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sábado, 18 de julho de 2026

Ronnie Von - Ronnie Von [1972]


De um fracasso retumbante no final dos anos 60 a um sucesso cult extraordinário anos depois, Ronnie Von foi obrigado a modificar sua carreira musical diversas vezes. E em uma delas, ele foi tão audacioso quanto sua Trilogia Psicodélica. Com produção de Arnaldo Saccomani, Ronnie Von é - mais um - disco revolucionário na carreira de Ronnie. 

Ronnie em 1972. Tentando voltar ao sucesso?

Muito se fala da famosa Trilogia de Ronnie, a qual, no final dos anos 60, chocou os (e principalmente as) fãs do Pequeno Príncipe. Os discos Ronnie Von (1969),  A Misteriosa Luta do Reino de Parassempre contra o Império de Nuncamais (1969) e A Máquina Voadora (1970) tornaram-se célebres álbuns cult dentro da discografia do niteroiense Ronaldo Lindenberg Von Schilgen Cintra Nogueira, o nosso querido aniversariante (completou ontem, 17 de julho, 82 anos) Ronnie Von, por mudar uma sonoridade ligada ao rock juvenil e ingênuo de seus três primeiros discos, e mostrar uma lisergia, rancor e raivas até então nunca antes ouvida em discos de grandes artistas nacionais. 

Não mesmo. Ronnie ainda desafiou os fãs com uma obra incrível e anti-católica

A Trilogia Psicodélica levou Ronnie do sucesso ao ostracismo em apenas dois anos, vendendo quase nada e tornando os discos originais de época verdadeiras relíquias nas mãos de colecionadores com o passar dos anos, além de virar material de consulta para fãs e admiradores do rock nacional. As capas alucinógenas ajudaram ainda mais a afastar os conservadores seguidores de Ronnie, e hoje, felizmente, os três álbuns passaram a serem reconhecidos como alguns dos melhores lançamentos de rock nacional na história. 

Mas, no início da década de 70, a pressão da gravadora Polydor para que ele voltasse a fabricar um disco que vendesse era enorme. Eis que em 1970, Ronnie teve um contato mais próximo com o espetacular músico Tony Osanah. O ex-líder dos Beat Boys, famoso por acompanhar Caetano Veloso no álbum de estreia solo do baiano (1967), estava envolvido com a cultura afro-brasileira, principalmente do ponto de vista religioso e a umbanda. Nela, ele conheceu a história de um orixá que cuidava das matas e do verde, Oxóssi, e que segundo o próprio Osanah, o inspirou para criar uma "canção que surgiu inesperadamente, ao dedilhar o violão e ter ela pronta em cinco minutos". 

“Minha Gente Amiga” (acima) e “Hei Amigo” (abaixo),
compactos de Ronnie em 1971, indicando a sonoridade que iria vir em 1972

Ao longo de 1971, Ronnie pensava em como retomar a carreira, e para isso, lançou os compactos "Minha Gente Amiga"/"Segundo Motivo" (a mesma "Minha Gente Amiga" que foi regravada pelo Ira! em 1999) e "Hei Amigo"/"É Preciso Aprender", as quatro canções compostas ao lado de Antonio Pedro, apelidado San Martin. Musicalmente, o som traz um Ronnie mais ligado à musica latina, que irá ser ampliado no trabalho de 1972. Estas canções trazem a presença marcante de percussões na linha de grupos como Santana, com apenas "Segundo Motivo" sendo uma balada lindíssima, que lembra os primeiros trabalhos do cantor. Destacam-se aqui os vocais rasgados de Ronnie, algo bem diferente do estilo que ele cantava em seus trabalhos anteriores, além da presença de guitarras lisérgicas/californianas e um hammond endiabrado nas quatro canções. 

Cartaz de divulgação do filme (acima); Ronnie e Marlene França (abaixo),
em cena de Janaína, A Virgem Proibida

Ao mesmo tempo que lançava os dois compactos, Ronnie investiu no cinema. Assim, no final do ano, e início do ano seguinte, participa como ator do filme A Virgem Proibida, de Olivier Perroy. Lançado em 1972, nele Ronnie faz o papel de um artista de sucesso, Ricky Ricardo, o qual decide abandonar a carreira, atormentado pela vida desenfreada dos grandes centros e do convívio com os fãs. Assim, ele foge para as paradisíacas praias de Salvador. Lá, ele acaba se apaixonando por Janaína (Marlene França), uma linda mulher que no fundo é Yemanjá. O filme traz inspirações na cultura afro-brasileira, e uma das canções presentes na trilha do mesmo é "Cavaleiro de Aruanda", a célebre canção de Tony Osanah.

Tony Osanah, o gênio por trás de “Cavaleiro de Aruanda”

A canção surgiu em fevereiro de 1972, quando Osanah teve um inesperado encontro na calçada em frente ao antigo prédio do Mappin, na Praça Ramos de Azevedo, centro de São Paulo. Naquele dia, ele esbarrou em um desconhecido, que "... olhou pra mim e falou que eu precisava de ajuda. Ele parecia um velho índio. Pediu para eu acompanhá-lo e disse que eu nem imaginaria o que ia acontecer na minha vida nos próximos meses". O homem era um pai-de-santo, e levou Osanah para um terreiro. Lá, ele teve uma experiência que até hoje não consegue descrever, mas que quando o músico argentino voltou para casa, "recebeu" a letra e a melodia de "Cavaleiro de Aruanda", sendo que ele afirma que "ela foi psicografada para mim"

Enquanto Osanah tinha seus encontros espirituais, o produtor Arnaldo Saccomani sugeriu a Ronnie buscar auxílio em nomes como o de Tony, e no encontro dos dois, perguntando para Tony se ele poderia colaborar no próximo trabalho, a primeira música a ser apresentada foi "Cavaleiro de Aruanda", que sai na trilha do filme, e também é lançada no raro compacto com . Começava ali a criação de outro disco fantástico na carreira do Pequeno Princípe.

Single de “Cavaleiro de Aruanda”

Ronnie Von chegou às lojas na segunda metade de 1972, e abre com "Cavaleiro de Aruanda". O ritmo percussivo avassalador e a guitarra lisérgica de Osanah nos remetem fácil ao Santana de início de carreira. A bateria e as percussões comandam o ritmo, e Ronnie gasta sua voz, acompanhado por um excelente backing vocal feminino, enaltecendo o cavaleiro do mundo espiritual da umbanda. Quem esperava que Ronnie voltaria calmo, com canções românticas para reconquistar seus fãs, logo de cara vê mais um grande desafio e provocação para seu público com as religiões africanas, e ainda, fazendo uma crítica à Igreja Católica e seus preconceitos.

