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sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Cinco Discos Para Conhecer: Avant-Garde Music



Quando você ouve falar sobr Avant-Garde Music, o que você pensa? Eu sempre via um bando de doidos tocando música de doidos, e jamais entendia o por que disso existir. Depois de muito ouvir free jazz, um dos estilos que mais gosto, resolvi me adentrar nas maluquices e obras ligadas às experimentações e inovações (ou seriam deboches e desaforos) registradas para a posteridade em incontáveis álbuns que estão no mercado há algum tempo, aliás, escondidos, pois a maioria não vendeu praticamente nada.

Inspirado pelo colega Alisson Caetano, que trouxe para nós Cinco Discos Para Conhecer o Drone e o Noise Rock lá na Consultoria do Rock, um estilo claramente influenciado pela Avant-Garde Music, trago hoje cinco obras que recomendo para quem quer iniciar nesse estilo, deixando claro que há muitas outras peças atemporais a serem preparadas para audição.

As escolhidas talvez sejam as que menos preparação o ouvinte deva ter, apesar do estado mental das criaturas que as gravaram (ou o nível de chapação) não ser dos mais recomendáveis para um ser humano, mas ouvidos atentos descobrirão a genialidade / absurdez que é a Avant-Garde Music, mas principalmente, o choque que ela causa em ouvidos acostumados a ouvir música apenas com ritmos e melodias. Prepare seus cogumelos, amarre sua camisa de força e deixe a loucura entrar em sua mente.

John Lennon & Yoko Ono - Unfinished Music n° 1: Two Virgins [1968]

Um dos maiores representantes da cena Avant-Garde foi o casal John Lennon e Yoko Ono. Quando eles se uniram, seus primeiros álbuns geraram muitas polêmicas entre apreciadores dos Fab Four e também com a imprensa, que não entendeu as ideias malucas do inglês e da japonesa. O primeiro nome que veio à mente para a lista foi Wedding Album, terceiro disco da dupla, que consta no lado A com a estranhíssima "John, Yoko", peça de 23 minutos onde um grita/geme o nome do outro enquanto mastigam. Mas o lado B tem uma peça de 25 minutos, "Amsterdam", que trata-se apenas de conversas em um passeio pela cidade holandesa, além de algumas passagens acústicas, e portanto, não trata-se realmente de um registro musical. Mas a estreia do casal sim, é o suprassumo do que podemos definir de Avant-Garde Music. Composto apenas pela faixa-título, a qual é dividida em 10 partes, e com uma breve participação de Pete Shotton fazendo os tradicionais tape loops (ficar repetindo uma gravação em uma fita), nos pouco mais de trinta minutos do LP temos assovios, gravações, barulhos diversos, notas e acordes soltos e irritantes de piano e baixo, gemidos de Lennon e muitos vagidos, choros e gritos histéricos de Yoko, em uma insanidade brutal. A EMI, gravadora dos The Bealtes na época, recusou-se a lançar o disco, considerando-o anticomercial e sem fundamento. Unfinished Music n° 1: Two Virgins saiu por gravadoras independentes, e hoje é considerado uma peça de colecionador, principalmente em sua versão original, com a polêmica capa do casal nú, sendo um disco muito complicado de se ouvir, assim como seus sucessores, mas que com o passar do tempo, ganha seu sabor. Outro detalhe é que o álbum foi gravado em uma única tomada, durante a madrugada do dia 19 de maio de 1968. Na época, John Lennon estava casado com Cynthia Lennon, que naquele dia estava de férias na Grécia. Cynthia acabou voltando antes, e pegou o casal dormindo junto após as gravações. Foi o estopim para a separação, e o início de um dos casamentos mais famosos do rock. 

John Lennon (vocais, piano, órgão, percussão, efeitos, loops), Yoko Ono (vocais, loops)

Participação especial

Pete Shotton (loops)

1. Two Virgins

Cromagnon - Orgasm [1969]

