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terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Melhores de 2017

Ouvi quase uma centena de lançamentos este ano, alguns horríveis, outros excelentes. Foi difícil compilar apenas 10 aqui para vocês leitores, mas enfim, aí vão aqueles que julgo serem os dez melhores discos de 2017 (e uma menção honrosa). Sendo que desta feita, não irei trazer questões como pontos positivos ou negativos, me focando apenas nos álbuns.

Black Country Communion - BCCIV

Confesso que eu achava que o BCC não ia mais se reunir. Depois das pequenas brigas internas, da dissolução do California Breed e de Glenn Hughes fortalecendo sua carreira solo, eu esperaria que cada membro da banda seguisse seu destino, e pronto. Mas os caras surpreenderam todo mundo, e lançaram mais um álbum magistral. Peso em "Sway", com ótima participação dos teclados de Derek Sherinian, velocidade em "Awake", hard pegado em "The Crow", com um belo solo de baixo e órgão, tudo soando encaixado e perfeito. Há algumas canções surpreendentes, como a soturna "The Cove" e a leve "Over My Head", bem como a longa "Wanderlust", que ganharam um ar "pop" por conta dos teclados, mas nada que as torne ruins. Hughes rasgando a voz em "Collide", Joe Bonamassa fazendo estripulias com a guitarra na ótima "The Last Song for My Resting Place", a qual também emociona com sua voz e o violão, e Jason Bonham cada vez mais aperfeiçoando-se na batida que está impregnada em seu DNA. Falando em Led, quem que não imagina "The Wanton Song" quando começa "Love Remains"? Claro que a música não tem nada a ver com o clássico Zeppeliano, mas o riff é muito parecido. E que combinação arrepiante é a voz de Hughes com o piano e o violão em "When the Morning Comes"! A versão em vinil ainda conta com outra bela canção, "With You I Go", um bom presente aos fãs. Uma união de monstros da música, e que merece a primeira posição com méritos. Hughes está vindo ao Brasil para desfilar os clássicos do Purple em várias cidades, mas como seria bom vê-lo em ação com a BCC. Tomara que um dia venham aqui, e que continuem relevando as brigas para criar obras atemporais como BCCIV.


Rikard Sjöblom's Gungfly - On Her Journey To The Sun

O final do Beardfish causou algumas feridas que pareciam incuráveis para os fãs dos suecos. Porém, o líder da Banda, Rikard Sjöblom, agregou-se ao Big Big Train e manteve seu trabalho junto ao Gungfly. E é com este último que o espírito do Beardfish sobrevive. Apesar de não ser um disco totalmente conceitual, algo tradicional na sua antiga banda, isso é a única coisa que um xiita pode reclamar no que ficou registrado em On Her Journey to the Sun. Afinal, tudo o mais é sensacional. Rikard trouxe sua marca mais uma vez, evidenciando influências de diversos gigantes progressivos, como Focus ("Keith (The Son of Sun)"), Genesis ("Of the Orb"), Gentle Giant ("If You Fall Part I"), Yes ("My Hero" e "Old Demons Die Hard") e Renaissance ("Over My Eyes"). Além disso, há uma modernização no som que o gordinho faz, principalmente na faixa-título, e uma mostra muito grande do talento individual de Rikar, seja nos teclados, seja na guitarra, no baixo ou até mesmo no acordeão. Destaques para a viajante suíte “The River of Sadness”, a linda "He Held an Axe", com uma melodia emocionante, e a fenomenal "Polymixia", uma jornada instrumental de insaciáveis doze minutos, repletos de variações, para colocar On Her Journey to the Sun no pódio da minha lista. Essencial para quem curte um prog rock atual, e o comentei um pouco mais sobre ele aqui.