"Hare Krishna" é mais uma canção com temática religiosa, dessa vez, composta por Ronnie e San Martin. Ronnie estava influenciado por George Harrison, bem como as decepções do beatle com Maharishi, e obcecado lendo Baghavad Gita e O Livro dos Vedas. A letra também afronta o catolicismo "salve o mundo de muitos deuses", e a canção traz os vocais femininos exageradamente gritados, baseada em apenas dois acordes, com um ritmo latino das percussões retomando "Minha Gente Amiga" e "Hei Amigo", onde a guitarra de Osanah é o que brilha. As percussões também estão presentes em "Camping", um rockaço no qual Ronnie está cantando com sua voz bastante rouca e rasgada, em um ritmo que lembra algo do Captain Beyond de Sufficiently Breathless

Compacto angolano de “Aquela mesma Canção”

A dupla Ronnie e San Martin faz a baladinha "Aquela Mesma Canção", essa fácil fácil a mais comercial do disco, que poderia estar nos primeiros discos de Ronnie, assim como "Tereza Cristina", faixa de amor criada por Arnaldo Saccomani para sua namorada, recheada pelo arranjo orquestral de Briamonte. 

De Ronnie e San Martin temos também a jazzística "Eu Era Humano E Não Sabia", outra com a orquestra sendo uma atração a parte, assim como a linha de baixo e o piano. Ronnie novamente está cantando muito, e a guitarra de Osanah brilha fazendo os acordes bases. "Roke Pros Meus Nervos (Nada Neste Mundo)" é uma faixa que me lembra muito o que O Peso faria anos depois no álbum Em Busca Do Tempo Perdido, com aquela pegada Stones no instrumental, e os vocais rasgados e roucos de Ronnie. 

De Eduardo Araújo e Marcos Durães, Ronnie grava "Veja Com Olhos De Ver", um rock com um riff pesado - sim, Eduardo Araújo também teve sua fase roqueira - onde a guitarra de Osanah e o baixo (seria de Willy Verdaguer?), fazem as bases para Ronnie soltar a voz. Essa faixa é carregada de emoção, seja pelos vocais arrebatadores de Ronnie, seja pelos vocais femininos, seja pelo refrão poderoso, pesadíssimo, ou seja pelo quarteto baixo, bateria, piano e guitarra. As alternâncias de andamento são fenomenais. Preste atenção no que Ronnie faz com sua voz na segunda parte, indo de graves à falsetes. E cara, que refrão massa. Uma das melhores canções registradas pelo cantor, cujo final me lembra muito o que o Deep Purple faria depois em "Mistreated". Pena não saber quem é o baterista aqui, pois o cara demole!

Single de “Tempo de Acordar”

Outra que Ronnie está cantando pra caramba é na dolorida balada "E Essa Gente Passa Cantando", uma fabulosa canção, com um arranjo orquestral fenomenal, um arrepiante vocal de apoio, e Ronnie cantando a la Joe Cocker, rasgando sua voz, em gritos dilacerantes. Que música! 

Retomando o lado comercial, Ronnie traz uma boa versão para "I'll Cry My Heart Out For You", batizada de "Tempo de Acordar". A faixa, original de Neil Lancaster e Cliff Corbertt, destaca o piano e uma bela interpretação de Ronnie, além do fantástico arranjo orquestral de José Briamonte. Por fim, aprecie o lado zeppeliano dos violões e da flauta na lindíssima "Céu Vermelho", e ainda, para fechar o álbum, tem mais um rockaço, "Ninguém Vai Me Segurar", embaladão, com um ótimo ritmo de baixo e bateria, e o piano saltando nas caixas de som, lembrando algo de Chicago, porém sem naipe de metais. 

Single português de "Aquela mesma Canção"

Além de "Cavaleiro de Aruanda", tendo "Tereza Cristina" no lado B e que saiu também em Portugal e no Uruguai, foram lançados os compactos de "Tempo de Acordar" (com "Aquela Mesma Sensação" no lado B), somente no Brasil, e em Portugal e Angola, o compacto "Aquela Mesma Canção", com "Ninguém Vai Me Segurar" no lado B. 

Ronnie Von foi um dos discos mais vendidos no Brasil em 1972 (estima-se que em torno de 100 mil cópias, algo que na época, era considerado um excelente número), puxado pelo sucesso de "Cavaleiro de Aruanda", mas acabou caindo no esquecimento com o passar do tempo. O álbum originalmente teria uma capa gatefold, mas acabou saindo em capa simples, com a imagem da gatefold original vindo em um pôster que acompanha o vinil (raríssimo hoje em dia). 

Ronnie em capa de revista de 1971 (acima) e
O gênio Tony Osanah (abaixo)

Após Ronnie Von, a vida de Osanah sofreu uma reviravolta. Ele relata: "Eu vivia sempre tentando alguma coisa nas gravadoras. Era muito jovem, já casado e despreocupado". Logo depois ele fez parte da banda de apoio dos Secos & Molhados, e então, fama e dinheiro entraram na vida do rapaz. Já Ronnie ainda lançaria mais um disco conturbado - e fantástico -, Ronnie Von (1973), antes de entrar de vez no mercado comercial de canções românticas e populares, indo então a naufragar sua carreira musical nos anos 80. 

Apesar do próprio Ronnie considerar um disco abaixo da trilogia psicodélica, eu discordo bastante. Ronnie Von tornou-se obscurecido pela grandiosidade e a busca pelo fenômeno cult de seus três antecessores, mas merece sim no mínimo (se não mais) o mesmo status que eles. Se você não conhece a obra de Ronnie Von entre 1969 e 1973, corra atrás para descobrir algo incrível e único lançado no país. Agora, se você nunca ouviu Ronnie Von, seja por preconceito, seja por puro desprezo, você não sabe o que está perdendo.

Pôster, com a imagem projetada para ser a capa gatefold (acima)
 e a Contra-capa do vinil (abaixo)

Track list

1. Cavaleiro De Aruanda

2. Tempo De Acordar (I'll Cry My Heart Out For You)

3. Veja Com Olhos De Ver

4. Eu Era Humano E Não Sabia

5. Camping

6. Aquela Mesma Canção

7. E Essa Gente Passa Cantando

8. Hare Krishna

9. Tereza Christina

10. Rock Pros Meus Nervos (Nada Neste Mundo)

11. Céu Vermelho

12. Ninguém Vai Me Segurar

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Zé Ramalho - Coletiva de Música Paraibana [2018]

Em 26 de maio de 1976, um dos momentos mais importantes, e menos conhecidos, da carreira de Zé Ramalho acontecia no palco do Teatro Santa Rosa, na Paraíba. Durante muitos anos se falou sobre o tal incidente no qual Zé supostamente "teria cortado os próprios cabelos em pleno palco durante um acesso de fúria e indignação", mas isso parecia mais uma lenda urbana, tal qual a associada ao álbum Paebirú, e seu misterioso desaparecimento das lojas por conta da enchente do rio Capibaribe em Pernambuco. 

Mas, eis que a gravadora Discobertas, através de uma verdadeira escavação nos arquivos pessoais do bardo paraibano, encontrou a tal apresentação, e em 2018, trouxe ao mundo no formato de vinil. Mas é a edição em CD, de 2021, que chama a atenção, por trazer o show praticamente na íntegra, e o tal momento lendário sendo conferido para ver como realmente foi o que aconteceu naquela noite quente em João Pessoa. 