Considero esse o melhor álbum dos aqui apresentados, sendo que inclusive já escrevi sobre ele aqui. O grupo Cromagnon foi uma experiência magnífica da dupla Austin Grasmere e Brian Elliot, que acompanhados por uma banda de apoio e por pessoas que foram "raptadas" pela dupla enquanto passavam na frente do estúdio de gravação, pariu um dos discos mais raros da história. São oito faixas regadas de distorções, barulhos, gritos e efeitos em geral que arrepiam e muito, com  destaque fica para a estripação gratuita de "Ritaul Feast of the Libido", a insanidade de "Fantasia" e os dez minutos alucinantes minutos de "Toth, Scribe I", a qual é a mais perfeita canção do álbum, com seu início totalmente progressivo nos acordes de sintetizador e explosões, percorrida então por uma trilha sonora angustiante, com as explosões e o sintetizador explodindo os miolos do ouvinte. Há alguns momentos de racionalidade no disco, mas esses não devem atingir um minuto de duração se somados. O resto, é experimentação em seu estado bruto. Orgasm chegou a ser apresentado na íntegra, tendo no centro do palco um gigantesco útero com a banda em seu interior. Pelo palco, pessoas semi-nuas passeavam sob luzes estroboscópicas, enquanto a sonoridade fervilhava, e o ponto de êxtase da apresentação ficava para a explosão do útero com um lança-chamas, ainda em "Caledonia", permitindo que a banda saísse para executar o resto do álbum, com todos os "instrumentos" que pudessem obter naquele dia. Orgasm saiu pelo famoso selo EPS, responsável por muitos lançamentos ousados, e aos poucos, vem sendo descoberto nas mais profundas estantes de especialidades em obscuridades, e sinceramente, é só para os fortes.

Austin Grasmere (vocais), Brian Elliot (vocais), Peter Bennett (baixo), Jimmy Bennett (guitarra), Vinnie Howley (guitarra), Sal Salgado (percussão), Mark Payuk (vocais), Gary Leslie (vocais)

1. Caledonia
2. Ritual Feast of the Libido
3. Organic Sundown
4. Fantasia
5. Crow Of The Black Tree
6. Genitalia
7. Toth, Scribe I
8. First World Of Bronze

Damião Experiência - Planeta Lamma [1974]

Não podia deixar de jeito maneira essa obra-prima da Avant-Garde brasileira de fora. A estreia de Damião Experiência é uma obra conceitual, que trata do Planeta Lamma, o destino final de todo ser humano, localizados obviamente sete palmos debaixo do chão. É uma experiência sonora única. Ou você se contamina com a insanidade, ou acaba descobrindo que sempre pode ter algo pior do que você considerava a pior coisa que você já ouviu. Entre grunhidos, vagidos e gritos alucinantes e doentios de Damião, cantando em Lammês (?!), a língua do Planeta Lamma, acompanhado por uma gaitinha de boca sem vergonha e um violão de apenas uma única corda, desafinada ainda por cima, além de um chocalho que foi amarrado ao violão, o registro foi feito em uma gravação de fita k7, e depois virou um raríssimo LP prensando, embalado e vendido pelo próprio Experiência, que ainda era responsável pelo layout da capa, gerando seguidores como os Novos Baianos, que consideraram Damião um dos maiores gênios da música nacional, mas por outro lado, conquistou uma legião de detratores, que amaldiçoam o disco - e a carreira do artista - sem se quer ter se dado o trabalho de ouvir, e quando ouvem, acabam concluindo que aquilo que imaginavam é ainda pior. Entre tapas e beijos, há vários destaques entre as 13 e nada convencionais canções do álbum, como o ritmo dançante de "Planeta Bicho", a alucinação da faixa-título, a doentia "Linguagem do Planeta Lamma Música do Planeta Lamma", "Linguagem do Povo do Infinito ao Universo de Rose 1999" e principalmente a paulada "Minha Dor", e material descartável, como "Que Dor Eu Sinto", ou a insanidade dos gritos de "A Vida É Sempre Assim", sendo inegável que as primeiras audições são um choque e tanto. Um álbum para ser ouvido sem pré-conceitos, e que seus ouvidos e coração deem o veredicto final. E também aconselho a buscar a obra de Experiência, pois existem muitas pérolas escondidas nos mais de trinta discos que ele já gravou.

Damião Experiência (voz, grunhidos, violão e gaita de boca)

1. 1308 Registrou Gravou Rose Olíria Experiença
2. Que Dor Eu Sinto
3. A Vida é Sempre Assim
4. Linguagem do Povo do Infinito ao Universo de Rose 1999
5. Loucura total 1999 a Damião Experiença
6. Amente Astrologica 1999
7. Planeta Lamma
8. Minha Dor
9. Som Planeta Lamma
10. Planeta Bicho
11. Mundo no Espaço
12. Meu Passado? Meu Presente

13. Linguagem do Planeta Lamma música do Planeta Lamma


Lou Reed - Metal Machine Music [1975]