Styx - The Mission
Depois de 14 anos sem lançar material inédito, o grupo Styx resolveu sacudir a poeira, e motivou seus fãs a criarem enorme expectativa quanto ao seu primeiro disco de estúdio dessa década. Diversas postagens e entrevistas diziam que The Mission seria um álbum conceitual, e como a banda sempre foi especialista em fazer álbuns conceituais (vide Paradise Theater, Kilroy Was Here e The Grand Illusion, por exemplo), era inegável que o que viria em 2017 só podia ser de alta qualidade. E assim o é. O melhor de tudo nesse álbum é que parece que voltamos aos aos 70, e estamos ouvindo o Styx em sua melhor fase. Logo de cara, após a vinheta "Overture" (há mais duas vinhetas em The Mission, as quais são "Ten Thousand Ways" e "All Systems Stable"), somos levados pelo rockzão de "Gone Gone Gone". Quer balada típica do Styx, então segura a emocionante "Locomotive" ou a estonteante "The Greater Good", onde a voz de Lawrence Gowan, em duelo com Tommy Shaw, lembra muito a de Dennis DeYoung. Gowan, que aliás, dá um espetáculo solo ao piano em "Khedive", linda faixa para relembrar peças como "Clair de Lune". Junto com isso, tudo aquilo que caracterizou a banda, sejam grandes vocalizações, excelentes arranjos, produções fenomenais, estão presentes em The Mission. Algumas faixas soam imponentes, tais como em "Hundred Million Miles from Home", "Time May Bend", "The Outpost" e a épica "Red Storm", forte candidata a melhor do disco (só o dedilhado de violão dessa música já vale umas 4 posições na lista de melhres). Outras soam como o velho Styx em ação, na voz debochada de James Young em "Trouble at the Big Show", nas vocalizações de "Mission to Mars" ou quando o hammond é a força propulsora de "Radio Silence". Forte candidato a melhor disco da banda desde o seu retorno, e fácil um Top 3 de 2017.


Roger Waters - Is this the Life We Really Want?



Um disco que foi muito ouvido por mim esse ano é este Is this the Life We Really Want?, de Roger Waters. Para quem é fã de Pink Floyd, é uma nostalgia revisitada de várias fases da banda, sem soar como um caça-níqueis. É muito difícil não se envolver sentimentalmente com faixas como "Broken Bones", "Déjà Vu", “The Last Refugee”, “The Most Beautiful Girl” e "Wait for Her", para quem aprecia a fase The Final Cut/Pros and Cons of Hitch-hiking, ou a faixa-título, "Bird in a Gale”, "Smell the Roses" e “Picture That” para quem é mais do período Wish You Were Here/Animals. Letras poderosas, melodias envolventes, canções marcantes e a certeza de que Waters ainda é capaz de criar música de alta qualidade. Waters está vindo ao Brasil em 2018, já estou com o ingresso comprado, e a certeza de que será mais um espetáculo inesquecível para todos aqueles que sabem apreciar sua obra. Outro álbum que também fiz questão de comentar mais para vocês, aqui.



U2 - Songs of the Experience

Ansiedade predominava pelo novo lançamento do U2. Sempre é uma surpresa o que os irlandeses fazem, e não foi diferente dessa feita. Songs of the Experience é mais um disco que deverá ser absorvido aos poucos. As canções tem muitos elementos de experimentação, como os eletrônicos de "Get Out of Your Own Way", e os teclados/pianos em "Love Is All We Have Left", "Love Is Bigger Than Anything in Its Way" e "The Little Things That Give You Away". Claro, também há aquelas faixas para os fãs cantarem o refrão em plenos pulmões, "Red Flag Day", "You're the Best Thing About Me", e aquelas que soam descoladas das demais, mas que as audições subsequentes fazem da mesma uma boa canção, no caso "Landlady" e "Summer of Love" Me trouxe lembranças da tríade Achtung Baby - Zooropa - Pop, com elementos de No Line on the Horizon, mas no fim das contas, é o U2 criando outro álbum fundamental e digno de sua discografia. Alguns falam que o U2 virou cópia de si mesmo, que virou inferior as bandas que ele influenciou, mas é tudo balela. "Lights of Home" ganha disparada a posição de melhor música do disco, seguida por "The Blackout", "13 (There is a Light)" e a dançante "American Soul", a qual poderia facilmente ter estado nos discos da tríade que citei acima. E que coisa bem bonitinha é essa "The Showman (Little More Better)", cada vez ganhando mais pontos comigo. O U2 continua tão importante quanto o foi nos anos 80, 90 e 2000, e se adaptando ao mercado sempre de forma positiva para quem está com os ouvidos abertos ao que Bono e cia. é capaz de criar. Fizemos um Test Drive com o disco aqui, e mesmo que o pessoal tenha malhado, não vá pensando que eles tem razão.