Raro compacto do The Gentlemen

Até chegar o dia 26 de maio de 1976, é necessário contextualizar o momento pelo qual Zé passava na época. José Ramalho Neto torna-se Zé ramalho muito cedo. Tendo perdido o pai ainda criança, o menino da Paraíba foi criado pelo avô, que lhe passou ensinamentos sobre culturas e tradições do nordeste na quase provinciana João Pessoa dos anos 50 e 60. Quando adolescente, no final dos anos 60, Zé passa por alguns grupos, dentre eles Os Demônios - ainda estudante do colégio Pixo X -, Os Quatro Loucos, substituindo o guitarrista Vital Farias, com quem participou de festivais em João Pessoa, Eles e The Gentlemen, estas já no início dos anos 70, que levou Zé a sair do estado, tocando nas redondezas em cidades do Pernambuco e de Alagoas, inclusive gravando um compacto (Cristina) pelo selo Rozenblit, hoje, raríssimo, assim como seu único álbum, auto-intitulado, de 1972. 

Os anos passaram e Zé tenta buscar a sorte no Rio de Janeiro, onde participa da última edição do Festival Internacional da Canção, de 1974, e conhece Geraldo Azevedo, com quem iria fazer parcerias importantes tempos depois. Isolado em uma casa de praia, emprestada por uma tia, a qual batizou de Vila Do Sossego, Zé passa a criar canções que se tornariam sucesso em sua carreira, em um período que o próprio chama de Trimestre Das Revelações. Grava, ao lado de Lula Côrtes, o cultuado Paêbirú, com toda sua mitologia por trás da qual vou passar em branco aqui.

Zé na banda de Alceu Valença. Em ordem: Dircinho, Zé da Flauta,
Israel Semente, Paulo Rafael, Zé Ramalho,
Agricio Noya. Alceu Valença no centro

Em 1975, ano de lançamento de Paêbirú, Zé começa a chamar atenção do meio musical na cidade do Rio de Janeiro (RJ) como integrante da banda do cantor pernambucano Alceu Valença, destacando-se no Festival Abertura daquele ano, promovido pela Rede Globo. Foi nele que Marília Gabriela, apresentadora do mesmo, cunhou o nome Zé Ramalho da Paraíba. Participa como violonista do álbum Vivo!, lançado por Alceu Valença em 1976, mas um desentendimento com Alceu fez Ramalho deixar a banda e voltar para João Pessoa (PB). É lá que nosso herói decide investir em shows solo, cantando suas músicas. Em parceria com o poeta Pedro Osmar, organiza a Coletiva de Música Paraibana, e nela, Zé exorciza seus demônios de não ter vingado no Sul, preparando um roteiro que iria abalar à todos os que o conheciam, utilizando uma tesoura para tosquear seu passado em pleno palco, como protesto contra a mídia, e tendo uma surpresa extra nessa sua manifestação. 

Lançado em vinil originalmente no ano de 2018, e em CD em 2021, com duas bônus, o show conta apenas com Zé na voz e violões, e abre com "O Sobrevivente", no qual Zé entoa o poema de Carlos Drummond de Andrade, contando sobre as dificuldades de se ser um artista, mostrando já a animosidade e decepção que corria pelo sangue de Zé naquele tempo. Seguimos com "Jardim Das Acácias", levada apenas pelo violão de Zé, e muito fiel ao que viemos conhecer, algum tempo depois, no álbum A Peleja Do Diabo Com O Dono Do Céu (1979), mas com mais improvisos vocais, que fazem a canção atingir nove minutos, levando ao primeiro discurso de Zé na noite, "Discurso 1", que é o primeiro bônus do CD. 

Zé no polêmico show de 50 anos atrás

Zé começa falando que "é um dia muito bonito, importante para falar um monte de coisas para vocês ... " e assim ele começa a fazer seu discurso a favor dos artistas paraibanos, que sofrem o preconceito das mídias, taxados de marginais e maconheiros, repudiados, e que a coletiva paraibana surge para firmar o lugar do músico paraibano. As forças das palavras de Zé impactam, detonando os críticos de música e defendendo o artista paraibano, e na sequência, ele chama ao palco dois músicos que irão lhe acompanhar na próxima canção, Paulinho e Israel, e emenda, emocionado, que "essa música que nós vamos tocar é muito especial para mim, permita-me abusar disso, Mas é que há três dias atrás faleceu meu avô, talvez a única criatura honesta que eu tenha conhecido no mundo, foi ele quem me criou, saindo do sertão, do brejo. Eu nunca tive pai, então vovô fez o papel de avô, de pai, e antes de morrer, fez o papel de filho também, para mim. Avôhai é uma palavra mágica, significa avô e pai. Vovô, esteja em paz, e tenho certeza que está aqui, me olhando". Com mais de dez minutos de duração, "Avôhai" é uma dolorida declamação de amor ao avô-pai de Zé Ramalho, surgindo com um tema nordestino na viola e nas vocalizações, seguindo com os acordes atemporais de um dos maiores sucessos da carreira do paraibano, acompanhado aqui apenas pela percussão e violão. 

Chegamos então no ponto de êxtase do show, registrado como "Discurso 2", o segundo bônus do CD, e que é o momento no qual Zé, descrente de seu futuro como artista, começa seu sacrifício, e que chegou a hora da tesoura. Então, ele explica que "durante sete anos, esse cabelo de louco representou para essa cidade ... em cada fio de cabelo desse daqui, tem dez histórias para contar". Enquanto ele vai fazendo seu discurso, ele começa a cortar seu cabelo em pleno palco, um cabelo cuidado durante 7 anos. A plateia, embasbacada, reage de forma incomodada enquanto ouvimos o discurso agressivo de Zé, e os "tics" da tesoura cortando as "belas madeixas carregadas de piolho, lacraias, lama". Zé provoca a plateia, chegando a se irritar com um dos presentes que o provoca: "quer vir cortar meu irmão, queria que vocês encarassem isso com muito respeito, por que se você nunca teve peito de deixar um cabelo crescer assim, você fique na sua meu irmão", e segue exalando sua tristeza, sua decepção, sua raiva e frustração, cortando o cabelo, fazendo seu sacrifício. 

"Vocês passariam sete anos, criando um filho, para depois matá-lo?". Enquanto corta o cabelo, citando Sansão, surgem um momento que a plateia acaba não resistindo, caindo em risadas quando um dos presentes diz que "mas eu que queria cortar" e Zé responde "chegue amor, venha, vou lhe dar um beijo na sua boca ... vem mostrar que você é paraibano". Zé faz uma crítica ao fato de o chamarem de Zé Ramalho da Paraíba, e encerra seu ato quebrando uma TV em pleno palco (infelizmente não registrado no CD e tão pouco no LP), dedicando uma homenagem para o colega Alceu Valença, entoando então a bela "Espelho Cristalino", junto de "Adeus Segunda-Feira Cinzenta", canção de Alceu Valença unida a obra criada pelo próprio Zé em mais de nove minutos de lindas explorações musicais nos violões e na interpretação dolorida dos vocais do paraibano. 