O quinto álbum solo de Lou Reed é considerado por muitos como o pior disco da história. Depois de três álbuns muito bons (Lou Reed, Transformer e Berlin) e do aclamado Sally Can't Dance, Reed brigou com a sua gravadora, a RCA, e então decidiu gravar em sua casa as microfonias de duas guitarras, tocadas com diferentes tipos de distorção pelos próprios amplificadores, para lançar por conta das obrigações contratuais com a RCA. Sim, isso mesmo, nenhum ser humano toca nas guitarras. O que temos é o registro das guitarras no centro de grandes amplificadores, os quais, ligados em um volume considerável, fizeram as cordas vibrarem. Com os instrumentos afinados em afinações distintas, o efeito gerado é incrível e inovador, e Reed só se deu o trabalho de gravar as microfonias e depois, mixá-las. Mas não foi isso que fãs e mídia pensaram. As quatro longas faixas, em torno de 16 minutos cada uma, ocupam cada lado de um vinil duplo, renegado e linchado até mesmo pelo mais ardoroso seguidor da antiga banda de Reed, o Velvet Underground, que também tem seus momentos Avant-Garde. O que ficou para a história é um álbum de revolta, ou de deboche, mas esquizofrênicos e pirados em geral ouviram as microfonias com ouvidos calorosos, e acabaram divulgando o álbum para outras gerações, que influenciados pelo disco, o qual na contra-capa traz destaque para os amplificadores Sunn, acabou influenciando a geração de um novo estilo, o Drone, e não por acaso, o nome de uma das principais bandas desse novo estilo, Sunn O))). Metal Machine Music tem vário fatos curiosos, como o de vendido mais de 100 mil cópias, pois ao que parece, as pessoas não acreditavam nos comentários da imprensa, de que o disco fosse tão ruim, mas o mais interessante está na capa, a qual fazia ênfase que no álbum não havia sintetizadores, teclados, e o mais curioso de tudo, música!! Esse realmente é para poucos, e detalhe, sugiro pegar a versão em CD, pois assim, não haverá distinção de uma faixa para outra!

Lou Reed (guitarras, distorções, efeitos)

1. Metal Machine Music Part 1
2. Metal Machine Music Part 2
3. Metal Machine Music Part 3
4. Metal Machine Music Part 4

Frank Zappa - Studio Tan [1978]

Zappa sempre foi um apreciador e divulgador da Avant-Garde Music. Vários discos seus trazem o estilo em voga, como Lumpy Gravy (1967), Weasels Ripped My Flesh (1971), Orchestral Favorites (1979) ou Francesco Zappa (1984), sendo que o último por algum tempo foi o principal nome para entrar nessa lista. Porém, decidi trazer um material construído pelo próprio Zappa.  O lado A de Studio Tan o responsável pelo LP estar aqui. Afinal, "Greggery Peccary" é uma maluca história sobre o pequeno javali genial que inventa um calendário revolucionário, acaba trazendo caos ao mundo, e que exigiu a Zappa a contratação de mais de  músicos para poder concluí-la, já que ela começou a ser gravada em 1972, mas só foi finalizada em 1974. Entre um humor sarcástico e comentários políticos muito ácidos, Zappa mistura música clássica, barulhos, cacofonia e efeitos enquanto narra a história com profundidade e certo exagero, parecendo mais uma trilha sonora de um desenho animado cujo tema central é a suspense. Há seus momentos de "racionalidade", com algumas melodias soltas nos mais de vinte minutos da faixa, mas a sensação geral é de uma maluquice total. As experimentações Avant-garde continuam no lado B, em diversas passagens desconcertantes na belíssima "Revised Music for Guitar & Low Budget Orchestra", com deliciosas misturas de orquestra, percussão e guitarras, mas há canções bastante ortodoxas, como o rock animado de "Let Me Take You to the Beach" e a comovente faixa de encerramento "REDUNZL", fácil um dos Top 10 dos melhores solos de Zappa, mas que também possui seus momentos de experimentalismo. Se você deseja entrar nesse mundo, dos cinco aqui citados comece SEM DÚVIDAS por esse.