Black Pussy - Power




Quando ouvi esse disco pela primeira vez, logo de cara percebi que ele estaria na minha lista de melhores de 2017. Foi um dos álbuns que mais ouvi esse ano, muito em virtude de um som psicodélico altamente alucinógeno, pegado, com grudentas frases de guitarra e vocais, mas também com suas várias fontes de inspirações no hard setentista. As faixas te deixam em êxtase, com vontade de sair pulando pela casa e curtindo o rock 'n' roll de primeira que sai das caixas de som, em especial "Girlfriend", "Full Tilt Boogie", "Parasols", "Take You There", e o petardo "Home Sweet Home", uma sonzeira que sintetiza a psicodelia e o hard com perfeição. Ainda por cima, entrevistei Dustin Hill, o líder dos americanos, em uma entrevista muito legal. Quer mais?





Tuber - Out Of The Blue
Quando ouvi o disco Out of the Blue, jurei que estava sendo captado por algum prédio de festas de Manchester. O som post-punk é muito forte, só que com o passar da primeira música, você percebe que ali há uma novidade, e que os "ingleses" na verdade é um quarteto grego, que está em ação desde 2010. Os caras misturam eletrônicos e peso sem piedade, e isso é o principal no Tuber, como atestam "Cat Class" e "Moon Rabbit", faixas que vão deixar-te encucado com o que está sendo criado ali. Esse é o segundo álbum do grupo, perfeito para quem aprecia grupos como Smiths ou Joy Division, mas com um detalhe, tudo instrumental, e com fortes pitadas de Stoner. Curti muito ouvir Out of the Blue, principalmente " Luckily Dead", "Noman", "Russian" e a faixa-título. Para ser surpreendido, e conquistar o Top 10 da minha lista.


Supersoul - Faith Bender
Ouvi o Supersoul na finaleira do ano, bem daquelas do sem queres. Estava ocupado no trabalho, e não tinha percebido que tinha deixado o youtube selecionado no modo reprodução automática. Depois de curtir uma das minhas bandas preferidas de 2015 (Naxatras), entrou um riffzão setentista, uma voz carregada de efeitos e uma sonzeira animalesca. Meus ouvidos começaram a vibrar na frequência daquele som, e tive que parar o que estava fazendo para conferir o que era. Supersoul é outro power trio da Grécia, e nesse seu álbum de estreia, entrega aos fãs um som sujo, pesado, e repleto de energia. São 14 faixas, que fazem você sair de uma pancada violenta ("Faith Bender", "Freedom Prayer", "Mind Me When I'm Gone" e "The Manipulator") para faixas dançantes ("Gold") e até blues ballad hardona ("Came Back To Moscow"). "Blackhorse", "Jacob Williams" e "The Torment" soam modernas, mezzo White Stripes, mas ao mesmo tempo tem aquela veia de antiguidade, que agrada fácil. Como resistir as vocalizações do refrão de "Sea Of Tears"? Ainda temos espaço para a experimentação de "Carve My Stone", o blues elétrico "Wrong Side Of Suicide", a delicadeza de "Divine", enfim. Ótimo disco, e vida longa para o Supersoul. Ah, não engane-se com a capa, o álbum não é nada careta.


Electric Octopus - Driving Under The Influence Of Jams
Ano passado, o Electric Octopus entrou na minha lista de Melhores de 2016 com um álbum de uma hora e dez minutos, tendo apenas três canções. Pois em 2017, eles conseguiram fazer algo ainda melhor, mais delirante, e confesso, para poucos. Afinal, os caras vieram com uma fome do cão, e deixaram-se viajar por suas inspirações mais diversas para criar um álbum de 3 horas e 54 minutos somente de improvisos longos, viajantes, ácidos, chapantes, tudo o que você precisa para ficar naquele "barato" sem usar nenhum alucinógeno além da música. São nove faixas onde baixo e bateria (e camadas de teclados) criam a base para a guitarra de Tyrell Black ressonar maravilhosamente nas caixas de som. É voltar ao tempo dos longos improvisos de nomes como Grateful Dead, Allman Brothers, Canned Heat, e por aí vai. Um dos grandes momentos, para os mais chegados, é quando a base de "Walk on the Wild Side" (Lou Reed) surge para guiar as explorações de guitarra em "New Jam #2". Obviamente que um álbum dessa duração não é comum, e o mesmo foi lançado somente para download, mas olha, você não irá desperdiçar quatro horas ouvindo esse petardo. Pelo contrário, vai ver como ainda há músicos capazes de, com muita inspiração, usufruir de uma boa e bela jam. Aproveito também para indicar os outros três discos lançado pelo trio esse ano, Chaotic Wavemaker, Iliudi e Smokyhead, ambos igualmente acachapantes.