Texto no encarte do CD

Fechando o show, "A Dança Das Borboletas", outra parceria de Zé com Alceu, com um clima bastante soturno em sua introdução, no qual novamente Zé usufrui de interessantes vocalizações, e a interpretação hipnotizante do violão torna os quase dez minutos da canção uma perfeita ode ao musicalismo do interior da Paraíba, além de fazer citações ao cangaço e também entoar trechos de "Vem Vem", de Geraldo Azevedo

São as presenças dos "Discursos" os pontos principais desta edição em CD, pois são registros históricos de um momento ímpar na carreira de Zé, e que haviam aparecido no CD Zé Ramalho Da Paraíba, de 2008, mas agora surgem exatamente do momento onde foram entoados. Na sequência, no segundo semestre de 1976, Zé, determinado a buscar um novo destino em sua vida, montou seu show de despedida de João Pessoa (PB), Um dia Antes da Vida (registrado no CD homônimo, também lançado pela gravadora Discobertas), que fecha o ciclo inicial da trajetória artística do cantor na sua terra natal. Dois dias depois deste show,  embarcou para o Rio, onde, através da indicação de Nelson Motta, assina contrato com a gravadora CBS (via selo Epic) para fazer, em 1977, o primeiro álbum solo, Zé Ramalho, lançado em 1978.

Dali em diante, Ramalho virou nome nacional na MPB e essa fase inicial em João Pessoa (PB) se tornou a pré-história da carreira do cantor, deixando uma história pouco conhecida fora da Paraíba, e que felizmente foi resgatada para o deleite dos fãs e dos admiradores da Música Nacional Brasileira. Busque este e outros lançamentos da Discobertas (em especial, Atlântida, Um Dia Antes da Vida e Cine Show Madureira 1979), e descubra uma das melhores fases de um artista nacional, principalmente por ser embrionária, crua, e simplesmente dilacerante. 

Contra-capa do CD

Track list

1. O Sobrevivente

2. Jardim Das Acácias

3. Discurso 1

4. Avôhai

5. Discurso 2

6. Medley: Espelho Cristalino / Adeus Segunda-Feira Cinzenta

7. A Dança Das Borboletas

terça-feira, 26 de maio de 2026

40 Anos de The Final Countdown

Há 40 anos, o mundo da música voltava seus olhos para a Suécia. Depois de 5 anos do fim do ABBA, o país escandinavo conseguia novamente colocar sua bandeira entre as maiores nações da música, batendo de frente com Estados Unidos e Inglaterra, através de um disco que marcou época: The Final Countdown. O terceiro disco do Europe foi lançado em 26 de maio de 1986, e alcançou nada mais nada menos que a oitava posição na parada da Billboard estadunidense, bem como primeira posição em diversos países europeus, além de várias posições altas em diversos outros charts mundo afora. 

O Europe era uma banda de relativo sucesso dentro do mercado sueco. Com dois discos lançados (Europe, de 1983, e Wings of Tomorrow, de 1984), em 85 ocorre uma grande mudança na formação do Europe. Sai o baterista Tony Reno e entra Ian Haughland, além do tecladista Mic Michaeli, tornando o quarteto Europe agora um quinteto. Ao mesmo tempo, o grupo já estava começando a preparar o novo álbum, que tinha como principal objetivo tentar conquistar o - complexo - mercado estadunidense. 

Cartaz de On the Loose,
destacando Joey Tempest

As primeiras canções escritas foram "Rock the Night" e "Ninja", as quais surgiram durante a turnê de divulgação de Wings of Tomorrow. Porém, ainda em 1985, algo acontece que muda totalmente a história do Europe. O diretor Staffan Hildebrand convida Joey Tempest, vocalista do grupo (vale aqui lembrar os outros músicos da banda, John Norum na bateria e John Levén no baixo, além de Haughland e Michaeli, sendo esta a chamada formação clássica dos suecos) para fazer a trilha sonora do filme On The Loose

Tempest entregou a faixa solo "Broken Dreams", que junto com "Rock the Night" e "On the Loose", saíram em um EP, em abril de 1985, que era vendido nos cinemas suecos antes da apresentação do filme, e hoje tornou-se uma raridade cobiçada pelos fãs, principalmente fora da Escandinávia. O grupo também aparece no filme, interpretando ao vivo "Rock the Night", que também saiu em um single exclusivo (com uma regravação de "Seven Doors Hotel", faixa do primeiro disco da banda, no lado B), e isto fez grande sucesso, levando o single de "Rock the Night" a alcançar número 4 nas paradas suecas. 

Devido ao enorme sucesso de On the Loose e "Rock the Night", o Europe saiu para uma grande turnê em sua terra natal durante todo 1985, apresentando três novas canções: "Danger on the Track", "Love Chaser" e a balada "Carrie", que inicialmente era apenas com teclados e vocais. Ao mesmo tempo, novas canções começavam a surgir. Eis que então, após a longa turnê, e com mais algumas canções na bagagem, o grupo entra nos estúdios para gravar seu terceiro e grandioso disco, em setembro de 1985, no Powerplay Studios de Zurich, Suíça, tendo como produtor o estadunidense Kevin Elson, o qual tinha no currículo o Journey, e sabia a receita de como "conquistar" o mercado dos EUA.

O Europe no encarte de The Final Countdown

Com mixagem no Fantasy Studios dos Estados Unidos, a cargo de Elson e Wally Buck, durante o março de 1986, além da masterização de Bob Ludwig na clássica Masterdisk, The Final Countdown chegou às lojas, como citado acima, exatamente em 26 de maio de 1986, e já abre com aquele que para mim é o maior clássico do grupo, a faixa-título "The Final Countdown". Tenho esta música como "Anna Julia" é para o Los Hermanos, ou "White Rabbit" é para o Jefferson Airplane, ou seja, uma canção atemporal de uma banda, mas que nada tem a ver com a banda em si, sendo basicamente totalmente diferente de tudo o que foi feito antes ou depois, mas que mesmo assim, é inegável sua importância, goste ou não. 

Single de "The Ginal Coutdown"

"The Final Countdown" começa com os barulhos de sintetizadores que levam para um dos mais conhecidos riffs de teclados de todos os tempos, em um crescendo mágico (na linha do que é a introdução de "Mr. Crowley", de Ozzy Osbourne), trazendo então o Europe no ritmo cavalgante, para a repetição do riff intodutório. Esse riff havia sido criado anos antes por Tempest, em uma brincadeira de estúdio provavelmente no final de 1981, início de 1982 que acabou evoluindo para algo que seria a faixa de abertura dos shows do Europe. Levén sugeriu que Tempest deveria escrever uma canção baseada naquele riff e assim, inspirado por "Space Oddity", de David Bowie, o vocalista criou  o maior clássico da história dos suecos. Os vocais de Tempest rememoram a história de Bowie, pegando exatamente da contagem final. É impossível não se contagiar pela canção, com backing vocals bem encaixados que facilmente nos fazem reproduzi-los, assim como a ampla citação ao nome da canção, que gruda literalmente na cabeça. 