Frank Zappa (guitarra, vocais, percussão), George Duke (teclados), John Berkman (piano), Tom Fowler (baixo), James "Bird Legs" Youmans (baixo), Edward Meares (baixo), Terry Bozzio (bateria), Paul Humphrey (bateria), Davey Moire (vocais), Eddie Jobson (teclados), Max Bennett (baixo), Don Brewer (bongo), , Ruth Underwood (percussão, sintetizadores), Pamela Goldsmith (viola), Murray Adler (violino), Sheldon Sanov (violino), Jerry Kessler (violoncelo), Bruce Fowler (trombone), Don Waldrop (trombone), Jock Ellis (trombone), Dana Hughes (trombone), Earle Dumler (oboé), JoAnn Caldwell McNab (baixo), Mike Altschul (flauta), Ray Reed (flauta), Graham Young (trompete), Jay Daversa (trompete), Malcolm McNab (trompete), Victor Morosco (saxofone), John Rotella (instrumentos de sopro), Alan Estes (percussão), Emil Richards (percussão)


1. Greggery Peccary
2. Let Me Take You to the Beach
3. Revised Music for Guitar & Low-Budget Orchestra
4. REDUNZL


terça-feira, 6 de maio de 2014

O Orgasmo Satânico de Cromagnon




A geração de Homo sapiens mais antiga que se tem conhecimento, encontrada na Europa, é batizada de Cro-Magnon. Provavelmente, eles viveram em confronto com os homens de Neanderthal, cerca de 40000 anos antes de Cristo, e teriam sido responsáveis pela exterminação de seus inimigos. A região basca talvez tenha sido sua principal casa, já que os fósseis de Cro-magnon foram encontrados em bom número em cavernas na França e Espanha.

A principal atração do homem de Cro-Magnon são os progressos culturais. O melhor acabamento nas armas, a fabricação de anzóis e agulhas de costura, o cozimento de alimentos e uma forma de subsistência bastante avançada para sua época, vivendo da caça, da pesca e do cooperativismo no trabalho, indicam que os Cro-Magnons eram altamente responsáveis e organizados. Ao que consta, eles foram os primeiros a se preocupar com a higiene dos mortos, enterrando-os para não proliferar doenças. 

Caveira de um Cro-Magnon

Por volta de 10 mil antes de Cristo, o homem de Cro-Magnon começou a sua extinção, principalmente por conta da escassez de alimentos naturais para ele (como o mamute). Em busca de frio, migraram para o norte da Europa, e principalmente o leste da Ásia, sendo o embrião das gerações que hoje conhecemos como os japoneses, coreanos e chineses, entre outros. 

O grande sentido de organização que a cultura oriental possui talvez seja fruto de sua genética Cro-Magnon, mas em 1969, uma nova geração de Homo sapiens, batizada de Cromagnon (sem o hífen) viveu nos Estados Unidos, na região de Nova Iorque, para confrontar seu xará antigo, e desorganizar tudo o que se imaginava e concebia em termos de referências para uma sociedade normal e aceitável.

Boss Blues
Essa geração de Cromagnons era comandada por dois grandes chefes, Austin Grasmere (vocais e música) e Brian Elliot (vocais e música), os quais eram os responsáveis por chefiar os rituais funestos feitos por seus súditos humanos, chamados de Connecticut Tribe: Peter Bennett (baixo), Jimmy Bennett (guitarra), Vinnie Howley (guitarra), Sal Salgado (percussão), Mark Payuk (vocais) e Gary Leslie (vocais,efeitos). Além disso, tinham como membro honorário um Homo sapiens moderno, Nelle Tresselt, esposa de Peter, indicada como "Membro honorário do grupo".

Esses súditos haviam feito parte do grupo Boss Blues, um simples grupo de rock 'n' roll e rhythm 'n' blues, e foram sodomizados pela dupla acima para cumprirem o papel de complementadores da obra musical utopizada pelo Cromagnon. Brian havia sido guitarrista do Boss Blues, e era o principal músico do Cromagnon, mas a estrutura que suportava toda a geração de Cromagnons era Grasmere, produtor do Boss Blues e que tentou de todas as formas possíveis criar uma "parede sonora" na qual você não conseguisse entender nada do que estava acontecendo, compondo todas as canções do grupo inspirado na "parede sonora" de Phil Spector, mas de uma forma muito sombria e aterradora. 

Austin Gasmere, Sal Salgado e Brian Elliot.

Em uma época que o Iê-Iê-Iê dos Beatles já não estava mais em alta, que a psicodelia levada por ácidos lisérgicos fervilhava nas diversas bandas flower-power de San Francisco, e que o Velvet Underground era a referência da anti-música, e contra-cultura, o Cromagnon colocou a trupe de Lou Reed enrolados em pedaços de comida em estado de putrefação, ingeriram eles sem dó nem piedade e, e para piorar, a la G. G. Allin, cuspiram e comeram os dejetos fecais originários disso, dando origem a talvez a maior gema underground e anti-comercial que a América pariu.