Universal Hippies - Dead Hippie's Revolution



Terceira banda grega, e essa segue os moldes clássicos do Stoner. Canções instrumentais, arrastadas, com solos de guitarra chapantes e muita viagem lisérgica. O que chama a atenção, além da mentalidade Stoner, é a influência hard rock, explícita nos riffs de guitarra e nos solos talhados a martelo para satisfazer os ouvintes. Procurem as faixas "Holy Slave", "Mariner's Dream", "Mountain", ou melhor, procure ouvir todo o álbum. Mais uma bela banda saindo da Terra de Zeus.


Menção honrosa

Robert Plant - Carry Fire


Cada novo lançamento da carreira de Plant mostra como o eterno vocalista do Led Zeppelin se reinventou de tal forma com o passar do tempo e continua capaz de alegrar os ouvidos dos fãs dos britânicos. Ouvi Carry Fire muito recentemente (o disco saiu em outubro) e por isso, não consegui colocá-lo numa posição acima dos demais, apesar de ele ter ficado um tempo nas minhas preferências. Nesse álbum, Plant buscou influências no seu passado hippie, e entregou canções belíssimas, tais como "New World" e o climão oriental da faixa-título. Temos a participação especial de Chrissie Hynde na viagem "Bluebirds Over the Mountain", e o som da The Sensational Space Shifters, que novamente acompanha Plant, com os elementos acústicos sensacionais, sendo o viola de Seth Lakeman e os violões de Justin Adams outras grandes atrações. Para quem curte Led Zeppelin III, "The May Queen" e "Carving Up the World Again... A Wall and Not a Fence" são uma macarronada com molho de calabresa, e "Season's Song" leva o prêmio de melhor canção de Carry Fire lindíssima e viajante através da voz de Plant. Belo disco, que merece ainda mais audições.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Melhores de 2016




Ano passado, na análise dos Melhores de 2015, tomei um esporro do colega Marco Gaspari que me deixou com muita vergonha. Realmente, nas sábias palavras do mestre siri, aquela lista era um aglomerado de velharias, com poucas novidades, que refletiam um pouco minha preguiça em procurar novos bons sons.

Determinado e obstinado a receber um elogio do meu querido amigo crustáceo, em 2016 dediquei muita atenção aos lançamentos que pipocavam quase semanalmente no youtube e no bandcamp. Cadastrei-me em alguns canais e no fim, fui surpreendido por uma gama de bandas novatas que estão fazendo um som de qualidade altíssima, nas mais variadas região de nosso planeta Terra.

Foi difícil fechar apenas 10 discos, por que temos muitos lançamentos bons, mas enfim, a regra é essa, e então, aqui vão os meus 10 mais de 2016, sendo que nos comentários, deixarei os outros discos que ouvi para que vocês possam ir atrás. Obrigado Marco, por me incentivar a ouvir novos bons sons, e espero que aprecie os discos a seguir.

Ah, um detalhe! dessa feita não irei trazer opiniões sobre decepções, lados negativos e outras coisas que complementaram minhas listas do passado. Afinal, depois da morte de David Bowie, nada pode ser pior.


Church of the Cosmic Skull - Is Satan Real?