Norum manda ver no seu solo, o qual considero ainda hoje o mais bonito de sua carreira, e voltamos para a intro, repetindo o refrão e concluindo uma das melhores músicas do hard oitentista com a voz de Tempest sendo repetida em sua mente, e o jogo já ganho a partir daqui. Uma nota adicional é que durante as gravações do álbum, Tempest teve uma reação alérgica a produtos com trigo, forçando o vocalista a mudar sua dieta para conseguir completar o álbum. Para se ter uma ideia, "The Final Countdown" teve os vocais gravados em Estocolmo, enquanto a banda permaneceu na Suíça, enquanto os vocais das demais canções foram regravadas, de última hora, na Califórnia. De qualquer forma, se tornou um baita sucesso! A canção tornou-se obrigatória desde então nas apresentações do grupo, tendo sido apresentada pela primeira vez no show que o grupo fez em Gävle, Suécia, em 29 de abril de 1986. Eu acho que ouvi essa música quando tinha três, no máximo quatro anos. Tenho uma vaga lembrança de sair - ou entrar - de um cinema na minha cidade, Pedro Osório, levado pelas mãos de minha mãe, e de ficar impressionado com aqueles teclados, e ainda hoje, passados 40 anos, me emociono sempre que ouço a canção, que automaticamente me traz uma saudosa memória de minha falecida mãe. Onde quer que ela esteja, além de minhas memórias, certamente ela foi uma das responsáveis por me tornar o colecionador de discos e aficcionado por música que me tornei.

Single de "Rock the Night"

Seguindo com o disco, Norum comanda o riff pesado e as alavancadas da intro de "Rock the Night", já presente no citado On The Loose. Para The Final Countdown, o Europe fez pequenas mudanças sonoras, tirando a parte mais crua do que foi gravado em 1985, e um pouco mais "limada". O baixo pulsa ao invés de cavalgar como em "The Final Countdown", e aqui, Tempest não está exagerando nos vocais, tornando a canção bem agradável do que está presente na bolachinha. Mais um refrão contagiante e grudento, e Norum fazendo dois solos bem virtuosos, com boa velocidade nos dedos. Se o jogo estava ganho em "The Final Countdown", aqui o Europe já está controlando totalmente o campo, e com apenas 15 minutos de audição, decreta a goleada sonora deste disco com a baladaça "Carrie".

Single de "Carrie"

Como ela era uma canção apenas para piano e voz, para The Final Countdown ela recebeu o time completo. O piano elétrico de Michaeli surge com outro riff inesquecível e mágico, para acompanhar a voz dolorida de Tempest, comentando sobre o fim de um relacionamento, lembrando que Carrie, a menina, nunca existiu de verdade - ao menos com este nome - segundo o vocalista. A entrada do Europe vai crescendo a canção, que explode no refrão entoando o nome de "Carrie", e pronto, estamos já fãs de Europe. Três canções que são a melhor representação do que foram os anos 80 musicalmente, com teclados e sintetizadores dominando as camadas sonoras, bases quadradas e simples de baixo e bateria, guitarristas fillers e repletos de virtuose, e um vocalista exageradamente gritante, e que para muitos, é exatamente o que torna os anos 80 terrível, mas para mim, é o espetáculo musical extremamente excelente. Ouçam o solo de Norum em "Carrie" e deleitem-se com algo simples, mas belíssimo, e a faixa encerra-se com uma bonita partipação dos teclados.

Voltamos aos hards mais tradicionais em "Danger on the Track", com um riff combinado de teclados, guitarras e baixo, sem ser no ritmo pulsante, e um ótimo trabalho vocal. Para quem ainda não pegou, o trabalho de construção do Europe mostra-se novamente simples mas grudento, com estrofe refrão-estrofe-solo construídos perfeitamente para o fã cantar. Admirem o solo de Michaeli aqui, lembrando bastante Jon Lord nos anos 70, já que ele utiliza um hammond para o tal, e também o bom solo de Norum, com muitos bends e velocidade. O lado A fecha com "Ninja", faixa mais veloz, cujo riff rapidamente me remete à "Lights Out" (UFO), em uma canção bastante animada, que também poderia figurar como trilha de Animes como Demon Slayer ou Naruto. Segunda faixa mais antiga do disco, eu curto bastante o solo de Norum aqui, utilizando notas mais agudas e vibratos. Podem me chamar de louco, mas tenho muita certeza que há forte inspiração em Michael Schenker para esta canção. 

Pôster que acompanha a versão original sueca
Single de "Cherokee"

O lado B surge com as batidas e o refrão grudento de baixo, guitarra e teclados para "Cherokee", faixa inspirada nos nativos americanos (mais um indicativo de quem eles queriam conquistar), sendo um hardão tipicamente oitentista, com os exageros vocais de Tempest tomando conta das caixas de som, e destacando o baixo marcante de Levén, além do forte refrão e dos belos solos de Norum e Michaeli, este último me remetendo facilmente ao solo de Eddie Van Halen em "Jump". Esta foi a última canção criada para o álbum, ficando pronta uma semana antes das gravações na Suíça, e acabou se tornando o quarto single a ser lançado daqui. Seguimos com os teclados e as vocalizações que abrem "Time Has Come", uma bonita balada inicialmente, que ganha bastante dramaticidade com a entrada do violão, mas, com a entrada da guitarra, baixo e bateria, torna-se outro potente hard oitentista, onde o solo de Norum aqui não é recheado de fillers, mas sim mais pegado e com belos bends e vibratos, como uma boa balada farofa exige.

O single de “On the Loose”,
ainda como trilha do filme

"Heart of Stone" mantém o padrão oitentista de refrão forte e muito teclado, mas aqui, com Norum fazendo mais estripulias em seu ótimo solo, até com uma pegada mais bluesy no início, mas detonando notas rápidas na sequência. A veloz "On the Loose" nos leva para a reta final do álbum, e também ao já citado filme, com outro magnifico solo de Norum, exalando virtuosismo em notas muito velozes e o nome da canção grudado na nossa mente, fechando com "Love Chaser", iniciando com os teclados que nos remetem a "The Final Countdown", mas logo após, a entrada da guitarra e do baixo cavalgante modificam essa ideia, sendo uma faixa mais simples, onde os teclados e as vocalizações se sobressaem junto de mais um refrão marcante. 

Cinco singles foram lançados de The Final Countdown: "The Final Countdown", "Love Chaser", "Rock the Night", "Carrie" e "Cherokee.". Tempest sugeriu a faixa título como primeiro single, apesar dos demais quererem 'Rock The Night", já que achavam que a canção, por ser diferente das demais do grupo, jamais se tornaria um hit. Porém, a gravadora concordou com Tempest, e então, o compacto da faixa-título atingiu o primeiro lugar em 25 países, incluindo os charts britânicos, onde permaneceu na primeira posição por duas semanas, França e Alemanha, chegando a oitava posição nos Estados Unidos. Já seu vídeo tem mais de 1,3 bilhões de visualizações no YouTube.

Single de “Love Chaser” na trilha
de World Grand Prix Pride One

O single de "Rock the Night" também saiu-se relativamente bem, conquistando segunda posição na Bélgica e Holanda, décima segunda no Reino Unido e vigésima segunda nos Estados Unidos, país onde o single de "Carrie" é o que atingiu a maior posição, chegando no terceiro lugar, e curiosamente atingindo como máximo apenas a décima posição na Irlanda e Suíça, fracassando nos demais países. "Cherokee" não conseguiu emplacar na Europa, e atingiu a modesta posição 72 nos Estados Unidos. Por fim, há também o raro single de "Love Chaser", lançado apenas no Japão, e que não emplacou por lá. Além disso, a canção está na trilha do filme World Grand Prix Pride One, em versões cantada e instrumental, assim como "Carrie" surge na trilha da mesma forma.