Esses rústicos seres, em um contrato praticamente macabro e satânico, registraram suas rotinas diárias em um álbum que se tornou uma raridade, e hoje, escavações arqueológicas em sebos do mundo inteiro buscam encontrar os resquícios do mesmo na sua forma original.

As fitas originais desses registros sumiram, mas graças à tecnologia, esse álbum ressurgiu no formato de CD em 1993, através de uma versão alemã que retirou o som original do vinil e passou para o CD (com alguma alteração na velocidade das canções do lado B, que ficaram mais lentas), e assim, podemos conhecer um pouco mais da orgia satânica que o Cromagnon registrou no álbum Orgasm (1969), lançado pelo pequeno selo EPS-Disk, e relançado em 2000 sob o título Cave Rock, com relançamentos em 2003 e 2005.
Lado A de Cave Rock (relançamento de Orgasm)

O que está contido no LP é uma devassa orgia levada pelos rituais satânicos de Grasmere e Brian. Durante as gravações no estúdio A-1 Sound Studio, localizado no sub solo de um antigo hotel em Nova Iorque, os dois saiam do estúdio e atacavam pessoas nas ruas, sequestrando-as para dentro do local de gravação e registrando o resultado da união de humanos com Cromagnons. Um desses humanos por exemplo, supostamente participou do álbum "tocando" um aspirador de pó que havia acabado de comprar. 

Alguns dos instrumentos eram tão rudes quanto os instrumentos utilizados no tempo das cavernas, destacando um conjunto de tambores construídos apenas por sacos de areia, envolto em uma rede de pesca com diversos objetos que os homens de Cromagnon usam para gerar seus sons (pedras, pentes, garrafas, sapatos, entre outros).

A ideia comprada pela EPS-Disk era uma total revolução na música, com a finalidade de chocar e expandir seus horizontes. Segundo uma entrevista dada por Salgado em 2009, quando o álbum completou 30 anos, eles fizeram em 1969 o que achavam que ia ocorrer em 1979, já que em 59, Elvis revolucionou requebrando-se diante da TV, e em 69, Hendrix e The Who mostraram que a revolta contra a guerra podia ser exibida na destruição dos instrumentos. Então, o grupo pensou em um mundo de paz, com pessoas no palco soprando grama, alguém recitando poesia e outro grupo fazendo som com água jogada em um microfone.

Entender os quarenta e um minutos de Orgasm não é fácil, sendo quase tão impossível quanto demonstrar as Leis da Relatividade Geral, mas, após as primeiras audições, os sons rústicos do álbum tornam-se naturais, e assimiláveis com o passar do tempo. Para garantir uma melhor qualidade na captação do que está em Orgasm, sugiro ouvir o mesmo sozinho em um quarto totalmente escuro, com o som no volume máximo, em um local isolado e durante a madrugada, será inesquecível. 
Lado B de Cave Rock (relançamento de Orgasm)

Tudo começa com um ajuste fino de onda de rádio, trazendo uma orquestra, que serve para apresentar o contato com os Cromagnon durante "Caledonia", iniciada por barulhos de grilos, batidas em latas, uma guitarra carregada de distorção e o vocal guturual de Brian - que lembra muito os vocais de Cronos, do Venom - acompanhado por uma gaita de foile escocesa, enquanto gritos histéricos são ouvidos ao fundo, repetindo a letra cantada por Grasmere de forma esganiçada, encerrando a faixa com os barulhos de grilo e notas em cordas desafinadas da guitarra, começando então a insanidade. O vocal de Brian foi gravado de forma tão intensa que ele ficou dois sem falar, com suas cordas vocais sangrando durante esse tempo.

Gritos como que se estivesse sendo estripado vivo são ouvidos enquanto barulhos como o de uma serra e um martelo bizarro aparecem ao fundo de "Ritual Feast of the Libido", um satânico som que assusta qualquer ser despreparado psicologicamente. As batidas do martelo são feitas com perfeição matemática, como uma máquina de tortura, e enquanto isso, os gritos tornam-se cada vez mais assustadores, até que param repentinamente após uma dolorida e arrepiante sessão, quando a serra passa a fazer um barulho ensurdecedor. O mais interessante é que essa serra nada mais é do que o registro de uma mangueira atirando água contra o microfone (!).

Entramos em "Organic Sundown", somente com barulhos percussivos de latas, pedras jogadas ao chão, madeiras e pedaços de pau batidos por todo o estúdio entre vocalizações diversas, em uma espécie de ritmo tribal, e com uma satânica voz perambulando ao fundo, arrancando arrepios e fazendo-nos olhar ao lado para vermos se realmente não estamos sozinhos. Medo é o principal sentimento que seu corpo irá ter nesse momento. 