Então você encontra uma imagem de um hepteto todo de branco com uma Flying V e um órgão. Olha o nome da banda e percebe que é algo tão psicódelico que nem a Califórnia podia criar algo assim. O nome do disco e as vestimentas sugerem algo religioso, e o arco-íris parece ressaltar o flower-power com ainda mais força. Daí decide ouvir "isso daí" e depara-se com um minuto de um solo de guitarra em crescendo apocalíptico, seguido de vocalizações entoadas em uníssono junto com o riff da guitarra, um órgão maravilhoso, uma melodia sensacional e grudenta, e quando vê, seu corpo está balançando no ritmo avassalador de "Mountain High". Sem perceber, você vai cantando as melodias vocais que saem das caixas de som, os arrepios vão tomando conta da sua pele, e aos poucos, você está se convertendo para a Igreja da Caveira Cósmica. O clima enigmático de "Black Slug", com um riffzão pesadíssimo, irá assustar aqueles que estavam encantados pela felicidade da faixa anterior, mas mesmo assim, a curiosidade irá fazer você seguir ouvindo, para entender aonde essa seita irá chegar. O órgão e o dedilhado de "Movements In The Sky" voltam a acalmar os ânimos, ainda mais com essas vocalizações tão belas, e quando o violão zeppeliano de "Answers In Your Soul" ecoam pela casa, bom, daí não tem jeito. É se ajoelhar e orar em Nome da Caveira por voltar ao final dos anos 60 vivendo em 2016. A união do órgão, baixo e guitarra na intrincada faixa-título trazem um pouco do melhor do  rock progressivo britânico, e "Watch It Grow" deixará você viciado na repetição do nome dessa faixa. Por fim, os onze minutos de " Evil In Your Eye" irão celebrar sua entrada para a Igreja sublimemente, em uma blues ballad que é a melhor faixa do álbum, sendo que o solo de órgão é para chorar em prantos em Nome da Caveira!. Não importa quem são os "pastores" dessa Igreja, o que importa é a lavagem cerebral que eles fazem com seus instrumentos e suas vozes. Um dos melhores discos dessa década - se não o melhor - e obrigado youtube por me apresentar essa jóia britânica.


David Bowie - ★

Só não foi o melhor disco de 2016 por que realmente, o Church of the Cosmic Skull me derrubou como os deputados da direita derrubaram a Dilma. O que eu precisava falar de principal sobre esse álbum está aqui. DISCAÇO, e ADEUS BOWIE, o Maior e Melhor Artista de Todos Os Tempos. 


Whoopie Cat - Whoopie Cat

Cara, sabe aquele disco de rock 'n' roll bem tocado, com solos de guitarra rasgados, vocais muito bons, cozinha azeitada, isso é Whoopie Cat, o primeiro lançamento do grupo, no formato EP, mas com 33 minutos de duração, o tempo médio dos vinis da década de 70, e é lá que a a banda foi buscar inspirações. Ela pode lembrar nomes incensados nos últimos anos, como Rival Sons ou até Blue Pills - principalmente quando em alguns momentos, mas a sonoridade dos Cats vai além disso. O quinteto de Melbourne faz um som que agrada todos os estilos, sendo que a mistura de elementos leves ("When She Goes") com outros pesados (ouça o solo do excelente guitarrista Jesse Juzwin na mesma faixa citada), atestados por um vocalista muito bom chamado Dan Smoo, e que rasga a garganta nas ótimas "Sun don't Shine", "When the Light" e "Taken My Money", nos remete direto às grandes bandas setentistas. Blues rock de primeira qualidade, com destaque principal para o bluesão "Amy Rose", e claro, para as sensacionais vocalizações de "As Long As I Can", grudentas como piche, e que para quem curte grupos tradicionais de Led Zeppelin a Black Crowes, sem firulas, apenas com feeling nas alturas, irá ser um deleite, pois o que não falta são solos inspirados e vocalizações sensacionais. Releve a capa e absorva o sulco desse EP/álbum incrível. Tomara que não fique só nesse.