A banda começou a turnê de promoção de The Final Coundown no citado show de 29 de abril. O álbum era para ter saído um pouco antes disso, mas acabou atrasando devido a problemas com a capa. No dia do lançamento do disco, há 40 anos, o Europe encerrava a parte sueca da turnê com a segunda apresentação em dois dias (25 e 25) na cidade de Solna, no Solnahallnen, os quais foram filmados para uma transmissão televisiva que acabou culminando no clássico VHS/DVD The Final Countdown Tour ’86 (que originalmente, saiu somente - obviamente - no Japão).

Na sequência, foi a vez dos nipônicos receberem o Europe, onde eram tratados como deuses. O grupo aterrisou por lá em setembro de 1986, fazendo quatro show em Tóquio e ainda concertos em Nagoya e Osaka. Porém, apesar do sucesso, nem tudo era festa nos camarins do Europe. Norum sentia-se cada vez mais incomodado com as diferenças musicais que o Europe havia se tornado, bem como mostrava grande insatisfação com os caminhos que o empresário da banda, Thomas Erdtman, estava dando para os suecos. Em comum acordo, Norum decidiu ficar para a segunda parte da turnê sueca, a qual começou em Örebro no dia 26 de setembro de 1986, assim como a perna europeia, que incluiu apresentações em TVs locais e entrevistas. Porém, em 31 de outubro de 1986, após uma apresentação em Amsterdam, Holanda, Norum pulou da barca, alegando insatisfação com a quantidade de teclados no som do grupo, os quais, segundo ele, enterraram as guitarras.

VHS que cobriu a turnê do
quarentão The Final Countdown

Norum foi então substituído por Kee Marcello (ex-Easy Action), o qual estreia nos clipes de "Rock the Night", "Cherokee" e "Carrie", surgindo oficialmente ao público na apresentação de 12 de dezembro de 1986 na Alemanha, durante o Peters Popshow de Dortmund. Ainda na sequência da turnê, a apresentação no Hammersmith Odeon de 1987 acaba tornando-se o cobiçado VHS/Laser Disc The Final Countdown World Tour

Como curiosidade, anos depois, em 2007, oito das dez faixas do LP aparecem no filme Hot Rod. E para encerrar, The Final Countdown vendeu muito. Conquistou a primeira posição na Suécia (platina, com 100 mil cópias vendidas), Espanha (platina quádrupla, com 400 mil cópias vendidas), Finlândia (platina, com 70 mil cópias vendidas), e Suíça (platina, com 50 mil cópias vendidas), segunda na Itália, terceira na Austrália (platina dupla, com 140 mil cópias vendidas), Holanda (ouro, com 80 mil cópias vendidas) e Nova Zelândia, quarta na Noruega (platina, com 100 mil cópias vendidas), quinta na Áustria, sexta no Canadá (platina dupla, com 200 mil cópias vendidas) e Alemanha (ouro, com 250 mil cópias vendidas), oitava nos Estados Unidos (platina tripla, com 3 milhões de cópias vendidas) e nona no Reino Unido (ouro, com 100 mil cópias vendidas). O aniversariante já ultrapassa a marca de 12 milhões em vendas ao redor do mundo. 

Contra-capa do LP

Track list

1. The Final Countdown

2. Rock the Night

3. Carrie

4. Danger on the Track

5. Ninja

6. Cherokee

7. Time Has Come

8. Heart Of Stone

9. On The Loose

10. Love Chaser





sábado, 20 de dezembro de 2025

Zappa In New York - 40th Anniversary Deluxe Edition [2018]


Um dos grandes discos ao vivo da carreira de Frank Zappa (e são vários) recebeu uma edição especial em comemoração aos 40 anos de seu lançamento, no ano de 2018. Trata-se de Zappa In New York. Originalmente programado para ser lançado em 1977, Zappa In New York demorou um ano para ver a luz do dia, muito por conta dos problemas pessoais e contratuais de Zappa com a gravadora Warner Brothers, à época empresa que cuidava dos lançamentos do bigodudo.

Depois de muita discussão e brigas, e de um lançamento que causou ainda mais confusão em meados de 77, quando os discos tiveram que ser recolhidos das lojas por uma determinação judicial (em tiragens hoje tão raras quanto um elefante cor de rosa e com bolinhas roxas, capaz de fazer o L com uma das patas e arminhas com a outra), a versão final (e editada, sem "Punky's Whips", que acabou sendo censurada) de Zappa In New York foi lançada em março de 1978, trazendo um compilado de quatro apresentações feita por Zappa e seu grupo no Palladium, em Nova Iorque, nas datas de 26, 27, 28 e 29 de dezembro de 1976. O disco é um dos mais bem sucedidos da carreira de Zappa, chegando a posição 57 na Billboard.

A banda de Zappa na época era composta pelo próprio (guitarra, vocais, condução), Terry Bozzio (bateria, vocais), Ruth Underwood (marimba, xilofone, percussão), Patrick O'Hearn (baixo, vocais), Ray White (guitarra, vocais), Eddie Jobson (teclados, sintetizadores, violino), um fantástico naipe de metais constituído por Lou Marini (saxofone alto, flauta), Mike Brecker (saxofone tenor, flauta), Ronnie Cuber (saxofone barítono, clarinete), Randy Brecker (trompete), Tom Malone (trombone, trompete, piccolo), e ainda David Samuels (tímpano, vibrafone) e a participação de Don Pardo (narração).

O disco é uma pequena amostra do poder de fogo da trupe zappiana, e na versão original, os grandes momentos vão para as fabulosas duas partes da complicadíssima "The Black Page", a extensa versão de "The Purple Lagoon" e a interpretação magistral de Ray White nos vocais de "The Illinois Enema Bandit". Se o álbum possui um defeito, é que sua duração é de apenas uma hora, o que para um álbum duplo, e sendo ainda um álbum de Frank Zappa, é muito pouco. Mas, a versão DELUXE de 2018 sana esse problema com sobras, em uma caprichada caixa que alegra qualquer fã de música e arte em geral.

A caixa (literalmente uma caixa de papelão) apresenta em seu interior uma lata que reproduz a tampa de um bueiro nova iorquino, e dentro desta lata, ao abrir a "tampa do bueiro", encontramos 5 CDs, um livreto com 60 páginas e mais uma cópia do ingresso de uma das apresentações do grupo nas datas citadas, mais especificamente o show de 27 de dezembro. Tratando primeiramente das mídias, o CD 1, apesar de ser considerado como a versão original de 1977, é uma versão editada de 10 canções, sem "Punky's Whips", ou seja, é a edição de 1978 sem tirar nem pôr. Um ótimo disco, que só aquece as mais de 4 horas de audição que o fã irá ter.

