais de 3 ou 4 na versão final do LP, desagradando a todos. Mesmo assim, o álbum trás um ótimo material (servindo de base para colecionadores buscarem bootlegs dessa época), como "Sagitarius", "Esquizofrenia", "Tudo Explodindo" e a clássica "Rock'n'Roll City".
Os dois álbuns da fase progressiva: Tudo foi Feito Pelo Sol (acima) e Ao Vivo (abaixo)
Serginho seguiu com o grupo até 1978, passando por diversas reformulações. O último show, realizado na cidade de Ribeirão Preto, acabou sendo registrado no bootlegTransmutation, cobiçado até mesmo na Europa. Serginho seguiu uma carreira solo de não muito sucesso, mas continuou a mostrar seu talento e a ser reconhecido, principalmente nos EUA e na França.
Na década de 80 inúmeros boatos de uma reunião do trio original surgiram, mas os graves problemas de saúde de Arnaldo, bem como o ego de Rita, nos privaram (e privam) dessa improvável reunião.
O álbum perdido: O A E O Z; gravado em 73, lançado 20 anos depois
Nos anos 90 um revival Mutante ocorreu, devido a pessoas como Sean Lennon, Kurt Cobain e David Byrne, que levaram os álbuns dos Mutantes para o exterior, fazendo com que muitos brasileiros voltassem a ouvir o som do grupo novamente. O disco O A E O Z finalmente foi lançado, porém numa versão mais compacta, com metade das músicas, mas fica claro que o trabalho que a banda realizou no ano de 1973 era muito bom, em músicas como "Rolling Stone", "Ainda Vou Transar com Você" e as três partes da suíte "O A E O Z": "O A E O Z", "Hey Joe" e "Uma Pessoa Só", onde a idéia de um grupo unido é pregado de forma veemente, e o belo trabalho da banda é destaque certo para aquele fã que deseja conhecer o que de bom foi feito no Brasil . Até hoje espera-se o resto da obra, mas poucos sabem o que pode acontecer (ou na verdade o que aconteceu) com o material original.
O álbum gravado na França também foi lançado, no ano de 2000, com o nome de Tecnicolor, trazendo as versões que saíram no "Jardim Elétrico" e mais diversas regravações em inglês para músicas como "Panis Et Circensis", "She's My Shoo-Shoo" ("Minha Menina"), "I'm Sorry Baby" ("Desculpe Baby"), "I Feel a Little Spaced Out " ("Ando Meio Desligado"), entre outras.
Em 2006 o grupo se reuniu para um show comemorando os 40 anos da Tropicália, contando com Serginho, Arnaldo, Dinho e mais Zélia Duncan nos vocais, além dos músicos Henrique Peters (teclados), Simone Soul (percussão), Vinícius Junqueira (baixo), Vitor Trida (teclados, guitarras, viola caipira, baixo), Esméria Bulgari (vocais) e Fábio Recco (vocais).
Liminha e Rita infelizmente não quiseram participar da reunião, que acabou sendo registrada no CD Live At Barbican Center. Após esse show, os Mutantes fizeram uma série de shows pelos Estados Unidos, se apresentando no Webster Hall (Nova Iorque), Hollywood Bowl (Los Angeles), Fillmore (São Francisco), Moore Theatre (Seattle), Pitchfork Music Festival (Chicago) e Cervantes Masterpiece Ballroom (Denver). Ainda em 2006, a gravadora Universal re Ainda naquele ano, a gravadora Universal remasterizou todos os disco da banda dos anos de 1968 e 1976 através das fitas originais.
A volta com Dinho, Zélia Duncan, Sérgio Dias e Arnaldo Baptista (2007)
Em 25 de janeiro de 2007, depois de quase 30 anos, voltam a se apresentar no Brasil durante o aniversário de 453 anos da cidade de São Paulo, levando mais de cincoenta mil pessoas para o parque do Museu do Ipiranga, começando então uma gigantesca turnê pelo país, arrancando lágrimas de muitos fãs (inclusive quem vos escreve). Em setembro, Zélia, alegando querer dedicar mais tempo para sua carreira solo, e Arnaldo, alegando tempo para projetos pessoais, acabaram saindo do grupo.
Formação dos Mutantes em 2010: Fábio, Sérgio, Bia, Vitor, Dinho, Vinícius e Henrique
Porém, Sérgio e Dinho reformularam os Mutantes. Efetivando Henriqu, Vitor, Vinícius e Fábio, além de adicionar a talentosa vocalista Bia Mendes, o grupo lançou em 25 de abril de 2008 o single "Mutantes Depois", a qual se tornou a primeira composição dos Mutantes a ser gravada depois de trinta anos. A canção foi colocada para download gratuito no site da banda, e esteve presente na trilha da novela Os Mutantes, da TV Record.
Haih ... or Amortecedor, lançado primeiramente apenas no exterior
Os Mutantes mostraram ao Brasil e ao mundo como era possível fazer um som excelente em um país tão precário em termo de apoio à cultura, sendo reconhecidos de forma unânime como a maior banda do rock nacional e uma das principais bandas do mundo.