Lee Van Cleef - Holy Smoke

Power trio italiano que nasceu no final do ano passado, e já nasceu com pompas de grandiosidade. Esse álbum é um desbunde sonoro de fascínio, que como a própria banda define, "dilata as fronteiras da consciência e libera a lucidez da medula da narcose". Os riffs da guitarra de Marco Adamo, vomitando wah-wah e muito peso, são magnéticos, impressionantes, levando-nos por escadas em espirais que atiçam a audição em cada degrau, até chegar no alto da escadaria com uma vista impressionante de uma montanha em chamas ardentes e, por que não, fumegantes de psicodelia. Faixas com durações na medida, sem serem longas demais ou curtas demais, e que mostram que ainda existem bandas capazes de criar um som diferenciado. Ouça a lindeza dos riffs de "Hell Malo", faça uma viagem ao deserto marroquino em "Towelie", curta a pureza angelical de "Heckle Yuppies", assuste-se com o andamento carregado de "Mahãna", e duvido você se segurar durante a reta final da excelente "Banshee", pois o que esse italiano toca na guitarra, pqp!!! Um dos álbuns mais originais que ouvi em 2016, e é o primeiro de uma série de álbuns instrumentais lançados neste ano que me encantaram profundamente,


The Spacelords - Liquid Sun

O quarteto alemão já havia me impressionado com o excepcional Synapse (2014), onde empregavam psicodelia e progressivo com muita gana e tesão, e o mesmo procede nesse disco. Três longas faixas que exalam um aroma lisérgico de um ácido extremamente chapante, capaz de literalmente derreter o Sol, e  tudo isso em pouco mais de quarenta e quatro minutos. A maior delas, "Black Hole", tem um clima soturno que te fará pensar e refletir muito sobre seu gosto musical após o término da mesma, sendo que particularmente eu me embasbaquei com ela, e percebi que o Metal está cada vez mais em baixa aqui em casa, por que o que esses caras fazem misturando peso, progressivo, criatividade e doses cavalares de alucinantes é para poucos. Um sonzão para colocar cada poro de seu corpo para suar, ainda mais com 21 minutos de duração. Antes, é impossível não mergulhar em um oceano de chá de cogumelos com os intergalácticos acordes psicodélicos dos teclados de Didi Holzner em "Liquid Sun" - que baita crescendo feito pelas notas repetidas hipnoticamente - e com a guitarra mais que afiada de Hazi Wettstein em "Spaceship Breakdown", uma embalada faixa com elementos sabbháticos uriaheepianos mas com muita psicodelia inglesa no meio, sendo isso apenas um aperitivo do majestoso banquete musical que os alemães fornecem para seu súditos, e que faria Robert Wyatt pular pelo quarto junto com a turma do Gong (eita mistura boa!). Segundo dos álbuns instrumentais, este tem o detalhe de ter elementos harmônicos muito bem feitos, principalmente para quem aprecia uma boa viagem lisérgica através da música .



Electric Octopus - This Is Our Culture

Um disco de uma hora e dez minutos com apenas três faixas, é praticamente tudo o que peço à Deus em termos de música, e é isso o que o trio britânico Electric Octopus nos entrega nesse belíssimo disco, o terceiro grande álbum instrumental que ouvi em 2016. As faixas ("Disenchanted Creative Response", com solos melódicos e muito ritmo, "Absent Minded Driving", com certeza a mais viajandona delas, e "Sundried Equivalence, um blues chapante para Eric Clapton lembrar que um dia ele tocou esse estilo) foram gravadas em apenas um único take, como forma de mostrar para os próprios músicos do que eles eram capazes, sem nenhum ensaio, e portanto, são regadas por longas e delirantes improvisações que permeiam desde o jazz rock até o mais complexo rock progressivo, sem soar pomposo, maçante, cansativo ou virtuosístico demais. Viajar com os solos de guitarra de Tyrrel Black, a levada endiabrada da bateria de Guy Hetherington e o baixão swingado de Dale Hughes foi uma das boas experiências que tive nesse ano, e ouvir This Is Our Culture seja como pano de fundo enquanto dirige por uma estrada ensolarada, seja acompanhado de um belo 12 anos e alguns petiscos, foi-me uma das experiências mais revigorantes nesse ano cansativo e turbulento de 2016. Recomendo também Under A Black Moon, o EP na mesma linha desse álbum, que saiu em outubro desse ano, e o ótimo Be Real, álbum lançado mês passado, com Hughes também explorando com propriedade os teclados, tão bons quanto este que selecionei para minha lista de 10 mais.


1000mods - Repeated Exposure To...