As mídias 2, 3 e 4, chamadas Bonus Concert Performances, trazem um apanhado de sobras que ampliam o set list dos shows, e que acabaram ficando de fora da versão original. No CD 2, destaque para a ótima "The Torture Never Stops", o resgate de "Punky’s Whips", com a devida introdução de Don Pardon, a extensa versão de "The Illinois Enema Bandit", com mais de 15 minutos, e a ótima "Montana", sendo que o tempo total da midiazinha é de mais de 70 minutos. O mesmo ocorre com o CD 3, que em mais de uma hora de muita música, destaca as raras apresentações de "I'm the Slime", "Pound for a Brown" e "Find Her Finer", além das longas "The Purple Lagoon" e "Cruisin' For Burguers". Discaços!! 

O CD 4 é tomado pela maravilhosa versão de mais de 28 minutos de "Black Napkins", que entre os diversos solos ao longo da canção, tem destaque especial para Eddie Jobson no moog e violino, em um solo espetacular, e que mostra quão genial era Frank Zappa. Afinal, criar uma peça com apenas dois acordes que permitam improvisos e fazer tantas estripulias embasbacantes em mais de 28 minutos é para poucos. Zappa também faz um solo fenomenal, mais um gigante solo para a vasta prateleira de solos gigantes do bigodudo. A mídia peca por ter apenas 50 minutos, o que também é o tempo da quinta e última mídia, chamada Bonus Vault Content. Esse quinto CD traz versões diferentes para canções que estão nas mídias anteriores, com novas mixagens, e também duas versões somente ao piano para "The Black Page", uma delas interpretada por Ruth Underwood, especialmente para o box, e a outra por Tommy Mars.

Ou seja, um belo apanhado das apresentações de 1976, e que satisfaz completamente ao fã mais xiita e ávido por ouvir os improvisos e as histórias de Zappa e seu grupo. Falando em histórias, o livreto apresenta toda a história que envolve o lançamento de Zappa In New York, desde a montagem da banda com os novatos Terry, Eddie e Patrick, o retorno de Ruth e a adição do naipe de metais após Zappa participar de um programa do Saturday Night Live em 11 de dezembro de 76, e ficar encantado com os rapazes (e vice-versa). Além disso, um longo relato de Ruth Underwood sobre o processo de criação de "The Black Page", uma das canções mais desafiadoras para qualquer baterista, e que recebeu esse nome por conta de uma brincadeira de Zappa, que criou uma peça na qual a partitura continha tantas notas e acordes que a página ficou preta, e também um depoimento de Ray White sobre sua entrada na banda, e como ele conseguiu se adaptar ao desafio de tocar com um gênio tão desafiador e perfeccionista como Zappa. 

Ainda no livreto, diversas imagens inéditas, registradas pela esposa de Zappa, Gail Zappa, as letras das canções do CD 1, a origem das canções "The Illinois Enema Bandit" e "Punky's Whips" (sendo a última no mínimo hilária), a descrição da participação de Terry como o diabo em "Titties & Beer", faixa que aparece nas mídias 3 e 5 como "Chrissy Puked Twice", e as descrições das demais canções do CD 1. Um grande box, uma grande obra, uma grande compra para sua coleção, e que vale cada centavo investido no mesmo.

Track list


CD 1 (apesar de ser considerada a versão original de 1977, é uma versão editada de 10 canções)

1. Titties & Beer

2. I Promise Not to Come in Your Mouth

3. Big Leg Emma

4. Sofa

5. Manx Needs Women

6. The Black Page Drum Solo/Black Page #1

7. Black Page #2

8. Honey, Don't You Want a Man Like Me?

9. The Illinois Enema Bandit

10. The Purple Lagoon


CD 2 - Bonus Concert Performances

1. "The Most Important Musical Event of 1976"

2. Peaches en Regalia

3. The Torture Never Stops

4. The Black Page #2

5. Punky’s Whips Intro

6. Punky’s Whips

7. I Promise Not to Come in Your Mouth

8. Honey, Don't You Want a Man Like Me?

9. The Illinois Enema Bandit

10. "Two for the Price of One"

11. Penis Dimension

12. Montana


CD 3 - Bonus Concert Performances

1. America Drinks

2. "Irate Phone Calls"

3. Sofa #2

4. "The Moment You’ve All Been Waiting For"

5. I'm the Slime

6. Pound for a Brown

7. Terry's Solo

8. The Black Page Drum Solo/Black Page #1

9. Big Leg Emma

10. "Jazz Buffs and Buff-etts"

11. The Purple Lagoon

12. Find Her Finer

13. The Origin of Manx

14. Manx Needs Women

15. Chrissy Puked Twice

16. Cruisin’ For Burgers


CD 4 - Bonus Concert Performances

1. The Purple Lagoon/Any Kind of Pain

2. "The Greatest New Undiscovered Group in America"

3. Black Napkins

4. Dinah-Moe Humm

5. Finale


CD 5 - Bonus Vault Content

1. The Black Page #2 (Piano Version)

2. I Promise Not to Come in Your Mouth (Alternate Version)

3. Chrissy Puked Twice

4. Cruisin’ for Burgers (1977 Mix)

5. Black Napkins

6. Punky’s Whips (Unused Version)

7. The Black Page #1 (Piano Version)

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Ace Frehley - Now Playing [2025]


Space Ace foi fazer seus solos no espaço. Infelizmente, soubemos da morte de um dos guitarristas mais influentes da história há pouco, através de sua família. A causa da morte não foi revelada oficialmente até a edição deste texto, o qual curiosamente eu comecei a escrever no início deste mês, quando chegou para mim esta bela coletânea do início da carreira solo de Ace, sendo que eu não sabia das condições de saúde Ace em seus últimos dias de vida, e exatamente quando (achei que) terminei ele, veio a notícia da morte de um gigante.

Antes de falar sobre o disco em si, preciso prestar minhas palavras de fã para Ace. O Kiss mascarado surgiu tardiamente para mim, já que nascido nos anos 80, conheci o Kiss farofa de "Lick It Up", "I Love it Loud", "Forever" e "Crazy, Crazy Nights", entre outras que rodavam direto tanto nas rádios quanto nos clipes da MTV e da Globo. Mas um dia, durante um programa que passava de tarde na Record, por volta de 1995, vi um especial do Kiss, que começava com um "Strutter" em preto e branco, com imagens muito ruins, passava por "Love Gun", colorido, mas igualmente imagem ruim, e chegou em Ace Frehley tocando "Detroit Rock City" com uma capa nas costas durante uma apresentação na Austrália, em 1980. O solo da música, a performance de Ace, cara, eu tinha uns 13 anos, e vidrei naquilo. Assim como, com certeza, milhões e milhoes de garotos e garotas no mundo inteiro vidraram com aquele ser.

Ace, com seu marcante traje espacial e sua inseparável bebida

Virei fã de Ace, inclusive da Frehley's Comet e de sua carreira solo, devorei o Alive!, assisti inúmeras apresentações do Kiss mascarado, babando pela guitarra que dava tiros, pegava fogo, voava, e tive a felicidade de ver o cara ao vivo durante a turnê de Psycho Circus (como contei aqui), numa alegria que guardo eternamente em minha mente e no meu coração. Ace ajoelhado solando "Black Diamond", ou no canto do palco mandando ver em "Love Gun" são daquelas coisas que nunca mais esquecerei.