"Fantasia" mostra um pouco de racionalidade dentro do álbum, começando com um interessante arranjo vocal, mas depois, somos intrigados por uma histérica risada durante mais de dois minutos, enquanto barulhos diversos e vocalizações enigmáticas aparecem ao fundo, e após o despertar de um relógio cuco, temos cinco minutos de uma sirene ensurdecedora, que encerram o lado A do LP juntamente de outra sirene, em um volume mais baixo, repetindo-se constantemente e torturando o cérebro do ouvinte junto dos mais diferentes barulhos instrumentais que você possa imaginar.

Inimaginavelmente, o lado B surge com belos acordes de violão, apresentando "Crow Of The Black Tree", mas após alguns segundos, temos uma maluca viagem somente com gritos insanos, percussão agressiva e dois acordes de violão que repetem-se infinitamente durante mais de seis minutos, e os dois minutos finais apenas com fantasmagóricas vocalizações, saídas das tumbas do inferno. Não há como não ficar assustado com essas vozes (Steve Howe nos acuda!).

Austin Grasmere
Com a sanidade mental totalmente fragilizada, somos submetidos ao hospício animalesco de "Genitalia", uma excêntrica canção com vocal a la Frank Sinatra (mas muito desafinado), e um poema triste, sob gritos humanos imitando macacos e pássaros, e adentramos nos dez minutos de "Toth, Scribe I", a qual é a mais perfeita canção do álbum, com seu início totalmente progressivo nos acordes de sintetizador e explosões, percorrida então por uma trilha sonora angustiante, com as explosões e o sintetizador estourando os miolos do ouvinte.

Por fim, "First World Of Bronze"mostra as qualidades de Brian na guitarra, com um solo veloz, cheio de velocidade, alavancadas, arpejos, bends, uivos alucinantes como se fosse um guitar hero no estilo Malmsteen ou Satriani, carregado de distorção, e sendo a base de cantos gregorianos cantados por todos os homens de Cromagnon, encerrando o álbum magnificamente e fazendo sua cabeça girar para trás. O orgasmo acabou.

O tempo de vida do Cromagnon não foi longo, mas o suficiente para fazer uma turnê pela Europa no início de 1970, tendo como banda de abertura os também americanos Pearl Before Swine. Nos shows, Orgasm era apresentado na íntegra, tendo no centro do palco um gigantesco útero com a banda em seu interior. Pelo palco, pessoas semi-nuas passeavam sob luzes estroboscópicas, enquanto a sonoridade fervilhava, e o ponto de êstase da apresentação ficava para a explosão do útero com um lança-chamas, ainda em "Caledonia", permitindo que a banda saísse para executar o resto do álbum, com todos os "instrumentos" que pudessem obter naquele dia.

A bela capa de Orgasm, feita por Howard Bernstein (que também trabalhou para o Pearls Before Swine) mostra dois esqueletos conectados um ao universo e outro a Terra, dando a ideia de conexão entre o presente e o futuro, sob o olhar de homem com barba e cabelo comprido, formado por nebulosas do universo e pelos lagos da Terra. Originalmente, a capa foi desenvolvida em preto e branco, mas os relançamentos trazem a imagem com um bonito arranjo de cores.

Relançamento de 2000

Brian Elliot, Mark Payuk, Jimmy Bennett e Austin Grasmere infelizmente já faleceram, mas hoje são reconhecidos pelo seu passado. A herança dos homens de Cromagnon foi o Noise Rock e o Industrial Rock, hoje aclamados pela nova geração de apreciadores da música, e seus elementos genéticos são encontrados em grupos como Ministry, Throbbing Gristle e até mesmo em álbuns da família Krautrock, além da família Gong também ter algum DNA em seu corpo.  Porém, buscar as raízes desses elementos modernos em Orgasm é uma tarefa que precisa ser feita, principalmente se alguém um dia lhe disser que você é louco. 

Caso aprecie Orgasm, meu querido leitor, irei ter o prazer de estra lá para lhe dizer: "Seja bem-vindo ao hospício". 

Contra-capa do relançamento em CD

Track list

1. Caledonia
2. Ritual Feast of the Libido
3. Organic Sundown
4. Fantasia
5. Crow Of The Black Tree
6. Genitalia
7. Toth, Scribe I
8. First World Of Bronze
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