Quando o baixo de Dani G. explodiu nas caixas de som do meu computador, meu queixo foi até o inferno, e lá, encontrou algumas dezenas de ídolos do rock 'n' roll, bebendo cerveja, comendo uma boa costela e celebrando o quarto álbum de uma bandaça. O som do grupo apresenta fortes influências stoner, só que não é uma cópia ou similaridade de nada que você possa lembrar. O baixo - que coisa maravilhosa nós ouvimos em "The Son", para mim a melhor do disco - e as vocalizações - sensacional o arranjo vocal de "Groundhog Day" - são os maiores destaques em um disco muito bem trabalhado e produzido. Duvido que você adivinhe da onde a banda é - tá bom, vou entregar, os caras são gregos!! Entregue-se ao feitiço dos oito minutos de "Into the Spell" (que clichê), absorva um show de wah-wah em "Loose" e "A.W.", e no geral, deixe o 1000mods apresentar um som poderoso, moderno, impactante e muito, muito grudento. Mergulhei na discografia da banda e me encantei. É promessa de DC no segundo semestre do ano que vem. A frase estampada na capa do disco diz tudo: "“repeated exposure to high sound levels (more than 80 decibels) might cause permanent impairment of hearing”. Para quebrar pescoços e joelhos!!!



Native Daughters - Master Manipulator

Esse disco eu ouvi pela primeira vez por conta da capa, e a partir do momento que a música começou a rolar, foi uma paixão a primeira ouvida. O quarto grande disco todo instrumental de 2016 é uma viagem sonora provocada por viradas de bateria intensas, já que temos uma dupla de baterias sendo apresentadas ao ouvinte, notas climáticas de guitarra e surpreendentes despejamento de peso no meio de uma delirante e hipnótica camada de música ambiente, me lembrando bastante o fantástico grupo Isis. Um disco envolvente, principalmente para quem quer ser surpreendido, destacando as faixas "UninVAIted", música sensacional, repleta de mudanças de andamento, a trabalhada e maluquete "Duke", para arrepiar os cabelos do dedão do pé, e principalmente, "Happy New Year, Nurse", uma apropriada canção para esse fim de ano que é uma pancada lindíssima nos ouvidos macios dos metaleiros que acharam o novo disco do Metallica de sensacional para cima. Bela descoberta!!


Suicidal Tendencies - World Gone Mad

Em um ano tão maluco como foi 2016, esse foi o melhor título de álbum, e das velharias, o que mais gostei depois do Bowie. Cara, como o Lombardo é um monstro na bateria, independente do estilo que ele toque, e como se encaixou bem ao som do Suicidal. A banda apresenta um metal pegadão, mantendo suas características ligadas ao hardcore e ao crossover, mas de alguma forma, esse disco me atingiu positivamente que eu passei semanas ouvindo ele. A homenagem para Ozzy em "Clap Like Ozzy" é sensacional. Além desta, destaco também as três faixas longas que o grupo registrou, as quais são "Happy Never After", "The New Degeneration" e "Still Dying to Live", essa diferente de tudo o que já tinha ouvido do Suicidal antes, bem melódica e embriagantemente linda, bem como "One Finger Salute" (que baita título, e Ra Díaz destruindo no baixo) e a espantosa levada acústica de "This World". World Gone Mad é um show de solos rasgados e velozes por Dean Pleasants, e pena que, segundo o vocalista Mike Muir, talvez seja o último álbum da banda, pois esse trabalho mostra que os velhinhos ainda tem muita lenha para queimar.


Atlas - Death & Fear

O som que sai das caixas durante a audição de Death & Fear é um bálsamo stoner viajante para não se colocar defeito, com um diferencial, os vocais. Distorções ao máximo unem-se aos arranjos vocais muito bem elaborados pelo quarteto sueco. É desse tipo de banda que eu tenho curtido ouvir atualmente em se tratando de novidades, ou seja, uma banda que carrega as fortes referências do melhor do rock pesado do passado, mas trazendo elementos criativos que tornam suas músicas criações próprias. Confira a intrincação da ótima faixa de abertura, "Wermland" e sinta o que estou afirmando nessas linhas, mas se você quer ir direto apreciar a cereja do bolo, delicie-se com o espetáculo sonoro de "A Waltz". Vários discos poderiam estar ocupando essa décima posição, mas ouvindo Death & Fear mais uma vez, tenho certeza que fiz a escolha certa.
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