A vida pessoal é cercada de (alguns) altos e (muitíssimos) baixos. Acidentes, farras, bebedeiras, drogas, muitos problemas e causos que serviram para acabar manchando sua carreira com o passar dos anos, contribuindo também para isso as falas dos ex-colegas Gene Simmons e Paul Stanley, que adoram (será que ainda vão continuar) soltar o verbo contra Ace. Mas, como o próprio Ace Frehley escreveu em sua autobiografia Eu Não Me Arrependo, o nome do livro já diz tudo. Ace fez o que fez e não importa a sua vida fora dos palcos e estúdios. A música de Ace é e sempre estará soando forte nas caixas de som, assim como sua máscara, suas guitarras inovadoras, que davam tiro ou brilhavam, e claro, seu carisma inquestionável.

Ace e sua guitarra prestes a pegar fogo.
Carisma inquestionável


Foi com muita dor que recebi a notícia da morte de Ace no mesmo dia que fechei o texto sobre o álbum, o qual recentemente, lá nos Estados Unidos, saiu: a coletânea Now Playing. O álbum foi lançado somente em LP, no luxuoso azul cobalto, e resgata 10 canções do início da carreira solo de Ace, junto da Frehley's Comet. Particularmente, sempre achei Ace "O Cara" do Kiss Foram suas criações não só o logo da banda, mas os trajes e performances mais impactantes dos quatro mascarados (ok, era legal ver Gene cuspindo fogo e sangue, mas bah, nada supera o que Ace fez nos palcos). Após sua saída, o Kiss se tornou outra banda. Eram os licks, riffs e solos de Ace que fizeram do Kiss um dos maiores nomes de rock 'n' roll da história, mas infelizmente, ele não conseguiu transferir todo o seu talento quando tentou seguir adiante sem os colegas de Kiss.

Eu gosto dos discos da Frehley's Comet, não tanto quanto os do Kiss, óbvio, mas há bom material nos lançamentos dele, e Now Playing faz um belo apanhado disto. O lado A traz 4 canções da estreia da Frehley's Comet, auto-intitulada, lançado em 1987.  "Rock Soldiers" abre os trabalhos com as batidas da bateria e o riff pesado de uma canção bem oitentista, na qual Ace fala "Ace is back and he told you so",  em uma canção que narra sobre o trágico acidente que quase tirou a vida de Ace em 21 de maio de 1983, quando dirigia seu Delorean totalmente embriagado, e acabou sobrevivendo, livrando-se dos demônios que o cercavam. A faixa também abre Frehley's Comet, e é bem poderosa para mostrar o retorno de Ace, e em ambos os discos, seguimos com "Breakout", que narra a história de alguém que ficou preso injustamente por 7 anos, em outra canção bastante pesada, destacando os vocais de Tod Howarth e o solo bem veloz de Ace. Apenas para relembrar, a banda de Ace aqui consistia dele nas guitarras e vocais, Howarth (vocais, teclados, guitarras), Anton Fig (bateria) e John Regan (baixo, backing vocals), uma boa banda de apoio.

Notícia com o acidente que inspirou "Rock Soldiers"

 Ace retorna aos vocais em "Into The Night", uma canção mais calma, principal single de Frehley's Comet (junto de "Rock Soldiers") que narra a história de um personagem curtindo as aventuras e desventuras de uma madrugada qualquer, com uma sonoridade bem oitentista, e mais um belo solo de Ace, carregado de bends e notas velozes. Curiosamente, essas três canções também abrem Frehley's Comet, e a última canção do disco nesta coletânea é "Calling To You", um belo hardão com os vocais de Tod, que me remetem bastante ao Van Halen era Sammy Hagar, e trata sobre divertir-se ao som do rock 'n' roll. O lado A de Now Playing encerra-se com "Insane", faixa que originalmente abre o álbum Second Sighting (1988), bastante autobiográfica, na qual Ace relata ter dinheiro, ter fama, e ser inconsquente por ser insano. Um rock quadradão, com pitadas country, mas com um refrão grudento. 

No lado B, temos mais duas faixas de Second Sighting, "Dancin' With Danger" e "It's Over Now", lembrando que aqui, Fig foi substituído por Jamie Oldaker. A primeira surge com sintetizadores e o riff pesado de um Ace inspirado, uma faixa rápida, pesada, ótima para fãs do guitarrista, certamente uma das melhores de sua carreira, e com um belo solo, recheado de notas velozes. Já a segunda é uma balada levada pelos vocais de Tod, com direito a piano, sintetizadores e aquele andamento arrastado desse tipo de canção oitentista, e que como o nome diz, reflete sobre o fim de um relacionamento, mas com possibilidades de seguir em frente. Por fim, de Trouble Walkin' (1989) disco que contou com a participação do Skid Row fazendo backing vocals, Peter Criss e Anton Fig na bateria, além de Richie Scarlet (guitarras) e John Regan (agora nos sintetizadores e baixo), Now Playing resgata "Shot Full of Rock", "Hide Your Heart" e "Trouble Walkin'". 

Lindo vinil em azul cobalto

Adoro a velocidade e o peso de "Shot Full of Rock", outra ótima faixa, com os vocais marcantes de Ace, além de seu riff quebrado e bem trabalhado, um ótimo refrão e Ace mandando ver no solo de mais uma faixa autobiográfica, com destaque para a frase "Your fascination with my creation, And stimulation, rock to drop" (indireta para Gene Simmons??). Grande faixa. A segunda é uma parceria de Paul Stanley e Desmond Child, que já havia sido gravada por Bonnie Tyler (1988) e pelo próprio Kiss (1989), e que aqui recebe um riff que me lembra "Strutter", mas que no fundo é só uma impressão mesmo, com a canção desenvolvendo-se de forma similar à versão do Kiss e da própria Tyler, inclusive com os "ah, ah, ah, hey, hey, hey" e "doo doo doos". "Trouble Walkin'" encerra a coletânea com uma letra narrando sobre o rapaz que é o pesadelo das mães, em um rockzão tipicamente Kiss, para alegrar a casa e deixar aquela sensação de que o tempo passou rápido durante a audição.

Adeus Ace

Senti falta de algo do EP Live + 1, lançado pelo Frehley's Comet em 1988, ou alguma novidade/raridade, mas ok. Para os fãs de Ace que já possuem os discos da Frehley's Comet, talvez realmente Now Playing seja mais um caça-níqueis, mas para aqueles que não tiveram a oportunidade de conseguir os discos nos anos 80 e 90, e estão afim de ver como é Ace fora das máscaras, esta coletânea é uma boa indicação. E que nosso eterno personagem espacial vague pelo espaço, espalhando seus solos e conquistando cada vez mais fãs e seguidores pelo cosmos universal. Sua morte deixará um vazio imenso na história da banda, e também na história da música, e penso que Ace nunca teve realmente o reconhecimento que deveria. Sentiremos sua falta, Space Ace!

Contra-capa do vinil

Track list

A1 - Rock Soldiers

A2 - Breakout

A3 - Into The Night

A4 - Calling To You

A5 - Insane

B1 - Dancin' With Danger

B2 - It's Over Now

B3 - Shot Full Of Rock

B4 - Hide Your Heart

B5 - Trouble Walkin' 

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